O Sniper fez pontaria e acertou. Ao contrário do que eu tinha dito aqui, o "prémio de maioria", se necessário, atribui-se à coligação mais votada e não à coligação com mais assentos após a exclusão dos partidos que não ultrapassam a cláusula-barreira. O site da Câmara dos Deputados italiana explica (clicar em "Norme", "Legge Elettorale" e "Scheda illustrativa") e espero, desta vez, ter entendido correctamente (partes relevantes em negrito):
I seggi sono ripartiti proporzionalmente in ambito nazionale tra le coalizioni di liste e le liste che abbiano superato le soglie di sbarramento previste dalla legge. Sono ammesse alle ripartizione dei seggi soltanto le coalizioni che abbiano raggiunto almeno il 10% del totale dei voti validi e, al loro interno, le liste che abbiano ottenuto il 2% dei voti, le liste rappresentative di minoranze linguistiche con almeno il 20% dei voti della circoscrizione e la lista che abbia conquistato più voti tra quelle che non hanno conseguito il 2% dei voti.
Partecipano inoltre alla ripartizione dei seggi le liste che non fanno parte di alcuna coalizione, a condizione che abbiano avuto almeno il 4% dei voti a livello nazionale. Alla coalizione di liste (o alla lista non coalizzata) più votata, qualora non abbia già conseguito almeno 340 seggi, è attribuito un premio di maggioranza tale da farle raggiungere il numero di seggi in questione. Le varie fasi della distribuzione dei seggi proporzionali sono le seguenti:
1. Si accerta, nelle circoscrizioni e in ambito nazionale, il totale dei voti conseguiti da ciascuna coalizione o singola lista non collegata e si individua quale di esse ha ottenuto a livello nazionale il maggior numero di voti ai fini dell’attribuzione dell’eventuale premio di maggioranza;
2. Si individuano le coalizioni di liste e le liste non collegate che, superando le soglie di sbarramento, sono ammesse all’assegnazione dei seggi;
3. Si determina su base nazionale il numero di seggi spettanti a ciascuna coalizione di liste o lista non collegata che ha superato la soglia di sbarramento. La ripartizione è effettuata in proporzione ai voti ottenuti con il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;
4. Si verifica se la coalizione di liste o la lista non collegata che ha ottenuto il più alto numero di voti ha cnseguito 340 seggi;
5. In caso positivo, il premio di maggioranza non trova applicazione. I seggi spettanti a ciascuna coalizione sono assegnati alle liste ammesse al riparto che le compongono. Si procede quindi a distribuire in ogni circoscrizione i seggi assegnati in sede nazionale a ciascuna lista ammessa;
6. Se nessuna coalizione di liste o lista non collegata ha ottenuto almeno 340 seggi, si attribuisce a quella di esse più votata il premio di maggioranza, consistente in un numero di seggi pari alla differenza tra 340 e il numero di seggi ad essa assegnati sulla base della ripartizione proporzionale. I 277 seggi rimanenti sono distribuiti tra le altre coalizioni o liste non collegate secondo il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;
7. Si proclamano, nelle diverse circoscrizioni, i candidati eletti secondo l'ordine di successione fissato in ciascuna lista. Se la lista dei candidati è esaurita, si attinge, nell’ordine, alla medesima lista in un’altra circoscrizione, ad un’altra lista della stessa coalizione presentata nella circoscrizione originaria, ovvero in un’altra circoscrizione.
segunda-feira, abril 17, 2006
terça-feira, abril 11, 2006
Da Itália para o Brasil
E porque não convém perder embalagem, nova sondagem sobre as presidenciais brasileiras, da Datafolha. As discrepâncias entre os diferentes institutos são demasiado grandes (e o número de observações demasiado pequeno) para tirar grandes conclusões. Mas não deixa de ser curioso verificar que, em relação à anterior sondagem Datafolha, quem parece ter perdido alguma embalagem é Alckmin (o mesmo sucedendo, aliás, no cenário hipotético de "2º turno" contra Lula). Mas é cedo, muito cedo...
Acabou (?)
Do La Stampa:

Dos votos dos eleitores no estrangeiro resultaram 4 senadores em 6 para a Unione. Maioria relativa então para Prodi no Senado e absoluta na Câmara. Mas a Cdl contesta o resultado e quer recontagem.

Dos votos dos eleitores no estrangeiro resultaram 4 senadores em 6 para a Unione. Maioria relativa então para Prodi no Senado e absoluta na Câmara. Mas a Cdl contesta o resultado e quer recontagem.
O dia seguinte

Retirado do La Stampa.
Unione ganha na Câmara, por 25 mil votos, e permanece indefinição no Senado, se bem que a votação dos eleitores no estrangeiro pareça estar a favorecer Prodi. Seja como for, não haverá maioria absoluta no Senado nem para Unione nem para Cdl, devido aos senadores vitalícios (inclinados à esquerda). A Cdl pede recontagem.
Entretanto, os sondagistas são trucidados:
Elezioni: il flop dei sondaggi
Exit-poll, che disastro
«Sfida già finita alle quindici»: e ora chiamateli pure exit flop
Fim, por hoje
Uma mera curiosidade, porque já só vale a pena contar os votos, mas a oitava (!) projecção apresentada para o Senado continua a dar 7 assentos de vantagem à Cdl, enquanto a terceira (!) projecção para a Câmara dá a Cdl e a Unione empatados com 49,8% (!) e retira a anterior maioria absoluta para a Cdl (!). A Nexus desiste, e deixa de dar projecções de deputados.
Por mim, já esgotei os pontos de exclamação, mas o director da Nexus, ao "Porta a Porta", ainda tem mais um: "são as piores eleições da história!" Bem podes dizê-lo outra vez.
Amanhã prosseguem os jogos.
Por mim, já esgotei os pontos de exclamação, mas o director da Nexus, ao "Porta a Porta", ainda tem mais um: "são as piores eleições da história!" Bem podes dizê-lo outra vez.
Amanhã prosseguem os jogos.
segunda-feira, abril 10, 2006
Mais projecçoes
A projecções mais recentes não mudam nada: às 20.15h (hora portuguesa), continuam a estimar uma maioria absoluta (com o bónus) para a Cdl de Berlusconi quer na Câmara quer no Senado.
Há uma pessoa em cujo lugar em não gostaria de estar hoje: Fabrizio Massa, da Nexus, que esteve a coordenar as sondagens à boca das urnas e as projecções...
Há uma pessoa em cujo lugar em não gostaria de estar hoje: Fabrizio Massa, da Nexus, que esteve a coordenar as sondagens à boca das urnas e as projecções...
Pois...
Projecção Nexus (19.30h hora portuguesa), Câmara:
Cdl: 49,9% (340 deputados)
Unione: 49,6% (277 deputados)
Projecção Nexus (19.00h hora portuguesa), Senado:
Cdl: 49,1% (157 senadores)
Unione: 49,8% (152 senadores)
Cdl: 49,9% (340 deputados)
Unione: 49,6% (277 deputados)
Projecção Nexus (19.00h hora portuguesa), Senado:
Cdl: 49,1% (157 senadores)
Unione: 49,8% (152 senadores)
Maratona
Já se percebeu que isto vai demorar. A projecção para a Câmara já está atrasada mais de duas horas e, tendo em conta o que aconteceu com o Senado, todos já esperam que a vantagem seja, afinal, inferior a 5 pontos. Vai ser preciso contar os votos. Volto depois.
Senado
Se se confirmar a projecção, sete senadores de vantagem é muito pouco para garantir qualquer espécie de governabilidade com coligações tão fragmentadas e com um Senado com tantos poderes como o italiano.
(Uma nova projecção para o Senado -17.45h hora portuguesa - dá 51% para Unione e 49% para Cdl, sem impacto na distribuição de senadores).
(Uma nova projecção para o Senado -17.45h hora portuguesa - dá 51% para Unione e 49% para Cdl, sem impacto na distribuição de senadores).
Primeiras projecções, mais renhido do que parecia (17.00h)
As primeiras projecções - não sondagens, mas sim dados de sondagens combinados com dados do apuramento - são para o Senado: 50,4% para a Unione, 48,6% para a Cdl. Mais renhido do que era sugerido pelas sondagens à boca das urnas (que davam 50-54% para a Unione e 45-49% para a Cdl). Ainda não há, que eu saiba, projecções para a Câmara dos Deputados...
Itália, actualização 16.35h
Itália, actualização
Segundo os dados da sondagem à boca das urnas por partido, parece que as contas podem ter corrido mal a Berlusconi. Os pequenos partidos da Unione aparecem com estimativas acima dos 2%, à excepção da UDEUR, ao passo que a CD/Psi e a Alternativa Sociale da coligação de Berlusconi aparecem abaixo dos 2%.
Itália, 1ª sondagem boca das urnas, 15.01h (hora italiana)
Unione (Prodi): 50-54
Cdl: (Berlusconi): 45-49
Aposta-se já, portanto, num vencedor em termos de votos. Mas a conversa no que respeita a assentos pode ser outra...
Cdl: (Berlusconi): 45-49
Aposta-se já, portanto, num vencedor em termos de votos. Mas a conversa no que respeita a assentos pode ser outra...
Itália, a menos de duas horas
Originais em tudo, os italianos encerram as urnas às 15.00h de segunda-feira, ou seja, 14.00h de Lisboa. As últimas sondagens, divulgadas a 15 dias das eleições, apontavam para um resultado que andaria entre os 52 e os 54% para a Unione de Prodi.
Contudo, muita atenção ao que se segue. Por um lado, sempre foram 15 dias. Por outro lado, há o sistema eleitoral. E o sistema eleitoral implica o seguinte:
1. Todos os partidos integrados numa coligação que obtenham menos de 2% dos votos (e todos os partidos foram de coligações que tenham menos de 3% dos votos) não elegem deputados, ou seja, ficam excluídos por uma cláusula-barreira.
2. Em princípio, isto não deverá afectar a Liga Norte ou os Democratas Cristãos membros da Casa de Berlusconi, que, em 2001, tiveram mais de 3% dos votos.
3. Contudo, isto pode afectar seriamente a eleição de deputados por parte de todos os partidos da Unione com excepção do Ulivo e da Refundação Comunista.
4. Acresce a isto que há um "bónus" para a coligação mais votada, garantindo-lhe pelo menos 340 assentos parlamentares em 630, ou seja, uma maioria absoluta.
5. Eu disse coligação "mais votada"? Não é bem "mais votada": é mais votada depois de redistribuidos os votos dos partidos que não passaram a cláusula-barreira de 2%, ou seja, com toda a probabilidade, vários partidos da Unione.
6. Logo, é perfeitamente possível que a Unione tenha mais votos que a Casa, mas fique com menos após a redistribuição e que, logo, seja a Casa de Berlusconi fique com o bónus e, logo, com uma maioria absoluta, apesar de ter, em absoluto, menos votos!
Contudo, muita atenção ao que se segue. Por um lado, sempre foram 15 dias. Por outro lado, há o sistema eleitoral. E o sistema eleitoral implica o seguinte:
1. Todos os partidos integrados numa coligação que obtenham menos de 2% dos votos (e todos os partidos foram de coligações que tenham menos de 3% dos votos) não elegem deputados, ou seja, ficam excluídos por uma cláusula-barreira.
2. Em princípio, isto não deverá afectar a Liga Norte ou os Democratas Cristãos membros da Casa de Berlusconi, que, em 2001, tiveram mais de 3% dos votos.
3. Contudo, isto pode afectar seriamente a eleição de deputados por parte de todos os partidos da Unione com excepção do Ulivo e da Refundação Comunista.
4. Acresce a isto que há um "bónus" para a coligação mais votada, garantindo-lhe pelo menos 340 assentos parlamentares em 630, ou seja, uma maioria absoluta.
5. Eu disse coligação "mais votada"? Não é bem "mais votada": é mais votada depois de redistribuidos os votos dos partidos que não passaram a cláusula-barreira de 2%, ou seja, com toda a probabilidade, vários partidos da Unione.
6. Logo, é perfeitamente possível que a Unione tenha mais votos que a Casa, mas fique com menos após a redistribuição e que, logo, seja a Casa de Berlusconi fique com o bónus e, logo, com uma maioria absoluta, apesar de ter, em absoluto, menos votos!
Popularidade líderes Abril
Com a divulgação do estudo da Eurosondagem, é possível actualizar o gráfico apresentado antes aqui. O que se faz, recorde-se, é:
1. Recorrer aos Barómetros Marktest (TSF, DN) e Eurosondagem (Expresso, SIC, RR), nas questões de avaliação da actuação dos líderes políticos;
2. Calcular um índice (2*% "Positiva" + %"Assim-assim;Ns;Nr)/2, que varia entre 0 e 100;
3. Calcular valores para cada mês do ano, limpos de "house effects".

Sampaio termina em Março com um score de 81 pontos em 100. Cavaco entra em Março com 64,4 pontos mas já subiu em Abril para 68,8. Sócrates prossegue recuperação de popularidade iniciada após as autárquicas, estando a menos de 10 pontos do score verificado no primeiro mês de governação. Mendes está estável, com menos 10 pontos do que tinha quando assumiu, há um ano, a liderança do PSD.
1. Recorrer aos Barómetros Marktest (TSF, DN) e Eurosondagem (Expresso, SIC, RR), nas questões de avaliação da actuação dos líderes políticos;
2. Calcular um índice (2*% "Positiva" + %"Assim-assim;Ns;Nr)/2, que varia entre 0 e 100;
3. Calcular valores para cada mês do ano, limpos de "house effects".

Sampaio termina em Março com um score de 81 pontos em 100. Cavaco entra em Março com 64,4 pontos mas já subiu em Abril para 68,8. Sócrates prossegue recuperação de popularidade iniciada após as autárquicas, estando a menos de 10 pontos do score verificado no primeiro mês de governação. Mendes está estável, com menos 10 pontos do que tinha quando assumiu, há um ano, a liderança do PSD.
sexta-feira, abril 07, 2006
Vietname e Iraque
Fonte: Gallup (dados disponíveis aqui e aqui)
Questão 1: "In view of the developments since we entered the fighting in Vietnam, do you think the U.S. made a mistake sending troops to fight in Vietnam?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde operação Rolling Thunder.
Questão 2: "In view of the developments since we first sent our troops to Iraq, do you think the United States made a mistake in sending troops to Iraq, or not?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde invasão do Iraque.
(Clicar na imagem para ver melhor)

Não creio que precise de comentários.
Questão 1: "In view of the developments since we entered the fighting in Vietnam, do you think the U.S. made a mistake sending troops to fight in Vietnam?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde operação Rolling Thunder.
Questão 2: "In view of the developments since we first sent our troops to Iraq, do you think the United States made a mistake in sending troops to Iraq, or not?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde invasão do Iraque.
(Clicar na imagem para ver melhor)

Não creio que precise de comentários.
quinta-feira, abril 06, 2006
Brasil
Saiu uma sondagem do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social, no Jornal do Brasil. Vamos ter calma e, com a continuação, tentar perceber se as diferenças entre as sondagens estão a reflectir apenas erro amostral e diferenças entre métodos ou se, pelo contrário, reflectem mudança nas intenções de voto. Certo é que Lula tem menos 7 pontos do que na sondagem de 11 de Março, enquanto Alckmin subiu 9. A seguir com atenção.
segunda-feira, abril 03, 2006
Popularidade dos líderes políticos
No dia 31, o DN e a TSF divulgaram os dados de uma sondagem da Marktest, realizada entre os dias 21 e 24 de Março, telefónica, quotas, N= 813. No que respeita à popularidade dos líderes, há várias maneiras de se pegar nos dados:
1. Avaliações positivas (Marktest):

Com a primeira sondagem incidindo sobre a avaliação de Cavaco Silva como Presidente, há uma queda abrupta em relação à última sondagem que incidia sobre a avaliação de Jorge Sampaio. Para Sócrates, depois de uma subida contínua desde as autárquicas, há estabilização. E Marques Mendes parece ter estancado uma lenta descida desde as autárquicas.
2. Saldo %"actuação positiva" - % "actuação negativa" (Marktest): o gráfico anterior negligencia o facto de a percentagem de respostas "não sabe/não responde" variar muito consoante os diferentes objectos de avaliação, não tomando por isso em conta a possibilidade de a uma grande percentagem de opiniões positivas poder também corresponder uma grande percentagem de opiniões negativas (nem a possibilidade de a uma baixa percentagem de opiniões positivas poder corresponder também uma baixa percentagem de opiniões negativas). Logo, o gráfico seguinte apresenta o saldo de opiniões negativas-positivas:

Como se vê, Sócrates e Mendes geram muito mais polarização, para já, do que o Presidente, que apesar de ter poucas avaliações positivas tem também muito poucas avaliações negativas. Seja como for, as tendências ao longo do tempo são as mesmas.
3. Índice limpo de "house effects": uma maneira de procurar resolver os problemas anteriores consiste em calcular o índice que forma a que dê algum significado à percentagem de "não respostas". Para além disso, há um segundo problema, o facto de as sondagens Eurosondagem e Marktest não serem rigorosamente comparáveis, dado que as sondagens da Eurosondagem dão a opção de resposta "assim-assim". Assim, procedemos da seguinte forma:
a. Cálculo do índice:
I= (2*%positivo + %"assim-assim"+"ns"+"nr")/2.
Tudo o que estiver acima de 50 significa que há mais opiniões positivas que negativas. O valor 0 (zero) significa que todas as opiniões são negativas. O valor 100 significa que todas as opiniões são positivas. "Ns/nr" é tratado como indicador de indiferença, "nem bom nem mau".
b. Eliminação de "house effects": segui p procedimento descrito aqui. Março não aparece na Presidência porque uma sondagem incidiu sobre Sampaio e outra sobre Cavaco.

Estes resultados são os que posso fornecer que me parecem mais próximos de captarem reais tendências de mudança ao longo do tempo, por um lado, e permitir comparabilidade entre os líderes políticos e as diferentes empresas de sondagem, por outro.
Assim, é visível uma descida inicial dos três líderes políticos até ao Outono (mais mitigado no caso do PR) e uma posterior recuperação (igualmente mitigada no PR e também com Marques Mendes, mais acentuada com Sócrates).
1. Avaliações positivas (Marktest):

Com a primeira sondagem incidindo sobre a avaliação de Cavaco Silva como Presidente, há uma queda abrupta em relação à última sondagem que incidia sobre a avaliação de Jorge Sampaio. Para Sócrates, depois de uma subida contínua desde as autárquicas, há estabilização. E Marques Mendes parece ter estancado uma lenta descida desde as autárquicas.
2. Saldo %"actuação positiva" - % "actuação negativa" (Marktest): o gráfico anterior negligencia o facto de a percentagem de respostas "não sabe/não responde" variar muito consoante os diferentes objectos de avaliação, não tomando por isso em conta a possibilidade de a uma grande percentagem de opiniões positivas poder também corresponder uma grande percentagem de opiniões negativas (nem a possibilidade de a uma baixa percentagem de opiniões positivas poder corresponder também uma baixa percentagem de opiniões negativas). Logo, o gráfico seguinte apresenta o saldo de opiniões negativas-positivas:

Como se vê, Sócrates e Mendes geram muito mais polarização, para já, do que o Presidente, que apesar de ter poucas avaliações positivas tem também muito poucas avaliações negativas. Seja como for, as tendências ao longo do tempo são as mesmas.
3. Índice limpo de "house effects": uma maneira de procurar resolver os problemas anteriores consiste em calcular o índice que forma a que dê algum significado à percentagem de "não respostas". Para além disso, há um segundo problema, o facto de as sondagens Eurosondagem e Marktest não serem rigorosamente comparáveis, dado que as sondagens da Eurosondagem dão a opção de resposta "assim-assim". Assim, procedemos da seguinte forma:
a. Cálculo do índice:
I= (2*%positivo + %"assim-assim"+"ns"+"nr")/2.
Tudo o que estiver acima de 50 significa que há mais opiniões positivas que negativas. O valor 0 (zero) significa que todas as opiniões são negativas. O valor 100 significa que todas as opiniões são positivas. "Ns/nr" é tratado como indicador de indiferença, "nem bom nem mau".
b. Eliminação de "house effects": segui p procedimento descrito aqui. Março não aparece na Presidência porque uma sondagem incidiu sobre Sampaio e outra sobre Cavaco.

Estes resultados são os que posso fornecer que me parecem mais próximos de captarem reais tendências de mudança ao longo do tempo, por um lado, e permitir comparabilidade entre os líderes políticos e as diferentes empresas de sondagem, por outro.
Assim, é visível uma descida inicial dos três líderes políticos até ao Outono (mais mitigado no caso do PR) e uma posterior recuperação (igualmente mitigada no PR e também com Marques Mendes, mais acentuada com Sócrates).
quarta-feira, março 29, 2006
Blogues temáticos
Falar de Blogues Temáticos
30 de Março, 19:00 horas, Livraria Almedina
Doc Log , Leonor Areal
Educar para os Media ,Vitor Relvas
E o mordomo que trabalha nesta casa, vindo a correr de apresentar um paper sobre as sondagens autárquicas no Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política.
30 de Março, 19:00 horas, Livraria Almedina
Doc Log , Leonor Areal
Educar para os Media ,Vitor Relvas
E o mordomo que trabalha nesta casa, vindo a correr de apresentar um paper sobre as sondagens autárquicas no Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política.
Israel, sondagens e resultados
Como de costume, remeto para quem sabe fazer mais e melhor. Um breve resumo:
- Kadima ganha, mas abaixo das sondagens, confirmando tendência de descida que vinha desde as eleições palestiniananas;
- catástrofe no Likud; Netanyahu castigado;
- Yisrael Beiteinu passa para terceiro partido, confirmando tendência de subida;
- surpresa: Gil, o partido dos pensionistas, consegue 7 lugares no Knesset;
O Kadima fica na posição privilegiada de partido pivot. Sem eles, não há governo, e podem "escolher", por assim dizer, com quem governar. Tudo se parece encaminhar para uma coligação de centro-esquerda: Kadima, Trabalhistas, Shas (partido sefardita, flexível na questão palestiniana e favorável a políticas sociais) e Gil.
O comentário do Haaretz:
"Those who mocked Labor and Peretz because of their social agenda - saying all that matters in Israel are security-diplomacy issues - will have to think again. It's not just Labor doing better than expected that proves this, but mainly the success of the senior citizens' party. Maybe it's because Israelis are already set on the right solution for the Palestinian issue (i.e. unilateral steps), that they figured that they can now vote on something else."
- Kadima ganha, mas abaixo das sondagens, confirmando tendência de descida que vinha desde as eleições palestiniananas;
- catástrofe no Likud; Netanyahu castigado;
- Yisrael Beiteinu passa para terceiro partido, confirmando tendência de subida;
- surpresa: Gil, o partido dos pensionistas, consegue 7 lugares no Knesset;
O Kadima fica na posição privilegiada de partido pivot. Sem eles, não há governo, e podem "escolher", por assim dizer, com quem governar. Tudo se parece encaminhar para uma coligação de centro-esquerda: Kadima, Trabalhistas, Shas (partido sefardita, flexível na questão palestiniana e favorável a políticas sociais) e Gil.
O comentário do Haaretz:
"Those who mocked Labor and Peretz because of their social agenda - saying all that matters in Israel are security-diplomacy issues - will have to think again. It's not just Labor doing better than expected that proves this, but mainly the success of the senior citizens' party. Maybe it's because Israelis are already set on the right solution for the Palestinian issue (i.e. unilateral steps), that they figured that they can now vote on something else."
terça-feira, março 28, 2006
Brasil, a seis meses
Não pensaram que estas escapavam? As eleições mais interessantes do ano. Agora que Alckmin e Garotinho estão confirmados e que as respostas já não são sobre meros cenários, é a altura de começar a coligir dados.
Conheço três institutos que divulgam dados de intenção de voto regularmente: IBOPE, Datafolha e Sensus. Se conhecerem mais, avisem. Para já, após a confirmação de Alckmin, só conheço duas sondagens: uma do IBOPE e outra da Datafolha. Em relação a sondagens anteriores, que lidavam apenas com cenários, Alckmin sobe e Garotinho mantem-se estável. Mas há muito caminho para percorrer.
Dois quadros apresentados abaixo: um com os resultados brutos e outro que os dados são apresentados como se fossem resultados eleitorais, excluindo brancos e nulos e tratando "não respostas" e indecisos como abstencionistas (ou seja, redistribuindo-os proporcionalmente pelas opções válidas). Para já, temos Lula à 1ª volta, e um surpreendentemente baixo número de indecisos.
Falta dizer que a reputação dos institutos de sondagens no Brasil é impecável: grande mercado, muito dinheiro, muita competência, voto obrigatório (o que limita os efeitos nefastos da abstenção sobre as estimativas de resultados eleitorais).
Conheço três institutos que divulgam dados de intenção de voto regularmente: IBOPE, Datafolha e Sensus. Se conhecerem mais, avisem. Para já, após a confirmação de Alckmin, só conheço duas sondagens: uma do IBOPE e outra da Datafolha. Em relação a sondagens anteriores, que lidavam apenas com cenários, Alckmin sobe e Garotinho mantem-se estável. Mas há muito caminho para percorrer.
Dois quadros apresentados abaixo: um com os resultados brutos e outro que os dados são apresentados como se fossem resultados eleitorais, excluindo brancos e nulos e tratando "não respostas" e indecisos como abstencionistas (ou seja, redistribuindo-os proporcionalmente pelas opções válidas). Para já, temos Lula à 1ª volta, e um surpreendentemente baixo número de indecisos.
Falta dizer que a reputação dos institutos de sondagens no Brasil é impecável: grande mercado, muito dinheiro, muita competência, voto obrigatório (o que limita os efeitos nefastos da abstenção sobre as estimativas de resultados eleitorais).
segunda-feira, março 27, 2006
Israel, véspera de eleições
A última actualização da análise das sondagens sobre as eleições israelitas no indispensável Political Arithmetik, mostra o Kadima a descer (tal como vem sucedendo desde as eleições na Palestina), mas ainda, e muito claramente, como vencedor. Trabalhistas e Likud parecem estáveis, mas o Yisrael Beiteinu, que tem forte implantação entre os judeus vindo da ex-União Soviética, prepara-se para se tornar o 4º partido (não sendo completamente de excluir que ultrapasse o Likud, o que seria um resultado espantoso).
Sobre o panorama de coligações pós-eleitorais, Matthew Shugart apontava há dias as várias possibilidades. Na base das estimativas mais recentes, os cenários de Shugart continuam a fazer sentido.
Sobre o panorama de coligações pós-eleitorais, Matthew Shugart apontava há dias as várias possibilidades. Na base das estimativas mais recentes, os cenários de Shugart continuam a fazer sentido.
sexta-feira, março 24, 2006
Itália
Segundo todas as sondagens e também por admissão própria e dos seus aliados, Berlusconi perdeu o debate com Prodi. Também perdeu a cabeça numa reunião da Confindustria, acusando os grandes empresários de terem "esqueletos no armário" e de terem sido perdoados por "juízes vermelhos". E pelos vistos, vai perder as eleições, se bem que importa ter cuidado com dois factores: a mudança do sistema eleitoral, concebida especificamente para favorecer a Cdl; e o facto de, devido à restritiva legislação italiana, estas serem as últimas sondagens a serem divulgadas antes das eleições. Em quinze dias pode mudar muita coisa. Seja como for, o pós-debate revela uma subida clara da Unione. Os dois "outliers" que vêm lá em baixo - duas sondagens da empresa Psb - são sondagens encomendadas pela...Forza Italia.
quarta-feira, março 22, 2006
Popularidades
Nos Estados Unidos e (em menor grau) no Reino Unido, a avaliação do desempenho do chefe do executivo é seguida com enorme atenção pelos órgãos de comunicação social, pelos agentes políticos e pelos estudiosos da opinião pública, suscitando, por parte destes últimos, o tipo de análises aprofundadas que se podem encontrar aqui ou aqui. Por um lado, isto deve-se ao grande desenvolvimento dos estudos de opinião pública e à enorme quantidade de recursos que nelas são dispendidos. E por outro lado, aos próprios sistemas políticos. Nos Estados Unidos, temos a concentração do poder executivo num cargo uninominal. No Reino Unido, apesar de se tratar de um sistema parlamentar, estamos também perante um dos casos onde a concentração de poder nas mãos do PM e líder do partido é maior entre as democracias ocidentais. Logo, a atenção tende também ela a concentrar-se na pessoa do líder, nas suas qualidades e na avaliação que delas fazem os eleitores.
Em Portugal, o que se sabe sobre o factores que mais afectam o comportamento eleitoral é que a avaliação que os eleitores fazem dos líderes tem enorme impacto na decisão do voto, acima do que seria de esperar com um sistema eleitoral proporcional. Logo, seria de esperar que fosse dada grande atenção aos dados disponíveis sobre essa avaliação. Mas assim não sucede. Os meios de comunicação social encomendam apenas as duas empresas de sondagens - Marktest e Eurosondagem - dados regulares sobre essa matéria, e são raros os estudos disponíveis utilizando esses dados (com a notável excepção do trabalho de dois investigadores da Universidade do Minho, Francisco José Veiga e Linda Veiga).
Quais os dados disponíveis desde a tomada de posse do actual governo. A Marktest, no seu barómetro mensal, coloca a seguinte questão sobre vários líderes políticos:
No caso de [líder]: Em sua opinião diria que a actuação de [líder]) tem sido POSITIVA ou NEGATIVA ?
A formulação concreta da pergunta colocada pela Eurosondagem deverá ser semelhante, ficando contudo a dúvida se é fornecida uma opção intermédia "Assim-assim". Nalguns casos, os quadros publicados no Expresso sugerem que assim é (afirmando-se que as percentagens apresentadas excluem respostas "não sabe/não responde" e "assim-assim"). Noutros casos, essa referência está ausente.
Talvez as diferentes formulações ajudem a explicar as discrepâncias entre os resultados das duas empresas. Nos gráficos abaixo, apresenta-se a evolução ao longo do tempo das percentagens de indivíduos que fazem uma avaliação positiva do Primeiro-Ministro, do Presidente da República e do líder do principal partido da oposição nas duas sondagens desde a tomada de posse do actual governo (agradeço à Marktest o envio dos dados completos; os dados da Eurosondagem foram recolhidos do Expresso; datas correspondem ao último dia de trabalho de campo):



Apesar das discrepâncias nas avaliações de Sampaio serem mínimas, o mesmo não sucede para Sócrates ou Marques Mendes: as sondagens publicadas no Expresso tendem a obter maiores percentagens de aprovação para ambos em comparação com a Marktest.
Dito isto, é tranquilizador verificar que, apesar das discrepâncias absolutas, as tendências que detectam são semelhantes. Descida de Sócrates até às autárquicas, seguida de recuperação (claríssima na Marktest, sugerida na Eurosondagem); subida de Marques Mendes imediatamente após autárquicas, e posterior retorno aos níveis (baixos) de Abril de 2005. Em ambos os casos, e para as últimas sondagens, as taxas de aprovação de Sócrates estão cerca de 20 pontos percentuais acima das taxas de aprovação de Marques Mendes.
Os resultados de Sócrates não estão exactamente na linha do que anteriores estudos sobre as funções de popularidade poderiam sugerir. No passado, a popularidade do PM tendeu a diminuir com o aumento do desemprego, especialmente quando o seu governo dispunha de maioria absoluta. E diminuia também assim que se ultrapassava o período inicial de seis meses de "lua de mel". Mas não é bem isso que parece estar a ocorrer. Com o desemprego a aumentar de 7,5% para 8% do primeiro para o último trimestre de 2005 e ultrapassada a "lua de mel", Sócrates quase regressa aos níveis de popularidade de que gozava imediatamente no início do ciclo. Aumenta assim a curiosidade em relação ao que as próximas sondagens dirão: será a recuperação de popularidade dos últimos meses para durar, ou uma fugaz anomalia em relação à tendência de descida que se iniciou logo após a tomada de posse? Logo se verá.
Em Portugal, o que se sabe sobre o factores que mais afectam o comportamento eleitoral é que a avaliação que os eleitores fazem dos líderes tem enorme impacto na decisão do voto, acima do que seria de esperar com um sistema eleitoral proporcional. Logo, seria de esperar que fosse dada grande atenção aos dados disponíveis sobre essa avaliação. Mas assim não sucede. Os meios de comunicação social encomendam apenas as duas empresas de sondagens - Marktest e Eurosondagem - dados regulares sobre essa matéria, e são raros os estudos disponíveis utilizando esses dados (com a notável excepção do trabalho de dois investigadores da Universidade do Minho, Francisco José Veiga e Linda Veiga).
Quais os dados disponíveis desde a tomada de posse do actual governo. A Marktest, no seu barómetro mensal, coloca a seguinte questão sobre vários líderes políticos:
No caso de [líder]: Em sua opinião diria que a actuação de [líder]) tem sido POSITIVA ou NEGATIVA ?
A formulação concreta da pergunta colocada pela Eurosondagem deverá ser semelhante, ficando contudo a dúvida se é fornecida uma opção intermédia "Assim-assim". Nalguns casos, os quadros publicados no Expresso sugerem que assim é (afirmando-se que as percentagens apresentadas excluem respostas "não sabe/não responde" e "assim-assim"). Noutros casos, essa referência está ausente.
Talvez as diferentes formulações ajudem a explicar as discrepâncias entre os resultados das duas empresas. Nos gráficos abaixo, apresenta-se a evolução ao longo do tempo das percentagens de indivíduos que fazem uma avaliação positiva do Primeiro-Ministro, do Presidente da República e do líder do principal partido da oposição nas duas sondagens desde a tomada de posse do actual governo (agradeço à Marktest o envio dos dados completos; os dados da Eurosondagem foram recolhidos do Expresso; datas correspondem ao último dia de trabalho de campo):



Apesar das discrepâncias nas avaliações de Sampaio serem mínimas, o mesmo não sucede para Sócrates ou Marques Mendes: as sondagens publicadas no Expresso tendem a obter maiores percentagens de aprovação para ambos em comparação com a Marktest.
Dito isto, é tranquilizador verificar que, apesar das discrepâncias absolutas, as tendências que detectam são semelhantes. Descida de Sócrates até às autárquicas, seguida de recuperação (claríssima na Marktest, sugerida na Eurosondagem); subida de Marques Mendes imediatamente após autárquicas, e posterior retorno aos níveis (baixos) de Abril de 2005. Em ambos os casos, e para as últimas sondagens, as taxas de aprovação de Sócrates estão cerca de 20 pontos percentuais acima das taxas de aprovação de Marques Mendes.
Os resultados de Sócrates não estão exactamente na linha do que anteriores estudos sobre as funções de popularidade poderiam sugerir. No passado, a popularidade do PM tendeu a diminuir com o aumento do desemprego, especialmente quando o seu governo dispunha de maioria absoluta. E diminuia também assim que se ultrapassava o período inicial de seis meses de "lua de mel". Mas não é bem isso que parece estar a ocorrer. Com o desemprego a aumentar de 7,5% para 8% do primeiro para o último trimestre de 2005 e ultrapassada a "lua de mel", Sócrates quase regressa aos níveis de popularidade de que gozava imediatamente no início do ciclo. Aumenta assim a curiosidade em relação ao que as próximas sondagens dirão: será a recuperação de popularidade dos últimos meses para durar, ou uma fugaz anomalia em relação à tendência de descida que se iniciou logo após a tomada de posse? Logo se verá.
quarta-feira, março 15, 2006
Abu Ghraib
A Salon publica finalmente o anunciado conjunto de 276 fotografias que obteve sobre tortura e abuso de prisioneiros em Abu Ghraib, relatando igualmente que nenhum soldado acima da patente de sargento foi levado a tribunal. Isto inclui o operacional da CIA que interrogou o prisioneiro Manadel al-Jamadi, que acabou por ser encontrado morto.
"The failure of a democratic society to investigate well-documented abuses by its soldiers". Indeed. Mas dir-se-ia mais: o falhanço de uma sociedade democrática em conseguir que aqueles em que delega poder governem de acordo com as suas preferências.
TNS/Washington Post/ABC News, 15-18 Dezembro 2005, N=1003, Telefónica
Would you regard the use of torture against people suspected of involvement in terrorism as an acceptable or unacceptable part of the U.S. campaign against terrorism?
Acceptable: 32%
Not acceptable: 64%
Depends on the torture: 3%
No opinion: 2%
"The failure of a democratic society to investigate well-documented abuses by its soldiers". Indeed. Mas dir-se-ia mais: o falhanço de uma sociedade democrática em conseguir que aqueles em que delega poder governem de acordo com as suas preferências.
TNS/Washington Post/ABC News, 15-18 Dezembro 2005, N=1003, Telefónica
Would you regard the use of torture against people suspected of involvement in terrorism as an acceptable or unacceptable part of the U.S. campaign against terrorism?
Acceptable: 32%
Not acceptable: 64%
Depends on the torture: 3%
No opinion: 2%
terça-feira, março 14, 2006
Aumenta a incerteza em Israel
Ninguém duvida que os dias que correm podem ser cruciais para o futuro de Israel e da Palestina. Os seus destinos estão ligados até nisto: a partir da vitória do Hamas, começou a descida do Kadima nas sondagens em Israel, como relata o Political Arithmetik:

É natural que haja mais desgaste no Kadima: a maior parte dos israelitas opõe-se à retirada parcial de civis da Margem Ocidental (saem civis, a IDF fica) sugerida por Avi Dichter, possível futuro ministro da defesa.
Dialog, 8 de Março, N=600.
Do you support or oppose the plan of Kadima to evacuate settlements unilaterally as Avi Dichter proposed this week?
Support: 37%
Oppose: 49%
Other: 14%
No fim de semana, Olmert foi ainda mais categórico: retirada até 2010 e, pelo caminho, 80.000 evacuados dos territórios ocupados. Vamos ver os efeitos que isto produz até ao dia 28 de Março. Até que ponto anteriores votantes no Likud, entretanto atraídos pelo centro representado pelo Kadima, regressarão ao redil? A acompanhar com atenção, mas uma coligação Kadima/Trabalhistas continua a ser o mais provável.

É natural que haja mais desgaste no Kadima: a maior parte dos israelitas opõe-se à retirada parcial de civis da Margem Ocidental (saem civis, a IDF fica) sugerida por Avi Dichter, possível futuro ministro da defesa.
Dialog, 8 de Março, N=600.
Do you support or oppose the plan of Kadima to evacuate settlements unilaterally as Avi Dichter proposed this week?
Support: 37%
Oppose: 49%
Other: 14%
No fim de semana, Olmert foi ainda mais categórico: retirada até 2010 e, pelo caminho, 80.000 evacuados dos territórios ocupados. Vamos ver os efeitos que isto produz até ao dia 28 de Março. Até que ponto anteriores votantes no Likud, entretanto atraídos pelo centro representado pelo Kadima, regressarão ao redil? A acompanhar com atenção, mas uma coligação Kadima/Trabalhistas continua a ser o mais provável.
sábado, março 11, 2006
A popularidade de Cavaco
O que se segue é muitíssimo estranho (fonte), e merece uma análise crítica.

A ser verdade, seria chocante. Como se verifica no gráfico seguinte, elaborado por Francisco José Veiga e Linda Veiga, da Universidade do Minho, com base em dados Expresso/Euroexpansão (neste paper, .pdf, mais tarde revisto e publicado na Economics & Politics), Sampaio começou em alta em 1996, para logo descer e só depois recuperar lentamente. Não que chegue a haver um efeito "lua-de-mel" para o Presidente, como o próprio estudo dos Veigas revela. Mas que Cavaco, após a eleição, só tenha pouco mais de 10% de opiniões positivas em relação às opiniões negativas, seria muito estranho.

É possível, contudo, que tudo isto se deva ao facto da sondagem sobre Cavaco pedir aos inquiridos uma avaliação da sua "actuação", o que pode ter sido interpretado como a sua actuação "enquanto Presidente". Para muitos, como não tinha tomado posse, a pergunta pode não ter feito sentido. E o que sucede? Nesta sondagem, 35% de não sabe/não responde. Em Novembro, por exemplo, só 16% não tinham opinião. É preciso cuidado com a leitura dos números.
O estudo dos Veigas merece ser lido por muitas razões. Mostra, por exemplo, que apesar do PM ser o mais responsabilizado pela economia (nomeadamente, o desemprego), o Presidente também o é, independentemente de situações de coabitação ou não. E que Sampaio foi, em geral, menos popular que Soares (mas o estudo vai só até 2000).

A ser verdade, seria chocante. Como se verifica no gráfico seguinte, elaborado por Francisco José Veiga e Linda Veiga, da Universidade do Minho, com base em dados Expresso/Euroexpansão (neste paper, .pdf, mais tarde revisto e publicado na Economics & Politics), Sampaio começou em alta em 1996, para logo descer e só depois recuperar lentamente. Não que chegue a haver um efeito "lua-de-mel" para o Presidente, como o próprio estudo dos Veigas revela. Mas que Cavaco, após a eleição, só tenha pouco mais de 10% de opiniões positivas em relação às opiniões negativas, seria muito estranho.

É possível, contudo, que tudo isto se deva ao facto da sondagem sobre Cavaco pedir aos inquiridos uma avaliação da sua "actuação", o que pode ter sido interpretado como a sua actuação "enquanto Presidente". Para muitos, como não tinha tomado posse, a pergunta pode não ter feito sentido. E o que sucede? Nesta sondagem, 35% de não sabe/não responde. Em Novembro, por exemplo, só 16% não tinham opinião. É preciso cuidado com a leitura dos números.
O estudo dos Veigas merece ser lido por muitas razões. Mostra, por exemplo, que apesar do PM ser o mais responsabilizado pela economia (nomeadamente, o desemprego), o Presidente também o é, independentemente de situações de coabitação ou não. E que Sampaio foi, em geral, menos popular que Soares (mas o estudo vai só até 2000).
quarta-feira, março 08, 2006
Itália, a pouco mais de um mês
Prodi recusou hoje um frente-a-frente com Berlusconi, alegando a recusa deste último em aceitar uma série de regras sobre posições das câmaras, proibição de focar um candidato enquanto o outro fala, tempos de pergunta e resposta, a escolha do entrevistador, etc.. Mais importante ainda é a indisponibilidade de Prodi em aceitar que Berlusconi conduza, imediatamente após o debate, nada menos que... uma conferência de imprensa enquanto PM. Berlusconi responde:
"Prodi is acting irresponsibly. He should show up and debate in a polite and civilised manner, as I do.(...) If he won't show up, I'll still demand the time on TV that is owed to me, to show what the government has done. I'll be there on Monday, I hope he will be there too, but I cannot make predictions."
Certo. Entretanto, as sondagens dizem (quase) todas o mesmo, ou seja, vitória para a Unione de Prodi, com tendência progressiva de descida dos indecisos (acima dos 20% em Janeiro, entre 14 e 18% em finais de Fevereiro):

É quase impossível encontrar tendências de mudança nos últimos dois meses. Mapeando os resultados ao longo do tempo e aplicando uma regressão local, a Unione encontra-se estável, ao passo que a ligeira subida da Casa até meados de Fevereiro, à custa dos poucos e pequenos partidos fora das coligações, deixou de ter para onde ir.


A coisa começa a parecer muito fechada, e é possível que se repita o padrão recorrente da vida política italiana: o mais interessante não são as eleições, mas sim o que acontece entre elas. Contudo, neste menu de sondagens disponíveis, há algumas coisas intrigantes: a enorme homogeneidade de métodos utilizados e a quase incrível semelhança de resultados no interior dos institutos, aparentemente insensíveis ao erro aleatório. Haverá por aqui muita ponderação, especialmente na base de anteriores resultados eleitorais? Vamos tentar perceber.
Fonte das sondagens: aqui.
"Prodi is acting irresponsibly. He should show up and debate in a polite and civilised manner, as I do.(...) If he won't show up, I'll still demand the time on TV that is owed to me, to show what the government has done. I'll be there on Monday, I hope he will be there too, but I cannot make predictions."
Certo. Entretanto, as sondagens dizem (quase) todas o mesmo, ou seja, vitória para a Unione de Prodi, com tendência progressiva de descida dos indecisos (acima dos 20% em Janeiro, entre 14 e 18% em finais de Fevereiro):

É quase impossível encontrar tendências de mudança nos últimos dois meses. Mapeando os resultados ao longo do tempo e aplicando uma regressão local, a Unione encontra-se estável, ao passo que a ligeira subida da Casa até meados de Fevereiro, à custa dos poucos e pequenos partidos fora das coligações, deixou de ter para onde ir.


A coisa começa a parecer muito fechada, e é possível que se repita o padrão recorrente da vida política italiana: o mais interessante não são as eleições, mas sim o que acontece entre elas. Contudo, neste menu de sondagens disponíveis, há algumas coisas intrigantes: a enorme homogeneidade de métodos utilizados e a quase incrível semelhança de resultados no interior dos institutos, aparentemente insensíveis ao erro aleatório. Haverá por aqui muita ponderação, especialmente na base de anteriores resultados eleitorais? Vamos tentar perceber.
Fonte das sondagens: aqui.
terça-feira, março 07, 2006
Off topic

Foto da livraria propriedade do Larry McMurtry, em Archer City, Texas, pop. 1848. Tem site e tudo.
Vai com dedicatória ao outro Pedro Magalhães.
Prognósticos só nunca
Aqui há uns meses, os jornais e a blogosfera estavam repletos de previsões sombrias sobre o "impasse" na Alemanha e a improvável sobrevivência política de Angela Merkel. Várias sondagens recentes revelam até que ponto estes prognósticos foram certeiros:
Infratest-Dimap:
*52% dos alemães acham que a coligação está a fazer um bom trabalho;
* 66% afirmam não detectar divergências de fundo entre os parceiros de coligação;
*Angela Merkel é a figura política mais popular na Alemanha, com 74% de opiniões positivas;
*Se pudessem escolher directamente um chanceler, 56% escolheriam Merkel;
Em retrospectiva, a coisa ainda fica mais cómica do que já era na altura.
Infratest-Dimap:
*52% dos alemães acham que a coligação está a fazer um bom trabalho;
* 66% afirmam não detectar divergências de fundo entre os parceiros de coligação;
*Angela Merkel é a figura política mais popular na Alemanha, com 74% de opiniões positivas;
*Se pudessem escolher directamente um chanceler, 56% escolheriam Merkel;
Em retrospectiva, a coisa ainda fica mais cómica do que já era na altura.
sábado, março 04, 2006
Hard to understand: 100%
Rússia, Public Opinion Foundation, 18-19 Fevereiro 2006, N=1500
In your view, did Josef Stalin play a positive role or a negative role in Russian history?
Positive:47%
Negative:29%
Hard to answer:24%
In your view, did Josef Stalin play a positive role or a negative role in Russian history?
Positive:47%
Negative:29%
Hard to answer:24%
quinta-feira, março 02, 2006
Sondagem aos militares americanos no Iraque
Para uma discussão aprofundada dos métodos utilizados, suas limitações e cautelas a ter na leitura dos resultados, ver aqui.
* An overwhelming majority of 72% of American troops serving in Iraq think the U.S. should exit the country within the next year, and nearly one in four say the troops should leave immediately;
* 58% of those serving in country say the U.S. mission in Iraq is clear in their minds, while 42% said it is either somewhat or very unclear to them, that they have no understanding of it at all, or are unsure.
* While 85% said the U.S. mission is mainly “to retaliate for Saddam’s role in the 9-11 attacks,” 77% said they also believe the main or a major reason for the war was “to stop Saddam from protecting al Qaeda in Iraq.” “Ninety-three percent said that removing weapons of mass destruction is not a reason for U.S. troops being there,” said Pollster John Zogby, President and CEO of Zogby International.
* Just 24% said that “establishing a democracy that can be a model for the Arab World" was the main or a major reason for the war. Only small percentages see the mission there as securing oil supplies (11%) or to provide long-term bases for US troops in the region (6%).
* Most U.S. military personnel in-country have a clear sense of right and wrong when it comes to using banned weapons against the enemy, and in interrogation of prisoners. Four in five said they oppose the use of such internationally banned weapons as napalm and white phosphorous. And, even as more photos of prisoner abuse in Iraq surface around the world, 55% said it is not appropriate or standard military conduct to use harsh and threatening methods against insurgent prisoners in order to gain information of military value.
*Three quarters of the troops had served multiple tours and had a longer exposure to the conflict: 26% were on their first tour of duty, 45% were on their second tour, and 29% were in Iraq for a third time or more.
* A majority of the troops serving in Iraq said they were satisfied with the war provisions from Washington. Just 30% of troops said they think the Department of Defense has failed to provide adequate troop protections, such as body armor, munitions, and armor plating for vehicles like HumVees.
* An overwhelming majority of 72% of American troops serving in Iraq think the U.S. should exit the country within the next year, and nearly one in four say the troops should leave immediately;
* 58% of those serving in country say the U.S. mission in Iraq is clear in their minds, while 42% said it is either somewhat or very unclear to them, that they have no understanding of it at all, or are unsure.
* While 85% said the U.S. mission is mainly “to retaliate for Saddam’s role in the 9-11 attacks,” 77% said they also believe the main or a major reason for the war was “to stop Saddam from protecting al Qaeda in Iraq.” “Ninety-three percent said that removing weapons of mass destruction is not a reason for U.S. troops being there,” said Pollster John Zogby, President and CEO of Zogby International.
* Just 24% said that “establishing a democracy that can be a model for the Arab World" was the main or a major reason for the war. Only small percentages see the mission there as securing oil supplies (11%) or to provide long-term bases for US troops in the region (6%).
* Most U.S. military personnel in-country have a clear sense of right and wrong when it comes to using banned weapons against the enemy, and in interrogation of prisoners. Four in five said they oppose the use of such internationally banned weapons as napalm and white phosphorous. And, even as more photos of prisoner abuse in Iraq surface around the world, 55% said it is not appropriate or standard military conduct to use harsh and threatening methods against insurgent prisoners in order to gain information of military value.
*Three quarters of the troops had served multiple tours and had a longer exposure to the conflict: 26% were on their first tour of duty, 45% were on their second tour, and 29% were in Iraq for a third time or more.
* A majority of the troops serving in Iraq said they were satisfied with the war provisions from Washington. Just 30% of troops said they think the Department of Defense has failed to provide adequate troop protections, such as body armor, munitions, and armor plating for vehicles like HumVees.
Hamas
E já que estamos nesta onda, há um texto imperdível na New York Review of Books sobre a vitória do Hamas: este, de Hussein Agha e Robert Malley. Independentemente dos pressupostos de partida ou das simpatias ou antipatias dos autores, é um texto exemplar do ponto de vista da análise política: não se conforma com uma única banalidade que saia da boca dos "comentadores" ou dos agentes políticos. Procura ver o que está "por detrás". Pergunto-me se, por vezes, não estará a ver demais. Mas tem, por exemplo, uma explicação plausível para algo que, numa das sondagens anteriores, me deixou perplexo. Isto:
Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations: 29.6%
No answer: 4.1%
Q15. Some believe that the negotiations are the best path to achieve our national goals, whereas others believe that the armed struggle is the best way to do so. Which option is the closest to your opinion?
Through Negotiations: 38.8%
Through armed struggle: 17.9%
Through negotiations and armed struggle: 40.3%
Don't know: 2.3%
No answer: 0.7%
A resposta pode ser esta:
Because of all it did, said, and stood for, a vote for Hamas became one way to exorcise the disgrace. The Palestinian Authority had been unable to protect its people, and Hamas evidently could do no better on that score. But though its brutal attacks on Israelis did not provide safety, they provided revenge, and, for many Palestinians, in the biblical land of primal urges, that was second best. While not condoning every Hamas operation, for vast numbers of Palestinians, the Islamists' current position on Israel and the use of violence against it also rang as a truer, more authentic expression of their feelings. In this, Prime Minister Sharon displayed greater discernment than the Israeli left: deep down, most Palestinians, though ready to accept Israel's existence, have not accepted its historical legitimacy; though supportive of a mutual cease-fire and peace agreements, they will not relinquish the right to fight for their land.
E fazendo uma ponte um bocado enviesada com este post na Praia, há uma sensação que sempre tenho quando leio artigos como este, muito bom, mas não especialmente melhor que muitos outros que encontramos regularmente na NYRB, na Atlantic Monthly, no Economist, no Times Literary Supplement, só para falar das coisas que leio menos irregularmente: é que, desculpem-me, mas tenho sérias dúvidas que haja um único português com o conhecimento de causa e a qualidade suficientes para escrever um artigo como este. Como este ou, repito, como muitos outros que encontramos todos os meses em publicações como as que mencionei. Voltei a pensar nisto quando li, na autobiografia da Maria Filomena Mónica, a história do artigo para a Atlantic sobre a revolução portuguesa que o Vasco Pulido Valente nunca chegou a enviar.
Para responder mais directamente ao post do Ivan: para se ser capaz, é preciso ser-se ou muito ignorante ou muito descarado. E peço que não vejam isto como um ataque à Atlântico ou às pessoas que lá escrevem. É só uma constatação sobre aquilo que temos.
Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations: 29.6%
No answer: 4.1%
Q15. Some believe that the negotiations are the best path to achieve our national goals, whereas others believe that the armed struggle is the best way to do so. Which option is the closest to your opinion?
Through Negotiations: 38.8%
Through armed struggle: 17.9%
Through negotiations and armed struggle: 40.3%
Don't know: 2.3%
No answer: 0.7%
A resposta pode ser esta:
Because of all it did, said, and stood for, a vote for Hamas became one way to exorcise the disgrace. The Palestinian Authority had been unable to protect its people, and Hamas evidently could do no better on that score. But though its brutal attacks on Israelis did not provide safety, they provided revenge, and, for many Palestinians, in the biblical land of primal urges, that was second best. While not condoning every Hamas operation, for vast numbers of Palestinians, the Islamists' current position on Israel and the use of violence against it also rang as a truer, more authentic expression of their feelings. In this, Prime Minister Sharon displayed greater discernment than the Israeli left: deep down, most Palestinians, though ready to accept Israel's existence, have not accepted its historical legitimacy; though supportive of a mutual cease-fire and peace agreements, they will not relinquish the right to fight for their land.
E fazendo uma ponte um bocado enviesada com este post na Praia, há uma sensação que sempre tenho quando leio artigos como este, muito bom, mas não especialmente melhor que muitos outros que encontramos regularmente na NYRB, na Atlantic Monthly, no Economist, no Times Literary Supplement, só para falar das coisas que leio menos irregularmente: é que, desculpem-me, mas tenho sérias dúvidas que haja um único português com o conhecimento de causa e a qualidade suficientes para escrever um artigo como este. Como este ou, repito, como muitos outros que encontramos todos os meses em publicações como as que mencionei. Voltei a pensar nisto quando li, na autobiografia da Maria Filomena Mónica, a história do artigo para a Atlantic sobre a revolução portuguesa que o Vasco Pulido Valente nunca chegou a enviar.
Para responder mais directamente ao post do Ivan: para se ser capaz, é preciso ser-se ou muito ignorante ou muito descarado. E peço que não vejam isto como um ataque à Atlântico ou às pessoas que lá escrevem. É só uma constatação sobre aquilo que temos.
quarta-feira, março 01, 2006
Sondagens na Palestina (2)
Mais uma:
Palestinian Center for Public Opinion, 16-20 Fevereiro, M=1003, Face-a-face.
I am going to read to you a series of policies and duties, which Hamas could follow. I would like you to tell me whether you strongly agree, somewhat agree, somewhat disagree, or strongly disagree with each of them.
Recognize the State of Israel.
Strongly agree:16.1%
Somewhat agree: 34.7%
Somewhat disagree: 17.0%
Strongly disagree: 31.5%
Don’t know: 0.7%
Continue the truce with the Israelis.
Strongly agree: 48.5%
Somewhat agree: 32.0%
Somewhat disagree: 11.3%
Strongly disagree: 8.1%
Don’t know: 0.1%
Resume the peace process with Israel.
Strongly agree: 32.2%
Somewhat agree: 37.5%
Somewhat disagree: 20.0%
Strongly disagree: 9.5%
Don’t know:0.8%
E uma citação do Political Aritmetik sobre as sondagens na Palestina, que vai de encontro e para além daquilo que eu próprio escrevi aqui.
I'm a strong "small-d" democrat. I don't know what Hamas will end up doing in office. And I don't expect miracles. But I do think that over the long haul (say 20-40 years) democratic institutions exert real pressure on political movements that enter the electoral arena. The IRA is a good example. It has taken a long time, but there has been real progress there. I hope the same for the Palestinians, though I think I am realistic about the long time frame required. What I so admire about the PCPSR, DSP and other Palestinian pollsters is that they are providing the independent data and analysis of what the Palestinian public thinks that is a necessary part of democratic institution building. Given the hard conditions in which they work, I'm very impressed with their excellence. I hope that they continue to provide the best data possible so that whoever runs the Palestinian Authority will have to consider what their public thinks.
Palestinian Center for Public Opinion, 16-20 Fevereiro, M=1003, Face-a-face.
I am going to read to you a series of policies and duties, which Hamas could follow. I would like you to tell me whether you strongly agree, somewhat agree, somewhat disagree, or strongly disagree with each of them.
Recognize the State of Israel.
Strongly agree:16.1%
Somewhat agree: 34.7%
Somewhat disagree: 17.0%
Strongly disagree: 31.5%
Don’t know: 0.7%
Continue the truce with the Israelis.
Strongly agree: 48.5%
Somewhat agree: 32.0%
Somewhat disagree: 11.3%
Strongly disagree: 8.1%
Don’t know: 0.1%
Resume the peace process with Israel.
Strongly agree: 32.2%
Somewhat agree: 37.5%
Somewhat disagree: 20.0%
Strongly disagree: 9.5%
Don’t know:0.8%
E uma citação do Political Aritmetik sobre as sondagens na Palestina, que vai de encontro e para além daquilo que eu próprio escrevi aqui.
I'm a strong "small-d" democrat. I don't know what Hamas will end up doing in office. And I don't expect miracles. But I do think that over the long haul (say 20-40 years) democratic institutions exert real pressure on political movements that enter the electoral arena. The IRA is a good example. It has taken a long time, but there has been real progress there. I hope the same for the Palestinians, though I think I am realistic about the long time frame required. What I so admire about the PCPSR, DSP and other Palestinian pollsters is that they are providing the independent data and analysis of what the Palestinian public thinks that is a necessary part of democratic institution building. Given the hard conditions in which they work, I'm very impressed with their excellence. I hope that they continue to provide the best data possible so that whoever runs the Palestinian Authority will have to consider what their public thinks.
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Sondagem na Palestina
É em alturas como estas que me lembro de uma razão fundamental para que as sondagens devam existir: para que os cidadãos sejam ouvidos, e para que as suas vozes não sejam substituídas pelos palpites de quem acha que "sabe" o que "nós" queremos ou o que "eles" querem. Alguns exemplos:
Margem Ocidental e Faixa de Gaza, Jerusalem Media & Communication Center - Public Opinion Poll Unit, 8-12 Fevereiro, N=1200, Aleatória, Presencial
Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations 29.6%
No answer: 4.1%
Q17. Some believe that a two-state formula is the favored solution for the Israeli-Palestinian conflict, while others believe that historic Palestine cannot be divided and thus the favored solution is a bi-national state on all of Palestine where Palestinians and Israelis enjoy equal representation and rights. Which of these solutions do you prefer?
Two-state solution: an Israeli and a Palestinian: 57.9%
Bi-national state on all of historic Palestine: 22.3%
One Palestinian state:10.5%
Islamic state: 2.7%
No solution: 3.9%
Don't know 1.6%
No answer 1.1%
Q19. Do you support the resumption of the military operations against Israeli targets as a suitable response within the current political conditions, or do you oppose them and find them harmful to Palestinians national interests?
I oppose them and find them harmful to Palestinian national interests: 51.5%
Suitable response within the current political conditions: 43.8%
Others: 0.3%
Don’t know: 2.8%
no answer 1.6%
Q20. Hamas has executed violent operations against Israeli targets inside Israel and in the West Bank and Gaza strip against civilians and against military troops, now and after Hamas victory in the PLC elections, do you believe that Hamas should continue with such operations or that it should halt them?
Hamas has to stop its operations: 51.7%
Hamas has to continue with its operations: 39.1%
No answer 9.2%
Q24. If you voted for Hamas , why so?*
Religious Factors: 18.8%
Hope to end the Corruption: 43.0%
Hope to live in better living conditions: 10.7%
For their political agenda: 11.8%
To stop Fateh's control over the government:7.5%
Others 2.1%
No answer: 6.1%
*This question was asked who said that they voted for Hamas
Margem Ocidental e Faixa de Gaza, Jerusalem Media & Communication Center - Public Opinion Poll Unit, 8-12 Fevereiro, N=1200, Aleatória, Presencial
Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations 29.6%
No answer: 4.1%
Q17. Some believe that a two-state formula is the favored solution for the Israeli-Palestinian conflict, while others believe that historic Palestine cannot be divided and thus the favored solution is a bi-national state on all of Palestine where Palestinians and Israelis enjoy equal representation and rights. Which of these solutions do you prefer?
Two-state solution: an Israeli and a Palestinian: 57.9%
Bi-national state on all of historic Palestine: 22.3%
One Palestinian state:10.5%
Islamic state: 2.7%
No solution: 3.9%
Don't know 1.6%
No answer 1.1%
Q19. Do you support the resumption of the military operations against Israeli targets as a suitable response within the current political conditions, or do you oppose them and find them harmful to Palestinians national interests?
I oppose them and find them harmful to Palestinian national interests: 51.5%
Suitable response within the current political conditions: 43.8%
Others: 0.3%
Don’t know: 2.8%
no answer 1.6%
Q20. Hamas has executed violent operations against Israeli targets inside Israel and in the West Bank and Gaza strip against civilians and against military troops, now and after Hamas victory in the PLC elections, do you believe that Hamas should continue with such operations or that it should halt them?
Hamas has to stop its operations: 51.7%
Hamas has to continue with its operations: 39.1%
No answer 9.2%
Q24. If you voted for Hamas , why so?*
Religious Factors: 18.8%
Hope to end the Corruption: 43.0%
Hope to live in better living conditions: 10.7%
For their political agenda: 11.8%
To stop Fateh's control over the government:7.5%
Others 2.1%
No answer: 6.1%
*This question was asked who said that they voted for Hamas
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Piccolo divertimento
Em Itália, as eleições estão marcadas para o dia 9 de Abril de 2006. O crescimento económico médio nos últimos quatro anos não se recomenda: 0,7%. Em 2005, apenas 0,2%. A campanha deverá correr, em princípio, sob nova legislação obrigando a uma cobertura mediática equilibrada dos vários partidos. Mas as eleições vão decorrer sob um novo (mais um) sistema eleitoral, desta vez de representação proporcional, que deverá beneficiar a direita.
A Unione de Prodi procura desalojar a Casa de Berlusconi. Mas a Unione é tudo menos o que o nome indica: é um saco de gatos, reunindo desde democratas-cristãos (seja lá o que isso queira dizer hoje em Itália) até Trotsquistas (idem), cujo único objectivo em comum é correr com Berlusconi e repartir os despojos. E a Itália é a Itália, e Berlusconi é Berlusconi. Berlusconi esse que se descreveu há dias como "o Jesus Cristo da política", já prometeu que vai baixar os impostos, aumentar as pensões, e abstinência sexual até ao dia das eleições (esta última promessa já foi retirada, as outras ainda não).
Mas não se equivoquem: there is some method to his madness, como se diz no Economist.
Começo agora de mansinho, e deixo as análises complicadas lá mais para a frente. Notem, contudo:
- entre 1/5 e 1/4 de indecisos;
- margens para a Unione entre 0 e 8 por cento;
- e que essa margem de 0 por cento é dada por uma sondagem encomendada pela...Forza Italia. Ao menos aqui sabemos com o que contamos...
A Unione de Prodi procura desalojar a Casa de Berlusconi. Mas a Unione é tudo menos o que o nome indica: é um saco de gatos, reunindo desde democratas-cristãos (seja lá o que isso queira dizer hoje em Itália) até Trotsquistas (idem), cujo único objectivo em comum é correr com Berlusconi e repartir os despojos. E a Itália é a Itália, e Berlusconi é Berlusconi. Berlusconi esse que se descreveu há dias como "o Jesus Cristo da política", já prometeu que vai baixar os impostos, aumentar as pensões, e abstinência sexual até ao dia das eleições (esta última promessa já foi retirada, as outras ainda não).
Mas não se equivoquem: there is some method to his madness, como se diz no Economist.
Começo agora de mansinho, e deixo as análises complicadas lá mais para a frente. Notem, contudo:
- entre 1/5 e 1/4 de indecisos;
- margens para a Unione entre 0 e 8 por cento;
- e que essa margem de 0 por cento é dada por uma sondagem encomendada pela...Forza Italia. Ao menos aqui sabemos com o que contamos...
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
E mais uma...
Sem grande novidades de fundo em relação ao post anterior, mas com algumas respostas interessantes.
UK, Mori, 9-10 Fevereiro, N=601, Telefónica.
Q1-15 From what you have heard or read about the cartoons of the Prophet Mohammed which have been published in a number of European newspapers, do you agree or disagree that …(exemplos)
Q11 "British papers were right not to publish the cartoons"
Agree: 72%
Disagree: 16%
DK: 11%
Q12 "Muslims were right to be offended by the cartoons"
Agree: 62%
Disagree: 22%
DK: 16%
Mas...
Q6 "Demonstrators carrying placards calling for beheading and other acts of violence were justified"
Agree: 3%
Disagree: 93%
DK: 4%
Q7 "The Police should have arrested those demonstrators promoting acts of violence"
Agree: 80%
Disagree: 12%
DK: 8%
E a melhor de todas é que, afinal (tal como na Palestina)...
Q18 Have you personally seen the cartoons of the Prophet Mohammed which were published in some newspapers and shown on some television programmes and Internet sites?
Yes:25%
No: 74%
Don't know: 1%
UK, Mori, 9-10 Fevereiro, N=601, Telefónica.
Q1-15 From what you have heard or read about the cartoons of the Prophet Mohammed which have been published in a number of European newspapers, do you agree or disagree that …(exemplos)
Q11 "British papers were right not to publish the cartoons"
Agree: 72%
Disagree: 16%
DK: 11%
Q12 "Muslims were right to be offended by the cartoons"
Agree: 62%
Disagree: 22%
DK: 16%
Mas...
Q6 "Demonstrators carrying placards calling for beheading and other acts of violence were justified"
Agree: 3%
Disagree: 93%
DK: 4%
Q7 "The Police should have arrested those demonstrators promoting acts of violence"
Agree: 80%
Disagree: 12%
DK: 8%
E a melhor de todas é que, afinal (tal como na Palestina)...
Q18 Have you personally seen the cartoons of the Prophet Mohammed which were published in some newspapers and shown on some television programmes and Internet sites?
Yes:25%
No: 74%
Don't know: 1%
As sondagens sobre os cartoons: novos dados e observações gerais
Uma nos Estados Unidos:
Gallup, 9-12 Fevereiro, N=1000, Telefónica
As you may know, several newspapers in Europe recently printed cartoons showing Mohammed, the founder of Islam, in ways that offended the religious views of many Muslims. Do you think the European newspapers that printed these cartoons acted responsibly or irresponsibly?
Responsibly: 29%
Irresponsibly:61%
No opinion: 10%
Overall, do you think this controversy is due more to?
Western nations’ lack of respect for the Islamic religion: 21%
Muslims’ intolerance of different points of view: 61%
Both: 6%
Neither: 2%
No opinion:9%
Which comes closer to your view—the U.S. news media have an obligation to show controversial items that are newsworthy even if they may offend the religious views of some people, the U.S. news media have an obligation to avoid offending the religious views of some people even if that prevents them from showing controversial items that are newsworthy?
Obligation to show controversial items: 57%
Obligation to avoid offending religious views: 33%
No opinion: 10%
Outra na Dinamarca:
Gallup, 8 a 10 de Fevereiro, N=1003, Telefónica
Would you say you understand why Muslims were offended by the cartoons?
Yes: 56%
No: 41%
Not sure: 3%
Do you think Jyllands-Posten was right or wrong to publish the cartoons?
Right: 43%
Wrong:49%
Not sure:8%
Só se conhecem percentagens agregadas e as sondagens não são rigorosamente comparáveis, e seria precipitado tirar grandes conclusões. Mas há algumas semelhanças e diferenças nas sondagens feitas em Inglaterra, Estados Unidos, França e Dinamarca:
-a existência de maiorias que defendem que a publicação não devia ter ocorrido ou foi irresponsável, sendo que na Dinamarca essa percepção não era inicialmente maioritária mas, pelos vistos, cresceu;
- a existência de maiorias que defendem o direito em abstracto a publicar informação ou comentário que podem ser ofensivos, em Inglaterra e, de forma algo mais mitigada, nos Estados Unidos (if controversial items are newsworthy). Mas não tanto em França (onde 65% defendem que o Islão não deve ser objecto de humor);
- "incompreensão"/"não aceitação" das "razões" da controvérsia ou da indignação por parte dos muçulmanos nos Estados Unidos ou em França, mas sim na Dinamarca.
O que explicará estas variações? Já havia tema para uma tese de mestrado.
Entretanto, na Palestina, o pior de dois mundos: a maioria não viu os cartoons, mas associa a responsabilidade pela sua publicação à Dinamarca como país.
Gallup, 9-12 Fevereiro, N=1000, Telefónica
As you may know, several newspapers in Europe recently printed cartoons showing Mohammed, the founder of Islam, in ways that offended the religious views of many Muslims. Do you think the European newspapers that printed these cartoons acted responsibly or irresponsibly?
Responsibly: 29%
Irresponsibly:61%
No opinion: 10%
Overall, do you think this controversy is due more to?
Western nations’ lack of respect for the Islamic religion: 21%
Muslims’ intolerance of different points of view: 61%
Both: 6%
Neither: 2%
No opinion:9%
Which comes closer to your view—the U.S. news media have an obligation to show controversial items that are newsworthy even if they may offend the religious views of some people, the U.S. news media have an obligation to avoid offending the religious views of some people even if that prevents them from showing controversial items that are newsworthy?
Obligation to show controversial items: 57%
Obligation to avoid offending religious views: 33%
No opinion: 10%
Outra na Dinamarca:
Gallup, 8 a 10 de Fevereiro, N=1003, Telefónica
Would you say you understand why Muslims were offended by the cartoons?
Yes: 56%
No: 41%
Not sure: 3%
Do you think Jyllands-Posten was right or wrong to publish the cartoons?
Right: 43%
Wrong:49%
Not sure:8%
Só se conhecem percentagens agregadas e as sondagens não são rigorosamente comparáveis, e seria precipitado tirar grandes conclusões. Mas há algumas semelhanças e diferenças nas sondagens feitas em Inglaterra, Estados Unidos, França e Dinamarca:
-a existência de maiorias que defendem que a publicação não devia ter ocorrido ou foi irresponsável, sendo que na Dinamarca essa percepção não era inicialmente maioritária mas, pelos vistos, cresceu;
- a existência de maiorias que defendem o direito em abstracto a publicar informação ou comentário que podem ser ofensivos, em Inglaterra e, de forma algo mais mitigada, nos Estados Unidos (if controversial items are newsworthy). Mas não tanto em França (onde 65% defendem que o Islão não deve ser objecto de humor);
- "incompreensão"/"não aceitação" das "razões" da controvérsia ou da indignação por parte dos muçulmanos nos Estados Unidos ou em França, mas sim na Dinamarca.
O que explicará estas variações? Já havia tema para uma tese de mestrado.
Entretanto, na Palestina, o pior de dois mundos: a maioria não viu os cartoons, mas associa a responsabilidade pela sua publicação à Dinamarca como país.
Near East Consulting, 9-11 Fevereiro, N=1300, Face-a-face
Were the cartoons carried out on a private level or is it a general Danish position?
They represent a general position by Denmark: 62%
They were carried out on a private level:38%
Have you seen any of the Danish cartoons?
Yes: 31%
No: 69%
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Uma sondagem dos muçulmanos britânicos (pré-cartoons)
Comentada aqui, e apresentada em detalhe no site da Populus (consultar o Poll Archive).
Há dados reconfortantes, mas outros perturbantes. Menos de um terço dos muçulmanos britânicos recusa o direito à existência de Israel eum máximo de 16% (dependendo dos alvos e locais) acham que atentados suicidas podem ser justificados. Contudo, estas percentagens são sempre mais elevadas entre os mais jovens, que em todas as questões revelam maior radicalização. Questão "de idade" (ciclo de vida) ou uma nova geração mais fundamentalista?
Há dados reconfortantes, mas outros perturbantes. Menos de um terço dos muçulmanos britânicos recusa o direito à existência de Israel eum máximo de 16% (dependendo dos alvos e locais) acham que atentados suicidas podem ser justificados. Contudo, estas percentagens são sempre mais elevadas entre os mais jovens, que em todas as questões revelam maior radicalização. Questão "de idade" (ciclo de vida) ou uma nova geração mais fundamentalista?
Guerras (2)
E para aqueles cujo interesse na questão tratada no post anterior vai ao ponto de quererem dispender algum tempo adicional, gostava de sugerir a consulta destes powerpoints de aulas da Pippa Norris na Kennedy School em Harvard, onde se discute a questão com algum detalhe (aproveitando assim também para mostrar o tipo de coisas que um professor que domina as tecnologias de informação pode fazer pelos seus alunos): esta e esta.
Guerras
Agora que, em defesa da liberdade de expressão, Pacheco Pereira nos relembra que estamos em guerra (da mesma forma que, há uns meses, a mesma retórica lhe tinha servido em defesa limitações dos direitos cívicos impostas pelo Patriot Act e pelo Prevention of Terrorism Act), e agora que Paulo Gorjão nos convida a irmos à fonte (Huntington e o choque das civilizações), há uma afirmação de Huntington nesse famoso artigo que merece ser examinada:
At a more basic level, however, Western concepts differ fundamentally from those prevalent in other civilizations. Western ideas of individualism, liberalism, constitutionalism, human rights, equality, liberty, the rule of law, democracy, free markets, the separation of church and state, often have little resonance in Islamic, Confucian, Japanese, Hindu, Buddhist or Orthodox cultures. Western efforts to propagate each ideas produce instead a reaction against "human rights imperialism" and a reaffirmation of indigenous values, as can be seen in the support for religious fundamentalism by the younger generation in non-Western cultures.
Foi o que fizerem Ronald Inglehart e Pippa Norris, aqui. Os dados utilizados são do World Values Survey entre 1995 e 2001, resultantes de inquéritos aplicados não só na maior parte dos países ocidentais mas também no Irão, Egipto, Argélia, Turquia, Indonésia, Marrocos, Jordânia, Azerbeijão, Turquia e Bangladesh, entre outros. As questões colocadas foram as seguintes:

Os resultados obtidos foram estes:

Conclusões:
1. With the exception of Pakistan, most of the Muslim countries surveyed think highly of democracy: In Albania, Egypt, Bangladesh, Azerbaijan, Indonesia, Morocco, and Turkey, 92 to 99 percent of the public endorsed democratic institutions—a higher proportion than in the United States (89 percent);
2. A solid majority of people living in Western and Muslim countries gives democracy high marks as the most efficient form of government, with 68 percent disagreeing with assertions that “democracies are indecisive” and “democracies aren’t good at maintaining order.” (...) And an equal number of respondents on both sides of the civilizational divide (61 percent) firmly reject authoritarian governance, expressing disapproval of “strong leaders” who do not “bother with parliament and elections.”
3. Muslim societies display greater support for religious authorities playing an active societal role than do Western societies. (...) Citizens in some Muslim societies agree overwhelmingly with the statement that “politicians who do not believe in God are unfit for public office” (88 percent in Egypt, 83 percent in Iran, and 71 percent in Bangladesh), but this statement also garners strong support in the Philippines (71 percent), Uganda (60 percent), and Venezuela (52 percent). Even in the United States, about two fifths of the public believes that atheists are unfit for public office.
4. When it comes to attitudes toward gender equality and sexual liberalization, the cultural gap between Islam and the West widens into a chasm. On the matter of equal rights and opportunities for women—measured by such questions as whether men make better political leaders than women or whether university education is more important for boys than for girls—Western and Muslim countries score 82 percent and 55 percent, respectively. Muslim societies are also distinctively less permissive toward homosexuality, abortion, and divorce.
5. “The peoples of the Islamic nations want and deserve the same freedoms and opportunities as people in every nation,” President Bush declared in a commencement speech at West Point last summer. He’s right. Any claim of a “clash of civilizations” based on fundamentally different political goals held by Western and Muslim societies represents an oversimplification of the evidence. Support for the goal of democracy is surprisingly widespread among Muslim publics, even among those living in authoritarian societies. (...) But economic development generates changed attitudes in virtually any society. (...) Thus, relatively industrialized Muslim societies such as Turkey share the same views on gender equality and sexual liberalization as other new democracies.
(...)
The United States cannot expect to foster democracy in the Muslim world simply by getting countries to adopt the trappings of democratic governance, such as holding elections and having a parliament. Nor is it realistic to expect that nascent democracies in the Middle East will inspire a wave of reforms reminiscent of the velvet revolutions that swept Eastern Europe in the final days of the Cold War. A real commitment to democratic reform will be measured by the willingness to commit the resources necessary to foster human development in the Muslim world. Culture has a lasting impact on how societies evolve. But culture does not have to be destiny.
At a more basic level, however, Western concepts differ fundamentally from those prevalent in other civilizations. Western ideas of individualism, liberalism, constitutionalism, human rights, equality, liberty, the rule of law, democracy, free markets, the separation of church and state, often have little resonance in Islamic, Confucian, Japanese, Hindu, Buddhist or Orthodox cultures. Western efforts to propagate each ideas produce instead a reaction against "human rights imperialism" and a reaffirmation of indigenous values, as can be seen in the support for religious fundamentalism by the younger generation in non-Western cultures.
Foi o que fizerem Ronald Inglehart e Pippa Norris, aqui. Os dados utilizados são do World Values Survey entre 1995 e 2001, resultantes de inquéritos aplicados não só na maior parte dos países ocidentais mas também no Irão, Egipto, Argélia, Turquia, Indonésia, Marrocos, Jordânia, Azerbeijão, Turquia e Bangladesh, entre outros. As questões colocadas foram as seguintes:

Os resultados obtidos foram estes:

Conclusões:
1. With the exception of Pakistan, most of the Muslim countries surveyed think highly of democracy: In Albania, Egypt, Bangladesh, Azerbaijan, Indonesia, Morocco, and Turkey, 92 to 99 percent of the public endorsed democratic institutions—a higher proportion than in the United States (89 percent);
2. A solid majority of people living in Western and Muslim countries gives democracy high marks as the most efficient form of government, with 68 percent disagreeing with assertions that “democracies are indecisive” and “democracies aren’t good at maintaining order.” (...) And an equal number of respondents on both sides of the civilizational divide (61 percent) firmly reject authoritarian governance, expressing disapproval of “strong leaders” who do not “bother with parliament and elections.”
3. Muslim societies display greater support for religious authorities playing an active societal role than do Western societies. (...) Citizens in some Muslim societies agree overwhelmingly with the statement that “politicians who do not believe in God are unfit for public office” (88 percent in Egypt, 83 percent in Iran, and 71 percent in Bangladesh), but this statement also garners strong support in the Philippines (71 percent), Uganda (60 percent), and Venezuela (52 percent). Even in the United States, about two fifths of the public believes that atheists are unfit for public office.
4. When it comes to attitudes toward gender equality and sexual liberalization, the cultural gap between Islam and the West widens into a chasm. On the matter of equal rights and opportunities for women—measured by such questions as whether men make better political leaders than women or whether university education is more important for boys than for girls—Western and Muslim countries score 82 percent and 55 percent, respectively. Muslim societies are also distinctively less permissive toward homosexuality, abortion, and divorce.
5. “The peoples of the Islamic nations want and deserve the same freedoms and opportunities as people in every nation,” President Bush declared in a commencement speech at West Point last summer. He’s right. Any claim of a “clash of civilizations” based on fundamentally different political goals held by Western and Muslim societies represents an oversimplification of the evidence. Support for the goal of democracy is surprisingly widespread among Muslim publics, even among those living in authoritarian societies. (...) But economic development generates changed attitudes in virtually any society. (...) Thus, relatively industrialized Muslim societies such as Turkey share the same views on gender equality and sexual liberalization as other new democracies.
(...)
The United States cannot expect to foster democracy in the Muslim world simply by getting countries to adopt the trappings of democratic governance, such as holding elections and having a parliament. Nor is it realistic to expect that nascent democracies in the Middle East will inspire a wave of reforms reminiscent of the velvet revolutions that swept Eastern Europe in the final days of the Cold War. A real commitment to democratic reform will be measured by the willingness to commit the resources necessary to foster human development in the Muslim world. Culture has a lasting impact on how societies evolve. But culture does not have to be destiny.
Os franceses e os cartoons
CSA, 8 de Fevereiro, N=1000, Telefónica
Vous savez que la publication des caricatures du prophète Mahomet a suscité de l'indignation chez certains musulmans. Diriez-vous que vous comprenez tout à fait, plutôt, plutôt pas ou pas du tout cette indignation ?
Comprend tout à fait: 14%
Comprend plutôt: 22%
Ne comprend plutôt pas: 18%
Ne comprend pas du tout: 35%
Ne se prononcent pas: 11%
Vous savez que certaines personnes se demandent si l'on peut rire sur tous les sujets. Diriez-vous que c'est une très bonne chose, plutôt bonne chose, plutôt mauvaise chose ou très mauvaise chose de faire de l'humour sur…? (percentagens "mauvaise chose"):
Le handicap des personnes: 84%
L'islam: 65%
L'origine ethnique, la nationalité des personnes: 64%
Le judaïsme: 63%
Le christianisme: 60%
Le comportement sexuel des personnes: 55%
Selon-vous les journaux ont-ils eu raison ou tort de publier les caricatures du prophète Mahomet ?
Ils ont eu raison au nom de la liberté d'expression: 38%
Ils ont eu tort car cela constituait une provocation inutile: 54%
Ne se prononcent pas: 8%
Vous savez que la publication des caricatures du prophète Mahomet a suscité de l'indignation chez certains musulmans. Diriez-vous que vous comprenez tout à fait, plutôt, plutôt pas ou pas du tout cette indignation ?
Comprend tout à fait: 14%
Comprend plutôt: 22%
Ne comprend plutôt pas: 18%
Ne comprend pas du tout: 35%
Ne se prononcent pas: 11%
Vous savez que certaines personnes se demandent si l'on peut rire sur tous les sujets. Diriez-vous que c'est une très bonne chose, plutôt bonne chose, plutôt mauvaise chose ou très mauvaise chose de faire de l'humour sur…? (percentagens "mauvaise chose"):
Le handicap des personnes: 84%
L'islam: 65%
L'origine ethnique, la nationalité des personnes: 64%
Le judaïsme: 63%
Le christianisme: 60%
Le comportement sexuel des personnes: 55%
Selon-vous les journaux ont-ils eu raison ou tort de publier les caricatures du prophète Mahomet ?
Ils ont eu raison au nom de la liberté d'expression: 38%
Ils ont eu tort car cela constituait une provocation inutile: 54%
Ne se prononcent pas: 8%
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Os ingleses e os cartoons
Populus UK, 3-5 Fevereiro, N= 1508, Telefónica
Do you agree with the following statements? (saldo a favor da frase, ou seja, percentagem de respostas "sim" - respostas "não, por ordem decrescente)
Newspapers have the right in principle to publish the cartoons, but they should not do so out of respect for the Muslim community: +40%
Muslims should accept the principle of freedom of speech, which means that newspapers must be free to publish such cartoons if they choose: +38%
The cartoons should be banned from publication because they cause grave offence to Muslims: +13%
By not publishing the cartoons, in the face of protests and warnings about terrorist attacks, the British press is giving into terrorism: - 24%
Em resumo, as opiniões claramente maioritárias são:
- não os deviam ter publicado;
- mas devem poder fazê-lo se quiserem;
- e não, não estamos a ceder ao terrorismo pelo facto de não os publicarmos.
Do you agree with the following statements? (saldo a favor da frase, ou seja, percentagem de respostas "sim" - respostas "não, por ordem decrescente)
Newspapers have the right in principle to publish the cartoons, but they should not do so out of respect for the Muslim community: +40%
Muslims should accept the principle of freedom of speech, which means that newspapers must be free to publish such cartoons if they choose: +38%
The cartoons should be banned from publication because they cause grave offence to Muslims: +13%
By not publishing the cartoons, in the face of protests and warnings about terrorist attacks, the British press is giving into terrorism: - 24%
Em resumo, as opiniões claramente maioritárias são:
- não os deviam ter publicado;
- mas devem poder fazê-lo se quiserem;
- e não, não estamos a ceder ao terrorismo pelo facto de não os publicarmos.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Têm dias
Muito do que tenho lido na blogosfera e na imprensa sobre o caso dos cartoons - especialmente quando se colocam as coisas em termos como a "defesa dos valores ocidentais" - faz-me pensar naquilo que investigação empírica na área da opinião pública e da cultura política nos diz sobre o tema da "tolerância", ou seja, "a disponibilidade para permitir a expressão de ideias e interesses a que nos opomos".
Os clássicos são os livros de Herbert McClosky e John Sullivan, e as conclusões não são particularmente surpreendentes: quando as questões são colocadas em abstracto ("Acredita na liberdade de expressão para todos, sejam quais forem as opiniões expressas?", por exemplo), a maioria dos cidadãos tende a manifestar concordância. É por aqui, contudo, a defesa do "Ocidente" como bastião da tolerância e da liberdade começa a esboroar. Vale a pena (a propósito deste assunto e de muitos outros) ler isto (.pdf) com alguma atenção, onde se mostra que aquilo que realmente distingue as opiniões públicas dos países ocidentais e islâmicos não é a posição dos indivíduos sobre os ideais e valores da democracia política mas sim as suas posições sobre valores sociais, tais como a liberalização dos costumes ou a igualdade entre os sexos. Há um choque de civilizações sim, mas não onde normalmente se julga...
Mas a coisa complica-se ainda mais quando se aprecia até que ponto vai realmente a "tolerância" dos "ocidentais": uma coisa é a resposta "ideológica" e "normativa", outra coisa é a resposta concreta em relação aos direitos de grupos concretos. É sabido, inquérito após inquérito, que nos Estados Unidos, por exemplo, mais de dois terços dos cidadãos, após estimulados a seleccionar um grupo social cujas opiniões ou comportamentos mais deplore, responde depois sem hesitar que um membro desse grupo não deveria poder ensinar em escolas públicas, fazer manifestações, ou ter uma coluna de opinião no jornal. E as coisas pioram quanto mais próximo do inquirido se coloca a acção: a recusa de manifestações desse grupo na cidade onde se vive é ainda mais acentuada do que a recusa genérica.
E se pensam que isto é um fenómeno americano, think again: se se pode dizer alguma coisa é que na Europa os níveis de intolerância política tendem a ser mais elevados que nos Estados Unidos, desde que se coloquem os indivíduos perante grupos concretos (e não abstracções piedosas).* Isto apesar dos objectos concretos da intolerância variarem de sociedade para sociedade (sendo que na Europa um desses objectos tendem a ser as minorias étnicas, enquanto que nos Estados Unidos tendem a ser grupos políticos ou minorias sociais). A tolerância tem limites, que só são largos quando tudo se passa ao nível da mais pura abstracção. E é selectiva, sendo maior quando mais se aplica a um grupo ou interesse com o qual menos antipatizamos.
Não me surpreende, por isso, que alguns daqueles que (e bem, para o meu gosto) agora se colocam ao lado da liberdade de expressão sejam também aqueles que, há bem pouco tempo, acusavam os que criticavam as limitações aos direitos cívicos dos ingleses e dos americanos a propósito do Prevention of Terrorism Act ou do Patriot Act de "tibieza" em relação ao terrorismo e desígnios anti-ocidentais. De facto, como a pesquisa demonstra, a "tolerância" e a "liberdade" têm dias.
*Ver, por exemplo, M. Peffley e R. Rohrschneider, "Democratization and Political Tolerance in 17 Countries", Political Research Quarterly, Vol. 56, 2003.
Os clássicos são os livros de Herbert McClosky e John Sullivan, e as conclusões não são particularmente surpreendentes: quando as questões são colocadas em abstracto ("Acredita na liberdade de expressão para todos, sejam quais forem as opiniões expressas?", por exemplo), a maioria dos cidadãos tende a manifestar concordância. É por aqui, contudo, a defesa do "Ocidente" como bastião da tolerância e da liberdade começa a esboroar. Vale a pena (a propósito deste assunto e de muitos outros) ler isto (.pdf) com alguma atenção, onde se mostra que aquilo que realmente distingue as opiniões públicas dos países ocidentais e islâmicos não é a posição dos indivíduos sobre os ideais e valores da democracia política mas sim as suas posições sobre valores sociais, tais como a liberalização dos costumes ou a igualdade entre os sexos. Há um choque de civilizações sim, mas não onde normalmente se julga...
Mas a coisa complica-se ainda mais quando se aprecia até que ponto vai realmente a "tolerância" dos "ocidentais": uma coisa é a resposta "ideológica" e "normativa", outra coisa é a resposta concreta em relação aos direitos de grupos concretos. É sabido, inquérito após inquérito, que nos Estados Unidos, por exemplo, mais de dois terços dos cidadãos, após estimulados a seleccionar um grupo social cujas opiniões ou comportamentos mais deplore, responde depois sem hesitar que um membro desse grupo não deveria poder ensinar em escolas públicas, fazer manifestações, ou ter uma coluna de opinião no jornal. E as coisas pioram quanto mais próximo do inquirido se coloca a acção: a recusa de manifestações desse grupo na cidade onde se vive é ainda mais acentuada do que a recusa genérica.
E se pensam que isto é um fenómeno americano, think again: se se pode dizer alguma coisa é que na Europa os níveis de intolerância política tendem a ser mais elevados que nos Estados Unidos, desde que se coloquem os indivíduos perante grupos concretos (e não abstracções piedosas).* Isto apesar dos objectos concretos da intolerância variarem de sociedade para sociedade (sendo que na Europa um desses objectos tendem a ser as minorias étnicas, enquanto que nos Estados Unidos tendem a ser grupos políticos ou minorias sociais). A tolerância tem limites, que só são largos quando tudo se passa ao nível da mais pura abstracção. E é selectiva, sendo maior quando mais se aplica a um grupo ou interesse com o qual menos antipatizamos.
Não me surpreende, por isso, que alguns daqueles que (e bem, para o meu gosto) agora se colocam ao lado da liberdade de expressão sejam também aqueles que, há bem pouco tempo, acusavam os que criticavam as limitações aos direitos cívicos dos ingleses e dos americanos a propósito do Prevention of Terrorism Act ou do Patriot Act de "tibieza" em relação ao terrorismo e desígnios anti-ocidentais. De facto, como a pesquisa demonstra, a "tolerância" e a "liberdade" têm dias.
*Ver, por exemplo, M. Peffley e R. Rohrschneider, "Democratization and Political Tolerance in 17 Countries", Political Research Quarterly, Vol. 56, 2003.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Dinamarqueses divididos sobre cartoons (actualizado)
Epinion, 3 de Fevereiro, N=509, Telefónica
Considering the events that have occurred in the past week, should Jyllands-Posten have published the cartoons featuring Mohammed?
Yes: 47%
No: 46%
Not sure: 7%
Should Prime Minister Anders Fogh Rasmussen apologize on Denmark's behalf?
No: 79%
Yes: 18%
Not sure:3%
E just in case you're wondering, a minha opinião sobre o assunto é, sem tirar nem pôr, exactamente, e muito melhor do que eu alguma vez poderia ter colocado, esta.
Considering the events that have occurred in the past week, should Jyllands-Posten have published the cartoons featuring Mohammed?
Yes: 47%
No: 46%
Not sure: 7%
Should Prime Minister Anders Fogh Rasmussen apologize on Denmark's behalf?
No: 79%
Yes: 18%
Not sure:3%
E just in case you're wondering, a minha opinião sobre o assunto é, sem tirar nem pôr, exactamente, e muito melhor do que eu alguma vez poderia ter colocado, esta.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Hibernação
Este blogue vai entrar agora em hibernação. A procura, de resto, é sazonal, pelo que a oferta também o será. Se ocorrerem eventos tão interessantes como as eleições no Reino Unido ou na Alemanha ou o referendo francês, que foram aqui cobertos, voltarei com certeza com regularidade. E há um referendo à vista em Portugal. O regresso poderá ser lento, mas é seguro.
Obrigado pelos e-mails e comentários e ligações nos vossos blogues. E desculpem as irritações ocasionais, mas a blogosfera é como as famílias: we only hurt the ones we love. E eu gosto mesmo disto.
Mas para já, chega de sondagens.
Obrigado pelos e-mails e comentários e ligações nos vossos blogues. E desculpem as irritações ocasionais, mas a blogosfera é como as famílias: we only hurt the ones we love. E eu gosto mesmo disto.
Mas para já, chega de sondagens.
Rescaldo 2
No quadro seguinte estão as projecções apresentadas às 20.00h e a comparação dos pontos médios dos intervalos com os resultados eleitorais. A vermelho sobre cada ponto médio, o desvio absoluto. O resto já sabem.

Muito próximo do que se passou em 2001 e em todas as sondagens à boca das urnas desde aí: grande precisão. Ao contrário do que se tem passado até agora, SIC e Eurosondagem muito próxima (para todos os efeitos, igual) dos restantes canais e institutos. Católica com ligeira vantagem na questão da margem de vitória.

Muito próximo do que se passou em 2001 e em todas as sondagens à boca das urnas desde aí: grande precisão. Ao contrário do que se tem passado até agora, SIC e Eurosondagem muito próxima (para todos os efeitos, igual) dos restantes canais e institutos. Católica com ligeira vantagem na questão da margem de vitória.
Rescaldo 1
O quadro seguinte compara os resultados eleitorais com as últimas sondagens pré-eleitorais conduzidas por cada instituto. Algumas notas:
1. As sondagens Intercampus e Pitagórica foram conduzidas antes das restantes, o que diminuiu à partida a sua capacidade para captar mudanças de preferências nos eleitores ocorridas mais perto do acto eleitoral;
2. Os resultados apresentados no quadro para a Pitagórica resultam de uma redistribuição proporcional de indecisos. O JN não apresentou esses resultados, e sim apenas resultados anteriores à redistribuição de indecisos. A redistribuição é feita apenas para o fim de tornar os resultados da sondagem comparáveis com resultados eleitorais, seguindo prática académica comum já aqui muitas vezes mencionada e fundamentada.
3. Calculam-se dois tipos de erro: Método 3 (a média dos desvios absolutos) e Método 5 (a diferença entre a margem de vitória prevista e a margem de vitória de real na base dos dados publicados de acordo com a opção dos institutos). Para mais informação sobre isto, ver estes posts e as referências lá citadas. A sua aplicação neste momento não vai ser na versão mais completa e "canónica" - que exige umas operações adicionais - mas isso, para o fundamental, não vai fazer diferença. Quando houver resultados eleitorais definitivos far-se-á a versão completa.

Compreensivelmente, as sondagens cujo trabalho de campo foi conduzido mais longe das eleições ficaram mais longe dos resultados, apesar de a Intercampus, apesar de tudo, ter ficado mais perto que a Eurosondagem. Quanto àquelas que são realmente comparáveis entre si e com os resultados eleitorais - as da última semana - a Católica ficou mais perto do ponto de vista do desvio absoluto médio e a Marktest do ponto de vista da margem de vitória. Mas as diferenças entre estas e a da Aximage carecem de qualquer espécie de significado. Para todos os efeitos, foram igualmente precisas. Curioso, assim, verificar que diferentes metodologias e dimensões amostrais podem gerar resultados igualmente fiáveis. E curioso também que, uma vez mais, a margem de vitória é sempre sobrestimada, tal como em 1996 e 2001.
Como se compara isto com o passado? Uma visita aqui revelará que as sondagens pré-eleitorais nas presidenciais de 2006 foram substancialmente mais precisas do que as realizadas em 1996 ou 2001. Isso sucede mesmo quando tomamos em conta o facto de o desvio absoluto médio ser sensível ao número de estimativas feitas (quantas mais, menor o erro médio). Assim, por exemplo, com cinco candidatos em 2001, a média dos "desvios absolutos médios" para a várias sondagens foi de 3,9%, enquanto que em 2006, para os cinco primeiros candidatos, foi de 1,6%. (para as sondagens da última semana). Em 1996, com dois candidatos, a média dos desvios absolutos médios foi de 3,2%. Em 2006, apenas para os dois primeiros candidatos, foi de 2%. Mas nas legislativas de 2005 as sondagens ainda foram mais precisas...
Em resumo, resultados muito apresentáveis quer em comparação com o passado quer em comparação internacional.
1. As sondagens Intercampus e Pitagórica foram conduzidas antes das restantes, o que diminuiu à partida a sua capacidade para captar mudanças de preferências nos eleitores ocorridas mais perto do acto eleitoral;
2. Os resultados apresentados no quadro para a Pitagórica resultam de uma redistribuição proporcional de indecisos. O JN não apresentou esses resultados, e sim apenas resultados anteriores à redistribuição de indecisos. A redistribuição é feita apenas para o fim de tornar os resultados da sondagem comparáveis com resultados eleitorais, seguindo prática académica comum já aqui muitas vezes mencionada e fundamentada.
3. Calculam-se dois tipos de erro: Método 3 (a média dos desvios absolutos) e Método 5 (a diferença entre a margem de vitória prevista e a margem de vitória de real na base dos dados publicados de acordo com a opção dos institutos). Para mais informação sobre isto, ver estes posts e as referências lá citadas. A sua aplicação neste momento não vai ser na versão mais completa e "canónica" - que exige umas operações adicionais - mas isso, para o fundamental, não vai fazer diferença. Quando houver resultados eleitorais definitivos far-se-á a versão completa.

Compreensivelmente, as sondagens cujo trabalho de campo foi conduzido mais longe das eleições ficaram mais longe dos resultados, apesar de a Intercampus, apesar de tudo, ter ficado mais perto que a Eurosondagem. Quanto àquelas que são realmente comparáveis entre si e com os resultados eleitorais - as da última semana - a Católica ficou mais perto do ponto de vista do desvio absoluto médio e a Marktest do ponto de vista da margem de vitória. Mas as diferenças entre estas e a da Aximage carecem de qualquer espécie de significado. Para todos os efeitos, foram igualmente precisas. Curioso, assim, verificar que diferentes metodologias e dimensões amostrais podem gerar resultados igualmente fiáveis. E curioso também que, uma vez mais, a margem de vitória é sempre sobrestimada, tal como em 1996 e 2001.
Como se compara isto com o passado? Uma visita aqui revelará que as sondagens pré-eleitorais nas presidenciais de 2006 foram substancialmente mais precisas do que as realizadas em 1996 ou 2001. Isso sucede mesmo quando tomamos em conta o facto de o desvio absoluto médio ser sensível ao número de estimativas feitas (quantas mais, menor o erro médio). Assim, por exemplo, com cinco candidatos em 2001, a média dos "desvios absolutos médios" para a várias sondagens foi de 3,9%, enquanto que em 2006, para os cinco primeiros candidatos, foi de 1,6%. (para as sondagens da última semana). Em 1996, com dois candidatos, a média dos desvios absolutos médios foi de 3,2%. Em 2006, apenas para os dois primeiros candidatos, foi de 2%. Mas nas legislativas de 2005 as sondagens ainda foram mais precisas...
Em resumo, resultados muito apresentáveis quer em comparação com o passado quer em comparação internacional.
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Afinal volto...
Porque entretanto dei com um mais um post do Doc Log sobre estes assuntos.
Primeiro, se não for grande incómodo, gostava de ser citado correctamente. O "tema que se encontra resolvido" noutros países é o da adopção de standards sobre como se apresentam resultados de sondagens, e não o da "suspeição sistemática sobre as intenções por detrás da apresentação deste ou daquele resultado". Sendo também certo que as confusões evitáveis no primeiro domínio contribuem bastante para a suspeição. E se se quer saber como se evitam, pode-se consultar isto e isto.
Segundo, a ideia de que "a opção dos media em divulgar resultados que não consideram a fatia de indecisos, nem os votos em branco, parecendo ser uma opção técnica, é principalmente uma opção ética – de má ética jornalística" é errada. Os media divulgam (ou devem divulgar, e na sua maioria fazem-no) ambos os resultados, os brutos e aqueles que são comparáveis com resultados eleitorais. Não divulgar os segundos seria, isso sim, uma enorme irresponsabilidade. Não sei como fazer isto sem me repetir, mas as percentagens de "indecisos" e "abstencionistas" são altamente sensíveis a variações nos formatos dos questionários e em metodologias de inquirição, o que significa que nem eles são directamente comparáveis entre si nem os restantes resultados brutos, por arrastamento, o são.
Isto não quer dizer que os resultados brutos sejam irrelevantes. Por isso mesmo podem e devem ser publicados (e, com raras excepções, são-no).
Ok? Podemos partir para outra?
Primeiro, se não for grande incómodo, gostava de ser citado correctamente. O "tema que se encontra resolvido" noutros países é o da adopção de standards sobre como se apresentam resultados de sondagens, e não o da "suspeição sistemática sobre as intenções por detrás da apresentação deste ou daquele resultado". Sendo também certo que as confusões evitáveis no primeiro domínio contribuem bastante para a suspeição. E se se quer saber como se evitam, pode-se consultar isto e isto.
Segundo, a ideia de que "a opção dos media em divulgar resultados que não consideram a fatia de indecisos, nem os votos em branco, parecendo ser uma opção técnica, é principalmente uma opção ética – de má ética jornalística" é errada. Os media divulgam (ou devem divulgar, e na sua maioria fazem-no) ambos os resultados, os brutos e aqueles que são comparáveis com resultados eleitorais. Não divulgar os segundos seria, isso sim, uma enorme irresponsabilidade. Não sei como fazer isto sem me repetir, mas as percentagens de "indecisos" e "abstencionistas" são altamente sensíveis a variações nos formatos dos questionários e em metodologias de inquirição, o que significa que nem eles são directamente comparáveis entre si nem os restantes resultados brutos, por arrastamento, o são.
Isto não quer dizer que os resultados brutos sejam irrelevantes. Por isso mesmo podem e devem ser publicados (e, com raras excepções, são-no).
Ok? Podemos partir para outra?
O futuro
Uma coisa é dizer que a nossa incerteza sobre a forma como as preferências dos eleitores evoluiram até agora diminuiu. Outra ainda é dizer que estamos igualmente menos incertos sobre quais seriam elas à volta dos dias 15-18 de Janeiro. Contudo, outra muito diferente é a nossa incerteza sobre o futuro. Estas sondagens são o passado. O futuro é Domingo.
O que pode trazer o futuro? Antes de mais, convém dizer que, como é óbvio, não faço ideia. Ou melhor, faço pelo menos duas. O problema é que são contraditórias em termos do desfecho que podem gerar:
1. O primeiro cenário é aquele onde Cavaco Silva vem em perda de intenções válidas de voto não só porque os indecisos da área socialista se começam a decidir (e presumivelmente não por ele) mas também porque começa a perder votos de eleitores que antes tencionavam nele votar. Na primeira sondagem da tracking poll Marktest, divulgada dia 9, Cavaco recolhia o voto de 17% de eleitores socialistas. Na sondagem Marktest dos dias 11-14 de Janeiro, 15% dos socialistas tencionavam votar Cavaco. Na sondagem dos dias 15-18, essa percentagem é 9%. Um erosão comparável, se bem que muito menos significativa em termos absolutos, ocorre com os exóticos comunistas que, nas sondagens anteriores, tencionavam votar Cavaco. Agora, pelos vistos, não há nenhum. Cavaco necessitava destes votos - assim como daqueles que não são próximos de qualquer partido político - para a maioria absoluta. Agora, não é seguro que os tenha, seja porque se estão a desmobilizar à última hora seja porque decidiram "voltar ao redil" de um voto orientado pela identificação partidária e ideológica.
É certo que estas sondagens e o ambiente geral do comentário político vêm minimizando os riscos ligados a uma outra possibilidade que já discuti aqui, o de "abstenção por certeza de vitória", que afectaria de forma diferencial o eleitorado potencial de Cavaco Silva. Não me parece que isso continue a ser um factor de peso: certezas sobre o resultado já ninguém com dois dedos de testa consegue ter. Mas se Cavaco vem perdendo o eleitorado socialista e apartidário de que dispunha até agora - seja porque ele se assustou com a prometida vigilância às actividades do Governo, seja porque a identificação partidária e ideológica fala mais forte, seja ainda por desinteresse em torno de uma opção que, para eles, nunca terá sido particularmente entusiasmante e inequívoca - então a segunda volta está aí ao virar da esquina.
2. Há, contudo, pelo menos uma outra possibilidade. A de que, curiosamente, a abstenção diferencial afecte mais os candidatos de esquerda do que Cavaco, especialmente, diria, Alegre e Louçã. Sabemos que a abstenção declarada em sondagens é sempre inferior à abstenção real. E a verdade é que, em todas as sondagens cujos dados publicados permitem esta análise, o eleitorado de Cavaco foi-se sempre mostrando mais convicto da sua decisão de votar e da sua decisão de em quem votar. Na medida em que não haja uma desmobilização "táctica" por certeza de vitória - possibilidade que, como disse, me parece diminuída pelos eventos desta última semana - eles estão lá, seguros da sua decisão, prontos para ir votar.
E os outros, estão? É certo que há o famoso "povo de esquerda" que se foi escondendo das sondagens até agora, como Medeiros Ferreira sugeria desde o início. Tal como os últimos resultados mostram, tinha, num certo sentido, razão, como aliás lhe dei na altura:
Diria que é altamente presumível que, neste momento e para estas eleições concretas, muitos eleitores de "esquerda" não tenham ainda, pura e simplesmente, decidido o que vão fazer, em face da multiplicação de candidatos, dos sinais confusos e contraditórios emanados inicialmente pelo Partido Socialista, da insatisfação de algum eleitorado PS com a actuação do governo, etc. É possível, e provável, que muitos desses indecisos se venham a abster, mas certamente muitos deles irão também acabar por votar num dos candidatos de esquerda (não excluindo, claro, que alguns venham a votar em Cavaco Silva).
Esse "povo" apareceu finalmente, abandonando progressivamente a sua indecisão e declarando nas sondagens as suas intenções (se bem que talvez não no sentido que Medeiros Ferreira desejaria). Mas a pergunta que fica é esta: vão mesmo votar? Vão votar tanto como os agora declarados eleitores de Cavaco Silva? A abstenção, quem dela vem e quem para ela passa, é, como sempre, a chave dos resultados eleitorais, muito mais do que as transferências de voto deste para aquele partido ou candidato. Não é um acaso, portanto, que todos os candidatos apelem de forma dramática e quase desesperada à participação eleitoral. Da resposta diferencial a esses apelos depende o resultado de Domingo. A ver vamos.
A não ser que a sondagem Intercampus diga qualquer coisa de extraordinariamente surpreendente, só cá volto 2ª feira.
P.S.- Ontem na SIC, Rui Oliveira e Costa falava da especial dificuldade que estas eleições trazem para as sondagens à boca das urnas, devido ao facto de existir um candidato independente cujo peso presumível na amostra selecccionada não poder se apreciado à luz de resultados eleitorais passados. É por isso que as sondagens à boca das urnas são importantes e interessantes. Livres do problema das pré-eleitorais - a medição de intenções em vez de comportamentos - elas são o teste último aos procedimentos de amostragem adoptados por cada instituto, e são de facto a única altura em que a bondade desses procedimentos pode ser testada e melhorada em face de circunstâncias novas, como a candidatura de Alegre.
O que pode trazer o futuro? Antes de mais, convém dizer que, como é óbvio, não faço ideia. Ou melhor, faço pelo menos duas. O problema é que são contraditórias em termos do desfecho que podem gerar:
1. O primeiro cenário é aquele onde Cavaco Silva vem em perda de intenções válidas de voto não só porque os indecisos da área socialista se começam a decidir (e presumivelmente não por ele) mas também porque começa a perder votos de eleitores que antes tencionavam nele votar. Na primeira sondagem da tracking poll Marktest, divulgada dia 9, Cavaco recolhia o voto de 17% de eleitores socialistas. Na sondagem Marktest dos dias 11-14 de Janeiro, 15% dos socialistas tencionavam votar Cavaco. Na sondagem dos dias 15-18, essa percentagem é 9%. Um erosão comparável, se bem que muito menos significativa em termos absolutos, ocorre com os exóticos comunistas que, nas sondagens anteriores, tencionavam votar Cavaco. Agora, pelos vistos, não há nenhum. Cavaco necessitava destes votos - assim como daqueles que não são próximos de qualquer partido político - para a maioria absoluta. Agora, não é seguro que os tenha, seja porque se estão a desmobilizar à última hora seja porque decidiram "voltar ao redil" de um voto orientado pela identificação partidária e ideológica.
É certo que estas sondagens e o ambiente geral do comentário político vêm minimizando os riscos ligados a uma outra possibilidade que já discuti aqui, o de "abstenção por certeza de vitória", que afectaria de forma diferencial o eleitorado potencial de Cavaco Silva. Não me parece que isso continue a ser um factor de peso: certezas sobre o resultado já ninguém com dois dedos de testa consegue ter. Mas se Cavaco vem perdendo o eleitorado socialista e apartidário de que dispunha até agora - seja porque ele se assustou com a prometida vigilância às actividades do Governo, seja porque a identificação partidária e ideológica fala mais forte, seja ainda por desinteresse em torno de uma opção que, para eles, nunca terá sido particularmente entusiasmante e inequívoca - então a segunda volta está aí ao virar da esquina.
2. Há, contudo, pelo menos uma outra possibilidade. A de que, curiosamente, a abstenção diferencial afecte mais os candidatos de esquerda do que Cavaco, especialmente, diria, Alegre e Louçã. Sabemos que a abstenção declarada em sondagens é sempre inferior à abstenção real. E a verdade é que, em todas as sondagens cujos dados publicados permitem esta análise, o eleitorado de Cavaco foi-se sempre mostrando mais convicto da sua decisão de votar e da sua decisão de em quem votar. Na medida em que não haja uma desmobilização "táctica" por certeza de vitória - possibilidade que, como disse, me parece diminuída pelos eventos desta última semana - eles estão lá, seguros da sua decisão, prontos para ir votar.
E os outros, estão? É certo que há o famoso "povo de esquerda" que se foi escondendo das sondagens até agora, como Medeiros Ferreira sugeria desde o início. Tal como os últimos resultados mostram, tinha, num certo sentido, razão, como aliás lhe dei na altura:
Diria que é altamente presumível que, neste momento e para estas eleições concretas, muitos eleitores de "esquerda" não tenham ainda, pura e simplesmente, decidido o que vão fazer, em face da multiplicação de candidatos, dos sinais confusos e contraditórios emanados inicialmente pelo Partido Socialista, da insatisfação de algum eleitorado PS com a actuação do governo, etc. É possível, e provável, que muitos desses indecisos se venham a abster, mas certamente muitos deles irão também acabar por votar num dos candidatos de esquerda (não excluindo, claro, que alguns venham a votar em Cavaco Silva).
Esse "povo" apareceu finalmente, abandonando progressivamente a sua indecisão e declarando nas sondagens as suas intenções (se bem que talvez não no sentido que Medeiros Ferreira desejaria). Mas a pergunta que fica é esta: vão mesmo votar? Vão votar tanto como os agora declarados eleitores de Cavaco Silva? A abstenção, quem dela vem e quem para ela passa, é, como sempre, a chave dos resultados eleitorais, muito mais do que as transferências de voto deste para aquele partido ou candidato. Não é um acaso, portanto, que todos os candidatos apelem de forma dramática e quase desesperada à participação eleitoral. Da resposta diferencial a esses apelos depende o resultado de Domingo. A ver vamos.
A não ser que a sondagem Intercampus diga qualquer coisa de extraordinariamente surpreendente, só cá volto 2ª feira.
P.S.- Ontem na SIC, Rui Oliveira e Costa falava da especial dificuldade que estas eleições trazem para as sondagens à boca das urnas, devido ao facto de existir um candidato independente cujo peso presumível na amostra selecccionada não poder se apreciado à luz de resultados eleitorais passados. É por isso que as sondagens à boca das urnas são importantes e interessantes. Livres do problema das pré-eleitorais - a medição de intenções em vez de comportamentos - elas são o teste último aos procedimentos de amostragem adoptados por cada instituto, e são de facto a única altura em que a bondade desses procedimentos pode ser testada e melhorada em face de circunstâncias novas, como a candidatura de Alegre.
Tendência
Qual o caminho percorrido para chegarmos aos resultados conhecidos hoje? É duvidoso que as diferenças entre as sondagens feitas ao longo do tempo resultem exclusivamente de mudanças nas preferências nos eleitores. Várias das hipóteses avançadas nos posts anteriores para a "convergência" nos últimos dias são, aliás, contrárias a essa ideia, e o céptico que aqui escreveu juntou razões adicionais.
Contudo, suspendam por momentos a descrença. Como apreciar a plausibilidade a ideia de que as preferências dos eleitores mudaram ao longo da campanha e pré-campanha? Três maneiras, por ordem crescente de sofisticação:
1. Comparar sondagens entre si mantendo constante o instituto que as produziu. Se nos concentrarmos nos institutos com mais observações ao longo do tempo - Aximage e Marktest - rapidamente verificamos que em ambas:
- Cavaco mantém-se estável até pelo menos até à primeira semana de 2006, descendo a partir daí;
- Alegre desce até à primeira semana de 2006, começando a subir a partir daí;
- Soares sobe até fim de Dezembro/início de 2006, descendo de seguida e estabilizando no final.
2. Smoothing:





As tendências são confirmadas quando ajustamos uma regressão local aos dados: Cavaco oscilante, com tendência final de descida; Alegre a descer até ao princípio de Janeiro, crescendo no final; Soares sobe até final de Dezembro, iniciando depois declínio e com estabilização final; Jerónimo e Louçã com tendência de lenta mas consistente subida ao longo do tempo.
3. Controlar "house effects":
O problema das abordagens anteriores é o facto de estarem ainda, porventura, excessivamente dependentes de quem faz as sondagens. Notem: se partirmos do princípio de que existem "house effects" - um enviesamento sistemático resultante do facto de um determinado instituto fazer um conjunto estável de opções metodológicas - então não devemos ficar surpreendidos com o facto da abordagem 2. repetir as conclusões da abordagem 1.: afinal, a Aximage e a Marktest foram que mais com sondagens para o bolo total.
Uma maneira de tentar chegar a um resultado "livre" de house effects é a avançada por Erikson e Wlezien, num artigo intitulado "Presidential Polls as a Time Series", no volume 63 da Public Opinion Quarterly (1999). Os que não gostam de estatística saltam para o parágrafo seguinte. Se regredirmos os resultados das sondagens em relação a variáveis dicotómicas (com valores 0 e 1) representando os institutos de sondagens que as fizeram (todos menos um) e as datas das sondagens, os coeficientes associados às variáveis temporais vão, se a constante for excluída da equação, representar as estimativas para cada candidato "livres" de house effects (ou seja, mantendo esses efeitos constantes).
Devido ao escasso número de sondagens, tive de definir as variáveis temporais como representando períodos e não datas singulares. Os resultados da análise são os seguintes:

Não tem os valores concretos porque, para o que conta (e por razões técnicas que não vale a pena explicar aqui), esses valores não são muito importantes e variam de acordo com algumas opções que se tomem na análise. O que importa, e é indiferente a essas opções, é a tendência. E essa é clara: independentemente dos efeitos que cada instituto de sondagens impõe - pelas opções técnicas que metodológicas que toma - nos resultados, Cavaco desce na última semana, Alegre sobe na última semana, Soares desde a partir de Dezembro e Jerónimo e Louça sobem com ultra-lentidão.
Era o que toda a gente já sabia? Pois. Mas assim a incerteza diminui.
Contudo, suspendam por momentos a descrença. Como apreciar a plausibilidade a ideia de que as preferências dos eleitores mudaram ao longo da campanha e pré-campanha? Três maneiras, por ordem crescente de sofisticação:
1. Comparar sondagens entre si mantendo constante o instituto que as produziu. Se nos concentrarmos nos institutos com mais observações ao longo do tempo - Aximage e Marktest - rapidamente verificamos que em ambas:
- Cavaco mantém-se estável até pelo menos até à primeira semana de 2006, descendo a partir daí;
- Alegre desce até à primeira semana de 2006, começando a subir a partir daí;
- Soares sobe até fim de Dezembro/início de 2006, descendo de seguida e estabilizando no final.
2. Smoothing:





As tendências são confirmadas quando ajustamos uma regressão local aos dados: Cavaco oscilante, com tendência final de descida; Alegre a descer até ao princípio de Janeiro, crescendo no final; Soares sobe até final de Dezembro, iniciando depois declínio e com estabilização final; Jerónimo e Louçã com tendência de lenta mas consistente subida ao longo do tempo.
3. Controlar "house effects":
O problema das abordagens anteriores é o facto de estarem ainda, porventura, excessivamente dependentes de quem faz as sondagens. Notem: se partirmos do princípio de que existem "house effects" - um enviesamento sistemático resultante do facto de um determinado instituto fazer um conjunto estável de opções metodológicas - então não devemos ficar surpreendidos com o facto da abordagem 2. repetir as conclusões da abordagem 1.: afinal, a Aximage e a Marktest foram que mais com sondagens para o bolo total.
Uma maneira de tentar chegar a um resultado "livre" de house effects é a avançada por Erikson e Wlezien, num artigo intitulado "Presidential Polls as a Time Series", no volume 63 da Public Opinion Quarterly (1999). Os que não gostam de estatística saltam para o parágrafo seguinte. Se regredirmos os resultados das sondagens em relação a variáveis dicotómicas (com valores 0 e 1) representando os institutos de sondagens que as fizeram (todos menos um) e as datas das sondagens, os coeficientes associados às variáveis temporais vão, se a constante for excluída da equação, representar as estimativas para cada candidato "livres" de house effects (ou seja, mantendo esses efeitos constantes).
Devido ao escasso número de sondagens, tive de definir as variáveis temporais como representando períodos e não datas singulares. Os resultados da análise são os seguintes:

Não tem os valores concretos porque, para o que conta (e por razões técnicas que não vale a pena explicar aqui), esses valores não são muito importantes e variam de acordo com algumas opções que se tomem na análise. O que importa, e é indiferente a essas opções, é a tendência. E essa é clara: independentemente dos efeitos que cada instituto de sondagens impõe - pelas opções técnicas que metodológicas que toma - nos resultados, Cavaco desce na última semana, Alegre sobe na última semana, Soares desde a partir de Dezembro e Jerónimo e Louça sobem com ultra-lentidão.
Era o que toda a gente já sabia? Pois. Mas assim a incerteza diminui.
Convergência
Aqui há uns tempos, chamei a atenção neste blogue para duas coisas:
1. O facto de os resultados das sondagens até então parecerem ser afectados por algumas (poucas) mas aparentemente cruciais variações metodológicas.
2. E a hipótese de que as sondagens conduzidas mais perto das eleições acabassem por obter, por um lado, resultados substancialmente diferentes das precedentes, e por outro, mais convergentes entre si do que as anteriores.
Não é preciso grandes cálculos matemáticos para observar que a hipótese se confirmou, com excepção (no que respeita à dispersão) dos resultados de Manuel Alegre. O quadro seguinte, rudimentar mas suficiente, mostra a média e o desvio padrão associado aos resultados estimados para os diferentes candidatos em três períodos de realização do trabalho de campo:

Por que acontece este fenómeno? Várias hipóteses:
1. Mero acaso;
2. À medida que intenções de voto vão cristalizando e diminuindo o nº de indecisos sobre se irão votar e/ou em quem, as diferentes opções tomadas para os medir e redistribuir perdem impacto nos resultados;
3. À medida que nos aproximamos do dia das eleições, investimento em recursos por parte dos órgãos de comunicação social e dos institutos de sondagem aumenta;
Há ainda uma hipótese adicional, levantada aqui e aqui há uns meses a propósito das eleições no Reino Unido, que não pode ser completamente excluída.
Seja como for, há uma preocupação que é mitigada com estas últimas sondagens: temos de tudo. Telefónicas e presenciais. Escolha aleatória de inquiridos (Católica e Eurosondagem) e amostragem por quotas (Aximage e Marktest). Redistribuição proporcional de indecisos (Marktest, Eurosondagem), redistribuição por "inclinação de voto" (Católica) e redistribuição "mistério" (Aximage). Questionário sem (Marktest) e com (Católica) filtros para determinar prováveis abstencionistas. Os resultados convergem.
O facto de convergirem não quer dizer que estão a medir correctamente as intenções de voto no momento em que foram feitas (podem estar a ser afectadas por um enviesamento comum e indiferente às variações metodológicas) e muito menos que servem para prever seja o que for. Mas diminui a incerteza, o que já não é mau.
1. O facto de os resultados das sondagens até então parecerem ser afectados por algumas (poucas) mas aparentemente cruciais variações metodológicas.
2. E a hipótese de que as sondagens conduzidas mais perto das eleições acabassem por obter, por um lado, resultados substancialmente diferentes das precedentes, e por outro, mais convergentes entre si do que as anteriores.
Não é preciso grandes cálculos matemáticos para observar que a hipótese se confirmou, com excepção (no que respeita à dispersão) dos resultados de Manuel Alegre. O quadro seguinte, rudimentar mas suficiente, mostra a média e o desvio padrão associado aos resultados estimados para os diferentes candidatos em três períodos de realização do trabalho de campo:

Por que acontece este fenómeno? Várias hipóteses:
1. Mero acaso;
2. À medida que intenções de voto vão cristalizando e diminuindo o nº de indecisos sobre se irão votar e/ou em quem, as diferentes opções tomadas para os medir e redistribuir perdem impacto nos resultados;
3. À medida que nos aproximamos do dia das eleições, investimento em recursos por parte dos órgãos de comunicação social e dos institutos de sondagem aumenta;
Há ainda uma hipótese adicional, levantada aqui e aqui há uns meses a propósito das eleições no Reino Unido, que não pode ser completamente excluída.
Seja como for, há uma preocupação que é mitigada com estas últimas sondagens: temos de tudo. Telefónicas e presenciais. Escolha aleatória de inquiridos (Católica e Eurosondagem) e amostragem por quotas (Aximage e Marktest). Redistribuição proporcional de indecisos (Marktest, Eurosondagem), redistribuição por "inclinação de voto" (Católica) e redistribuição "mistério" (Aximage). Questionário sem (Marktest) e com (Católica) filtros para determinar prováveis abstencionistas. Os resultados convergem.
O facto de convergirem não quer dizer que estão a medir correctamente as intenções de voto no momento em que foram feitas (podem estar a ser afectadas por um enviesamento comum e indiferente às variações metodológicas) e muito menos que servem para prever seja o que for. Mas diminui a incerteza, o que já não é mau.
Os resultados
Algumas notas:
1. As sondagens estão colocadas por ordem crescente do último dia de trabalho de campo;
2. As últimas sondagens de cada instituto estão assinaladas no final, a azul.
3. A última sondagem Marktest tem um dia de trabalho de campo comum com a anterior que estava no quadro. Logo, retirei a anterior e deixei apenas a última.
4. A sondagem Aximage anterior foi também retirada do quadro e colocada apenas a divulgada hoje, já que as sondagens divulgadas nos últimos dias no CM resultam da acumulação de novos inquiridos à amostra inicial. Os pontos de interrogação dizem respeito aos elementos que a Aximage ou o Correio da Manhã decidiram não querer partilhar com os leitores, nomeadamente, os resultados brutos, para além do próprio método de redistribuição dos indecisos.
5. Deverá faltar aqui, pelo menos, a sondagem Intercampus para a TVI. Se existir - só deverá ser divulgada hoje à noite.
1. As sondagens estão colocadas por ordem crescente do último dia de trabalho de campo;
2. As últimas sondagens de cada instituto estão assinaladas no final, a azul.
3. A última sondagem Marktest tem um dia de trabalho de campo comum com a anterior que estava no quadro. Logo, retirei a anterior e deixei apenas a última.
4. A sondagem Aximage anterior foi também retirada do quadro e colocada apenas a divulgada hoje, já que as sondagens divulgadas nos últimos dias no CM resultam da acumulação de novos inquiridos à amostra inicial. Os pontos de interrogação dizem respeito aos elementos que a Aximage ou o Correio da Manhã decidiram não querer partilhar com os leitores, nomeadamente, os resultados brutos, para além do próprio método de redistribuição dos indecisos.
5. Deverá faltar aqui, pelo menos, a sondagem Intercampus para a TVI. Se existir - só deverá ser divulgada hoje à noite.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Últimas arrumações
Um amável e-mail de Alexandre Picoito, responsável da Pitagórica, ajuda-me a acabar de preencher o quadro das sondagens. Para não sobrecarregar o blogue, limito-me a substituir a imagem que estava aqui.
Alexandre Picoito esclarece também que o tratamento de abstenção a que se aludia no JN "resulta de várias questões incluídas no questionário e cujas respostas ponderadas entre si, identificam uma 'projecção provável' de abstencionistas que são retirados das análises de voto". É, de facto, uma prática comum a outras sondagens, especialmente em países de abstenção elevada (a que nós, em bom rigor, começamos a pertencer).
O curioso destas coisas gostaria de saber exactamente como se constrói esse modelo. Mas aqui, admito, a curiosidade tem limites. Por um lado, não é fácil a qualquer órgão de comunicação explicar exactamente todos os pormenores destas coisas. E por outro, mais importante, os responsáveis dos institutos de sondagens não são obrigados a fazê-lo, e podem, se assim o entenderem, encarar estes modelos como uma propriedade intelectual que não desejam partilhar.
Muito diferente é a questão da redistribuição dos indecisos: ao contrário do que alguns ainda parecem julgar, é a própria legislação que obriga a que, "sempre que seja efectuada a redistribuição dos indecisos" se faça na ficha técnica "a descrição das hipóteses em que a mesma se baseia". Aqui não pode haver "segredo industrial". Mas isso nada tem a ver com a sondagem da Pitagórica: o jornal nem publicou os resultados após redistribuição dos indecisos e que as hipóteses que a empresa faz na sua análise, cujos resultados coloco agora no quadro, são claras, simples e evidentes: redistribuição proporcional.
Alexandre Picoito esclarece também que o tratamento de abstenção a que se aludia no JN "resulta de várias questões incluídas no questionário e cujas respostas ponderadas entre si, identificam uma 'projecção provável' de abstencionistas que são retirados das análises de voto". É, de facto, uma prática comum a outras sondagens, especialmente em países de abstenção elevada (a que nós, em bom rigor, começamos a pertencer).
O curioso destas coisas gostaria de saber exactamente como se constrói esse modelo. Mas aqui, admito, a curiosidade tem limites. Por um lado, não é fácil a qualquer órgão de comunicação explicar exactamente todos os pormenores destas coisas. E por outro, mais importante, os responsáveis dos institutos de sondagens não são obrigados a fazê-lo, e podem, se assim o entenderem, encarar estes modelos como uma propriedade intelectual que não desejam partilhar.
Muito diferente é a questão da redistribuição dos indecisos: ao contrário do que alguns ainda parecem julgar, é a própria legislação que obriga a que, "sempre que seja efectuada a redistribuição dos indecisos" se faça na ficha técnica "a descrição das hipóteses em que a mesma se baseia". Aqui não pode haver "segredo industrial". Mas isso nada tem a ver com a sondagem da Pitagórica: o jornal nem publicou os resultados após redistribuição dos indecisos e que as hipóteses que a empresa faz na sua análise, cujos resultados coloco agora no quadro, são claras, simples e evidentes: redistribuição proporcional.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Aditamento
Com a ajuda dos responsáveis da Aximage, lá cheguei (compreensão lenta) aos resultados após redistribuição por indecisos. Já estão corrigidos abaixo. Mantenho tudo o resto que lá está escrito.
Carta da Aximage, correcção e resposta minhas
Este blogue recebeu hoje um e-mail de João Queiroz, responsável da Aximage. Nele reproduz-se um e-mail que, segundo o autor, me foi enviado dia 14 de Setembro, e que não recebi. Diz-se nele o seguinte:
Boa tarde,
Como responsável da Aximage gostaria de clarificar que:
1. Fazemos os questionários de acordo com a nossa percepção da actualidade.Ou seja, estudamos com humildade exaustiva os fenómenos que nos rodeiam, sem andarmos a ler (ou ouvir “recados”) “aqui” ou “ali”; 2. Nem tudo o que é perguntado é publicado. Por razões para mim óbvias do ponto de vista da investigação e da actualidade editorial.O leitor também sabe que essa era uma última pergunta, efectuada fora docontexto lógico das que permitiram publicar os resultados;
3 - As leituras feitas às nossas sondagens só vinculam quem faz as leituras,não as sondagens. Por motivos deontológicos também não comentamos a validade da forma como,noutras, estão formuladas as questões que conduzem à "passagem" da 1ª para a 2ª volta.
Melhores cumprimentos.
Suponho que se refere a este post.
Mas há uma mensagem data de hoje, que exige mais atenção (sublinhados meus):
E.mo Senhor,
Verifico que não deve ter recebido o meu mail de 14 de Setembro, sobre matéria em que a Aximage era citada. Encontrá-lo-á abaixo. Quanto aos comentários de hoje e ao tratamento dos nossos resultados tenho a dizer-lhe que considero cientificamente criticável, para dizer o mínimo, a distribuição que faz dos indecisos em trabalhos que não conduz/supervisiona. Contudo, atendendo ao carácter do media em que publica as suas conclusões, vamos "vivendo" com isso. Já me custa a aceitar, porque revela falta de seriedade intelectual, que o faça quando os responsáveis do trabalho, utilizando métodos que não o da simples máquina de calcular, publicaram esse dado. Que não dá, como é óbvio, 8%!
Cumprimentos,
João Queiroz
Aximage
Ora bem. Em parte, culpa minha. Numa sondagem anterior, já tinha sucedido que a Aximage tinha feito uma redistribuição de indecisos que não correspondia à distribuição proporcional pelas opções válidas. Parece-me perfeitamente legítimo que se tomem, para esse efeito - caso se queira fazer essa operação de redistribuição - as opções que se quiser. E foi por isso mesmo que, no quadro que aqui publico, segui os dados fornecidos pela Aximage. Basta ver o que se passou neste post. Logo, desta vez, o erro foi meu: não vi que, no corpo do texto da notícia do Correio da Manhã, são dados os resultados que decorrem das opções da Aximage de redistribuição de indecisos. São agora apresentados, com as minhas desculpas pelo lapso.

A questão com que fico, e creio com que alguns dos leitores do Correio da Manhã ficam, é esta: como, então, redistribui a Aximage os indecisos? Se não é com a "simples máquina da calcular", então como é? Teremos nós, os leitores do Correio da Manhã de hoje, o direito de saber? E terei eu algum impedimento deontológico que me impeça de fazer a pergunta?
E há um último aspecto para resolver: por que razão neste blogue se apresentam quer os resultados brutos quer os resultados após redistribuição de indecisos (da forma como os próprios institutos os redistribuem ou, na ausência dessa redistribuição, de forma proporcional pelos candidatos)? As razões são as seguintes:
1. Porque os diferentes resultados brutos dados pelas diferentes empresas não são comparáveis entre si, por razões já explicadas várias vezes neste blogue, por exemplo aqui.
2. Porque é a boa prática internacional, sancionada e confirmada dezenas de vezes em muitos estudos académicos, tais como este ou este, e sancionada em estudos da American Association for Public Opinion Research, como este.
3. Porque se assim não se fizer, se gera ainda maior confusão entre a opinião pública do que necessário, como sucedeu neste caso.
4. Porque essa confusão pode ser manipulada por responsáveis de institutos de sondagens com o objectivo de validarem injustificadamente o seu próprio trabalho, comparando, por exemplo, os resultados brutos (ou seja, ainda com indecisos ou abstencionistas) das suas sondagens com resultados eleitorais finais. Se querem um exemplo deste tipo de actuação, podem ir à Hemeroteca ler um artigo publicado na Visão, em 21 de Dezembro de 2001, intitulado "Não Matem o Mensageiro". As ironias do destino a que se sujeitam os que não têm memória...
Boa tarde,
Como responsável da Aximage gostaria de clarificar que:
1. Fazemos os questionários de acordo com a nossa percepção da actualidade.Ou seja, estudamos com humildade exaustiva os fenómenos que nos rodeiam, sem andarmos a ler (ou ouvir “recados”) “aqui” ou “ali”; 2. Nem tudo o que é perguntado é publicado. Por razões para mim óbvias do ponto de vista da investigação e da actualidade editorial.O leitor também sabe que essa era uma última pergunta, efectuada fora docontexto lógico das que permitiram publicar os resultados;
3 - As leituras feitas às nossas sondagens só vinculam quem faz as leituras,não as sondagens. Por motivos deontológicos também não comentamos a validade da forma como,noutras, estão formuladas as questões que conduzem à "passagem" da 1ª para a 2ª volta.
Melhores cumprimentos.
Suponho que se refere a este post.
Mas há uma mensagem data de hoje, que exige mais atenção (sublinhados meus):
E.mo Senhor,
Verifico que não deve ter recebido o meu mail de 14 de Setembro, sobre matéria em que a Aximage era citada. Encontrá-lo-á abaixo. Quanto aos comentários de hoje e ao tratamento dos nossos resultados tenho a dizer-lhe que considero cientificamente criticável, para dizer o mínimo, a distribuição que faz dos indecisos em trabalhos que não conduz/supervisiona. Contudo, atendendo ao carácter do media em que publica as suas conclusões, vamos "vivendo" com isso. Já me custa a aceitar, porque revela falta de seriedade intelectual, que o faça quando os responsáveis do trabalho, utilizando métodos que não o da simples máquina de calcular, publicaram esse dado. Que não dá, como é óbvio, 8%!
Cumprimentos,
João Queiroz
Aximage
Ora bem. Em parte, culpa minha. Numa sondagem anterior, já tinha sucedido que a Aximage tinha feito uma redistribuição de indecisos que não correspondia à distribuição proporcional pelas opções válidas. Parece-me perfeitamente legítimo que se tomem, para esse efeito - caso se queira fazer essa operação de redistribuição - as opções que se quiser. E foi por isso mesmo que, no quadro que aqui publico, segui os dados fornecidos pela Aximage. Basta ver o que se passou neste post. Logo, desta vez, o erro foi meu: não vi que, no corpo do texto da notícia do Correio da Manhã, são dados os resultados que decorrem das opções da Aximage de redistribuição de indecisos. São agora apresentados, com as minhas desculpas pelo lapso.

A questão com que fico, e creio com que alguns dos leitores do Correio da Manhã ficam, é esta: como, então, redistribui a Aximage os indecisos? Se não é com a "simples máquina da calcular", então como é? Teremos nós, os leitores do Correio da Manhã de hoje, o direito de saber? E terei eu algum impedimento deontológico que me impeça de fazer a pergunta?
E há um último aspecto para resolver: por que razão neste blogue se apresentam quer os resultados brutos quer os resultados após redistribuição de indecisos (da forma como os próprios institutos os redistribuem ou, na ausência dessa redistribuição, de forma proporcional pelos candidatos)? As razões são as seguintes:
1. Porque os diferentes resultados brutos dados pelas diferentes empresas não são comparáveis entre si, por razões já explicadas várias vezes neste blogue, por exemplo aqui.
2. Porque é a boa prática internacional, sancionada e confirmada dezenas de vezes em muitos estudos académicos, tais como este ou este, e sancionada em estudos da American Association for Public Opinion Research, como este.
3. Porque se assim não se fizer, se gera ainda maior confusão entre a opinião pública do que necessário, como sucedeu neste caso.
4. Porque essa confusão pode ser manipulada por responsáveis de institutos de sondagens com o objectivo de validarem injustificadamente o seu próprio trabalho, comparando, por exemplo, os resultados brutos (ou seja, ainda com indecisos ou abstencionistas) das suas sondagens com resultados eleitorais finais. Se querem um exemplo deste tipo de actuação, podem ir à Hemeroteca ler um artigo publicado na Visão, em 21 de Dezembro de 2001, intitulado "Não Matem o Mensageiro". As ironias do destino a que se sujeitam os que não têm memória...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
