Sexta-feira, Maio 10, 2013

Eurosondagem, 2-8 maio, N=1009, Tel.

PS: 36% (+1)
PSD: 25.9% (-0.6)
CDU: 12.1 (-0.4)
BE: 8.8% (+0.3)
CDS-PP: 8.4% (-0.1)

Aqui.

Como votam os trabalhadores do Estado?

A propósito dos posts anteriores sobre o peso dos pensionistas no eleitorado, lembrei-me de revisitar as mesmas bases de dados para responder à pergunta do título. Estes inquéritos perguntam qual o sector da actividade em que os respondentes trabalham e, quando casados ou vivendo com um parceiro, qual o sector de actividade dele/dela. Se consideramos as duas situações como relevantes para identificar o eleitorado dos "trabalhadores do estado", verificamos que as percentagens das amostras (que são representativas da população portuguesa residente no Continente com 18 ou mais anos) de "trabalhadores do estado" é bastante estável:

2002: 17%
2005: 20%
2009: 21%
2011: 19%

Entre aqueles que disseram ter votado na última eleição, em que partido dizem ter votado? Os gráficos seguintes mostram a comparação entre o comportamento de voto declarado dos trabalhadores do Estado e a distribuição total de votos no Continente. A preto, os trabalhadores do Estado. Tudo isto tem, por lidarmos com amostras, margens de erro associadas, etc, etc, etc, por isso cuidado. Mas vamos lá.





Duas ideias. Primeiro, os trabalhadores do Estado não são uma manada que vota toda no mesmo partido. É possível que, se os diferenciássemos internamente (quadros superiores, por instrução, por idade, vínculo, sindicalização, etc), encontrássemos aqui situações diferentes. Mas o ponto geral é mesmo esse: são heterogéneos social e politicamente, e de resto não se distribuem de forma excessivamente diferente do resto da população. Se fossem só os funcionários públicos a votar, talvez o PS tivesse ganho por pouco em 2002 (em vez de perder por pouco) e as eleições de 2009 talvez tivessem sido mais renhidas. A CDU tem bom desempenho, previsivelmente. Mas não há, até 2009, grandes sobressaltos.

Mas 2011 é, novamente, especial. Em 2009, o PS já tinha sofrido um pouco junto dos trabalhadores do Estado e em 2011 voltou a ter mau desempenho, sem surpresa, tendo em conta os primeiros PEC's, se quisermos ver as coisas assim. Mas o PSD, tendo ganho as eleições em 2011, teve igualmente uma má prestação. Pelo contrário, são os partidos mais pequenos que tiveram um desempenho eleitoral particularmente bom junto dos trabalhadores do Estado (e daqueles que com eles vivem).

Visto por outro ângulo, em 2011, os trabalhadores do Estado representam apenas 15% do eleitorado do PSD ou do PS. Parte da possível recuperação do PS estará na capacidade para reconquistar apoio junto deste contigente. A não ser que o CDS se torne o partido dominante junto dos trabalhadores do sector privado e dos pequenos comerciantes, parte da sua sobrevivência estará certamente na capacidade de manter estas pessoas, o que por estes dias deve dar umas enxaquecas tremendas para os lados do Caldas e das Necessidades. Já o PSD parece ter ganho as eleições sem ter necessitado muito deste eleitorado, o que de resto se nota bem na sua prática e discurso político. Resta saber quantos destes 27% de trabalhadores do Estado que nele votaram em 2011 estará o PSD capaz de perder. 5% 10%? 20% Mais? Se isto for mesmo assim como é aqui explicado, acho que não podemos excluir nada.

Mais do "efeito Draghi"

Um comentário recebido por e-mail:

"Relativamente à questão das aparentes incoerências entre a evolução das taxas de juro dos países em dificuldades e a sua explicação como resultado da intervenção do BCE, parece-me que, embora não seja linear, detecta-se claramente os seguintes efeitos, como se pode observar no quadro que anexo:


Primeiro temos a intervenção de Dezembro de 2011 que marca a estabilização dos juros, que estavam em trajectória ascendente, e é um ponto de viragem das tendências, não só de Portugal e Grécia, como Itália e Espanha, embora estes últimos menos evidentes por não existir uma tendência clara de subida antes da intervenção e posteriormente não se observar a descida dos juros, até porque ainda não tido oportunidade de subir significativamente. A segunda intervenção inverte a nova tendência de subida de Espanha e Itália e podemos especular que reforça a tendência de descida de Portugal e Espanha. No global temos que as intervenções resultam na eliminação significativa, entretanto criada, dos diferenciais de taxas entre os países.

PS: Relativamente à Irlanda a inversão da tendência está certamente relacionada com a decisão da UE, em julho de 2011, de cortar os juros cobrados à Irlanda em mais de 2%. Se não estou em erro também com extensão de maturidades."

E um novo post no Ladrão de Bicicletas.

Quarta-feira, Maio 08, 2013

O efeito Mario Draghi

 






























Desculpem lá meter-me num assunto de que não percebo nada, estando - em tudo, mas especialmente aqui - disponível para ser corrigido. Mas no Ladrões de Bicicletas, Nuno Serra explica que as tendências de descida das taxas de juro a 10 anos se devem a um "efeito Mário Draghi", e dá como exemplo os casos acima. Ora isto confunde-me. Mário Draghi é presidente do ECB desde 1 de Novembro de 2011. Se tomarmos esta data como referência (não creio que seja essa a ideia, mas comecemos por aqui), por que razão começaram as taxas na Irlanda a descer de forma mais ou menos contínua muito antes disso, as portuguesas a partir de Fevereiro de 2012, as gregas a partir de Junho de 2012 e as espanholas a partir de Julho de 2012? Mas se, como depreendo da ligação a este post, é o anúncio de Draghi de que o ECB faria tudo para salvar o Euro que contou, por que razão começaram os juros a descer antes (Portugal) e muito antes (Irlanda) disso? Gostava de perceber melhor este "efeito Mario Draghi".

Os pensionistas nos eleitorados

A pedido de várias famílias (a pedido de uma, pronto), o peso dos pensionistas nos eleitorados dos 5 maiores partidos:

Talvez o mais fácil será dizer que há um partido que não é o partido dos pensionistas: o BE, naturalmente (se bem que, para 2009 e 2011, a estimativa pontual seja superior à de eleições anteriores). Talvez também valha a pena dizer que, em 2009 e 2011, o peso dos pensionistas no eleitorado da CDU foi claramente superior (mas o natural é que peso dos pensionistas venha aumentando no eleitorado de todos os partidos, seja por razões demográficas seja por diminuição da participação dos mais jovens). Os resultados para o CDS em 2011 tornam-se assim ainda mais intrigantes.

O partido dos pensionistas

Bruno Faria Lopes, jornalista do Diário Económico, telefonou-me com uma pergunta interessante: será o CDS o "partido dos pensionistas"? Mais concretamente: que dados haveria sobre o comportamento de voto dos pensionistas e sobre a composição do eleitorado do CDS que pudessem sustentar essa ideia? Desde 2002, o ICS conduz inquéritos pós-eleitorais nas legislativas, no âmbito do programa Comportamento Eleitoral dos Portugueses. Para este fim, três perguntas desses inquéritos são relevantes:

D6. Qual é a sua situação profissional actual? Uma das opções é "Reformado" e a outra é "Invalidez Permanente". Agregando-as, não devemos ficar muito longe de representar o universo dos "pensionistas".

P46. Em relação às Legislativas de 20XX, qual das seguintes situações é adequada ao seu caso?
P47. Importa-se de me dizer em que partido/coligação votou nessas eleições legislativas de 20XX?
Com estas duas perguntas, ficamos primeiro a saber se o inquirido votou e, para quem responde afirmativamente, em quem votou.

O gráfico seguinte mostra a percentagem dos que dizem ter votado no CDS-PP em 2002, 2005, 2009 e 2011 que afirmaram ser pensionistas. Por outras palavras, mostra o peso dos pensionistas na composição do eleitorado do partido. Para fins de comparação, junto os mesmos dados para o PSD. Em inquéritos que têm amostras que, no máximo (2005), chegaram a 2.300 inquiridos, as sub-amostras daqueles que dizem ter votado no CDS são naturalmente pequenas. Logo, a margem de erro associada a estas percentagens é especialmente grande para o CDS. No gráfico, os intervalos de confiança (Wald ajustados) encontram-se expressos em barras de erro:














A primeira coisa interessante é que parece não haver razão para designarmos o CDS como "o partido dos pensionistas". O CDS não está especialmente dependente dos pensionistas para compôr o seu eleitorado, pelo menos em comparação com o PSD. De 2002 a 2009, apesar de umas barras serem mais altas que as outras,  a sobreposição dos intervalos de confiança mostra que não há diferenças significativas entre os dois partidos deste ponto de vista.

A segunda coisa interessante passa-se em 2011. É a única eleição em que há diferenças significativas entre o peso dos pensionistas nos eleitorados dos dois partidos. Mas essa diferença vai no sentido porventura oposto às expectativas: os pensionistas são uma parte maior do eleitorado do PSD que do CDS.

Não tenho explicação para esta diferença em 2011, e não podemos excluir uma anomalia qualquer nos resultados. Mas a serem verdadeiros, sugerem uma coisa interessante: as posições recentes do CDS sobre temas que interessam aos pensionistas, a servirem para alguma coisa, não servem para manter esse apoio, mas sim para o recuperar.

É certo que o comportamento de voto é determinado por muitas coisas, algumas delas desligadas das circunstâncias concretas da vida das pessoas. Sabemos, por exemplo, que a percepção que as pessoas fazem da economia do país tem um peso muito maior no comportamento de voto que a percepção da sua situação financeira concreta, pelo que não convém exagerar o peso que estes apelos possam ter. De resto, o próprio facto de o CDS não ser nem nunca ter sido "o partido dos pensionistas" é suficientemente indicativo de que a imagem e o discurso dos partidos não tem necessariamente uma tradução directa na composição do seu eleitorado.

Dito isto, o facto do PSD ter acordado com o CDS que o segundo se poderia posicionar desta forma à sua custa parece, mesmo assim, algo arriscado do ponto de vista eleitoral. Apesar de haver dúvidas sobre o número de eleitores recenseados com real capacidade para votar, é provável que os 3 milhões de pensionistas correspondam a cerca de um terço da totalidade do eleitorado. E outra coisa que os dados dos inquéritos mostram é que a percentagem de abstenção entre os pensionistas é sempre inferior à média, fruto da bem conhecida correlação entre a idade e a participação eleitoral.

Sábado, Maio 04, 2013

Os exames do 4º ano

Fiz a 15 de Abril passado uma queixa ao Provedor de Justiça sobre a realização de exames do 4º ano fora das escolas dos alunos. Já tive resposta do Provedor-Adjunto. Não a transcrevo aqui inteiramente, porque acho que não o devo fazer numa carta que me é dirigida. Mas queria notar algumas coisas:

1. A Norma 2/JNE/2013, cuja versão definitiva é de 24 de Abril, prevê o acompanhamento dos alunos por “professores e assistentes operacionais das escolas de origem”, quer nos procedimentos de entrada e orientação para as salas, quer durante o intervalo.

2. O Provedor-Adjunto adianta também que, apesar de não estar na Norma, foi-lhe comunicado que "as turmas de origem não serão, por regra, desfeitas para a realização das provas de exame, estando assim garantido que os alunos não se verão rodeados por caras desconhecidas, mas sim pelas dos respetivos colegas do ano que ora finda (e, presumivelmente, dos 4 anos de escolaridade já frequentados), bem como do seu professor, nos termos acima descritos." Importa confirmar se isso será mesmo assim, dado que as informações originais não apontavam para nada disto. Espero mesmo que se confirme.

3. Enviou também uma carta ao Júri Nacional de Exames com várias recomendações.

Continuo a não ser contra a existência de exames, continuo a achar que há um inimaginável excesso de zelo e regras irracionais na gestão deste processo (pelo menos no que toca às crianças do 4º ano) e pondero fazer nova queixa ao Provedor se o meu filho for obrigado a este completo absurdo. Mas registo algum esforço - a confirmar pela prática - do Júri Nacional de Exames para mitigar algumas das consequências mais negativas deste processo em comparação com o que estava previsto inicialmente. E é bom ver como o Provedor de Justiça, dentro das suas competências limitadas e circunscritas, é uma instituição que funciona bem e responde em tempo útil. Assim fossem todas.

Sexta-feira, Abril 26, 2013

Pitagórica, 17-20 abril, N=503, Tel.

PS: 28.6% (-8.1)
PSD: 26.9% (+1.2)
CDU: 12.8% (+1.6)
CDS-PP: 12% (+1.4)
BE: 8.7% (+0.8)

Entre parêntesis, comparação com sondagem de Março. Aqui.

P.S.- Há quem tenha reparado que a notícia contém a seguinte frase: "Com este resultado, o CDS é o segundo partido da oposição que mais reforça a sua posição eleitoral, a seguir à CDU."

Quarta-feira, Abril 17, 2013

Mais sobre os exames do 1º ciclo

Este post de Paulo Guinote no A educação do meu umbigo e os comentários ao próprio post.

Terça-feira, Abril 16, 2013

Catch-22

O famoso livro Catch-22, de Joseph Heller, passado na II Guerra Mundial na base aérea de Pianosa, Itália, tornou-se especialmente conhecido por descrever uma situação paradoxal. Há um aviador que quer ser isentado de fazer missões de combate. Para tal, tem de requerer um exame médico que o diagnostique como não estando na posse das suas capacidades mentais. Contudo, se o aviador requerer exame médico para esse fim, então é evidente que está na posse das suas capacidades mentais. Logo, tem de continuar a fazer missões de combate.

O post anterior, sobre os exames do 4º ano, teve uma evolução. Na escola do meu filho mais velho, como só tem o 1º ciclo, e como as provas têm de ser vigiadas por professores de outros ciclos, para poupar os miúdos a fazerem o exame numa escola que nunca viram e também evitar muitas manhãs de trabalho perdidas aos pais, estes e a escola decidiram juntar-se para pagar a dois professores de 2º e 3º ciclo, externos, para fazerem a vigilância em regime de prestação de serviço.

A escola fez esta proposta às autoridades competentes (por enquanto, ainda sem nomes). Eis a resposta do servidor público em causa:

"Em referência ao vosso pedido de esclarecimento informa-se V. Exas. que, tendo em consideração que os referidos professores a contratar (2º e 3 ciclos) não exercem a sua função educativa no vosso estabelecimento de ensino, não poderão assegurar a vigilância das provas."

Temos então que:

1. As provas têm de ser vigiadas por professores da escola que não sejam do mesmo ciclo.
2. Nas escolas que só tenham um ciclo, não há professores de outro ciclo.
3. Logo, para serem vigiados por professores de outro ciclo, teriam de vir professores de outras escolas.
4. Mas como os exames têm de ser vigiados por "professores da escola que não sejam do mesmo ciclo", professores de outras escolas não podem vigiar o exame (mesmo que pagos pelos pais e pela escola).

Joseph Heller voou 60 missões de combate num bombardeiro na frente italiana. Mas se tivesse lidado com o Ministério da Educação de Portugal teria podido escrever Catch-22 na mesma.

Domingo, Abril 14, 2013

Como tratar malfeitores de 10 anos

Ao que parece, para os exames de Matemática e Língua Portuguesa do 1º ciclo (1ª fase a 7 e 10 de maio, 2ª fase a 9 e 12 de julho), as regras aprovadas pelo Ministério da Educação para o funcionamento das provas a prestar por estes terríveis malfeitores de 10 anos de idade incluem:

1. A presença obrigatória de dois professores, que;

2. Não podem ser do mesmo "grupo de docência" (ou seja, se bem entendo, não podem ser nem de português nem de matemática). Isto é bom, porque como sabemos professores de Estudo do Meio e de Educação Física não sabem o que é o pretérito perfeito nem que 2/4 é igual a 0,5 e assim não podem ajudar os miúdos no exame.

 3. Também não podem ser do mesmo ciclo, o que certamente aumenta a integridade do processo, porque como sabemos os professores de Geografia do 11º ano ou de História do 7º não fazem a mais pequena ideia sobre como se calculam áreas nem sobre quantos lados tem um triângulo, e assim não podem ajudar os miúdos a fazer batota neste momento absolutamente crucial de avaliação do seu percurso escolar.

A consequência deste rigoroso dispositivo de segurança é simples: em escolas onde só haja o 1º ciclo, os tais miúdos (já vos tinha dito que têm 10 anos?) têm de se deslocar a outra escola onde haja professores de outros grupos de docência e de outros ciclos para lhes vigiarem os exames, onde serão sentados por ordem, presumo, alfabética, em salas onde nunca estiveram e sob a feroz vigilância de professores que nunca viram mais gordos, uma coisa mais ou menos parecida com a minha inspecção militar no Quartel de Santa Clara em Coimbra, com a diferença de que aí os tropas nos berraram as respostas aos testes psicotécnicos para haver a certeza absoluta de que ninguém ficava inapto.

Mesmo assumindo que este dispositivo de segurança faria alguma espécie de sentido para miúdos desta idade - uma assunção heróica - sempre haveria a hipótese de fazer com que os professores externos se deslocassem às escolas em vez de serem os miúdos a fazê-lo. Mas reconheçamos que isso privaria o país de milhares de pais a perderem manhãs de trabalho nos dias desses exames, evitaria que houvesse desigualdades entre crianças que frequentam escolas só com 1º ciclo e as outras (que podem fazer o exame na própria escola), e daria até a imagem de que no Ministério da Educação alguém teria pensado sobre as consequências destas regras, e é evidente que não queremos nada disto.