terça-feira, fevereiro 22, 2005

Adenda ao rescaldo: só para fanáticos

Para se ver como as coisas são, bastou o apuramento de três freguesias em falta para que o ranking das sondagens pré-eleitorais ficasse ligeiramente modificado. Nada disto é especialmente importante, mas a bem da precisão, uma correcção a este post:

1. A média dos desvios absolutos entre os resultados mais baixa encontrada nas sete sondagens é de 0,7%, e pertence à Eurosondagem e à Intercampus. A primeira acertou quase em cheio na percentagem do PS, da CDU e do BE, e apenas sobrestimou claramente o PSD. A segunda acertou quase em cheio na CDU e no CDS, e teve erros baixos nos restantes. Seguiram-se, por ordem crescente de erro médio, a Aximage (0,8%), o IPOM (1,0%), a Católica (1,1%) e finalmente, empatadas, a Marktest e a Euroteste (1,2%).

2. Quanto ao segundo critério normalmente usado (margem de vitória), quem mais se aproximou foi o IPOM (16%, contra os 16,2% reais). Seguem-se a Intercampus (15,6%), a Aximage (17,2%), a Católica (15%), a Eurosondagem (14%), a Marktest (19,2%) e a Euroteste (12%).

Isto é, repito, só mesmo para fanáticos. E para os que aí andam, que eu sei que andam, prometo fazer o quadro final assim que houver resultados eleitorais definitivos.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Até breve

Desde o dia 6 de Janeiro, este blogue teve 36.000 visitas e 57.000 page views. Não percebo muito disto, mas dizem-me que não é nada mau. O objectivo era simples: dizer aqui, sobre as sondagens, o que raramente se pode dizer noutros meios de comunicação. Discutir resultados e métodos, chamar a atenção para limitações, descobrir o que as sondagens dizem e (especialmente) o que não dizem. Espero que tenha sido útil.

Mas o melhor de tudo não foi o que aqui dei, mas sim o que recebi. As mensagens que me chegaram e os posts noutros blogues a propósito do que aqui se escreveu levantaram-me problemas em que nunca tinha pensado. Obrigado a todos.

Dito isto, este blogue não acaba aqui. Há sondagens e questões à volta da opinião pública para discutir para além das eleições. Vai simplesmente passar para um ritmo mais lento (pelo menos até Outubro!). Até breve.

A Católica

Não estou nada infeliz, mas também já tive dias melhores. Nas Presidenciais de 2001, Legislativas de 2002 e Europeias de 2004, as sondagens pré-eleitorais da Católica tinham tido os menores desvios médios em relação aos resultados finais. Nas sondagens de boca das urnas, continuamos a nossa amistosa competição com a Intercampus (nós os mais precisos nas Presidenciais de 2001, eles nas Legislativas de 2002, nós nas Europeias de 2004, e eles agora). Mas a nossa sondagem pré-eleitoral, desta vez, pecou por excesso no BE e por defeito no CDS. Pode ser fruto do acaso, tendo em conta o erro amostral. Mas não estou convencido. Parabéns a quem esteve mais perto e, nós, de volta para o drawing board a ver o que correu menos bem e como se pode fazer melhor.

Rescaldo da "mega-fraude"

Aqui, tinha dito que as sondagens publicadas antes destas eleições eram as que menos se distinguiam entre si, pelo menos desde 1991, ficando em aberto a questão se saber se estavam todas igualmente "erradas" ou, no fundamental, igualmente "certas". A questão já tem resposta: as sondagens de 2005 foram as mais precisas alguma vez conduzidas na história da democracia portuguesa.



A "média dos desvios absolutos médios" entre os resultados eleitorais e as estimativas apresentadas pelas sondagens é a menor de sempre: 1% (com Aximage, Eurosondagem e Intercampus com apenas 0,8%). A margem de vitória do PS foi, em média, subestimada em 1,8%, também o menor valor de sempre (sendo que o IPOM a sobrestimou em apenas 0,3%). Afinal, o maior erro destas sondagens pré-eleitorais foi o de terem, em média, sobrestimado o PSD em 1,3%. Ironias do destino.

Deste ponto de vista, as sondagens à boca das urnas divulgadas às 20.0hh desiludem um pouco. Se tomarmos o ponto central de cada um dos intervalos apresentados como representando a "melhor estimativa", quase que se poderia dizer que foram menos precisas que as sondagens de véspera: a "média dos desvios absolutos médios" foi de 1,2% (Intercampus, 0,6%; Católica, 1,2%; Eurosondagem, 1,8%), enquanto que a margem de vitória do PS foi, desta vez, sobrestimada por todos (em média, 4,3%, com a Eurosondagem a sobrestimá-la em 7,3%).

Seria muito importante, aliás, que se reflectisse sobre o efeito que as acusações que foram feitas às sondagens tiveram na subestimação do eleitorado do PSD nas sondagens à boca das urnas, se é que tiveram algum. Quando um líder de um partido acusa colectivamente todas as empresas de sondagens de estarem envolvidas numa "mega fraude", é apenas natural que muitos eleitores desse partido se recusem a colaborar com essas empresas, especialmente quando a escolha dos inquiridos deixa de ser aleatória e passa a depender mais de algum voluntarismo na colaboração à saída dos locais de voto. As consequências mais graves deste tipo de acusações ficam para quem as faz, e a melhor resposta que se pode dar está nos resultados. Mas os institutos também são afectados por estas acusações, não só no que respeita às eleições, mas também em relação a todo um mundo de estudos académicos, de opinião e de mercado. Fazer sondagens depende crucialmente da colaboração dos inquiridos, e houve danos causados pelas afirmações de Santana Lopes que, sendo difíceis de estimar, são certamente reais.

As dúvidas existenciais estão também esclarecidas:

1. Houve maioria absoluta, tal como previsto por seis das sete sondagens. Podia não ter havido, claro. Mas parece-me que, como aqui sugeri, o aumento da participação ajudou. Assim, em grande medida, passou-se o oposto do que tinha sucedido em 1999.

2. Fim da "subestimação do CDS". Duas sondagens subestimaram o CDS, as restantes sobrestimaram-no, e nuns e noutros casos em valores inferiores às margens de erro amostral associadas a cada estimativa.

3. Possível sobrestimação do BE: todos apanharam a subida acentuada do Bloco, uns subestimando-a ligeiramente, outros sobrestimando-a, mas em todos os casos, também dentro da margem de erro amostral associada às estimativas.

Em resumo: continua a tendência de melhoria da precisão das estimativas apresentadas pelas sondagens. Amostras de maiores dimensões, maior esforço em detectar votantes prováveis, baixa da abstenção, quase tudo ajudou.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Período de reflexão

E chega de sondagens. Agora é a hora de tomar decisões.

Dúvidas existenciais (terceira)

O crescimento do BE. Estou um bocado cansado, pelo que vou ser sintético.

1. Em relação ao que teve em 2002, acho que restam poucas dúvidas que o BE vai crescer bastante em termos proporcionais.

2. Como disse sobre a CDU e o CDS-PP, a questão da "ordem relativa" dos partidos é uma questão a que, na verdade, as sondagens não estão a responder, nem podem.

3. Dito isto, acho que há três riscos bem presentes de sobrestimação:
- sobrevalorização do eleitorado urbano;
- não tomar em conta que, nos círculos mais pequenos, os eleitores têm de ser mais estratégicos para eleger deputados e que, logo, podem abandonar o BE à última hora;
- a possibilidade de que as intenções de voto recolhidas sejam meramente "expressivas" e de "protesto" e que, logo, não se realizem no dia das eleições, especialmente entre os eleitores mais jovens.

4. Mas dito isto, mais uma vez: quando as teorias são pouco sólidas, o melhor é ignorá-las e dar o resultado que a amostradeu. O resto são palpites, que podem ou não funcionar. Mas se queremos prever resultados com palpites o melhor é deixar de fazer sondagens.

Dúvidas existenciais (segunda)

O CDS-PP e a CDU. Estou ciente da surpresa causada pelo facto de o CDS-PP aparecer, em todas as sondagens, com resultados inferiores aos das eleições de 2002. Pelo facto de, em quatro das sete sondagens, o CDS-PP aparecer com resultados iguais ou inferiores aos da CDU. E ainda mais ciente do choque causado pelo facto do CDS-PP surgir em duas sondagens como o 5ª partido.

Sobre isto, algumas notas:

1. Estas "posições relativas" dos partidos geram notícias de jornal, tais como aquelas que são motivadas pela "maioria absoluta" (conclusão que, como espero que tenha ficado do post anterior, é ilegítima, ou pelo menos tão ilegítima como o seu contrário). Mas queria notar, sem querer outra vez ser excessivamente defensivo, que a mais baixa margem de erro amostral associada por qualquer uma destas sondagens à estimativa de um ou outro partido é de + ou - 0,7% (outra vez Católica, estimativa do CDS, 6%). Façam as contas e verão como, pura e simplesmente na base do erro amostral, nenhuma sondagem diz que partido estava à frente nas intenções de voto quando a sondagem foi conduzida, o CDS-PP ou a CDU. Elas dizem apenas o que encontraram na amostra. Mas na inferência da amostra para a realidade, nenhuma está de facto a medir uma diferença estatisticamente significativa entre o CDS-PP e a CDU. Em rigor, eles estão empatados, em todas as sondagens.

2. Estou também ciente - e o Dr. Paulo Portas faz sempre questão de o recordar - que CDS-PP tem sido desvalorizado por todas as sondagens desde 1999. E estou convicto que, tal como sugeri aqui e aqui, alguns institutos estão a tomar isso em conta nos resultados que estão a fornecer.

3. Mas noto com surpresa já aqui mencionada, que as sondagens telefónicas estão desta vez a dar mais (e não menos) expressão eleitoral ao CDS (8%, contra 7% das presenciais e com simulação de voto), facto que parece destruir a teoria da subestimação causada por subestimação do voto rural ou voto oculto.

4. Logo, se assim é, creio que o melhor é não ter quaisquer teorias. O melhor é confiar nos resultados que surgem da amostra, e pronto. Depois, logo se vê.

5. E dito isto, sem querer substituir teorias destruídas com novas teorias construídas ad hoc, ficam duas perguntas:
- será que é compensador a um partido, que cresceu eleitoralmente na base da captação de um eleitorado conservador, composto de uma singular mistura de elites económicas e eleitores socialmente desfavorecidos, começar a fazer de conta que é um partido "moderado", "de governo", "centrista" e da "classe média"?
- será que um partido, mesmo que parceiro menor de uma coligação, consegue escapar incólume à participação no governo mais impopular de que há memória?

Veremos.

Dúvidas existenciais (primeira)

Num post anterior, escrevi que "há várias questões cuja resposta, creio, não é dada por nenhuma destas sondagens com qualquer razoável margem de confiança:

1. Maioria absoluta ou não;
2. Margem de vitória;
3. Posição relativa CDS/CDU;
4. Dimensão da subida do BE em relação a 2002."

Ora bem. Para além do que possa ter a ver com o futuro de Santana Lopes, a margem de vitória tem uma importância relativa, excepto na medida em que se relaciona com os ponto 1 e 3 (em particular na relação de votos PSD-CDS/PP).

Ficamos assim com três questões fundamentais. Questões para as quais, lamento, estas sondagens não dão respostas definitivas. Vamos à primeira.

Maioria absoluta? Os resultados apresentados oscilam entre os 43% e os 47%. Por assim dizer, entre maioria relativa e maioria absoluta. Para além disso, mesmo que tenhamos uma crença especial na capacidade de uma sondagem em particular para estimar resultados, a margem de erro amostral associada a cada uma delas faz com que seja difícil responder à questão. Tomemos aquela em que eu acredito mais, ou seja (surprise) a da Católica. É preciso recordarmos que a estimativa de 46% significa, tomando em conta a margem de erro amostral, um valor entre 44,6% e 47,4%. Ou seja, potencialmente, a diferença entre a maioria relativa e a maioria absoluta. Para as restantes sondagens, com amostras menores, o problema, por maioria de razão, também existe. E o seu trabalho de campo foi realizado, na maioria dos casos, uma semana antes das eleições. E há, pelo menos na sondagem da Católica, 12% de indecisos.

Logo, não se sabe se haverá ou não maioria absoluta. Ou melhor: nem sequer é possível dizer se, no momento em que se fez o trabalho de campo, haveria ou não uma maioria absoluta. Não pensem que estou a ser propositadamente defensivo, a proteger as sondagens de possíveis "fracassos" ou coisa parecida. É preciso perceber que as sondagens têm limites. Um deles é este.

Dito isto, o meu palpite, se tivesse mesmo de dar um, é o seguinte: se a abstenção descer significativamente, o PS chega lá. A razão está aqui.

Discrepâncias na Aximage?

Via Blogouve-se:

"Coisas que fascinam (o regresso)
A mesma sondagem (pelo menos com a mesma ficha técnica) aparece hoje no Jornal de Negócios e no Correio da Manhã... mas com resultados diferentes!Na ficha do Correio da Manhã diz-se: "REALIZAÇÃO 12 a 16 de Feveiro, para o Correio da Manhã pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá e Luís Reto". No Jornal de Negócios (que não está on line) a ficha técnica diz: "REALIZAÇÃO 12 a 16 de Feveiro, para o Correio da Manhã/Jornal de Negócios pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá e Luís Reto".

Mas o mais surpreendente é mesmo a diferença nos resultados:

No Correio da Manhã:
PS 45,4
PSD 28
CDU 6,8
PP 6,7
BE 5,2

No Jornal de Negócios:
PS 46,8
PSD 29,6
CDU 7,0
PP 7,3
BE 5,5

E agora?"

Ora bem, está explicado (até certo ponto) no Correio da Manhã. Segundo a Aximage, o segundo conjunto de estimativas resulta de "distribuição de indecisos de acordo com o modelo probabilístico construído a partir das respostas a perguntas especificamente dirigidas a indecisos em que lhes foram apresentados cenários de voto".

Interlúdio

Por razões que desconheço nem quero conhecer, o sitemeter indica-me que um dos sites através do qual se acedeu a este blogue foi este. Não podia ser mais apropriado.

Os "efeitos" da campanha

Média das 5 sondagens publicadas entre 27/1 e 29/1:

PS:45%
PSD:31%
CDU:7%
CDS:7%
BE:7%

Média das sondagens publicadas entre 17/2 e 18/2:

PS:46%
PSD:30%
CDU:7%
CDS:7%
BE:6%

Preciso de dizer mais alguma coisa?

Três certezas a 99,9% (como quem diz)

1. O PS ganha;

2. PSD e CDS-PP não fazem maioria;

3. Subida forte do BE em relação a 2002;

4. Se não tiver maioria absoluta, PS necessita apenas de um parceiro à esquerda para a formar.

Certeza absoluta

Uma certeza absoluta: estas eleições vão ser aquelas (pelo menos desde 1991) em que haverá menos diferença entre as diferentes sondagens no que respeita à precisão das suas estimativas. Isso sabe-se de forma muito simples: a dispersão nos resultados das diferentes sondagens é a menor de sempre. As estimativas para o PS oscilam entre os 43% e o 47%, para o PSD entre os 27% e os 31%, para a CDU entre os 6% e os 9%, para o CDS-PP entre os 6 e os 8%, e para o BE entre os 5% e os 8%. Pode ainda parecer muito, e para os pequenos partidos, num certo sentido, é. Mas isso não impede que estas sejam as eleições legislativas onde as últimas sondagens mais convergiram entre si. Agora se estão todas muito "certas" ou todas muito "erradas" é outra questão...

O dilúvio

Dois dilúvios, aliás: um de e-mails recebidos e outro de sondagens. Quanto ao primeiro, vou nalguns casos responder directamente e, noutros, tentar responder ao longo do tempo com estes posts. Seja como for, obrigado a todos. Quanto às sondagens, são sete, que eu saiba, divulgadas ontem e hoje nos órgãos de comunicação social:



Para já ficam os dados. Comentário final no próximo post...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

2002

E para terminar a ronda pelas últimas sondagens publicadas antes das legislativas, eis as de 2002:



Em síntese:

1. Em média, os desvios absolutos cometidos pelas sondagens na estimação dos resultados dos cinco maiores partidos foi de 1,7%. Católica foi quem mais se aproximou(1% de desvio absoluto médio);

2. Em média, as sondagens sobrestimaram a margem de vitória do PSD em 2,9%. A Eurosondagem foi que mais se aproximou da margem real.

3. Lusófona e Eurequipa foram as únicas que apanharam claramente o CDS à frente da CDU.


Espero que isto tenha sido de alguma utilidade. Há quem duvide disso, recorrendo ao argumento de que "sondagens não são previsões", não devendo por isso ser comparadas com resultados eleitorais, ou mesmo alegando que as próprias sondagens geram efeitos que levam à sua menor precisão, o que tornaria o seu confronto com os resultados "injusto".

Não concordo nada com estes argumentos. Sondagens realizadas num mesmo momento estão em pé de igualdade no que respeita à sua (in)capacidade de previsão. E no entanto, umas aproximam-se mais do que outras dos resultados. Porquê? Pode ser um acaso. Mas quando as margens de erro amostral são claramente ultrapassadas por umas sondagens e não por outras, não haverá razões para tal, ligadas aos métodos utilizados ou à sua incapacidade para lidar com fenómenos sociopolíticos que geram imprecisão (a abstenção diferencial, a espiral do silêncio, os próprios efeitos das sondagens sobre os comportamentos)? Se não compararmos sondagens e métodos, como podemos aprender a melhorá-las?

Três últimos pontos antes do dilúvio de hoje e amanhã:

1. Parece-me evidente a melhoria na precisão da informação fornecida aos eleitores acerca das intenções de voto nas legislativas desde 1991.

2. Introduzir de "factores de correcção" nas sondagens actuais na base de informação passada constitui um enorme risco. Todos os partidos já foram alguma vez sobre e subestimados, enquanto vencedores ou derrotados, enquanto favoritos ou não. Como saber como e quando a "correcção" vai ser útil ou, pelo contrário, produzir ainda maiores distorções?

3. Não há, desde 1991, um partido que seja uniformemente e sistematicamente subestimado nas sondagens. É certo que, desde 1999, isso tem sucedido com o CDS. Acontecerá o mesmo desta vez?

terça-feira, fevereiro 15, 2005

1999. Looks even more familiar?

1999 foi o ano da maioria aboluta que nunca aconteceu. Todas as últimas sondagens divulgadas antes das eleições apontavam para uma percentagem mínima de 46% dos votos (redistribuindo os indecisos apresentados pela SEEDS, pela Aximage, a Euroexpansão, e a Metris), mas o PS acabou com 44% e 115 deputados.




Culpa das sondagens? Em parte, certamente. Houve qualquer coisa que correu mal para os lados da Aximage e (especialmente) Euroexpansão. O fenómeno BE foi subestimado por muitos, o que aponta para os riscos inerentes em usar modelos de amostragem ou ponderação dos votos baseados em comportamentos anteriores.

Contudo, em abono das pobres das sondagens, importa recordar que, em 1999, a abstenção deu um salto considerável - de 34% para 39% - e que parte dessa abstenção, presumivelmente, foi a de declarados votantes PS que, no dia das eleições, se desmobilizaram mais do que os outros. Isto não significa que as sondagens não tenham de procurar melhores modelos de "votantes prováveis", mas sugere que a abstenção diferencial é uma fonte de erro muito importante e muito difícil de evitar. Para além disso, note-se como o desvio absoluto médio dos resultados das sondagens em relação aos resultados dos cinco principais partidos foi de apenas 1,9% (1,8% se descontarmos a Euroexpansão) e como a margem de vitória do PS foi sobrestimada em "apenas"4%, em média (a SEEDS foi quem mais se aproximou dos resultados finais dos dois pontos de vista). Mais uma vez, não se esqueçam que estamos a lidar com sondagens que tiveram de ser conduzidas até, no máximo, uma semana antes das eleições. Apesar de tudo, parecem-me imprecisões muito aceitáveis tendo em conta os constrangimentos e as limitações do método, mas eu sou suspeito...

Imagino que o cenário de 1999 seja aquele que o PS mais teme neste momento e daí o apelo à maioria absoluta, de forma a evitar a desmobilização final que, nesse ano, converteu uma maioria absoluta quase certa num parlamento que mais tarde viria a ser "limiano". É também o cenário a que, talvez, o PSD possa aspirar com mais realismo. É um cenário eminentemente plausível. Mas o presente distingue-se do passado em três coisas importantes:

1. A favor da maioria absoluta: não se trata de reconfirmar Guterres, mas sim de demitir Santana Lopes, duas coisas muito diferentes (a segunda mais apelativa e rodeada de dramatismo e potencial mobilizador do que a primeira);

2. Contra a maioria absoluta: há um BE mais forte que em 1999, opção mais viável para um eleitorado de esquerda que não se deixe influenciar pelo argumento do voto útil no PS.

3. Não sei se contra se a favor: Sócrates não é Guterres.


O deve e o haver destas coisas talvez se perceba melhor dentro de dois dias.

P.S.- Houve outra sondagem publicada nessa semana, da Eurosondagem no Semanário, mas que não incluo por não ter apresentado resultados para o BE. Mas dava 46% para o PS e 32% para o PSD, ou seja, maioria absoluta, tal como as outras.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

1995. Looks familiar?

Estas foram as últimas sondagens publicadas antes das eleições legislativas de 1995 (quando indecisos não foram redistribuídos - Metris, Compta, Ipsos - os resultados apresentados resultam da sua redistribuição proporcional pelas opções válidas):



Quando escrevo isto, não faço a mais pequena ideia de como virão a ser as sondagens das próximas 5ª e 6ª feiras. Mas não me custa acreditar que se venham a parecer com estas. PS perto nuns casos, e longe noutros, da maioria absoluta; margens de vitória discrepantes; indeterminação quanto a quem fica à frente: CDS-PP ou CDU.

O que sucedeu nas eleições de 1 de Outubro? O PS ganhou, como todas as sondagens sugeriam. A margem de vitória foi de quase 10 pontos percentuais, como a Metris e a Marktest sugeriam, em claro contraste com a Compta (Compta?) e a Euroteste, que apesar de tudo acertou no CDS-PP à frente da CDU (tal como a Católica). Em média, as sondagens tenderam a subestimar a margem de vitória do PS, tal como subestimaram ao do PSD em 1991, mas de forma menos chocante: cerca de 3% de subestimação, em média. E o desvio absoluto médio entre as sondagens e os resultados dos 4 maiores partidos foi de 1,5%, uma coisa perfeitamente decente do ponto de vista comparativo (especialmente tendo em conta que não se publicavam - e, logo, não se faziam - sondagens até à véspera das eleições).

Tal como em 1991, maiores amostras tenderam a produzir maior precisão. Não há uma vantagem clara da aleatoriedade sobre as quotas, tal como não há uma vantagem clara das presenciais sobre as telefónicas. E uma curiosidade: esta sondagem da Metris foi a sondagem pré-eleitoral mais precisa feita para eleições nacionais em Portugal desde 1991 até hoje. E isto apesar de ter "falhado" a ordem relativa de CDS-PP e CDU.

1991, o ano louco das sondagens

Tinha prometido uma revisitação às sondagens sobre eleições legislativas realizadas na última década e meia, para ver se aprendemos alguma coisa com o passado. Começo com 1991. A razão é simples: só a partir desta altura se pode começar a pedir às sondagens que apresentem resultados que se aproximem minimamente daqueles que vêm a ser os resultados eleitorais. E isto porque só em Julho de 1991, com a aprovação da lei 31/91, se tornou possível publicar resultados até uma semana antes das eleições, dado que, até lá, o embargo era de 30 dias.

O que sucedeu quanto às últimas sondagens publicadas antes das eleições? Vejam por vocês próprios (nas sondagens onde os indecisos não eram redistribuídos, essa redistribuição fê-se proporcionalmente pelas opções válidas):



A dimensão da catástrofe é difícil de descrever. É certo que todos "acertaram" no vencedor. Mas acertar no vencedor é coisa que um extraterrestre chegado a Portugal no dia 5 de Outubro podia fazer com uma moeda com 50% de probabilidade de acertar, ou, se quisesse 100%, lendo os jornais de Setembro de 1991. De resto, em média, as sondagens subestimaram a margem de vitória do PSD sobre o PS em 12%, enquanto que o desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens para os quatro principais partidos e o resultado que vieram a ter foi de quase 4% (acima de qualquer concebível margem de erro amostral). A distância entre a data de trabalho de campo e a data das eleições foi, nalguns casos, considerável. Mas o mesmo sucedeu em 1995 e 1999, com resultados, como veremos, bastante distintos.

O que se passou? Um ano depois, uma catástrofe semelhante nas eleições no Reino Unido gerou uma enorme bibliografia. Aqui, nada. A hipótese benévola é um "late surge" do PSD, que as sondagens não puderam captar. Mas é muito duvidoso que isso explique tudo. Amostras maiores geraram, de facto, resultados menos imprecisos. O uso das quotas não parece ter ajudado. E não foi por terem feito sondagens face-a-face que os institutos conseguiram medir melhor as intenções de voto. A abstenção à última da hora terá afectado mais as intenções de voto no PS e no CDS do que no PSD ou no PCP? Talvez. Mas em bom rigor, who knows? Agora, é demasiado tarde para saber.

P.S. Suspeito que algum ressentimento do PSD em relação às sondagens tem as suas origens aqui, com alguma razão, diga-se. Mas como veremos, as coisas mudaram.

Poll of polls VII

1. Resultados tais como destacados na imprensa:



2. Resultados comparáveis entre si e com resultados eleitorais (redistribuição proporcional de indecisos para sondagens que não os redistribuem):



3. Poll of polls ponderada pela dimensão da amostra (média móvel ponderada das três sondagens mais recentes, com ponderação inversa à margem de erro amostral máxima):



4. E porque:
- mais informação não significa melhor compreensão;
- as "últimas três sondagens" não é necessariamente um bom critério de agregação;
- e há muito poucas sondagens no total,

Uma poll of polls ligeiramente diferente: médias ponderadas para quatro períodos de realização de trabalhos de campo (Dezembro, 1ª quinzena de Janeiro, 2ª quinzena de Janeiro e 1ª semana de Fevereiro):




Os gráficos 3 e 4 não são especialmente diferentes. Mas o gráfico 4 apresenta as tendências de forma mais clara e, creio, menos sujeitas a "falsas" flutuações causadas por erros amostrais ou outros.

"Tendências" é como quem diz. As mudanças são mínimas. Começo a pensar que John Curtice, um especialista inglês em comportamento eleitoral que esteve cá numa conferência do ICS, tinha razão quando nos disse que "o resultado das vossas eleições estava decidido muito antes da campanha eleitoral". A ver vamos...