Já que estamos nisto, e via pollster.com, cheguei a um texto de Jack Rosenthal, publicado no New York Times. Tudo isto já foi escrito e repetido mil vezes, mas vale sempre a pena repetir. Transcrevo algumas passagens:
Precisely False vs. Approximately Right: A Reader’s Guide to Polls
By JACK ROSENTHAL
Published: August 27, 2006
"False Precision
Beware of decimal places. When a polling story presents data down to tenths of a percentage point, what the pollster almost always demonstrates is not precision but pretension."
"Sampling Error
For a typical election sample of 1,000, the error rate is plus or minus three percentage points for each candidate, meaning that a 50-50 race could actually differ by 53 to 47. But the three-point figure applies only to the entire sample. How many of those are likely voters? In the recent Connecticut primary, 40 percent of eligible Democrats voted. Even if a poll identified the likely voters perfectly, there still would be just 400 of them, and the error rate for that number would be plus or minus five points. This caution applies forcefully to conclusions about other subgroups. What could a typical survey tell about, say, college-age women? Out of a random sample of 1,000, a little more than half would be women and only about 70 would be of college age. That’s too small a subsample to support any but the most general findings."
"Questions
How questions are phrased can mean wide shifts, even with wholly neutral words. Men respond poorly, for instance, to questions asking if they are “worried” about something, so careful pollsters will ask if they are “concerned.” (...) The order of questions is another source of potential error. That’s illustrated by questions asked by the Pew Research Center. Andrew Kohut, its president, says: 'If you first ask people what they think about gay marriage, they are opposed. They vent. And if you then ask what they think about civil unions, a majority support that.'"
"Answers
People never wish to look uninformed and will often answer questions despite ignorance of the subject. (...) Respondents also want to appear to be good citizens. When the Times/CBS News Poll asks voters if they voted in the 2004 presidential election, 73 percent say yes. Shortly after the election, however, the Census Bureau reported that only 64 percent of the eligible voters actually voted. Jon Krosnick, an authority on polling and politics at Stanford, uses the term “satisficing” to describe behavior when a pollster calls. If people find the subject compelling, they become engaged. If not, they answer impatiently. Either way, says Kathy Frankovich, director of surveys for CBS News, 'people grab the first thing that comes to mind.'"
"Intensity
How strongly people feel about an issue may be the most important source of poll misunderstanding. In survey after survey, half the respondents favor stronger gun controls — but don’t care nearly as much as the 10 percent who want them relaxed."
"Public opinion is not precise, and in any case it is constantly churning. Measuring it cannot hope to be precise. What readers can hope for, whether in an individual poll, a consensus from several polls or from the polling profession generally, is the truth — approximately right."
segunda-feira, setembro 04, 2006
Blumenthal + Franklin
Os dois blogues que me servem de referência para o que significa informar sobre e analisar sondagens - o Mystery Pollster e o Political Arithmetik - conduzidos por Mark Blumenthal e Charles Franklin, decidiram juntar forças aqui: pollster.com. O Political Arithmetik continua - ainda bem - a ter existência própria. A não perder, especialmente tendo em conta a aproximação das "midterm elections" no Estados Unidos.
quinta-feira, agosto 31, 2006
Ciência Política no Brasil
Através deste site, cheguei ao site da Associação Brasileira de Ciência Política, um lugar de visita indispensável a quem se interessa a sério pela política no Brasil. Especialmente interessante é a lista de papers apresentados no último encontro (o 5º; nós por cá na APCP ainda só tivemos três), que foi em Belo Horizonte. O site não é particularmente amigável, mas se clicarem em "Programação" e forem às sessões temáticas lá encontrarão os papers.
Vale muito a pena ler vários, entre os quais este (.pdf), de Yan de Souza Carreirão, sobre os efeitos do Mensalão nas preferências, atitudes políticas e intenções de voto dos brasileiros. Principais conclusões (ainda preliminares, note-se):
1. "Começando pelas preferências partidárias: foram afetadas pelo "mensalão", mas de forma não muito intensa, embora aparentemente mais duradoura, já que o PT, mesmo tendo se recuperado um pouco em relação ao período mais crítico, parece ter perdido algo em torno de 5% das preferências em âmbito nacional, comparando com o período "pré-mensalão". Nenhum partido conseguiu crescer significativamente com o declínio do PT; o efeito principal do "mensalão", parece ter sido o do aumento do descrédito dos eleitores nos partidos e nos políticos, em geral."
2. "Contrariamente ao que ocorreu nas três últimas eleições presidenciais, mas, de forma semelhante ao que ocorreu em 1989, as clivagens socioeconômicas (de renda, escolaridade e região do país) têm se mostrado relevantes para diferenciar os eleitores, segundo a avaliação que fazem do governo e segundo suas intenções de voto. São os mais pobres, menos educados e das regiões mais pobres que avaliam melhor o governo e votam mais em Lula."
3. "A avaliação moral tem um impacto relevante: isso fica claro com o declínio da aprovação ao governo, da preferência pelo PT e das intenções de voto em Lula, durante o auge da crise do "mensalão", bem como as variações nestas variáveis, segundo as opiniões dos eleitores sobre corrupção. Mas, a avaliação dos resultados das políticas econômica e social do governo também mostra sua força ao longo de todo o período. A manutenção da estabilidade econômica, com taxas de crescimento econômico um pouco maiores do que as ocorridas no governo anterior; o aumento do emprego com carteira assinada; um maior crescimento do poder de compra do salário mínimo; a ampliação da abrangência e do volume de recursos destinados aos programas sociais do governo que implicam em transferência de renda (especialmente o Bolsa Família), tudo isso parece ter neutralizado, em grande parte, os efeitos negativos das denúncias do "mensalão" e resultado numa avaliação mais positiva do governo Lula, comparado ao governo FHC, especialmente nos segmentos mais pobres e mais beneficiados pelo aumento do salário mínimo e pelos programas sociais."
E uma pergunta muito interessante:
"Central para ponderar a influência de cada um destes fatores é a interpretação sobre as causas da recuperação da avaliação do governo e das intenções de voto no presidente Lula, ao longo do presente ano. É possível pensar que essa recuperação se deva em parte a uma avaliação "final" (até o momento) de que o presidente Lula não estava envolvido nos fatos revelados pelas acusações. Outra possibilidade é a de que essa recuperação seja fruto de uma percepção mais "cínica": o que importaria seria a avaliação sobre os benefícios trazidos pelas políticas governamentais, independente da moralidade das suas ações. O fato de serem especialmente os mais pobres, menos escolarizados e da região Nordeste que avaliam melhor o governo e têm maiores intenções de voto no presidente, coloca como questão crucial a relação de causalidade: estes segmentos sustentam o presidente por terem menos informações e, portanto, por não conseguirem avaliar "corretamente" a gravidade das acusações e o grau de envolvimento do presidente, ou por se sentirem beneficiários dos resultados das políticas governamentais ?"
A história do próximo dia 1 de Outubro já começou a ser escrita. À atenção daqueles que se interessam por estas coisas.
Vale muito a pena ler vários, entre os quais este (.pdf), de Yan de Souza Carreirão, sobre os efeitos do Mensalão nas preferências, atitudes políticas e intenções de voto dos brasileiros. Principais conclusões (ainda preliminares, note-se):
1. "Começando pelas preferências partidárias: foram afetadas pelo "mensalão", mas de forma não muito intensa, embora aparentemente mais duradoura, já que o PT, mesmo tendo se recuperado um pouco em relação ao período mais crítico, parece ter perdido algo em torno de 5% das preferências em âmbito nacional, comparando com o período "pré-mensalão". Nenhum partido conseguiu crescer significativamente com o declínio do PT; o efeito principal do "mensalão", parece ter sido o do aumento do descrédito dos eleitores nos partidos e nos políticos, em geral."
2. "Contrariamente ao que ocorreu nas três últimas eleições presidenciais, mas, de forma semelhante ao que ocorreu em 1989, as clivagens socioeconômicas (de renda, escolaridade e região do país) têm se mostrado relevantes para diferenciar os eleitores, segundo a avaliação que fazem do governo e segundo suas intenções de voto. São os mais pobres, menos educados e das regiões mais pobres que avaliam melhor o governo e votam mais em Lula."
3. "A avaliação moral tem um impacto relevante: isso fica claro com o declínio da aprovação ao governo, da preferência pelo PT e das intenções de voto em Lula, durante o auge da crise do "mensalão", bem como as variações nestas variáveis, segundo as opiniões dos eleitores sobre corrupção. Mas, a avaliação dos resultados das políticas econômica e social do governo também mostra sua força ao longo de todo o período. A manutenção da estabilidade econômica, com taxas de crescimento econômico um pouco maiores do que as ocorridas no governo anterior; o aumento do emprego com carteira assinada; um maior crescimento do poder de compra do salário mínimo; a ampliação da abrangência e do volume de recursos destinados aos programas sociais do governo que implicam em transferência de renda (especialmente o Bolsa Família), tudo isso parece ter neutralizado, em grande parte, os efeitos negativos das denúncias do "mensalão" e resultado numa avaliação mais positiva do governo Lula, comparado ao governo FHC, especialmente nos segmentos mais pobres e mais beneficiados pelo aumento do salário mínimo e pelos programas sociais."
E uma pergunta muito interessante:
"Central para ponderar a influência de cada um destes fatores é a interpretação sobre as causas da recuperação da avaliação do governo e das intenções de voto no presidente Lula, ao longo do presente ano. É possível pensar que essa recuperação se deva em parte a uma avaliação "final" (até o momento) de que o presidente Lula não estava envolvido nos fatos revelados pelas acusações. Outra possibilidade é a de que essa recuperação seja fruto de uma percepção mais "cínica": o que importaria seria a avaliação sobre os benefícios trazidos pelas políticas governamentais, independente da moralidade das suas ações. O fato de serem especialmente os mais pobres, menos escolarizados e da região Nordeste que avaliam melhor o governo e têm maiores intenções de voto no presidente, coloca como questão crucial a relação de causalidade: estes segmentos sustentam o presidente por terem menos informações e, portanto, por não conseguirem avaliar "corretamente" a gravidade das acusações e o grau de envolvimento do presidente, ou por se sentirem beneficiários dos resultados das políticas governamentais ?"
A história do próximo dia 1 de Outubro já começou a ser escrita. À atenção daqueles que se interessam por estas coisas.
quarta-feira, agosto 30, 2006
Vietname/Iraque
Um artigo interessante que explica por que razão o paralelismo entre a situação no Iraque e no Vietname tem limites, sugerindo que os desafios enfrentados no primeiro caso são muito menos complexos que no segundo. A contrapor com outro, também recente, igualmente apontando as diferenças entre os dois contextos, mais analítico e ligeiramente menos optimista.
Só lhes falta explicar por que razão essa diferença objectiva (a favor, apesar de tudo, das perspectivas no Iraque) tem como contraponto uma opinião pública que ficou muito mais pessimista muito mais depressa e com muito menos baixas. Mudança de valores sociais? Papel da comunicação social? Polarização de opiniões sobre presidência Bush? Rápida deslegitimação da intervenção por revelação do logro das WMD's?
Só lhes falta explicar por que razão essa diferença objectiva (a favor, apesar de tudo, das perspectivas no Iraque) tem como contraponto uma opinião pública que ficou muito mais pessimista muito mais depressa e com muito menos baixas. Mudança de valores sociais? Papel da comunicação social? Polarização de opiniões sobre presidência Bush? Rápida deslegitimação da intervenção por revelação do logro das WMD's?

Eleições Brasil (longo)
Nova rodada de pesquisas eleitorais no Brasil: Sensus, IBOPE e Datafolha. Começo por dizer que, quando olhamos para as intenções válidas de voto (eliminando e redistribuindo proporcionalmente as percentagens de indecisos, votos e branco e não respostas), todas apontam para uma muito ligeira subida de Lula. De 61 para 62% na Sensus; de 56 para 57% na Datafolha; e (num mais curto espaço de tempo), de 57 para 59% no IBOPE. A subida nem mereceria menção se não tivesse ocorrido nas três sondagens, o que diminui a probabilidade de ser fruto de mero erro amostral.

O gráfico seguinte mostra a evolução dos resultados para Lula, ajustando aos pontos obtidos uma curva de regressão local. É visível, quando tomamos em conta toda a informação disponível, que a descida de Lula em meados de Julho aqui assinalada parece ter sido mero acidente de percurso.

É evidente que a evolução mostrada no quadro anterior está muito dependente do número de sondagens feitas por cada instituto e o momento em que a fizeram. Logo, podemos estimar uma intenção de voto "mensal" para cada candidato que seja independente dos "house effects" trazidos para os resultados por cada instituto (ver aqui como se faz):

Por outras palavras, independentemente do instituto que realizou a pesquisa, a melhor estimativa para as intenções de voto em Lula nas pesquisas realizadas em Agosto é de 56,1%, uma subida em relação a Julho. Alckmin desce e Helena sobe, apesar de, em relação a esta última, os dados de mais curto prazo (as últimas sondagens de Agosto) sugerem que as coisas estão menos bem que no início do mês de Agosto.
Falta um mês. O que pode mudar? Começo por assinalar aquilo que alguns portugueses já sabem: os institutos brasileiros têm excelente reputação internacional, apesar de serem ajudados, no que diz respeito à relação entre as estimativas que dão e os resultados eleitorais, pelo voto obrigatório.
Noto também um único elemento de incerteza em relação aos resultados dados até agora: o único instituto (IBPS) que utilizou uma metodologia de amostragem e de inquirição diferente dos restantes (selecção aleatória de inquiridos e telefónica) deu resultados significativamente mais baixos para Lula do que os restantes. Tudo o resto - excepto o IBOPE no início de Junho - são sondagens muito próximas umas das outras. Não sei se há algum brasileiro a ler isto que nos possa ajudar, mas eu gostava de saber se, no passado, o desempenho das sondagens pareceu ser afectado por opções sobre amostragem e inquirição. O meu palpite é que telefónicas no Brasil hão-de comportar grandes problemas de exclusão das camadas mais pobres da população - domicílios sem telefone - e daí piores resultados para Lula e, potencialmente, mais longe dos valores reais da população. Mas é só um palpite.
O que parece, tendo em conta os baixos números de indecisos, é que a coisa está quase feita: Lula tem tudo para ganhar no 1º turno. Contudo, eleições presidenciais em países com sistemas de partidos com baixíssimos níveis de institucionalização ajudam a criar um eleitorado muito volátil, muito sensível a factores de curto prazo. Pelo que convém ir vendo o que as próximas sondagens vão dizer.

O gráfico seguinte mostra a evolução dos resultados para Lula, ajustando aos pontos obtidos uma curva de regressão local. É visível, quando tomamos em conta toda a informação disponível, que a descida de Lula em meados de Julho aqui assinalada parece ter sido mero acidente de percurso.

É evidente que a evolução mostrada no quadro anterior está muito dependente do número de sondagens feitas por cada instituto e o momento em que a fizeram. Logo, podemos estimar uma intenção de voto "mensal" para cada candidato que seja independente dos "house effects" trazidos para os resultados por cada instituto (ver aqui como se faz):

Por outras palavras, independentemente do instituto que realizou a pesquisa, a melhor estimativa para as intenções de voto em Lula nas pesquisas realizadas em Agosto é de 56,1%, uma subida em relação a Julho. Alckmin desce e Helena sobe, apesar de, em relação a esta última, os dados de mais curto prazo (as últimas sondagens de Agosto) sugerem que as coisas estão menos bem que no início do mês de Agosto.
Falta um mês. O que pode mudar? Começo por assinalar aquilo que alguns portugueses já sabem: os institutos brasileiros têm excelente reputação internacional, apesar de serem ajudados, no que diz respeito à relação entre as estimativas que dão e os resultados eleitorais, pelo voto obrigatório.
Noto também um único elemento de incerteza em relação aos resultados dados até agora: o único instituto (IBPS) que utilizou uma metodologia de amostragem e de inquirição diferente dos restantes (selecção aleatória de inquiridos e telefónica) deu resultados significativamente mais baixos para Lula do que os restantes. Tudo o resto - excepto o IBOPE no início de Junho - são sondagens muito próximas umas das outras. Não sei se há algum brasileiro a ler isto que nos possa ajudar, mas eu gostava de saber se, no passado, o desempenho das sondagens pareceu ser afectado por opções sobre amostragem e inquirição. O meu palpite é que telefónicas no Brasil hão-de comportar grandes problemas de exclusão das camadas mais pobres da população - domicílios sem telefone - e daí piores resultados para Lula e, potencialmente, mais longe dos valores reais da população. Mas é só um palpite.
O que parece, tendo em conta os baixos números de indecisos, é que a coisa está quase feita: Lula tem tudo para ganhar no 1º turno. Contudo, eleições presidenciais em países com sistemas de partidos com baixíssimos níveis de institucionalização ajudam a criar um eleitorado muito volátil, muito sensível a factores de curto prazo. Pelo que convém ir vendo o que as próximas sondagens vão dizer.
terça-feira, agosto 29, 2006
A opinião pública libanesa
Seria bom se tivéssemos uma maneira de apreciar o efeito da guerra no Médio Oriente na opinião pública libanesa em relação ao Hezbollah. Mas não é nada fácil. O exemplo junto mostra como a simples escolha de opções de resposta a uma mesma pergunta em duas sondagens diferentes pode inviabilizar uma comparação segura.
Em Abril de 2004, como já referi aqui, 79% dos Xiitas estavam contra o desarmamento do Hezbollah em quaisquer circunstâncias, enquanto que, entre os restantes grupos religiosos, aqueles que defendiam esse desarmamento eram, mesmo assim, minoritários. A divisão para o total da população era:
Do you agree or disagree with the following statement?"Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%
O que temos agora (14-17 Agosto)?
"The poll by IPSOS for the French-language daily L'Orient-Le Jour found 51 percent of respondents supported the group's disarmament, with 49 percent against, a difference within the survey's margin of error."
O apoio ao desarmamento aumentou ou diminuiu? Depende. Pode ter aumentado de 24% para 51% ou diminuido de 55% para 51%, dependendo da forma como agregamos os resultados do primeiro inquérito e daquilo que nele significa "concordância" com o desarmamento.
Fica contudo a sensação de que, pelo menos, houve algo que aumentou: a polarização de opiniões entre grupos religiosos.
"Among the Shiite community -- Lebanon's largest and the support base for Hizbullah -- the poll found 84 percent of respondents wanted the group to keep its weapons.But among the Druze and Christian communities, 79 percent and 77 percent respectively wanted the group to surrender its arsenal.Among the Sunni community, the poll found a slender majority of 54 percent in favor of the group disarming."
Disto isto, com estas incertezas todas, o anterior resultado torna ainda mais curioso o recente artigo no Jerusalem Post do nosso já conhecido amigo Edward Luttwak. Aqui há uns tempos, num artigo reproduzido no Público que mencionei aqui, Luttwak defendia que o verdadeiro objectivo de Israel no conflito era, aumentando os custos da tolerância em relação do Hezbollah, deslegitimá-lo enquanto partido político aos olhos da população libanesa. Hoje, Luttwak acha que "the outcome of the war is likely to be more satisfactory than many now seem to believe". Porque o Hezbollah foi deslegitimado enquanto partido político? Não.
"Nasrallah has a political constituency, and it happens to be centered in southern Lebanon. Implicitly accepting responsibility for having started the war, Nasrallah has directed his Hizbullah to focus on rapid reconstruction in villages and towns, right up to the Israeli border. He cannot start another round of fighting that would quickly destroy everything again. Yet another unexpected result of the war is that Nasrallah's power-base in southern Lebanon is more than ever a hostage for Hizbullah's good behavior."
Afinal, a guerra produziu efeitos positivos porque o Hezbollah sobreviveu como partido político e por isso está condicionado pelos interesses das suas bases. Sucede que essas bases, como acabámos de ver, estão tão ou mais encarniçadamente contra o desarmamento do que estavam no passado.
Isto de um tipo ter de falar todos os dias sobre a mesma coisa (e de já saber a mensagem que quer transmitir antes de meter os factos na equação) é no que dá.
Em Abril de 2004, como já referi aqui, 79% dos Xiitas estavam contra o desarmamento do Hezbollah em quaisquer circunstâncias, enquanto que, entre os restantes grupos religiosos, aqueles que defendiam esse desarmamento eram, mesmo assim, minoritários. A divisão para o total da população era:
Do you agree or disagree with the following statement?"Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%
O que temos agora (14-17 Agosto)?
"The poll by IPSOS for the French-language daily L'Orient-Le Jour found 51 percent of respondents supported the group's disarmament, with 49 percent against, a difference within the survey's margin of error."
O apoio ao desarmamento aumentou ou diminuiu? Depende. Pode ter aumentado de 24% para 51% ou diminuido de 55% para 51%, dependendo da forma como agregamos os resultados do primeiro inquérito e daquilo que nele significa "concordância" com o desarmamento.
Fica contudo a sensação de que, pelo menos, houve algo que aumentou: a polarização de opiniões entre grupos religiosos.
"Among the Shiite community -- Lebanon's largest and the support base for Hizbullah -- the poll found 84 percent of respondents wanted the group to keep its weapons.But among the Druze and Christian communities, 79 percent and 77 percent respectively wanted the group to surrender its arsenal.Among the Sunni community, the poll found a slender majority of 54 percent in favor of the group disarming."
Disto isto, com estas incertezas todas, o anterior resultado torna ainda mais curioso o recente artigo no Jerusalem Post do nosso já conhecido amigo Edward Luttwak. Aqui há uns tempos, num artigo reproduzido no Público que mencionei aqui, Luttwak defendia que o verdadeiro objectivo de Israel no conflito era, aumentando os custos da tolerância em relação do Hezbollah, deslegitimá-lo enquanto partido político aos olhos da população libanesa. Hoje, Luttwak acha que "the outcome of the war is likely to be more satisfactory than many now seem to believe". Porque o Hezbollah foi deslegitimado enquanto partido político? Não.
"Nasrallah has a political constituency, and it happens to be centered in southern Lebanon. Implicitly accepting responsibility for having started the war, Nasrallah has directed his Hizbullah to focus on rapid reconstruction in villages and towns, right up to the Israeli border. He cannot start another round of fighting that would quickly destroy everything again. Yet another unexpected result of the war is that Nasrallah's power-base in southern Lebanon is more than ever a hostage for Hizbullah's good behavior."
Afinal, a guerra produziu efeitos positivos porque o Hezbollah sobreviveu como partido político e por isso está condicionado pelos interesses das suas bases. Sucede que essas bases, como acabámos de ver, estão tão ou mais encarniçadamente contra o desarmamento do que estavam no passado.
Isto de um tipo ter de falar todos os dias sobre a mesma coisa (e de já saber a mensagem que quer transmitir antes de meter os factos na equação) é no que dá.
sexta-feira, agosto 25, 2006
Líderes
Segue-se a minha melhor estimativa da evolução real dos níveis de popularidade de Sócrates, Cavaco e Mendes, com Sampaio introduzido para servir de ponto de comparação. Há duas empresas a fazerem sondagens regulares, pelo menos uma vez por mês cada. Cada uma delas pergunta aos inquiridos se têm uma opinião positiva ou negativa da actuação dos vários líderes políticos. Mas como a pergunta tem formulações ligeiramente diferentes e, ao que me parece, diferentes opções de resposta (para já não falar de metodologias de amostragem e inquirição diferentes), o que faço é o seguinte:
1. Elaboro um índice de popularidade, calculado da seguinte forma: (2* "% de opiniões favoráveis" + "% de indiferentes")/2. Resulta daqui um valor que oscila entre 0 e 100, com 0 a significar 100% de opiniões negativas, 100 a significar 100% de opiniões positivas, e 50 a significar que há tantas positivas como negativas.
2. Usando dummies para a Eurosondagem e a Marktest e para cada um dos meses onde foram conduzidos inquéritos, corro uma regressão em que a variável dependente é o índice de popularidade para cada líder político e excluindo a constante da equação. Aquilo que obtenho para cada mês é a estimativa do índice de popularidade limpo de "house effects". Tudo isto funcionaria muito melhor se houvesse mais sondagens e mais institutos, mas é o que se pode fazer.

Nas próximas semanas deverão aparecer as sondagens realizadas em Agosto e logo se verá se isso traz novidades especiais. Mas entretanto, é impossível não notar:
1. A estagnação de Marques Mendes a níveis perto do "fifty/fifty" (tantas opiniões positivas como negativas);
2. A subida de Sócrates, lenta mas imperturbável, desde que ultrapassadas as confusões das autárquicas. Não é muito frequente ver um padrão deste género. A curva "clássica" do ciclo de popularidade é um ligeiro aumento logo após as eleições, seguida de uma descida até a meio do mandato, seguida de uma subida até ao final. Mas o que este conseguiu foi perder gás nos primeiros oito meses (se bem que de forma muito menos abrupta do que tinha sucedido com Durão Barroso em 2002) para de seguida começar logo a subir. Macacos me mordam se o apoio de Sócrates a Cavaco nas presidenciais (não erro muito se colocar a coisa nesses termos, pois não?) não tem qualquer coisa a ver com isto...
3. Cavaco sobe ainda mais depressa e já ultrapassou os valores que Sampaio exibia, por exemplo, em Outubro. Sobre isto, há um artigo (para subscritores) de Constança Cunha e Sá no Público, onde a única coisa que não percebo é por que razão a autora parece julgar que a coisa poderia ser diferente.
1. Elaboro um índice de popularidade, calculado da seguinte forma: (2* "% de opiniões favoráveis" + "% de indiferentes")/2. Resulta daqui um valor que oscila entre 0 e 100, com 0 a significar 100% de opiniões negativas, 100 a significar 100% de opiniões positivas, e 50 a significar que há tantas positivas como negativas.
2. Usando dummies para a Eurosondagem e a Marktest e para cada um dos meses onde foram conduzidos inquéritos, corro uma regressão em que a variável dependente é o índice de popularidade para cada líder político e excluindo a constante da equação. Aquilo que obtenho para cada mês é a estimativa do índice de popularidade limpo de "house effects". Tudo isto funcionaria muito melhor se houvesse mais sondagens e mais institutos, mas é o que se pode fazer.

Nas próximas semanas deverão aparecer as sondagens realizadas em Agosto e logo se verá se isso traz novidades especiais. Mas entretanto, é impossível não notar:
1. A estagnação de Marques Mendes a níveis perto do "fifty/fifty" (tantas opiniões positivas como negativas);
2. A subida de Sócrates, lenta mas imperturbável, desde que ultrapassadas as confusões das autárquicas. Não é muito frequente ver um padrão deste género. A curva "clássica" do ciclo de popularidade é um ligeiro aumento logo após as eleições, seguida de uma descida até a meio do mandato, seguida de uma subida até ao final. Mas o que este conseguiu foi perder gás nos primeiros oito meses (se bem que de forma muito menos abrupta do que tinha sucedido com Durão Barroso em 2002) para de seguida começar logo a subir. Macacos me mordam se o apoio de Sócrates a Cavaco nas presidenciais (não erro muito se colocar a coisa nesses termos, pois não?) não tem qualquer coisa a ver com isto...
3. Cavaco sobe ainda mais depressa e já ultrapassou os valores que Sampaio exibia, por exemplo, em Outubro. Sobre isto, há um artigo (para subscritores) de Constança Cunha e Sá no Público, onde a única coisa que não percebo é por que razão a autora parece julgar que a coisa poderia ser diferente.
terça-feira, agosto 22, 2006
Brasil
Failing to be smart
De volta.
Uma semana depois do cessar-fogo no Líbano, os israelitas não estão felizes. 70% acham que Israel não devia ter acedido ao cessar-fogo sem o regresso dos soldados raptados. 66% acham ou que nem Israel nem o Hezbollah ganharam a guerra ou mesmo que foi o Hezbollah o vencedor. 67% querem ver Hassan Nasrallah morto, mesmo que isso implique o recomeço da guerra. 63% gostavam de ver um ataque "preventivo" de Israel contra instalações nucleares no Irão. Aqui, aqui e aqui.
No Líbano, o apoio ao Hezbollah aumentou, pelo menos a julgar por sondagens realizadas durante o conflito. 87% apoiavam a reacção do Hezbollah à "agressão israelita". O apoio era maioritário em todos os grupos religiosos, incluindo Drusos e Cristãos. Aqui. Isto mesmo tendo em conta que, na mesma sondagem, a maioria dos Drusos se manifestou contra o rapto de soldados israelitas. No Egipto, o apoio ao Hamas também subiu exponencialmente. Aqui.
Na Palestina, há cada vez menos palestinianos a desejarem um acordo de paz com Israel. Eram 76% em Junho. São 51% agora. Aqui. 97% apoiam o Hezbollah contra Israel. A confiança em Ismael Hanieh, do Hamas, já ultrapassou a confiança em Mahmoud Abbas. Aqui (.pdf).
"Sadly, the struggle over soft power did not have to turn out this way. (...) Israel had to use force in response to Hezbollah's attack to reestablish the credibility of its deterrence, but it misjudged the scale and duration of its hard-power response. (...) And with dead Lebanese children continually displayed on television day after day, public outrage was bound to limit the leeway of moderate Arab leaders and enhance Hezbollah's narrative. (...) By failing to be smart about how we combine our hard and soft power in the struggle against jihadist terrorism, we fall into the trap set by Al Qaeda's Osama bin Laden and Hezbollah's Hassan Nasrallah, who want to cast the conflict as a clash of civilizations." (Joseph Nye, aqui, via Bloguítica).
Uma semana depois do cessar-fogo no Líbano, os israelitas não estão felizes. 70% acham que Israel não devia ter acedido ao cessar-fogo sem o regresso dos soldados raptados. 66% acham ou que nem Israel nem o Hezbollah ganharam a guerra ou mesmo que foi o Hezbollah o vencedor. 67% querem ver Hassan Nasrallah morto, mesmo que isso implique o recomeço da guerra. 63% gostavam de ver um ataque "preventivo" de Israel contra instalações nucleares no Irão. Aqui, aqui e aqui.
No Líbano, o apoio ao Hezbollah aumentou, pelo menos a julgar por sondagens realizadas durante o conflito. 87% apoiavam a reacção do Hezbollah à "agressão israelita". O apoio era maioritário em todos os grupos religiosos, incluindo Drusos e Cristãos. Aqui. Isto mesmo tendo em conta que, na mesma sondagem, a maioria dos Drusos se manifestou contra o rapto de soldados israelitas. No Egipto, o apoio ao Hamas também subiu exponencialmente. Aqui.
Na Palestina, há cada vez menos palestinianos a desejarem um acordo de paz com Israel. Eram 76% em Junho. São 51% agora. Aqui. 97% apoiam o Hezbollah contra Israel. A confiança em Ismael Hanieh, do Hamas, já ultrapassou a confiança em Mahmoud Abbas. Aqui (.pdf).
"Sadly, the struggle over soft power did not have to turn out this way. (...) Israel had to use force in response to Hezbollah's attack to reestablish the credibility of its deterrence, but it misjudged the scale and duration of its hard-power response. (...) And with dead Lebanese children continually displayed on television day after day, public outrage was bound to limit the leeway of moderate Arab leaders and enhance Hezbollah's narrative. (...) By failing to be smart about how we combine our hard and soft power in the struggle against jihadist terrorism, we fall into the trap set by Al Qaeda's Osama bin Laden and Hezbollah's Hassan Nasrallah, who want to cast the conflict as a clash of civilizations." (Joseph Nye, aqui, via Bloguítica).
sexta-feira, julho 21, 2006
Brasil: temos eleição

As duas sondagens mais recentes confirmam a tendência de descida de Lula. Essa descida faz-se não por diminuição do número de pessoas que nele tencionam votar, mas sim por:
1. Diminuição do número de indecisos e a concomitante...
2. Subida das intenções de voto em Alckmin a partir de Junho, assim como a ...
3. Subida das intenções de voto em Heloísa Helena desde o início de Julho.
A partir de hoje entro em serviços mínimos até meados de Agosto. Quem se interesse pela política brasileira não perde nada em ir, por exemplo, aqui (aproveitando também a lista de ligações a cientistas políticos que estudam o Brasil), aqui ou aqui.
Os americanos e a guerra no Médio Oriente
Survey USA, 16 de Julho, N=1200, Telefónica
Should the United States military get involved? Or should the United States military stay out of it?
Get involved: 12%
Stay out of it: 84%
Not sure: 4%
Should United States diplomats attempt to negotiate a ceasefire between Israel and its neighbours? Or should the United States stay out of it?
Stay out of it: 52%
Attempt to negotiate a ceasefire: 44%
Not sure: 4%
Does Israel have the right to attack Lebanon?
Yes:54%
No: 34%
Not sure: 12%
About the Middle East. Is the kidnapping of Israeli soldiers an act of war against Israel? Or not?
Yes: 60%
No: 25%
Not sure: 15%
Opinion Research Corporation, 19 Julho, N=633, Telefónica
Do you think Israel's military reaction to the situation in the Middle East has gone too far, not gone far enough, or been about right?
Too Far: 31%
Not Far Enough: 14%
About Right: 35%
Unsure: 20%
Which of the following statements comes closer to your view of what Israel should do? Israel should continue taking military action until Hezbollah can no longer launch attacks against Israel. OR, Israel should agree to a cease-fire as soon as possible.
Continue: 39%
Cease-fire: 43%
Unsure: 17%
Tendências maioritárias: apoio a Israel e ao direito de retaliar, resposta tende a ser mais vista como adequada ou até insuficiente, divisão sobre cessar-fogo ou continuação de ataques, desejo de não envolvimento americano (especialmente militar).
Should the United States military get involved? Or should the United States military stay out of it?
Get involved: 12%
Stay out of it: 84%
Not sure: 4%
Should United States diplomats attempt to negotiate a ceasefire between Israel and its neighbours? Or should the United States stay out of it?
Stay out of it: 52%
Attempt to negotiate a ceasefire: 44%
Not sure: 4%
Does Israel have the right to attack Lebanon?
Yes:54%
No: 34%
Not sure: 12%
About the Middle East. Is the kidnapping of Israeli soldiers an act of war against Israel? Or not?
Yes: 60%
No: 25%
Not sure: 15%
Opinion Research Corporation, 19 Julho, N=633, Telefónica
Do you think Israel's military reaction to the situation in the Middle East has gone too far, not gone far enough, or been about right?
Too Far: 31%
Not Far Enough: 14%
About Right: 35%
Unsure: 20%
Which of the following statements comes closer to your view of what Israel should do? Israel should continue taking military action until Hezbollah can no longer launch attacks against Israel. OR, Israel should agree to a cease-fire as soon as possible.
Continue: 39%
Cease-fire: 43%
Unsure: 17%
Tendências maioritárias: apoio a Israel e ao direito de retaliar, resposta tende a ser mais vista como adequada ou até insuficiente, divisão sobre cessar-fogo ou continuação de ataques, desejo de não envolvimento americano (especialmente militar).
quinta-feira, julho 20, 2006
O BE e os seus militantes
Este artigo de Ruben de Carvalho (via Abrupto) é muito divertido.
Para a próxima vez, sugiro que se use uma metodologia menos conspícua mas ainda simples (daí chamar-se "regra de três simples"). Por exemplo:
BE/Portalegre: 3216 votos; 61 militantes.
BE/Lisboa: 103944 votos; logo, 103944*61/3216 militantes, ou seja, 1972 militantes.
Assim, a coisa ficava menos óbvia, ao passo que os matematicamente inclinados não deixariam de apreciar uma proporcionalidade esteticamente atraente entre votos e militantes em todos os distritos. Mais: se se fizer a coisa no Excel, pode actualizar-se automaticamente a base de dados de militantes com a mera introdução de novos resultados eleitorais em cada distrito, solução simples para um problema que vem afectando outros partidos. E na medida em que tudo nesta equação passa a depender de Portalegre, talvez valesse a pena um esforço maior de mobilização nesse distrito, de forma a automaticamente aumentar o número de militantes em todos o país. Vão por mim que é só vantagens.
Haverá, fora de brincadeiras, uma explicação plausível para o sucedido? Difícil imaginar.
Para a próxima vez, sugiro que se use uma metodologia menos conspícua mas ainda simples (daí chamar-se "regra de três simples"). Por exemplo:
BE/Portalegre: 3216 votos; 61 militantes.
BE/Lisboa: 103944 votos; logo, 103944*61/3216 militantes, ou seja, 1972 militantes.
Assim, a coisa ficava menos óbvia, ao passo que os matematicamente inclinados não deixariam de apreciar uma proporcionalidade esteticamente atraente entre votos e militantes em todos os distritos. Mais: se se fizer a coisa no Excel, pode actualizar-se automaticamente a base de dados de militantes com a mera introdução de novos resultados eleitorais em cada distrito, solução simples para um problema que vem afectando outros partidos. E na medida em que tudo nesta equação passa a depender de Portalegre, talvez valesse a pena um esforço maior de mobilização nesse distrito, de forma a automaticamente aumentar o número de militantes em todos o país. Vão por mim que é só vantagens.
Haverá, fora de brincadeiras, uma explicação plausível para o sucedido? Difícil imaginar.
quarta-feira, julho 19, 2006
Hezbollah e opinião pública libanesa
Não sei onde Edward Luttwak foi buscar a ideia, expressa hoje em artigo no Público (aqui, para subscritores) de que o desarmamento do Hezbollah era visto como condição para a sua aceitação pelos libaneses. Pelo menos, o que sabe da opinião pública libanesa lança sérias dúvidas sobre o diagnóstico. Em Abril de 2004, foi feita a seguinte sondagem no Líbano:
Zogby International, N=600, 2ª semana de Abril de 2004
Do you agree or disagree with the following statement? - "Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%
Decompondo os resultados por filiação religiosa, nem entre os Maronitas havia uma maioria a favor do desarmamento incondicional, enquanto que, entre os Xiitas, 79% eram contra esse desarmamento em quaisquer circunstâncias. Na mesma sondagem, questionados sobre se estavam ou não de acordo que os Estados Unidos colocassem maior pressão sobre a Síria para o desarmamento do Hezbollah, 61% eram contra (e só entre os Maronitas havia uma maioria a favor).
As perspectivas noutros países não são especialmente diferentes. Na Jordânia, numa sondagem bem mais recente (23 de Junho passado, Centre for Strategic Studies at the University of Jordan), 63% classificavam o Hezbollah como uma "organização de resistência legítima" (e não como uma organização terrorista).
É possível que "o objectivo político de Israel" seja "destruir a posição do Hezbollah enquanto partido político legítimo do Líbano". E é muito possível que os líderes árabes vejam o Hezebollah como um "irritante" ou mesmo um "inimigo mais perigoso que Israel", como também se diz numa notícia do Público. Mas o sentimento das populações não condiz nem com o putativo objectivo de Israel nem com as alegadas posições das lideranças políticas árabes, o que, em última análise, vai condicionar quer o sucesso do primeiro quer a manutenção das segundas. Esse sentimento, aquilo que o produz e o ressentimento brutal quer contra Israel quer contra os Estados Unidos, não deviam - pela milionésima vez - ser sub-estimados na análise da questão.
Zogby International, N=600, 2ª semana de Abril de 2004
Do you agree or disagree with the following statement? - "Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%
Decompondo os resultados por filiação religiosa, nem entre os Maronitas havia uma maioria a favor do desarmamento incondicional, enquanto que, entre os Xiitas, 79% eram contra esse desarmamento em quaisquer circunstâncias. Na mesma sondagem, questionados sobre se estavam ou não de acordo que os Estados Unidos colocassem maior pressão sobre a Síria para o desarmamento do Hezbollah, 61% eram contra (e só entre os Maronitas havia uma maioria a favor).
As perspectivas noutros países não são especialmente diferentes. Na Jordânia, numa sondagem bem mais recente (23 de Junho passado, Centre for Strategic Studies at the University of Jordan), 63% classificavam o Hezbollah como uma "organização de resistência legítima" (e não como uma organização terrorista).
É possível que "o objectivo político de Israel" seja "destruir a posição do Hezbollah enquanto partido político legítimo do Líbano". E é muito possível que os líderes árabes vejam o Hezebollah como um "irritante" ou mesmo um "inimigo mais perigoso que Israel", como também se diz numa notícia do Público. Mas o sentimento das populações não condiz nem com o putativo objectivo de Israel nem com as alegadas posições das lideranças políticas árabes, o que, em última análise, vai condicionar quer o sucesso do primeiro quer a manutenção das segundas. Esse sentimento, aquilo que o produz e o ressentimento brutal quer contra Israel quer contra os Estados Unidos, não deviam - pela milionésima vez - ser sub-estimados na análise da questão.
terça-feira, julho 18, 2006
Mais sondagens Médio Oriente
Uma mensagem convida-me a adoptar uma definição mais lata do "conflito" e a incluir sondagens anteriores aos ataques do Hezbollah, incluindo também o período que se seguiu ao rapto de Gilad Shalit e os ataques de Israel em Gaza. O que encontro é isto:
* 53 percent of Israelis polled said the country should hold negotiations to secure his [Gilad Shalit] release, while 43 percent backed a military operation;
*58 percent of those polled would back a prisoner release if it was clear militants would otherwise kill the soldier, while 35 percent opposed it.
E já agora, aprovação da actuação de Olmert (são sondagens de institutos diferentes e formulações da pergunta ligeiramente distintas, mas as diferenças são tão grandes que certamente não se devem a isso):
* 7 Junho: 35%;
* 5 de Julho: 43%.
* 17 de Julho: 78%.
Logo:
1. Na Palestina, apoio forte ao rapto de Shalit e aos ataques a Israel;
2. Em Israel, fica a ideia que as atitudes mudaram substancialmente quando o Hezbollah e o Líbano entraram na equação;
3. Se a ideia era testar Olmert e se a ideia de Olmert é dar uma imagem de força neste teste, então a coisa não lhe está a correr mal para já. Resta saber as consequências a médio e longo prazo disto tudo...
Na Palestina [Jerusalem Media Communications Center, 21-22 Junho, N=1197, face-a-face, aleatória (aqui, .pdf)]
* 77.2% expressed its support for the military operation that included the abduction of the Israeli soldier Gilad Shalit while only 21.7% said they opposed it;
* 66.8% supported the continuation of such operations that aim at the abduction of Israeli soldiers as a suitable response within the current political conditions compared with 30.7% who reject them and find them harmful to the Palestinian national interests;
* 60.4% supported the continuation of firing rockets against Israeli targets as a suitable response within the current political conditions whereas only 36% said they reject them and find them harmful to the Palestinian national interests;
Em Israel (30 Junho, sondagem publicada no Yedioth Ahronoth, não tenho elementos metodológicos):
* 53 percent of Israelis polled said the country should hold negotiations to secure his [Gilad Shalit] release, while 43 percent backed a military operation;
*58 percent of those polled would back a prisoner release if it was clear militants would otherwise kill the soldier, while 35 percent opposed it.
E já agora, aprovação da actuação de Olmert (são sondagens de institutos diferentes e formulações da pergunta ligeiramente distintas, mas as diferenças são tão grandes que certamente não se devem a isso):
* 7 Junho: 35%;
* 5 de Julho: 43%.
* 17 de Julho: 78%.
Logo:
1. Na Palestina, apoio forte ao rapto de Shalit e aos ataques a Israel;
2. Em Israel, fica a ideia que as atitudes mudaram substancialmente quando o Hezbollah e o Líbano entraram na equação;
3. Se a ideia era testar Olmert e se a ideia de Olmert é dar uma imagem de força neste teste, então a coisa não lhe está a correr mal para já. Resta saber as consequências a médio e longo prazo disto tudo...
Israel, Líbano, Hezbollah: sondagem
A primeira sondagem feita em Israel desde o início do conflito foi feita pelo Dahaf Institute e os resultados aparecem publicados no Yedioth Ahronoth.
Dahaf Institute, N=513, Telefónica, 17 Julho:
"Fighting should continue until Hizbullah is completely eradicated": 58%
"Fighting should go on only until Hizbullah pulls back from the border": 23%
"We should stop fighting and start negotiating": 17%
"Military operation is justified": 86%
"Military action is a mistake": 14%
Performance of Israeli military forces:
"Very good": 62%
"Fairly good": 25%
"Fairly bad": 5%
"Very bad": 4%
O apoio à acção militar e ao desempenho das IDF é ainda mais elevado entre a população que vive no norte de Israel.
Vou tentar acompanhar a publicação doutras sondagens quer em Israel quer noutros países, mas para já julgo poder dizer com segurança que esta é a única publicada até agora sobre o tema.
Dahaf Institute, N=513, Telefónica, 17 Julho:
"Fighting should continue until Hizbullah is completely eradicated": 58%
"Fighting should go on only until Hizbullah pulls back from the border": 23%
"We should stop fighting and start negotiating": 17%
"Military operation is justified": 86%
"Military action is a mistake": 14%
Performance of Israeli military forces:
"Very good": 62%
"Fairly good": 25%
"Fairly bad": 5%
"Very bad": 4%
O apoio à acção militar e ao desempenho das IDF é ainda mais elevado entre a população que vive no norte de Israel.
Vou tentar acompanhar a publicação doutras sondagens quer em Israel quer noutros países, mas para já julgo poder dizer com segurança que esta é a única publicada até agora sobre o tema.
terça-feira, julho 11, 2006
Cá está
Presidenciais Brasil
Enquanto estive fora saíram duas sondagens: Vox Populi e Datafolha (hoje, ao que parece, há resultados da Sensus). Os resultados são intrigantes: depois dos dados IBOPE, que colocavam Lula com resultados estratosféricos no âmbito da "crise" do PMDB, agora Lula volta a descer e Alckmin a subir. Particularmente interessantes são os quadros da Datafolha, que mostram que os eleitores do PMDB estão, na sua maioria, indecisos, mas que os decididos se dividem agora, quase equitativamente, entre Lula e Alckmin. Deverá estar aqui a chave da subida de Alckmin. Afinal, as coisas estão mais abertas para uma segunda volta do que se pensava.
segunda-feira, julho 10, 2006
Popularidade líderes políticos Portugal
Depois de uns dias sem posts, regresso com a análise habitual dos barómetros da Marktest e da Eurosondagem. O primeiro gráfico mostra a evolução dos índices de popularidade de José Sócrates, Marques Mendes, Cavaco Silva e (como ponto de comparação com o anterior) Jorge Sampaio de Março de 2005 a 23 de Junho de 2006 (último dia de trabalho de campo do último barómetro Marktest). A forma como o índice é calculado já foi explicada em posts anteriores, mas recordo que pode oscilar entre 0 (100% de opiniões negativas) e 100 (100% de opiniões positivas).

Como podem verificar, segundo a Marktest:
1. Cavaco continua a subir, aproximando-se dos valores de Sampaio no final do mandato;
2. Estabilidade para Sócrates e Mendes, com o primeiro a manter a vantagem que conquistou ao segundo a partir do fim de 2005. Último barómetro dá ligeira descida do primeiro e subida do segundo, mas é cedo para tirar conclusões. Estas flutuações já ocorreram em meses anteriores, tendo sido de seguida corrigidas, parecendo ser mais fruto de erro aleatório do que outra coisa qualquer. Veremos se o mesmo sucede no próximo mês (se bem que a realização deste tipo de inquéritos durante o Verão comporta os mais variados problemas, a começar pela qualidade das amostras).
O gráfico seguinte mostra a mesma análise para a Eurosondagem, desde Abril de 2005 a 4 de Julho de 2006 (último dia de trabalho de campo da última sondagem). Há semelhanças e diferenças em relação à Marktest. Semelhanças em relação a Cavaco, cuja subida constante desde a tomada de posse se confirma (apesar de total estabilidade de Junho para Julho). Diferenças no que respeita a Sócrates, que obtém resultados mais lisonjeiros aqui na Eurosondagem, nunca tendo estado a par com Marques Mendes e mostrando tendência de subida.

Politicamente, contudo, tudo igual: Cavaco ganhou rapidamente "pátina" presidencial; Sócrates mantém imagem mais positiva que negativa; líder da oposição ainda longe do PM. Tanto trabalho para tão poucas novidades...

Como podem verificar, segundo a Marktest:
1. Cavaco continua a subir, aproximando-se dos valores de Sampaio no final do mandato;
2. Estabilidade para Sócrates e Mendes, com o primeiro a manter a vantagem que conquistou ao segundo a partir do fim de 2005. Último barómetro dá ligeira descida do primeiro e subida do segundo, mas é cedo para tirar conclusões. Estas flutuações já ocorreram em meses anteriores, tendo sido de seguida corrigidas, parecendo ser mais fruto de erro aleatório do que outra coisa qualquer. Veremos se o mesmo sucede no próximo mês (se bem que a realização deste tipo de inquéritos durante o Verão comporta os mais variados problemas, a começar pela qualidade das amostras).
O gráfico seguinte mostra a mesma análise para a Eurosondagem, desde Abril de 2005 a 4 de Julho de 2006 (último dia de trabalho de campo da última sondagem). Há semelhanças e diferenças em relação à Marktest. Semelhanças em relação a Cavaco, cuja subida constante desde a tomada de posse se confirma (apesar de total estabilidade de Junho para Julho). Diferenças no que respeita a Sócrates, que obtém resultados mais lisonjeiros aqui na Eurosondagem, nunca tendo estado a par com Marques Mendes e mostrando tendência de subida.

Politicamente, contudo, tudo igual: Cavaco ganhou rapidamente "pátina" presidencial; Sócrates mantém imagem mais positiva que negativa; líder da oposição ainda longe do PM. Tanto trabalho para tão poucas novidades...
quarta-feira, junho 14, 2006
Brasil: PMDB sem candidato
Ao longo dos últimos meses, tenho afixado aqui os resultados das sondagens de intenção de voto realizadas no Brasil após a confirmação da candidatura de Alckmin. Contudo, havia ainda algo por decidir: se o PMDB teria candidato. Confirma-se agora que não terá candidato, preferindo o partido repartir os despojos da previsível vitória de Lula.
Logo, revisitei as sondagens anteriores de modo a apresentar os resultados das respostas à pergunta sobre intenção de voto onde o cenário oferecido aos eleitores era aquele sem um candidato do PMDB. Nem todas ofereciam esse cenário, pelo que nem todos os resultados apresentados são comparáveis entre si. O que são comparáveis entre si estão assinalados a negrito.

Já toda a gente disse e repetiu que a ausência de um candidato para o PMDB - especialmente a ausência de Garotinho - iria favorecer Lula e aumentar a probabilidade de uma vitória à ª1 volta. Mas talvez valha agora a pena assinalar é que as intenções de voto em Lula estão a aumentar independentemente da presença ou ausência de um candidato do PMDB, especialmente porque a subida de Lula está associada a uma descida de Alckmin mesmo nos cenários de ausência de candidato PMDB (se excluirmos a sondagem IBPS de 3 de Maio, um claro outlier).
Logo, revisitei as sondagens anteriores de modo a apresentar os resultados das respostas à pergunta sobre intenção de voto onde o cenário oferecido aos eleitores era aquele sem um candidato do PMDB. Nem todas ofereciam esse cenário, pelo que nem todos os resultados apresentados são comparáveis entre si. O que são comparáveis entre si estão assinalados a negrito.

Já toda a gente disse e repetiu que a ausência de um candidato para o PMDB - especialmente a ausência de Garotinho - iria favorecer Lula e aumentar a probabilidade de uma vitória à ª1 volta. Mas talvez valha agora a pena assinalar é que as intenções de voto em Lula estão a aumentar independentemente da presença ou ausência de um candidato do PMDB, especialmente porque a subida de Lula está associada a uma descida de Alckmin mesmo nos cenários de ausência de candidato PMDB (se excluirmos a sondagem IBPS de 3 de Maio, um claro outlier).
segunda-feira, junho 12, 2006
Popularidade II
Para facilitar a leitura, fica a evolução dos índices de popularidade nos dois barómetros (Marktest e Eurosondagem):
Marktest

Eurosondagem

Como vêem, tudo muito parecido, a não ser com Sócrates. A Marktest parece ser mais sensível a mudanças do que a Eurosondagem; a Marktest sugere que Sócrates está a descer desde Março, enquanto a Eurosondagem lhe dá sinais de recuperação recente.
Marktest

Eurosondagem

Como vêem, tudo muito parecido, a não ser com Sócrates. A Marktest parece ser mais sensível a mudanças do que a Eurosondagem; a Marktest sugere que Sócrates está a descer desde Março, enquanto a Eurosondagem lhe dá sinais de recuperação recente.
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