terça-feira, agosto 23, 2005

Dos arquivos do genial Professor Pollkatz

Wishfull thinking? Nixon vs. Bush.
















Uma opinião pública movida a gasolina:

















Isto e muito mais aqui.

Eleições e mercados electrónicos

(à atenção da Lei da Espada)

Há uma tendência para que os mercados electrónicos, como o IEM, consigam prever os resultados de eleições tão bem como algumas sondagens, e quase sempre melhor que a média das sondagens. Na verdade, as sondagens visam descrever o estado da opinião, não prever, mas o certo é que muita gente as procura como modo de previsão, pelo que vale a pena comparar o que se passa nos mercados com o que se passa nas sondagens.

Por estes dias, a poll of polls das sondagens alemãs dá o seguinte:
CDU/CSU: 43%
SPD: 29%
Linke: 9%
Verdes:8%
FDP: 8%

Mas no Wahlstreet, a história é ligeiramente diferente:
CDU/CSU: 40%
SPD: 31%
Linke: 10%
Verdes:8%
FDP: 7%

O "mercado" aposta que a CDU vai ter menos do que na sondagens e o SPD algo mais. E é plausível, especialmente tendo em conta a impopularidade de Merkel e a "espiral do silêncio" que deve estar a funcionar contra o SPD. Importa também dizer, contudo, que o mercado é, ele, próprio, muito sensível às sondagens: comparem a evolução das sondagens aqui com a evolução do mercado aqui e verão, especialmente no que respeita ao "arrefecimento" das expectativas em relação à coligação PDS-WASG...

Diminui apoio à retirada dos colonatos

Israel, Maagar Mochot, 18 Agosto, N=511, Telefónica.

Do you support or oppose the disengagement plan?
Support: 46% (-7%)
Oppose: 42% (+12%)
Outros:12% (-5%)

segunda-feira, agosto 22, 2005

CDU/CSU + FDP

Apesar de sondagens em Agosto me levantarem algumas dúvidas - num recente Eurobarómetro, 80% dos alemães declararam passar pelo menos duas semanas fora de casa durante as férias, com as consequências para a amostragem durante o mês de Agosto que se imaginam - não parece haver grandes dúvidas sobre qual vai ser o partido mais votado nas eleições na Alemanha. A dúvida é se CDU/CSU e FDP conseguem, em conjunto, chegar à maioria absoluta.

Na base dos dados das sondagens feitas até agora, creio que as coisas se inclinam para que sim. Vejamos: o valor mínimo da soma das intenções de voto obtidas pelos dois partidos até agora foi 48%. Em 1994, CDU/CSU e FDP obtiveram em conjunto 48,4% dos votos e, em conjunto, 341 deputados, 4 mais do que aqueles que necessitavam para a maioria absoluta. E há outros exemplos de situações em que menos de 50% de votos para as somas CDU/CSU+FDP ou SPD+FDP seriam suficientes para mais de 50% dos assentos parlamentares. Assim foi em 1961, 1965, 1969 e 1998, por exemplo. E importa recordar que 48% foi o mínimo que CDU/CSU e FDP obtiveram em conjunto nas últimas sondagens, já que, na poll of polls, têm andado sempre pelos 49-50%. Em resumo, apesar do sistema eleitoral alemão ser bastante proporcional na conversão de votos em mandatos - mais do que o nosso, por exemplo - continua a ser possível ter maiorias absolutas de deputados com maiorias relativas de votos.

Contudo, isto é um pouco mais complicado do que parece. Por exemplo, o sistema alemão tem uma cláusula barreira que exclui da representação parlamentar todos os partidos que tenham menos de 5% de voto a nível nacional ou não consigam ganhar pelo menos três assentos nos círculos uninominais, sendo os assentos que teoricamente caberiam a esses partidos redistribuidos pelos restantes. Logo, esta exclusão (ou falta dela) pode ser crucial para determinar o que se passa com os partidos não excluídos. E desta vez, os maiores partidos não vão ter a vida facilitada, dado que a coligação PDS/WASG foi feita precisamente para garantir a ultrapassagem da cláusula-barreira por parte destes partidos.

Mas talvez se possa dizer que tudo o que seja abaixo dos 48% em votos para CDU/CSU+FDP significa elevado risco de não dispor de uma maioria absoluta. Tendo em conta a enorme vantagem da CDU/CSU sobre o SPD, o vencedor não está em dúvida. A dúvida é, precisamente, quanto somam, em votos e assentos, CDU/CSU e FDP. Por enquanto, as coisas inclinam-se para que haja maioria centro-direita. Mas estou curioso para ver as primeiras sondagens de Setembro...

Suportar o terrorismo IV

Do UK Polling Report:

Following the details of the IPCC investigation into the shooting of Jean Charles de Menezes which were leaked earlier this week, there is a new BPIX poll in today’s Mail on Sunday. When it first emerged that Mr de Menezes was not a terrorist public support for the “shoot to kill” policy remained pretty much unchanged. A YouGov survey for the Mirror immediately after the shooting when it was thought Mr de Menezes was a terrorist showed 71% support for the policy; a YouGov poll a few days later for the Economist when it was clear that Mr de Menezes was innocent showed an almost identical 70% support.

The revelations earlier this week that Mr de Menezes was, in fact, not wearing a bulky jacket, nor did he run from the police, or leap over a ticket barrier and he may not even have been warned have finally started to change public opinion: only 58% of people told BPIX they supported the shoot to kill policy, with 28% thinking it wrong. While this is still obviously an overall majority, it is a significant fall from earlier levels of support.

There was also a fall in support for Metropolitan Police Commissioner Sir Ian Blair. In the days immediately following the London bombings BPIX found that 68% of people had confidence in Sir Ian Blair; following this week’s disclosures, confidence has fallen to only 54%. In July 23% said they had little or no confidence in Blair, that figure has now risen to 40%. BPIX also asked people directly whether or not Sir Ian Blair should resign over the police’s handling of the shooting - almost a quarter said he should, with 60% saying he should stay on.

sexta-feira, agosto 19, 2005

Teoria dos dominós

De entre os catorze blogues que aqui, há oito meses, confessei fazerem parte das minhas leituras regulares - Aviz, O País Relativo, A Praia, Barnabé, Bloguítica, Causa Nossa, O Acidental, Fora do Mundo, Blasfémias, Indústrias Culturais, Cartas de Londres, Intermitente, Portugal dos Pequeninos e Homem a Dias - seis já fecharam portas (apesar de um deles se ter passado para outro lado). Dois deles nesta semana.

quinta-feira, agosto 18, 2005

German update (só mesmo para fanáticos...)

Após nova sondagem (Infratest-Dimap) de ontem.

Poll of polls:
















Poll of polls com coligações:
















Tendências CDU/CSU e SPD por instituto:
















Descida da CDU e subida Linke são ainda os principais factos da campanha, mas tendência para estabilização de ambos. SPD não conseguiu beneficiar completamente da descida CDU. CDU/FDP estão no fio da navalha para uma maioria absoluta.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Suportar o terrorismo III

Do UK Polling Report, há duas semanas:

There was a BPIX poll published in yesterday’s Mail on Sunday, covering public support for increased police powers and the “shoot-to-kill” policy. It was conducted on the 29th-30th July, so the news that the man shot at Stockwell was entirely innocent would have had plenty of time to sink in. As suggested in the YouGov poll for the Economist though, this has had little or no effect on public support for the policy - 68% of people thought the police did the right thing at the time, and a similar number continue to support the policy.
On other policies, 62% support the re-introduction of the death penalty for terrorist murders (pretty much the same as the 60% who supported it’s re-introduction in a BPIX poll straight after the July 7th bombings - opinions on moral issues like capital punishment don’t tend to change much), just under 60% supported the abolition of the Human Rights Act, most controversially, almost a third of respondents said that they thought torture could sometimes be justified in interrogating terrorist suspects.


Do Times de Londres, hoje:

SCOTLAND YARD made “a series of catastrophic errors” that led to armed officers hunting the July 21 bombers shooting dead an innocent Brazilian, it was claimed last night. (...) CCTV footage shows that Mr de Menezes was wearing a thin denim jacket that could not conceal a bomb, and he was not carrying a bag. Far from running from police, he did not realise that anyone was following him and even picked up a free newspaper before using his season ticket to pass through the barrier. He began to run only when he saw his train pull into the station. At the time of the shooting, Scotland Yard said that Mr de Menezes’s “clothing and his behaviour at the station added to their suspicions”. It was only when Mr de Menezes boarded the train that a surveillance officer guided four armed police into the same carriage. A man sitting opposite him is quoted as saying: “Within a few seconds I saw a man coming into the double doors to my left. He was pointing a small, black handgun towards a person sitting opposite me. “He pointed the gun at the right hand side of the man’s head. The gun was within 12 inches of the man’s head when the first shot was fired.”

Ninguém no seu perfeito juízo ou em boa fé poderá retirar qualquer satisfação da revelação das reais circunstâncias da morte de Jean Charles de Menezes. Mas a única esperança é que desta tragédia venha alguma lucidez. Lucidez suficiente para que se deixe de pensar que discutir a tensão entre a liberdade e a luta contra o terrorismo não passa de uma coisa de "burocratas bruxelenses" que só serve para "facilitar a vida aos terroristas".

The real thing

Eis a fonte de todas as fontes para as sondagens na Alemanha: esta, da responsabilidade de Martin Fehndrich, Wilko Zicht e Matthias Cantow. Cheguei lá através do indispensável UK Polling Report.

Com este elenco completo de resultados, a poll of polls actualizada fica assim (clicar na imagem para ver em formato maior):
















Os mesmos dados da poll of polls, agora com coligações:

















Depois da descida CDU e subida SPD das últimas semanas, os dados mais recentes indicam uma relativa estabilização. Vale a pena ler a breve e claríssima análise do Uk Polling Report, aqui.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Maioria de israelitas apoia retirada

Maagar Mochot, 8 Agosto 2005, N=506, Telefónica.

Are you for or against the disengagement plan?
For: 57% (+5% em relação a 20 de Julho)
Against: 31% (+1%)
Ns/Nr: 12% (-6%)

quarta-feira, agosto 10, 2005

Alemanha, tendências por instituto e conclusões



A pouco mais de um mês das eleições na Alemanha, o que dizem as sondagens?

1. Distância ainda enorme entre CDU/CDU e SPD;

2. Diminuição progressiva dessa distância ao longo dos últimos meses;

3. Encurtamento da vantagem da CDU/CSU concomitante com deterioração da imagem de Angela Merkel e aumento da popularidade pessoal de Schröder, que já ultrapassa Merkel como melhor opção como Chanceler (ver aqui alguns incidentes de campanha ligados a isto);

4. Diminuição do score CDU/CSU e estabilidade (por baixo) do FDP tornam maioria absoluta da coligação CDU/CSU-FDP menos plausível.

5. Subida do PDS/WASG torna maioria SPD/Verdes altamente implausível.

6. Postura política e ideológica do PDS/WASG torna sua participação numa coligação de esquerda altamente implausível.

7. Logo, opção de coligação mais favorecida pelos alemães é uma "grande coligação" CDU/CSU-SPD. Mas isso não impede - pelo contrário - a cada vez menos desejada Merkel como Chanceler. A CDU e/ou os eleitores alemães vão ter de encontrar uma solução para este dilema.

Alemanha, poll of polls, coligações

terça-feira, agosto 09, 2005

Alemanha, poll of polls

Hiroshima e Nagasaki

Public Opinion Research Center/Ipsos

Japão, Julho 1-3, 2005; N=1945
Estados Unidos, Julho 7-10, 2005, N=1000

Acha que os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki em 1945 foram inevitáveis ou desnecessários para conduzir a guerra a um fim rápido?

Inevitáveis
Japão: 35%
Estados Unidos: 60%

Desnecessários
Japão: 63%
Estados Unidos: 39%

Não sabe/não responde
Japão: 2%
Estados Unidos:1%


Acha que algum país poderá alguma vez ter justificação para usar uma arma nuclear primeiro contra outro país?
Sim
Japão: 14%
Estados Unidos: 28%

Não
Japão: 82%
Estados Unidos: 69%

Não sabe/não responde
Japão: 4%
Estados Unidos:3%

sexta-feira, agosto 05, 2005

Os sondagistas alemães apertam os cintos de segurança (actualizado)




































E Schwarz-Gelb ohne Mehrheit, ou seja, CDU/CSU-FDP sem maioria.

Serviço público

A Marktest tem a amabilidade de fazer no seu site sobre sondagens eleitorais um link para este blogue. Mas acreditem que, pelo menos no que respeita a eleições autárquicas, o que mais conta agora é o link no sentido inverso. Aqui, a Marktest reúne todas as sondagens publicadas até ao momento sobre eleições autárquicas, por concelho. Cada link do concelho tem os resultados de cada sondagem e o fundamental das suas fichas técnicas, o recorte dos jornais onde foram publicadas, e dados socio-demográficos e eleitorais do concelho. Melhor que isto é difícil. A não perder.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Alemanha, update
















A imagem está longe de ser perfeita, mas creio que dá para perceber. São todas as sondagens de intenção de voto realizadas desde Maio na Alemanha, disponíveis aqui. SPD tem vindo lentamente a descer, passando-se o mesmo (em menor grau) com CDU/CSU. Só a aliança de esquerda sobe, aparentemente ganhando votos ao SPD na Alemanha Ocidental e à CDU (!) no Leste.

No pós-guerra, só em 1957 ocorreu uma maioria absoluta monopartidária no parlamento (CDU/CSU). Com os 45% da última sondagem, é impossível que CDU/CSU chegue à maioria absoluta. E os 7% da FDP podem não chegar.

O Economist tem, claro, um bom artigo sobre o assunto, recordando experiências anteriores de "grandes coligações" e as dificuldades que daí poderiam surgir (aqui, para assinantes).

terça-feira, agosto 02, 2005

Es wird interessanter

O meu post de ontem sobre as sondagens eleitorais na Alemanha, se bem que servisse como comentário de "longo prazo" acerca das diferenças entre o Leste e o Oeste, tencionava também chamar a atenção para outra coisa, de que o Insurgente, entretanto, já se apercebeu. Para isto:

We've had a four-party system since the 1980's," Richard Hilmer, managing director of Infratest dimap, a leading polling organization, said in an interview. He meant that for a quarter-century, power has generally alternated between a stable two-party moderate-right coalition and a two-party moderate left one, the current one in power being what is called the Red-Green coalition, between Mr. Schröder's Social Democrats and the Greens."But a five-party system makes things much more complicated than they were before," Mr. Hilmer said. Indeed, without the Left Party, it has seemed almost a certainty that a right-of-center coalition between the Christian Democratic Union, or C.D.U., led by Angela Merkel, and the small Free Democratic Party would win the September elections and form a government with Mrs. Merkel as chancellor, which is still a strong possibility. Still, pollsters like Mr. Hilmer say there is a 50-50 chance that the center-right alliance will not get a majority. If that should happen, Mrs. Merkel could be forced to enter into what is being called a "grand coalition" with the very Social Democrats she has been battling for two years.

Ou isto:

Last week, the talk in Germany was of a grand coalition which would put the parties of Angela Merkel and Gerhard Schroeder into a single government, likely with Merkel as its chancellor and Schroeder's SPD as junior partner. But this week, the media and chattering classes are speculating about a possible "Red-Red-Green" coalition that would put the SPD, Left Party and Greens under a single roof. As improbable as the "Red-Red-Green" coalition may be, just the talk of it puts the fear of God in Social and Christian Democratic leaders.The speculation isn't entirely unfounded. As unpalatable as it may be, the latest public opinion polls suggest a scenario in which neither the Social Democrats and Greens nor the Christian Democrats and neoliberal Free Democratic Party (FDP) would garner enough votes to form majority coalitions.The largest single percentage of German voters, 42 percent, say they would prefer a grand coalition to a fraying patchwork quilt of pseudo socialist parties with a lot of historical baggage and diverging political interests.

Pois é. Numa sondagem do dia 18 de Junho (TNS Emnid), a coligação PDS/WASG tinha 9%. Na última sondagem do mesmo instituto (19 de Julho) já tem12%, tendo vindo a subir sistematicamente.

E como se isto não chegasse, temos também que:

segunda-feira, agosto 01, 2005

Alemanhas, Ano Quinze

Forschungsgruppe Wahle, 22 Julho 2005

Intenções de voto Alemanha:
CDU/CSU: 44%
SPD:24%
Linke (PDS/WASG): 12%
Grüne: 11%
FDP: 6%

Intenções de voto Alemanha de Leste:
Linke (PDS/WASG): 34%
CDU/CSU: 33%
SPD:21%
Grüne: 6%
FDP: 3%

sexta-feira, julho 15, 2005

"No nation could preserve its freedom in the midst of continual warfare". James Madison, burocrata bruxelense*

É por isso que não basta bater no peito e dizer que “somos todos londrinos” e na volta da esquina já estar a discutir as tenebrosas propostas do Sr. Blair para limitar direitos de privacidade das mensagens porque isso facilita a vida aos terroristas. Na volta da memória, escarnecer o Patriot Act, essa “fascização da América” como já lhe ouvi falar, atacada por tudo que é burocracia bruxelense e suas extensões nacionais, como se, sobre a dupla pressão dos autocarros que explodem, e da insegurança popular, não se tenha também que ir por aí, com a prudência e as cautelas que as democracias tem que ter por tal caminho. Já o disse e repito, a separação cada vez maior entre elites europeias e americanas nesta questão do terrorismo, vem dos segundos se acharem em guerra e os primeiros não. Será apenas uma questão de tempo, até esta ser apenas uma questão de termos, não de substância, porque, falando como um sábio da Guerra das Estrelas, “em guerra estamos”.
(...)
Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho á mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um “boche” consigo. E aí o “não se limpam armas”, é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles.

*in "Political Observations," 20 de Abril de 1795, in Letters and Other Writings of James Madison, Volume IV, Lippincott: 1867, p. 491.

Agora é que é: até Agosto.

quinta-feira, julho 14, 2005

Férias

Até Agosto.

A opinião pública é uma coisa complicada II

Tenho de me dedicar mais ao Brasil para além da praia ( desta e desta). O Ivan - da outra - tenta ajudar-me a perceber algo de que nada sei:

As minhas apreciações sobre a política brasileira são puramente impressionistas. No entanto, quem lê os opinion-makers (de direita) daqui é levado a crer que o Lula era encarado, em finais de 2002, quando foi eleito, como uma espécie de salvador. A minha percepção, quando estive no Brasil nessa altura, foi precisamente a contrária. É certo que toda a gente falava de política, incluindo as empregadas da lanchonete, de uma maneira que não é comum cá. Mas as apreciações sobre o Lula não tinham messianismo nenhum, eram uma coisa contida, do género «vamos fazer a experiência», «já é hora de dar uma oportunidade», etc. A impressão com que fiquei - pode ser errada, evidentemente - é que o Brasil já tinha tido o Collor uma vez, e que tinha aprendido com a experiência. Se isto for verdade, pode talvez ser em parte creditado ao FHC. E o Lula pode perder a próxima eleição, mas não vai passar abruptamente de anjo a demónio. Talvez as pessoas compreendam que o poder dele não é absoluto.

Sobre o Lula, as ilusões de óptica no "primeiro mundo" parecem ser, de facto, comuns. Ver aqui e aqui, mas principalmente, e se puderem, aqui.

A opinião pública é uma coisa complicada

No Brasil, depois disto, isto.
























Vá-se lá perceber. Talvez a percentagem de "ficou como sempre esteve" ajude a compreender o que se passa.
Mais informação aqui.

O insucesso escolar de Valadares Tavares

Recomendo vivamente a leitura deste post no Canhoto. À excepção de um artigo do Nuno Crato no Público que, infelizmente, já não consigo localizar, é a primeira vez que vejo expostas com clareza as gravíssimas debilidades metodológicas do estudo de LVT. E só queria dizer que, como os meus alunos de métodos e técnicas de investigação do ICS e da Católica bem sabem, tenho usado este estudo como exemplo da chamada falácia ecológica.

Autárquicas, Lisboa

Católica, 7-11 Julho, N=989, Aleatória (com ponderação sexo, idade e instrução pós-amostragem), Telefónica.

Intenção directa de voto:
Carmona Rodrigues (PSD): 24%
Manuel Maria Carrilho (PS): 22%
José Sá Fernandes (BE): 5%
Ruben de Carvalho (CDU): 4%
Maria José Nogueira Pinto (CDS): 2%
Outro: 2%
Em branco/nulo: 4%
Não vai votar: 11%
Não sabe : 18%
Não responde: 9%

Estimativa de resultados eleitorais:
Manuel Maria Carrilho (PS): 41%
Carmona Rodrigues (PSD): 36%
José Sá Fernandes (BE): 8%
Ruben de Carvalho (CDU): 6%
Maria José Nogueira Pinto (CDS): 3%
Outro: 3%
Em branco/nulo: 2%

Gera-se sempre alguma perplexidade quando os "resultados brutos" parecem dizer uma coisa e as "estimativas" (os resultados apresentados de forma comparável aos resultados de eleições) parecem dizer outra. Quando, para fins de tornar os resultados de sondagens comparáveis com os de eleições, se tratam os indecisos como abstencionistas, essa aparente contradição nunca surge. Os indecisos são proporcionalmente redistribuídos pelas opções válidas de voto e, claro, as ordens mantêm-se.

Contudo, nem sempre é essa a opção utilizada. A Marktest, por exemplo, utilizada um modelo de redistribuição de indecisos baseado em anteriores resultados eleitorais e/ou anteriores resultados de sondagens e/ou no anterior comportamento de voto dos inquiridos (confesso que nunca percebi bem, apesar das várias explicações dos responsáveis no DN). Seja como for, sucede por vezes (e sucedeu várias vezes em 2001 e 2002, gerando alguma controvérsia) que o partido mais votado nos "resultados brutos" não era o mesmo.

Nesta sondagem da Católica, isso acontece por razões mais fáceis de explicar. As sondagens da Católica que não sáo feitas em urna usam uma "squeeze question", onde àqueles que dizem "não saber" em quem votariam é pedida uma "inclinação" de voto. Porquê? Passo a palavra a outro:

"The reason for the inclusion of this second question is purely pragmatic - history has shown, and the present has continued to show, that pollsters get better results by having it than by not having it".*

Eu até acho que é algo mais do que isso: a "squeeze question" permite-nos ir um pouco mais longe na recolha de intenções de voto que os inquiridos preferem ocultar ("espiral do silêncio") ou, pelo menos, permite-nos basear a redistribuição dos indecisos não em pressuposições abstractas mas sim em algo que os próprios inquiridos indecisos nos dizem: em que partido ou candidato se sentem inclinados a votar. E o que sucedeu aqui foi que, quando se foi saber o que os indecisos tencionavam, apesar de tudo, fazer, houve uma concentração desproporcional em Manuel Maria Carrilho. Quando se juntaram as inclinações às intenções, MMC passou à frente de Carmona. Questionável, controverso, não necessariamente a melhor opção? Claro, tudo isso pode ser, já foi, e continuará a ser debatido. Mas o que me interessa é que se perceba.

Interpretações? Haveria duas principais:
1. MMC está a conseguir trazer para o seu campo eleitores não habituais do PS, que hesitam em assumir (perante si próprios e os outros) uma real intenção em votar em Carrilho.
2. MMC está a conseguir repelir para fora do seu campo eleitores habituais do PS, que adiam a decisão devido à contradição entre a sua fidelidade partidária e a opinião menos positiva que têm de Carrilho.

Há algo que torna a segunda mais plausível: para os eleitores que já formaram opinião dos candidatos, Carrilho é pior do que Carmona Rodrigues em tudo. Ainda por cima, Carmona tem a(o) suprema(o) sorte/mérito de ter estado no poder o tempo suficiente para criar uma imagem positiva e tempo insuficiente para ser responsabilizado seja pelo que for, como a comparação entre a avaliação da sua actuação e da de Santana Lopes revelam. Logo, a avaliação do trabalho da CML vai ter pouca importância nestas eleições, em desfavor de factores mais tradicionais: simpatia partidária/ideológica e imagem dos candidatos. E neste último domínio, MMC parece muito chamuscado. Isto é confirmado por uma coisa que, apesar de não vir no Público, creio poder dizer-vos sem problemas: quando se cruza a intenção de voto com a opinião sobre os candidatos, os eleitores de Carmona estão sistematicamente mais unidos em torno das maiores qualidades do seu candidato do que os eleitores de Carrilho.

Chamo ainda a atenção para três coisas:

1. Atenção que Ruben de Carvalho passa para a frente de Sá Fernandes quando se consideram apenas aqueles que dizem "ter a certeza que vão votar";
2. As mulheres, os menos instruídos e os mais jovens dizem-se mais indecisos;
3. Maria José Nogueira Pinto falava ontem da exclusão dos "idosos isolados" do "universo" da sondagem (suponho que queria dizer "amostra"). Queria só dizer que o que se passa, na realidade, é o contrário. Os eleitores a que uma sondagem com amostragem aleatória e feita por telefone tem mais dificuldade em chegar são, precisamente, os mais jovens. Por isso é que há quem use quotas (procurando assegurar à partida que a amostra não fica povoada desproporcionalmente por idosos, que estão mais tempo em casa e tendem a não substituir o telefone fixo por telemóvel) e há (como a Católica) quem pondere os resultados a que chegou de acordo com os dados do recenseamento.


* Nick Moon (1999), Opinion Polls: History, Theory, and Practice. Manchester: Manchester University Press, p. 73.

quarta-feira, julho 13, 2005

Sem limites

Quando se pensa que nada podia ser pior, o horror recorda-nos que não tem limites.

24 CHILDREN DEAD IN IRAQ BOMB13.7.2005. 19:18:39
A car bomb in south-eastern Baghdad has killed 24 Iraqi schoolchildren and a US soldier. Hospital and US military sources said another 20 children were wounded, along with at least one US soldier. "A driver approached one of the US Humvees and then detonated his car," said Sergeant David Abrams, according to AFP. A witness said children had gathered around the Americans who were handing out sweets when the bomber drove towards them and blew himself up. A parent of one of the slain children said he heard the explosion and rushed out of his house to find his son. "I only found his bicycle," said Abu Hamed, speaking at Kindi hospital where hundreds of distraught parents were gathered. He said he had found his son in the hospital morgue. "I recognized him from his head. The rest of the body was completely burnt," he said. The blast is said to have taken place as the US patrol was passing through Baghdad's al-Jedidah district. Another witness said nearby homes were demolished in the explosion.

Homónimos

Uma visita ao Technorati obriga a que vos informe que:

Não sou este.
Nem este.
Nem ainda este (mas se calhar gostava de ser).
E muito menos este.

Política pós-moderna

O político mais popular na Alemanha, quem será? Schröder? Claro que não. Merkel, talvez? Também não. É Christian Wulff, da CDU, Presidente da Baixa Saxónia.



Uma visita ao site pessoal é particularmente informativa. De especial relevância são as secções "Philosophische Provokationen" e "Mein Tag" (o homem farta-se mesmo de trabalhar). Mas confesso que, para alguém cujos cinco anos de alemão acabaram por ser insuficientes para conseguir ler um artigo de jornal, as fotos têm um encanto especial. Digam lá se isto não ficava bem no catálogo da Banana Republic:














Sabemos também, claro, que nos países civilizados não se usa a família para ganhar votos:













De certeza que quer continuar com as fotografias a preto e branco?

Autárquicas, Porto

Segundo soube, por lapso, o Público esqueceu-se da ficha técnica. Sai amanhã. Entretanto, aqui vai:
Esta sondagem foi realizada pelo Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica (CESOP) para a Antena 1, o Público e a RTP nos dias 4 a 6 de Julho de 2005. O universo alvo é composto pelos indivíduos com 18 ou mais anos residentes em domicílios com telefone fixo no concelho do Porto. Os números de telefone foram seleccionados aleatoriamente da lista telefónica correspondente ao concelho do Porto. Em cada domicílio, foi seleccionado o último aniversariante com 18 ou mais anos. Foram obtidos 910 inquéritos válidos e a taxa de resposta foi de 70%. 51% dos inquiridos eram do sexo feminino. Todos os resultados obtidos foram ponderados de acordo com a distribuição da população com 18 ou mais anos residente no concelho do Porto por sexo, escalões etários e qualificação académica. A margem de erro máximo associado a amostra aleatória de 910 inquiridos é de 3,2%, com um nível de confiança de 95%.

Rui Rio (PSD/CDS): 55%
Francisco Assis (PS): 29%
Rui Sá (CDU): 9%
J. Teixeira Lopes: 3%
Outro: 2%
B/N: 2%

Esta estimativa partiu dos seguintes "resultados brutos":
Rui Rio (PSD/CDS): 38%
Francisco Assis (PS): 19%
Rui Sá (CDU): 6%
J. Teixeira Lopes: 2%
Outro: 1%
B/N: 3%
Não vai votar: 15%
Não sabe: 11%
Não responde: 6%

O Público, por opção editorial, não publicou uma parte da sondagem. Enquanto o CESOP não divulga os resultados em site próprio (está para muito breve...), aqui ficam eles. Tratava-se de um conjunto de perguntas sobre os "dois maiores problemas" da cidade do Porto, as duas melhores áreas de actuação da CMP e as duas piores. As perguntas eram abertas e de resposta espontânea, sendo codificadas posteriormente:

Na sua opinião, quais são os dois problemas mais importantes da cidade do Porto?
(pergunta aberta, com respostas codificadas posteriormente; resposta múltipla até dois, com soma das percentagens superior a 100%)
Edifícios degradados:26%
Criminalidade/insegurança:24%
Trânsito/estacionamento:22%
Pobreza, falta de apoio aos mais desfavorecidos:16%
Ruas/passeios/equipamentos danificados:14%
Falta de/maus transportes públicos:9%
Sujidade das ruas:9%
Falta de casas/casas caras:7%
Má qualidade do ambiente/ espaços verdes:6%
Falta de actividades culturais e de lazer: 3%
Outros problemas:23%
Ns/Nr:14%

Na sua opinião, quais são as duas coisas que a Câmara Municipal do Porto tem feito MELHOR?
(perguntas abertas, com respostas codificadas posteriormente; resposta múltipla até dois, com soma das percentagens superior a 100%)
Restauração e conservação de edifícios: 15%
Apoio aos mais desfavorecidos:11%
Transportes públicos: 11%
Conservação de equipamentos/ruas/passeios: 11%
Actividades culturais e de lazer:8%
Combate à criminalidade: 7%
Limpeza das ruas: 5%
Melhoria do trânsito/estacionamento: 5%
Ambiente/espaços verdes:4%
Habitação: 4%
Outras: 22%
Ns/Nr: 42%

Na sua opinião, quais são as duas coisas que a Câmara Municipal do Porto tem feito PIOR? (perguntas abertas, com respostas codificadas posteriormente; resposta múltipla até dois, com soma das percentagens superior a 100%)
Restauração e conservação de edifícios: 12%
Conservação de equipamentos/ruas/passeios: 11%
Melhoria do trânsito/estacionamento: 10%
Combate à criminalidade: 9%
Habitação: 7%
Apoio aos mais desfavorecidos:6%
Transportes públicos: 6%
Ambiente/espaços verdes: 5%
Limpeza das ruas: 5%
Actividades culturais e de lazer: 4%
Outras: 24%
Ns/Nr: 41%

Hoje (RTP/RDP) e amanhã (Público) é divulgada a sondagem de Lisboa. Ou muito me engano ou os resultados poderão gerar perplexidade entre algumas pessoas. Amanhã explico o melhor que puder.

Suportar o terrorismo II

UK, Yougov, 8 Julho, N=1834

Do you think that it may sometimes be necessary to restrict the civil liberties of suspected terrorists even though there is not enough usable evidence to charge and convict them, or should nobody ever have their civil liberties restricted unless they are charged with a specific offence and taken before the courts?
Sometimes necessary to restrict civil liberties:70%(58% em Fevereiro)
Nobody should have their liberty restrictedwithout being charged and taken to court: 23%
(32% em Fevereiro)
Don’t know:7% (10%)

Do you agree or disagree with the following statement? – The threat of terrorism in Britain these days is so serious that it may be necessary sometimes to take action against people who have not yet committed any offence, but about whom the intelligence services have evidence that they are planning an act of terrorism.
Agree: 81% (75% em Fevereiro)
Disagree: 11% (14% em Fevereiro)
Don’t know: 8% (10% em Fevereiro)


Itália, Ispo, Jul. 8-9, N=1600, Telefónica:
Do you think a terrorist attack could take place in Italy soon?
Yes: 82%
No:10%
Not sure:8%


EUA, Gallup, Jul. 7 to Jul. 10, N= 517, Telefónica
Do you think the war with Iraq has made the U.S. safer—or less safe—from terrorism?

Safer: 40% (44% em Maio)
Less safe:54% (39%)
No change:5% (13%)
No opinion: 1% (4%)

segunda-feira, julho 11, 2005

Darwin às voltas na tumba em Westminster

Estados Unidos, Harris Interactive, Junho17-21, N=1000, Telefónica

Do you think human beings developed from earlier species or not?
Yes, think so: 38%
No, do not think so: 54%
Not sure / Declined to answer:8%

Which of the following do you believe about how human beings came to be?
Human beings were created directly by God: 64%
Human beings evolved from earlier species: 22%
Human beings are so complex that they required apowerful force or intelligent being to help:10%
Not sure / Declined to answer:4%

sábado, julho 09, 2005

Suportar o terrorismo

Após o atentado de Londres, a punditry nacional e internacional regressa ao tema da "democratização" do Médio Oriente. Contudo, Vasco Pulido Valente coloca também a questão contrária: sobreviverá a democracia ocidental ao terrorismo?

"Os sinais não prometem. Na América, há hoje, como em tempo de guerra, leis de excepção e Guantánamo não deixou de existir. Em Inglaterra, a Câmara dos Lordes recusou recentemente a Blair algumas medidas drásticas de segurança, como o direito de fixar residência e passar buscas por ordem policial. (...) Resta saber se não chegou ainda o ponto de ruptura: se alguma vez chegar, e esperamos que não. Em teoria, no entanto, nada impede que chegue e ninguém sabe qual seria a reacção da Espanha, da França, da Inglaterra ou da América a um desastre igual ao 11 de Setembro. Pensar que somos 'civilizados' demais para voltar aos crimes do passado é uma ilusão que partilhamos com os criminosos do passado" (Público, 9 Julho 2005, sem link).

Na blogosfera, o assunto tem merecido a atenção de um dos blogues que leio regularmente, o Insurgente. Contudo, FCG - que certamente pensará que o Prevention of Terrorism Act foi inventado em 2005 - discute os riscos das restrições arbitrárias aos direitos cívicos como eles fossem, pasme-se, um resultado da "fúria reguladora do New Labour". Por vezes, o contorcionismo intelectual necessário para mantêr a aparência de alguma coerência ideológica é suficiente para partirmos o pescoço. Já LA aponta outras e mais diversificadas "fúrias reguladoras". Mas ambos parecem partir do princípio não explicitado que essas fúrias se fazem contra a vontade dos cidadãos, os "corajosos" e "fleumáticos" britânicos. Pois atenção ao seguinte:

ICM Research, 23-24 Abril 2004, N=510, Telefónica.
Here are some things people have suggested should be done to counter the risks of terrorism. Others oppose them as they say they would endanger the rights of everyone. Bearing these two things in mind, for each one please say whether you would suppose or oppose the measure to counter terrorism?
Indefinite detention of foreign terrorist suspects. Support: 62%.
Police powers to stop and search anyone at any time. Support:69%.
Detain all immigrants and asylum seekers until they can be assessed as potential terror threats. Support: 66%

Yougov, 24-25 Fevereiro 2005, N=1970.
Do you agree or disagree with the following statements?
It may be necessary sometimes to take action against people who have not yet committed any offence, but about whom the intelligence services have evidence that they are planning an act of terrorism. Agree: 75%

It is sometimes necessary to restrict the civil liberties of suspected terrorists even though there is not enough usable evidence to charge and convict them. Agree: 58%

E ainda na sondagem Yougov:
If a situation arose in which the Government HAD to choose between taking steps to prevent a terrorist act and defending civil liberties, which should the Government do?
Protect national security 61%
Defend civil liberties: 28%

E como não, se a questão for colocada nesses termos? Quem é capaz de colocar manutenção dos "direitos cívicos" antes da sua vida e a dos seus? Na verdade, apesar de muitos lamentarem a "fraqueza" das democracias ocidentais, acomodadas à prosperidade e à segurança e impreparadas para lidar com o terrorismo, essa "fraqueza" tem sido a sua força: é precisamente devido ao facto de uma grande parte dos seus eleitorados ter sido socializada no contexto de relativa paz e prosperidade que a segurança física e material foi relegada para segundo plano em favor de outras preocupações mais "imateriais", tais como os "direitos" e a "democracia". E, mais importante, é também isso que tem permitido a emergência de eleitorados cada vez mais instruídos e sofisticados, que aprenderam a desconfiar de governos que lhes dizem que têm de escolher entre a prevenção do terrorismo e a defesa dos direitos cívicos.

Mas por quanto tempo durará esta resistência, numa "guerra sem fim"? Dois terços dos americanos, por exemplo, parecem já ter capitulado:

Gallup, Jun. 24-26, N=1006, Telefónica.
Based on what you have read or heard, do you think the Patriot Act goes too far, is about right, or does not go far enough in restricting people’s civil liberties in order to fight terrorism?
Too far: 30%
About right: 41%
Not far enough: 21%
No opinion: 8%

sexta-feira, julho 08, 2005

Lula em queda



Dois anos depois

ICM Research, 5-6 Fevereiro 2003, N=1003, Telefónica.

Do you think Britain's support for America's war against terror makes it more or less likely that Britain will be a target for terrorists?
More likely:87%
Less likely:5%
Don't know: 9%

How likely do you think it is that there will be a major terrorist attack in Britain over the next year or so?
Certain: 7%
Very likely: 31%
Fairly likely:42%
Not very likely:10%
Very unlikely:4%
Don't know:5%

quinta-feira, julho 07, 2005

Mais Alemanha, sem novidades

TNS Enmid, 23-30 Junho, N=3236
CDU-CSU:44%
SPD: 26%
PDS/WASG: 11%
Grüne: 9%
FDP: 7%

Forsa, 27 Junho-1 Julho
CDU-CSU:47%
SPD: 26%
PDS/WASG: 10%
Grüne: 7%
FDP: 6%

TNS Enmid, 27 Junho-4 Julho, N=2555
CDU-CSU:43%
SPD: 27%
PDS/WASG: 11%
Grüne: 8%
FDP: 7%

Estou com dificuldade em recolher detalhes metodológicos das minhas fontes, mas espero que a coisa melhore.

E também sei que, com o que aconteceu hoje em Londres, nada disto interessa seja a quem for. Mas fica arquivado. Depois voltaremos ao assunto.

Alemanha, 28-29 Junho

Infratest-Dimap, N=1000, Telefónica.

What party would you support in Germany’s next federal election?
CDU-CSU: 44%
SPD: 27%
PDS/WASG: 10%
Grüne: 8%
FDP: 7%

quarta-feira, julho 06, 2005

Autárquicas, Coimbra

IPAM, N=400, Telefónica, sem data de trabalho de campo online

Carlos Encarnação (PSD/CDS-PP/PPM): 38,3%
Vitor Baptista (PS): 13%
José Manuel Pureza (BE): 5,1%
Gouveia Monteiro (CDU): 4,6%
Outros: 1,8%
Indecisos: 27%
Não responde: 10,2%

Não vão votar: 32,5% em relação ao total da amostra
Não sabem se vão votar: 18,5% em relação ao total da amostra

Após redistribuição de indecisos (feita pelo IPAM "de acordo com a matriz de transferência/fidelização de voto tendo em conta as autárquicas de 2001"):
Carlos Encarnação (PSD/CDS-PP/PPM): 61%
Vitor Baptista (PS): 22%
Gouveia Monteiro (CDU): 11%
José Manuel Pureza (BE): 5%

Fonte: Diário de Coimbra, enviado por amável leitor.

A encarar com as cautelas necessárias ditadas pela distância temporal em relação ao acto eleitoral e a dimensão reduzida da amostra. Há também - pelo menos na versão online da notícia a que acedi - uma certa falta de clareza no processo de redistribuição de indecisos, se bem que seja sempre difícil explicar como se fazem estas coisas. Mas por isso mesmo, haveria que explicar, por exemplo, como é que o BE tem 5,1% em intenção directa de voto e fica só com 5% após a redistribuição de indecisos.

Provavelmente, o voto em eleições passadas está aqui a pesar muito nesta redistribuição. Mas se assim é, importa pensar no seguinte. O BE teve, como se diz na notícia, 1,8% nas últimas autárquicas em Coimbra. Mas teve 3,7% no concelho de Coimbra nas legislativas de 2002. E 8,8% no concelho de Coimbra nas legislativas de 2005...

terça-feira, julho 05, 2005

Mais sondagens sobre o SCOTUS

Mais informação favorável ao Partido Republicano e aos interesses mais conservadores: a maioria dos americanos não quer "filibustering" por parte da minoria e quer que a Constituição seja interpretada "tal como escrita" (expressão-código que significa uma interpretação "originalista" a la Scalia, ou seja, em oposição ao "broad constructionism" que permitiu a expansão das liberdades cívicas). Sei que estou a simplificar mas, para um eleitor normal, é isto que "exactly as it was written" significa hoje em dia.

SurveyUSA, 1 Julho, N=1200, Telefónica

President Bush’s nominee to replace Sandra Day O’Connor must be approved by the United States Senate. If a minority of senators oppose the nominee, but do not have enough votes to defeat the nominee, do you think it is acceptable or unacceptable for those senators to use a filibuster to prevent the nominee from coming to a vote?
Acceptable: 32%
Unacceptable: 53%
Not sure: 15%

Which of the following two statements do you more agree with: The U.S. Supreme Court should interpret the Constitution exactly as it was written; or The U.S. Supreme court should interpret the Constitution in light of modern circumstances.
Exactly as it was written: 53%
In light of modern circumstances: 44%
Not sure: 3%

segunda-feira, julho 04, 2005

A saída de O'Connor (actualizado)

Sandra Day O'Connor vai sair do Supremo Tribunal americano. "Moderate conservative", é como é descrita pela imprensa. As análises de comportamento judicial confirmam: O'Connor votou contra precedentes ditos "liberais" 70% das vezes, enquanto só o fez para precedentes "conservadores" em 30% das vezes.* Contudo, num tribunal maioritariamente conservador (muito mais conservador do que nos tempos de Fortas, Warren, Brennan ou Marshall), O'Connor até faz figura de liberal, tendo à sua esquerda apenas juízes como Breyer ou Ginsburg. Os últimos, aliás, foram ambos nomeados por Clinton. O resto são nomeações de presidentes Republicanos.

Será talvez um exagero dizer-se que "the Senate debates may prove more divisive than those over Judge Robert Bork, a conservative rejected by the Senate in 1987, and Justice Clarence Thomas, who became the Supreme Court's most conservative judge after winning narrow Senate confirmation in 1991". É difícil imaginar algo, à excepção de uma guerra civil, que possa ser "more divisive" que as nomeações de Bork e Thomas.

Mas não vai ser bonito. Para já, a coisa não parece muito favorável aos Democratas:

1. Bush não concorre a novas eleições, logo, sente-se menos constrangido;

2. Do ponto de vista do conteúdo das políticas públicas, os Democratas têm muito a perder com a entrada de alguém hostil à affirmative action ou ao aborto;

3. Os Republicanos poderiam ter muito a perder do ponto de vista eleitoral, ao apresentarem-se como excessivamente conservadores. Mas o que se passa é que:

In general, is the United States Supreme Court in-step with your beliefs, out-of-step with your beliefs, do you not know enough about the court to have an opinion?
In step: 27%
Out of step : 53%
Don’t know: 20%

Survey USA, Julho 1, N=1200, Telefónica

E agora perguntamo-nos : out of step em que sentido? Neste:

Suppose one of the U.S. Supreme Court justices retires at the end of this term. Would you like to see President Bush nominate a new justice who would make the Supreme Court more liberal than it currently is, more conservative than it currently is or who would keep the Court as it is now?

More Liberal: 30%
More Conservative: 41%
Keep As It Is Now: 24%
Unsure: 5%


Gallup, Junho 16-19, N=1006.

Mais conservador? Com certeza, arranja-se já.

P.S.- Sobre o mesmo tema, ver os posts do Causa Nossa e do Insurgente (mas o que quer dizer AAA com "o sinal correcto")?

*Jeffrey A. Segal e Harold J. Spaeth, The Supreme Court and the Attitudinal Model Revisited. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2002.

sábado, julho 02, 2005

Zapatero sabe o que faz

Opina, 29 Jun, N=1000, Telefónica

Apoia ou rejeita a decisão do governo em legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo?
Apoia: 63%
Rejeita: 30%
Ns/Nr:6%

sexta-feira, julho 01, 2005

Exterminado implacavelmente?

Field, 13-19 Junho, N=711, votantes recenseados da Califórnia, telefónica

Suppose that governor Arnold Schwarzenegger runs for re-election next year. As things stand now, are you inclined to vote to re-elect Schwarzenegger as governor?

Inclined: 36%
Not inclined: 57%

É melhor esperarem sentados

Knowledge Networks / Program on International Policy Attitudes, Junho 22-26, N=812

As you may know, at the G-8 summit there will be discussion of the idea of all the wealthy countries committing at least seven tenths of one percent of their gross domestic product to reducing poverty and disease, and promoting economic development in poor countries, especially in Africa. If the other wealthy countries are willing to make this commitment, do you think the U.S. should or should not be willing to make such a commitment?

Should: 65%
Should not: 29%
No answer: 6%

Contudo...

Zogby America Poll. June 27-29, 2005. N=905 likely voters nationwide. MoE ± 3.3 (for all likely voters).

"Do you agree or disagree that if President Bush did not tell the truth about his reasons for going to war with Iraq, Congress should consider holding him accountable through impeachment?"
Agree: 42%
Disagree: 50%
Unsure: 8%

Mas nós gostamos dele na mesma...

Zogby America Poll. June 27-29, 2005. N=905 likely voters nationwide. MoE ± 3.3.

Overall, how would you rate President Bush's performance on the job . . . ?"
Excellent/Good: 43%
Fair/Poor: 56%
Unsure:1%

"Is your overall opinion of George W. Bush very favorable, somewhat favorable, somewhat unfavorable, or very unfavorable, or you are not familiar enough to form an opinion?"
Favorable: 50%
Unfavororable: 48%
NotFamiliar/Unsure: 1%

Fonte: Polling Report

Voltamos ao mesmo

Correio da Manhã, 26-6-05

Ainda ontem, o semanário ‘Expresso’ publicava uma sondagem onde o candidato apoiado pelo PSD, Carmona Rodrigues, ganhava a autarquia com uma margem folgada – 41 por cento, contra 33 por cento de Carrilho.Confrontado com os números, o candidato socialista contrapôs com as conclusões de uma outra sondagem, esta encomendada pelo PS e realizada pela Metris, que lhe dava a vitória.“Hoje [sexta-feira] recebi os resultados de uma outra sondagem, feita em urna – não como esta que é telefónica – com a proporcionalidade das freguesias, dos estratos sociais e profissionais, e que me dá 39, a Carmona Rodrigues 33, ao Partido Comunista 12, ao Bloco 9 e ao PP 5”, especificou.

Se bem que neste caso, ao contrário de aqui, é altamente provável que a sondagem exista. Mas o problema não é esse...É este.

Há aqui alguém que anda seriamente enganado...

Marktest, 18-19 Maio, N=811, Telefónica, Quotas
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 54,5%
Não: 7,3%
Ns/Nr: 38,2%

Eurosondagem, 6-8 Junho, N=1057, Presencial (urna), Estratificada Aleatória
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 50,8%
Não: 49,2%

Marktest, 14-17 Junho, N=800, Telefónica, Quotas
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 36,6%
Não: 22,8%
Ns/Nr: 40,6%

Católica, 18-20 Junho, N=1354, Presencial, Estratificada Aleatória
Referendo à Constituição Europeia
Sim: 43%
Não: 25%
Ns/Nr:33%

quinta-feira, junho 30, 2005

Alemanha, 20-24 Junho

Forsa, N= 2504, Face-a-face

What party would you support in Germany’s next federal election?

CDU-CSU: 47%
SPD: 26%
PDS/WASG: 11%
Grüne: 7%
FDP: 6%

terça-feira, junho 28, 2005

Alemanha, 21-23 Junho

FG Wahlen, N=1175, Telefónica

What party would you support in Germany’s next federal election?

CDU-CSU: 44%
SPD: 27%
Grüne: 9%
PDS/WASG: 8%
FDP: 7%

Adeus Fraga

Do Vieiros:

"Logo dunha semana de incerteza o voto extranxeiro ratificou a maioría absoluta, 38 escanos, conseguida pola coalición do Partido Socialista de Galicia e o Bloque Nacionalista Galego, que lle permiten acceder ao goberno rexional, logo de catro mandatos sucesivos do veterán e ex ministro do ditador Francisco Franco, Manuel Fraga". Así interpreta os resultados o diario arxentino Página 12."Fraga perde o poder en Galiza, o bastión da dereita española", titula o xornal arxentino Clarín. O corresponsal do diario, Juan Carlos Algañaraz, conta que "os populares perderon o seu máis emblemático fortín político e tamén teñen que afrontar a derrota do seu líder histórico, que gobernou Galiza durante 16 anos". A analista Paula Lugones comenta ao respecto que "o PP temía o efecto dominó que se iniciou coa debacle conservadora nos comicios xerais de 2004" e opina que malia que "a derrota foi moito máis axustada do que agoiraban as sondaxes" o PP debería "pasar con urxencia a unha etapa de profunda autocrítica para analizar que falla na súa sintonía coa sociedade".

"A derrota do PP ponlle fin ás esperanzas de Manuel Fraga Iribarne, 82 anos, antigo ministro de Franco, de efectuar un quinto mandato consecutivo á cabeza do Parlamento rexional", recolle Le Nouvel Observateur. A publicación francesa fai referencia á "debilidade do PP" e comenta o peso da emigración galega, afirmando que "estes emigrantes son resultado do éxodo de máis de dous millóns de persoas entre a fin do XIX e a primeira metade do S.XX, empurrados por unha fame nada, coma en Irlanda, da enfermidade da pataca e logo pola represión do rexime franquista".

En Portugal o Público destaca no titular que "Fraga Iribarne deixa poder após 16 anos consecutivos de maioria" e relata no interior que o líder do PP "fixo ouvidos xordos aos argumentos na súa contra, motivados pola idade e polas reservas de moitos sobre a súa saúde, e ignorou as acusacións da oposición de que converteu Galiza no seu feudo, e as observacións sobre o seu pasado franquista e as críticas aos seus excesos verbais, rematando cunha media derrota".

segunda-feira, junho 27, 2005

Galiza

Vai-se conhecer hoje a contagem de votos dos emigrantes e, logo, se o PP fica com ou sem a maioria absoluta. A coisa, no entanto, começa a ganhar contornos tipo "Florida". Espero que não passe daqui:

A Xunta Electoral de Pontevedra decidiu declarar "votos inexistentes" todos aqueles nos que non consta a data en orixo e traen como única referencia a data do aeroporto de Barajas posterior ao 18 de xuño, último día para que os emigrantes puidesen exercer o dereito a voto. O PP anunciou que recorrerá esta decisión.
Un dos avogados do PP, Tomás Iribarren, mostrouse en contra desta decisión da Xunta Electoral provincial porque "hai fórmulas xurídicas como probas testemuñais e diversa documentación para acreditar a data na que se emitiu o voto".Pola contra, o secretario de Organización do PSdeG, Ricardo Varela, aplaudiu a decisión e considera que se axusta a xurisprudencia electoral. "É lóxico que eses votos se consideren inexistentes porque ao non ter a data do país de orixe non se pode garantir inequívocamente que o voto se exerceu dentro do prazo legal", sinalou.



Entretanto, a propósito do fiasco das sondagens à boca das urnas, recebi esta interessante mensagem, que publico com atraso (estive fora):

Tiveches noticia das sondaxes que se fixeron públicaso 19-X, á hora do peche dos colexios eleitorais? Todas daban resultados moi semellantes, cun PP arredor dos 34 ou 35 deputados, claramente derrotado polo conxunto da oposición que acumularía 40 ou 41. Non foi así,como ben sabes.

Resulta revelador de existencia de amplísimas bolsas de voto opaco ou oculto, que até ode agora aquí apenas se daban (nas anteriores autonómicas as sondaxes cravaron os resultados finais, aínda que tamén é certo que daquela a victoria do PP era moi contundente e deixaba pouco espazo á dúvida).

Quizá isto sirva para que os institutos de opinión empecen a re-pensar o xeito de facer sondaxes eleitorais, e a tratar de ver como minimizar as marxes de erro na interpretación dese voto indeciso e na difícil asignación de escanos a partir do método D'hondt, onde unha mínima variación na porcentaxe devoto prevista pode transformar radicalmente os valoresdos cocientes. Como resolver ese problema? "Dificil cuestión esa é",que diría Yoda, o de "Star wars"...

Errata

O leitor atento do Público poderá ter notado duas coisas:

1. Na peça "Trabalhadores do sector privado a favor da redução de privilégios dos funcionários públicos", quando a jornalista (Anabela Campos) fala dos trabalhadores do sector privado (ou "trabalhadores fora da função pública"), refere-se invariavelmente às percentagens de respostas calculadas em relação ao total de "Outros". Mas quando se olha para os quadros com atenção, verifica-se que os "Outros" incluem não apenas os trabalhadores do sector privado, mas também estudantes, pensionistas, desempregados e domésticos(as). Posso-vos dizer que o fundamental das afirmações feitas no texto continua a ser correcto, mas falta-lhes esta precisão.

2. Na peça da passada 6ª feira, o gráfico que se referia à percentagem de eleitores que dizem que "nenhum partido da oposição faria melhor que o actual governo tinha uma gralha". 63% dizem que Não, em vez de dizerem que Sim. O texto que comentava estas repsostas, aliás, estava correcto.

Questões e opções de resposta em sondagens

Sucede por vezes que sondagens publicadas na mesma altura apresentam resultados diferentes. Há, à partida, várias razões possíveis para que isso suceda: a própria margem de erro amostral, diferentes opções na selecção das amostras, trabalhos de campo realizados em dias diferentes (podendo, logo, captar mudanças de curto-prazo nas preferências dos eleitores), etc.

Uma fonte adicional de discrepâncias é a formulação das perguntas. Há muito tempo, citei aqui um autor que me parece muito importante nestas matérias (John Zaller). Zaller tem sugerido a ideia de que as pessoas não têm, na verdade, opiniões. O que elas têm é uma série de "considerações" dentro da cabeça, a favor ou contra (ou simplesmente a propósito) das matérias sobre as quais são questionados em inquéritos. Quando são inquiridos, seleccionam uma dessas considerações de forma mais ou menos aleatória e despacham a resposta, coisa que, aliás, permite que respondam uma coisa e o seu contrário com 10 minutos de diferença (esta experiência foi feita...). Isto não significa que, em agregado, não haja estabilidade nas opiniões de um indivíduo ou de uma população. As "considerações" que cada um tem na cabeça não estão lá por acaso, e mesmo que estivesse, a lei das médias gera estabilidade geral. Mas sugere que a captação de opiniões através de inquéritos é uma coisa muito frágil, muito e especialmente dependente do estímulo concreto que é fornecido pela formulação da pergunta...

Toda esta conversa a propósito das sondagens de hoje no Público e no DN. Fichas técnicas e alguns resultados:

DN: Marktest, 14-17 Junho, N=813, Quotas, Telefónica.
Público: Católica, 18-20 Junho, N=1354, Estratificada Aleatória, Presencial.

1. DN. "Concorda com as medidas do Governo para combater o défice?"
Sim: 40%
Não: 44%
Ns/Nr: 16%

Público: "Recentemente, o governo aprovou uma série de medidas para reduzir o défice do Orçamento de Estado. Em geral, diria que concorda com estas medidas, que discorda delas ou que ainda não sabe o suficiente para se pronunciar?"
Concorda: 27%
Discorda: 39%
Não sabe o suficiente para se pronunciar: 32%
Não responde: 2%

2. DN: "Concorda com a subida da idade de reforma para 65 anos?"
Sim: 30%
Não: 63%
Ns/Nr: 4%

Público: "Queria pedir a sua opinião sobre algumas dessas medidas concretas. (...) Concorda com ou discorda da aproximação da idade legal de reforma na função pública à idade legal de reforma no sector privado?"
Concorda: 58%
Discorda:32%
Ns/Nr:10%

Quais as "melhores" estimativas das opiniões da população? À falta de erros graves na formulação das perguntas, não me parece que haja resposta óbvia. Por exemplo, a pergunta DN sobre as medidas do défice impede que os eleitores de "refugiem" na opção "não sei", obtendo uma divisão mais clara das opiniões dos eleitores. Mas não será que, por isso mesmo, acaba por captar uma série de "não opiniões", facilmente modificáveis a curto-prazo?

E o que dizer da idade de reforma, em que os dois inquéritos produzem resultados aparentemente contraditórios? Mas serão eles verdadeiramente contraditórios? A pergunta DN usa a linguagem mais coloquialmente aceite para descrever a medida. Mas captará ela a substância dessa medida? A pergunta do Público usa a linguagem que o Primeiro Ministro usou no parlamento para apresentar a medida. Mas não condicionará as opiniões ao estímulo que o governo quis dar e à forma como ele quis apresentar a medida?

Dúvidas para as quais não tenho resposta inequívoca. A não ser para comentar o poder e a importância da linguagem e do discurso, não apenas nos inquéritos, mas também na política em geral. Uma mesma medida pode ser enquadrada pelo discurso político de formas diferentes, e a forma que acaba por prevalecer na consciência dos eleitores pode condicionar o seu apoio ou a sua oposição a essa medida...

Autárquicas, Lisboa

Eurosondagem, 20-22 Junho, N=1525, Aleatória, Telefónica.

PSD- Carmona Rodrigues: 41%
PS- Manuel Maria Carrilho: 33%
CDU-Ruben de Carvalho: 9%
BE-José Sá Fernandes: 8%
CDS/PP- Maria José Nogueira Pinto: 4%

A soma dá 95%. Pela notícia online, a única a que tive acesso, não se percebe se estamos perante indecisos, outros, brancos/nulo, ou uma qualquer combinação dos anteriores, mas é provável que os 5% que faltam correspondam a OBN (outros, brancos e nulos).

segunda-feira, junho 20, 2005

Peritos

Vale a pena ler este post de Pacheco Pereira (PP). A linha é, de facto, muito fina - se é que existe - entre a contribuição do "politólogo" que pode adiantar qualquer coisa ao conhecimento de um determinado fenómeno político e a contribuição que é uma "opinião política como qualquer outra". E partilho da preocupação com o facto de essas contribuições, sejam elas meras "opiniões" ou não, aparecerem por vezes enquadradas com uma aura especial de "isenção e intangibilidade". Se um "politólogo" ou qualquer outro "cientista" (atenção às aspas) é criticado (por vezes com inusitada violência) pelos seus erros e omissões no interior da própria academia, como imaginar que pudesse estar isento de críticas quando se desloca à "praça pública"?

Contudo, será que tudo aquilo que os "politólogos" dizem na comunicação social se resume, como defende PP, a "truísmos" ou "opiniões políticas como quaisquer outras"? Será que toda e cada uma (ou até a maior parte) das intervenções públicas de académicos que estudam fenómenos políticos se encaixam nestas duas categorias? Eu gostaria de pensar que não, mas Pacheco Pereira lá terá a sua "opinião" sobre o assunto, se bem que ela própria esteja sujeita - porventura com tanta ou tão pouca justiça - a ser descrita também como meramente "política" (ver aqui).

Mas mesmo que Pacheco Pereira tenha razão em descrever todas as contribuições "não truísticas" dos académicos que estudam os fenómenos políticos como "opiniões políticas ", qual é exactamente o problema? O que o faz pensar que essas opiniões são "como quaisquer outras"? Não poderá o debate político eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas "opiniões políticas" são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso? Ficamos a perder assim tanto com isso?

O discurso político sobre a economia e a política nos Estados Unidos fica a perder muito com as opiniões dos economistas e dos politólogos que "descem" da academia para dizer o que pensam informados por aquilo que sabem ou julgam saber ao longo de anos de actividade académica? Não será que o que nos falta é, precisamente, um maior número de public intellectuals, pessoas capazes de, sem abdicar de darem as suas opiniões e de explicarem "de onde vêm", sejam também capazes de as dar fazendo a ponte para aquilo que na academia se julga saber sobre os temas em discussão? (e não será um dos problemas do debate político nos Estados Unidos o declínio desses public intellectuals e sua crescente substituição por um exército de political pundits, pessoas cuja única e exclusiva actividade é a de...dar opiniões?).

Ou será que devemos concluir que o protagonismo no debate político em Portugal deve ser dado exclusivamente a pessoas cuja actividade fundamental é a de fazer política, mas que, apesar de nunca esconderem que estão a dar a sua "opinião", fazem-no manipulando o abundante capital simbólico que recolhem da sua suposta condição de "académicos", nunca se rebelando contra esse enquadramento que deles é dado nos media?

13 dias e a "vontade do povo"

1. Dinamarca, Vilstrup/Politiken, 3 de Junho, 1037 entrevistas, telefónica

Should the scheduled referendum on the European Constitution take place, or be called off?
Denmark should still hold the referendum as scheduled: 53%
The referendum should be called off in light of the recent rejections: 31%
Undecided: 16%

2. Dinamarca, Catinét Research, 16 Junho, 1020 entrevistas.

Should the government stand by its plan to hold a referendum to ratify the European Constitution?
Yes: 33%
No:50%
Unsure: 17%

Contas galegas

PP: 44,9% (37)
PSdeG: 32,5% (25)
BNG: 19,6% (13)

Mas...falta contar os votos da emigração galega. O que pode acontecer?

Ver aqui:
"a emigración galega responde de xeito case sistemático a un mesmo patrón de voto. Nas eleccións autonómicas como nas xerais, a diáspora galega tradicionalmente sempre lle daba o trunfo ao partido que goberna no Estado, quer o PP quer o PSOE, sen importar cal dos dous está a gobernar en Galiza (excepto nunha ocasión, nas autonómicas de 1993, onde o PP gañou ao PSOE por pouco), mentres que o BNG sempre obtivo porcentaxes moi reducidas de voto (non atinxiu nunca unha porcentaxe superior ao 7%)."

E aqui:
"Tal e como están as cousas, o PP necesitaría conseguir arredor de 10.000 votos dos emigrantes máis co PSOE en Pontevedra para poder conseguir o escano 38 que lle devolvería a maioría absoluta. Nas eleccións de 2001, o PP logrou en Pontevedra 13.292 votos procedentes do CERA; o PSOE, 4.559 e o BNG 1.186. Con estes resultados, o PP non renovaría a maioría absoluta, pero polo pelo dun carneiro. Haberá por tanto que agardar 8 días para coñecer o desenlace".

Quanto às sondagens, a mais recentes estiveram todas muito próximas- como podem confirmar aqui - à excepção da Opina de 12 de Junho (curiosamente, a que foi realizada mais perto das eleições. Já no referendo francês tivemos um fenómeno semelhante...).

sábado, junho 18, 2005

Autárquicas, Sintra

Eurosondagem, 13-15 Junho, N=1011, Telefónica.

PSD/CDS (?) - Fernando Seara: 33%
PS - João Soares: 33%
CDU: Batista Alves: 8,5%
BE - João Silva: 7%
Outros: 4,5%
Indecisos: 15%

Autárquicas, Porto

Eurosondagem, 7-9 Junho, N=1025, Telefónica
PSD/CDS (Rui Rio): 39%
PS (Francisco Assis): 33%
CDU (Rui Sá): 9%
BE (Teixeira Lopes):3%
Outros:5%
Indecisos: 11%

sexta-feira, junho 17, 2005

A opinião pública

Há dias, acabei de ler o Saturday do Ian McEwan. Não estou particularmente impressionado. Gosto muito de alguns livros anteriores. Atonement mais que todos, talvez, se bem que The Innocent menos que todos os outros, de certeza. Ponho este algures no meio.

Mas há no livro uma passagem daquelas que se pode pedir para "comentar" num teste de uma qualquer cadeira de "Estudos de Opinião Pública". A personagem principal é Henry Perowne, um neurocirurgião, meia-idade, vagamente progressista, se bem que no alto de uma apoteótica trajectória de ascenção social até à upper middle class, já pouco recordado dos tempos em que era estudante e vivia com a mulher e a filha num apartamento minúsculo e já nada envergonhado do seu Mercedes S500.

O Saturday do título é um dia concreto, o da manifestação em Londres contra a guerra no Iraque. A certa altura, Perowne comenta algo indignado que estranha que na manifestação não haja cartazes contra a tortura e a opressão no Iraque. E diz que nunca poderia juntar-se a esta manifestação. Apesar de não estar certo das razões da guerra, teve um paciente exilado iraquiano que lhe contou como foi torturado (e por isso, só as razões "humanitárias" da guerra o poderiam persuadir, the only case for the war worth making).

Mas num dispositivo típico do livro - que nunca nos deixa interpretá-lo como um panfleto sobre a guerra nem nos alivia incertezas sobre a posição de McEwan ou Perowne - logo após contar isto, Perowne distancia-se imediatamente da sua indignação inicial, e reflecte: se não lhe tivesse calhado aquele paciente iraquiano, se não tivesse conhecido em primeira mão as histórias de tortura, poderia perfeitamente estar ali com eles na manifestação. Da mesma maneira que, alguns deles, estão ali por outras e tão boas razões - "reais", vividas, outros "iraquianos". A vida é feita de acidentes de percurso. A opinião pública é uma coisa completamente aleatória.

quinta-feira, junho 16, 2005

A teoria dos dominós

Irlanda, TNS, 8 Junho, N=1000, Telefónica:

Should the Irish government go ahead with a referendum on the European Constitution?
Should go ahead: 45%
Should not go ahead: 34%
Don’t know: 21%

How would you vote if a referendum takes place?
In favour :30%
Against: 35%
Not sure: 35%

Mais "Minho Norte"

Com muito maior conhecimento de causa sobre as sondagens para as eleições de 19 na Galiza, ver aqui os artigos de Carlos Neira.

quarta-feira, junho 15, 2005

Entretanto, no "Minho Norte"

Fui desafiado há uns tempos pelo dias estranhos, um blogue da Galiza ("Minho Norte", tendo em conta que, para eles, Portugal é "Minho Sul") a escrever qualquer coisa sobre as eleições autonómicas do próximo dia 19. Hesito, porque sei muito pouco - muito menos do que devia e gostaria - sobre a política galega. Mas não custa alinhar alguns resultados de sondagens e pensar um pouco sobre elas, rezando para que as minhas fontes estejam correctas. Por ordem cronológica crescente, as que detectei (redistribuo indecisos e arredondo casas decimais):

1. Universidade de Santiago de Compostela, Novembro-Dezembro 2004, N= 1200, face-a-face.
PP: 31% (34-35 deputados)
PSdeG: 28% (23-24 deputados)
BNG: 21% (17 deputados)
Outros: 20% (tantos?)

2. Instituto Opina, 2-4 Maio, N=1500, ?.
PP: 35% (36-37)
PSdeG: 34% (27)
BNG: 13% (11-12)
Não tem outros.

3. Sondaxe, 27 Abril-4 Maio, N=4000, ?.
PP: 45% (36)
PSdeG: 32% (24)
BNG: 21% (15)
Outros/brancos: 2%

4. CIS, 29 Abril-11 Maio, N=1600, face-a-face.
PP: 46% (36)
PSdeG: 33% (23)
BNG: 21% (16)

5. Instituto Opina, 5 Junho, N=1000, face-a-face.
PP: 45% (35-37)
PSdeG: 33% (25-27)
BNG: 20% (13)

6. Anova Multiconsulting, 31 Maio-7 Junho, N=2000, telefone:
PP: 47% (38)
PSdeG: 31% (22)
BNG: 19% (14)

7. Sigma Dos, 6-8 Junho, N=800, telefone.
PP: 47% (37-38)
PSdeG: 30% (23-24)
BNG: 20% (13-14)

8. Instituto Opina, 12 Junho, N=1000, face-a-face.
PP: 42% (34-36)
PSdeG: 35% (25-26)
BNG: 19% (15)

Há ainda outras duas de um instituto chamado Infotécnica, mas do qual apenas obtive distribuições de deputados. Ambas as sondagens, uma de Abril e outra de Maio, deixam tudo em aberto quanto à maioria absoluta, para a qual o PP precisa de 38 deputados. O sistema eleitoral galego tem, segundo a explicação do dias estranhos, uma cláusula-barreira de 5%, abaixo da qual o partido não obtém deputados, o que basicamente transforma a coisa num jogo PP-PSdeG-BNG.

O que posso dizer sobre estes resultados? Três coisas:

1. Dos vários institutos que fizeram sondagens, os mais conhecidos e reputados (e de dimensão nacional) são o Opina, a Sigma Dos e, claro o CIS. Mesmo que quiséssemos dar maior credibilidade aos resultados destes - e não estou seguro que assim seja - isto não nos levava longe. Enquanto a Sigma Dos dá um resultado mais lisonjeiro para o PP, o CIS e o Opina negam a maioria absoluta ao PP.

2. Agora, para mentes perversas. Em que meio de comunicação são divulgadas as sondagens Opina? El Pais e Cadena Ser (Grupo Prisa). Em que meio de comunicação são divulgadas as sondagens Sigma Dos? El Mundo. A quem pertence o CIS? À Presidência do Conselho de Ministros de Espanha. Tirem daqui as conclusões que entenderem. Eu, por mim, não queria tirar muitas, mas que é tentador, é.

3. Se há alguma conclusão que se possa, com muito cuidado, tirar, é esta: nenhuma das sondagens que sabemos ser conduzidas face-a-face dá maioria absoluta ao PP, e nenhuma passa dos 46% das intenções de voto. Ambas as sondagens que sabemos ter sido conduzidas pelo telefone dão 47% e abrem a possibilidade de maioria absoluta.
O que vou dizer de seguida baseia-se em muito poucas observações e muito palpite, mas eu confiaria mais nas sondagens face-a-face. Quando um partido está no poder desde que há poder, quando estamos num território com forte peso de eleitorado rural e uma economia pouco diversificada, muito dependente de decisões do poder autonómico a vários níveis, será que podemos confiar em sondagens que ligam para casa dos eleitores e lhes perguntam se, afinal, sempre vão votar em Fraga? As sondagens face-a-face, pelo menos, permitem a utilização de métodos que minimizam a ocultação do voto (simulação de voto em urnas) e diminuem as recusas. Não se as primeiras já foram utilizadas, mas seja como for, a experiência das eleições locais em Portugal confirmam a superioridade das sondagens face-a-face (ao contrário do que sucede nas eleições nacionais, onde não faz diferença).

É isto. Gostava de poder dizer mais, mas é tudo o que sei. Votem bem.

terça-feira, junho 07, 2005

Ainda vamos querendo, mas cada vez menos

Luxemburgo, ILRes, fim de Maio
500 inquiridos, telefónico

Sim: 46% (-13% em relação a Abril)
Não:32% (+9%)
Não sabe:22% (+4%)

segunda-feira, junho 06, 2005

Não sabemos ainda bem o que queremos

República Checa, Factum Invenio, fim de Maio
Telefónica, 300 (!) inquiridos

Do you support or oppose the European Constitution?

Support: 31.5%
Oppose :33.7%
Undecided: 34.8%

Também não queremos, mas também queremos ser nós a dizer

Dinamarca, Greens Analyseinstitut/Borsen, fim de Maio 2005
1010 entrevistas, telefónica

How would you vote in the referendum on the European Constitution?

Yes: 30.8%
No: 39.5%
Undecided: 29.7%


Dinamarca, Vilstrup/Politiken, 3 de Junho
1037 entrevistas, telefónica

Should the scheduled referendum on the European Constitution take place, or be called off?

Denmark should still holdthe referendum as scheduled: 53%
The referendum should be called offin light of the recent rejections: 31%
Undecided: 16%

Uma boa e irrelevante notícia para a Constituição Europeia

Itália, Ekma Ricerche Srl, 30 de Maio
1000 inquiridos, telefónica, quotas

Domanda : Se ieri si fosse tenuto il referendum per la ratifica della costituzione europea, come avrebbe votato?.
Risposta: Sì 58,5%; No 41,5%

domingo, junho 05, 2005

Arquivo: Eurosondagem, 31 Maio

1020 entrevistas telefónicas, estratificada aleatória.

PS: 40,2%
PSD: 26,4%
CDU: 5,6%
BE: 5,4%
CDS-PP:4,9%

José Sócrates: 55% opiniões positivas
Marques Mendes: 35% opiniões positivas

Opiniões sobre medidas de combate ao défice: ver aqui.

sexta-feira, junho 03, 2005

Não queremos, mas queremos ser nós a dizer

Reino Unido:

"In the aftermath of the French referendum (...) MORI has found a 34 point lead for the NO camp, Yes 22%, No 56%"

"However, a large majority of people (67% to only 21% against) still want to have a referendum on the EU Constitution regardless of whether or not other countries have already rejected the treaty".

Resumo no Sun, dados do UK Polling Report.

Ou seja: a "morte natural" da CE não é suficiente para os ingleses. Querem matá-la com as próprias mãos. Ou querem também usar o referendo para outras coisas, tais como reafirmar a sua falta de confiança em Tony Blair? Ou, na pátria da soberania parlamentar, gostam genericamente da ideia de referendos mesmo que estes não sirvam para nada? Ou todas estas coisas (e outras) misturadas? O certo é que terá de haver mais qualquer coisa do que uma maioria de eleitores movidos pelo simples objectivo de não haver uma Constituição Europeia.

2/3 dos suecos ainda querem votar (e quase metade quer dizer "Não")

Sifo, 30-31 Maio

Do you think the European Constitution should be ratified through a referendum, or through a parliamentary vote?
Referendum 65%
Parliamentary vote 27%
Undecided 8%

How would you vote if a referendum on the European Constitution took place now?
Yes 23%
No 41%
Undecided 36%

Mas não se lhes deu a terceira opção (nem referendo nem parlamento)...

Concurso de ideias III (actualizado)

Há também quem ache que já deverá haver muitos estudos sobre isto. De Leonel Morgado:

Quanto a este concurso de ideias, não haverá já soluções qb.? Pelo menos nos EUA, que eu saiba, é comum haver referendos em simultâneo com outras eleições (sem a escandaleira que há por cá). Certamente que pelo menos aí deverá haver alguém que se tenha dedicado a esta questão da contaminação?

Pois é verdade: é altamente improvável que isto não esteja estudado nos EUA. O problema, claro, é que não há referendos nacionais nos Estados Unidos, o que limita a comparabilidade. Mas vou tentar apurar.

Actualização: ora cá está, 2 artigos em 5 minutos, apesar de não serem respostas ainda à nossa pergunta.

1. Mark A. Smith, The Contingent Effects of Ballot Initiatives and Candidate Races on Turnout. American Journal of Political Science, Vol. 45, No. 3. (Jul., 2001), pp. 700-706. Mas aqui a questão é colocada um pouco ao contrário: em que medida os referendos ajudam a mobilizar eleitores que de outra forma não iriam às urnas. Não se aplica ao nosso caso...

2.Regina P. Branton, Examining Individual-Level Voting Behavior on State Ballot Propositions.
Political Research Quarterly, Vol. 56, No. 3. (Sep., 2003), pp. 367-377. Sugere que o comportamento de voto dos indivíduos nos referendos locais é sistematicamente influenciado pela sua identificação partidária, especialmente em temas "sociais/morais". Mas o tema do referendo europeu não é "social/moral", o nosso referendo é nacional e a nossa questão não é esta: a questão é saber se, ao seguirem as pistas dos partidos, os eleitores deixam que a aprovação pela actuação de um determinado partido a nível local se transforme na adesão às orientações desse partido no que respeita ao referendo.

Mas vou continuar a procurar.

Concurso de ideias II

Vários responsáveis políticos europeus vão afirmando simultaneamente que haverá e poderá não haver referendo (ver aqui ou aqui), pelo que o exercício de tentar perceber se a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas tem efeitos pode, ele próprio, vir a perder interesse. Contudo, há já sugestões sobre como proceder. De J. Afonso Bivar:

Prolongo um pouco o exercício de divisão da amostra cuja ideia já apresentou. Em vez de duas metades, proponho dividir a amostra em três partes. Na primeira, pergunta-se exclusivamente a intenção de voto no referendo; Na segunda, a intenção de voto nas autárquicas; Na terceira, em simultâneo as duas intenções. Nesta terceira parte, para procurar replicar ao máximo as circunstâncias de votação, antes de auscultar os sentidos de voto, introduzir-se-á um pequeno texto informando os inquiridos que lhes vai ser pedido que indiquem como vão votar tanto no referendo como nas autárquicas.

Tenderia ainda a tomar outra precaução suplementar, relativa a esta terceira parte (sobretudo se a aplicação se fizer via telefone). Mesmo com o texto de advertência à cabeça, será aconselhável que a sequência de perguntas (referendo-autárquicas) se invertesse na metade; por outras palavras, a metade deste 1/3 de inquiridos colocar-se-á primeiro a pergunta sobre o referendo; a outra metade, escutará primeiro a questão sobre as autárquicas.

Digo-lhe também que de qualquer forma creio que é ainda muito cedo para fazer quaisquer sondagens, tendo em consideração, além dos meses que nos separam de Outubro, o objectivo de medir/apreciar o "efeito de contaminação partidária" de que fala. Eu esperaria para ver os partidos assumirem e sobretudo publicitarem as respectivas posições no que toca ao referendo. Não há métodos perfeitos. Mas este parece-me aquele que mais fidedignamente responde aos problemas que equaciona. Em relação à sua proposta anterior,tem desde logo a vantagem de permitir aferir variações (acaso as haja e sejam estatisticamente significativas) nas taxas de abstenção e também estimar o impacte sobre estas do que posso chamar de "efeito autárquico" e de"efeito referendo". Só para dar uma ideia da informação relevante que sepode obter: se, na abstenção estimada, o valor referente à "subamostra conjunta" não se "encostar" ao valor relativo à "subamostra autárquica",isso quererá dizer que a votação simultânea funcionará parcialmente comodissuasor da própria ida às urnas. Sei que o efeito colateral desta minha proposta, a ser adoptada claro, será o de fazer crescer a amostra e portanto aumentar os custos. Não creio todavia que o acréscimo seja muito significativo - logo não a invalidará. De qualquer jeito, aqui está em causa apenas o esquema "conceptual" do binómio questionário-amostra.

O design é complexo, mas poderia funcionar. Infelizmente, duvido que venha a haver estudos concebidos especificamente para responder a este tipo de questões. O que se fizer será certamente "atrelado" a coisas que já estão previstas, ou seja, barómetros nacionais ou sondagens autárquicas. Logo, não deverá haver capacidade para criar amostras com a dimensão necessária para que, do confronto de sub-amostras, pudesse resultar algo de estatisticamente significativo.

Quanto ao timing, tenho dúvidas. O potencial problema que se costuma levantar é, para simplificar, que alguém que vote num partido nas autárquicas acabe por, por "arrastamento", votar no referendo "de acordo" com esse partido. Para que isso possa surgir, é verdade que é preciso esperar para que as "pistas" fornecidas pelos partidos possam ser apreendidas pelos eleitores. Contudo, surge um problema: quanto mais tempo passar, mais a condição "quase-experimental" de colocar a pergunta sobre o voto no referendo como se ele não estivesse ligado às autárquicas perde relevância, dado que as pessoas vão, a pouco e pouco, apercebendo-se que, de facto, o referendo irá ter lugar com as autárquicas.

quinta-feira, junho 02, 2005

Concurso de ideias I

Como saber se faz diferença que o referendo tenha lugar isoladamente ou em conjunto com as autárquicas? Uma ideia para arrancar:

Dividir uma amostra em duas metades, aleatoriamente seleccionadas, e aplicar 2 questionários diferentes. Num, colocar a pergunta sobre intenção de voto no referendo à cabeça. Noutro, colocar a mesma pergunta após uma pergunta anterior sobre intenção de voto nas autárquicas. Os resultados na segunda condição podem depois ser comparados com os resultados da primeira. Se difererentes e essa diferença for estatisticamente significativa, um "efeito de questionário" pode servir como resposta ao problema da "contaminação"

Concurso de ideias

Pelos vistos, haverá referendo europeu em Outubro, em simultâneo com as autárquicas. Enfim.

E nos próximos tempos, haverá certamente uma série de sondagens quer sobre eleições autárquicas quer sobre o referendo europeu.

Uma pergunta possível é: como se poderia testar (para confirmar ou infirmar) , usando inquéritos por questionário, a hipótese de que a realização do referendo em simultâneo com as autárquicas afecta o resultado substantivo do referendo, quer do ponto de vista da "contaminação" (um voto num partido nas autárquicas que por extensão de torna num voto "partidarizado" no referendo) quer do ponto de vista da participação (um aumento "artificial" da participação que leva a um resultado substantivo diferente daquele que haveria caso o referendo fosse isolado)?

Vou pensar. Mas se tiverem ideias, mandem-nas para o e-mail do blogue: margensdeerro@yahoo.com. Publico-as aqui, com identificação do proponente (a não ser que se peça anonimato).

E, se exequíveis, executo-as (dando os créditos intelectuais respectivos).

quarta-feira, junho 01, 2005

Holanda, resultados oficiais

Sim: 38.2%
Não: 61.8%

As sondagens - pelo menos as que conheço - pecaram por defeito não estimação do Não. Tendo em conta que essas sondagens foram realizadas antes do Não francês, uma coisa que valia a pena investigar seria em que medida o resultado francês poderá ter influenciado os resultados holandeses, amplificando a força do Não (que já era, diga-se, largamente maioritário).

Mais Holanda

Maurice de Hond, 28 de Maio (N=2200)

How would you vote in the referendum on the European Constitution?(Decided Voters)
Sim: 41% (-2% em relação a 21 de Maio)
Não: 59% (+ 2% em relação a 21 de Maio)

Eu também

O bombyx mori não está convencido que o facto dos eleitores franceses que votaram "Não" o terem feito - à parte de factores conjunturais - na base de uma assumida recusa de uma "Constituição demasiado liberal" (à esquerda) ou da sua oposição à entrada na Turquia na UE (à direita) tenha qualquer espécie de relevância. É possível que não ache que as élites políticas francesas e europeias tenham sequer consciência dessas motivações. E certamente não crê que essas motivações condicionem de alguma forma as decisões que vão ser tomadas no futuro sobre a Constituição Europeia, sobre futuros alargamentos ou sobre as políticas de coesão.

Contudo, pelos vistos, o bombyx mori também não está de acordo com Pacheco Pereira quando este diz que a vitória do Não abre caminho a "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente". Segundo o bombyx mori, o meu raciocínio "não é menos viciado (ou capcioso)" que o do Pacheco Pereira.

Então o que acha o bombyx mori? Que aquilo que eu escrevi "constitui uma manipulação (porventura inconsciente) travestida de rigor científico (e sobretudo dotada de aparato metodológico) dos dados do Referendo", e que este "abuso analítico" é especialmente grave tendo em conta que eu sou "uma autoridade na matéria, como frequentemente se ouve dizer aos políticos: uma opinião respeitada ou abalizada." Que o meu raciocício - "vamos chamar as coisas pelos nomes, se não se importam" é "viciado" e "capcioso" (malévolo, ardiloso, manhoso). E que "este é um assunto extremamente complexo, que me [lhe] levanta inúmeras questões, tanto de matriz analítica como de posicionamento pessoal. Lastimo não ter no presente tempo para de forma séria as pensar, escrever e verter para o bombyx mori."

Eu também.