segunda-feira, maio 22, 2006

A jornalista e o "especialista": estudo de caso

Na semana passada fui contactado telefonicamente por uma jornalista do Expresso, que me pediu um depoimento sobre o livro de Manuel Maria Carrilho e as questões por ele levantadas. Comecei por lhe dizer que não li o livro e que nada sei sobre o mundo das agências de informação, mas retorquiu-me que queria falar comigo para discutir a questão do efeito real da comunicação social no comportamento de voto. Acedi.

Disse-lhe, mais uma vez, que não tinha lido o livro. Que em Portugal não havia, que eu soubesse, muita investigação sobre o efeito das mensagens dos media nos resultados eleitorais. Mas que havia muita investigação noutros países, e o que se sabia, em geral, era o seguinte:

1. Que o facto de alguém ser exposto a mensagens negativas sobre um candidato ou partido não tem necessariamente um grande efeito sobre o seu comportamento. Que os indivíduos não são uma "folha em branco". Eles partem para a campanha com as suas próprias predisposições políticas, que os fazem interpretar essas mensagens de uma forma congruente com essas predisposições. Dei um exemplo extremo: o facto de um simpatizante do Partido Comunista ser exposto a muitas mensagens negativas sobre o partido não implica que deixe de votar nele. Pelo contrário: pode mesmo interpretar essas mensagens como sendo enviesadas e, assim reforçar as suas predisposições. Que, deste ponto de vista, não conhecia estudos que indicassem que o factor decisivo numa vitória ou derrota eleitoral tenha sido a comunicação social.

2. Que, no caso Carrilho, parece ter sucedido algo muito semelhante ao caso Santana Lopes: a cobertura do candidato foi quase universalmente negativa, o que sugere que, em vez de uma "conspiração" por parte de um conjunto concreto de órgãos de comunicação, o problema estaria no candidato, na sua actuação e na desadequação do seu perfil em relação àquilo que os media definem como o perfil "aceitável" de um candidato.

3. Contudo, apesar do que disse no ponto 1, sabe-se que os media podem ter efeitos mais insidiosos no comportamento eleitoral, ao carregaram a agenda política de temas que desfavorecem ou favorecem o ângulo através do qual um candidato pode ser avaliado, mesmo sem transmitirem mensagens explícitas a favor ou contra ele. Dei o exemplo simples do que implica para o sucesso eleitoral de um Presidente ou Primeiro-Ministro que, sob condições económicas negativas, a agenda dos media esteja carregada de notícias sobre o estado da economia. Não há propriamente uma mensagem explícita contra esse líder político, mas há a construção de um critério de avaliação. Não falei em "agenda-setting", "framing" ou "priming", para não complicar.

4. Que, a olho, me parecia que os jornais portugueses eram muito vulneráveis à influência de seja quem for que lhes coloque nas mãos informação "preparada". Que, por inexperiência, incompetência ou excesso de trabalho, os jornalistas tendem frequentemente a assumir uma atitude passiva em relação aos "pacotes" de informação que as agências e os assessores lhes fazem chegar (na altura, não sabia que "cerca de 70% das notícias publicadas nos jornais portugueses têm como origem as agências de informação ou os gabinetes de Imprensa", mas estou tudo menos surpreendido).

A jornalista pediu-me autorização para usar dados deste blogue para procurar uma relação entre a cobertura jornalística da campanha autárquica em Lisboa e os resultados de sondagens. Dei-lha, sugerindo também que consultasse o site da Marktest, pedindo-lhe apenas que referisse as fontes.

Qual foi o resultado destes dez minutos de conversa? Este parágrafo:

Pedro Magalhães, do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, refuta de forma categórica as teses de Carrilho e alerta para os efeitos contraproducentes das campanhas negativas: «Se eu for apoiante do Partido Comunista e se recebo da Comunicação Social apenas críticas ao meu partido, começo a achar que elas são enviezadas e posso até reforçar as minhas crenças».

Não interpretem este post como uma crítica à jornalista. Como é óbvio, ela tinha de fazer uma selecção daquilo que eu disse e integrar essa selecção de forma coerente em toda a notícia ( tenho apenas duas críticas: os resultados das sondagens foram apresentados no Expresso sem menção da fonte de onde foram coligidos; "enviesadas" escreve-se com "s", e não com "z").

Mas este pequeno e irrelevante caso levanta várias questões interessantes. Já tinham pensado como, de cada vez que lêem "depoimentos" nos jornais, eles resultam de uma criteriosa selecção por parte do jornalista daquilo que foi dito? E quais os critérios de selecção e apresentação? Por que razão terá a jornalista optado por escrever que o autor do depoimento "refuta de forma categórica das teses de Carrilho", quando esse autor lhe disse que não conhece em pormenor as ditas teses e quando o conjunto do seu depoimento não parece constituir exactamente uma "refutação categórica" delas (ver pontos 3. e 4.).

E o caso faz também com que me coloque a mim próprio outras questões. Há um ano, Pacheco Pereira escreveu um texto onde defendia que as opiniões daqueles que estudam temas políticos não eram diferentes "de opiniões políticas, de cidadãos, no espaço público" sem outra "legitimidade acrescida enquanto opiniões de natureza política":

"O resultado ou são truísmos (a transposição de um resultado académico ipsis verbis para uma afirmação de carácter político raras vezes resulta noutra coisa) ou são puras opiniões políticas, a que o estatuto académico dá uma aura de isenção e intangibilidade que confunde o debate público."

Na altura critiquei-o, defendendo que o debate político poderia "eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas 'opiniões políticas' são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso."

Contudo, este caso faz-me pensar se ele não terá razão. Que contribuição específica ou adicional ao debate político pode dar um "especialista" quando aquilo que ele diz é "ensalsichado" pela máquina de produção de notícias e depois, ainda por cima, se vende a salsicha como proveniente de região especial demarcada, legitimando uma mensagem que, da forma como é apresentada, acaba por fazer parte de um determinado argumentário político (mesmo que não partilhado pela fonte)?

Esta foi a parte do pensamento sobre o tema. A parte da acção é mais simples: nunca mais dou um depoimento à imprensa sem ter completo controlo sobre a forma como esse depoimento vai ser apresentado. Live and learn.

sexta-feira, maio 19, 2006

Sondagem em São Paulo

Da Datafolha. Alguns destaques:

- "Para 56% dos moradores da cidade de São Paulo, o governador Cláudio Lembo (PFL) teve uma atuação ruim ou péssima durante os ataques do PCC que deixaram o estado de São Paulo em pânico nos últimos dias";

- "Quando indagados sobre a responsabilidade pelos ataques terem acontecido, a maioria (55%) atribui muita responsabilidade ao Poder Judiciário pelos acontecimentos. Para 30% o governador Cláudio Lembo tem muita responsabilidade e para 39% um pouco de responsabilidade pelos ataques. (...) Atribuem muita responsabilidade ao presidente Lula (PT) 39%, e acham que o ex-governador Geraldo Alckmin, que deixou o cargo para se candidatar à Presidência há pouco mais de um mês, é muito responsável pelos ataques 37%."

- "Para 65% o governo do estado negociou para que os ataques parassem. Desses, 42% acham que o governo agiu mal ao negociar e 21% acham que agiu bem."

segunda-feira, maio 15, 2006

"Everything is up in the air"

USA Today, 17 de Março de 2003:

"It's a new era for foreign policy," says William Kristol, a leading Republican who helped develop the strategy while the party was out of power during the Clinton administration. "Iraq has implications beyond Iraq and in a sense is about more than Iraq. It reflects a broader worldview. How it goes — whether it goes well or not — will very much affect people's judgments about what to do in the future" in the world. (...) If war with Iraq succeeds as envisioned, Kristol says, the United States will be in a position to pursue a more confrontational policy toward rogue regimes and move to "remake" the Middle East.

And if it doesn't go well? "Then everything is up in the air."


Estados Unidos, CBS News/NYT Poll, 8 Maio de 2006, Telefónica, N=1241.
"Looking back, do you think the United States did the right thing in taking military action against Iraq, or should the U.S. have stayed out?"

Did the right thing: 39% (Fevereiro: 41%)
Should have stayed out: 56% (Fevereiro: 54%)
Unsure: 5% (Fevereiro: 5%)


"Which comes closer to your opinion—Iran is a threat to the United States that requires military action now, Iran is a threat that can be contained with diplomacy now, or Iran is not a threat to the United States at this time?"

Threat requiring action now: 11% (Fevereiro: 20%)
Threat that can be contained: 58% (Fevereiro: 55%)
Not a threat at this time: 22% (Fevereiro: 19%)
Not sure: 8% (Fevereiro: 6%)

quarta-feira, maio 10, 2006

Presidenciais italianas e voto obrigatório (actualizado)

Dois posts recentes a ler com atenção no blogue do cientista político Matthew Soberg Shugart, um sobre a eleição do presidente italiano (menos "cerimonial" do que parecer à primeira vista) e outro sobre o voto obrigatório, a propósito de um relatório de um "think tank" britânico que advoga a sua adopção no Reino Unido.

Menciona-se também um artigo académico acabado de sair sobre o assunto no Journal of Theoretical Politics, mas não esquecer a referência fundamental sobre o assunto: o artigo de Arend Lijphart, "Unequal Participation: Democracy's Unresolved Dilemma." American Political Science Review 91: 1-14.

De notar, claro, que a linha da frente da defesa do voto obrigatório é a existência de desigualdades sociais na propensão para a participação eleitoral (e, logo, de desigualdades nos interesses representados politicamente), fenómeno generalizado nos Estado Unidos e outros países de elevadíssima abstenção mas menos comum noutros. Mas não nos fazia mal discutir o assunto...

P.S.- Ou o Insurgente é especialmente bem frequentado, ou então não se pode dizer que as caixas de comentários são sempre lugares para insultos e frustrações. Basta ler os comentários até agora a este post sobre o voto obrigatório.

Independentemente dos méritos ou deméritos do voto obrigatório, há um problema central: os sistemas políticos onde o voto obrigatório poderia "fazer diferença" - ou seja, nos países em que aqueles que não votam são sistematicamente "diferentes" daqueles que votam em termos das suas preferências políticas (o que nem sempre sucede) - são também aqueles onde há actores políticos interessados em que esses mesmos eleitores não entrem no sistema, porque isso poderia fortalecer os seus adversários. Isto vale para os dois lados do espectro ideológico: nos Estados Unidos, por exemplo, os Republicanos nunca aceitariam o voto obrigatório, porque isso implicaria a potencial entrada de eleitores do partido Democrata no sistema (nem sequer conseguem mudar o voto de 3ª feira para Domingo...). Por outro lado, noutros países, não é de excluir que o voto obrigatório aumentasse a votação de partidos de direita "anti-sistema".

Há uma história que, que eu saiba (mas pode haver sem eu saber), está por fazer, e que é a dos processos de "desenho" institucional que levaram a que, nalguns países, se tivesse adoptado o voto obrigatório (Brasil, Austrália, Bélgica) e, noutros (Itália, Holanda), tivesse sido abandonado. Quem defendeu o quê nessas alturas? Assim se perceberá quem sentia que tinha mais a ganhar e a perder. E serão sempre os mesmos? Provavelmente não.

Artigos no Público

Aqui há uns anos, uma alma caridosa e anónima foi colocando alguns dos artigos que escrevi durante 2003 no Público num blogue criado para o efeito. Ainda por cima, era uma alma caridosa com discernimento, porque só colocava os artigos de que gostava (que eram também aqueles que eu próprio ia achando mais razoavelmente decentes).

Mas como a caridade começa em casa, a partir de agora, esses artigos vão para as Outras Margens, com uns dias de atraso. A verdade é que este suporte tem algumas vantagens em relação ao jornal, permitindo-me fazer ligações a algumas das fontes que uso para os artigos. E quanto mais não seja, sempre podem ir vendo quanto tempo passa até que me comece a contradizer.

Mais Brasil

Mais uma sondagem sobre as presidenciais no Brasil, desta vez do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (relatório .pdf, aqui). Estabilidade quase total em relação ao estudo de final de Março: Lula à frente mas sem maioria absoluta, Alckmin perdeu o gás.

Os cenários possíveis estão ainda no ar: com ou sem Garotinho (ainda em greve de fome, à hora que escrevo, protestando contra a Globo e a campanha; how to starve your electoral chances to death, explica-se no brazilianpolitics.com), com ou sem Itamar, com ou sem Sarney, ou mesmo sem candidato do PMDB. Sábado é, creio, a convenção do partido. Seja como for, se Garotinho não for candidato, quem beneficia é Lula.


A propósito, mesmo sendo um bocado caseiro, não posso deixar de sugerir um seminário que vai ter lugar no ICS no dia 16, de manhã: A América Latina: Um Olhar Contemporâneo (programa em .pdf, aqui). Participam Andrés Malamud, do ISCTE, certamente o politólogo a trabalhar em Portugal que mais sabe sobre a América Latina; e Octávio Amorim Neto, da Fundação Getúlio Vargas, um dos melhores investigadores brasileiros nestas áreas (para além de um estudioso do nosso e outros semi-presidencialismos). No final, um debate entre Manuel Villaverde Cabral, Wilson Trajano e Bernardino Gomes. Entrada livre.

segunda-feira, maio 08, 2006

Off topic: Tapada das Necessidades

Não sei se isto é uma micro-causa, mas o que lhe chamo interessa pouco. O Águas do Sul mostra algumas fotografias daquele que, se me perguntassem, facilmente responderia ser um dos meus locais favoritos na cidade de Lisboa: a Tapada das Necessidades. A primeira coisa que importa dizer é que a degradação que a Tapada hoje sofre - visível apenas quando nos aventuramos a caminhar acima do relvado principal a que se acede através da entrada sul - é muito maior do que aquilo que as fotografias podem transmitir. Edifícios e pavilhões abandonados e cobertos de grafittis, caminhos quase intransitáveis pela multiplicação de buracos e pedras, tanques vazios, cancelas fora dos gonzos, ervas que invadem caminhos e passeios, lixo abundante disperso pela vegetação, etc. Tudo isto se passa, note-se, nas traseiras do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Instituto de Defesa Nacional.

Mais: diz o Águas do Sul que o atelier de pintura do Rei D. Carlos I vai ser o gabinete do ex-presidente Jorge Sampaio. Tive a oportunidade de verificar ontem que este atelier está a sofrer obras de beneficiação: pintadinho, recuperado, impecável, e já com relva verdinha e aparada à entrada. Acho muito bem. Mas tenho alguma dificuldade em conceber que Jorge Sampaio se sinta confortável nas suas novas instalações ao mesmo tempo que sabe que a Tapada onde elas estão localizadas está entregue ao mais completo e deprimente abandono, visível, aliás, logo a poucos metros do atelier, num pavilhão cujo miradouro se encontra invadido pelas ervas daninhas e pelos ramos por podar das árvores que o envolvem.

Eu junto-me já ao "Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades" que o Águas do Sul sugere. E até digo mais: se o Ministério da Agricultura, dos Negócios Estrangeiros, e a Câmara e seja lá quem for que tem tutela sobre a Tapada não encontram maneira de se coordenarem para garantir um mínimo de manutenção para o espaço, ou se acham que têm outras coisas mais importantes onde gastar o dinheiro - escrevam no Google as expressões "patrocínio do Ministério dos Negócios Estrangeiros" ou "patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa" e ficarão a saber alguns dos sítios onde o orçamento destas instituições vai parar - eu até estou disposto a fazer-lhes um donativo. E se outros se juntassem, poderíamos ter à entrada do parque e em cada zona recuperada da Tapada uma placa dizendo: "Pago com donativos adicionais dos já contribuintes lisboetas". É isso que é preciso? Dou já.

sábado, maio 06, 2006

Eurosondagem

Nova edição do Barómetro da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença.

José Sócrates (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 55,7% (57,9%)
Nem boa nem má: 17% (18,7%9
Actuação negativa: 20,5% (20,7%)
Ns/Nr: 6,8% (5,7%)

Cavaco Silva (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 58,7% (57,1%)
Nem boa nem má:14% (15,4%)
Actuação negativa: 19,8% (19,6%)
Ns/Nr: 7,5% (7,9%)

Marques Mendes (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 35% (38,7%)
Nem boa nem má: 24,5% (22,7%)
Actuação negativa: 29,6% (28,7%)
Ns/Nr: 10,9% (9,9%)

O nosso índice habitual de 0 a 100 (ver posts anteriores), aplicado apenas aos dados da Eurosondagem, revela a seguinte evolução para Sócrates e Mendes:


Em resumo: tal como sucedia na sondagem Markest do final de Abril, Sócrates vê travada uma tendência de subida que vinha desde as autárquicas. Mendes também desce. E Cavaco também sobe (não vale a pena fazer gráfico dado que temos apenas duas observações). As mudanças são mínimas, mas o seu sentido é o mesmo nos dois Barómetros.

quarta-feira, maio 03, 2006

Consolações


Steven Colbert, do Daily Show, diverte-se e diverte-nos à grande à custa do Presidente Bush (vídeo aqui, transcrição aqui). Uma citação que, compreenderão, achei particularmente bela:

Now, I know there are some polls out there saying this man has a 32% approval rating. But guys like us, we don't pay attention to the polls. We know that polls are just a collection of statistics that reflect what people are thinking in "reality." And reality has a well-known liberal bias.

Para os "liberais" que levam as estatísticas a sério, Charles Franklin tem as novidades:

E as novidades são simples: We have simply never seen a president this unpopular going into a midterm election.

Mas nem tudo é mau para o Presidente Bush. Afinal, há ainda alguém cuja popularidade (.pdf) é inferior à dele:

sexta-feira, abril 28, 2006

Opinião publicada e opinião pública (2)

E eis que, nem de propósito, chegam os dados da Marktest para medir o "fim do estado de graça do governo". Os gráficos seguintes mostram a evolução da popularidade de Sócrates nas sondagens Marktest medida de três formas: as opiniões positivas; o saldo entre opiniões positivas e negativas; e um índice, que varia de 0 a 100, calculado da seguinte forma: (2*%opiniões positivas + %ns;nr;"assim-assim")/2





"Fim do estado de graça" parece exagerado. E é só uma sondagem, sujeita a múltiplas fontes de erro, e cujos resultados carecem de ser confirmados (ou não) por mais observações. Mas por outro lado, estes resultados levantam a hipótese de que, pelo menos, a subida que Sócrates vinha fazendo desde as eleições autárquicas possa ter chegado para já ao seu limite máximo: é a primeira sondagem Marktest desde Novembro em que o índice de popularidade de Sócrates não sobe. Veremos o que trazem as próximas sondagens.

Entretanto, com esta sondagem da Marktest, podemos actualizar o gráfico já apresentado aqui e assim "fechar" o mês de Abril, apreciando a evolução dos índices de popularidade do PM, do PR e do Líder da Oposição por mês, limpos de "house effects". Não há grandes diferenças em relação aos resultados anteriores quando englobamos na análise os resultados da Marktest e a Eurosondagem. Sócrates e Cavaco quase par a par (se bem que Sócrates tenha muito mais opiniões quer positivas quer negativas e Cavaco ainda muita indiferença), Mendes quase não mexe pouco acima do limiar positivo dos 50.

quarta-feira, abril 26, 2006

Opinião publicada e opinião pública

Na opinião publicada, o fim do estado de graça foi declarado. O "Simplex" terá levado a vertente propagandística deste governo longe demais, e os relatórios do BP, do FMI e da OCDE constituem o marco temporal mais visível desse eventual fim.

Mas o que me desperta mais curiosidade é saber com que décalage temporal isto se reflecte na opinião pública, em que conjunto ou tipo de eleitores ou, até, se se reflecte de todo. Paulo Gorjão acha que sim, e anuncia que "os próximos estudos sobre a popularidade do Governo já irão reflectir -- embora ainda de forma ténue - a dúvida que se instalou sobre a bondade das medidas do Governo". Aproxima-se o barómetro Marktest e cá estaremos para ver se há algum efeito visível.

Mas importa recordar o que se passou no final da governação Guterres. Entre os comentadores, o "pântano" começou logo após as eleições de 1999. Mas curioso é verificar que, em Outubro de 2001, as sondagens continuavam a colocar o PS em primeiro lugar das intenções de voto. "Guterres recupera e PS já sobe" e "Poder rosa em grande" eram os títulos do Expresso de... 5 de Outubro de 2001. Não se trata apenas de um qualquer factor "Eurosondagem", porque os resultados da Universidade Católica não eram diferentes.

Problema das sondagens, ou problema das pressuposições sobre a forma como o discurso mediático penetra ou influencia a opinião pública? E se forem as segundas que estão erradas, que factores medeiam a relação entre um e outra que fazem com que a relação seja muito mais indirecta e cheia de nuances do que se poderia prever?

quinta-feira, abril 20, 2006

Vietname/Iraque

A comparação das tendências da opinião pública americana verificadas durante as guerras do Vietname e do Iraque, já aqui feita de forma puramente descritiva, começa a merecer cada vez mais atenção nos Estados Unidos.

Ontem, baseando-se nos mesmos dados, Chris Cillizza, no blogue do Washington Post, concluía que:

1. O ponto aparentemente definitivo de viragem ocorreu em meados de 2005 - aproximadamente 800 dias depois da invasão no gráfico abaixo - momento a partir do qual passa a haver uma maioria dos americanos que pensam que a guerra no Iraque foi um erro. Isto coincide com o caso Cindy Sheehan, a mãe de um militar morto no Iraque que montou uma vigília junto ao rancho de George Bush, em Crawford.

2. Este ponto de viragem foi anterior ao da guerra do Vietname, que se deu por altura da ofensiva de Tet. Para ser mais preciso, o ponto a partir do qual a opinião pública american ficou maioritariamente persuadida de que a guerra do Vietname tinha sido um erro foi após a ofensiva de Tet de 1968 (mais de 1200 dias após Rolling Thunder), que revelou que, apesar da derrota militar dos norte-vietnamitas, não havia qualquer esperança de uma vitória rápida dos Estados Unidos. Desde esse momento, não voltou a haver uma maioria na opinião pública americana a favor da guerra.

3. Chillizza menciona um artigo de Novembro de 2005 na Foreign Affairs que, sem desculpa, me tinha passado ao lado: de John Mueller, ainda por cima um professor da minha alma mater. Algumas citações de um artigo que merece ser lido na íntegra:

Comparando a evolução ao longo de várias guerras:
The most striking thing about the comparison among the three wars is how much more quickly support has eroded in the case of Iraq. By early 2005, when combat deaths were around 1,500, the percentage of respondents who considered the Iraq war a mistake -- over half -- was about the same as the percentage who considered the war in Vietnam a mistake at the time of the 1968 Tet offensive, when nearly 20,000 soldiers had already died.

Especulando sobre implicações para as eleições para o Congresso:
"The impact of war discontent on congressional races is less clear. Democrats attempted to capitalize on the widespread outrage over Nixon's invasion of Cambodia in 1970 but were unable to change things much."

Sobre a improbabilidade de inversão da tendência:
"There never were periods of continuous good news in the wars in Korea or Vietnam, so there is no clear precedent here. But should good news start coming in from Iraq -- including, in particular, a decline in American casualty rates -- it would more likely cause the erosion in public support to slow or even cease rather than trigger a large upsurge in support. For support to rise notably, many of those now disaffected by the war would need to reverse their position, and that seems rather unlikely: polls that seek to tap intensity of feeling find that more than 80 percent of those opposed to the war "strongly" feel that way. If you purchase a car for twice what it is worth, you will still consider the deal to have been a mistake even if you come to like the car."

Sobre os limites da comparação entre o Vietname e o Iraque e por que razão isso pode fazer com que uma retirada seja menos dramática:
When the United States was preparing to withdraw from Vietnam, many Americans feared that there would be a bloodbath if the country fell to the North Vietnamese. And indeed, on taking control, the Communists executed tens of thousands of people, sent hundreds of thousands to "reeducation camps" for long periods, and so mismanaged the economy that hundreds of thousands fled the country out of desperation, often in barely floating boats. (What happened in neighboring Cambodia when the Khmer Rouge took over makes even the word "bloodbath" seem an understatement.) (...) Although the consequences of a U.S. withdrawal from Iraq are likely to be messy, they may be less dire. The insurgency in Iraq, albeit deadly and dedicated, represents a much smaller, less popular, and less organized force than the Vietcong did, and it does not have the same kind of international backing. Moreover, many of the insurgents are fighting simply to get U.S. troops out of the country and can be expected to stop when the Americans leave.

E sobre as consequências, essas sim potencialmente catastróficas, do fracasso no Iraque para toda a região:
In the meantime, any country that suspects it may be on the list has the strongest incentive to make the American experience in Iraq as miserable as possible. Some may also come to consider that deterring the world's last remaining superpower can be accomplished by preemptively and prominently recruiting and training a few thousand of their citizens to fight and die in dedicated irregular warfare against foreign occupiers. (....) Ultimately, the chief beneficiaries of the war in Iraq may be Iraq's fellow members of the "axis of evil."

Actualizo os dados sobre a opinião pública americana acerca de uma e outra guerras, aproximadamente no mesmo período de tempo, nos gráficos abaixo:

segunda-feira, abril 17, 2006

Mais Brasil

Uma nova sondagem, da Sensus. Realizada ao mesmo tempo que a sondagem Datafolha, confirma os seus resultados: Lula abaixo da maioria absoluta, Alckmin parou de subir, Garotinho sobe.

Lei eleitoral italiana: correcção

O Sniper fez pontaria e acertou. Ao contrário do que eu tinha dito aqui, o "prémio de maioria", se necessário, atribui-se à coligação mais votada e não à coligação com mais assentos após a exclusão dos partidos que não ultrapassam a cláusula-barreira. O site da Câmara dos Deputados italiana explica (clicar em "Norme", "Legge Elettorale" e "Scheda illustrativa") e espero, desta vez, ter entendido correctamente (partes relevantes em negrito):

I seggi sono ripartiti proporzionalmente in ambito nazionale tra le coalizioni di liste e le liste che abbiano superato le soglie di sbarramento previste dalla legge. Sono ammesse alle ripartizione dei seggi soltanto le coalizioni che abbiano raggiunto almeno il 10% del totale dei voti validi e, al loro interno, le liste che abbiano ottenuto il 2% dei voti, le liste rappresentative di minoranze linguistiche con almeno il 20% dei voti della circoscrizione e la lista che abbia conquistato più voti tra quelle che non hanno conseguito il 2% dei voti.

Partecipano inoltre alla ripartizione dei seggi le liste che non fanno parte di alcuna coalizione, a condizione che abbiano avuto almeno il 4% dei voti a livello nazionale. Alla coalizione di liste (o alla lista non coalizzata) più votata, qualora non abbia già conseguito almeno 340 seggi, è attribuito un premio di maggioranza tale da farle raggiungere il numero di seggi in questione. Le varie fasi della distribuzione dei seggi proporzionali sono le seguenti:

1. Si accerta, nelle circoscrizioni e in ambito nazionale, il totale dei voti conseguiti da ciascuna coalizione o singola lista non collegata e si individua quale di esse ha ottenuto a livello nazionale il maggior numero di voti ai fini dell’attribuzione dell’eventuale premio di maggioranza;

2. Si individuano le coalizioni di liste e le liste non collegate che, superando le soglie di sbarramento, sono ammesse all’assegnazione dei seggi;

3. Si determina su base nazionale il numero di seggi spettanti a ciascuna coalizione di liste o lista non collegata che ha superato la soglia di sbarramento. La ripartizione è effettuata in proporzione ai voti ottenuti con il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

4. Si verifica se la coalizione di liste o la lista non collegata che ha ottenuto il più alto numero di voti ha cnseguito 340 seggi;

5. In caso positivo, il premio di maggioranza non trova applicazione. I seggi spettanti a ciascuna coalizione sono assegnati alle liste ammesse al riparto che le compongono. Si procede quindi a distribuire in ogni circoscrizione i seggi assegnati in sede nazionale a ciascuna lista ammessa;

6. Se nessuna coalizione di liste o lista non collegata ha ottenuto almeno 340 seggi, si attribuisce a quella di esse più votata il premio di maggioranza, consistente in un numero di seggi pari alla differenza tra 340 e il numero di seggi ad essa assegnati sulla base della ripartizione proporzionale. I 277 seggi rimanenti sono distribuiti tra le altre coalizioni o liste non collegate secondo il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

7. Si proclamano, nelle diverse circoscrizioni, i candidati eletti secondo l'ordine di successione fissato in ciascuna lista. Se la lista dei candidati è esaurita, si attinge, nell’ordine, alla medesima lista in un’altra circoscrizione, ad un’altra lista della stessa coalizione presentata nella circoscrizione originaria, ovvero in un’altra circoscrizione.

terça-feira, abril 11, 2006

Da Itália para o Brasil

E porque não convém perder embalagem, nova sondagem sobre as presidenciais brasileiras, da Datafolha. As discrepâncias entre os diferentes institutos são demasiado grandes (e o número de observações demasiado pequeno) para tirar grandes conclusões. Mas não deixa de ser curioso verificar que, em relação à anterior sondagem Datafolha, quem parece ter perdido alguma embalagem é Alckmin (o mesmo sucedendo, aliás, no cenário hipotético de "2º turno" contra Lula). Mas é cedo, muito cedo...

Acabou (?)

Do La Stampa:



Dos votos dos eleitores no estrangeiro resultaram 4 senadores em 6 para a Unione. Maioria relativa então para Prodi no Senado e absoluta na Câmara. Mas a Cdl contesta o resultado e quer recontagem.

O dia seguinte


Retirado do La Stampa.

Unione ganha na Câmara, por 25 mil votos, e permanece indefinição no Senado, se bem que a votação dos eleitores no estrangeiro pareça estar a favorecer Prodi. Seja como for, não haverá maioria absoluta no Senado nem para Unione nem para Cdl, devido aos senadores vitalícios (inclinados à esquerda). A Cdl pede recontagem.

Entretanto, os sondagistas são trucidados:

Elezioni: il flop dei sondaggi

Exit-poll, che disastro

«Sfida già finita alle quindici»: e ora chiamateli pure exit flop

Fim, por hoje

Uma mera curiosidade, porque já só vale a pena contar os votos, mas a oitava (!) projecção apresentada para o Senado continua a dar 7 assentos de vantagem à Cdl, enquanto a terceira (!) projecção para a Câmara dá a Cdl e a Unione empatados com 49,8% (!) e retira a anterior maioria absoluta para a Cdl (!). A Nexus desiste, e deixa de dar projecções de deputados.

Por mim, já esgotei os pontos de exclamação, mas o director da Nexus, ao "Porta a Porta", ainda tem mais um: "são as piores eleições da história!" Bem podes dizê-lo outra vez.

Amanhã prosseguem os jogos.

segunda-feira, abril 10, 2006

Mais projecçoes

A projecções mais recentes não mudam nada: às 20.15h (hora portuguesa), continuam a estimar uma maioria absoluta (com o bónus) para a Cdl de Berlusconi quer na Câmara quer no Senado.

Há uma pessoa em cujo lugar em não gostaria de estar hoje: Fabrizio Massa, da Nexus, que esteve a coordenar as sondagens à boca das urnas e as projecções...

Pois...

Projecção Nexus (19.30h hora portuguesa), Câmara:
Cdl: 49,9% (340 deputados)
Unione: 49,6% (277 deputados)

Projecção Nexus (19.00h hora portuguesa), Senado:
Cdl: 49,1% (157 senadores)
Unione: 49,8% (152 senadores)

Maratona

Já se percebeu que isto vai demorar. A projecção para a Câmara já está atrasada mais de duas horas e, tendo em conta o que aconteceu com o Senado, todos já esperam que a vantagem seja, afinal, inferior a 5 pontos. Vai ser preciso contar os votos. Volto depois.

Senado

Se se confirmar a projecção, sete senadores de vantagem é muito pouco para garantir qualquer espécie de governabilidade com coligações tão fragmentadas e com um Senado com tantos poderes como o italiano.

(Uma nova projecção para o Senado -17.45h hora portuguesa - dá 51% para Unione e 49% para Cdl, sem impacto na distribuição de senadores).

Prudência

Na televisão italiana, fala-se em "prudência" e "ligeira vantagem".

Primeiras projecções, mais renhido do que parecia (17.00h)

As primeiras projecções - não sondagens, mas sim dados de sondagens combinados com dados do apuramento - são para o Senado: 50,4% para a Unione, 48,6% para a Cdl. Mais renhido do que era sugerido pelas sondagens à boca das urnas (que davam 50-54% para a Unione e 45-49% para a Cdl). Ainda não há, que eu saiba, projecções para a Câmara dos Deputados...

Itália, actualização 16.35h

Segundo as duas sondagens à boca das urnas (Nexus e Piepoli), a Unione parece conseguir garantir os 340 assentos parlamentares na Câmara dos Deputados e também uma maioria no Senado. Abstenção deverá andar pelos 15%, abaixo da verificada em 2001.

Itália, actualização

Segundo os dados da sondagem à boca das urnas por partido, parece que as contas podem ter corrido mal a Berlusconi. Os pequenos partidos da Unione aparecem com estimativas acima dos 2%, à excepção da UDEUR, ao passo que a CD/Psi e a Alternativa Sociale da coligação de Berlusconi aparecem abaixo dos 2%.

Itália, 1ª sondagem boca das urnas, 15.01h (hora italiana)

Unione (Prodi): 50-54
Cdl: (Berlusconi): 45-49

Aposta-se já, portanto, num vencedor em termos de votos. Mas a conversa no que respeita a assentos pode ser outra...

Itália, a menos de duas horas

Originais em tudo, os italianos encerram as urnas às 15.00h de segunda-feira, ou seja, 14.00h de Lisboa. As últimas sondagens, divulgadas a 15 dias das eleições, apontavam para um resultado que andaria entre os 52 e os 54% para a Unione de Prodi.

Contudo, muita atenção ao que se segue. Por um lado, sempre foram 15 dias. Por outro lado, há o sistema eleitoral. E o sistema eleitoral implica o seguinte:

1. Todos os partidos integrados numa coligação que obtenham menos de 2% dos votos (e todos os partidos foram de coligações que tenham menos de 3% dos votos) não elegem deputados, ou seja, ficam excluídos por uma cláusula-barreira.

2. Em princípio, isto não deverá afectar a Liga Norte ou os Democratas Cristãos membros da Casa de Berlusconi, que, em 2001, tiveram mais de 3% dos votos.

3. Contudo, isto pode afectar seriamente a eleição de deputados por parte de todos os partidos da Unione com excepção do Ulivo e da Refundação Comunista.

4. Acresce a isto que há um "bónus" para a coligação mais votada, garantindo-lhe pelo menos 340 assentos parlamentares em 630, ou seja, uma maioria absoluta.

5. Eu disse coligação "mais votada"? Não é bem "mais votada": é mais votada depois de redistribuidos os votos dos partidos que não passaram a cláusula-barreira de 2%, ou seja, com toda a probabilidade, vários partidos da Unione.

6. Logo, é perfeitamente possível que a Unione tenha mais votos que a Casa, mas fique com menos após a redistribuição e que, logo, seja a Casa de Berlusconi fique com o bónus e, logo, com uma maioria absoluta, apesar de ter, em absoluto, menos votos!

Popularidade líderes Abril

Com a divulgação do estudo da Eurosondagem, é possível actualizar o gráfico apresentado antes aqui. O que se faz, recorde-se, é:

1. Recorrer aos Barómetros Marktest (TSF, DN) e Eurosondagem (Expresso, SIC, RR), nas questões de avaliação da actuação dos líderes políticos;
2. Calcular um índice (2*% "Positiva" + %"Assim-assim;Ns;Nr)/2, que varia entre 0 e 100;
3. Calcular valores para cada mês do ano, limpos de "house effects".
















Sampaio termina em Março com um score de 81 pontos em 100. Cavaco entra em Março com 64,4 pontos mas já subiu em Abril para 68,8. Sócrates prossegue recuperação de popularidade iniciada após as autárquicas, estando a menos de 10 pontos do score verificado no primeiro mês de governação. Mendes está estável, com menos 10 pontos do que tinha quando assumiu, há um ano, a liderança do PSD.

sexta-feira, abril 07, 2006

Vietname e Iraque

Fonte: Gallup (dados disponíveis aqui e aqui)

Questão 1: "In view of the developments since we entered the fighting in Vietnam, do you think the U.S. made a mistake sending troops to fight in Vietnam?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde operação Rolling Thunder.

Questão 2: "In view of the developments since we first sent our troops to Iraq, do you think the United States made a mistake in sending troops to Iraq, or not?" Gráfico mostra % daqueles que respondem afirmativamente. No eixo x, dias desde invasão do Iraque.
(Clicar na imagem para ver melhor)


Não creio que precise de comentários.

quinta-feira, abril 06, 2006

Brasil

Saiu uma sondagem do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social, no Jornal do Brasil. Vamos ter calma e, com a continuação, tentar perceber se as diferenças entre as sondagens estão a reflectir apenas erro amostral e diferenças entre métodos ou se, pelo contrário, reflectem mudança nas intenções de voto. Certo é que Lula tem menos 7 pontos do que na sondagem de 11 de Março, enquanto Alckmin subiu 9. A seguir com atenção.

segunda-feira, abril 03, 2006

Popularidade dos líderes políticos

No dia 31, o DN e a TSF divulgaram os dados de uma sondagem da Marktest, realizada entre os dias 21 e 24 de Março, telefónica, quotas, N= 813. No que respeita à popularidade dos líderes, há várias maneiras de se pegar nos dados:

1. Avaliações positivas (Marktest):


Com a primeira sondagem incidindo sobre a avaliação de Cavaco Silva como Presidente, há uma queda abrupta em relação à última sondagem que incidia sobre a avaliação de Jorge Sampaio. Para Sócrates, depois de uma subida contínua desde as autárquicas, há estabilização. E Marques Mendes parece ter estancado uma lenta descida desde as autárquicas.


2. Saldo %"actuação positiva" - % "actuação negativa" (Marktest): o gráfico anterior negligencia o facto de a percentagem de respostas "não sabe/não responde" variar muito consoante os diferentes objectos de avaliação, não tomando por isso em conta a possibilidade de a uma grande percentagem de opiniões positivas poder também corresponder uma grande percentagem de opiniões negativas (nem a possibilidade de a uma baixa percentagem de opiniões positivas poder corresponder também uma baixa percentagem de opiniões negativas). Logo, o gráfico seguinte apresenta o saldo de opiniões negativas-positivas:


Como se vê, Sócrates e Mendes geram muito mais polarização, para já, do que o Presidente, que apesar de ter poucas avaliações positivas tem também muito poucas avaliações negativas. Seja como for, as tendências ao longo do tempo são as mesmas.

3. Índice limpo de "house effects": uma maneira de procurar resolver os problemas anteriores consiste em calcular o índice que forma a que dê algum significado à percentagem de "não respostas". Para além disso, há um segundo problema, o facto de as sondagens Eurosondagem e Marktest não serem rigorosamente comparáveis, dado que as sondagens da Eurosondagem dão a opção de resposta "assim-assim". Assim, procedemos da seguinte forma:

a. Cálculo do índice:

I= (2*%positivo + %"assim-assim"+"ns"+"nr")/2.

Tudo o que estiver acima de 50 significa que há mais opiniões positivas que negativas. O valor 0 (zero) significa que todas as opiniões são negativas. O valor 100 significa que todas as opiniões são positivas. "Ns/nr" é tratado como indicador de indiferença, "nem bom nem mau".

b. Eliminação de "house effects": segui p procedimento descrito aqui. Março não aparece na Presidência porque uma sondagem incidiu sobre Sampaio e outra sobre Cavaco.


Estes resultados são os que posso fornecer que me parecem mais próximos de captarem reais tendências de mudança ao longo do tempo, por um lado, e permitir comparabilidade entre os líderes políticos e as diferentes empresas de sondagem, por outro.

Assim, é visível uma descida inicial dos três líderes políticos até ao Outono (mais mitigado no caso do PR) e uma posterior recuperação (igualmente mitigada no PR e também com Marques Mendes, mais acentuada com Sócrates).

quarta-feira, março 29, 2006

Blogues temáticos

Falar de Blogues Temáticos
30 de Março, 19:00 horas, Livraria Almedina

Doc Log , Leonor Areal
Educar para os Media ,Vitor Relvas
E o mordomo que trabalha nesta casa, vindo a correr de apresentar um paper sobre as sondagens autárquicas no Congresso da Associação Portuguesa de Ciência Política.

Israel, sondagens e resultados

Como de costume, remeto para quem sabe fazer mais e melhor. Um breve resumo:

- Kadima ganha, mas abaixo das sondagens, confirmando tendência de descida que vinha desde as eleições palestiniananas;
- catástrofe no Likud; Netanyahu castigado;
- Yisrael Beiteinu passa para terceiro partido, confirmando tendência de subida;
- surpresa: Gil, o partido dos pensionistas, consegue 7 lugares no Knesset;

O Kadima fica na posição privilegiada de partido pivot. Sem eles, não há governo, e podem "escolher", por assim dizer, com quem governar. Tudo se parece encaminhar para uma coligação de centro-esquerda: Kadima, Trabalhistas, Shas (partido sefardita, flexível na questão palestiniana e favorável a políticas sociais) e Gil.

O comentário do Haaretz:

"Those who mocked Labor and Peretz because of their social agenda - saying all that matters in Israel are security-diplomacy issues - will have to think again. It's not just Labor doing better than expected that proves this, but mainly the success of the senior citizens' party. Maybe it's because Israelis are already set on the right solution for the Palestinian issue (i.e. unilateral steps), that they figured that they can now vote on something else."

terça-feira, março 28, 2006

Brasil, a seis meses

Não pensaram que estas escapavam? As eleições mais interessantes do ano. Agora que Alckmin e Garotinho estão confirmados e que as respostas já não são sobre meros cenários, é a altura de começar a coligir dados.

Conheço três institutos que divulgam dados de intenção de voto regularmente: IBOPE, Datafolha e Sensus. Se conhecerem mais, avisem. Para já, após a confirmação de Alckmin, só conheço duas sondagens: uma do IBOPE e outra da Datafolha. Em relação a sondagens anteriores, que lidavam apenas com cenários, Alckmin sobe e Garotinho mantem-se estável. Mas há muito caminho para percorrer.

Dois quadros apresentados abaixo: um com os resultados brutos e outro que os dados são apresentados como se fossem resultados eleitorais, excluindo brancos e nulos e tratando "não respostas" e indecisos como abstencionistas (ou seja, redistribuindo-os proporcionalmente pelas opções válidas). Para já, temos Lula à 1ª volta, e um surpreendentemente baixo número de indecisos.

Falta dizer que a reputação dos institutos de sondagens no Brasil é impecável: grande mercado, muito dinheiro, muita competência, voto obrigatório (o que limita os efeitos nefastos da abstenção sobre as estimativas de resultados eleitorais).

segunda-feira, março 27, 2006

Israel, véspera de eleições

A última actualização da análise das sondagens sobre as eleições israelitas no indispensável Political Arithmetik, mostra o Kadima a descer (tal como vem sucedendo desde as eleições na Palestina), mas ainda, e muito claramente, como vencedor. Trabalhistas e Likud parecem estáveis, mas o Yisrael Beiteinu, que tem forte implantação entre os judeus vindo da ex-União Soviética, prepara-se para se tornar o 4º partido (não sendo completamente de excluir que ultrapasse o Likud, o que seria um resultado espantoso).

Sobre o panorama de coligações pós-eleitorais, Matthew Shugart apontava há dias as várias possibilidades. Na base das estimativas mais recentes, os cenários de Shugart continuam a fazer sentido.

sexta-feira, março 24, 2006

Focus group



As coisas que se ficam a saber com um focus group...

Explicação aqui.

Itália

Segundo todas as sondagens e também por admissão própria e dos seus aliados, Berlusconi perdeu o debate com Prodi. Também perdeu a cabeça numa reunião da Confindustria, acusando os grandes empresários de terem "esqueletos no armário" e de terem sido perdoados por "juízes vermelhos". E pelos vistos, vai perder as eleições, se bem que importa ter cuidado com dois factores: a mudança do sistema eleitoral, concebida especificamente para favorecer a Cdl; e o facto de, devido à restritiva legislação italiana, estas serem as últimas sondagens a serem divulgadas antes das eleições. Em quinze dias pode mudar muita coisa. Seja como for, o pós-debate revela uma subida clara da Unione. Os dois "outliers" que vêm lá em baixo - duas sondagens da empresa Psb - são sondagens encomendadas pela...Forza Italia.

quarta-feira, março 22, 2006

Popularidades

Nos Estados Unidos e (em menor grau) no Reino Unido, a avaliação do desempenho do chefe do executivo é seguida com enorme atenção pelos órgãos de comunicação social, pelos agentes políticos e pelos estudiosos da opinião pública, suscitando, por parte destes últimos, o tipo de análises aprofundadas que se podem encontrar aqui ou aqui. Por um lado, isto deve-se ao grande desenvolvimento dos estudos de opinião pública e à enorme quantidade de recursos que nelas são dispendidos. E por outro lado, aos próprios sistemas políticos. Nos Estados Unidos, temos a concentração do poder executivo num cargo uninominal. No Reino Unido, apesar de se tratar de um sistema parlamentar, estamos também perante um dos casos onde a concentração de poder nas mãos do PM e líder do partido é maior entre as democracias ocidentais. Logo, a atenção tende também ela a concentrar-se na pessoa do líder, nas suas qualidades e na avaliação que delas fazem os eleitores.

Em Portugal, o que se sabe sobre o factores que mais afectam o comportamento eleitoral é que a avaliação que os eleitores fazem dos líderes tem enorme impacto na decisão do voto, acima do que seria de esperar com um sistema eleitoral proporcional. Logo, seria de esperar que fosse dada grande atenção aos dados disponíveis sobre essa avaliação. Mas assim não sucede. Os meios de comunicação social encomendam apenas as duas empresas de sondagens - Marktest e Eurosondagem - dados regulares sobre essa matéria, e são raros os estudos disponíveis utilizando esses dados (com a notável excepção do trabalho de dois investigadores da Universidade do Minho, Francisco José Veiga e Linda Veiga).

Quais os dados disponíveis desde a tomada de posse do actual governo. A Marktest, no seu barómetro mensal, coloca a seguinte questão sobre vários líderes políticos:

No caso de [líder]: Em sua opinião diria que a actuação de [líder]) tem sido POSITIVA ou NEGATIVA ?

A formulação concreta da pergunta colocada pela Eurosondagem deverá ser semelhante, ficando contudo a dúvida se é fornecida uma opção intermédia "Assim-assim". Nalguns casos, os quadros publicados no Expresso sugerem que assim é (afirmando-se que as percentagens apresentadas excluem respostas "não sabe/não responde" e "assim-assim"). Noutros casos, essa referência está ausente.

Talvez as diferentes formulações ajudem a explicar as discrepâncias entre os resultados das duas empresas. Nos gráficos abaixo, apresenta-se a evolução ao longo do tempo das percentagens de indivíduos que fazem uma avaliação positiva do Primeiro-Ministro, do Presidente da República e do líder do principal partido da oposição nas duas sondagens desde a tomada de posse do actual governo (agradeço à Marktest o envio dos dados completos; os dados da Eurosondagem foram recolhidos do Expresso; datas correspondem ao último dia de trabalho de campo):



Apesar das discrepâncias nas avaliações de Sampaio serem mínimas, o mesmo não sucede para Sócrates ou Marques Mendes: as sondagens publicadas no Expresso tendem a obter maiores percentagens de aprovação para ambos em comparação com a Marktest.

Dito isto, é tranquilizador verificar que, apesar das discrepâncias absolutas, as tendências que detectam são semelhantes. Descida de Sócrates até às autárquicas, seguida de recuperação (claríssima na Marktest, sugerida na Eurosondagem); subida de Marques Mendes imediatamente após autárquicas, e posterior retorno aos níveis (baixos) de Abril de 2005. Em ambos os casos, e para as últimas sondagens, as taxas de aprovação de Sócrates estão cerca de 20 pontos percentuais acima das taxas de aprovação de Marques Mendes.

Os resultados de Sócrates não estão exactamente na linha do que anteriores estudos sobre as funções de popularidade poderiam sugerir. No passado, a popularidade do PM tendeu a diminuir com o aumento do desemprego, especialmente quando o seu governo dispunha de maioria absoluta. E diminuia também assim que se ultrapassava o período inicial de seis meses de "lua de mel". Mas não é bem isso que parece estar a ocorrer. Com o desemprego a aumentar de 7,5% para 8% do primeiro para o último trimestre de 2005 e ultrapassada a "lua de mel", Sócrates quase regressa aos níveis de popularidade de que gozava imediatamente no início do ciclo. Aumenta assim a curiosidade em relação ao que as próximas sondagens dirão: será a recuperação de popularidade dos últimos meses para durar, ou uma fugaz anomalia em relação à tendência de descida que se iniciou logo após a tomada de posse? Logo se verá.

quarta-feira, março 15, 2006

Abu Ghraib

A Salon publica finalmente o anunciado conjunto de 276 fotografias que obteve sobre tortura e abuso de prisioneiros em Abu Ghraib, relatando igualmente que nenhum soldado acima da patente de sargento foi levado a tribunal. Isto inclui o operacional da CIA que interrogou o prisioneiro Manadel al-Jamadi, que acabou por ser encontrado morto.

"The failure of a democratic society to investigate well-documented abuses by its soldiers". Indeed. Mas dir-se-ia mais: o falhanço de uma sociedade democrática em conseguir que aqueles em que delega poder governem de acordo com as suas preferências.

TNS/Washington Post/ABC News, 15-18 Dezembro 2005, N=1003, Telefónica

Would you regard the use of torture against people suspected of involvement in terrorism as an acceptable or unacceptable part of the U.S. campaign against terrorism?

Acceptable: 32%
Not acceptable: 64%
Depends on the torture: 3%
No opinion: 2%

terça-feira, março 14, 2006

Aumenta a incerteza em Israel

Ninguém duvida que os dias que correm podem ser cruciais para o futuro de Israel e da Palestina. Os seus destinos estão ligados até nisto: a partir da vitória do Hamas, começou a descida do Kadima nas sondagens em Israel, como relata o Political Arithmetik:

É natural que haja mais desgaste no Kadima: a maior parte dos israelitas opõe-se à retirada parcial de civis da Margem Ocidental (saem civis, a IDF fica) sugerida por Avi Dichter, possível futuro ministro da defesa.

Dialog, 8 de Março, N=600.
Do you support or oppose the plan of Kadima to evacuate settlements unilaterally as Avi Dichter proposed this week?
Support: 37%
Oppose: 49%
Other: 14%

No fim de semana, Olmert foi ainda mais categórico: retirada até 2010 e, pelo caminho, 80.000 evacuados dos territórios ocupados. Vamos ver os efeitos que isto produz até ao dia 28 de Março. Até que ponto anteriores votantes no Likud, entretanto atraídos pelo centro representado pelo Kadima, regressarão ao redil? A acompanhar com atenção, mas uma coligação Kadima/Trabalhistas continua a ser o mais provável.

sábado, março 11, 2006

A popularidade de Cavaco

O que se segue é muitíssimo estranho (fonte), e merece uma análise crítica.



















A ser verdade, seria chocante. Como se verifica no gráfico seguinte, elaborado por Francisco José Veiga e Linda Veiga, da Universidade do Minho, com base em dados Expresso/Euroexpansão (neste paper, .pdf, mais tarde revisto e publicado na Economics & Politics), Sampaio começou em alta em 1996, para logo descer e só depois recuperar lentamente. Não que chegue a haver um efeito "lua-de-mel" para o Presidente, como o próprio estudo dos Veigas revela. Mas que Cavaco, após a eleição, só tenha pouco mais de 10% de opiniões positivas em relação às opiniões negativas, seria muito estranho.



É possível, contudo, que tudo isto se deva ao facto da sondagem sobre Cavaco pedir aos inquiridos uma avaliação da sua "actuação", o que pode ter sido interpretado como a sua actuação "enquanto Presidente". Para muitos, como não tinha tomado posse, a pergunta pode não ter feito sentido. E o que sucede? Nesta sondagem, 35% de não sabe/não responde. Em Novembro, por exemplo, só 16% não tinham opinião. É preciso cuidado com a leitura dos números.

O estudo dos Veigas merece ser lido por muitas razões. Mostra, por exemplo, que apesar do PM ser o mais responsabilizado pela economia (nomeadamente, o desemprego), o Presidente também o é, independentemente de situações de coabitação ou não. E que Sampaio foi, em geral, menos popular que Soares (mas o estudo vai só até 2000).

quarta-feira, março 08, 2006

Itália, a pouco mais de um mês

Prodi recusou hoje um frente-a-frente com Berlusconi, alegando a recusa deste último em aceitar uma série de regras sobre posições das câmaras, proibição de focar um candidato enquanto o outro fala, tempos de pergunta e resposta, a escolha do entrevistador, etc.. Mais importante ainda é a indisponibilidade de Prodi em aceitar que Berlusconi conduza, imediatamente após o debate, nada menos que... uma conferência de imprensa enquanto PM. Berlusconi responde:

"Prodi is acting irresponsibly. He should show up and debate in a polite and civilised manner, as I do.(...) If he won't show up, I'll still demand the time on TV that is owed to me, to show what the government has done. I'll be there on Monday, I hope he will be there too, but I cannot make predictions."

Certo. Entretanto, as sondagens dizem (quase) todas o mesmo, ou seja, vitória para a Unione de Prodi, com tendência progressiva de descida dos indecisos (acima dos 20% em Janeiro, entre 14 e 18% em finais de Fevereiro):



É quase impossível encontrar tendências de mudança nos últimos dois meses. Mapeando os resultados ao longo do tempo e aplicando uma regressão local, a Unione encontra-se estável, ao passo que a ligeira subida da Casa até meados de Fevereiro, à custa dos poucos e pequenos partidos fora das coligações, deixou de ter para onde ir.





























A coisa começa a parecer muito fechada, e é possível que se repita o padrão recorrente da vida política italiana: o mais interessante não são as eleições, mas sim o que acontece entre elas. Contudo, neste menu de sondagens disponíveis, há algumas coisas intrigantes: a enorme homogeneidade de métodos utilizados e a quase incrível semelhança de resultados no interior dos institutos, aparentemente insensíveis ao erro aleatório. Haverá por aqui muita ponderação, especialmente na base de anteriores resultados eleitorais? Vamos tentar perceber.

Fonte das sondagens: aqui.

terça-feira, março 07, 2006

Off topic















Foto da livraria propriedade do Larry McMurtry, em Archer City, Texas, pop. 1848. Tem site e tudo.

Vai com dedicatória ao outro Pedro Magalhães.

Prognósticos só nunca

Aqui há uns meses, os jornais e a blogosfera estavam repletos de previsões sombrias sobre o "impasse" na Alemanha e a improvável sobrevivência política de Angela Merkel. Várias sondagens recentes revelam até que ponto estes prognósticos foram certeiros:

Infratest-Dimap:

*52% dos alemães acham que a coligação está a fazer um bom trabalho;
* 66% afirmam não detectar divergências de fundo entre os parceiros de coligação;
*Angela Merkel é a figura política mais popular na Alemanha, com 74% de opiniões positivas;
*Se pudessem escolher directamente um chanceler, 56% escolheriam Merkel;

Em retrospectiva, a coisa ainda fica mais cómica do que já era na altura.

sábado, março 04, 2006

Hard to understand: 100%

Rússia, Public Opinion Foundation, 18-19 Fevereiro 2006, N=1500

In your view, did Josef Stalin play a positive role or a negative role in Russian history?
Positive:47%
Negative:29%
Hard to answer:24%

quinta-feira, março 02, 2006

Sondagem aos militares americanos no Iraque

Para uma discussão aprofundada dos métodos utilizados, suas limitações e cautelas a ter na leitura dos resultados, ver aqui.

* An overwhelming majority of 72% of American troops serving in Iraq think the U.S. should exit the country within the next year, and nearly one in four say the troops should leave immediately;

* 58% of those serving in country say the U.S. mission in Iraq is clear in their minds, while 42% said it is either somewhat or very unclear to them, that they have no understanding of it at all, or are unsure.

* While 85% said the U.S. mission is mainly “to retaliate for Saddam’s role in the 9-11 attacks,” 77% said they also believe the main or a major reason for the war was “to stop Saddam from protecting al Qaeda in Iraq.” “Ninety-three percent said that removing weapons of mass destruction is not a reason for U.S. troops being there,” said Pollster John Zogby, President and CEO of Zogby International.

* Just 24% said that “establishing a democracy that can be a model for the Arab World" was the main or a major reason for the war. Only small percentages see the mission there as securing oil supplies (11%) or to provide long-term bases for US troops in the region (6%).

* Most U.S. military personnel in-country have a clear sense of right and wrong when it comes to using banned weapons against the enemy, and in interrogation of prisoners. Four in five said they oppose the use of such internationally banned weapons as napalm and white phosphorous. And, even as more photos of prisoner abuse in Iraq surface around the world, 55% said it is not appropriate or standard military conduct to use harsh and threatening methods against insurgent prisoners in order to gain information of military value.

*Three quarters of the troops had served multiple tours and had a longer exposure to the conflict: 26% were on their first tour of duty, 45% were on their second tour, and 29% were in Iraq for a third time or more.

* A majority of the troops serving in Iraq said they were satisfied with the war provisions from Washington. Just 30% of troops said they think the Department of Defense has failed to provide adequate troop protections, such as body armor, munitions, and armor plating for vehicles like HumVees.

Hamas

E já que estamos nesta onda, há um texto imperdível na New York Review of Books sobre a vitória do Hamas: este, de Hussein Agha e Robert Malley. Independentemente dos pressupostos de partida ou das simpatias ou antipatias dos autores, é um texto exemplar do ponto de vista da análise política: não se conforma com uma única banalidade que saia da boca dos "comentadores" ou dos agentes políticos. Procura ver o que está "por detrás". Pergunto-me se, por vezes, não estará a ver demais. Mas tem, por exemplo, uma explicação plausível para algo que, numa das sondagens anteriores, me deixou perplexo. Isto:

Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations: 29.6%
No answer: 4.1%


Q15. Some believe that the negotiations are the best path to achieve our national goals, whereas others believe that the armed struggle is the best way to do so. Which option is the closest to your opinion?
Through Negotiations: 38.8%
Through armed struggle: 17.9%
Through negotiations and armed struggle: 40.3%

Don't know: 2.3%
No answer: 0.7%

A resposta pode ser esta:

Because of all it did, said, and stood for, a vote for Hamas became one way to exorcise the disgrace. The Palestinian Authority had been unable to protect its people, and Hamas evidently could do no better on that score. But though its brutal attacks on Israelis did not provide safety, they provided revenge, and, for many Palestinians, in the biblical land of primal urges, that was second best. While not condoning every Hamas operation, for vast numbers of Palestinians, the Islamists' current position on Israel and the use of violence against it also rang as a truer, more authentic expression of their feelings. In this, Prime Minister Sharon displayed greater discernment than the Israeli left: deep down, most Palestinians, though ready to accept Israel's existence, have not accepted its historical legitimacy; though supportive of a mutual cease-fire and peace agreements, they will not relinquish the right to fight for their land.

E fazendo uma ponte um bocado enviesada com este post na Praia, há uma sensação que sempre tenho quando leio artigos como este, muito bom, mas não especialmente melhor que muitos outros que encontramos regularmente na NYRB, na Atlantic Monthly, no Economist, no Times Literary Supplement, só para falar das coisas que leio menos irregularmente: é que, desculpem-me, mas tenho sérias dúvidas que haja um único português com o conhecimento de causa e a qualidade suficientes para escrever um artigo como este. Como este ou, repito, como muitos outros que encontramos todos os meses em publicações como as que mencionei. Voltei a pensar nisto quando li, na autobiografia da Maria Filomena Mónica, a história do artigo para a Atlantic sobre a revolução portuguesa que o Vasco Pulido Valente nunca chegou a enviar.

Para responder mais directamente ao post do Ivan: para se ser capaz, é preciso ser-se ou muito ignorante ou muito descarado. E peço que não vejam isto como um ataque à Atlântico ou às pessoas que lá escrevem. É só uma constatação sobre aquilo que temos.

quarta-feira, março 01, 2006

Sondagens na Palestina (2)

Mais uma:

Palestinian Center for Public Opinion, 16-20 Fevereiro, M=1003, Face-a-face.

I am going to read to you a series of policies and duties, which Hamas could follow. I would like you to tell me whether you strongly agree, somewhat agree, somewhat disagree, or strongly disagree with each of them.

Recognize the State of Israel.
Strongly agree:16.1%
Somewhat agree: 34.7%
Somewhat disagree: 17.0%
Strongly disagree: 31.5%
Don’t know: 0.7%

Continue the truce with the Israelis.
Strongly agree: 48.5%
Somewhat agree: 32.0%
Somewhat disagree: 11.3%
Strongly disagree: 8.1%
Don’t know: 0.1%

Resume the peace process with Israel.
Strongly agree: 32.2%
Somewhat agree: 37.5%
Somewhat disagree: 20.0%
Strongly disagree: 9.5%
Don’t know:0.8%

E uma citação do Political Aritmetik sobre as sondagens na Palestina, que vai de encontro e para além daquilo que eu próprio escrevi aqui.

I'm a strong "small-d" democrat. I don't know what Hamas will end up doing in office. And I don't expect miracles. But I do think that over the long haul (say 20-40 years) democratic institutions exert real pressure on political movements that enter the electoral arena. The IRA is a good example. It has taken a long time, but there has been real progress there. I hope the same for the Palestinians, though I think I am realistic about the long time frame required. What I so admire about the PCPSR, DSP and other Palestinian pollsters is that they are providing the independent data and analysis of what the Palestinian public thinks that is a necessary part of democratic institution building. Given the hard conditions in which they work, I'm very impressed with their excellence. I hope that they continue to provide the best data possible so that whoever runs the Palestinian Authority will have to consider what their public thinks.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Sondagem na Palestina

É em alturas como estas que me lembro de uma razão fundamental para que as sondagens devam existir: para que os cidadãos sejam ouvidos, e para que as suas vozes não sejam substituídas pelos palpites de quem acha que "sabe" o que "nós" queremos ou o que "eles" querem. Alguns exemplos:

Margem Ocidental e Faixa de Gaza, Jerusalem Media & Communication Center - Public Opinion Poll Unit, 8-12 Fevereiro, N=1200, Aleatória, Presencial

Q12. The PA is committed to the option of political negotiations with Israel. Do you believe that the new government headed by Hamas has to continue with the political negotiations, stop the political negotiations and should adopt other options?
To continue with the political negotiations: 66.3%
Stop the political negotiations 29.6%
No answer: 4.1%

Q17. Some believe that a two-state formula is the favored solution for the Israeli-Palestinian conflict, while others believe that historic Palestine cannot be divided and thus the favored solution is a bi-national state on all of Palestine where Palestinians and Israelis enjoy equal representation and rights. Which of these solutions do you prefer?
Two-state solution: an Israeli and a Palestinian: 57.9%
Bi-national state on all of historic Palestine: 22.3%
One Palestinian state:10.5%
Islamic state: 2.7%
No solution: 3.9%
Don't know 1.6%
No answer 1.1%

Q19. Do you support the resumption of the military operations against Israeli targets as a suitable response within the current political conditions, or do you oppose them and find them harmful to Palestinians national interests?
I oppose them and find them harmful to Palestinian national interests: 51.5%
Suitable response within the current political conditions: 43.8%
Others: 0.3%
Don’t know: 2.8%
no answer 1.6%

Q20. Hamas has executed violent operations against Israeli targets inside Israel and in the West Bank and Gaza strip against civilians and against military troops, now and after Hamas victory in the PLC elections, do you believe that Hamas should continue with such operations or that it should halt them?
Hamas has to stop its operations: 51.7%
Hamas has to continue with its operations: 39.1%
No answer 9.2%

Q24. If you voted for Hamas , why so?*
Religious Factors: 18.8%
Hope to end the Corruption: 43.0%
Hope to live in better living conditions: 10.7%
For their political agenda: 11.8%
To stop Fateh's control over the government:7.5%
Others 2.1%
No answer: 6.1%

*This question was asked who said that they voted for Hamas

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Piccolo divertimento

Em Itália, as eleições estão marcadas para o dia 9 de Abril de 2006. O crescimento económico médio nos últimos quatro anos não se recomenda: 0,7%. Em 2005, apenas 0,2%. A campanha deverá correr, em princípio, sob nova legislação obrigando a uma cobertura mediática equilibrada dos vários partidos. Mas as eleições vão decorrer sob um novo (mais um) sistema eleitoral, desta vez de representação proporcional, que deverá beneficiar a direita.

A Unione de Prodi procura desalojar a Casa de Berlusconi. Mas a Unione é tudo menos o que o nome indica: é um saco de gatos, reunindo desde democratas-cristãos (seja lá o que isso queira dizer hoje em Itália) até Trotsquistas (idem), cujo único objectivo em comum é correr com Berlusconi e repartir os despojos. E a Itália é a Itália, e Berlusconi é Berlusconi. Berlusconi esse que se descreveu há dias como "o Jesus Cristo da política", já prometeu que vai baixar os impostos, aumentar as pensões, e abstinência sexual até ao dia das eleições (esta última promessa já foi retirada, as outras ainda não).

Mas não se equivoquem: there is some method to his madness, como se diz no Economist.

Começo agora de mansinho, e deixo as análises complicadas lá mais para a frente. Notem, contudo:
- entre 1/5 e 1/4 de indecisos;
- margens para a Unione entre 0 e 8 por cento;
- e que essa margem de 0 por cento é dada por uma sondagem encomendada pela...Forza Italia. Ao menos aqui sabemos com o que contamos...

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

E mais uma...

Sem grande novidades de fundo em relação ao post anterior, mas com algumas respostas interessantes.

UK, Mori, 9-10 Fevereiro, N=601, Telefónica.

Q1-15 From what you have heard or read about the cartoons of the Prophet Mohammed which have been published in a number of European newspapers, do you agree or disagree that …(exemplos)

Q11 "British papers were right not to publish the cartoons"
Agree: 72%
Disagree: 16%
DK: 11%

Q12 "Muslims were right to be offended by the cartoons"
Agree: 62%
Disagree: 22%
DK: 16%

Mas...

Q6 "Demonstrators carrying placards calling for beheading and other acts of violence were justified"
Agree: 3%
Disagree: 93%
DK: 4%

Q7 "The Police should have arrested those demonstrators promoting acts of violence"
Agree: 80%
Disagree: 12%
DK: 8%

E a melhor de todas é que, afinal (tal como na Palestina)...

Q18 Have you personally seen the cartoons of the Prophet Mohammed which were published in some newspapers and shown on some television programmes and Internet sites?
Yes:25%
No: 74%
Don't know: 1%

As sondagens sobre os cartoons: novos dados e observações gerais

Uma nos Estados Unidos:
Gallup, 9-12 Fevereiro, N=1000, Telefónica

As you may know, several newspapers in Europe recently printed cartoons showing Mohammed, the founder of Islam, in ways that offended the religious views of many Muslims. Do you think the European newspapers that printed these cartoons acted responsibly or irresponsibly?
Responsibly: 29%
Irresponsibly:61%
No opinion: 10%

Overall, do you think this controversy is due more to?
Western nations’ lack of respect for the Islamic religion: 21%
Muslims’ intolerance of different points of view: 61%
Both: 6%
Neither: 2%
No opinion:9%

Which comes closer to your view—the U.S. news media have an obligation to show controversial items that are newsworthy even if they may offend the religious views of some people, the U.S. news media have an obligation to avoid offending the religious views of some people even if that prevents them from showing controversial items that are newsworthy?
Obligation to show controversial items: 57%
Obligation to avoid offending religious views: 33%
No opinion: 10%

Outra na Dinamarca:
Gallup, 8 a 10 de Fevereiro, N=1003, Telefónica

Would you say you understand why Muslims were offended by the cartoons?
Yes: 56%
No: 41%
Not sure: 3%

Do you think Jyllands-Posten was right or wrong to publish the cartoons?
Right: 43%
Wrong:49%
Not sure:8%

Só se conhecem percentagens agregadas e as sondagens não são rigorosamente comparáveis, e seria precipitado tirar grandes conclusões. Mas há algumas semelhanças e diferenças nas sondagens feitas em Inglaterra, Estados Unidos, França e Dinamarca:

-a existência de maiorias que defendem que a publicação não devia ter ocorrido ou foi irresponsável, sendo que na Dinamarca essa percepção não era inicialmente maioritária mas, pelos vistos, cresceu;

- a existência de maiorias que defendem o direito em abstracto a publicar informação ou comentário que podem ser ofensivos, em Inglaterra e, de forma algo mais mitigada, nos Estados Unidos (if controversial items are newsworthy). Mas não tanto em França (onde 65% defendem que o Islão não deve ser objecto de humor);

- "incompreensão"/"não aceitação" das "razões" da controvérsia ou da indignação por parte dos muçulmanos nos Estados Unidos ou em França, mas sim na Dinamarca.

O que explicará estas variações? Já havia tema para uma tese de mestrado.

Entretanto, na Palestina, o pior de dois mundos: a maioria não viu os cartoons, mas associa a responsabilidade pela sua publicação à Dinamarca como país.

Near East Consulting, 9-11 Fevereiro, N=1300, Face-a-face
Were the cartoons carried out on a private level or is it a general Danish position?
They represent a general position by Denmark: 62%
They were carried out on a private level:38%
Have you seen any of the Danish cartoons?
Yes: 31%
No: 69%

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Uma sondagem dos muçulmanos britânicos (pré-cartoons)

Comentada aqui, e apresentada em detalhe no site da Populus (consultar o Poll Archive).

Há dados reconfortantes, mas outros perturbantes. Menos de um terço dos muçulmanos britânicos recusa o direito à existência de Israel eum máximo de 16% (dependendo dos alvos e locais) acham que atentados suicidas podem ser justificados. Contudo, estas percentagens são sempre mais elevadas entre os mais jovens, que em todas as questões revelam maior radicalização. Questão "de idade" (ciclo de vida) ou uma nova geração mais fundamentalista?

Guerras (2)

E para aqueles cujo interesse na questão tratada no post anterior vai ao ponto de quererem dispender algum tempo adicional, gostava de sugerir a consulta destes powerpoints de aulas da Pippa Norris na Kennedy School em Harvard, onde se discute a questão com algum detalhe (aproveitando assim também para mostrar o tipo de coisas que um professor que domina as tecnologias de informação pode fazer pelos seus alunos): esta e esta.

Guerras

Agora que, em defesa da liberdade de expressão, Pacheco Pereira nos relembra que estamos em guerra (da mesma forma que, há uns meses, a mesma retórica lhe tinha servido em defesa limitações dos direitos cívicos impostas pelo Patriot Act e pelo Prevention of Terrorism Act), e agora que Paulo Gorjão nos convida a irmos à fonte (Huntington e o choque das civilizações), há uma afirmação de Huntington nesse famoso artigo que merece ser examinada:

At a more basic level, however, Western concepts differ fundamentally from those prevalent in other civilizations. Western ideas of individualism, liberalism, constitutionalism, human rights, equality, liberty, the rule of law, democracy, free markets, the separation of church and state, often have little resonance in Islamic, Confucian, Japanese, Hindu, Buddhist or Orthodox cultures. Western efforts to propagate each ideas produce instead a reaction against "human rights imperialism" and a reaffirmation of indigenous values, as can be seen in the support for religious fundamentalism by the younger generation in non-Western cultures.

Foi o que fizerem Ronald Inglehart e Pippa Norris, aqui. Os dados utilizados são do World Values Survey entre 1995 e 2001, resultantes de inquéritos aplicados não só na maior parte dos países ocidentais mas também no Irão, Egipto, Argélia, Turquia, Indonésia, Marrocos, Jordânia, Azerbeijão, Turquia e Bangladesh, entre outros. As questões colocadas foram as seguintes:






















Os resultados obtidos foram estes:























Conclusões:

1. With the exception of Pakistan, most of the Muslim countries surveyed think highly of democracy: In Albania, Egypt, Bangladesh, Azerbaijan, Indonesia, Morocco, and Turkey, 92 to 99 percent of the public endorsed democratic institutions—a higher proportion than in the United States (89 percent);

2. A solid majority of people living in Western and Muslim countries gives democracy high marks as the most efficient form of government, with 68 percent disagreeing with assertions that “democracies are indecisive” and “democracies aren’t good at maintaining order.” (...) And an equal number of respondents on both sides of the civilizational divide (61 percent) firmly reject authoritarian governance, expressing disapproval of “strong leaders” who do not “bother with parliament and elections.”

3. Muslim societies display greater support for religious authorities playing an active societal role than do Western societies. (...) Citizens in some Muslim societies agree overwhelmingly with the statement that “politicians who do not believe in God are unfit for public office” (88 percent in Egypt, 83 percent in Iran, and 71 percent in Bangladesh), but this statement also garners strong support in the Philippines (71 percent), Uganda (60 percent), and Venezuela (52 percent). Even in the United States, about two fifths of the public believes that atheists are unfit for public office.

4. When it comes to attitudes toward gender equality and sexual liberalization, the cultural gap between Islam and the West widens into a chasm. On the matter of equal rights and opportunities for women—measured by such questions as whether men make better political leaders than women or whether university education is more important for boys than for girls—Western and Muslim countries score 82 percent and 55 percent, respectively. Muslim societies are also distinctively less permissive toward homosexuality, abortion, and divorce.

5. “The peoples of the Islamic nations want and deserve the same freedoms and opportunities as people in every nation,” President Bush declared in a commencement speech at West Point last summer. He’s right. Any claim of a “clash of civilizations” based on fundamentally different political goals held by Western and Muslim societies represents an oversimplification of the evidence. Support for the goal of democracy is surprisingly widespread among Muslim publics, even among those living in authoritarian societies. (...) But economic development generates changed attitudes in virtually any society. (...) Thus, relatively industrialized Muslim societies such as Turkey share the same views on gender equality and sexual liberalization as other new democracies.
(...)
The United States cannot expect to foster democracy in the Muslim world simply by getting countries to adopt the trappings of democratic governance, such as holding elections and having a parliament. Nor is it realistic to expect that nascent democracies in the Middle East will inspire a wave of reforms reminiscent of the velvet revolutions that swept Eastern Europe in the final days of the Cold War. A real commitment to democratic reform will be measured by the willingness to commit the resources necessary to foster human development in the Muslim world. Culture has a lasting impact on how societies evolve. But culture does not have to be destiny.

Os franceses e os cartoons

CSA, 8 de Fevereiro, N=1000, Telefónica

Vous savez que la publication des caricatures du prophète Mahomet a suscité de l'indignation chez certains musulmans. Diriez-vous que vous comprenez tout à fait, plutôt, plutôt pas ou pas du tout cette indignation ?
Comprend tout à fait: 14%
Comprend plutôt: 22%
Ne comprend plutôt pas: 18%
Ne comprend pas du tout: 35%
Ne se prononcent pas: 11%

Vous savez que certaines personnes se demandent si l'on peut rire sur tous les sujets. Diriez-vous que c'est une très bonne chose, plutôt bonne chose, plutôt mauvaise chose ou très mauvaise chose de faire de l'humour sur…? (percentagens "mauvaise chose"):

Le handicap des personnes: 84%
L'islam: 65%
L'origine ethnique, la nationalité des personnes: 64%
Le judaïsme: 63%
Le christianisme: 60%
Le comportement sexuel des personnes: 55%

Selon-vous les journaux ont-ils eu raison ou tort de publier les caricatures du prophète Mahomet ?

Ils ont eu raison au nom de la liberté d'expression: 38%
Ils ont eu tort car cela constituait une provocation inutile: 54%
Ne se prononcent pas: 8%

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Os ingleses e os cartoons

Populus UK, 3-5 Fevereiro, N= 1508, Telefónica

Do you agree with the following statements? (saldo a favor da frase, ou seja, percentagem de respostas "sim" - respostas "não, por ordem decrescente)

Newspapers have the right in principle to publish the cartoons, but they should not do so out of respect for the Muslim community: +40%

Muslims should accept the principle of freedom of speech, which means that newspapers must be free to publish such cartoons if they choose: +38%

The cartoons should be banned from publication because they cause grave offence to Muslims: +13%

By not publishing the cartoons, in the face of protests and warnings about terrorist attacks, the British press is giving into terrorism: - 24%

Em resumo, as opiniões claramente maioritárias são:
- não os deviam ter publicado;
- mas devem poder fazê-lo se quiserem;
- e não, não estamos a ceder ao terrorismo pelo facto de não os publicarmos.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Têm dias

Muito do que tenho lido na blogosfera e na imprensa sobre o caso dos cartoons - especialmente quando se colocam as coisas em termos como a "defesa dos valores ocidentais" - faz-me pensar naquilo que investigação empírica na área da opinião pública e da cultura política nos diz sobre o tema da "tolerância", ou seja, "a disponibilidade para permitir a expressão de ideias e interesses a que nos opomos".

Os clássicos são os livros de Herbert McClosky e John Sullivan, e as conclusões não são particularmente surpreendentes: quando as questões são colocadas em abstracto ("Acredita na liberdade de expressão para todos, sejam quais forem as opiniões expressas?", por exemplo), a maioria dos cidadãos tende a manifestar concordância. É por aqui, contudo, a defesa do "Ocidente" como bastião da tolerância e da liberdade começa a esboroar. Vale a pena (a propósito deste assunto e de muitos outros) ler isto (.pdf) com alguma atenção, onde se mostra que aquilo que realmente distingue as opiniões públicas dos países ocidentais e islâmicos não é a posição dos indivíduos sobre os ideais e valores da democracia política mas sim as suas posições sobre valores sociais, tais como a liberalização dos costumes ou a igualdade entre os sexos. Há um choque de civilizações sim, mas não onde normalmente se julga...

Mas a coisa complica-se ainda mais quando se aprecia até que ponto vai realmente a "tolerância" dos "ocidentais": uma coisa é a resposta "ideológica" e "normativa", outra coisa é a resposta concreta em relação aos direitos de grupos concretos. É sabido, inquérito após inquérito, que nos Estados Unidos, por exemplo, mais de dois terços dos cidadãos, após estimulados a seleccionar um grupo social cujas opiniões ou comportamentos mais deplore, responde depois sem hesitar que um membro desse grupo não deveria poder ensinar em escolas públicas, fazer manifestações, ou ter uma coluna de opinião no jornal. E as coisas pioram quanto mais próximo do inquirido se coloca a acção: a recusa de manifestações desse grupo na cidade onde se vive é ainda mais acentuada do que a recusa genérica.

E se pensam que isto é um fenómeno americano, think again: se se pode dizer alguma coisa é que na Europa os níveis de intolerância política tendem a ser mais elevados que nos Estados Unidos, desde que se coloquem os indivíduos perante grupos concretos (e não abstracções piedosas).* Isto apesar dos objectos concretos da intolerância variarem de sociedade para sociedade (sendo que na Europa um desses objectos tendem a ser as minorias étnicas, enquanto que nos Estados Unidos tendem a ser grupos políticos ou minorias sociais). A tolerância tem limites, que só são largos quando tudo se passa ao nível da mais pura abstracção. E é selectiva, sendo maior quando mais se aplica a um grupo ou interesse com o qual menos antipatizamos.

Não me surpreende, por isso, que alguns daqueles que (e bem, para o meu gosto) agora se colocam ao lado da liberdade de expressão sejam também aqueles que, há bem pouco tempo, acusavam os que criticavam as limitações aos direitos cívicos dos ingleses e dos americanos a propósito do Prevention of Terrorism Act ou do Patriot Act de "tibieza" em relação ao terrorismo e desígnios anti-ocidentais. De facto, como a pesquisa demonstra, a "tolerância" e a "liberdade" têm dias.

*Ver, por exemplo, M. Peffley e R. Rohrschneider, "Democratization and Political Tolerance in 17 Countries", Political Research Quarterly, Vol. 56, 2003.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Dinamarqueses divididos sobre cartoons (actualizado)

Epinion, 3 de Fevereiro, N=509, Telefónica

Considering the events that have occurred in the past week, should Jyllands-Posten have published the cartoons featuring Mohammed?
Yes: 47%
No: 46%
Not sure: 7%

Should Prime Minister Anders Fogh Rasmussen apologize on Denmark's behalf?
No: 79%
Yes: 18%
Not sure:3%

E just in case you're wondering, a minha opinião sobre o assunto é, sem tirar nem pôr, exactamente, e muito melhor do que eu alguma vez poderia ter colocado, esta.