segunda-feira, junho 05, 2006

Popularidade líderes políticos Portugal

Com algum atraso, vamos aos dados do Barómetro Marktest (.pdf). O gráfico abaixo mostra a evolução dos resultados do Barómetro desde Março de 2005 no que respeita à percentagem de inquiridos que faz uma avaliação positiva da actuação de cada um dos líderes políticos. Sampaio permanece no gráfico para termos um ponto de comparação com Cavaco.

Usando toda a informação resultante do Barómetro Marktest - opiniões positivas, negativas e sem opinião - tenho usado um índice já explicado aqui. Os resultados não são muito diferentes, fazendo apenas com que as diferenças entre eles e o efeito da passagem do tempo se tornem menos expressivos:


Logo:

1. Cavaco começa aproximação ao habitual "olimpo" presidencial;
2. Sócrates, apesar da manter vantagem sobre Mendes, dá sinais de descida.

quinta-feira, maio 25, 2006

quarta-feira, maio 24, 2006

Ainda sobre jornalistas e especialistas...

Nada mais oportuno do que estes artigos, via Ponto Media.

O livro de Carrilho: notas de leitura

Lá fui ler o livro. Queria apenas deixar umas notas sobre as passagens em que o autor se refere a sondagens pré-eleitorais:


"A sondagem da Universidade Católica, de meados de Julho, é curiosa, porque nos dados brutos a relação entre a minha candidatura e a de C. Rodrigues é de 22/24, a favor dele, mas quando se projectam os votos dos indecisos o resultado final é-me favorável, com 41%, ficando ele nos 36%" (p. 116)

Sobre isto, os interessados podem consultar este meu post da altura.


"Nesta situação, abria-se também o debate sobre o significado destes dados. O ponto principal era o de avaliar a credibilidade das sondagens e dos métodos utilizados, uma vez que umas empresas (a Aximage e a Eurosondagem) utilizavam o sistema de consulta telefónica, a Universidade Católica utilizara o sistema de consulta de rua e a Metris utilizava o método de voto em urna". (p. 116)

Só uma clarificação: a Católica não faz sondagens pré-eleitorais por "consulta de rua", mas sim nos domicílios dos eleitores, presencial ou telefonicamente. Há alguns casos, excepcionais, em que se recorre a entrevistas na rua no contexto de uma sondagem presencial, mas apenas quando as dificuldades em contornar o problema das recusas ou das ausências nos domicílios são muito grandes.


"Tendo confirmado que Lisboa está já com uma cobertura de rede fixa muito baixa, perto dos 50%, pareceu-me que a metodologia a seguir deveria ser a do voto em urna, em que o cidadão é colocado numa situação análoga à do dia da eleição propriamente dita. Foi nesse sentido também que recebi pareceres de especialistas, que contudo me alertaram para a maior deficiência desta metodologia, e que é a de não medir a abstenção, factor que nas eleições de hoje - e nomeadamente nas autárquicas - é muitas vezes decisivo" (p. 116)

"a Metris, com o voto em urna, a acreditar na vitória do PS, a Aximage, com o voto telefónico, a distanciar o PSD. A acreditar nestes dados, tudo seria decidido (como foi) pela abstenção, e sobretudo pelo tipo (mais de esquerda ou de direita) da abstenção, que é o que as sondagens de voto em urna não apanham" (p. 163).

Há aqui dois equívocos. O primeiro consiste em dizer-se que as sondagens que utilizam voto simulado em urna "medem" melhor ou pior a abstenção. Não há razão nenhuma para tal. Todas as sondagens, de forma a procurarem medir a intenção de não votar (ou quaisquer outros indicadores na base dos quais a intenção de não votar se possa inferir) têm de fazer perguntas. Nada impede que uma sondagem de voto em urna coloque essas perguntas e que, após respondidas, entregue o boletim ao inquirido para que ele o preencha confidencialmente. Não percebo qual é o problema especial das sondagens com voto em urna deste ponto de vista. Dificuldade em estimar a abstenção têm todos, telefónicos, com urna ou sem urna.

O segundo equívoco está na"deficiência" das sondagens de voto em urna: elas têm uma deficiência, sim, mas não tem a ver com a abstenção. Tem a ver com o facto de impedirem que se coloque uma bateria de perguntas de dimensão razoável que nos permita conhecer em detalhe as características socio-demográficas a atitudinais dos indivíduos. Precisamente para não se perturbar a vantagem do voto em urna - inquérito breve e confidencial no que respeita à intenção de voto - o questionário associado tem de ser igualmente breve. Logo, até podemos obter uma maior precisão na medição das intenções reais de voto, mas ficamos a saber muito pouco sobre o eleitorado.

Já agora, por que razão anda uma campanha a fazer sondagens com urna? De que serve a essa campanha "saber" quais as percentagens de voto que ela ou os adversários vão obter, ainda por cima a meses das eleições? Não servirão as sondagens dos media para isso? Não seria mais útil para a campanha conhecer melhor as características do eleitorado, os alvos que deve procurar atingir, as prioridades e atitudes dos eleitores? Para isso, as sondagens em urna não servem. E se não servem para isto, de que servem a uma campanha? É possível que haja uma explicação, mas não estou a ver.

segunda-feira, maio 22, 2006

A jornalista e o "especialista": estudo de caso

Na semana passada fui contactado telefonicamente por uma jornalista do Expresso, que me pediu um depoimento sobre o livro de Manuel Maria Carrilho e as questões por ele levantadas. Comecei por lhe dizer que não li o livro e que nada sei sobre o mundo das agências de informação, mas retorquiu-me que queria falar comigo para discutir a questão do efeito real da comunicação social no comportamento de voto. Acedi.

Disse-lhe, mais uma vez, que não tinha lido o livro. Que em Portugal não havia, que eu soubesse, muita investigação sobre o efeito das mensagens dos media nos resultados eleitorais. Mas que havia muita investigação noutros países, e o que se sabia, em geral, era o seguinte:

1. Que o facto de alguém ser exposto a mensagens negativas sobre um candidato ou partido não tem necessariamente um grande efeito sobre o seu comportamento. Que os indivíduos não são uma "folha em branco". Eles partem para a campanha com as suas próprias predisposições políticas, que os fazem interpretar essas mensagens de uma forma congruente com essas predisposições. Dei um exemplo extremo: o facto de um simpatizante do Partido Comunista ser exposto a muitas mensagens negativas sobre o partido não implica que deixe de votar nele. Pelo contrário: pode mesmo interpretar essas mensagens como sendo enviesadas e, assim reforçar as suas predisposições. Que, deste ponto de vista, não conhecia estudos que indicassem que o factor decisivo numa vitória ou derrota eleitoral tenha sido a comunicação social.

2. Que, no caso Carrilho, parece ter sucedido algo muito semelhante ao caso Santana Lopes: a cobertura do candidato foi quase universalmente negativa, o que sugere que, em vez de uma "conspiração" por parte de um conjunto concreto de órgãos de comunicação, o problema estaria no candidato, na sua actuação e na desadequação do seu perfil em relação àquilo que os media definem como o perfil "aceitável" de um candidato.

3. Contudo, apesar do que disse no ponto 1, sabe-se que os media podem ter efeitos mais insidiosos no comportamento eleitoral, ao carregaram a agenda política de temas que desfavorecem ou favorecem o ângulo através do qual um candidato pode ser avaliado, mesmo sem transmitirem mensagens explícitas a favor ou contra ele. Dei o exemplo simples do que implica para o sucesso eleitoral de um Presidente ou Primeiro-Ministro que, sob condições económicas negativas, a agenda dos media esteja carregada de notícias sobre o estado da economia. Não há propriamente uma mensagem explícita contra esse líder político, mas há a construção de um critério de avaliação. Não falei em "agenda-setting", "framing" ou "priming", para não complicar.

4. Que, a olho, me parecia que os jornais portugueses eram muito vulneráveis à influência de seja quem for que lhes coloque nas mãos informação "preparada". Que, por inexperiência, incompetência ou excesso de trabalho, os jornalistas tendem frequentemente a assumir uma atitude passiva em relação aos "pacotes" de informação que as agências e os assessores lhes fazem chegar (na altura, não sabia que "cerca de 70% das notícias publicadas nos jornais portugueses têm como origem as agências de informação ou os gabinetes de Imprensa", mas estou tudo menos surpreendido).

A jornalista pediu-me autorização para usar dados deste blogue para procurar uma relação entre a cobertura jornalística da campanha autárquica em Lisboa e os resultados de sondagens. Dei-lha, sugerindo também que consultasse o site da Marktest, pedindo-lhe apenas que referisse as fontes.

Qual foi o resultado destes dez minutos de conversa? Este parágrafo:

Pedro Magalhães, do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, refuta de forma categórica as teses de Carrilho e alerta para os efeitos contraproducentes das campanhas negativas: «Se eu for apoiante do Partido Comunista e se recebo da Comunicação Social apenas críticas ao meu partido, começo a achar que elas são enviezadas e posso até reforçar as minhas crenças».

Não interpretem este post como uma crítica à jornalista. Como é óbvio, ela tinha de fazer uma selecção daquilo que eu disse e integrar essa selecção de forma coerente em toda a notícia ( tenho apenas duas críticas: os resultados das sondagens foram apresentados no Expresso sem menção da fonte de onde foram coligidos; "enviesadas" escreve-se com "s", e não com "z").

Mas este pequeno e irrelevante caso levanta várias questões interessantes. Já tinham pensado como, de cada vez que lêem "depoimentos" nos jornais, eles resultam de uma criteriosa selecção por parte do jornalista daquilo que foi dito? E quais os critérios de selecção e apresentação? Por que razão terá a jornalista optado por escrever que o autor do depoimento "refuta de forma categórica das teses de Carrilho", quando esse autor lhe disse que não conhece em pormenor as ditas teses e quando o conjunto do seu depoimento não parece constituir exactamente uma "refutação categórica" delas (ver pontos 3. e 4.).

E o caso faz também com que me coloque a mim próprio outras questões. Há um ano, Pacheco Pereira escreveu um texto onde defendia que as opiniões daqueles que estudam temas políticos não eram diferentes "de opiniões políticas, de cidadãos, no espaço público" sem outra "legitimidade acrescida enquanto opiniões de natureza política":

"O resultado ou são truísmos (a transposição de um resultado académico ipsis verbis para uma afirmação de carácter político raras vezes resulta noutra coisa) ou são puras opiniões políticas, a que o estatuto académico dá uma aura de isenção e intangibilidade que confunde o debate público."

Na altura critiquei-o, defendendo que o debate político poderia "eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas 'opiniões políticas' são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso."

Contudo, este caso faz-me pensar se ele não terá razão. Que contribuição específica ou adicional ao debate político pode dar um "especialista" quando aquilo que ele diz é "ensalsichado" pela máquina de produção de notícias e depois, ainda por cima, se vende a salsicha como proveniente de região especial demarcada, legitimando uma mensagem que, da forma como é apresentada, acaba por fazer parte de um determinado argumentário político (mesmo que não partilhado pela fonte)?

Esta foi a parte do pensamento sobre o tema. A parte da acção é mais simples: nunca mais dou um depoimento à imprensa sem ter completo controlo sobre a forma como esse depoimento vai ser apresentado. Live and learn.

sexta-feira, maio 19, 2006

Sondagem em São Paulo

Da Datafolha. Alguns destaques:

- "Para 56% dos moradores da cidade de São Paulo, o governador Cláudio Lembo (PFL) teve uma atuação ruim ou péssima durante os ataques do PCC que deixaram o estado de São Paulo em pânico nos últimos dias";

- "Quando indagados sobre a responsabilidade pelos ataques terem acontecido, a maioria (55%) atribui muita responsabilidade ao Poder Judiciário pelos acontecimentos. Para 30% o governador Cláudio Lembo tem muita responsabilidade e para 39% um pouco de responsabilidade pelos ataques. (...) Atribuem muita responsabilidade ao presidente Lula (PT) 39%, e acham que o ex-governador Geraldo Alckmin, que deixou o cargo para se candidatar à Presidência há pouco mais de um mês, é muito responsável pelos ataques 37%."

- "Para 65% o governo do estado negociou para que os ataques parassem. Desses, 42% acham que o governo agiu mal ao negociar e 21% acham que agiu bem."

segunda-feira, maio 15, 2006

"Everything is up in the air"

USA Today, 17 de Março de 2003:

"It's a new era for foreign policy," says William Kristol, a leading Republican who helped develop the strategy while the party was out of power during the Clinton administration. "Iraq has implications beyond Iraq and in a sense is about more than Iraq. It reflects a broader worldview. How it goes — whether it goes well or not — will very much affect people's judgments about what to do in the future" in the world. (...) If war with Iraq succeeds as envisioned, Kristol says, the United States will be in a position to pursue a more confrontational policy toward rogue regimes and move to "remake" the Middle East.

And if it doesn't go well? "Then everything is up in the air."


Estados Unidos, CBS News/NYT Poll, 8 Maio de 2006, Telefónica, N=1241.
"Looking back, do you think the United States did the right thing in taking military action against Iraq, or should the U.S. have stayed out?"

Did the right thing: 39% (Fevereiro: 41%)
Should have stayed out: 56% (Fevereiro: 54%)
Unsure: 5% (Fevereiro: 5%)


"Which comes closer to your opinion—Iran is a threat to the United States that requires military action now, Iran is a threat that can be contained with diplomacy now, or Iran is not a threat to the United States at this time?"

Threat requiring action now: 11% (Fevereiro: 20%)
Threat that can be contained: 58% (Fevereiro: 55%)
Not a threat at this time: 22% (Fevereiro: 19%)
Not sure: 8% (Fevereiro: 6%)

quarta-feira, maio 10, 2006

Presidenciais italianas e voto obrigatório (actualizado)

Dois posts recentes a ler com atenção no blogue do cientista político Matthew Soberg Shugart, um sobre a eleição do presidente italiano (menos "cerimonial" do que parecer à primeira vista) e outro sobre o voto obrigatório, a propósito de um relatório de um "think tank" britânico que advoga a sua adopção no Reino Unido.

Menciona-se também um artigo académico acabado de sair sobre o assunto no Journal of Theoretical Politics, mas não esquecer a referência fundamental sobre o assunto: o artigo de Arend Lijphart, "Unequal Participation: Democracy's Unresolved Dilemma." American Political Science Review 91: 1-14.

De notar, claro, que a linha da frente da defesa do voto obrigatório é a existência de desigualdades sociais na propensão para a participação eleitoral (e, logo, de desigualdades nos interesses representados politicamente), fenómeno generalizado nos Estado Unidos e outros países de elevadíssima abstenção mas menos comum noutros. Mas não nos fazia mal discutir o assunto...

P.S.- Ou o Insurgente é especialmente bem frequentado, ou então não se pode dizer que as caixas de comentários são sempre lugares para insultos e frustrações. Basta ler os comentários até agora a este post sobre o voto obrigatório.

Independentemente dos méritos ou deméritos do voto obrigatório, há um problema central: os sistemas políticos onde o voto obrigatório poderia "fazer diferença" - ou seja, nos países em que aqueles que não votam são sistematicamente "diferentes" daqueles que votam em termos das suas preferências políticas (o que nem sempre sucede) - são também aqueles onde há actores políticos interessados em que esses mesmos eleitores não entrem no sistema, porque isso poderia fortalecer os seus adversários. Isto vale para os dois lados do espectro ideológico: nos Estados Unidos, por exemplo, os Republicanos nunca aceitariam o voto obrigatório, porque isso implicaria a potencial entrada de eleitores do partido Democrata no sistema (nem sequer conseguem mudar o voto de 3ª feira para Domingo...). Por outro lado, noutros países, não é de excluir que o voto obrigatório aumentasse a votação de partidos de direita "anti-sistema".

Há uma história que, que eu saiba (mas pode haver sem eu saber), está por fazer, e que é a dos processos de "desenho" institucional que levaram a que, nalguns países, se tivesse adoptado o voto obrigatório (Brasil, Austrália, Bélgica) e, noutros (Itália, Holanda), tivesse sido abandonado. Quem defendeu o quê nessas alturas? Assim se perceberá quem sentia que tinha mais a ganhar e a perder. E serão sempre os mesmos? Provavelmente não.

Artigos no Público

Aqui há uns anos, uma alma caridosa e anónima foi colocando alguns dos artigos que escrevi durante 2003 no Público num blogue criado para o efeito. Ainda por cima, era uma alma caridosa com discernimento, porque só colocava os artigos de que gostava (que eram também aqueles que eu próprio ia achando mais razoavelmente decentes).

Mas como a caridade começa em casa, a partir de agora, esses artigos vão para as Outras Margens, com uns dias de atraso. A verdade é que este suporte tem algumas vantagens em relação ao jornal, permitindo-me fazer ligações a algumas das fontes que uso para os artigos. E quanto mais não seja, sempre podem ir vendo quanto tempo passa até que me comece a contradizer.

Mais Brasil

Mais uma sondagem sobre as presidenciais no Brasil, desta vez do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (relatório .pdf, aqui). Estabilidade quase total em relação ao estudo de final de Março: Lula à frente mas sem maioria absoluta, Alckmin perdeu o gás.

Os cenários possíveis estão ainda no ar: com ou sem Garotinho (ainda em greve de fome, à hora que escrevo, protestando contra a Globo e a campanha; how to starve your electoral chances to death, explica-se no brazilianpolitics.com), com ou sem Itamar, com ou sem Sarney, ou mesmo sem candidato do PMDB. Sábado é, creio, a convenção do partido. Seja como for, se Garotinho não for candidato, quem beneficia é Lula.


A propósito, mesmo sendo um bocado caseiro, não posso deixar de sugerir um seminário que vai ter lugar no ICS no dia 16, de manhã: A América Latina: Um Olhar Contemporâneo (programa em .pdf, aqui). Participam Andrés Malamud, do ISCTE, certamente o politólogo a trabalhar em Portugal que mais sabe sobre a América Latina; e Octávio Amorim Neto, da Fundação Getúlio Vargas, um dos melhores investigadores brasileiros nestas áreas (para além de um estudioso do nosso e outros semi-presidencialismos). No final, um debate entre Manuel Villaverde Cabral, Wilson Trajano e Bernardino Gomes. Entrada livre.

segunda-feira, maio 08, 2006

Off topic: Tapada das Necessidades

Não sei se isto é uma micro-causa, mas o que lhe chamo interessa pouco. O Águas do Sul mostra algumas fotografias daquele que, se me perguntassem, facilmente responderia ser um dos meus locais favoritos na cidade de Lisboa: a Tapada das Necessidades. A primeira coisa que importa dizer é que a degradação que a Tapada hoje sofre - visível apenas quando nos aventuramos a caminhar acima do relvado principal a que se acede através da entrada sul - é muito maior do que aquilo que as fotografias podem transmitir. Edifícios e pavilhões abandonados e cobertos de grafittis, caminhos quase intransitáveis pela multiplicação de buracos e pedras, tanques vazios, cancelas fora dos gonzos, ervas que invadem caminhos e passeios, lixo abundante disperso pela vegetação, etc. Tudo isto se passa, note-se, nas traseiras do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Instituto de Defesa Nacional.

Mais: diz o Águas do Sul que o atelier de pintura do Rei D. Carlos I vai ser o gabinete do ex-presidente Jorge Sampaio. Tive a oportunidade de verificar ontem que este atelier está a sofrer obras de beneficiação: pintadinho, recuperado, impecável, e já com relva verdinha e aparada à entrada. Acho muito bem. Mas tenho alguma dificuldade em conceber que Jorge Sampaio se sinta confortável nas suas novas instalações ao mesmo tempo que sabe que a Tapada onde elas estão localizadas está entregue ao mais completo e deprimente abandono, visível, aliás, logo a poucos metros do atelier, num pavilhão cujo miradouro se encontra invadido pelas ervas daninhas e pelos ramos por podar das árvores que o envolvem.

Eu junto-me já ao "Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades" que o Águas do Sul sugere. E até digo mais: se o Ministério da Agricultura, dos Negócios Estrangeiros, e a Câmara e seja lá quem for que tem tutela sobre a Tapada não encontram maneira de se coordenarem para garantir um mínimo de manutenção para o espaço, ou se acham que têm outras coisas mais importantes onde gastar o dinheiro - escrevam no Google as expressões "patrocínio do Ministério dos Negócios Estrangeiros" ou "patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa" e ficarão a saber alguns dos sítios onde o orçamento destas instituições vai parar - eu até estou disposto a fazer-lhes um donativo. E se outros se juntassem, poderíamos ter à entrada do parque e em cada zona recuperada da Tapada uma placa dizendo: "Pago com donativos adicionais dos já contribuintes lisboetas". É isso que é preciso? Dou já.

sábado, maio 06, 2006

Eurosondagem

Nova edição do Barómetro da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença.

José Sócrates (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 55,7% (57,9%)
Nem boa nem má: 17% (18,7%9
Actuação negativa: 20,5% (20,7%)
Ns/Nr: 6,8% (5,7%)

Cavaco Silva (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 58,7% (57,1%)
Nem boa nem má:14% (15,4%)
Actuação negativa: 19,8% (19,6%)
Ns/Nr: 7,5% (7,9%)

Marques Mendes (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 35% (38,7%)
Nem boa nem má: 24,5% (22,7%)
Actuação negativa: 29,6% (28,7%)
Ns/Nr: 10,9% (9,9%)

O nosso índice habitual de 0 a 100 (ver posts anteriores), aplicado apenas aos dados da Eurosondagem, revela a seguinte evolução para Sócrates e Mendes:


Em resumo: tal como sucedia na sondagem Markest do final de Abril, Sócrates vê travada uma tendência de subida que vinha desde as autárquicas. Mendes também desce. E Cavaco também sobe (não vale a pena fazer gráfico dado que temos apenas duas observações). As mudanças são mínimas, mas o seu sentido é o mesmo nos dois Barómetros.

quarta-feira, maio 03, 2006

Consolações


Steven Colbert, do Daily Show, diverte-se e diverte-nos à grande à custa do Presidente Bush (vídeo aqui, transcrição aqui). Uma citação que, compreenderão, achei particularmente bela:

Now, I know there are some polls out there saying this man has a 32% approval rating. But guys like us, we don't pay attention to the polls. We know that polls are just a collection of statistics that reflect what people are thinking in "reality." And reality has a well-known liberal bias.

Para os "liberais" que levam as estatísticas a sério, Charles Franklin tem as novidades:

E as novidades são simples: We have simply never seen a president this unpopular going into a midterm election.

Mas nem tudo é mau para o Presidente Bush. Afinal, há ainda alguém cuja popularidade (.pdf) é inferior à dele:

sexta-feira, abril 28, 2006

Opinião publicada e opinião pública (2)

E eis que, nem de propósito, chegam os dados da Marktest para medir o "fim do estado de graça do governo". Os gráficos seguintes mostram a evolução da popularidade de Sócrates nas sondagens Marktest medida de três formas: as opiniões positivas; o saldo entre opiniões positivas e negativas; e um índice, que varia de 0 a 100, calculado da seguinte forma: (2*%opiniões positivas + %ns;nr;"assim-assim")/2





"Fim do estado de graça" parece exagerado. E é só uma sondagem, sujeita a múltiplas fontes de erro, e cujos resultados carecem de ser confirmados (ou não) por mais observações. Mas por outro lado, estes resultados levantam a hipótese de que, pelo menos, a subida que Sócrates vinha fazendo desde as eleições autárquicas possa ter chegado para já ao seu limite máximo: é a primeira sondagem Marktest desde Novembro em que o índice de popularidade de Sócrates não sobe. Veremos o que trazem as próximas sondagens.

Entretanto, com esta sondagem da Marktest, podemos actualizar o gráfico já apresentado aqui e assim "fechar" o mês de Abril, apreciando a evolução dos índices de popularidade do PM, do PR e do Líder da Oposição por mês, limpos de "house effects". Não há grandes diferenças em relação aos resultados anteriores quando englobamos na análise os resultados da Marktest e a Eurosondagem. Sócrates e Cavaco quase par a par (se bem que Sócrates tenha muito mais opiniões quer positivas quer negativas e Cavaco ainda muita indiferença), Mendes quase não mexe pouco acima do limiar positivo dos 50.

quarta-feira, abril 26, 2006

Opinião publicada e opinião pública

Na opinião publicada, o fim do estado de graça foi declarado. O "Simplex" terá levado a vertente propagandística deste governo longe demais, e os relatórios do BP, do FMI e da OCDE constituem o marco temporal mais visível desse eventual fim.

Mas o que me desperta mais curiosidade é saber com que décalage temporal isto se reflecte na opinião pública, em que conjunto ou tipo de eleitores ou, até, se se reflecte de todo. Paulo Gorjão acha que sim, e anuncia que "os próximos estudos sobre a popularidade do Governo já irão reflectir -- embora ainda de forma ténue - a dúvida que se instalou sobre a bondade das medidas do Governo". Aproxima-se o barómetro Marktest e cá estaremos para ver se há algum efeito visível.

Mas importa recordar o que se passou no final da governação Guterres. Entre os comentadores, o "pântano" começou logo após as eleições de 1999. Mas curioso é verificar que, em Outubro de 2001, as sondagens continuavam a colocar o PS em primeiro lugar das intenções de voto. "Guterres recupera e PS já sobe" e "Poder rosa em grande" eram os títulos do Expresso de... 5 de Outubro de 2001. Não se trata apenas de um qualquer factor "Eurosondagem", porque os resultados da Universidade Católica não eram diferentes.

Problema das sondagens, ou problema das pressuposições sobre a forma como o discurso mediático penetra ou influencia a opinião pública? E se forem as segundas que estão erradas, que factores medeiam a relação entre um e outra que fazem com que a relação seja muito mais indirecta e cheia de nuances do que se poderia prever?

quinta-feira, abril 20, 2006

Vietname/Iraque

A comparação das tendências da opinião pública americana verificadas durante as guerras do Vietname e do Iraque, já aqui feita de forma puramente descritiva, começa a merecer cada vez mais atenção nos Estados Unidos.

Ontem, baseando-se nos mesmos dados, Chris Cillizza, no blogue do Washington Post, concluía que:

1. O ponto aparentemente definitivo de viragem ocorreu em meados de 2005 - aproximadamente 800 dias depois da invasão no gráfico abaixo - momento a partir do qual passa a haver uma maioria dos americanos que pensam que a guerra no Iraque foi um erro. Isto coincide com o caso Cindy Sheehan, a mãe de um militar morto no Iraque que montou uma vigília junto ao rancho de George Bush, em Crawford.

2. Este ponto de viragem foi anterior ao da guerra do Vietname, que se deu por altura da ofensiva de Tet. Para ser mais preciso, o ponto a partir do qual a opinião pública american ficou maioritariamente persuadida de que a guerra do Vietname tinha sido um erro foi após a ofensiva de Tet de 1968 (mais de 1200 dias após Rolling Thunder), que revelou que, apesar da derrota militar dos norte-vietnamitas, não havia qualquer esperança de uma vitória rápida dos Estados Unidos. Desde esse momento, não voltou a haver uma maioria na opinião pública americana a favor da guerra.

3. Chillizza menciona um artigo de Novembro de 2005 na Foreign Affairs que, sem desculpa, me tinha passado ao lado: de John Mueller, ainda por cima um professor da minha alma mater. Algumas citações de um artigo que merece ser lido na íntegra:

Comparando a evolução ao longo de várias guerras:
The most striking thing about the comparison among the three wars is how much more quickly support has eroded in the case of Iraq. By early 2005, when combat deaths were around 1,500, the percentage of respondents who considered the Iraq war a mistake -- over half -- was about the same as the percentage who considered the war in Vietnam a mistake at the time of the 1968 Tet offensive, when nearly 20,000 soldiers had already died.

Especulando sobre implicações para as eleições para o Congresso:
"The impact of war discontent on congressional races is less clear. Democrats attempted to capitalize on the widespread outrage over Nixon's invasion of Cambodia in 1970 but were unable to change things much."

Sobre a improbabilidade de inversão da tendência:
"There never were periods of continuous good news in the wars in Korea or Vietnam, so there is no clear precedent here. But should good news start coming in from Iraq -- including, in particular, a decline in American casualty rates -- it would more likely cause the erosion in public support to slow or even cease rather than trigger a large upsurge in support. For support to rise notably, many of those now disaffected by the war would need to reverse their position, and that seems rather unlikely: polls that seek to tap intensity of feeling find that more than 80 percent of those opposed to the war "strongly" feel that way. If you purchase a car for twice what it is worth, you will still consider the deal to have been a mistake even if you come to like the car."

Sobre os limites da comparação entre o Vietname e o Iraque e por que razão isso pode fazer com que uma retirada seja menos dramática:
When the United States was preparing to withdraw from Vietnam, many Americans feared that there would be a bloodbath if the country fell to the North Vietnamese. And indeed, on taking control, the Communists executed tens of thousands of people, sent hundreds of thousands to "reeducation camps" for long periods, and so mismanaged the economy that hundreds of thousands fled the country out of desperation, often in barely floating boats. (What happened in neighboring Cambodia when the Khmer Rouge took over makes even the word "bloodbath" seem an understatement.) (...) Although the consequences of a U.S. withdrawal from Iraq are likely to be messy, they may be less dire. The insurgency in Iraq, albeit deadly and dedicated, represents a much smaller, less popular, and less organized force than the Vietcong did, and it does not have the same kind of international backing. Moreover, many of the insurgents are fighting simply to get U.S. troops out of the country and can be expected to stop when the Americans leave.

E sobre as consequências, essas sim potencialmente catastróficas, do fracasso no Iraque para toda a região:
In the meantime, any country that suspects it may be on the list has the strongest incentive to make the American experience in Iraq as miserable as possible. Some may also come to consider that deterring the world's last remaining superpower can be accomplished by preemptively and prominently recruiting and training a few thousand of their citizens to fight and die in dedicated irregular warfare against foreign occupiers. (....) Ultimately, the chief beneficiaries of the war in Iraq may be Iraq's fellow members of the "axis of evil."

Actualizo os dados sobre a opinião pública americana acerca de uma e outra guerras, aproximadamente no mesmo período de tempo, nos gráficos abaixo:

segunda-feira, abril 17, 2006

Mais Brasil

Uma nova sondagem, da Sensus. Realizada ao mesmo tempo que a sondagem Datafolha, confirma os seus resultados: Lula abaixo da maioria absoluta, Alckmin parou de subir, Garotinho sobe.

Lei eleitoral italiana: correcção

O Sniper fez pontaria e acertou. Ao contrário do que eu tinha dito aqui, o "prémio de maioria", se necessário, atribui-se à coligação mais votada e não à coligação com mais assentos após a exclusão dos partidos que não ultrapassam a cláusula-barreira. O site da Câmara dos Deputados italiana explica (clicar em "Norme", "Legge Elettorale" e "Scheda illustrativa") e espero, desta vez, ter entendido correctamente (partes relevantes em negrito):

I seggi sono ripartiti proporzionalmente in ambito nazionale tra le coalizioni di liste e le liste che abbiano superato le soglie di sbarramento previste dalla legge. Sono ammesse alle ripartizione dei seggi soltanto le coalizioni che abbiano raggiunto almeno il 10% del totale dei voti validi e, al loro interno, le liste che abbiano ottenuto il 2% dei voti, le liste rappresentative di minoranze linguistiche con almeno il 20% dei voti della circoscrizione e la lista che abbia conquistato più voti tra quelle che non hanno conseguito il 2% dei voti.

Partecipano inoltre alla ripartizione dei seggi le liste che non fanno parte di alcuna coalizione, a condizione che abbiano avuto almeno il 4% dei voti a livello nazionale. Alla coalizione di liste (o alla lista non coalizzata) più votata, qualora non abbia già conseguito almeno 340 seggi, è attribuito un premio di maggioranza tale da farle raggiungere il numero di seggi in questione. Le varie fasi della distribuzione dei seggi proporzionali sono le seguenti:

1. Si accerta, nelle circoscrizioni e in ambito nazionale, il totale dei voti conseguiti da ciascuna coalizione o singola lista non collegata e si individua quale di esse ha ottenuto a livello nazionale il maggior numero di voti ai fini dell’attribuzione dell’eventuale premio di maggioranza;

2. Si individuano le coalizioni di liste e le liste non collegate che, superando le soglie di sbarramento, sono ammesse all’assegnazione dei seggi;

3. Si determina su base nazionale il numero di seggi spettanti a ciascuna coalizione di liste o lista non collegata che ha superato la soglia di sbarramento. La ripartizione è effettuata in proporzione ai voti ottenuti con il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

4. Si verifica se la coalizione di liste o la lista non collegata che ha ottenuto il più alto numero di voti ha cnseguito 340 seggi;

5. In caso positivo, il premio di maggioranza non trova applicazione. I seggi spettanti a ciascuna coalizione sono assegnati alle liste ammesse al riparto che le compongono. Si procede quindi a distribuire in ogni circoscrizione i seggi assegnati in sede nazionale a ciascuna lista ammessa;

6. Se nessuna coalizione di liste o lista non collegata ha ottenuto almeno 340 seggi, si attribuisce a quella di esse più votata il premio di maggioranza, consistente in un numero di seggi pari alla differenza tra 340 e il numero di seggi ad essa assegnati sulla base della ripartizione proporzionale. I 277 seggi rimanenti sono distribuiti tra le altre coalizioni o liste non collegate secondo il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

7. Si proclamano, nelle diverse circoscrizioni, i candidati eletti secondo l'ordine di successione fissato in ciascuna lista. Se la lista dei candidati è esaurita, si attinge, nell’ordine, alla medesima lista in un’altra circoscrizione, ad un’altra lista della stessa coalizione presentata nella circoscrizione originaria, ovvero in un’altra circoscrizione.

terça-feira, abril 11, 2006

Da Itália para o Brasil

E porque não convém perder embalagem, nova sondagem sobre as presidenciais brasileiras, da Datafolha. As discrepâncias entre os diferentes institutos são demasiado grandes (e o número de observações demasiado pequeno) para tirar grandes conclusões. Mas não deixa de ser curioso verificar que, em relação à anterior sondagem Datafolha, quem parece ter perdido alguma embalagem é Alckmin (o mesmo sucedendo, aliás, no cenário hipotético de "2º turno" contra Lula). Mas é cedo, muito cedo...

Acabou (?)

Do La Stampa:



Dos votos dos eleitores no estrangeiro resultaram 4 senadores em 6 para a Unione. Maioria relativa então para Prodi no Senado e absoluta na Câmara. Mas a Cdl contesta o resultado e quer recontagem.