domingo, junho 05, 2005

Arquivo: Eurosondagem, 31 Maio

1020 entrevistas telefónicas, estratificada aleatória.

PS: 40,2%
PSD: 26,4%
CDU: 5,6%
BE: 5,4%
CDS-PP:4,9%

José Sócrates: 55% opiniões positivas
Marques Mendes: 35% opiniões positivas

Opiniões sobre medidas de combate ao défice: ver aqui.

sexta-feira, junho 03, 2005

Não queremos, mas queremos ser nós a dizer

Reino Unido:

"In the aftermath of the French referendum (...) MORI has found a 34 point lead for the NO camp, Yes 22%, No 56%"

"However, a large majority of people (67% to only 21% against) still want to have a referendum on the EU Constitution regardless of whether or not other countries have already rejected the treaty".

Resumo no Sun, dados do UK Polling Report.

Ou seja: a "morte natural" da CE não é suficiente para os ingleses. Querem matá-la com as próprias mãos. Ou querem também usar o referendo para outras coisas, tais como reafirmar a sua falta de confiança em Tony Blair? Ou, na pátria da soberania parlamentar, gostam genericamente da ideia de referendos mesmo que estes não sirvam para nada? Ou todas estas coisas (e outras) misturadas? O certo é que terá de haver mais qualquer coisa do que uma maioria de eleitores movidos pelo simples objectivo de não haver uma Constituição Europeia.

2/3 dos suecos ainda querem votar (e quase metade quer dizer "Não")

Sifo, 30-31 Maio

Do you think the European Constitution should be ratified through a referendum, or through a parliamentary vote?
Referendum 65%
Parliamentary vote 27%
Undecided 8%

How would you vote if a referendum on the European Constitution took place now?
Yes 23%
No 41%
Undecided 36%

Mas não se lhes deu a terceira opção (nem referendo nem parlamento)...

Concurso de ideias III (actualizado)

Há também quem ache que já deverá haver muitos estudos sobre isto. De Leonel Morgado:

Quanto a este concurso de ideias, não haverá já soluções qb.? Pelo menos nos EUA, que eu saiba, é comum haver referendos em simultâneo com outras eleições (sem a escandaleira que há por cá). Certamente que pelo menos aí deverá haver alguém que se tenha dedicado a esta questão da contaminação?

Pois é verdade: é altamente improvável que isto não esteja estudado nos EUA. O problema, claro, é que não há referendos nacionais nos Estados Unidos, o que limita a comparabilidade. Mas vou tentar apurar.

Actualização: ora cá está, 2 artigos em 5 minutos, apesar de não serem respostas ainda à nossa pergunta.

1. Mark A. Smith, The Contingent Effects of Ballot Initiatives and Candidate Races on Turnout. American Journal of Political Science, Vol. 45, No. 3. (Jul., 2001), pp. 700-706. Mas aqui a questão é colocada um pouco ao contrário: em que medida os referendos ajudam a mobilizar eleitores que de outra forma não iriam às urnas. Não se aplica ao nosso caso...

2.Regina P. Branton, Examining Individual-Level Voting Behavior on State Ballot Propositions.
Political Research Quarterly, Vol. 56, No. 3. (Sep., 2003), pp. 367-377. Sugere que o comportamento de voto dos indivíduos nos referendos locais é sistematicamente influenciado pela sua identificação partidária, especialmente em temas "sociais/morais". Mas o tema do referendo europeu não é "social/moral", o nosso referendo é nacional e a nossa questão não é esta: a questão é saber se, ao seguirem as pistas dos partidos, os eleitores deixam que a aprovação pela actuação de um determinado partido a nível local se transforme na adesão às orientações desse partido no que respeita ao referendo.

Mas vou continuar a procurar.

Concurso de ideias II

Vários responsáveis políticos europeus vão afirmando simultaneamente que haverá e poderá não haver referendo (ver aqui ou aqui), pelo que o exercício de tentar perceber se a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas tem efeitos pode, ele próprio, vir a perder interesse. Contudo, há já sugestões sobre como proceder. De J. Afonso Bivar:

Prolongo um pouco o exercício de divisão da amostra cuja ideia já apresentou. Em vez de duas metades, proponho dividir a amostra em três partes. Na primeira, pergunta-se exclusivamente a intenção de voto no referendo; Na segunda, a intenção de voto nas autárquicas; Na terceira, em simultâneo as duas intenções. Nesta terceira parte, para procurar replicar ao máximo as circunstâncias de votação, antes de auscultar os sentidos de voto, introduzir-se-á um pequeno texto informando os inquiridos que lhes vai ser pedido que indiquem como vão votar tanto no referendo como nas autárquicas.

Tenderia ainda a tomar outra precaução suplementar, relativa a esta terceira parte (sobretudo se a aplicação se fizer via telefone). Mesmo com o texto de advertência à cabeça, será aconselhável que a sequência de perguntas (referendo-autárquicas) se invertesse na metade; por outras palavras, a metade deste 1/3 de inquiridos colocar-se-á primeiro a pergunta sobre o referendo; a outra metade, escutará primeiro a questão sobre as autárquicas.

Digo-lhe também que de qualquer forma creio que é ainda muito cedo para fazer quaisquer sondagens, tendo em consideração, além dos meses que nos separam de Outubro, o objectivo de medir/apreciar o "efeito de contaminação partidária" de que fala. Eu esperaria para ver os partidos assumirem e sobretudo publicitarem as respectivas posições no que toca ao referendo. Não há métodos perfeitos. Mas este parece-me aquele que mais fidedignamente responde aos problemas que equaciona. Em relação à sua proposta anterior,tem desde logo a vantagem de permitir aferir variações (acaso as haja e sejam estatisticamente significativas) nas taxas de abstenção e também estimar o impacte sobre estas do que posso chamar de "efeito autárquico" e de"efeito referendo". Só para dar uma ideia da informação relevante que sepode obter: se, na abstenção estimada, o valor referente à "subamostra conjunta" não se "encostar" ao valor relativo à "subamostra autárquica",isso quererá dizer que a votação simultânea funcionará parcialmente comodissuasor da própria ida às urnas. Sei que o efeito colateral desta minha proposta, a ser adoptada claro, será o de fazer crescer a amostra e portanto aumentar os custos. Não creio todavia que o acréscimo seja muito significativo - logo não a invalidará. De qualquer jeito, aqui está em causa apenas o esquema "conceptual" do binómio questionário-amostra.

O design é complexo, mas poderia funcionar. Infelizmente, duvido que venha a haver estudos concebidos especificamente para responder a este tipo de questões. O que se fizer será certamente "atrelado" a coisas que já estão previstas, ou seja, barómetros nacionais ou sondagens autárquicas. Logo, não deverá haver capacidade para criar amostras com a dimensão necessária para que, do confronto de sub-amostras, pudesse resultar algo de estatisticamente significativo.

Quanto ao timing, tenho dúvidas. O potencial problema que se costuma levantar é, para simplificar, que alguém que vote num partido nas autárquicas acabe por, por "arrastamento", votar no referendo "de acordo" com esse partido. Para que isso possa surgir, é verdade que é preciso esperar para que as "pistas" fornecidas pelos partidos possam ser apreendidas pelos eleitores. Contudo, surge um problema: quanto mais tempo passar, mais a condição "quase-experimental" de colocar a pergunta sobre o voto no referendo como se ele não estivesse ligado às autárquicas perde relevância, dado que as pessoas vão, a pouco e pouco, apercebendo-se que, de facto, o referendo irá ter lugar com as autárquicas.

quinta-feira, junho 02, 2005

Concurso de ideias I

Como saber se faz diferença que o referendo tenha lugar isoladamente ou em conjunto com as autárquicas? Uma ideia para arrancar:

Dividir uma amostra em duas metades, aleatoriamente seleccionadas, e aplicar 2 questionários diferentes. Num, colocar a pergunta sobre intenção de voto no referendo à cabeça. Noutro, colocar a mesma pergunta após uma pergunta anterior sobre intenção de voto nas autárquicas. Os resultados na segunda condição podem depois ser comparados com os resultados da primeira. Se difererentes e essa diferença for estatisticamente significativa, um "efeito de questionário" pode servir como resposta ao problema da "contaminação"

Concurso de ideias

Pelos vistos, haverá referendo europeu em Outubro, em simultâneo com as autárquicas. Enfim.

E nos próximos tempos, haverá certamente uma série de sondagens quer sobre eleições autárquicas quer sobre o referendo europeu.

Uma pergunta possível é: como se poderia testar (para confirmar ou infirmar) , usando inquéritos por questionário, a hipótese de que a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas afecta o resultado substantivo do referendo, quer do ponto de vista da "contaminação" (um voto num partido nas autárquicas que por extensão de torna num voto "partidarizado" no referendo) quer do ponto de vista da participação (um aumento "artificial" da participação que leva a um resultado substantivo diferente daquele que haveria caso o referendo fosse isolado)?

Vou pensar. Mas se tiverem ideias, mandem-nas para o e-mail do blogue: margensdeerro@yahoo.com. Publico-as aqui, com identificação do proponente (a não ser que se peça anonimato).

E, se exequíveis, executo-as (dando os créditos intelectuais respectivos).

quarta-feira, junho 01, 2005

Holanda, resultados oficiais

Sim: 38.2%
Não: 61.8%

As sondagens - pelo menos as que conheço - pecaram por defeito não estimação do Não. Tendo em conta que essas sondagens foram realizadas antes do Não francês, uma coisa que valia a pena investigar seria em que medida o resultado francês poderá ter influenciado os resultados holandeses, amplificando a força do Não (que já era, diga-se, largamente maioritário).

Mais Holanda

Maurice de Hond, 28 de Maio (N=2200)

How would you vote in the referendum on the European Constitution?(Decided Voters)
Sim: 41% (-2% em relação a 21 de Maio)
Não: 59% (+ 2% em relação a 21 de Maio)

Eu também

O bombyx mori não está convencido que o facto dos eleitores franceses que votaram "Não" o terem feito - à parte de factores conjunturais - na base de uma assumida recusa de uma "Constituição demasiado liberal" (à esquerda) ou da sua oposição à entrada na Turquia na UE (à direita) tenha qualquer espécie de relevância. É possível que não ache que as élites políticas francesas e europeias tenham sequer consciência dessas motivações. E certamente não crê que essas motivações condicionem de alguma forma as decisões que vão ser tomadas no futuro sobre a Constituição Europeia, sobre futuros alargamentos ou sobre as políticas de coesão.

Contudo, pelos vistos, o bombyx mori também não está de acordo com Pacheco Pereira quando este diz que a vitória do Não abre caminho a "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente". Segundo o bombyx mori, o meu raciocínio "não é menos viciado (ou capcioso)" que o do Pacheco Pereira.

Então o que acha o bombyx mori? Que aquilo que eu escrevi "constitui uma manipulação (porventura inconsciente) travestida de rigor científico (e sobretudo dotada de aparato metodológico) dos dados do Referendo", e que este "abuso analítico" é especialmente grave tendo em conta que eu sou "uma autoridade na matéria, como frequentemente se ouve dizer aos políticos: uma opinião respeitada ou abalizada." Que o meu raciocício - "vamos chamar as coisas pelos nomes, se não se importam" é "viciado" e "capcioso" (malévolo, ardiloso, manhoso). E que "este é um assunto extremamente complexo, que me [lhe] levanta inúmeras questões, tanto de matriz analítica como de posicionamento pessoal. Lastimo não ter no presente tempo para de forma séria as pensar, escrever e verter para o bombyx mori."

Eu também.

terça-feira, maio 31, 2005

E na Alemanha...

FG Wahlen, 26 de Maio (telefónica, N=1162)

Quem preferiria como chanceler?
Angela Merkel (CDU): 50%
Gerhard Schroeder (SPD): 44%

CDU/CSU: 44%
SPD: 30%
Verdes: 8%
FDP:6%
PDS:5%
Outros:6%

Avaliação da actuação do governo:
Positiva:30%
Negativa:66%

E para terminar: a pertença à UE traz para a Alemanha:
Mais vantagens que desvantagens: 22%
Tantas vantagens como desvantagens: 45%
Mais desvantagens que vantagens: 29%

For what it's worth...

UK, ICM Research, 22 de Maio:
“If there were a referendum tomorrow, would you vote for Britain to sign up to the European Constitution or not?
Sim: 24%
Não: 57%
Não sabe: 19%

Mais Holanda

Polls point to a strong No

Infelizmente, não pertenço à classe, mas os leitores de neerlandês podem entreter-se aqui.

Holanda, TNS Nipo, 27 Maio

Sim: 41%
Não: 59%
Depois de redistribuídos os indecisos. O Sim está a subir, mas isto foi antes do resultado francês...

segunda-feira, maio 30, 2005

Uma opinião

O blogue não é exactamente para isto, mas não resisto a dizer o que penso sobre os resultados do referendo.

O que tenho a dizer já o tinha dito aqui, e ontem no Público (quando, noto, pensava que a coisa tanto podia pender para o "Não" como para o "Sim"): tenho muitas dúvidas sobre a bondade dos referendos como modo de tomar decisões sobre matérias como esta. Reconheço-lhes virtudes, como, por exemplo, aquela que aqui assinalei: o debate sobre os temas europeus em França foi mais vivo e generalizado do que nunca. E se puxarem muito por mim, até reconheço virtudes ao próprio desfecho substantivo: uma vitória do "Sim" teria sido, em parte, uma vitória de um discurso algo chantagista ("uma Constituição não renegociável", quando nada na política é "não renegociável") e de alguns medos que, eles sim, são o que me metem medo ("a perda de poder da França" e coisas semelhantes).

Contudo, importa não ignorar algumas coisas sobre este resultado. Por um lado, ele é também, em parte, uma vitória de medos, que neste caso encontram a sua expressão no proteccionismo económico (uma Constituição demasiado "liberal"), na intolerância religiosa e no nacionalismo mais primitivo ("não à Turquia"). Lamento imenso, mas a ideia de que a informação que este resultado fornece às elites políticas europeias é a da necessidade de "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente" parece-me simplesmente cândida. Pacheco Pereira projecta no "Não" as suas próprias motivações, ignorando as motivações reais dos eleitores franceses. Mas as que realmente contam são as deles, e não as dele. A mensagem que o "Não" fornece aos políticos europeus é a de os medos dos franceses terão de ser acomodados de alguma forma no futuro da construção europeia. E eu preferia que (estes) não fossem.

Por outro lado, não se pode ignorar outro aspecto fundamental. O resto da explicação da vitória do "Não" encontra-se em factores como a situação económica e social em França e a percepção por parte de muitos eleitores de que deviam e podiam usar o referendo para sinalizar o seu descontentamento, especialmente quando um governo que defende o "Sim" se encontra na pior fase do ciclo político e quando tantos franceses acham que o resultado não terá grande importância. Sendo assim, percebem-se mal os "pudores democráticos" que fazem com se fique tão chocado quando alguém sugere fazer um novo referendo. Basta que um novo referendo tenha lugar sob um governo socialista no início do seu mandato para que a probabilidade de uma vitória do "Sim" aumente exponencialmente. E então? O que faz com que este "Sim" valha menos ou seja "menos democrático" que o anterior "Não"? Na verdade, ambos são os resultados de uma pura "lotaria eleitoral". É certo que é sempre preciso arranjar uma maneira qualquer de tomar decisões e de lhes dar um verniz de legitimidade democrática, e os referendos servem para o efeito (por enquanto). Mas será a melhor maneira? Duvido.

Destaques das sondagens à bocas das urnas

É de aproveitar este excelente trabalho da Ipsos. Destaques:

1. Confirma-se clivagem social já aqui assinalada, se bem que as suas razões continuem a não ser evidentes dos dados;

2. 56% dos eleitores próximos do PS votaram "Não". Foi principalmente isto que andou a mudar de sondagem para sondagem. Parte do "Não" decidiu-se aqui.

3. Motivações mais apresentada pelos eleitores para o "Sim": reforço do peso da Europa em relação aos Estados Unidos e à China (64%, atravessando simpatizantes de todos os partidos), funcionamento da Europa a 25 (44% - idem) e evitar enfraquecimento do peso da França na Europa (43% - especialmente entre eleitores UMP);

4. Motivação mais apresentada pelos eleitores para o "Não": "descontentamento com a actual situação económica e social em França"(52%), seguida de "constituição demasiado liberal no plano económico" (40%). Mas aqui, tudo varia de acordo com proximidade partidária. Se o "descontentamento" é forte entre todos (menos os eleitores UMP), o receio do "liberalismo" prevalece à esquerda. E entre os eleitores UMP e FN, a principal motivação de rejeição é "a ocasião de se opor à entrada da Turquia na UE";

5. Largas maiorias dos eleitorados (excepto FN) dizem-se "favoráveis à construção europeia". É bonito, and yet means nothing;

6. 42% dos eleitores UMP querem correr com Raffarin, contra 38% que o querem manter. Dos eleitores dos outros partidos não vale a pena falar. Os eleitores UMP querem...Sarkozy, bien sur.

Fifty five

Os resultados ainda não são os validados, mas não é de esperar que se desviem particularmente de 55% para o Não e 45% para o Sim. Assim sendo, temos:

1. A TNS Sofres e a CSA teriam feito melhor em não divulgar as sondagens que terminaram a 27, ficando-se pelas que concluiram, respectivamente, nos dias 24 e 26. Ceteris paribus, sondagens conduzidas mais próximo da data das eleições são sempre mais precisas. Mas os ceteris raramente são paribus no mundo real, e as duas sondagens divulgadas na noite de 6ª ficaram fora das margens de erro amostral. É provável apareça alguém a denunciar possíveis tentativas de manipulação do voto de última hora. Duvido muitíssimo, mas se assim foi, fico especialmente aborrecido: eu levei-as muito (demasiado?) a sério.

2. A sondagem Ipsos terminada a 25 de Maio parece ter sido a mais precisa. É certo que a diferença no sentido de maior precisão, quando comparada com a da Ifop, é tão diminuta que pode perfeitamente ser fruto do acaso. E ambas são telefónicas, ambas usaram quotas, ambas têm amostras de dimensão aproximada. O resto, especialmente no que respeita ao apuramento dos prováveis abstencionistas, é menos claro dos relatórios, mas a Ipsos explica que deu as intenções de voto usando o filtro mais exigente: "de certeza que vai votar". Um sinal importante. Mas fico contente se for a Ipsos, por uma razão muito simples: o site da Ipsos.fr deu uma cobertura excelente ao referendo. Bons textos analíticos, relatórios exaustivos e até as sondagens dos outros institutos (nem todas, mas quase...) E poucas horas depois do referendo, uma decomposição completa da sondagem à boca das urnas. Quando se fazem estas coisas tão bem, é natural que se faça bem o resto...

sábado, maio 28, 2005

Fifty fifty, finalmente

As sondagens divulgadas ontem, captando os presumíveis efeitos da dramatização final na campanha do referendo francês, relançam a incerteza. O Não vinha em (novo) crescendo desde a 2ª semana de Maio, e as sondagens dos dias 24 a 26 de Maio davam-lhe uma vantagem aparentemente confortável. Mas tudo se desvaneceu no último dia de campanha, com as sondagens TNS Sofres e CSA. Aliás, quem tivesse reparado nas notas de rodapé da última sondagem Ipsos de 25 de Maio não poderia senão ficar com dúvidas. Lá em baixo, em letras pequeninas bem escondidas, dizia-se:

(*) 23% des personnes interrogées, certaines d’aller voter, n’ont pas exprimé d’intention de vote

23% dos que disseram ter a certeza de ir votar não exprimiram intenção de voto. É muito.

É certo que há ainda a sondagem Ifop (56% para o Não) e que, apesar de tudo, o Não é maioritário nas duas restantes. Mas recordem-se de 1992. Na altura, o Sim aparecia com cerca de 53/54% das intenções de voto, e 70% dos eleitores prognosticavam uma vitória do Sim. Acabou o Sim com 51%. Agora, o Não aparece, em média, com 53%, enquanto que 50% dos eleitores prevêem uma vitória do Não (contra apenas 23% a preverem uma vitória do Sim), o que aponta para a possibilidade de uma desmobilização comparativa dos eleitores do Não.

Fifty- fifty. Mais que isto não é possível.

sexta-feira, maio 27, 2005

Atenção!

TNS Sofres, 26 e 27 de Maio
Sim: 49%
Não:51%

CSA, 26 e 27 de Maio(pdf)
Sim: 48%
Não: 52%

Ifop, 26 e 27 de Maio
Sim: 44%
Não: 56%

São, que eu saiba, as únicas sondagens a poderem captar os efeitos do discurso ao país de Jacques Chirac. Duas mostram recuperação de última hora do "Sim", enquanto que outra mostra o "Não" a subir. Está mesmo tudo em aberto.

França, últimas sondagens

É possível que ainda se conheçam outros resultados até ao fim do dia, mas para já, estas são as sondagens conhecidas:

TNS Sofres, 24 Maio (quotas, 1000 inquiridos, face-a-face):
Sim: 46%
Não: 54%

Ipsos, 25 Maio (quotas, 804 inquiridos, telefone):
Sim: 45%
Não: 55%

CSA, 26 Maio (quotas, 1002 inquiridos, telefone):
Sim: 45%
Não: 55%

Há um reforço consistente no Não em relação às sondagens anteriores de cada um dos institutos, e a vantagem do Não é superior às margens de erro amostrais.

quarta-feira, maio 25, 2005

Holanda

TNS Nipo, 18 de Maio
Sim: 33%
Não: 66%

Mas isto é só entre quem já tem intenção de voto. 35% ainda não sabem como irão votar (!) e 10% não respondem.

Volto Sábado, com a análise das sondagens da próxima 6ª feira em França.

Os sondagistas franceses divertem-se

Question : Laquelle de ces personnalités, selon vous, incarnerait le mieux l’image de l’Europe dans le monde et dans les différents pays européens?

Sophie Marceau (France): 32%
Monica Belucci (Italie):16%
Adriana Karembeu (Slovaquie):14%
Cécile de France (Belgique): 4%
Pénélope Cruz (Espagne): 4%
Claudia Schiffer (Allemagne): 4%

Fonte: TNS Sofres

terça-feira, maio 24, 2005

Mais uma

Ifop, 23 de Maio
Sim: 46%
Não: 54%
8% de indecisos

O "Sim" perde força entre o eleitorado de direita:

Odivelas

Há muitos posts atrás, falei aqui de uma sondagem feita em Odivelas, depois de ter sido alertado por um leitor. Vale a pena ler esta deliberação da AACS sobre o assunto. Um excerto particularmente comovente:

Assevera que só após a recepção do ofício desta Alta Autoridade se perceberam de que há legislação sobre sondagens, facto que “completamente” desconheciam. Não obstante, aduz que antes da realização da “sondagem” tentaram, em vão, colher informações, junto do Instituto de Comunicação Social, sobre a legislação relativa a “este tipo de perguntas”. Quanto ao questionário escreve: “as três forças políticas, sobre as quais incidiam as perguntas, apenas nos alertaram para o facto de um dos partidos não ter candidato e isso influir no resultado, e pouco mais“. Para repetir que só após a recepção da carta da Alta Autoridade se aperceberam de que havia legislação “sobre este tipo de matérias”. A terminar, reitera a ignorância da legislação sobre sondagens, garante que não a voltarão a violar e afirma disponibilidade para publicar as rectificações que a Alta Autoridade para a Comunicação Social entender.

Autárquicas

Alertado pelo Esquerdices, chego a um conjunto de sondagens Marktest sobre os candidatos que os eleitores acham que vão ganhar as eleições: Carrilho em Lisboa, Seara em Sintra, Rio no Porto, todos por margens consideráveis e com nunca menos de 20% de respostas "não sabe".

Interessante. Mas claro, não susceptível de ser confundido com intenções de voto (ver esta deliberação da AACS). Nas últimas legislativas, mais de 70% dos portugueses "sabiam" que o PS ia ganhar, o que não significa que nele votassem. E notem: a amostra é nacional. Ou seja, estas são as opiniões dos eleitores portugueses sobre o que se vai passar em cada um dos concelhos, não as dos eleitores de cada concelho. É, para já, uma medida do "clima político" apercebido pelos portugueses em relação a cada um dos concelhos, e muito contaminada pela visibilidade pública dos candidatos, nuns casos, e pela "incumbency", noutros.

CSA, 23 de Maio

Sim: 47%
Não: 53%

Ipsos, 21 de Maio

Sim: 47%
Não: 53%

E uma revolução em relação aos estudos anteriores no que diz respeito aos prognósticos dos eleitores sobre quem irá ganhar: segundo a Ipsos, 41% já acham que o "Não" irá ganhar, contra 34% que prevêm vitória do "Sim".

Ifop, 20 de Maio

Sim: 48%
Não: 52%

segunda-feira, maio 23, 2005

França, análises complementares

Mais alguns dados retirados das últimas sondagens:

1. Eleitorado do Partido Socialista francês partido ao meio em torno do referendo ao TCE;

2. Ligeira tendência para que os eleitores "Não" se afirmem estar mais certos de que essa será a sua decisão definitiva, especialmente nas sondagens mais recentes, indicando potencial maior desmobilização entre eleitores do "Sim" (mas a sondagem Louis-Harris dá resultados inversos...);

3. Inclinações dos indecisos distribuem-se equitativamente para o "Sim" e o "Não" (entre os indecisos que dizem ter uma qualquer inclinação);

4. Mais eleitores a preverem a vitória do "Sim" do que aqueles que prevêm a vitória do "Não" (relação de quase 2 para 1);

5. Uma aparente clivagem social em torno do tema: proprietários, indivíduos mais instruídos e com estatuto socio-profissional mais elevado estão desproporcionalmente a favor do "Sim", enquanto que os empregados da indústria e dos serviços e aqueles com menor instrução estão desproporcionalmente a favor do "Não". Mas importa dizer que isto coincide com uma clivagem ainda mais clara, aquela entre eleitores dos partidos do governo e eleitores dos partidos da oposição em França. Pelo que é difícil saber, olhando apenas para dados agregados, se essa clivagem social é real (traduz uma clivagem entre "vencedores" ou "beneficiários" sociais da integração contra os outros) ou, pelo contrário, mera função dos alinhamentos partidários (e o que eles significam de apoio versus punição do governo);

6. Católicos tendencialmente a favor do "Sim", e tanto mais quanto mais praticantes. Curioso, tendo em conta as animadas polémicas sobre a "herança cristã". Mas também aqui se aplicam as cautelas do ponto 5.

Prognóstico: reservado.

França, a uma semana do referendo

1. Saiu mais uma sondagem, da Louis-Harris, com último dia de trabalho de campo a 21:
Sim: 48%
Não: 52%

Nada de novo em relação a todas as sondagens mais recentes dos restantes institutos: depois da recuperação do "Sim" na 1ª metade de Maio, o "Não" volta a ganhar ascendência.

2. Percentagens do "Não" nas sondagens mais recentes:

- Sofres, 12 de Maio (face-a-face, quotas, 1000 inquiridos): 53%
- IFOP, 13 de Maio (telefone, quotas, 1018 inquiridos): 54%
- Ipsos, 14 de Maio (telefone, quotas, 972 inquiridos): 51%
- CSA, 16 de Maio (telefone, quotas, 1002 inquiridos): 51%
- BVA, 20 de Maio (telefone, quotas, 963 inquiridos): 53%
- Louis-Harris, 21 de Maio (telefone, quotas, 1006 inquiridos): 52%

Perturba um pouco a unanimidade na utilização de quotas, podendo constituir fonte de enviesamento oculto. Mas não há diferença significativa entre uso de telefone e face-a-face.


3. Poll of polls (média móvel das 3 sondagens mais recentes):


4. Outros dados interessantes:

- Fica a impressão que o tipo de dramatização feita pelo lado do "Sim" ("não será possível rever esta Constituição") funciona ao contrário: a maioria dos eleitores "Sim" crê que a Constituição poderá ser revista num futuro próximo, enquanto que os do "Não" pensam o oposto (Louis-Harris);

- A evolução dos dados é diferente da de 1992: em 1992, o Sim estava à frente nas sondagens das últimas semanas, se bem que por margens reduzidas;

- Nunca se falou ou debateu tanto sobre temas europeus em França: ver aqui (pdf). Um ponto a favor dos defensores dos referendos.

-

domingo, maio 22, 2005

Holanda

Há quem não tenha dado por isso, mas dia 1 há outro referendo sobre a Constituição Europeia, na Holanda. Não falei nisso porque não tenho acesso directo aos dados de sondagens, mas...

Three days after French referendum, Dutch could also reject EU constitution
21/05/2005
The outcome of the Dutch referendum on the European Union constitution is just as uncertain as the outcome of the French vote three days earlier with voters using the referendum to show their discontent with their government, the euro and the EU's expansion.
Although initial polls showed the 'yes' in the lead since one month the different surveys have showed that the Netherlands, one of the founding members of the European Union, could vote against the EU constitution in the consultative referendum set for June 1.
This weekend, two new polls showed the 'no' campaign ahead. An Internet survey of 2,500 people by well known pollster Maurice the Hond found that among voters who had already made up their minds 60 percent planned to vote against the EU constitution, while 40 percent said they would vote in favor.
Another poll by the NSS-Interview institute released late Friday found 63 percent of those surveyed were against the treaty, while 37 percent were in the 'yes' camp.
After a slow and uninspired start of the campaign the Dutch government is now pulling out all the stops to try to reverse the negative trend.
Recalling the Holocaust and World War II Dutch Christian Democrat Prime Minister Jan Peter Balkenende told voters that the constitution was the way to peace and preserving civilisation.
Justice Minister Piet Hein Donner warned of "Balkanisation", referring to the bloody wars in the former Yugoslavia, if the Dutch said no while Foreign Affairs Minister Ben Bot warned that a 'no' vote would have disastrous results for the Dutch economy.
Dutch Deputy Minister for European Affairs Atzo Nicolai suddenly set aside an additional 3.5 million euros to send out government flyers and make television commercials encouraging people to vote yes.
"The government is very motivated, we are in the final phase and we will do what we can to get the 'yes'," Balkenende said Friday just ten days before the referendum.
It is unclear if this sudden surge in the government's yes campaign can reverse the tide in the Netherlands. The referendum is the first ever national referendum in Dutch modern history and many Dutch voters see it as an opportunity to show their discontent with the European Union in general, their worries about Islam and the accession of Turkey to the European Union and their opposition to the current centre-right government.
Approval for Balkenende's government is a dismal 19 percent. A survey published Wednesday showed that one in four people who planned to vote 'no' explained their decision as a general defiance against the government.
More than half, 52.3 percent, of the 'no' camp in the survey of 1,338 people commissioned by Dutch news agency GPD, said they wanted to block Turkey's EU bid. Also 55 percent questioned said they would vote no because they want to protest the introduction of the euro and the following widely perceived price hikes.
"The fear of the different and the unknown play an important role" in the Dutch 'no' camp, Johan Huizinga, a political analyst for Radio Netherlands, told AFP.
The Dutch fear that the text of the constitution could touch the Dutch so-called sacred cows such as same-sex marriages, legal euthanasia and the decriminalization of cannabis.
In an interview published Friday Balkenende tried to allay the fears of the voters.
"Subjects such as soft drugs, euthanasia and abortion will remain national issues, nothing is dictated by Brussels," he told De Volkskrant newspaper.
Despite the polls showing the 'no' voters in the lead Balkenende says he remains optimistic.
"I'm putting my money on the 'yes' vote," he said.
The Dutch referendum is non-binding but the main political parties have said they will take it into account when the text comes up for parliamentary approval if the turn-out is over 30 percent.

Mais resultados, França

BVA, 20 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

Este era o instituto que faltava. Amanhã, análise mais detalhada.

terça-feira, maio 17, 2005

Oops

Parece que, ao contrário do que eu sugeria, o Sr. Giacometti tinha razão em dar importância às "pequenas flutuações" que encontrou na sondagem IPSOS. Isto porque:

IFOP, 13 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

CSA, 16 Maio
Sim: 49%
Não: 51%

Há poucas dúvidas, depois destas últimas sondagens, que a balança se voltou a desequilibrar a favor do Não...

Sampaio e o referendo à despenalização do aborto

Por distracção, não tinha dado por esta sondagem. Aqui está. "Vale o que vale" (só Lisboa e Porto), mas valerá certamente alguma coisa. E com alguns resultados curiosos na desagregação por classes sociais.


Lisboetas e portuenses concordam com Sampaio
12 Maio 2005
Marktest.com
A maioria dos lisboetas e portuenses, inquiridos pelo
Fonebus da Marktest em exclusivo para a Marktest.com Notícias, concordam com a decisão de Jorge Sampaio em não realizar em Julho o referendo sobre o aborto.
O
Fonebus da Marktest realizou para a Marktest.com Notícias uma sondagem de opinião acerca das decisões de Jorge Sampaio a propósito do referendo sobre o aborto. Sabendo que o Presidente da República tomou a decisão de não realizar o referendo sobre o aborto em Julho deste ano, em virtude de se tratar de um mês em que muitos portugueses já se encontram de férias, perguntou-se aos residentes nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto, com mais de 18 anos, se concordavam ou não com essa decisão.
Dos inquiridos, 65.2% concordou com a decisão do Presidente da República, 21.1% discordou e 13.7% não expressou opinião.
Ainda que em todas as faixas etárias se tenha verificado concordância com a decisão de Jorge Sampaio, ela foi mais notória nos indivíduos entre os 55 e os 64 anos (81.1% concordou e 13.5% não concordou). A população mais jovem (entre os 18 e os 24 anos), foi aquela onde as opiniões se dividiram um pouco mais: 52.8% concordou e 33.3% discordou. Na faixa etária mais idosa (65 anos e mais) foi onde surgiu maior percentagem de dúvidas: 30% não soube responder à questão.
Por outro lado, a concordância com a decisão do Presidente da República diminui à medida em que se passa das classes alta e média alta (A/B) para as média baixa e baixa (C2/D), como se pode observar no gráfico abaixo. Efectivamente, nas classes mais elevadas, 75.8% concorda com a não realização do referendo sobre o aborto em Julho, enquanto que nas classes mais baixas apenas 55.8% concorda com esta decisão.

França, referendo: início da campanha oficial (actualizado)

Sofres, 12 de Maio:
Sim: 47%
Não: 53%

IPSOS, 14 de Maio:
Sim: 49%
Não: 51%

A ler com atenção: este texto de Pierre Giacometti, director da IPSOS, onde se desenvolve muito bem um argumento já adiantado aqui:

La victoire du Oui conserve en revanche très nettement la faveur du pronostic. Mais cette combinaison contradictoire du souhait et du pronostic constitue un sérieux handicap pour les partisans du Oui : elle présente le risque d'empêcher la construction d'une nouvelle et dernière dynamique de victoire dans les derniers jours de campagne.

Mas onde também, a meu ver, se retiram demasiadas interpretações daquilo que são pequenas flutuações percentuais:

C'est bien la troisième inversion de tendance qui se dessine dans cette dixième vague de l'Observatoire Ipsos. Initiée il y a une semaine lorsque le Non avait été crédité d'une poussée de trois points lui permettant de faire jeu égal avec le Oui, la progression se confirme aujourd'hui : à gauche comme à droite, le Non a encore gagné du terrain. Le gain est de deux points au sein de l'électorat socialiste, où le rapport de force apparaît, à quinze jours du scrutin, parfaitement équilibré. L'évolution est encore plus nette auprès des sympathisants UMP-UDF. En progressant de 4 points, le Non atteint 28% d'intentions de vote, contre 72% au Oui. A l'extrême gauche comme à l'extrême droite, le Non est massif et définitif.

quinta-feira, maio 12, 2005

Elogios involuntários

No in tenui labor:

Ah, que bom, férias... Tempo de descanso, paz, fruição do belo, do sublime, exploração dos sentidos, na primavera soalheira e morna, só perturbada pelo êxtase inebriante de milhares de animais, cheiros e sons. Como é bom ter férias, vacances e hollidays.
Mas não é assim. Ao contrário das férias idílicas num local paradiasíaco longe desta civilização que cheira a mofo, encontro-me justamente no local mais mofo da mofa cidade, com pessoas mofas que dizem coisas mofas. Ronald Inglehart, Robert Putnam, Pipa Norris, Hans-Dieter Klingemann, José Machado Pais, Alain Touraine, Gilles Lipovetsky, Dalton, Wattenberg, Jurgen Habermas, Boaventura Sousa Santos, André Freire , Pedro Magalhães, Manuel Castells, Bernard Manin, Anthony Giddens, entre outros.
Um desabafo...
à la prochaine!


Para o elogio ser perfeito, dispensava o Lipovetsky, só queria o Giddens e algum Boaventura anteriores aos anos 90, tirava para aí uma em cada duas páginas do Castells e punha outro "p" em Pippa. De resto, muitíssimo obrigado.

Mais UK

O americano Mystery Pollster escreve sobre as sondagens britânicas.

quarta-feira, maio 11, 2005

Voodoo?

Neste post, apontei o facto de as sondagens anteriores às sondagens "do dia" no Reino Unido terem muito maiores discrepâncias entre si do que as seguintes. E sugeri que isso podia ter a ver com três coisas:

1. Acaso;
2. Mudança da própria realidade que estava a ser descrita, anulando efeitos da variação a nível metodológico;
3. Ajustamento "indutivo" de expectativas.

Agora, um novo elemento: segundo este site, os números brutos obtidos pelas sondagens ICM e Populus davam margens muito maiores aos Trabalhistas dos que aqueles que as sondagens acabaram por dar nas suas sondagens finais e do que aqueles que acabaram por ser os resultados reais.

Ora bem. Isto é um bocado perturbante. O que é perturbante não é o facto de os números brutos serem diferentes dos números "projectados". Todas as sondagens fazem escolhas quanto ao tratamento dos dados obtidos, escolhas que visam corrigir uma série de problemas conhecidos dos processos de amostragem e inquirição: distorções entre características da amostra e características conhecidas da população; efeitos de não-resposta e recusa; efeitos do inquérito; ocultação de real intenção de ir ou não votar ou de votar neste ou naquele partido, etc.

O que é perturbante é que os resultados obtidos de uma amostra sejam tão diferentes daqueles que depois resultam dos tratamentos. Se eles são assim tão diferentes, isto significa que as pressuposições acerca daquele que é e será o comportamento dos eleitores e a sua relação com características dos inquiridos pesam tanto ou mais nas inferências que se fazem acerca da população do que a própria amostra. E se isto é assim, para quê fazer sondagens de intenção de voto? Não será preferível fazer "forecasting" na base de resultados eleitorais anteriores e de factores de previsão (economia, popularidade de líderes)?

E se as pressuposições pesam assim tanto, não se levanta a suspeita de que a convergência entre resultados de sondagens nas últimas eleições inglesas (e já agora, as portuguesas) resulte muito menos de escolhas metodológicas do que de "um bom palpite" (mesmo que o palpite seja um palpite sobre que "contas" hei-de eu fazer para que os dados brutos se convertam "naquilo que eu espero que aconteça"?).

Não é, repito, uma questão de "honestidade", mas sim uma questão de sabermos para que servem as sondagens, o que elas realmente nos dizem e como são feitas. "Ciência" ou "voodoo"?

E notem: eu ficava muito menos preocupado se, com ou sem "voodoo", as sondagens das semanas anteriores tivessem dado coisas parecidas umas com as outras e com aqueles que vieram a ser os resultados finais. Isso passou-se, mais coisa menos coisa, em Portugal em 2005. Mas não foi assim em Inglaterra. Que espécie de informação está a ser dada aos eleitores? Como é ela obtida? Podemos confiar minimamente nela? Dúvidas.

terça-feira, maio 10, 2005

Fifty fifty até dia 29?

Mais duas sondagens:

Sofres, 7 Maio:
Sim: 52%
Não: 48%

CSA, 9 Maio:
Sim: 51%
Não: 49%

Mais alguns dados interessantes:
*24% afirma não ter ainda decidido como vai votar (Sofres); entre estes, ligeira vantagem nas "inclinações" para o "Não" (Ipsos);

* Eleitores PS divididos ao meio sobre o que irão fazer (Ipsos);

* 83% dos votantes "sim" e 83% dos votantes "não" dizem que a sua escolha é definitiva (Ipsos);

* 47% acham que "Sim" vai ganhar, contra 26% do "Não". Más notícias para o "Sim": expectativa de vitória pode gerar desmobilização e pode sinalizar uma "espiral do silêncio" ("nãos" escondidos que não se revelam dado expectativa social de vitória "Sim").

A bientôt.

Fifty fifty, agora sim

Depois de dois posts intitulados "fifty fifty", sem que alguma vez o "Sim" e o "Não" em França estivessem realmente empatados nas sondagens, o IFOP e a IPSOS resolveram fazer a vontade a este vosso blogger:

IFOP, 4 de Maio:
Sim: 50%
Não: 50%

IPSOS, 7 de Maio:
Sim: 50%
Não: 50%

Sondagens UK: rescaldo final

Está tudo aqui, no UK Polling Report de Anthony Wells, ainda com mais umas sondagens do que aquelas que eu tinha incluído. Com a devida vénia, transcrevo. Para quê inventar?

So, with pretty much everything except Harlow counted, how well did the pollsters do? The bottom line is that everyone got it right - trebles all round! While NOP take the prize, having got the result exactly spot on, not only did all the pollsters get within the 3% margin of error, they all got every party’s share of the vote to within 2%. Basically, it was a triumph for the pollsters.

RESULT - CON 33.2%, LAB 36.2%, LD 22.7%
NOP/Independent - CON 33%(-0.2), LAB 36%(-0.2), LD 23%(+0.3). Av. Error - 0.2%

MORI/Standard - CON 33%(-0.2), LAB 38%(+1.8%), LD 23%(+0.3). Av. Error - 0.8%
Harris - CON 33%(-0.2), LAB 38%(+1.8), LD 22%(-0.7). Av. Error - 0.9%
BES - CON 32.6%(-0.6), LAB 35%(-1.2), LD 23.5%(+0.8%). Av. Error - 0.9%
YouGov/Telegraph - CON 32%(-1.2), LAB 37%(+0.8), LD 24%(+1.3). Av.Error - 1.1%
ICM/Guardian - CON 32%(-1.2), LAB 38%(+1.8), LD 22%(-0.7). Av.Error - 1.2%
Populus/Times - CON 32%(-1.2), LAB 38%(+1.8), LD 21%(-1.7). Av. Error - 1.6%

The other two pollsters, Communicate Research and BPIX, conducted their final polls too early to be counted as proper eve-of-poll predictions, but, for the record, both their final polls were also within the standard 3% margin of error. Their average errors were 0.9% for BPIX and 2.1% for Communicate.

The British Polling Council have a press release out with the same information (although they include the “others” in the average, and use rounded figures for the results, hence the slightly different figures. It doesn’t change the result - everyone was right and NOP did best).

What small errors there were did still tend to favour Labour rather than the Conservatives - of the seven polls above one (NOP) is spot on, one (BES) understated Labour’s lead, and five overstated Labour’s lead. This does suggest there may still be a lingering bias in the polls, but one that is now so small it is hardly worth worrying about. What is interesting is the comparison between the final result and the polls during the campaign - the results from YouGov during the campaign were pretty close to the final result throughout, especially after the first few polls that showed the parties neck and neck. In contrast during the campaign the phone pollsters showed some whopping great Labour leads that disappeared in their final polls - of all the phone polls during the campaign, only one (MORI/Observer, published on the 1st May), did not report a Labour lead larger than the 3% they finally acheived. Of YouGov’s last 10 polls of the campaign, 8 showed a Labour lead of 3 or 4 percent. It doesn’t, of course, necessarily mean that YouGov were right - the “real” Labour lead at that time could have been larger, only to be reduced by a late swing to the Lib Dems - hence the reason why we only compare the eve-of-poll predictions to the final result.

With results that are so close to one another, it’s very difficult to say that technique A worked and technique B didn’t. For what it’s worth, the spiral of silence adjustment made Populus’s final poll less accurate (ICM’s full tables aren’t available yet). At past elections ICM have carried out post election studies, ringing back don’t knows to see how they did vote in the end, so they will hopefully have a far better idea of whether the don’t knows behaved as they expected. If there were Bashful Blairites out there though, they seem to have been equally bashful about going to the polling station. That said, NOP also make a spiral of silence adjustment and it can’t have made their final figures any less accurate.

How did all the polls end up being so close, having been so different during the campaign? Well, I’m afraid there isn’t a simple answer and there’s no evidence of an evil polling conspiracy. The only pollster who I know for sure made methodological changes for their final poll was YouGov, who factored in likelihood to vote for their final prediction (it didn’t have a huge effect, but it did make their prediction more accurate).

Something completely different

Quando ouço falar em "arte mexicana", fico logo desconfiado. Começo logo a imaginar pinturas murais, estatuetas e colares de contas. O que só mostra como sou preconceituoso. Se forem a Madrid, não percam isto.

Especialmente, isto:



Já não estou tão seguro sobre a conversa que se segue, mas ajuda a perceber do que se trata:

A Morir (’til Death) by Miguel Angel Rios in collaboration with Rafael Ortega will consist of a three-channel video installation shot in Tepoztlan, Mexico; the work focuses on a popular street game called "trompos" that involves spinning tops. Viewed from multiple perspectives, the video begins with one spinning top and culminates in a cacophonous profusion of numerous tops in a single game that includes thirty of the most skilled players in town, aged 14 to 50. Through the documentation of this simple scenario, dynamics of competition, invasion and territorialism are signaled both visually and aurally. The lyrical movement of the tops is accompanied by their intense, sycopating sound. Confined within a white grid painted on asphalt, the masses speak to both space and subjectivity. The relative violence is complicated by the game’s high formality and beauty. A Morir (’til Death) negotiates both politics and poetics in abstracting narrative about urban sprawl, congestion, and war.

sexta-feira, maio 06, 2005

Resultados não definitivos UK

Labour: 36,2%
Conservative: 33,2%
Lib Dems: 22,5%

Com estes resultados, temos as sondagens mais precisas feitas no Reino Unido em muitos anos. Boa notícia. E melhor ainda que tenha sido a NOP a acertar em cheio: as sondagens NOP são coordenadas pelo Nick Moon, que esteve em Lisboa há pouco tempo e é autor de um excelente livro sobre sondagens. E a análise das sondagens NOP no Independent esteve a cargo do John Curtice, que já veio várias vezes aqui ao ICS e faz parte do conselho consultivo do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugeses.

Análise mais detalhada para a semana.

quinta-feira, maio 05, 2005

UK: as sondagens do dia

São as seguintes:



Parecem as sondagens para as últimas legislativas portuguesas: ou acertam todos em cheio ou espatifam-se todos. É extremamente curioso como sondagens que, até há dias, apresentavam discrepâncias importantes (ver aqui) convergem desta maneira no último dia, apesar de continuarem a apresentar as diferenças metodológicas anteriores. Vejo três explicações possíveis:

1. Um mero acaso;

2. A "realidade" mudou, com os eleitores a decidirem-se à última hora de forma a que as diferenças metodológicas deixem de influenciar as estimativas;

3. A terceira é algo mais perversa: quem faz as sondagens olha para um lado e para o outro, pondera os resultados que obtém de acordo com as suas expectativas daquilo que os resultados irão ser, e escolhe os métodos de ponderação e análise de resultados que mais se aproximam dessas expectativas. Resultado: como quem faz as sondagens está imerso no mesmo mundo social e comunicacional, os resultados tendem a convergir.

A terceira explicação pode ser interpretada como apontando alguma desonestidade por parte de quem faz as sondagens. Mas "desonestidade" é um bocado forte. Não acredito que alguém diga que os conservadores vão ter 36% quando as sondagem lhes dá 42%, mudando arbitrariamente os resultados que obtém. O que sucede é que aquilo que a sondagem "dá" depende de uma série de opções sobre como ponderar a probabilidade de voto, como corrigir a composição socio-demográfica da amostra, etc, etc, etc. E aquilo que acho que acontece é que essas opções, na última sondagem, são mais indutivas do que dedutivas. Ou seja: em vez de fazerem essas opções e divulgarem os números que daí resultam, os técnicos olham para os números que resultam das diferentes opções e divulgam os resultados em que mais acreditam.

Mas há aqui, claro, alguma arbitrariedade, e pode haver até um certo espírito defensivo ("se eu não me afastar muito daquilo que os outros dão, não vou ser nem muito pior nem muito melhor que eles"). Não é, propriamente, uma ciência, isso de certeza...

De resto, cerca de 25% dos ingleses dizem-se indecisos. Mais que prováveis abstencionistas.

E já agora: para além da ajuda dos seus colegas barnabitas , mais um elemento para ajudar o Daniel a perceber como se pode tomar a decisão de votar nos Trabalhistas mesmo que se discorde da actuação de Blair no Iraque:

The survey contains a sting in the tail for Mr Blair because more than half the electorate want him to resign within two years rather than carry on for another full term. And only one in three want Mr Blair to stay on longer than two years.

quarta-feira, maio 04, 2005

UK: as últimas antes do dia

Amanhã ainda são divulgadas sondagens no Reino Unido, dado que não há limitações à sua publicitação no dia das eleições. Contudo, as últimas sondagens de campanha estão feitas. Em vez de me lerem a mim, farão muito melhor em ler isto. Contudo, se ainda tiverem paciência, eis o resumo:

1. Trabalhistas à frente em todas as sondagens mais recentes. Se perdessem em votos, era o pior desempenho das sondagens britânicas desde 1992. E se perdessem em deputados, seria o maior cataclismo na história das sondagens desde que elas existem no mundo civilizado. Don't hold your breath;

2. Maior margem de vitória: 13% (Populus, 2 de Maio, telefónica);

3. Menor margem de vitória: 4% (Harris e Yougov, ambas internet polls);

4. Margem de vitória média: 8%;

5. Margem de vitória por tipo de sondagem e ordem decrescente: telefónicas; face-a-face; internet. Vamos ter um teste metodológico muito interessante, especialmente no contraste internet polls e o resto. Se as coisas voltarem a correr bem à Yougov, os efeitos no mundo das sondagens não serão negligenciáveis;

6. Quando mais exigente o filtro dos "votantes prováveis", menor a margem de vitória. Por outras palavras: eleitores Trabalhistas menos seguros de que irão às urnas;

7.Lib-Dems: em média, tendência de crescimento desde início de Abril. Mas não à custa dos Trabalhistas, e sim à custa dos Conservadores, pelo menos nas intenções de voto. Curioso e muito contraintuitivo. Claro, isto não quer dizer que haja transferências directas Conservadores-Lib-Dem's, mas sim que o saldo dos diversos tipos de transferências (de partidos para outros e da abstenção para o voto e vice-versa) tem sido favorável a Trabalhistas e Lib-Dem's desde o início de Abril. É quase garantido que vão ter o melhor resultado desde 1987, restando saber se conseguem superar 1983.

Como espremer mais algum interesse de umas eleições altamente entediantes? Difícil. A não ser para dizer que Gordon Brown é, em todas as sondagens neste momento, muitíssimo mais popular e confiado do que Tony Blair. Reforma antecipada?

Obrigado

Ao Blasfémias e ao Insurgente pelas referências. De repente, o Sitemeter dá um grande solavanco..

terça-feira, maio 03, 2005

França, poll of polls (última sondagem: 2 Maio)

Mais duas, e completámos o ciclo de todos os institutos de sondagens:

BVA, 30 Abril
Sim: 48%
Não: 52%

CSA, 2 de Maio.
Sim: 51%
Não: 49%

A poll of polls fica assim:

Aborto II

OK, o post anterior foi parcialmente ultrapassado pelos acontecimentos. Mas a questão de fundo permanece.

Aborto

Sondagem Marktest:

De acordo com o Barómetro, 54,3 por cento dos portugueses votaria a favor da despenalização, contra 28,6 que optariam em sentido contrário. Outros 16 por cento disse não ter opinião ou então não querer responder.

Para além das questões da amostragem, as respostas a questões como esta são muito sensíveis à formulação da pergunta. Seja como for, numa sondagem da Católica de 14 de Janeiro de 2004, 69% diziam que votariam "Sim" à (cito) "despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado”. 25% votariam "Não" e 6% "Ns/Nr".

Assim, à partida, das duas uma:

1. Ou a formulação da pergunta foi determinante para a diferença (mas não sei como foi formulada a pergunta na sondagem Marktest);
2. Ou o apoio à despenalização diminuiu (ou pelo menos, aumentou a incerteza).

Mais certo é que não há razões para supor que os portugueses não querem o referendo. Em Janeiro de 2004, 56% achavam que a discussão sobre o tema era "muito oportuna". Agora, há mesmo 47% que acham que o referendo à despenalização deveria ocorrer antes do referendo europeu (contra 39% que pensam o oposto). No último artigo do Público, a Helena Matos confunde os seus próprios sentimentos com os da população. Um lapso comum.

Mas atenção: na sondagem da Católica de Janeiro de 2004, questionados sobre se "deveria ser só o parlamento a decidir se haveria uma alteração às leis do aborto ou se deveria haver um referendo", 73% optavam por referendo. Eu sei que a questão tal como formulada na sondagem é algo equívoca, dado que pode haver partes da lei alteradas por referendo e outras não. Mas o sentimento geral existe. E será ele compatível com um referendo que liberaliza o aborto por vontade da mulher até às 10 semanas ao mesmo tempo que, por via legislativa, se ampliam as causas médicas justificativas do aborto até às 16 semanas? Não estará aqui parte da explicação da diminuição de 69 para 54% de apoio à despenalização?

Não seria espantoso se os nossos políticos, por inépcia ou maximalismo, fizessem com que um novo referendo voltasse a resultar na inviabilização de uma alteração legislativa aparentemente desejada pela grande maioria da população (a despenalização do aborto por opção da mulher até às 10 semanas)? Vamos ver.

segunda-feira, maio 02, 2005

Fifty-fifty two

Confirma-se isto e isto: o "Sim" em França recuperou.

IPSOS, 3o de Abril (último dia trabalho de campo):
Sim: 53%
Não: 47%

Louis-Harris, 30 Abril
Sim: 49%
Não: 51%

Outra vez o eleitorado PS:
Une inversion du rapport de force au sein de l’électorat socialiste qui pourrait s’avérer décisive
Si cette enquête témoigne d’un niveau record du Oui au sein de l’électorat de l’UMP (+3, soit + 13 en deux vagues), elle se démarque des cinq vagues précédentes par la nouvelle mobilisation en faveur du Oui parmi les sympathisants socialistes. Pour la première fois en effet depuis la mi-mars, les électeurs de la formation dirigée par François Hollande déclarent une intention de vote majoritaire en faveur du Oui. La progression est de 11 points en une semaine. Le Non reste majoritaire chez les sympathisants écologistes bien qu’en baisse de 5 points. La dynamique d’intentions de vote favorable au Oui est d’autant plus sérieuse qu’elle est associée à un brutal changement de climat politique. En matière de pronostic et de souhait, l’inversion de tendance est complète. Au sein des électorats des deux principales formations défendant le Oui, ils s’associent désormais de manière conjointe massivement à l’UMP, majoritairement au PS.

Fifty-fifty

Confirma-se a impressão já transmitida aqui: uma recuperação do Sim nas sondagens de intenção de voto no referendo em França. Nos estudos feitos no final de Abril, o Sim sobe nas sondagens IFOP (de 44 para 48%) e Sofres (de 45 para 52%), tal como já tinha subido em quase todas as restantes (excepto a BVA, mas a mais recente deles é de 19 de Abril). Porquê? Na sondagem IFOP, divulgada ontem, 54% dos simpatizantes Socialistas tencionavam votar Sim; na sondagem IFOP de 15 de Abril, 62% deles tencionavam votar Não.

UK, recta final

A quatro dias das eleições, algumas das dúvidas começam a dissipar-se. Em particular, as intenções de voto nos Conservadores desceram em três das quatro sondagens divulgadas ontem (Domingo, dia 1 de Maio). Parece confirmar-se (de forma mitigada) a ideia de que "the Conservatives' aggressive campaign to impugn Mr Blair's personal integrity is in fact fuelling a sharp rise in his popularity".

Fica assim a poll of polls a quatro dias das eleições, incluindo as sondagens NOP, Yougov, ICM, Populus, Mori e Communicate Research, do dia 9 de Janeiro ao dia 1 de Maio. É certo que os valores médios são muito influenciados pela ICM e Yougov, que têm muitas sondagens. Mas isso não faz grande diferença, especialmente tendo em conta que, desde Abril, a dispersão entre os resultados das diferentes sondagens é relativamente reduzida em comparação com o período anterior.

sábado, abril 30, 2005

Marktest, 29 de Abril

Para que servem as sondagens sobre intenção de voto nos períodos entre-eleições?

Uma coisa para que de certeza não servem é para se dizer, como aqui, que "o Partido Socialista voltaria a ganhar com maioria absoluta as eleições caso estas se realizassem em Abril, se bem que com uma menor vantagem frente ao PSD, revela o Barómetro DN/TSF/Marktest". As versões online das notícias sobre o Barómetro Marktest, quer na TSF quer no DN, são omissas na ficha técnica quanto à percentagem daqueles que não responderam ou disseram não saber em quem votariam, mas é quase certo e sabido que essa percentagem é muito superior à verificada nas sondagens imediatamente antes das eleições. Nestas circunstâncias, dizer-se que "o PS voltaria a ganhar com maioria absoluta" (ou dizer-se o contrário) é pouco menos que absurdo.

Mas isso não quer dizer que estas sondagens sejam inúteis. Por um lado, a comparação ao longo do tempo das intenções de voto, se bem que nada nos diga sobre resultados eleitorais, diz-nos algo sobre tendências de aumento ou diminuição de apoio a estes ou aqueles partidos. Por outro lado, estes dados são relativamente interessantes: poucas semanas depois das eleições de 2002, o PSD já aparecia como derrotado nas sondagens de intenção de voto e a avaliação de Durão Barroso era já predominantemente negativa; contudo, o governo PS já tem "honeymoon period". Se isto significa que os portugueses adoram Sócrates ou se simplesmente significa que preferem que não os aborreçam com política, governos e oposições pelo menos até 2009 é que os números já não esclarecem cabalmente.

quinta-feira, abril 28, 2005

As incógnitas do dia 5

David Cowling
Com um ponto muito importante que não desenvolvi no post anterior:

Labour's nightmare is that some of their 2001 voters will drift to third-placed Lib Dem candidates in key marginals with the result that a number of them will fall to the Conservatives.

E claro:

To avoid such a fate, Labour needs to motivate its supporters to turn out on polling day.


Alan Travis, no Guardian, com uma interpretação mais "optimista" dos trabalhos de Blair:

This difference underlies the central finding of this week's poll: the Conservatives' aggressive campaign to impugn Mr Blair's personal integrity is in fact fuelling a sharp rise in his popularity as the campaign goes into the final seven days.


Mas, no mesmo Guardian:

Labour is under mounting pressure in marginal seats in the face of strong voter scepticism and a disciplined Conservative attack which has reduced Labour's lead to 2% or less in key constituencies.









UK update

Os meus comentários às sondagens para as eleições britânicas do próximo dia 5 têm sido um bocado voláteis . Aqui, as coisas estavam "mais abertas do que pensava", o o Partido Conservadores "subia". Aqui e aqui, já estava tudo resolvido.

Pois, era suposto ter qualquer coisa de mais definitivo para dizer. Mas a verdade é que:

1. Por um lado, é difícil acreditar que não esteja tudo resolvido. Por razões que expliquei aqui, e que têm a ver quer com o actual funcionamento do sistema eleitoral e quer com os padrões de comportamento eleitoral, a derrota dos Trabalhistas em número de deputados é uma enorme improbabilidade, mesmo que a derrota em percentagem de votos o seja menos.

2. Contudo, por outro lado, as sondagens têm apresentados oscilações estranhas. Parte da oscilação tem a ver com as dramáticas variações metodológicas entre os diferentes institutos: uso de entrevistas face-a-face, telefónicas ou pela internet; formas muito diferentes de filtrar os "votantes improváveis" (ou seja, de lidar com o problema da "abstenção diferencial"); e formas diferentes de ajustar os resultados aos efeitos da "espiral do silêncio" (ou seja, da diferente disponibilidade de diferentes votantes para assumirem a sua escolha eleitoral).

Tudo isto para dizer que, depois de muitos dias de boas notícias para Blair, a última sondagem Mori (26 de Abril) tem resultados perturbantes:

1. Apenas 2% de vantagem para os Trabalhistas;
2. Quanto mais exigente o "filtro" dos votantes prováveis, melhores os resultados dos Conservadores. Ou seja: eleitores trabalhistas mais hesitantes se irão votar ou não. Ou seja: quanto maior a abstenção, melhor o resultado dos Conservadores deverá ser. O voto Trabalhista revela-se, em parte, soft vote.
3. 57% dos eleitores não consideram Blair "digno de confiança". E as últimas notícias não deverão ajudar muito neste capítulo.

Uma derrota dos Trabalhistas continua a pertencer ao reino das grandes improbabilidades. E a desacreditação de Blair aos olhos dos ingleses, uma tendência inexorável desde a guerra do Iraque, deverá favorecer mais os Liberais Democratas do que os Conservadores, pelo menos em termos de percentagem de votos. Mas mesmo assim, o dia 5 merece atenção. O que sucede se, em face da mais que provável vitória de Blair e da sua erosão política, os eleitores Trabalhistas decidirem ficar massivamente em casa? Não seria a primeira vez que as sondagens se equivocam de forma catastrófica no Reino Unido...

quarta-feira, abril 27, 2005

Poll of polls, referendo francês, 27 de Abril

Cá está: a média móvel das últimas três sondagens sobre o referendo francês desde Junho de 2004, baseada nos resultados da Ipsos, CSA, BVA, Louis-Harris e Sofres. A sondagem mais recente é a da IPSOS, de 22 de Abril




1. Há um ponto de viragem claríssimo em meados de Março. A sondagem Sofres de 10 de Março é a última que dá "vitória" do Sim (tal como todas as anteriores). A sondagem CSA de 17 de Março é a primeira que dá "vitória" ao Não (tal como todas as seguintes). A dinâmica do Não só emerge, portanto, imediatamente após o anúncio da data do referendo, e corresponde, segundo os vários estudos, à mobilização do eleitorado de esquerda contra a Constituição Europeia.

2. Recuperação do sim? É ainda cedo para dizer, mas as sondagens mais recentes sugerem uma recuperação do "Sim" até um ponto em que se pode falar de "empate técnico". Aqui sugere-se algo que já tinha sugerido ontem: uma forte progressão do "Sim" entre o eleitorado UMF-UMP. Contudo, o "Sim" é já a opção de cerca de 80% do eleitorado da direita não-FN. Não há muito mais espaço para progressão.

3. No início de Março, dois em cada cinco simpatizantes do Partido Socialista francês tencionavam votar "Não". Hoje, são três em cada cinco. Jospin fala amanhã ao "povo socialista". É nas suas mãos - e dos líderes do PS - que está depositado o resultado do referendo de 29 de Maio.

terça-feira, abril 26, 2005

Referendo França

IPSOS,23 Abril:
Sim: 48%
Não: 52%

A IPSOS junta-se assim à Louis-Harris e à CSA a mostrar uma diminuição das opções "Não" ao referendo, mudança fundamentalmente explicada devido à mobilização crescente dos simpatizantes da direita parlamentar (a que não será estranha a intervenção televisiva de Chirac)

Eleições UK

Vantagem dos Trabalhistas entre 10 e 5 pontos em todas as sondagens do fim de semana (ver aqui). Wake me up when it starts, pede Tim Hames no Times.

sexta-feira, abril 22, 2005

Ratzinger

Eu sei que não é o tema deste blogue, mas ler tantos disparates sobre o Cardeal Ratzinger torna-se um bocado cansativo. Quem ache que ele não passa de um "Panzerkardinal" faria bem em ler este artigo, um debate entre o "God's Rottweiler" e o perigoso conservador Jurgen Habermas. E já agora, se não for muita maçada, o nº1 do volume 156 da Brotéria (2002), com um artigo onde se menciona a recuperação feita por Ratzinger, aquando da divulgação do "terceiro segredo", das interpretações críticas do jesuíta Edouard Dhanis em relação às aparições de Fátima. Ou então leiam só isto:

"Though responses were made to his criticisms, Fr. Dhanis’ work became the reference for the adversaries of Fatima, and in progressivist circles he emerged as the leading "expert" on the subject. Father Dhanis never retracted any of his perfidious criticisms of Fatima, but his writings nevertheless continue to be consulted and referred to, by opponents of Fatima, as authoritative on the matter. For example, in The Message of Fatima, the June 26, 2000 booklet published by Cardinal Ratzinger and Archbishop Bertone, the only cited "authority" was Fr. Dhanis, whom Cardinal Ratzinger called an "eminent scholar" on Fatima." (completo, aqui, num site publicado pelos sectores ultraconservadores da Igreja Católica americana).

Curioso, não? Vantagens de ter este colega de andar no ICS...

Últimas do referendo francês

IFOP, 15 Abril: aumenta vantagem do Não
Não:56%
Sim: 44%

IPSOS, 18 Abril: aumenta vantagem do Não
Sim:45%
Não:55%

TNS- Sofres, 18 Abril: aumenta vantagem do Não.
Sim:45%
Não:55%

BVA, 21 Abril: aumenta vantagem no Não.
Sim:42%
Não:58%


Mas...
Louis-Harris, 18 Abril: diminui vantagem do Não
Sim:47%
Não:53%

CSA, 21 Abril: diminui vantagem do Não
Sim:48%
Não:52%

Tudo ainda em aberto...

No news is good news for...Labour

A leva de sondagens da última semana mostra apenas a consolidação da vantagem dos Trabalhistas. Essa vantagem oscila agora entre 2 (British Election Study, dia 20) e 8 pontos percentuais (Mori/Finantial Times, dia 19). Podendo parecer uma oscilação grande, é provavelmente irrelevante do ponto de vista da maioria absoluta de deputados.

Os resultados do BES aproximam-se muito dos resultados Yougov, por uma razão simples: os dados são os mesmos, só o tratamento é diferente. Assim, o resultado mais excitante destas eleições parece ser o que irá resultar da comparação entre os mais recentes "internet surveys" (BES, Yougov) e as sondagens "tradicionais" (telefone, face-a-face). Já os empregos dos senhores Blair e Brown parecem estar perfeitamente seguros.

sexta-feira, abril 15, 2005

França 1992-2005



Fonte: BVA

Eleições UK, 15 de Abril

Tal como sucedeu com as sondagens para o referendo europeu em França (aqui), as sondagens sobre as eleições no Reino Unido entraram em convergência: agora é a da Yougov (pdf), que depois de um mês de empates entre Trabalhistas e Conservadores dá hoje uma vantagem de 5 pontos para Blair.

Assim sendo, já só há uma sondagem que coloca Trabalhistas e Conservadores a par: a do British Election Study itself. Agora é que se vai ver quem percebe mais deste assunto: os "académicos" do comportamento eleitoral ou os "técnicos" das empresas de sondagens? Temo pelos primeiros...

quinta-feira, abril 14, 2005

Caos

O Causa Nossa dá conta de notícias sobre uma guerra de sondagens em Coimbra. Um candidato a candidato envia para os jornais resultados de uma sondagem "encomendada por um grupo de cidadãos". O outro candidato a candidato "responde com uma outra sondagem" (expressão preciosa). O jornal dá conta dos resultados genéricos de ambas ("um ponto de vantagem", "empate técnico", etc.).

A propósito das legislativas, a Alta Autoridade para a Comunicação Social já tinha emitido um comunicado sobre este tipo de situações, chamando a atenção dos órgãos de comunicação social que "ao publicarem ou difundirem dados de sondagens de opinião que não foram depositadas junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social, os órgãos de comunicação social violam a Lei das Sondagens", afirmando esperar que "as direcções dos partidos políticos tomem providências para impedir as fugas de dados de sondagens de opinião que não foram depositadas" e que "órgãos de comunicação social recusem a publicação ou difusão de dados de sondagens de opinião que lhes forem fornecidos por partidos políticos, em violação da lei e com óbvios objectivos de propaganda."

Mas isto tem várias complicações. Deste ponto de vista, a partir de que momento está um órgão de comunicação social a violar a lei das sondagens? Quando informa que lhe partidos ou candidatos lhe fizeram chegar resultados? Quando descreve genericamente esses resultados? Ou só quando apresenta percentagens propriamente ditas? E tendo em conta que a chegada desses resultados à imprensa constituem tentativas óbvias de influenciar a opinião pública e, através dela, decisões políticas (neste caso, por parte de uma direcção partidária), haverá responsabilidade directa neste caso por parte de partidos e ou candidatos na violação de lei? Qual a capacidade de vigilância e represssão da AACS, tendo em conta que este e este casos são apenas, provavelmente, a ponta do iceberg do caos sondagístico que se anuncia para estas autárquicas? Se as "fugas" são inevitáveis, deverá a AACS poder coagir os partidos a depositarem também as suas sondagens? Se não, que sentido faz o depósito? E que sentido faz, afinal, a jurisdição da AACS sobre estas matérias? Não tenho resposta certa para qualquer destas perguntas.

terça-feira, abril 12, 2005

Eleições UK, 12 Abril

A sondagem Mori, que dava anteriormente vantagem aos Conservadores, revelou-se uma freak poll. A última da Mori, de 9 de Abril, dá 7 pontos de vantagem para os Trabalhistas. A sondagem com a menor vantagem é a da Yougov (empatados, o que significa vitória confortável para os Trabalhistas em deputados). Tudo o resto coloca Blair à frente, mesmo já depois do anúncio da falência da MG Rover.

Quanto a tendências, poucos dias bastaram para que esteja cada uma para seu lado: Labour recupera terreno nas sondagens ICM, Mori, NOP e Yougov, e perde terreno nas sondagens Communicate e Populus.

Um ponto de orientação possível neste labirinto: nas últimas duas eleições, as sondagens da ICM Research foram as mais precisas...

Referendo em França (actualização)

Depois das sondagens relatadas aqui, surgiram alguns dados novos (entre parêntesis, o resultado da sondagem anterior de cada instituto):

CSA/TMO (31 Março):
Sim: 47% (45%)
Não: 53% (55%)

TNS Sofres (2 Abril):
Sim:47% (56%)
Não: 53% (44%)

IFOP (1 Abril):
Sim: 45% (47%)
Não: 55% (53%)

IPSOS (9 Abril):
Sim: 48% (47%)
Não: 52% (53%)

Louis-Harris (2 Abril)
Sim: 46% (60%)
Não: 54% (40%)

Depois das divergências das sondagens anteriores, a convergência é quase total. O "Sim" não tem mais do que 48% e o "Não" não tem menos que 52% (sondagem IPSOS).

Em Portugal, entretanto, surgiu a primeira sondagem, pela Eurosondagem (no Expresso).

Sim: 49,2%
Não: 28,6%
Indecisos: 22,2%

Se redistribuirmos os indecisos, ficamos com:

Sim: 63%
Não: 37%

A procissão ainda vai no adro...

segunda-feira, abril 11, 2005

Empresas e instituições credenciadas em Portugal

Já agora, FYI, esta é a lista das empresas e instituições credenciadas pela AACS para fazerem sondagens de opinião:

AXIMAGE - Comunicação e Imagem, Lda
DOMP - Desenvolvimento Organizacional Marketing e Publicidade, S.A
DATA CRÍTICA - Estudos de Opinião e Mercado, Lda
EUREQUIPA - Opinião, Marketing e Consultoria, Lda
EUROEXPANSÃO - Análises de Mercado e Sondagens, S.A
EUROSONDAGEM, Estudos de Opinião, S.A
EUROTESTE - Marketing e Opinião, S.
AGBN - Gabinete de Estudos de Mercado, Lda
GEMEO - Gabinete de Estudos de Mercado e Opinião do IPAM, Lda
I SEE - Comunicação e Marketing, Lda
IMR - Instituto de Marketing Research, Lda
INTERCAMPUS - Recolha, Tratamento e Distribuição de Informação, Lda.
Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa
IPOM - Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado, Lda.
MARKTEST - Marketing, Organização, Formação, Lda.
MOTIVAÇÃO - Estudos Psico-Sociológicos, Lda
NORMA - AÇORES, Sociedade de Estudos e Apoio ao Desenvolvimento Regional, S.A
NOVADIR - Estudos de Mercado e Consultadoria de Marketing, Lda
PITAGÓRICA - Investigação e Estudos de Mercado, SA
REGIPOM - Pesquisa e Opinião de Mercado, Lda
Universidade Católica Portuguesa

Autárquicas 2005: Odivelas

Sem propósitos de ser "polícia" das sondagens que vão saindo (não tenho vocação nem informação suficientes), deixo a informação relatada por um leitor, as questões que levanta, e as minhas respostas na base da informação que fornece:

Sondagem efectuada no concelho de Odivelas a 4 e 5 de Abril epublicada a 6 de Abril no jornal "Nova Odivelas" (...), pela empresa "One Press", mediante 500 entrevistas telefónicas nas 7 freguesias do concelho, com os seguintes resultados, que foram destacados na 1ª página do jornal, associados à fotografia dos respectivos "candidatos" a Presidente de Câmara :

CDU-33,10%
PSD-32,05%
PS-25,50%
(as percentagens restantes dizem respeito ao PP, aoBE e votos brancos).

"Erro de amostragem": 3,41% (com um "índice de confiança" de 95%).

Esta sondagem apresenta as seguintes particularidades:
- a empresa " One Press" não é uma empresa de sondagens, mas a sociedade comercial proprietária do jornal "Nova Odivelas";
- as perguntas das entrevistas foram realizadas com base em pressupostos, uns certos, outros mais variáveis ou indefinidos, tendo em atenção que aindan ão estão definidos todos os Candidatos a Presidente de Câmara pelos principais Partidos. Assim, o único candiadato "certo" é o da CDU, tendo o candidato do PSD sido apresentado como o "provável", e no que respeita ao PS ainda não há candidato, tendo a empresa "partido do princípio" que o candidato do PS "sairá" da escolha feita pelos orgãos nacionais do Partido Socialista, entre o actual Presidente da Câmara de Odivelas e o actual Presidente da Junta de Freguesia de Odivelas ( daí que na 1ª página do jornal aparecem as fotografias dos Candidatos da CDU e do PSD, aparecendo o resultado do PS associado ao respectivo símbolo);
- a sondagem não foi depositada na Alta Autoridade Para a Comunicação Social.

Acresce, ainda, que os resultados desta sondagem causaram uma acrescida perplexidade pelo respectivo confronto com os resultados oficiais dasúltimas autárquicas(em Dezembro de 2001) e das últimas legislativas(emFevereiro de 2005), a saber, respectivamente:- PS-41,03% ; PSD-28,30% ; CDU-20,01%.- PS-47,38% ; PSD-22,43% ; CDU-9,74%.

Posto isto e na qualidade de leigo nestas matérias, atrevo-me a deixar as seguintes dúvidas:

- As sondagens não podem/devem ser só realizadas por empresas "acreditadas" ou "reconhecidas" para esses estudos ?
As quer dizem respeito as eleições, sim. "As sondagens de opinião só podem ser realizadas por entidades credenciadas para o exercício desta actividade junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social. " - Lei 10/2000, art. 3º, n.1

- Não é obrigatório, por lei, o "depósito" das mesmas na AACS ?
Sim. "A publicação ou difusão pública de qualquer sondagem de opinião apenas é permitida após o depósito desta, junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social, acompanhada da ficha técnica a que se refere o artigo seguinte." - Lei 10/2000, art. 5º, nº1.

- Que rigor técnico-científico tem uma sondagem feita com base em perguntas que não são idênticas e com pressupostos variáveis, do género, "em qual candidato votaria, no candidato A do Partido X ou no candidato B ou C ou D do Partido Y ?" ?
Rigor no que respeita à amostragem, ou seja, à capacidade para obter uma amostra da representativa da população, podem ter. Não sei como exactamente foram feitas as perguntas, nem se o texto das perguntas foi divulgado pela imprensa. Seja como for, quando se trata de decidir o Presidente da Câmara, é muito plausível que a identidade dos candidatos seja pelo menos tão importante como o partido. Pessoalmente, parece-me que fazer sondagens sobre eleições autárquicas sem que se conheça a identidade de todos os candidatos é algo prematuro ou, pelo menos, introduz grandes limitações aos resultados que obrigam a que a sua intepretação tenha de ser extremamente cautelosa.

quinta-feira, abril 07, 2005

A subida dos Conservadores...

confirma-se. Depois das quatro sondagens relatadas aqui, nova sondagem, desta vez da Yougov:

Labour: 36%
Conservatives: 36%
Liberal Democrats: 21%

Outra excelente fonte sobre as sondagens para além desta é este site da BBC. A não perder, também, o decano, mestre dos mestres, da análise das sondagens no Reino Unido: Sir (isso mesmo) Robert Worcester.

terça-feira, abril 05, 2005

Eleições UK, a um mês de distância. Mais aberto do que se pensava...

Quatro sondagens nos últimos dois dias:

ICM:
Lab:37%
Cons:34%
Lib:21%

NOP:
Lab:36%
Cons:33%
Lib:21%

Populus:
Lab:37%
Cons:35%
Lib:19%

Mori:
Lab:34%
Cons:39%
Lib:21%

O único contraste claro é entre a sondagem Mori/Finantial Times e as restantes, devido ao facto da Mori usar um modelo de probabilidade de voto muito mais exigente que as restantes. Ou seja: só são contabilizados os votos daqueles que dizem "ter a certeza" que vão votar. Mas há duas coisas que estão a suceder e que estes números não dizem: a descida dos Trabalhistas em todas as sondagens; e o eleitorado Conservador está mais mobilizado do que o Trabalhista (como explica John Curtice).

E atenção: como foi dito aqui, devido às distorções actuais no actual sistema eleitoral britânico, os Trabalhistas podem inclusivamente perder por uma margem razoável em número de votos e ganhar em assentos parlamentares; mas perder por 5%, como se sugere na Mori, pode já ser demais, como Anthony Lewis explica aqui. Ainda não chega para Blair entrar em pânico, mas...

segunda-feira, abril 04, 2005

Referendo Constituição Europeia (França)

Pelos lados de França, os resultados do referendo à Constituição Europeia arriscam-se a fazer algumas vítimas entre as empresas de sondagens. Vejamos os resultados mais recentes:

1. Maioria a favor do "sim"
Louis-Harris (1 Março)
Sim: 60%
Não: 40%
BVA (14 Março):
Sim: 56%
Não: 44%

TNS Sofres (10 Março):
Sim:56%
Não: 44%

2. Maioria a favor do "não"
CSA/TMO (23 Março):
Sim: 45%
Não: 55%
IFOP (1 Abril):
Sim: 47%
Não: 53%

IPSOS ( 28 Março):
Sim: 46%
Não: 54%

É possível que parte das discrepâncias se devam ao facto de as sondagens que dão a vitória ao "sim" serem todas anteriores às sondagens que são a vitória ao "não". Mas isso é, certamente, apenas parte da história: quando analisamos as tendências de cada instituto ao longo do tempo, rapidamente verificamos que as diferenças entre institutos são estruturais, e não conjunturais, devendo-se certamente a opções metodológicas.

Estes referendos são o cabo dos trabalhos para quem faz sondagens. Primeiro, devido à alta abstenção, as opções que se façam para seleccionar os "votantes prováveis" são cruciais, e delas dependem os resultados.

Segundo, são eleições "pobres em informação" para os eleitores, levando a grande vulnerabilidade das preferências em relação a factores conjunturais e a que pistas normalmente relevantes noutros actos eleitorais - e que dão estabilidade a essas preferências (identificação partidária, por exemplo) - sejam aqui menos relevantes. Na sondagem Louis-Harris, mais de um terço daqueles que exprimiram uma intenção de voto disseram que ainda podiam mudar de ideias.

Finalmente, do ponto de vista da leitura pública dos resultados, os referendos são impiedosos para as empresas de sondagens: se uma empresa diz que o "não" tem 51% e o resultado acaba por ser 51% para o "sim", essa sondagem"falhou", mesmo que o erro esteja dentro da margem do erro aleatório (que é mais elevada, precisamente, quanto mais próximo de 50% seja o resultado a estimar). Uma grande dor de cabeça, de que eu não me irei livrar daqui a uns meses...

Seja como for, sem querer colocar completamente em causa a realização de referendos sobre estes e outros temas (o assunto é demasiadamente complicado para despachar num post), importa notar como são por vezes usados para outros fins que não apenas os de apreciar os méritos e os deméritos do assunto em análise. Por exemplo, todas as sondagens dizem que os simpatizantes dos partidos da oposição em França são tendencialmente (quando não maioritariamente) a favor do "não", sendo certo que alguns deles irão usar o referendo como punição a um executivo e um presidente que sofrem hoje de uma péssima imagem (no último estudo da TNS Sofres, 62% dos franceses dizem não ter confiança em Chirac, percentagem que aumenta para 71% no caso de Raffarin).

E aquilo que faz muitos sentirem-se à vontade para usar o referendo para fins que não os de apreciar a "bondade" ou "maldade" da CE é o facto de acharem que o desfecho é, em si mesmo, pura e simplesmente irrelevante: na mesma sondagem, 33% dos inquiridos dizem achar que a vitória do sim ou do não não tem qualquer importância para a França (fenómeno que ajuda aqueles que votariam sim a não se desclocarem à urnas e outros a usarem o referendo para enviar sinais de insatisfação com o governo). Um aviso à navegação cá para os nossos lados...

sexta-feira, abril 01, 2005

Mais autárquicas (actualizado)

Recebi hoje o seguinte e-mail, enviado por Susana Isabel Silva, directora técnica do IPOM (Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado):

Longe está o período de campanha das eleições autárquicas, mas a polémica já começa a ser lançada em torno das sondagens políticas realizadas a nível autárquico. Será isto ainda um sintoma do que se verificou durante a campanha eleitoral para a Assembleia da República? Ou serão simplesmente dúvidas de quem não tem a correcta informação sobre os dados publicados pela imprensa regional?

Parece-me, em meu entender, ou melhor, quero acreditar, que se trata da segunda hipótese. Digo isto, porque analisando o exemplo enunciado no blog no passado dia 28 de Março, o e-mail comentado apresenta algumas incorrecções face à ficha técnica publicada pelo jornal O Comércio do Porto:

- A sondagem a que o autor do e-mail se refere é constituída por 598 indivíduos inquiridos e não por “cerca de 700”;
- Não existe qualquer referência, nem na ficha técnica nem na peça escrita pela jornalista, ao número de respostas validadas, onde desconheço a proveniência do valor 500.

Quanto à representatividade das sub-amostras obtidas pela desagregação a nível de freguesia, concordo que uma freguesia onde foram inquiridas 8 pessoas não mereça destaque de análise face às restantes, dada a sua reduzida dimensão. Mas isso é um problema comum da análise efectuada pela maior parte dos meios de comunicação social. Parece-me abusivo questionar a credibilidade técnico-científica das sondagens realizadas em função das interpretações que delas se fazem.


Susana Isabel Silva
Directora Técnica
IPOM – Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado


Ora bem. Pela minha parte, queria dizer que nunca cheguei a ver a notícia onde eram publicados os dados da sondagem mencionada no e-mail que citei aqui. Limitei-me a responder a uma pergunta que me foi colocada que, recordo, era a seguinte:

"Parece-lhe lícito desagregar à freguesia uma sondagem concelhia com cerca de 700 inquiridos por telefone e cerca de 500 respostas validadas?"

Em face do exemplo fornecido (uma freguesia com 8 inquiridos), respondi que não, pelas razões aqui expostas, e recordo também que concentrei a minha análise não na "credibilidade técnico-científica das sondagens realizadas" mas sim, exclusivamente, nas "interpretações que delas se fazem" (terminei o meu post dizendo: "Um erro muito comum nas análises das sondagens feitas na imprensa").

Ou seja, não questionei a credibilidade do trabalho feito: não podia, porque não o conhecia, ainda não o conheço (só agora fiquei a saber quem o conduziu). E também não creio que o mail que recebi tivesse como intenção fazê-lo (dado que a dúvida expressa por quem o enviou se reportava à desagregação dos dados e não a qualquer aspecto técnico ou metodológico da realização do estudo).

Entretanto, estou certo que os responsáveis do IPOM já terão feito notar ao jornalista do Comércio do Porto que o facto de ter andado entretido a calcular e apresentar percentagens por freguesia quando tem sub-amostras de 8 inquiridos é algo que não só "não merece destaque de análise" mas também não faz qualquer espécie de sentido do ponto de vista estatístico...

Actualização: do IPOM, chega-me a informação de que, de facto, contactaram o responsável pela notícia. E mais me dizem que:

Penso que uma forma de evitar este tipo de situações passará pela formação pedagógica dos jornalistas, por parte das empresas de estudos de mercado e sondagens, no sentido de os elucidar em relação às análises e interpretações que poderão ser feitas a partir dos dados fornecidos pelos mesmos. Tentamos ao máximo, no nosso caso, ter sempre este tipo de procedimento junto dos nossos clientes.

100% de acordo.