segunda-feira, julho 04, 2005

A saída de O'Connor (actualizado)

Sandra Day O'Connor vai sair do Supremo Tribunal americano. "Moderate conservative", é como é descrita pela imprensa. As análises de comportamento judicial confirmam: O'Connor votou contra precedentes ditos "liberais" 70% das vezes, enquanto só o fez para precedentes "conservadores" em 30% das vezes.* Contudo, num tribunal maioritariamente conservador (muito mais conservador do que nos tempos de Fortas, Warren, Brennan ou Marshall), O'Connor até faz figura de liberal, tendo à sua esquerda apenas juízes como Breyer ou Ginsburg. Os últimos, aliás, foram ambos nomeados por Clinton. O resto são nomeações de presidentes Republicanos.

Será talvez um exagero dizer-se que "the Senate debates may prove more divisive than those over Judge Robert Bork, a conservative rejected by the Senate in 1987, and Justice Clarence Thomas, who became the Supreme Court's most conservative judge after winning narrow Senate confirmation in 1991". É difícil imaginar algo, à excepção de uma guerra civil, que possa ser "more divisive" que as nomeações de Bork e Thomas.

Mas não vai ser bonito. Para já, a coisa não parece muito favorável aos Democratas:

1. Bush não concorre a novas eleições, logo, sente-se menos constrangido;

2. Do ponto de vista do conteúdo das políticas públicas, os Democratas têm muito a perder com a entrada de alguém hostil à affirmative action ou ao aborto;

3. Os Republicanos poderiam ter muito a perder do ponto de vista eleitoral, ao apresentarem-se como excessivamente conservadores. Mas o que se passa é que:

In general, is the United States Supreme Court in-step with your beliefs, out-of-step with your beliefs, do you not know enough about the court to have an opinion?
In step: 27%
Out of step : 53%
Don’t know: 20%

Survey USA, Julho 1, N=1200, Telefónica

E agora perguntamo-nos : out of step em que sentido? Neste:

Suppose one of the U.S. Supreme Court justices retires at the end of this term. Would you like to see President Bush nominate a new justice who would make the Supreme Court more liberal than it currently is, more conservative than it currently is or who would keep the Court as it is now?

More Liberal: 30%
More Conservative: 41%
Keep As It Is Now: 24%
Unsure: 5%


Gallup, Junho 16-19, N=1006.

Mais conservador? Com certeza, arranja-se já.

P.S.- Sobre o mesmo tema, ver os posts do Causa Nossa e do Insurgente (mas o que quer dizer AAA com "o sinal correcto")?

*Jeffrey A. Segal e Harold J. Spaeth, The Supreme Court and the Attitudinal Model Revisited. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2002.

sábado, julho 02, 2005

Zapatero sabe o que faz

Opina, 29 Jun, N=1000, Telefónica

Apoia ou rejeita a decisão do governo em legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo?
Apoia: 63%
Rejeita: 30%
Ns/Nr:6%

sexta-feira, julho 01, 2005

Exterminado implacavelmente?

Field, 13-19 Junho, N=711, votantes recenseados da Califórnia, telefónica

Suppose that governor Arnold Schwarzenegger runs for re-election next year. As things stand now, are you inclined to vote to re-elect Schwarzenegger as governor?

Inclined: 36%
Not inclined: 57%

É melhor esperarem sentados

Knowledge Networks / Program on International Policy Attitudes, Junho 22-26, N=812

As you may know, at the G-8 summit there will be discussion of the idea of all the wealthy countries committing at least seven tenths of one percent of their gross domestic product to reducing poverty and disease, and promoting economic development in poor countries, especially in Africa. If the other wealthy countries are willing to make this commitment, do you think the U.S. should or should not be willing to make such a commitment?

Should: 65%
Should not: 29%
No answer: 6%

Contudo...

Zogby America Poll. June 27-29, 2005. N=905 likely voters nationwide. MoE ± 3.3 (for all likely voters).

"Do you agree or disagree that if President Bush did not tell the truth about his reasons for going to war with Iraq, Congress should consider holding him accountable through impeachment?"
Agree: 42%
Disagree: 50%
Unsure: 8%

Mas nós gostamos dele na mesma...

Zogby America Poll. June 27-29, 2005. N=905 likely voters nationwide. MoE ± 3.3.

Overall, how would you rate President Bush's performance on the job . . . ?"
Excellent/Good: 43%
Fair/Poor: 56%
Unsure:1%

"Is your overall opinion of George W. Bush very favorable, somewhat favorable, somewhat unfavorable, or very unfavorable, or you are not familiar enough to form an opinion?"
Favorable: 50%
Unfavororable: 48%
NotFamiliar/Unsure: 1%

Fonte: Polling Report

Voltamos ao mesmo

Correio da Manhã, 26-6-05

Ainda ontem, o semanário ‘Expresso’ publicava uma sondagem onde o candidato apoiado pelo PSD, Carmona Rodrigues, ganhava a autarquia com uma margem folgada – 41 por cento, contra 33 por cento de Carrilho.Confrontado com os números, o candidato socialista contrapôs com as conclusões de uma outra sondagem, esta encomendada pelo PS e realizada pela Metris, que lhe dava a vitória.“Hoje [sexta-feira] recebi os resultados de uma outra sondagem, feita em urna – não como esta que é telefónica – com a proporcionalidade das freguesias, dos estratos sociais e profissionais, e que me dá 39, a Carmona Rodrigues 33, ao Partido Comunista 12, ao Bloco 9 e ao PP 5”, especificou.

Se bem que neste caso, ao contrário de aqui, é altamente provável que a sondagem exista. Mas o problema não é esse...É este.

Há aqui alguém que anda seriamente enganado...

Marktest, 18-19 Maio, N=811, Telefónica, Quotas
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 54,5%
Não: 7,3%
Ns/Nr: 38,2%

Eurosondagem, 6-8 Junho, N=1057, Presencial (urna), Estratificada Aleatória
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 50,8%
Não: 49,2%

Marktest, 14-17 Junho, N=800, Telefónica, Quotas
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 36,6%
Não: 22,8%
Ns/Nr: 40,6%

Católica, 18-20 Junho, N=1354, Presencial, Estratificada Aleatória
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 43%
Não: 25%
Ns/Nr:33%

quinta-feira, junho 30, 2005

Alemanha, 20-24 Junho

Forsa, N= 2504, Face-a-face

What party would you support in Germany’s next federal election?

CDU-CSU: 47%
SPD: 26%
PDS/WASG: 11%
Grüne: 7%
FDP: 6%

terça-feira, junho 28, 2005

Alemanha, 21-23 Junho

FG Wahlen, N=1175, Telefónica

What party would you support in Germany’s next federal election?

CDU-CSU: 44%
SPD: 27%
Grüne: 9%
PDS/WASG: 8%
FDP: 7%

Adeus Fraga

Do Vieiros:

"Logo dunha semana de incerteza o voto extranxeiro ratificou a maioría absoluta, 38 escanos, conseguida pola coalición do Partido Socialista de Galicia e o Bloque Nacionalista Galego, que lle permiten acceder ao goberno rexional, logo de catro mandatos sucesivos do veterán e ex ministro do ditador Francisco Franco, Manuel Fraga". Así interpreta os resultados o diario arxentino Página 12."Fraga perde o poder en Galiza, o bastión da dereita española", titula o xornal arxentino Clarín. O corresponsal do diario, Juan Carlos Algañaraz, conta que "os populares perderon o seu máis emblemático fortín político e tamén teñen que afrontar a derrota do seu líder histórico, que gobernou Galiza durante 16 anos". A analista Paula Lugones comenta ao respecto que "o PP temía o efecto dominó que se iniciou coa debacle conservadora nos comicios xerais de 2004" e opina que malia que "a derrota foi moito máis axustada do que agoiraban as sondaxes" o PP debería "pasar con urxencia a unha etapa de profunda autocrítica para analizar que falla na súa sintonía coa sociedade".

"A derrota do PP ponlle fin ás esperanzas de Manuel Fraga Iribarne, 82 anos, antigo ministro de Franco, de efectuar un quinto mandato consecutivo á cabeza do Parlamento rexional", recolle Le Nouvel Observateur. A publicación francesa fai referencia á "debilidade do PP" e comenta o peso da emigración galega, afirmando que "estes emigrantes son resultado do éxodo de máis de dous millóns de persoas entre a fin do XIX e a primeira metade do S.XX, empurrados por unha fame nada, coma en Irlanda, da enfermidade da pataca e logo pola represión do rexime franquista".

En Portugal o Público destaca no titular que "Fraga Iribarne deixa poder após 16 anos consecutivos de maioria" e relata no interior que o líder do PP "fixo ouvidos xordos aos argumentos na súa contra, motivados pola idade e polas reservas de moitos sobre a súa saúde, e ignorou as acusacións da oposición de que converteu Galiza no seu feudo, e as observacións sobre o seu pasado franquista e as críticas aos seus excesos verbais, rematando cunha media derrota".

segunda-feira, junho 27, 2005

Galiza

Vai-se conhecer hoje a contagem de votos dos emigrantes e, logo, se o PP fica com ou sem a maioria absoluta. A coisa, no entanto, começa a ganhar contornos tipo "Florida". Espero que não passe daqui:

A Xunta Electoral de Pontevedra decidiu declarar "votos inexistentes" todos aqueles nos que non consta a data en orixo e traen como única referencia a data do aeroporto de Barajas posterior ao 18 de xuño, último día para que os emigrantes puidesen exercer o dereito a voto. O PP anunciou que recorrerá esta decisión.
Un dos avogados do PP, Tomás Iribarren, mostrouse en contra desta decisión da Xunta Electoral provincial porque "hai fórmulas xurídicas como probas testemuñais e diversa documentación para acreditar a data na que se emitiu o voto".Pola contra, o secretario de Organización do PSdeG, Ricardo Varela, aplaudiu a decisión e considera que se axusta a xurisprudencia electoral. "É lóxico que eses votos se consideren inexistentes porque ao non ter a data do país de orixe non se pode garantir inequívocamente que o voto se exerceu dentro do prazo legal", sinalou.



Entretanto, a propósito do fiasco das sondagens à boca das urnas, recebi esta interessante mensagem, que publico com atraso (estive fora):

Tiveches noticia das sondaxes que se fixeron públicaso 19-X, á hora do peche dos colexios eleitorais? Todas daban resultados moi semellantes, cun PP arredor dos 34 ou 35 deputados, claramente derrotado polo conxunto da oposición que acumularía 40 ou 41. Non foi así,como ben sabes.

Resulta revelador de existencia de amplísimas bolsas de voto opaco ou oculto, que até ode agora aquí apenas se daban (nas anteriores autonómicas as sondaxes cravaron os resultados finais, aínda que tamén é certo que daquela a victoria do PP era moi contundente e deixaba pouco espazo á dúvida).

Quizá isto sirva para que os institutos de opinión empecen a re-pensar o xeito de facer sondaxes eleitorais, e a tratar de ver como minimizar as marxes de erro na interpretación dese voto indeciso e na difícil asignación de escanos a partir do método D'hondt, onde unha mínima variación na porcentaxe devoto prevista pode transformar radicalmente os valoresdos cocientes. Como resolver ese problema? "Dificil cuestión esa é",que diría Yoda, o de "Star wars"...

Errata

O leitor atento do Público poderá ter notado duas coisas:

1. Na peça "Trabalhadores do sector privado a favor da redução de privilégios dos funcionários públicos", quando a jornalista (Anabela Campos) fala dos trabalhadores do sector privado (ou "trabalhadores fora da função pública"), refere-se invariavelmente às percentagens de respostas calculadas em relação ao total de "Outros". Mas quando se olha para os quadros com atenção, verifica-se que os "Outros" incluem não apenas os trabalhadores do sector privado, mas também estudantes, pensionistas, desempregados e domésticos(as). Posso-vos dizer que o fundamental das afirmações feitas no texto continua a ser correcto, mas falta-lhes esta precisão.

2. Na peça da passada 6ª feira, o gráfico que se referia à percentagem de eleitores que dizem que "nenhum partido da oposição faria melhor que o actual governo tinha uma gralha". 63% dizem que Não, em vez de dizerem que Sim. O texto que comentava estas repsostas, aliás, estava correcto.

Questões e opções de resposta em sondagens

Sucede por vezes que sondagens publicadas na mesma altura apresentam resultados diferentes. Há, à partida, várias razões possíveis para que isso suceda: a própria margem de erro amostral, diferentes opções na selecção das amostras, trabalhos de campo realizados em dias diferentes (podendo, logo, captar mudanças de curto-prazo nas preferências dos eleitores), etc.

Uma fonte adicional de discrepâncias é a formulação das perguntas. Há muito tempo, citei aqui um autor que me parece muito importante nestas matérias (John Zaller). Zaller tem sugerido a ideia de que as pessoas não têm, na verdade, opiniões. O que elas têm é uma série de "considerações" dentro da cabeça, a favor ou contra (ou simplesmente a propósito) das matérias sobre as quais são questionados em inquéritos. Quando são inquiridos, seleccionam uma dessas considerações de forma mais ou menos aleatória e despacham a resposta, coisa que, aliás, permite que respondam uma coisa e o seu contrário com 10 minutos de diferença (esta experiência foi feita...). Isto não significa que, em agregado, não haja estabilidade nas opiniões de um indivíduo ou de uma população. As "considerações" que cada um tem na cabeça não estão lá por acaso, e mesmo que estivesse, a lei das médias gera estabilidade geral. Mas sugere que a captação de opiniões através de inquéritos é uma coisa muito frágil, muito e especialmente dependente do estímulo concreto que é fornecido pela formulação da pergunta...

Toda esta conversa a propósito das sondagens de hoje no Público e no DN. Fichas técnicas e alguns resultados:

DN: Marktest, 14-17 Junho, N=813, Quotas, Telefónica.
Público: Católica, 18-20 Junho, N=1354, Estratificada Aleatória, Presencial.

1. DN. "Concorda com as medidas do Governo para combater o défice?"
Sim: 40%
Não: 44%
Ns/Nr: 16%

Público: "Recentemente, o governo aprovou uma série de medidas para reduzir o défice do Orçamento de Estado. Em geral, diria que concorda com estas medidas, que discorda delas ou que ainda não sabe o suficiente para se pronunciar?"
Concorda: 27%
Discorda: 39%
Não sabe o suficiente para se pronunciar: 32%
Não responde: 2%

2. DN: "Concorda com a subida da idade de reforma para 65 anos?"
Sim: 30%
Não: 63%
Ns/Nr: 4%

Público: "Queria pedir a sua opinião sobre algumas dessas medidas concretas. (...) Concorda com ou discorda da aproximação da idade legal de reforma na função pública à idade legal de reforma no sector privado?"
Concorda: 58%
Discorda:32%
Ns/Nr:10%

Quais as "melhores" estimativas das opiniões da população? À falta de erros graves na formulação das perguntas, não me parece que haja resposta óbvia. Por exemplo, a pergunta DN sobre as medidas do défice impede que os eleitores de "refugiem" na opção "não sei", obtendo uma divisão mais clara das opiniões dos eleitores. Mas não será que, por isso mesmo, acaba por captar uma série de "não opiniões", facilmente modificáveis a curto-prazo?

E o que dizer da idade de reforma, em que os dois inquéritos produzem resultados aparentemente contraditórios? Mas serão eles verdadeiramente contraditórios? A pergunta DN usa a linguagem mais coloquialmente aceite para descrever a medida. Mas captará ela a substância dessa medida? A pergunta do Público usa a linguagem que o Primeiro Ministro usou no parlamento para apresentar a medida. Mas não condicionará as opiniões ao estímulo que o governo quis dar e à forma como ele quis apresentar a medida?

Dúvidas para as quais não tenho resposta inequívoca. A não ser para comentar o poder e a importância da linguagem e do discurso, não apenas nos inquéritos, mas também na política em geral. Uma mesma medida pode ser enquadrada pelo discurso político de formas diferentes, e a forma que acaba por prevalecer na consciência dos eleitores pode condicionar o seu apoio ou a sua oposição a essa medida...

Autárquicas, Lisboa

Eurosondagem, 20-22 Junho, N=1525, Aleatória, Telefónica.

PSD- Carmona Rodrigues: 41%
PS- Manuel Maria Carrilho: 33%
CDU-Ruben de Carvalho: 9%
BE-José Sá Fernandes: 8%
CDS/PP- Maria José Nogueira Pinto: 4%

A soma dá 95%. Pela notícia online, a única a que tive acesso, não se percebe se estamos perante indecisos, outros, brancos/nulo, ou uma qualquer combinação dos anteriores, mas é provável que os 5% que faltam correspondam a OBN (outros, brancos e nulos).

segunda-feira, junho 20, 2005

Peritos

Vale a pena ler este post de Pacheco Pereira (PP). A linha é, de facto, muito fina - se é que existe - entre a contribuição do "politólogo" que pode adiantar qualquer coisa ao conhecimento de um determinado fenómeno político e a contribuição que é uma "opinião política como qualquer outra". E partilho da preocupação com o facto de essas contribuições, sejam elas meras "opiniões" ou não, aparecerem por vezes enquadradas com uma aura especial de "isenção e intangibilidade". Se um "politólogo" ou qualquer outro "cientista" (atenção às aspas) é criticado (por vezes com inusitada violência) pelos seus erros e omissões no interior da própria academia, como imaginar que pudesse estar isento de críticas quando se desloca à "praça pública"?

Contudo, será que tudo aquilo que os "politólogos" dizem na comunicação social se resume, como defende PP, a "truísmos" ou "opiniões políticas como quaisquer outras"? Será que toda e cada uma (ou até a maior parte) das intervenções públicas de académicos que estudam fenómenos políticos se encaixam nestas duas categorias? Eu gostaria de pensar que não, mas Pacheco Pereira lá terá a sua "opinião" sobre o assunto, se bem que ela própria esteja sujeita - porventura com tanta ou tão pouca justiça - a ser descrita também como meramente "política" (ver aqui).

Mas mesmo que Pacheco Pereira tenha razão em descrever todas as contribuições "não truísticas" dos académicos que estudam os fenómenos políticos como "opiniões políticas ", qual é exactamente o problema? O que o faz pensar que essas opiniões são "como quaisquer outras"? Não poderá o debate político eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas "opiniões políticas" são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso? Ficamos a perder assim tanto com isso?

O discurso político sobre a economia e a política nos Estados Unidos fica a perder muito com as opiniões dos economistas e dos politólogos que "descem" da academia para dizer o que pensam informados por aquilo que sabem ou julgam saber ao longo de anos de actividade académica? Não será que o que nos falta é, precisamente, um maior número de public intellectuals, pessoas capazes de, sem abdicar de darem as suas opiniões e de explicarem "de onde vêm", sejam também capazes de as dar fazendo a ponte para aquilo que na academia se julga saber sobre os temas em discussão? (e não será um dos problemas do debate político nos Estados Unidos o declínio desses public intellectuals e sua crescente substituição por um exército de political pundits, pessoas cuja única e exclusiva actividade é a de...dar opiniões?).

Ou será que devemos concluir que o protagonismo no debate político em Portugal deve ser dado exclusivamente a pessoas cuja actividade fundamental é a de fazer política, mas que, apesar de nunca esconderem que estão a dar a sua "opinião", fazem-no manipulando o abundante capital simbólico que recolhem da sua suposta condição de "académicos", nunca se rebelando contra esse enquadramento que deles é dado nos media?

13 dias e a "vontade do povo"

1. Dinamarca, Vilstrup/Politiken, 3 de Junho, 1037 entrevistas, telefónica

Should the scheduled referendum on the European Constitution take place, or be called off?
Denmark should still hold the referendum as scheduled: 53%
The referendum should be called off in light of the recent rejections: 31%
Undecided: 16%

2. Dinamarca, Catinét Research, 16 Junho, 1020 entrevistas.

Should the government stand by its plan to hold a referendum to ratify the European Constitution?
Yes: 33%
No:50%
Unsure: 17%

Contas galegas

PP: 44,9% (37)
PSdeG: 32,5% (25)
BNG: 19,6% (13)

Mas...falta contar os votos da emigração galega. O que pode acontecer?

Ver aqui:
"a emigración galega responde de xeito case sistemático a un mesmo patrón de voto. Nas eleccións autonómicas como nas xerais, a diáspora galega tradicionalmente sempre lle daba o trunfo ao partido que goberna no Estado, quer o PP quer o PSOE, sen importar cal dos dous está a gobernar en Galiza (excepto nunha ocasión, nas autonómicas de 1993, onde o PP gañou ao PSOE por pouco), mentres que o BNG sempre obtivo porcentaxes moi reducidas de voto (non atinxiu nunca unha porcentaxe superior ao 7%)."

E aqui:
"Tal e como están as cousas, o PP necesitaría conseguir arredor de 10.000 votos dos emigrantes máis co PSOE en Pontevedra para poder conseguir o escano 38 que lle devolvería a maioría absoluta. Nas eleccións de 2001, o PP logrou en Pontevedra 13.292 votos procedentes do CERA; o PSOE, 4.559 e o BNG 1.186. Con estes resultados, o PP non renovaría a maioría absoluta, pero polo pelo dun carneiro. Haberá por tanto que agardar 8 días para coñecer o desenlace".

Quanto às sondagens, a mais recentes estiveram todas muito próximas- como podem confirmar aqui - à excepção da Opina de 12 de Junho (curiosamente, a que foi realizada mais perto das eleições. Já no referendo francês tivemos um fenómeno semelhante...).

sábado, junho 18, 2005

Autárquicas, Sintra

Eurosondagem, 13-15 Junho, N=1011, Telefónica.

PSD/CDS (?) - Fernando Seara: 33%
PS - João Soares: 33%
CDU: Batista Alves: 8,5%
BE - João Silva: 7%
Outros: 4,5%
Indecisos: 15%

Autárquicas, Porto

Eurosondagem, 7-9 Junho, N=1025, Telefónica
PSD/CDS (Rui Rio): 39%
PS (Francisco Assis): 33%
CDU (Rui Sá): 9%
BE (Teixeira Lopes):3%
Outros:5%
Indecisos: 11%

sexta-feira, junho 17, 2005

A opinião pública

Há dias, acabei de ler o Saturday do Ian McEwan. Não estou particularmente impressionado. Gosto muito de alguns livros anteriores. Atonement mais que todos, talvez, se bem que The Innocent menos que todos os outros, de certeza. Ponho este algures no meio.

Mas há no livro uma passagem daquelas que se pode pedir para "comentar" num teste de uma qualquer cadeira de "Estudos de Opinião Pública". A personagem principal é Henry Perowne, um neurocirurgião, meia-idade, vagamente progressista, se bem que no alto de uma apoteótica trajectória de ascenção social até à upper middle class, já pouco recordado dos tempos em que era estudante e vivia com a mulher e a filha num apartamento minúsculo e já nada envergonhado do seu Mercedes S500.

O Saturday do título é um dia concreto, o da manifestação em Londres contra a guerra no Iraque. A certa altura, Perowne comenta algo indignado que estranha que na manifestação não haja cartazes contra a tortura e a opressão no Iraque. E diz que nunca poderia juntar-se a esta manifestação. Apesar de não estar certo das razões da guerra, teve um paciente exilado iraquiano que lhe contou como foi torturado (e por isso, só as razões "humanitárias" da guerra o poderiam persuadir, the only case for the war worth making).

Mas num dispositivo típico do livro - que nunca nos deixa interpretá-lo como um panfleto sobre a guerra nem nos alivia incertezas sobre a posição de McEwan ou Perowne - logo após contar isto, Perowne distancia-se imediatamente da sua indignação inicial, e reflecte: se não lhe tivesse calhado aquele paciente iraquiano, se não tivesse conhecido em primeira mão as histórias de tortura, poderia perfeitamente estar ali com eles na manifestação. Da mesma maneira que, alguns deles, estão ali por outras e tão boas razões - "reais", vividas, outros "iraquianos". A vida é feita de acidentes de percurso. A opinião pública é uma coisa completamente aleatória.

quinta-feira, junho 16, 2005

A teoria dos dominós

Irlanda, TNS, 8 Junho, N=1000, Telefónica:

Should the Irish government go ahead with a referendum on the European Constitution?
Should go ahead: 45%
Should not go ahead: 34%
Don’t know: 21%

How would you vote if a referendum takes place?
In favour :30%
Against: 35%
Not sure: 35%

Mais "Minho Norte"

Com muito maior conhecimento de causa sobre as sondagens para as eleições de 19 na Galiza, ver aqui os artigos de Carlos Neira.

quarta-feira, junho 15, 2005

Entretanto, no "Minho Norte"

Fui desafiado há uns tempos pelo dias estranhos, um blogue da Galiza ("Minho Norte", tendo em conta que, para eles, Portugal é "Minho Sul") a escrever qualquer coisa sobre as eleições autonómicas do próximo dia 19. Hesito, porque sei muito pouco - muito menos do que devia e gostaria - sobre a política galega. Mas não custa alinhar alguns resultados de sondagens e pensar um pouco sobre elas, rezando para que as minhas fontes estejam correctas. Por ordem cronológica crescente, as que detectei (redistribuo indecisos e arredondo casas decimais):

1. Universidade de Santiago de Compostela, Novembro-Dezembro 2004, N= 1200, face-a-face.
PP: 31% (34-35 deputados)
PSdeG: 28% (23-24 deputados)
BNG: 21% (17 deputados)
Outros: 20% (tantos?)

2. Instituto Opina, 2-4 Maio, N=1500, ?.
PP: 35% (36-37)
PSdeG: 34% (27)
BNG: 13% (11-12)
Não tem outros.

3. Sondaxe, 27 Abril-4 Maio, N=4000, ?.
PP: 45% (36)
PSdeG: 32% (24)
BNG: 21% (15)
Outros/brancos: 2%

4. CIS, 29 Abril-11 Maio, N=1600, face-a-face.
PP: 46% (36)
PSdeG: 33% (23)
BNG: 21% (16)

5. Instituto Opina, 5 Junho, N=1000, face-a-face.
PP: 45% (35-37)
PSdeG: 33% (25-27)
BNG: 20% (13)

6. Anova Multiconsulting, 31 Maio-7 Junho, N=2000, telefone:
PP: 47% (38)
PSdeG: 31% (22)
BNG: 19% (14)

7. Sigma Dos, 6-8 Junho, N=800, telefone.
PP: 47% (37-38)
PSdeG: 30% (23-24)
BNG: 20% (13-14)

8. Instituto Opina, 12 Junho, N=1000, face-a-face.
PP: 42% (34-36)
PSdeG: 35% (25-26)
BNG: 19% (15)

Há ainda outras duas de um instituto chamado Infotécnica, mas do qual apenas obtive distribuições de deputados. Ambas as sondagens, uma de Abril e outra de Maio, deixam tudo em aberto quanto à maioria absoluta, para a qual o PP precisa de 38 deputados. O sistema eleitoral galego tem, segundo a explicação do dias estranhos, uma cláusula-barreira de 5%, abaixo da qual o partido não obtém deputados, o que basicamente transforma a coisa num jogo PP-PSdeG-BNG.

O que posso dizer sobre estes resultados? Três coisas:

1. Dos vários institutos que fizeram sondagens, os mais conhecidos e reputados (e de dimensão nacional) são o Opina, a Sigma Dos e, claro o CIS. Mesmo que quiséssemos dar maior credibilidade aos resultados destes - e não estou seguro que assim seja - isto não nos levava longe. Enquanto a Sigma Dos dá um resultado mais lisonjeiro para o PP, o CIS e o Opina negam a maioria absoluta ao PP.

2. Agora, para mentes perversas. Em que meio de comunicação são divulgadas as sondagens Opina? El Pais e Cadena Ser (Grupo Prisa). Em que meio de comunicação são divulgadas as sondagens Sigma Dos? El Mundo. A quem pertence o CIS? À Presidência do Conselho de Ministros de Espanha. Tirem daqui as conclusões que entenderem. Eu, por mim, não queria tirar muitas, mas que é tentador, é.

3. Se há alguma conclusão que se possa, com muito cuidado, tirar, é esta: nenhuma das sondagens que sabemos ser conduzidas face-a-face dá maioria absoluta ao PP, e nenhuma passa dos 46% das intenções de voto. Ambas as sondagens que sabemos ter sido conduzidas pelo telefone dão 47% e abrem a possibilidade de maioria absoluta.
O que vou dizer de seguida baseia-se em muito poucas observações e muito palpite, mas eu confiaria mais nas sondagens face-a-face. Quando um partido está no poder desde que há poder, quando estamos num território com forte peso de eleitorado rural e uma economia pouco diversificada, muito dependente de decisões do poder autonómico a vários níveis, será que podemos confiar em sondagens que ligam para casa dos eleitores e lhes perguntam se, afinal, sempre vão votar em Fraga? As sondagens face-a-face, pelo menos, permitem a utilização de métodos que minimizam a ocultação do voto (simulação de voto em urnas) e diminuem as recusas. Não se as primeiras já foram utilizadas, mas seja como for, a experiência das eleições locais em Portugal confirmam a superioridade das sondagens face-a-face (ao contrário do que sucede nas eleições nacionais, onde não faz diferença).

É isto. Gostava de poder dizer mais, mas é tudo o que sei. Votem bem.

terça-feira, junho 07, 2005

Ainda vamos querendo, mas cada vez menos

Luxemburgo, ILRes, fim de Maio
500 inquiridos, telefónico

Sim: 46% (-13% em relação a Abril)
Não:32% (+9%)
Não sabe:22% (+4%)

segunda-feira, junho 06, 2005

Não sabemos ainda bem o que queremos

República Checa, Factum Invenio, fim de Maio
Telefónica, 300 (!) inquiridos

Do you support or oppose the European Constitution?

Support: 31.5%
Oppose :33.7%
Undecided: 34.8%

Também não queremos, mas também queremos ser nós a dizer

Dinamarca, Greens Analyseinstitut/Borsen, fim de Maio 2005
1010 entrevistas, telefónica

How would you vote in the referendum on the European Constitution?

Yes: 30.8%
No: 39.5%
Undecided: 29.7%


Dinamarca, Vilstrup/Politiken, 3 de Junho
1037 entrevistas, telefónica

Should the scheduled referendum on the European Constitution take place, or be called off?

Denmark should still holdthe referendum as scheduled: 53%
The referendum should be called offin light of the recent rejections: 31%
Undecided: 16%

Uma boa e irrelevante notícia para a Constituição Europeia

Itália, Ekma Ricerche Srl, 30 de Maio
1000 inquiridos, telefónica, quotas

Domanda : Se ieri si fosse tenuto il referendum per la ratifica della costituzione europea, come avrebbe votato?.
Risposta: Sì 58,5%; No 41,5%

domingo, junho 05, 2005

Arquivo: Eurosondagem, 31 Maio

1020 entrevistas telefónicas, estratificada aleatória.

PS: 40,2%
PSD: 26,4%
CDU: 5,6%
BE: 5,4%
CDS-PP:4,9%

José Sócrates: 55% opiniões positivas
Marques Mendes: 35% opiniões positivas

Opiniões sobre medidas de combate ao défice: ver aqui.

sexta-feira, junho 03, 2005

Não queremos, mas queremos ser nós a dizer

Reino Unido:

"In the aftermath of the French referendum (...) MORI has found a 34 point lead for the NO camp, Yes 22%, No 56%"

"However, a large majority of people (67% to only 21% against) still want to have a referendum on the EU Constitution regardless of whether or not other countries have already rejected the treaty".

Resumo no Sun, dados do UK Polling Report.

Ou seja: a "morte natural" da CE não é suficiente para os ingleses. Querem matá-la com as próprias mãos. Ou querem também usar o referendo para outras coisas, tais como reafirmar a sua falta de confiança em Tony Blair? Ou, na pátria da soberania parlamentar, gostam genericamente da ideia de referendos mesmo que estes não sirvam para nada? Ou todas estas coisas (e outras) misturadas? O certo é que terá de haver mais qualquer coisa do que uma maioria de eleitores movidos pelo simples objectivo de não haver uma Constituição Europeia.

2/3 dos suecos ainda querem votar (e quase metade quer dizer "Não")

Sifo, 30-31 Maio

Do you think the European Constitution should be ratified through a referendum, or through a parliamentary vote?
Referendum 65%
Parliamentary vote 27%
Undecided 8%

How would you vote if a referendum on the European Constitution took place now?
Yes 23%
No 41%
Undecided 36%

Mas não se lhes deu a terceira opção (nem referendo nem parlamento)...

Concurso de ideias III (actualizado)

Há também quem ache que já deverá haver muitos estudos sobre isto. De Leonel Morgado:

Quanto a este concurso de ideias, não haverá já soluções qb.? Pelo menos nos EUA, que eu saiba, é comum haver referendos em simultâneo com outras eleições (sem a escandaleira que há por cá). Certamente que pelo menos aí deverá haver alguém que se tenha dedicado a esta questão da contaminação?

Pois é verdade: é altamente improvável que isto não esteja estudado nos EUA. O problema, claro, é que não há referendos nacionais nos Estados Unidos, o que limita a comparabilidade. Mas vou tentar apurar.

Actualização: ora cá está, 2 artigos em 5 minutos, apesar de não serem respostas ainda à nossa pergunta.

1. Mark A. Smith, The Contingent Effects of Ballot Initiatives and Candidate Races on Turnout. American Journal of Political Science, Vol. 45, No. 3. (Jul., 2001), pp. 700-706. Mas aqui a questão é colocada um pouco ao contrário: em que medida os referendos ajudam a mobilizar eleitores que de outra forma não iriam às urnas. Não se aplica ao nosso caso...

2.Regina P. Branton, Examining Individual-Level Voting Behavior on State Ballot Propositions.
Political Research Quarterly, Vol. 56, No. 3. (Sep., 2003), pp. 367-377. Sugere que o comportamento de voto dos indivíduos nos referendos locais é sistematicamente influenciado pela sua identificação partidária, especialmente em temas "sociais/morais". Mas o tema do referendo europeu não é "social/moral", o nosso referendo é nacional e a nossa questão não é esta: a questão é saber se, ao seguirem as pistas dos partidos, os eleitores deixam que a aprovação pela actuação de um determinado partido a nível local se transforme na adesão às orientações desse partido no que respeita ao referendo.

Mas vou continuar a procurar.

Concurso de ideias II

Vários responsáveis políticos europeus vão afirmando simultaneamente que haverá e poderá não haver referendo (ver aqui ou aqui), pelo que o exercício de tentar perceber se a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas tem efeitos pode, ele próprio, vir a perder interesse. Contudo, há já sugestões sobre como proceder. De J. Afonso Bivar:

Prolongo um pouco o exercício de divisão da amostra cuja ideia já apresentou. Em vez de duas metades, proponho dividir a amostra em três partes. Na primeira, pergunta-se exclusivamente a intenção de voto no referendo; Na segunda, a intenção de voto nas autárquicas; Na terceira, em simultâneo as duas intenções. Nesta terceira parte, para procurar replicar ao máximo as circunstâncias de votação, antes de auscultar os sentidos de voto, introduzir-se-á um pequeno texto informando os inquiridos que lhes vai ser pedido que indiquem como vão votar tanto no referendo como nas autárquicas.

Tenderia ainda a tomar outra precaução suplementar, relativa a esta terceira parte (sobretudo se a aplicação se fizer via telefone). Mesmo com o texto de advertência à cabeça, será aconselhável que a sequência de perguntas (referendo-autárquicas) se invertesse na metade; por outras palavras, a metade deste 1/3 de inquiridos colocar-se-á primeiro a pergunta sobre o referendo; a outra metade, escutará primeiro a questão sobre as autárquicas.

Digo-lhe também que de qualquer forma creio que é ainda muito cedo para fazer quaisquer sondagens, tendo em consideração, além dos meses que nos separam de Outubro, o objectivo de medir/apreciar o "efeito de contaminação partidária" de que fala. Eu esperaria para ver os partidos assumirem e sobretudo publicitarem as respectivas posições no que toca ao referendo. Não há métodos perfeitos. Mas este parece-me aquele que mais fidedignamente responde aos problemas que equaciona. Em relação à sua proposta anterior,tem desde logo a vantagem de permitir aferir variações (acaso as haja e sejam estatisticamente significativas) nas taxas de abstenção e também estimar o impacte sobre estas do que posso chamar de "efeito autárquico" e de"efeito referendo". Só para dar uma ideia da informação relevante que sepode obter: se, na abstenção estimada, o valor referente à "subamostra conjunta" não se "encostar" ao valor relativo à "subamostra autárquica",isso quererá dizer que a votação simultânea funcionará parcialmente comodissuasor da própria ida às urnas. Sei que o efeito colateral desta minha proposta, a ser adoptada claro, será o de fazer crescer a amostra e portanto aumentar os custos. Não creio todavia que o acréscimo seja muito significativo - logo não a invalidará. De qualquer jeito, aqui está em causa apenas o esquema "conceptual" do binómio questionário-amostra.

O design é complexo, mas poderia funcionar. Infelizmente, duvido que venha a haver estudos concebidos especificamente para responder a este tipo de questões. O que se fizer será certamente "atrelado" a coisas que já estão previstas, ou seja, barómetros nacionais ou sondagens autárquicas. Logo, não deverá haver capacidade para criar amostras com a dimensão necessária para que, do confronto de sub-amostras, pudesse resultar algo de estatisticamente significativo.

Quanto ao timing, tenho dúvidas. O potencial problema que se costuma levantar é, para simplificar, que alguém que vote num partido nas autárquicas acabe por, por "arrastamento", votar no referendo "de acordo" com esse partido. Para que isso possa surgir, é verdade que é preciso esperar para que as "pistas" fornecidas pelos partidos possam ser apreendidas pelos eleitores. Contudo, surge um problema: quanto mais tempo passar, mais a condição "quase-experimental" de colocar a pergunta sobre o voto no referendo como se ele não estivesse ligado às autárquicas perde relevância, dado que as pessoas vão, a pouco e pouco, apercebendo-se que, de facto, o referendo irá ter lugar com as autárquicas.

quinta-feira, junho 02, 2005

Concurso de ideias I

Como saber se faz diferença que o referendo tenha lugar isoladamente ou em conjunto com as autárquicas? Uma ideia para arrancar:

Dividir uma amostra em duas metades, aleatoriamente seleccionadas, e aplicar 2 questionários diferentes. Num, colocar a pergunta sobre intenção de voto no referendo à cabeça. Noutro, colocar a mesma pergunta após uma pergunta anterior sobre intenção de voto nas autárquicas. Os resultados na segunda condição podem depois ser comparados com os resultados da primeira. Se difererentes e essa diferença for estatisticamente significativa, um "efeito de questionário" pode servir como resposta ao problema da "contaminação"

Concurso de ideias

Pelos vistos, haverá referendo europeu em Outubro, em simultâneo com as autárquicas. Enfim.

E nos próximos tempos, haverá certamente uma série de sondagens quer sobre eleições autárquicas quer sobre o referendo europeu.

Uma pergunta possível é: como se poderia testar (para confirmar ou infirmar) , usando inquéritos por questionário, a hipótese de que a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas afecta o resultado substantivo do referendo, quer do ponto de vista da "contaminação" (um voto num partido nas autárquicas que por extensão de torna num voto "partidarizado" no referendo) quer do ponto de vista da participação (um aumento "artificial" da participação que leva a um resultado substantivo diferente daquele que haveria caso o referendo fosse isolado)?

Vou pensar. Mas se tiverem ideias, mandem-nas para o e-mail do blogue: margensdeerro@yahoo.com. Publico-as aqui, com identificação do proponente (a não ser que se peça anonimato).

E, se exequíveis, executo-as (dando os créditos intelectuais respectivos).

quarta-feira, junho 01, 2005

Holanda, resultados oficiais

Sim: 38.2%
Não: 61.8%

As sondagens - pelo menos as que conheço - pecaram por defeito não estimação do Não. Tendo em conta que essas sondagens foram realizadas antes do Não francês, uma coisa que valia a pena investigar seria em que medida o resultado francês poderá ter influenciado os resultados holandeses, amplificando a força do Não (que já era, diga-se, largamente maioritário).

Mais Holanda

Maurice de Hond, 28 de Maio (N=2200)

How would you vote in the referendum on the European Constitution?(Decided Voters)
Sim: 41% (-2% em relação a 21 de Maio)
Não: 59% (+ 2% em relação a 21 de Maio)

Eu também

O bombyx mori não está convencido que o facto dos eleitores franceses que votaram "Não" o terem feito - à parte de factores conjunturais - na base de uma assumida recusa de uma "Constituição demasiado liberal" (à esquerda) ou da sua oposição à entrada na Turquia na UE (à direita) tenha qualquer espécie de relevância. É possível que não ache que as élites políticas francesas e europeias tenham sequer consciência dessas motivações. E certamente não crê que essas motivações condicionem de alguma forma as decisões que vão ser tomadas no futuro sobre a Constituição Europeia, sobre futuros alargamentos ou sobre as políticas de coesão.

Contudo, pelos vistos, o bombyx mori também não está de acordo com Pacheco Pereira quando este diz que a vitória do Não abre caminho a "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente". Segundo o bombyx mori, o meu raciocínio "não é menos viciado (ou capcioso)" que o do Pacheco Pereira.

Então o que acha o bombyx mori? Que aquilo que eu escrevi "constitui uma manipulação (porventura inconsciente) travestida de rigor científico (e sobretudo dotada de aparato metodológico) dos dados do Referendo", e que este "abuso analítico" é especialmente grave tendo em conta que eu sou "uma autoridade na matéria, como frequentemente se ouve dizer aos políticos: uma opinião respeitada ou abalizada." Que o meu raciocício - "vamos chamar as coisas pelos nomes, se não se importam" é "viciado" e "capcioso" (malévolo, ardiloso, manhoso). E que "este é um assunto extremamente complexo, que me [lhe] levanta inúmeras questões, tanto de matriz analítica como de posicionamento pessoal. Lastimo não ter no presente tempo para de forma séria as pensar, escrever e verter para o bombyx mori."

Eu também.

terça-feira, maio 31, 2005

E na Alemanha...

FG Wahlen, 26 de Maio (telefónica, N=1162)

Quem preferiria como chanceler?
Angela Merkel (CDU): 50%
Gerhard Schroeder (SPD): 44%

CDU/CSU: 44%
SPD: 30%
Verdes: 8%
FDP:6%
PDS:5%
Outros:6%

Avaliação da actuação do governo:
Positiva:30%
Negativa:66%

E para terminar: a pertença à UE traz para a Alemanha:
Mais vantagens que desvantagens: 22%
Tantas vantagens como desvantagens: 45%
Mais desvantagens que vantagens: 29%

For what it's worth...

UK, ICM Research, 22 de Maio:
“If there were a referendum tomorrow, would you vote for Britain to sign up to the European Constitution or not?
Sim: 24%
Não: 57%
Não sabe: 19%

Mais Holanda

Polls point to a strong No

Infelizmente, não pertenço à classe, mas os leitores de neerlandês podem entreter-se aqui.

Holanda, TNS Nipo, 27 Maio

Sim: 41%
Não: 59%
Depois de redistribuídos os indecisos. O Sim está a subir, mas isto foi antes do resultado francês...

segunda-feira, maio 30, 2005

Uma opinião

O blogue não é exactamente para isto, mas não resisto a dizer o que penso sobre os resultados do referendo.

O que tenho a dizer já o tinha dito aqui, e ontem no Público (quando, noto, pensava que a coisa tanto podia pender para o "Não" como para o "Sim"): tenho muitas dúvidas sobre a bondade dos referendos como modo de tomar decisões sobre matérias como esta. Reconheço-lhes virtudes, como, por exemplo, aquela que aqui assinalei: o debate sobre os temas europeus em França foi mais vivo e generalizado do que nunca. E se puxarem muito por mim, até reconheço virtudes ao próprio desfecho substantivo: uma vitória do "Sim" teria sido, em parte, uma vitória de um discurso algo chantagista ("uma Constituição não renegociável", quando nada na política é "não renegociável") e de alguns medos que, eles sim, são o que me metem medo ("a perda de poder da França" e coisas semelhantes).

Contudo, importa não ignorar algumas coisas sobre este resultado. Por um lado, ele é também, em parte, uma vitória de medos, que neste caso encontram a sua expressão no proteccionismo económico (uma Constituição demasiado "liberal"), na intolerância religiosa e no nacionalismo mais primitivo ("não à Turquia"). Lamento imenso, mas a ideia de que a informação que este resultado fornece às elites políticas europeias é a da necessidade de "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente" parece-me simplesmente cândida. Pacheco Pereira projecta no "Não" as suas próprias motivações, ignorando as motivações reais dos eleitores franceses. Mas as que realmente contam são as deles, e não as dele. A mensagem que o "Não" fornece aos políticos europeus é a de os medos dos franceses terão de ser acomodados de alguma forma no futuro da construção europeia. E eu preferia que (estes) não fossem.

Por outro lado, não se pode ignorar outro aspecto fundamental. O resto da explicação da vitória do "Não" encontra-se em factores como a situação económica e social em França e a percepção por parte de muitos eleitores de que deviam e podiam usar o referendo para sinalizar o seu descontentamento, especialmente quando um governo que defende o "Sim" se encontra na pior fase do ciclo político e quando tantos franceses acham que o resultado não terá grande importância. Sendo assim, percebem-se mal os "pudores democráticos" que fazem com se fique tão chocado quando alguém sugere fazer um novo referendo. Basta que um novo referendo tenha lugar sob um governo socialista no início do seu mandato para que a probabilidade de uma vitória do "Sim" aumente exponencialmente. E então? O que faz com que este "Sim" valha menos ou seja "menos democrático" que o anterior "Não"? Na verdade, ambos são os resultados de uma pura "lotaria eleitoral". É certo que é sempre preciso arranjar uma maneira qualquer de tomar decisões e de lhes dar um verniz de legitimidade democrática, e os referendos servem para o efeito (por enquanto). Mas será a melhor maneira? Duvido.

Destaques das sondagens à bocas das urnas

É de aproveitar este excelente trabalho da Ipsos. Destaques:

1. Confirma-se clivagem social já aqui assinalada, se bem que as suas razões continuem a não ser evidentes dos dados;

2. 56% dos eleitores próximos do PS votaram "Não". Foi principalmente isto que andou a mudar de sondagem para sondagem. Parte do "Não" decidiu-se aqui.

3. Motivações mais apresentada pelos eleitores para o "Sim": reforço do peso da Europa em relação aos Estados Unidos e à China (64%, atravessando simpatizantes de todos os partidos), funcionamento da Europa a 25 (44% - idem) e evitar enfraquecimento do peso da França na Europa (43% - especialmente entre eleitores UMP);

4. Motivação mais apresentada pelos eleitores para o "Não": "descontentamento com a actual situação económica e social em França"(52%), seguida de "constituição demasiado liberal no plano económico" (40%). Mas aqui, tudo varia de acordo com proximidade partidária. Se o "descontentamento" é forte entre todos (menos os eleitores UMP), o receio do "liberalismo" prevalece à esquerda. E entre os eleitores UMP e FN, a principal motivação de rejeição é "a ocasião de se opor à entrada da Turquia na UE";

5. Largas maiorias dos eleitorados (excepto FN) dizem-se "favoráveis à construção europeia". É bonito, and yet means nothing;

6. 42% dos eleitores UMP querem correr com Raffarin, contra 38% que o querem manter. Dos eleitores dos outros partidos não vale a pena falar. Os eleitores UMP querem...Sarkozy, bien sur.

Fifty five

Os resultados ainda não são os validados, mas não é de esperar que se desviem particularmente de 55% para o Não e 45% para o Sim. Assim sendo, temos:

1. A TNS Sofres e a CSA teriam feito melhor em não divulgar as sondagens que terminaram a 27, ficando-se pelas que concluiram, respectivamente, nos dias 24 e 26. Ceteris paribus, sondagens conduzidas mais próximo da data das eleições são sempre mais precisas. Mas os ceteris raramente são paribus no mundo real, e as duas sondagens divulgadas na noite de 6ª ficaram fora das margens de erro amostral. É provável apareça alguém a denunciar possíveis tentativas de manipulação do voto de última hora. Duvido muitíssimo, mas se assim foi, fico especialmente aborrecido: eu levei-as muito (demasiado?) a sério.

2. A sondagem Ipsos terminada a 25 de Maio parece ter sido a mais precisa. É certo que a diferença no sentido de maior precisão, quando comparada com a da Ifop, é tão diminuta que pode perfeitamente ser fruto do acaso. E ambas são telefónicas, ambas usaram quotas, ambas têm amostras de dimensão aproximada. O resto, especialmente no que respeita ao apuramento dos prováveis abstencionistas, é menos claro dos relatórios, mas a Ipsos explica que deu as intenções de voto usando o filtro mais exigente: "de certeza que vai votar". Um sinal importante. Mas fico contente se for a Ipsos, por uma razão muito simples: o site da Ipsos.fr deu uma cobertura excelente ao referendo. Bons textos analíticos, relatórios exaustivos e até as sondagens dos outros institutos (nem todas, mas quase...) E poucas horas depois do referendo, uma decomposição completa da sondagem à boca das urnas. Quando se fazem estas coisas tão bem, é natural que se faça bem o resto...

sábado, maio 28, 2005

Fifty fifty, finalmente

As sondagens divulgadas ontem, captando os presumíveis efeitos da dramatização final na campanha do referendo francês, relançam a incerteza. O Não vinha em (novo) crescendo desde a 2ª semana de Maio, e as sondagens dos dias 24 a 26 de Maio davam-lhe uma vantagem aparentemente confortável. Mas tudo se desvaneceu no último dia de campanha, com as sondagens TNS Sofres e CSA. Aliás, quem tivesse reparado nas notas de rodapé da última sondagem Ipsos de 25 de Maio não poderia senão ficar com dúvidas. Lá em baixo, em letras pequeninas bem escondidas, dizia-se:

(*) 23% des personnes interrogées, certaines d’aller voter, n’ont pas exprimé d’intention de vote

23% dos que disseram ter a certeza de ir votar não exprimiram intenção de voto. É muito.

É certo que há ainda a sondagem Ifop (56% para o Não) e que, apesar de tudo, o Não é maioritário nas duas restantes. Mas recordem-se de 1992. Na altura, o Sim aparecia com cerca de 53/54% das intenções de voto, e 70% dos eleitores prognosticavam uma vitória do Sim. Acabou o Sim com 51%. Agora, o Não aparece, em média, com 53%, enquanto que 50% dos eleitores prevêem uma vitória do Não (contra apenas 23% a preverem uma vitória do Sim), o que aponta para a possibilidade de uma desmobilização comparativa dos eleitores do Não.

Fifty- fifty. Mais que isto não é possível.

sexta-feira, maio 27, 2005

Atenção!

TNS Sofres, 26 e 27 de Maio
Sim: 49%
Não:51%

CSA, 26 e 27 de Maio(pdf)
Sim: 48%
Não: 52%

Ifop, 26 e 27 de Maio
Sim: 44%
Não: 56%

São, que eu saiba, as únicas sondagens a poderem captar os efeitos do discurso ao país de Jacques Chirac. Duas mostram recuperação de última hora do "Sim", enquanto que outra mostra o "Não" a subir. Está mesmo tudo em aberto.

França, últimas sondagens

É possível que ainda se conheçam outros resultados até ao fim do dia, mas para já, estas são as sondagens conhecidas:

TNS Sofres, 24 Maio (quotas, 1000 inquiridos, face-a-face):
Sim: 46%
Não: 54%

Ipsos, 25 Maio (quotas, 804 inquiridos, telefone):
Sim: 45%
Não: 55%

CSA, 26 Maio (quotas, 1002 inquiridos, telefone):
Sim: 45%
Não: 55%

Há um reforço consistente no Não em relação às sondagens anteriores de cada um dos institutos, e a vantagem do Não é superior às margens de erro amostrais.

quarta-feira, maio 25, 2005

Holanda

TNS Nipo, 18 de Maio
Sim: 33%
Não: 66%

Mas isto é só entre quem já tem intenção de voto. 35% ainda não sabem como irão votar (!) e 10% não respondem.

Volto Sábado, com a análise das sondagens da próxima 6ª feira em França.

Os sondagistas franceses divertem-se

Question : Laquelle de ces personnalités, selon vous, incarnerait le mieux l’image de l’Europe dans le monde et dans les différents pays européens?

Sophie Marceau (France): 32%
Monica Belucci (Italie):16%
Adriana Karembeu (Slovaquie):14%
Cécile de France (Belgique): 4%
Pénélope Cruz (Espagne): 4%
Claudia Schiffer (Allemagne): 4%

Fonte: TNS Sofres

terça-feira, maio 24, 2005

Mais uma

Ifop, 23 de Maio
Sim: 46%
Não: 54%
8% de indecisos

O "Sim" perde força entre o eleitorado de direita:

Odivelas

Há muitos posts atrás, falei aqui de uma sondagem feita em Odivelas, depois de ter sido alertado por um leitor. Vale a pena ler esta deliberação da AACS sobre o assunto. Um excerto particularmente comovente:

Assevera que só após a recepção do ofício desta Alta Autoridade se perceberam de que há legislação sobre sondagens, facto que “completamente” desconheciam. Não obstante, aduz que antes da realização da “sondagem” tentaram, em vão, colher informações, junto do Instituto de Comunicação Social, sobre a legislação relativa a “este tipo de perguntas”. Quanto ao questionário escreve: “as três forças políticas, sobre as quais incidiam as perguntas, apenas nos alertaram para o facto de um dos partidos não ter candidato e isso influir no resultado, e pouco mais“. Para repetir que só após a recepção da carta da Alta Autoridade se aperceberam de que havia legislação “sobre este tipo de matérias”. A terminar, reitera a ignorância da legislação sobre sondagens, garante que não a voltarão a violar e afirma disponibilidade para publicar as rectificações que a Alta Autoridade para a Comunicação Social entender.

Autárquicas

Alertado pelo Esquerdices, chego a um conjunto de sondagens Marktest sobre os candidatos que os eleitores acham que vão ganhar as eleições: Carrilho em Lisboa, Seara em Sintra, Rio no Porto, todos por margens consideráveis e com nunca menos de 20% de respostas "não sabe".

Interessante. Mas claro, não susceptível de ser confundido com intenções de voto (ver esta deliberação da AACS). Nas últimas legislativas, mais de 70% dos portugueses "sabiam" que o PS ia ganhar, o que não significa que nele votassem. E notem: a amostra é nacional. Ou seja, estas são as opiniões dos eleitores portugueses sobre o que se vai passar em cada um dos concelhos, não as dos eleitores de cada concelho. É, para já, uma medida do "clima político" apercebido pelos portugueses em relação a cada um dos concelhos, e muito contaminada pela visibilidade pública dos candidatos, nuns casos, e pela "incumbency", noutros.

CSA, 23 de Maio

Sim: 47%
Não: 53%

Ipsos, 21 de Maio

Sim: 47%
Não: 53%

E uma revolução em relação aos estudos anteriores no que diz respeito aos prognósticos dos eleitores sobre quem irá ganhar: segundo a Ipsos, 41% já acham que o "Não" irá ganhar, contra 34% que prevêm vitória do "Sim".

Ifop, 20 de Maio

Sim: 48%
Não: 52%

segunda-feira, maio 23, 2005

França, análises complementares

Mais alguns dados retirados das últimas sondagens:

1. Eleitorado do Partido Socialista francês partido ao meio em torno do referendo ao TCE;

2. Ligeira tendência para que os eleitores "Não" se afirmem estar mais certos de que essa será a sua decisão definitiva, especialmente nas sondagens mais recentes, indicando potencial maior desmobilização entre eleitores do "Sim" (mas a sondagem Louis-Harris dá resultados inversos...);

3. Inclinações dos indecisos distribuem-se equitativamente para o "Sim" e o "Não" (entre os indecisos que dizem ter uma qualquer inclinação);

4. Mais eleitores a preverem a vitória do "Sim" do que aqueles que prevêm a vitória do "Não" (relação de quase 2 para 1);

5. Uma aparente clivagem social em torno do tema: proprietários, indivíduos mais instruídos e com estatuto socio-profissional mais elevado estão desproporcionalmente a favor do "Sim", enquanto que os empregados da indústria e dos serviços e aqueles com menor instrução estão desproporcionalmente a favor do "Não". Mas importa dizer que isto coincide com uma clivagem ainda mais clara, aquela entre eleitores dos partidos do governo e eleitores dos partidos da oposição em França. Pelo que é difícil saber, olhando apenas para dados agregados, se essa clivagem social é real (traduz uma clivagem entre "vencedores" ou "beneficiários" sociais da integração contra os outros) ou, pelo contrário, mera função dos alinhamentos partidários (e o que eles significam de apoio versus punição do governo);

6. Católicos tendencialmente a favor do "Sim", e tanto mais quanto mais praticantes. Curioso, tendo em conta as animadas polémicas sobre a "herança cristã". Mas também aqui se aplicam as cautelas do ponto 5.

Prognóstico: reservado.

França, a uma semana do referendo

1. Saiu mais uma sondagem, da Louis-Harris, com último dia de trabalho de campo a 21:
Sim: 48%
Não: 52%

Nada de novo em relação a todas as sondagens mais recentes dos restantes institutos: depois da recuperação do "Sim" na 1ª metade de Maio, o "Não" volta a ganhar ascendência.

2. Percentagens do "Não" nas sondagens mais recentes:

- Sofres, 12 de Maio (face-a-face, quotas, 1000 inquiridos): 53%
- IFOP, 13 de Maio (telefone, quotas, 1018 inquiridos): 54%
- Ipsos, 14 de Maio (telefone, quotas, 972 inquiridos): 51%
- CSA, 16 de Maio (telefone, quotas, 1002 inquiridos): 51%
- BVA, 20 de Maio (telefone, quotas, 963 inquiridos): 53%
- Louis-Harris, 21 de Maio (telefone, quotas, 1006 inquiridos): 52%

Perturba um pouco a unanimidade na utilização de quotas, podendo constituir fonte de enviesamento oculto. Mas não há diferença significativa entre uso de telefone e face-a-face.


3. Poll of polls (média móvel das 3 sondagens mais recentes):


4. Outros dados interessantes:

- Fica a impressão que o tipo de dramatização feita pelo lado do "Sim" ("não será possível rever esta Constituição") funciona ao contrário: a maioria dos eleitores "Sim" crê que a Constituição poderá ser revista num futuro próximo, enquanto que os do "Não" pensam o oposto (Louis-Harris);

- A evolução dos dados é diferente da de 1992: em 1992, o Sim estava à frente nas sondagens das últimas semanas, se bem que por margens reduzidas;

- Nunca se falou ou debateu tanto sobre temas europeus em França: ver aqui (pdf). Um ponto a favor dos defensores dos referendos.

-

domingo, maio 22, 2005

Holanda

Há quem não tenha dado por isso, mas dia 1 há outro referendo sobre a Constituição Europeia, na Holanda. Não falei nisso porque não tenho acesso directo aos dados de sondagens, mas...

Three days after French referendum, Dutch could also reject EU constitution
21/05/2005
The outcome of the Dutch referendum on the European Union constitution is just as uncertain as the outcome of the French vote three days earlier with voters using the referendum to show their discontent with their government, the euro and the EU's expansion.
Although initial polls showed the 'yes' in the lead since one month the different surveys have showed that the Netherlands, one of the founding members of the European Union, could vote against the EU constitution in the consultative referendum set for June 1.
This weekend, two new polls showed the 'no' campaign ahead. An Internet survey of 2,500 people by well known pollster Maurice the Hond found that among voters who had already made up their minds 60 percent planned to vote against the EU constitution, while 40 percent said they would vote in favor.
Another poll by the NSS-Interview institute released late Friday found 63 percent of those surveyed were against the treaty, while 37 percent were in the 'yes' camp.
After a slow and uninspired start of the campaign the Dutch government is now pulling out all the stops to try to reverse the negative trend.
Recalling the Holocaust and World War II Dutch Christian Democrat Prime Minister Jan Peter Balkenende told voters that the constitution was the way to peace and preserving civilisation.
Justice Minister Piet Hein Donner warned of "Balkanisation", referring to the bloody wars in the former Yugoslavia, if the Dutch said no while Foreign Affairs Minister Ben Bot warned that a 'no' vote would have disastrous results for the Dutch economy.
Dutch Deputy Minister for European Affairs Atzo Nicolai suddenly set aside an additional 3.5 million euros to send out government flyers and make television commercials encouraging people to vote yes.
"The government is very motivated, we are in the final phase and we will do what we can to get the 'yes'," Balkenende said Friday just ten days before the referendum.
It is unclear if this sudden surge in the government's yes campaign can reverse the tide in the Netherlands. The referendum is the first ever national referendum in Dutch modern history and many Dutch voters see it as an opportunity to show their discontent with the European Union in general, their worries about Islam and the accession of Turkey to the European Union and their opposition to the current centre-right government.
Approval for Balkenende's government is a dismal 19 percent. A survey published Wednesday showed that one in four people who planned to vote 'no' explained their decision as a general defiance against the government.
More than half, 52.3 percent, of the 'no' camp in the survey of 1,338 people commissioned by Dutch news agency GPD, said they wanted to block Turkey's EU bid. Also 55 percent questioned said they would vote no because they want to protest the introduction of the euro and the following widely perceived price hikes.
"The fear of the different and the unknown play an important role" in the Dutch 'no' camp, Johan Huizinga, a political analyst for Radio Netherlands, told AFP.
The Dutch fear that the text of the constitution could touch the Dutch so-called sacred cows such as same-sex marriages, legal euthanasia and the decriminalization of cannabis.
In an interview published Friday Balkenende tried to allay the fears of the voters.
"Subjects such as soft drugs, euthanasia and abortion will remain national issues, nothing is dictated by Brussels," he told De Volkskrant newspaper.
Despite the polls showing the 'no' voters in the lead Balkenende says he remains optimistic.
"I'm putting my money on the 'yes' vote," he said.
The Dutch referendum is non-binding but the main political parties have said they will take it into account when the text comes up for parliamentary approval if the turn-out is over 30 percent.

Mais resultados, França

BVA, 20 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

Este era o instituto que faltava. Amanhã, análise mais detalhada.

terça-feira, maio 17, 2005

Oops

Parece que, ao contrário do que eu sugeria, o Sr. Giacometti tinha razão em dar importância às "pequenas flutuações" que encontrou na sondagem IPSOS. Isto porque:

IFOP, 13 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

CSA, 16 Maio
Sim: 49%
Não: 51%

Há poucas dúvidas, depois destas últimas sondagens, que a balança se voltou a desequilibrar a favor do Não...

Sampaio e o referendo à despenalização do aborto

Por distracção, não tinha dado por esta sondagem. Aqui está. "Vale o que vale" (só Lisboa e Porto), mas valerá certamente alguma coisa. E com alguns resultados curiosos na desagregação por classes sociais.


Lisboetas e portuenses concordam com Sampaio
12 Maio 2005
Marktest.com
A maioria dos lisboetas e portuenses, inquiridos pelo
Fonebus da Marktest em exclusivo para a Marktest.com Notícias, concordam com a decisão de Jorge Sampaio em não realizar em Julho o referendo sobre o aborto.
O
Fonebus da Marktest realizou para a Marktest.com Notícias uma sondagem de opinião acerca das decisões de Jorge Sampaio a propósito do referendo sobre o aborto. Sabendo que o Presidente da República tomou a decisão de não realizar o referendo sobre o aborto em Julho deste ano, em virtude de se tratar de um mês em que muitos portugueses já se encontram de férias, perguntou-se aos residentes nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto, com mais de 18 anos, se concordavam ou não com essa decisão.
Dos inquiridos, 65.2% concordou com a decisão do Presidente da República, 21.1% discordou e 13.7% não expressou opinião.
Ainda que em todas as faixas etárias se tenha verificado concordância com a decisão de Jorge Sampaio, ela foi mais notória nos indivíduos entre os 55 e os 64 anos (81.1% concordou e 13.5% não concordou). A população mais jovem (entre os 18 e os 24 anos), foi aquela onde as opiniões se dividiram um pouco mais: 52.8% concordou e 33.3% discordou. Na faixa etária mais idosa (65 anos e mais) foi onde surgiu maior percentagem de dúvidas: 30% não soube responder à questão.
Por outro lado, a concordância com a decisão do Presidente da República diminui à medida em que se passa das classes alta e média alta (A/B) para as média baixa e baixa (C2/D), como se pode observar no gráfico abaixo. Efectivamente, nas classes mais elevadas, 75.8% concorda com a não realização do referendo sobre o aborto em Julho, enquanto que nas classes mais baixas apenas 55.8% concorda com esta decisão.

França, referendo: início da campanha oficial (actualizado)

Sofres, 12 de Maio:
Sim: 47%
Não: 53%

IPSOS, 14 de Maio:
Sim: 49%
Não: 51%

A ler com atenção: este texto de Pierre Giacometti, director da IPSOS, onde se desenvolve muito bem um argumento já adiantado aqui:

La victoire du Oui conserve en revanche très nettement la faveur du pronostic. Mais cette combinaison contradictoire du souhait et du pronostic constitue un sérieux handicap pour les partisans du Oui : elle présente le risque d'empêcher la construction d'une nouvelle et dernière dynamique de victoire dans les derniers jours de campagne.

Mas onde também, a meu ver, se retiram demasiadas interpretações daquilo que são pequenas flutuações percentuais:

C'est bien la troisième inversion de tendance qui se dessine dans cette dixième vague de l'Observatoire Ipsos. Initiée il y a une semaine lorsque le Non avait été crédité d'une poussée de trois points lui permettant de faire jeu égal avec le Oui, la progression se confirme aujourd'hui : à gauche comme à droite, le Non a encore gagné du terrain. Le gain est de deux points au sein de l'électorat socialiste, où le rapport de force apparaît, à quinze jours du scrutin, parfaitement équilibré. L'évolution est encore plus nette auprès des sympathisants UMP-UDF. En progressant de 4 points, le Non atteint 28% d'intentions de vote, contre 72% au Oui. A l'extrême gauche comme à l'extrême droite, le Non est massif et définitif.

quinta-feira, maio 12, 2005

Elogios involuntários

No in tenui labor:

Ah, que bom, férias... Tempo de descanso, paz, fruição do belo, do sublime, exploração dos sentidos, na primavera soalheira e morna, só perturbada pelo êxtase inebriante de milhares de animais, cheiros e sons. Como é bom ter férias, vacances e hollidays.
Mas não é assim. Ao contrário das férias idílicas num local paradiasíaco longe desta civilização que cheira a mofo, encontro-me justamente no local mais mofo da mofa cidade, com pessoas mofas que dizem coisas mofas. Ronald Inglehart, Robert Putnam, Pipa Norris, Hans-Dieter Klingemann, José Machado Pais, Alain Touraine, Gilles Lipovetsky, Dalton, Wattenberg, Jurgen Habermas, Boaventura Sousa Santos, André Freire , Pedro Magalhães, Manuel Castells, Bernard Manin, Anthony Giddens, entre outros.
Um desabafo...
à la prochaine!


Para o elogio ser perfeito, dispensava o Lipovetsky, só queria o Giddens e algum Boaventura anteriores aos anos 90, tirava para aí uma em cada duas páginas do Castells e punha outro "p" em Pippa. De resto, muitíssimo obrigado.

Mais UK

O americano Mystery Pollster escreve sobre as sondagens britânicas.

quarta-feira, maio 11, 2005

Voodoo?

Neste post, apontei o facto de as sondagens anteriores às sondagens "do dia" no Reino Unido terem muito maiores discrepâncias entre si do que as seguintes. E sugeri que isso podia ter a ver com três coisas:

1. Acaso;
2. Mudança da própria realidade que estava a ser descrita, anulando efeitos da variação a nível metodológico;
3. Ajustamento "indutivo" de expectativas.

Agora, um novo elemento: segundo este site, os números brutos obtidos pelas sondagens ICM e Populus davam margens muito maiores aos Trabalhistas dos que aqueles que as sondagens acabaram por dar nas suas sondagens finais e do que aqueles que acabaram por ser os resultados reais.

Ora bem. Isto é um bocado perturbante. O que é perturbante não é o facto de os números brutos serem diferentes dos números "projectados". Todas as sondagens fazem escolhas quanto ao tratamento dos dados obtidos, escolhas que visam corrigir uma série de problemas conhecidos dos processos de amostragem e inquirição: distorções entre características da amostra e características conhecidas da população; efeitos de não-resposta e recusa; efeitos do inquérito; ocultação de real intenção de ir ou não votar ou de votar neste ou naquele partido, etc.

O que é perturbante é que os resultados obtidos de uma amostra sejam tão diferentes daqueles que depois resultam dos tratamentos. Se eles são assim tão diferentes, isto significa que as pressuposições acerca daquele que é e será o comportamento dos eleitores e a sua relação com características dos inquiridos pesam tanto ou mais nas inferências que se fazem acerca da população do que a própria amostra. E se isto é assim, para quê fazer sondagens de intenção de voto? Não será preferível fazer "forecasting" na base de resultados eleitorais anteriores e de factores de previsão (economia, popularidade de líderes)?

E se as pressuposições pesam assim tanto, não se levanta a suspeita de que a convergência entre resultados de sondagens nas últimas eleições inglesas (e já agora, as portuguesas) resulte muito menos de escolhas metodológicas do que de "um bom palpite" (mesmo que o palpite seja um palpite sobre que "contas" hei-de eu fazer para que os dados brutos se convertam "naquilo que eu espero que aconteça"?).

Não é, repito, uma questão de "honestidade", mas sim uma questão de sabermos para que servem as sondagens, o que elas realmente nos dizem e como são feitas. "Ciência" ou "voodoo"?

E notem: eu ficava muito menos preocupado se, com ou sem "voodoo", as sondagens das semanas anteriores tivessem dado coisas parecidas umas com as outras e com aqueles que vieram a ser os resultados finais. Isso passou-se, mais coisa menos coisa, em Portugal em 2005. Mas não foi assim em Inglaterra. Que espécie de informação está a ser dada aos eleitores? Como é ela obtida? Podemos confiar minimamente nela? Dúvidas.

terça-feira, maio 10, 2005

Fifty fifty até dia 29?

Mais duas sondagens:

Sofres, 7 Maio:
Sim: 52%
Não: 48%

CSA, 9 Maio:
Sim: 51%
Não: 49%

Mais alguns dados interessantes:
*24% afirma não ter ainda decidido como vai votar (Sofres); entre estes, ligeira vantagem nas "inclinações" para o "Não" (Ipsos);

* Eleitores PS divididos ao meio sobre o que irão fazer (Ipsos);

* 83% dos votantes "sim" e 83% dos votantes "não" dizem que a sua escolha é definitiva (Ipsos);

* 47% acham que "Sim" vai ganhar, contra 26% do "Não". Más notícias para o "Sim": expectativa de vitória pode gerar desmobilização e pode sinalizar uma "espiral do silêncio" ("nãos" escondidos que não se revelam dado expectativa social de vitória "Sim").

A bientôt.

Fifty fifty, agora sim

Depois de dois posts intitulados "fifty fifty", sem que alguma vez o "Sim" e o "Não" em França estivessem realmente empatados nas sondagens, o IFOP e a IPSOS resolveram fazer a vontade a este vosso blogger:

IFOP, 4 de Maio:
Sim: 50%
Não: 50%

IPSOS, 7 de Maio:
Sim: 50%
Não: 50%

Sondagens UK: rescaldo final

Está tudo aqui, no UK Polling Report de Anthony Wells, ainda com mais umas sondagens do que aquelas que eu tinha incluído. Com a devida vénia, transcrevo. Para quê inventar?

So, with pretty much everything except Harlow counted, how well did the pollsters do? The bottom line is that everyone got it right - trebles all round! While NOP take the prize, having got the result exactly spot on, not only did all the pollsters get within the 3% margin of error, they all got every party’s share of the vote to within 2%. Basically, it was a triumph for the pollsters.

RESULT - CON 33.2%, LAB 36.2%, LD 22.7%
NOP/Independent - CON 33%(-0.2), LAB 36%(-0.2), LD 23%(+0.3). Av. Error - 0.2%

MORI/Standard - CON 33%(-0.2), LAB 38%(+1.8%), LD 23%(+0.3). Av. Error - 0.8%
Harris - CON 33%(-0.2), LAB 38%(+1.8), LD 22%(-0.7). Av. Error - 0.9%
BES - CON 32.6%(-0.6), LAB 35%(-1.2), LD 23.5%(+0.8%). Av. Error - 0.9%
YouGov/Telegraph - CON 32%(-1.2), LAB 37%(+0.8), LD 24%(+1.3). Av.Error - 1.1%
ICM/Guardian - CON 32%(-1.2), LAB 38%(+1.8), LD 22%(-0.7). Av.Error - 1.2%
Populus/Times - CON 32%(-1.2), LAB 38%(+1.8), LD 21%(-1.7). Av. Error - 1.6%

The other two pollsters, Communicate Research and BPIX, conducted their final polls too early to be counted as proper eve-of-poll predictions, but, for the record, both their final polls were also within the standard 3% margin of error. Their average errors were 0.9% for BPIX and 2.1% for Communicate.

The British Polling Council have a press release out with the same information (although they include the “others” in the average, and use rounded figures for the results, hence the slightly different figures. It doesn’t change the result - everyone was right and NOP did best).

What small errors there were did still tend to favour Labour rather than the Conservatives - of the seven polls above one (NOP) is spot on, one (BES) understated Labour’s lead, and five overstated Labour’s lead. This does suggest there may still be a lingering bias in the polls, but one that is now so small it is hardly worth worrying about. What is interesting is the comparison between the final result and the polls during the campaign - the results from YouGov during the campaign were pretty close to the final result throughout, especially after the first few polls that showed the parties neck and neck. In contrast during the campaign the phone pollsters showed some whopping great Labour leads that disappeared in their final polls - of all the phone polls during the campaign, only one (MORI/Observer, published on the 1st May), did not report a Labour lead larger than the 3% they finally acheived. Of YouGov’s last 10 polls of the campaign, 8 showed a Labour lead of 3 or 4 percent. It doesn’t, of course, necessarily mean that YouGov were right - the “real” Labour lead at that time could have been larger, only to be reduced by a late swing to the Lib Dems - hence the reason why we only compare the eve-of-poll predictions to the final result.

With results that are so close to one another, it’s very difficult to say that technique A worked and technique B didn’t. For what it’s worth, the spiral of silence adjustment made Populus’s final poll less accurate (ICM’s full tables aren’t available yet). At past elections ICM have carried out post election studies, ringing back don’t knows to see how they did vote in the end, so they will hopefully have a far better idea of whether the don’t knows behaved as they expected. If there were Bashful Blairites out there though, they seem to have been equally bashful about going to the polling station. That said, NOP also make a spiral of silence adjustment and it can’t have made their final figures any less accurate.

How did all the polls end up being so close, having been so different during the campaign? Well, I’m afraid there isn’t a simple answer and there’s no evidence of an evil polling conspiracy. The only pollster who I know for sure made methodological changes for their final poll was YouGov, who factored in likelihood to vote for their final prediction (it didn’t have a huge effect, but it did make their prediction more accurate).

Something completely different

Quando ouço falar em "arte mexicana", fico logo desconfiado. Começo logo a imaginar pinturas murais, estatuetas e colares de contas. O que só mostra como sou preconceituoso. Se forem a Madrid, não percam isto.

Especialmente, isto:



Já não estou tão seguro sobre a conversa que se segue, mas ajuda a perceber do que se trata:

A Morir (’til Death) by Miguel Angel Rios in collaboration with Rafael Ortega will consist of a three-channel video installation shot in Tepoztlan, Mexico; the work focuses on a popular street game called "trompos" that involves spinning tops. Viewed from multiple perspectives, the video begins with one spinning top and culminates in a cacophonous profusion of numerous tops in a single game that includes thirty of the most skilled players in town, aged 14 to 50. Through the documentation of this simple scenario, dynamics of competition, invasion and territorialism are signaled both visually and aurally. The lyrical movement of the tops is accompanied by their intense, sycopating sound. Confined within a white grid painted on asphalt, the masses speak to both space and subjectivity. The relative violence is complicated by the game’s high formality and beauty. A Morir (’til Death) negotiates both politics and poetics in abstracting narrative about urban sprawl, congestion, and war.

sexta-feira, maio 06, 2005

Resultados não definitivos UK

Labour: 36,2%
Conservative: 33,2%
Lib Dems: 22,5%

Com estes resultados, temos as sondagens mais precisas feitas no Reino Unido em muitos anos. Boa notícia. E melhor ainda que tenha sido a NOP a acertar em cheio: as sondagens NOP são coordenadas pelo Nick Moon, que esteve em Lisboa há pouco tempo e é autor de um excelente livro sobre sondagens. E a análise das sondagens NOP no Independent esteve a cargo do John Curtice, que já veio várias vezes aqui ao ICS e faz parte do conselho consultivo do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugeses.

Análise mais detalhada para a semana.

quinta-feira, maio 05, 2005

UK: as sondagens do dia

São as seguintes:



Parecem as sondagens para as últimas legislativas portuguesas: ou acertam todos em cheio ou espatifam-se todos. É extremamente curioso como sondagens que, até há dias, apresentavam discrepâncias importantes (ver aqui) convergem desta maneira no último dia, apesar de continuarem a apresentar as diferenças metodológicas anteriores. Vejo três explicações possíveis:

1. Um mero acaso;

2. A "realidade" mudou, com os eleitores a decidirem-se à última hora de forma a que as diferenças metodológicas deixem de influenciar as estimativas;

3. A terceira é algo mais perversa: quem faz as sondagens olha para um lado e para o outro, pondera os resultados que obtém de acordo com as suas expectativas daquilo que os resultados irão ser, e escolhe os métodos de ponderação e análise de resultados que mais se aproximam dessas expectativas. Resultado: como quem faz as sondagens está imerso no mesmo mundo social e comunicacional, os resultados tendem a convergir.

A terceira explicação pode ser interpretada como apontando alguma desonestidade por parte de quem faz as sondagens. Mas "desonestidade" é um bocado forte. Não acredito que alguém diga que os conservadores vão ter 36% quando as sondagem lhes dá 42%, mudando arbitrariamente os resultados que obtém. O que sucede é que aquilo que a sondagem "dá" depende de uma série de opções sobre como ponderar a probabilidade de voto, como corrigir a composição socio-demográfica da amostra, etc, etc, etc. E aquilo que acho que acontece é que essas opções, na última sondagem, são mais indutivas do que dedutivas. Ou seja: em vez de fazerem essas opções e divulgarem os números que daí resultam, os técnicos olham para os números que resultam das diferentes opções e divulgam os resultados em que mais acreditam.

Mas há aqui, claro, alguma arbitrariedade, e pode haver até um certo espírito defensivo ("se eu não me afastar muito daquilo que os outros dão, não vou ser nem muito pior nem muito melhor que eles"). Não é, propriamente, uma ciência, isso de certeza...

De resto, cerca de 25% dos ingleses dizem-se indecisos. Mais que prováveis abstencionistas.

E já agora: para além da ajuda dos seus colegas barnabitas , mais um elemento para ajudar o Daniel a perceber como se pode tomar a decisão de votar nos Trabalhistas mesmo que se discorde da actuação de Blair no Iraque:

The survey contains a sting in the tail for Mr Blair because more than half the electorate want him to resign within two years rather than carry on for another full term. And only one in three want Mr Blair to stay on longer than two years.

quarta-feira, maio 04, 2005

UK: as últimas antes do dia

Amanhã ainda são divulgadas sondagens no Reino Unido, dado que não há limitações à sua publicitação no dia das eleições. Contudo, as últimas sondagens de campanha estão feitas. Em vez de me lerem a mim, farão muito melhor em ler isto. Contudo, se ainda tiverem paciência, eis o resumo:

1. Trabalhistas à frente em todas as sondagens mais recentes. Se perdessem em votos, era o pior desempenho das sondagens britânicas desde 1992. E se perdessem em deputados, seria o maior cataclismo na história das sondagens desde que elas existem no mundo civilizado. Don't hold your breath;

2. Maior margem de vitória: 13% (Populus, 2 de Maio, telefónica);

3. Menor margem de vitória: 4% (Harris e Yougov, ambas internet polls);

4. Margem de vitória média: 8%;

5. Margem de vitória por tipo de sondagem e ordem decrescente: telefónicas; face-a-face; internet. Vamos ter um teste metodológico muito interessante, especialmente no contraste internet polls e o resto. Se as coisas voltarem a correr bem à Yougov, os efeitos no mundo das sondagens não serão negligenciáveis;

6. Quando mais exigente o filtro dos "votantes prováveis", menor a margem de vitória. Por outras palavras: eleitores Trabalhistas menos seguros de que irão às urnas;

7.Lib-Dems: em média, tendência de crescimento desde início de Abril. Mas não à custa dos Trabalhistas, e sim à custa dos Conservadores, pelo menos nas intenções de voto. Curioso e muito contraintuitivo. Claro, isto não quer dizer que haja transferências directas Conservadores-Lib-Dem's, mas sim que o saldo dos diversos tipos de transferências (de partidos para outros e da abstenção para o voto e vice-versa) tem sido favorável a Trabalhistas e Lib-Dem's desde o início de Abril. É quase garantido que vão ter o melhor resultado desde 1987, restando saber se conseguem superar 1983.

Como espremer mais algum interesse de umas eleições altamente entediantes? Difícil. A não ser para dizer que Gordon Brown é, em todas as sondagens neste momento, muitíssimo mais popular e confiado do que Tony Blair. Reforma antecipada?

Obrigado

Ao Blasfémias e ao Insurgente pelas referências. De repente, o Sitemeter dá um grande solavanco..

terça-feira, maio 03, 2005

França, poll of polls (última sondagem: 2 Maio)

Mais duas, e completámos o ciclo de todos os institutos de sondagens:

BVA, 30 Abril
Sim: 48%
Não: 52%

CSA, 2 de Maio.
Sim: 51%
Não: 49%

A poll of polls fica assim:

Aborto II

OK, o post anterior foi parcialmente ultrapassado pelos acontecimentos. Mas a questão de fundo permanece.

Aborto

Sondagem Marktest:

De acordo com o Barómetro, 54,3 por cento dos portugueses votaria a favor da despenalização, contra 28,6 que optariam em sentido contrário. Outros 16 por cento disse não ter opinião ou então não querer responder.

Para além das questões da amostragem, as respostas a questões como esta são muito sensíveis à formulação da pergunta. Seja como for, numa sondagem da Católica de 14 de Janeiro de 2004, 69% diziam que votariam "Sim" à (cito) "despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado”. 25% votariam "Não" e 6% "Ns/Nr".

Assim, à partida, das duas uma:

1. Ou a formulação da pergunta foi determinante para a diferença (mas não sei como foi formulada a pergunta na sondagem Marktest);
2. Ou o apoio à despenalização diminuiu (ou pelo menos, aumentou a incerteza).

Mais certo é que não há razões para supor que os portugueses não querem o referendo. Em Janeiro de 2004, 56% achavam que a discussão sobre o tema era "muito oportuna". Agora, há mesmo 47% que acham que o referendo à despenalização deveria ocorrer antes do referendo europeu (contra 39% que pensam o oposto). No último artigo do Público, a Helena Matos confunde os seus próprios sentimentos com os da população. Um lapso comum.

Mas atenção: na sondagem da Católica de Janeiro de 2004, questionados sobre se "deveria ser só o parlamento a decidir se haveria uma alteração às leis do aborto ou se deveria haver um referendo", 73% optavam por referendo. Eu sei que a questão tal como formulada na sondagem é algo equívoca, dado que pode haver partes da lei alteradas por referendo e outras não. Mas o sentimento geral existe. E será ele compatível com um referendo que liberaliza o aborto por vontade da mulher até às 10 semanas ao mesmo tempo que, por via legislativa, se ampliam as causas médicas justificativas do aborto até às 16 semanas? Não estará aqui parte da explicação da diminuição de 69 para 54% de apoio à despenalização?

Não seria espantoso se os nossos políticos, por inépcia ou maximalismo, fizessem com que um novo referendo voltasse a resultar na inviabilização de uma alteração legislativa aparentemente desejada pela grande maioria da população (a despenalização do aborto por opção da mulher até às 10 semanas)? Vamos ver.

segunda-feira, maio 02, 2005

Fifty-fifty two

Confirma-se isto e isto: o "Sim" em França recuperou.

IPSOS, 3o de Abril (último dia trabalho de campo):
Sim: 53%
Não: 47%

Louis-Harris, 30 Abril
Sim: 49%
Não: 51%

Outra vez o eleitorado PS:
Une inversion du rapport de force au sein de l’électorat socialiste qui pourrait s’avérer décisive
Si cette enquête témoigne d’un niveau record du Oui au sein de l’électorat de l’UMP (+3, soit + 13 en deux vagues), elle se démarque des cinq vagues précédentes par la nouvelle mobilisation en faveur du Oui parmi les sympathisants socialistes. Pour la première fois en effet depuis la mi-mars, les électeurs de la formation dirigée par François Hollande déclarent une intention de vote majoritaire en faveur du Oui. La progression est de 11 points en une semaine. Le Non reste majoritaire chez les sympathisants écologistes bien qu’en baisse de 5 points. La dynamique d’intentions de vote favorable au Oui est d’autant plus sérieuse qu’elle est associée à un brutal changement de climat politique. En matière de pronostic et de souhait, l’inversion de tendance est complète. Au sein des électorats des deux principales formations défendant le Oui, ils s’associent désormais de manière conjointe massivement à l’UMP, majoritairement au PS.

Fifty-fifty

Confirma-se a impressão já transmitida aqui: uma recuperação do Sim nas sondagens de intenção de voto no referendo em França. Nos estudos feitos no final de Abril, o Sim sobe nas sondagens IFOP (de 44 para 48%) e Sofres (de 45 para 52%), tal como já tinha subido em quase todas as restantes (excepto a BVA, mas a mais recente deles é de 19 de Abril). Porquê? Na sondagem IFOP, divulgada ontem, 54% dos simpatizantes Socialistas tencionavam votar Sim; na sondagem IFOP de 15 de Abril, 62% deles tencionavam votar Não.

UK, recta final

A quatro dias das eleições, algumas das dúvidas começam a dissipar-se. Em particular, as intenções de voto nos Conservadores desceram em três das quatro sondagens divulgadas ontem (Domingo, dia 1 de Maio). Parece confirmar-se (de forma mitigada) a ideia de que "the Conservatives' aggressive campaign to impugn Mr Blair's personal integrity is in fact fuelling a sharp rise in his popularity".

Fica assim a poll of polls a quatro dias das eleições, incluindo as sondagens NOP, Yougov, ICM, Populus, Mori e Communicate Research, do dia 9 de Janeiro ao dia 1 de Maio. É certo que os valores médios são muito influenciados pela ICM e Yougov, que têm muitas sondagens. Mas isso não faz grande diferença, especialmente tendo em conta que, desde Abril, a dispersão entre os resultados das diferentes sondagens é relativamente reduzida em comparação com o período anterior.