quarta-feira, setembro 27, 2006

Polémicas

Lá também há. Excertos:

SAMBA DA PESQUISA DOIDA
Se você estava em dúvida entre o Ibope e o Datafolha, agora já tem à sua disposição o Sensus, visto pelo mercado como uma espécie de Heloisa Helena entre os institutos. A última sondagem do Sensus, divulgada nesta terça, informa que Lula está com 51,4% das intenções de voto, contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin.São números diferentes dos que foram coletados pelo Datafolha (49% X 31%) e muito diferentes dos informados pelo Ibope (47% X 33%). Os pesquisadores do Datafolha foram às ruas na sexta-feira. Os do Ibope, de quarta a sexta. E os do Sensus, de sexta a domingo. Há pelo menos um ponto de contato entre as três pesquisas: a sexta-feira. Levando-se em conta que o eleitorado cujos humores se tenta medir é rigorosamente o mesmo, pode-se concluir: tem instituto que vai sair dessa eleição com a credibilidade carbonizada. A margem de erro dessa conclusão é zero. Logo mais teremos novas pesquisas. Essa disputa está bem mais interessante do que a briga entre os presidenciáveis. A propósito, Geraldo Alckmin considerou o resultado da pesquisa Sensus “um escândalo”.

Pesquisas divergem; em quem acreditar?
Gustavo Krieger

Do Correio Braziliense
O Ibope diz que a vantagem de Lula sobre a soma dos candidatos de oposição é de três pontos. Para o Datafolha, são oito. O Sensus aposta em 15 e o Vox Populi em 17. Tudo isso em pesquisas divulgadas num intervalo de cinco dias. Afinal, em quem acreditar? Para qualquer candidato, pesquisa boa é aquela que o mostra na dianteira. A verdade é que todas seguem métodos científicos. Mas cada uma tem o seu método e estas diferenças ajudam a explicar os índices disparatados. A metodologia do Sensus é domiciliar: os pesquisadores vão até a casa dos eleitores para aplicar os questionários. O Datafolha adota a “abordagem em pontos de fluxo populacional”. Escolhem pontos de grande concentração, como o Viaduto do Chá, em São Paulo ou a plataforma da rodoviária, em Brasília. Para compensar eventuais distorções, o Datafolha faz mais entrevistas que seus concorrentes. Na última rodada, ouviu 4.319 pessoas, contra 2 mil do Sensus e 2002 do Ibope. O perfil dos eleitores também é diferente. Lula é mais forte entre os mais pobres, menos instruídos ou que vivem no interior. Quanto mais destes eleitores na amostra, mais votos ele terá. O Sensus divide a pesquisa entre áreas urbanas e rurais, enquanto a Datafolha se concentra em cidades. O resultado é que uma é mais urbana que a outra e a diferença pode ser grande. Na pesquisa do Sensus de ontem, Lula obteve dez pontos percentuais a mais nas áreas rurais que nas cidades. Há discrepância também na divisão por escolaridade. Na pesquisa do Ibope, 27% dos pesquisados tinham estudado até a quarta série. No Sensus, este segmento representava 35%. Para a Sensus, os eleitores com ensino médio são 29% dos pesquisados. No Ibope são 37% e no Datafolha 39%. Este deslocamento muda o resultado da pesquisa. Lula tem em média 20 pontos percentuais a mais entre os eleitores menos instruídos que entre os que fizeram o segundo grau. Cada instituto tem justificativas para suas escolhas. Domingo à noite, será possível saber quem está certo.

A disputa das pesquisas
Mais curiosa do que a disputa eleitoral propriamente dita tem sido a guerra dos números das pesquisas eleitorais. Ontem, por exemplo, o Instituto Sensus apresentou à opinião pública seu novo levantamento: Lula está com 51,4% das intenções de voto contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin. A pesquisa foi realizada entre a última sexta-feira e domingo. Praticamente no mesmo período, Ibope e DataFolha também foram a campo. Os resultados apurados, respectivamente, são os seguintes: 47% (Lula) e 33% (Alckmin); e 49% (Lula) e 31% (Alckmin). A diferença dos percentuais de dois institutos (Ibope e Data Folha) em comparação com o Sensus é elevada demais, confundindo inclusive todos aqueles que acompanham os desdobramentos da campanha, mesmo porque todos, simultaneamente, estão tentando fotografar o mesmo momento eleitoral. Se houver equívoco ou manipulação de dados, a partir de segunda-feira os incautos pagarão um preço alto demais: a perda da credibilidade – um elemento crucial de sobrevivência de quem tem como negócio principal a realização de pesquisas de opinião.

Na verdade:

1. As diferenças entre os resultados apresentados pelos institutos são potencialmente muito maiores do que as ditadas pela margem de erro amostral ou pelos momentos diferentes no tempo em que são aplicadas. Amostragem, método de inquirição, questionário, aplicação do inquérito, ponderações a posteriori, todos estes são factores que podem causar diferenças entre os resultados obtidos;

2. Apesar disso, há métodos que permitem detectar se existem tendências detectadas por todos os institutos, independentemente de metodologias utilizadas. Foi o que fiz aqui. As intenções de voto válidas em Lula têm vindo a descer. E não há quaisquer sinais de que o dossiê Serra tenha produzido efeitos: a tendência de descida é anterior ao escândalo e o seu ritmo não mudou.

3. O que não é possível saber: o que vai acontecer no Domingo. As pesquisas feitas até agora são o passado. O Domingo é o futuro. Há abstenção, há votos brancos e nulos, há mudanças de opinião. E os resultados não dão uma vantagem suficiente a Lula para que uma vitória à 1ª volta esteja, com um grau de certeza elevado, ao abrigo destas mudanças futuras.

4. E o passado ajuda a fazer inferências sobre o futuro: há resultados eleitorais passados, e o confronto entre eles e as sondagens revela que o favorito foi beneficiado nas sondagens em relação àquilo que acabou por acontecer (mais sobre isto, com dados, no final desta semana).

Logo, se me perguntassem, eu diria que a vitória à 1ª volta está em risco muito sério. Lula sabe disso, obviamente.

terça-feira, setembro 26, 2006

Sensus

Divulgada há poucas horas, a última pesquisa Sensus dá 59% de intenções de votos válidos a Lula. Convém ter atenção, contudo, ao facto dos últimos resultados da Sensus para Lula terem ficado acima da tendência: 61% no início de Agosto e 62% no final de Agosto. Isto não significa, claro, que estejam errados. Significa apenas que são outliers em relação à tendência geral (da mesma forma que as sondagens do IBPS e, até certa altura, as da Vox Populi, foram outliers no sentido oposto).

segunda-feira, setembro 25, 2006

E com a pesquisa IBOPE divulgada ontem...

Lula aparece com 52% de intenções válidas de voto. O quadro completo:



As conclusões anteriores não mudam, contudo. Há descida, mas prolonga tendência anterior.

Os efeitos do "dossiê Serra" (3)

A terceira maneira de ver a coisa é pensar na passagem do tempo como uma variável explicativa dos valores estimados nas sondagens e estimar esse efeito controlando os "house effects" (o facto da sondagem ter sido feita por este ou aquele instituto) e retirando a constante da equação de regressão. Assim, ficamos com valores das intenções válidas de voto para Lula associados a um cada período de tempo, independentemente do instituto que realizou a pesquisa. O valor da "2ª quinzena de Setembro" mostra como estão as coisas após a divulgação do caso:

Lula desce. Mas já vinha a descer a partir de final de Agosto. E não desce da primeira para a segunda quinzena de Setembro a um ritmo superior àquele em que descida da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro.

Veredicto preliminar:

1. As intenções válidas de voto em Lula estão a descer;

2. Não sabemos se o "dossiê Serra" está a produzir qualquer efeito. A tendência de descida é anterior à divulgação do escândalo.

Stay tuned.

Os efeitos do "dossiê Serra" (2)

Outra maneira de vermos a coisa consiste em olharmos para o conjunto de todas as sondagens, ajustarmos uma curva de regressão local e ver "a olho" o que se poderá ter passado:
Tudo o que está à direita da linha vertical são sondagens divulgadas após o escândalo do dossiê. Lula parece estar a descer, sim. Mas já vinha a descer antes da divulgação, como já se dizia aqui.

Os efeitos do "dossiê Serra" (1)

Como podemos avaliar se a divulgação do escândalo ligado ao "dossiê Serra" afectou as intenções de voto para as presidênciais no Brasil. Não é fácil, mas vamos por partes.

Uma primeira aproximação à questão pode ser feita comparando os resultados das últimas sondagens realizadas antes da divulgação pública do caso com aqueles que foram realizadas a seguir:


Em três das quatro sondagens para as quais temos ponto de comparação, Lula desce. E note-se que a excepção é a Vox Populi, onde a comparação é feita com uma sondagem de finais de Agosto. Claro que, olhando para cada sondagem individualmente, a diferença pré-pós não é estatisticamente significativa, podendo estar recoberta pela margem de erro amostral. Mas quando três em cada quatro sondagens detectam uma mesma tendência, a incerteza diminui.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Brasil pós-escândalo

Nada como um escândalo de última hora para animar uma eleição. Agora é o "dossiê" Serra. Detalhes aqui.

Os números de sondagens realizadas após a denúncia do escândalo (a vermelho, no quadro seguinte) são algo contraditórios (adiciono as duas últimas sondagens Ipespe, um instituto que me tinha passado completamente ao lado; daqui a dias apresento as sondagens anteriores):



Na sondagem Datafolha, não há efeito visível. Nas sondagens IBOPE e Ibespe, há diminuição das intenções válidas de voto. E na sondagem Vox Populi, Lula sobe (em virtude da redistribuição de um comparativamente grande número de indecisos). 2ª feira prometo tentar desvendar o mistério...

terça-feira, setembro 19, 2006

Brasil, a menos de duas semanas

Com mais duas sondagens nos últimos dias (IBOPE e Datafolha), apresento a estimativa para a evolução das intenções válidas de voto nas duas candidaturas, limpas de "house effects". Da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro, a tendência é de ligeiras descidas de Lula e Helena, e subida de Alckmin.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Transatlantic Trends 2006

Com impecável sentido de oportunidade, foi divulgado há dias mais um relatório da série Transatlantic Trends, um inquérito de opinião anual que examina as atitudes de Europeus e Norte-Americanos em relação à relação transatlântica.

Principais resultados:

1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;

2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;

3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;

4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo (e quem me tiver lido hoje no Público imaginará como me congratulo com estas opiniões...);

5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa;

De notar que Portugal faz parte dos países estudados, graças ao apoio da FLAD, a quem devemos dar os parabéns por continuar a apoiar a nossa integração neste Transatlantic Trends. Temos algumas especificidades, tais como vermos a imigração como ameaça importante ou darmos forte apoio à europeização da política externa, entre outras.

Mas o melhor é ler tudo. É o que farei nos próximos dias.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Brasil: actualização

Mais três sondagens na nossa lista: Vox Populi, IBOPE e Datafolha, esta última já em Setembro.


A menos de um mês das eleições, convergência em torno de 57-58% para Lula, mesmo por parte de institutos que, antes, tinham dado valores abaixo (Datafolha e Vox Populi) e acima (IBOPE) da tendência para Lula.

Com o endurecimento da campanha e o tempo de antena, Alckmin sobe. Também aqui institutos que antes tendiam a "beneficiar" (Vox Populi) ou "prejudicar" (IBOPE) Alckmin têm resultados recentes muito convergentes:


Mas se Lula mantém e Alckmin sobe, alguém tem de descer...


Por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui discutem-se os resultados das sondagens no Brasil, com alguns detalhes adicionais sobre a desagregação dos resultados e pesquisas qualitativas.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Sondagem Gallup International em 33 países: Israel e Líbano

A Gallup International, através das suas filiadas, conduziu uma sondagem em 33 países (incluindo Israel e Líbano) na 2ª e 3ª semanas de Agosto. O relatório é muito longo e pode ser lido aqui (.pdf).

Os resultados globais têm um interesse relativo (%'s da amostra geral acham isto ou aquilo), dado que dependem de algo que, de alguma forma, os predetermina: a escolha de países onde ocorreram sondagens. Foram estes:

Argentina, Austrália, Austria, Camarões, Canadá, Croácia, Finlândia, Alemanha, Geórgia, Grécia, Islândia, Índia, Indonésia, Irlanda, Israel, Coreia do Sul, Kosovo, Líbano, Luxemburgo, Moldova, Marrocos, Noruega, Paquistão, Portugal, Roménia, Rússia, Senegal, África do Sul, Suécia, Suíça, Reino Unido, Estados Unidos, Vietname.

E há ainda outro problema. As amostras variam muito de dimensão, entre 300 (na Grécia) e 1392 (na Rússia) - o que não me parece especialmente problemático - mas, nalguns casos, as amostras representam exclusivamente populações urbanas: Grécia (porquê?), Camarões, Geórgia, Indonésia, Líbano, Marrocos, Paquistão, Portugal (porquê?), Noruega (porquê?), Roménia, Senegal (Dakar), Suécia (porquê?) e Vietname. Nada disto invalida os resultados, mas faz com que tenhamos que os ver como são: em vários casos, não podem ser vistos como representativos da opinião da população nacional. Daí que fazer grandes agregações de resultados com todas as sondagens me pareça um exercício de interesse duvidoso.

Olhando para os resultados de outro ponto de vista, que dizer?

1. Who do you think initiated the war in Lebanon; Israel or Hezbollah?
Em geral, cerca de um terço dos inquiridos não respondeu. Na Alemanha, no Luxemburgo, no Reino Unido, no Canadá e Estados Unidos (e Israel, claro), maiorias defendem que foi o Hezbollah. Nos restantes casos, predomina a colocação da responsabilidade em Israel, de forma mais extrema nos países asiáticos e africanos incluídos no estudo do que nos países europeus (Grécia é excepção, mas eu não levaria os resultados gregos excessivamente a sério, pelas razões antes mencionadas).

2. Do you think Israel has gone too far, has taken about the right amount of military action or has not gone far enough?
A resposta simples e rápida é "too far", para maiorias em todos os países menos nos Estados Unidos e, claro, Israel.

3. Which side do you sympathize with more?
Aí está uma pergunta sem paninhos quentes. Mas portugueses, suíços, suecos, alemães, finlandeses e luxemburgueses repõem os paninhos: nem com uns nem com outros. Nos países asiáticos - incluindo, note-se, Coreia do Sul e Vietname - a resposta mais mencionada é "Hezbollah". O mesmo em África. Excepções: Índia e África do Sul, of course.

4. Há maiorias em todos os países apoiando a ideia de que a UN deve enviar uma força de manutenção de paz. Um consenso um bocado gasoso.

5. Um consenso porventura menos esperado e talvez menos gasoso. Cito: "In most participating countries, including the whole list of Western Europeans, the majority mentions Israel’s actions increase Hezbollah’s popularity, reaching a peak of agreement in Lebanon (79%; 65% fully agree) and Senegal (80%)." E até em Israel e nos Estados Unidos sucede isto: "in Israel, tough the majority believes support for Hezbollah will not increase (60%) a significant proportion of 36% differs. In the US although 43% states Israel’s action will spur support for Hezbollah, 26% disagrees. "

6. Uma profunda clivagem: "there appears to be consensus in considering Hezbollah as a terrorist organization in most of the countries that participated in the survey, reaching a peak of virtually all Israelis (97%). The exception [e que excepções] is countries with high proportion of Muslims such as Indonesia, Pakistan, Morocco and Senegal where more than half do not consider Hezbollah a terrorist organization. 87% of Lebanese are in this group".

7. Cito: "In Western Europe half the countries surveyed have higher proportion of people stating troops should not be sent (Austria, Portugal, Germany, Greece, Switzerland and UK) while in the other half, the strongest opinion is supportive (Sweden, Norway, Luxembourg, Ireland, Iceland and Finland).". Este nosso governo, de facto, não brinca em serviço quando se trata de tomar a opinião pública em consideração.

Há outras perguntas, mas estas pareceram-me as mais interessantes. O link para o relatório completo está lá em cima.

O relatório é de dia 28. Será que algum jornal português já apresentou estes resultados? E especialmente os resultados em Portugal? Não reparei.

Reader's Guide to Polls

Já que estamos nisto, e via pollster.com, cheguei a um texto de Jack Rosenthal, publicado no New York Times. Tudo isto já foi escrito e repetido mil vezes, mas vale sempre a pena repetir. Transcrevo algumas passagens:

Precisely False vs. Approximately Right: A Reader’s Guide to Polls
By JACK ROSENTHAL
Published: August 27, 2006


"False Precision
Beware of decimal places. When a polling story presents data down to tenths of a percentage point, what the pollster almost always demonstrates is not precision but pretension."


"Sampling Error
For a typical election sample of 1,000, the error rate is plus or minus three percentage points for each candidate, meaning that a 50-50 race could actually differ by 53 to 47. But the three-point figure applies only to the entire sample. How many of those are likely voters? In the recent Connecticut primary, 40 percent of eligible Democrats voted. Even if a poll identified the likely voters perfectly, there still would be just 400 of them, and the error rate for that number would be plus or minus five points. This caution applies forcefully to conclusions about other subgroups. What could a typical survey tell about, say, college-age women? Out of a random sample of 1,000, a little more than half would be women and only about 70 would be of college age. That’s too small a subsample to support any but the most general findings."


"Questions
How questions are phrased can mean wide shifts, even with wholly neutral words. Men respond poorly, for instance, to questions asking if they are “worried” about something, so careful pollsters will ask if they are “concerned.”
(...) The order of questions is another source of potential error. That’s illustrated by questions asked by the Pew Research Center. Andrew Kohut, its president, says: 'If you first ask people what they think about gay marriage, they are opposed. They vent. And if you then ask what they think about civil unions, a majority support that.'"

"Answers
People never wish to look uninformed and will often answer questions despite ignorance of the subject. (...) Respondents also want to appear to be good citizens. When the Times/CBS News Poll asks voters if they voted in the 2004 presidential election, 73 percent say yes. Shortly after the election, however, the Census Bureau reported that only 64 percent of the eligible voters actually voted. Jon Krosnick, an authority on polling and politics at Stanford, uses the term “satisficing” to describe behavior when a pollster calls. If people find the subject compelling, they become engaged. If not, they answer impatiently. Either way, says Kathy Frankovich, director of surveys for CBS News, 'people grab the first thing that comes to mind.'"


"Intensity
How strongly people feel about an issue may be the most important source of poll misunderstanding. In survey after survey, half the respondents favor stronger gun controls — but don’t care nearly as much as the 10 percent who want them relaxed."


"Public opinion is not precise, and in any case it is constantly churning. Measuring it cannot hope to be precise. What readers can hope for, whether in an individual poll, a consensus from several polls or from the polling profession generally, is the truth — approximately right."

Blumenthal + Franklin

Os dois blogues que me servem de referência para o que significa informar sobre e analisar sondagens - o Mystery Pollster e o Political Arithmetik - conduzidos por Mark Blumenthal e Charles Franklin, decidiram juntar forças aqui: pollster.com. O Political Arithmetik continua - ainda bem - a ter existência própria. A não perder, especialmente tendo em conta a aproximação das "midterm elections" no Estados Unidos.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Ciência Política no Brasil

Através deste site, cheguei ao site da Associação Brasileira de Ciência Política, um lugar de visita indispensável a quem se interessa a sério pela política no Brasil. Especialmente interessante é a lista de papers apresentados no último encontro (o 5º; nós por cá na APCP ainda só tivemos três), que foi em Belo Horizonte. O site não é particularmente amigável, mas se clicarem em "Programação" e forem às sessões temáticas lá encontrarão os papers.

Vale muito a pena ler vários, entre os quais este (.pdf), de Yan de Souza Carreirão, sobre os efeitos do Mensalão nas preferências, atitudes políticas e intenções de voto dos brasileiros. Principais conclusões (ainda preliminares, note-se):

1. "Começando pelas preferências partidárias: foram afetadas pelo "mensalão", mas de forma não muito intensa, embora aparentemente mais duradoura, já que o PT, mesmo tendo se recuperado um pouco em relação ao período mais crítico, parece ter perdido algo em torno de 5% das preferências em âmbito nacional, comparando com o período "pré-mensalão". Nenhum partido conseguiu crescer significativamente com o declínio do PT; o efeito principal do "mensalão", parece ter sido o do aumento do descrédito dos eleitores nos partidos e nos políticos, em geral."

2. "Contrariamente ao que ocorreu nas três últimas eleições presidenciais, mas, de forma semelhante ao que ocorreu em 1989, as clivagens socioeconômicas (de renda, escolaridade e região do país) têm se mostrado relevantes para diferenciar os eleitores, segundo a avaliação que fazem do governo e segundo suas intenções de voto. São os mais pobres, menos educados e das regiões mais pobres que avaliam melhor o governo e votam mais em Lula."

3. "A avaliação moral tem um impacto relevante: isso fica claro com o declínio da aprovação ao governo, da preferência pelo PT e das intenções de voto em Lula, durante o auge da crise do "mensalão", bem como as variações nestas variáveis, segundo as opiniões dos eleitores sobre corrupção. Mas, a avaliação dos resultados das políticas econômica e social do governo também mostra sua força ao longo de todo o período. A manutenção da estabilidade econômica, com taxas de crescimento econômico um pouco maiores do que as ocorridas no governo anterior; o aumento do emprego com carteira assinada; um maior crescimento do poder de compra do salário mínimo; a ampliação da abrangência e do volume de recursos destinados aos programas sociais do governo que implicam em transferência de renda (especialmente o Bolsa Família), tudo isso parece ter neutralizado, em grande parte, os efeitos negativos das denúncias do "mensalão" e resultado numa avaliação mais positiva do governo Lula, comparado ao governo FHC, especialmente nos segmentos mais pobres e mais beneficiados pelo aumento do salário mínimo e pelos programas sociais."

E uma pergunta muito interessante:

"Central para ponderar a influência de cada um destes fatores é a interpretação sobre as causas da recuperação da avaliação do governo e das intenções de voto no presidente Lula, ao longo do presente ano. É possível pensar que essa recuperação se deva em parte a uma avaliação "final" (até o momento) de que o presidente Lula não estava envolvido nos fatos revelados pelas acusações. Outra possibilidade é a de que essa recuperação seja fruto de uma percepção mais "cínica": o que importaria seria a avaliação sobre os benefícios trazidos pelas políticas governamentais, independente da moralidade das suas ações. O fato de serem especialmente os mais pobres, menos escolarizados e da região Nordeste que avaliam melhor o governo e têm maiores intenções de voto no presidente, coloca como questão crucial a relação de causalidade: estes segmentos sustentam o presidente por terem menos informações e, portanto, por não conseguirem avaliar "corretamente" a gravidade das acusações e o grau de envolvimento do presidente, ou por se sentirem beneficiários dos resultados das políticas governamentais ?"

A história do próximo dia 1 de Outubro já começou a ser escrita. À atenção daqueles que se interessam por estas coisas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Vietname/Iraque

Um artigo interessante que explica por que razão o paralelismo entre a situação no Iraque e no Vietname tem limites, sugerindo que os desafios enfrentados no primeiro caso são muito menos complexos que no segundo. A contrapor com outro, também recente, igualmente apontando as diferenças entre os dois contextos, mais analítico e ligeiramente menos optimista.

Só lhes falta explicar por que razão essa diferença objectiva (a favor, apesar de tudo, das perspectivas no Iraque) tem como contraponto uma opinião pública que ficou muito mais pessimista muito mais depressa e com muito menos baixas. Mudança de valores sociais? Papel da comunicação social? Polarização de opiniões sobre presidência Bush? Rápida deslegitimação da intervenção por revelação do logro das WMD's?

Eleições Brasil (longo)

Nova rodada de pesquisas eleitorais no Brasil: Sensus, IBOPE e Datafolha. Começo por dizer que, quando olhamos para as intenções válidas de voto (eliminando e redistribuindo proporcionalmente as percentagens de indecisos, votos e branco e não respostas), todas apontam para uma muito ligeira subida de Lula. De 61 para 62% na Sensus; de 56 para 57% na Datafolha; e (num mais curto espaço de tempo), de 57 para 59% no IBOPE. A subida nem mereceria menção se não tivesse ocorrido nas três sondagens, o que diminui a probabilidade de ser fruto de mero erro amostral.



O gráfico seguinte mostra a evolução dos resultados para Lula, ajustando aos pontos obtidos uma curva de regressão local. É visível, quando tomamos em conta toda a informação disponível, que a descida de Lula em meados de Julho aqui assinalada parece ter sido mero acidente de percurso.


É evidente que a evolução mostrada no quadro anterior está muito dependente do número de sondagens feitas por cada instituto e o momento em que a fizeram. Logo, podemos estimar uma intenção de voto "mensal" para cada candidato que seja independente dos "house effects" trazidos para os resultados por cada instituto (ver aqui como se faz):



Por outras palavras, independentemente do instituto que realizou a pesquisa, a melhor estimativa para as intenções de voto em Lula nas pesquisas realizadas em Agosto é de 56,1%, uma subida em relação a Julho. Alckmin desce e Helena sobe, apesar de, em relação a esta última, os dados de mais curto prazo (as últimas sondagens de Agosto) sugerem que as coisas estão menos bem que no início do mês de Agosto.

Falta um mês. O que pode mudar? Começo por assinalar aquilo que alguns portugueses já sabem: os institutos brasileiros têm excelente reputação internacional, apesar de serem ajudados, no que diz respeito à relação entre as estimativas que dão e os resultados eleitorais, pelo voto obrigatório.

Noto também um único elemento de incerteza em relação aos resultados dados até agora: o único instituto (IBPS) que utilizou uma metodologia de amostragem e de inquirição diferente dos restantes (selecção aleatória de inquiridos e telefónica) deu resultados significativamente mais baixos para Lula do que os restantes. Tudo o resto - excepto o IBOPE no início de Junho - são sondagens muito próximas umas das outras. Não sei se há algum brasileiro a ler isto que nos possa ajudar, mas eu gostava de saber se, no passado, o desempenho das sondagens pareceu ser afectado por opções sobre amostragem e inquirição. O meu palpite é que telefónicas no Brasil hão-de comportar grandes problemas de exclusão das camadas mais pobres da população - domicílios sem telefone - e daí piores resultados para Lula e, potencialmente, mais longe dos valores reais da população. Mas é só um palpite.

O que parece, tendo em conta os baixos números de indecisos, é que a coisa está quase feita: Lula tem tudo para ganhar no 1º turno. Contudo, eleições presidenciais em países com sistemas de partidos com baixíssimos níveis de institucionalização ajudam a criar um eleitorado muito volátil, muito sensível a factores de curto prazo. Pelo que convém ir vendo o que as próximas sondagens vão dizer.

terça-feira, agosto 29, 2006

A opinião pública libanesa

Seria bom se tivéssemos uma maneira de apreciar o efeito da guerra no Médio Oriente na opinião pública libanesa em relação ao Hezbollah. Mas não é nada fácil. O exemplo junto mostra como a simples escolha de opções de resposta a uma mesma pergunta em duas sondagens diferentes pode inviabilizar uma comparação segura.

Em Abril de 2004, como já referi aqui, 79% dos Xiitas estavam contra o desarmamento do Hezbollah em quaisquer circunstâncias, enquanto que, entre os restantes grupos religiosos, aqueles que defendiam esse desarmamento eram, mesmo assim, minoritários. A divisão para o total da população era:

Do you agree or disagree with the following statement?"Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%

O que temos agora (14-17 Agosto)?

"The poll by IPSOS for the French-language daily L'Orient-Le Jour found 51 percent of respondents supported the group's disarmament, with 49 percent against, a difference within the survey's margin of error."

O apoio ao desarmamento aumentou ou diminuiu? Depende. Pode ter aumentado de 24% para 51% ou diminuido de 55% para 51%, dependendo da forma como agregamos os resultados do primeiro inquérito e daquilo que nele significa "concordância" com o desarmamento.

Fica contudo a sensação de que, pelo menos, houve algo que aumentou: a polarização de opiniões entre grupos religiosos.

"Among the Shiite community -- Lebanon's largest and the support base for Hizbullah -- the poll found 84 percent of respondents wanted the group to keep its weapons.But among the Druze and Christian communities, 79 percent and 77 percent respectively wanted the group to surrender its arsenal.Among the Sunni community, the poll found a slender majority of 54 percent in favor of the group disarming."

Disto isto, com estas incertezas todas, o anterior resultado torna ainda mais curioso o recente artigo no Jerusalem Post do nosso já conhecido amigo Edward Luttwak. Aqui há uns tempos, num artigo reproduzido no Público que mencionei aqui, Luttwak defendia que o verdadeiro objectivo de Israel no conflito era, aumentando os custos da tolerância em relação do Hezbollah, deslegitimá-lo enquanto partido político aos olhos da população libanesa. Hoje, Luttwak acha que "the outcome of the war is likely to be more satisfactory than many now seem to believe". Porque o Hezbollah foi deslegitimado enquanto partido político? Não.

"Nasrallah has a political constituency, and it happens to be centered in southern Lebanon. Implicitly accepting responsibility for having started the war, Nasrallah has directed his Hizbullah to focus on rapid reconstruction in villages and towns, right up to the Israeli border. He cannot start another round of fighting that would quickly destroy everything again. Yet another unexpected result of the war is that Nasrallah's power-base in southern Lebanon is more than ever a hostage for Hizbullah's good behavior."

Afinal, a guerra produziu efeitos positivos porque o Hezbollah sobreviveu como partido político e por isso está condicionado pelos interesses das suas bases. Sucede que essas bases, como acabámos de ver, estão tão ou mais encarniçadamente contra o desarmamento do que estavam no passado.

Isto de um tipo ter de falar todos os dias sobre a mesma coisa (e de já saber a mensagem que quer transmitir antes de meter os factos na equação) é no que dá.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Líderes

Segue-se a minha melhor estimativa da evolução real dos níveis de popularidade de Sócrates, Cavaco e Mendes, com Sampaio introduzido para servir de ponto de comparação. Há duas empresas a fazerem sondagens regulares, pelo menos uma vez por mês cada. Cada uma delas pergunta aos inquiridos se têm uma opinião positiva ou negativa da actuação dos vários líderes políticos. Mas como a pergunta tem formulações ligeiramente diferentes e, ao que me parece, diferentes opções de resposta (para já não falar de metodologias de amostragem e inquirição diferentes), o que faço é o seguinte:

1. Elaboro um índice de popularidade, calculado da seguinte forma: (2* "% de opiniões favoráveis" + "% de indiferentes")/2. Resulta daqui um valor que oscila entre 0 e 100, com 0 a significar 100% de opiniões negativas, 100 a significar 100% de opiniões positivas, e 50 a significar que há tantas positivas como negativas.

2. Usando dummies para a Eurosondagem e a Marktest e para cada um dos meses onde foram conduzidos inquéritos, corro uma regressão em que a variável dependente é o índice de popularidade para cada líder político e excluindo a constante da equação. Aquilo que obtenho para cada mês é a estimativa do índice de popularidade limpo de "house effects". Tudo isto funcionaria muito melhor se houvesse mais sondagens e mais institutos, mas é o que se pode fazer.



Nas próximas semanas deverão aparecer as sondagens realizadas em Agosto e logo se verá se isso traz novidades especiais. Mas entretanto, é impossível não notar:

1. A estagnação de Marques Mendes a níveis perto do "fifty/fifty" (tantas opiniões positivas como negativas);

2. A subida de Sócrates, lenta mas imperturbável, desde que ultrapassadas as confusões das autárquicas. Não é muito frequente ver um padrão deste género. A curva "clássica" do ciclo de popularidade é um ligeiro aumento logo após as eleições, seguida de uma descida até a meio do mandato, seguida de uma subida até ao final. Mas o que este conseguiu foi perder gás nos primeiros oito meses (se bem que de forma muito menos abrupta do que tinha sucedido com Durão Barroso em 2002) para de seguida começar logo a subir. Macacos me mordam se o apoio de Sócrates a Cavaco nas presidenciais (não erro muito se colocar a coisa nesses termos, pois não?) não tem qualquer coisa a ver com isto...

3. Cavaco sobe ainda mais depressa e já ultrapassou os valores que Sampaio exibia, por exemplo, em Outubro. Sobre isto, há um artigo (para subscritores) de Constança Cunha e Sá no Público, onde a única coisa que não percebo é por que razão a autora parece julgar que a coisa poderia ser diferente.

terça-feira, agosto 22, 2006

Brasil

Um mês depois, a aparente subida de Alckmin em meados de Julho revela-se pouco consistente. Nas sondagens de Agosto, Lula volta aos níveis anteriores de intenções válidas de voto, mesmo com Helena vindo disparada por aí acima. O melhor mesmo é ir acompanhando a coisa.

Failing to be smart

De volta.

Uma semana depois do cessar-fogo no Líbano, os israelitas não estão felizes. 70% acham que Israel não devia ter acedido ao cessar-fogo sem o regresso dos soldados raptados. 66% acham ou que nem Israel nem o Hezbollah ganharam a guerra ou mesmo que foi o Hezbollah o vencedor. 67% querem ver Hassan Nasrallah morto, mesmo que isso implique o recomeço da guerra. 63% gostavam de ver um ataque "preventivo" de Israel contra instalações nucleares no Irão. Aqui, aqui e aqui.

No Líbano, o apoio ao Hezbollah aumentou, pelo menos a julgar por sondagens realizadas durante o conflito. 87% apoiavam a reacção do Hezbollah à "agressão israelita". O apoio era maioritário em todos os grupos religiosos, incluindo Drusos e Cristãos. Aqui. Isto mesmo tendo em conta que, na mesma sondagem, a maioria dos Drusos se manifestou contra o rapto de soldados israelitas. No Egipto, o apoio ao Hamas também subiu exponencialmente. Aqui.

Na Palestina, há cada vez menos palestinianos a desejarem um acordo de paz com Israel. Eram 76% em Junho. São 51% agora. Aqui. 97% apoiam o Hezbollah contra Israel. A confiança em Ismael Hanieh, do Hamas, já ultrapassou a confiança em Mahmoud Abbas. Aqui (.pdf).

"Sadly, the struggle over soft power did not have to turn out this way. (...) Israel had to use force in response to Hezbollah's attack to reestablish the credibility of its deterrence, but it misjudged the scale and duration of its hard-power response. (...) And with dead Lebanese children continually displayed on television day after day, public outrage was bound to limit the leeway of moderate Arab leaders and enhance Hezbollah's narrative. (...) By failing to be smart about how we combine our hard and soft power in the struggle against jihadist terrorism, we fall into the trap set by Al Qaeda's Osama bin Laden and Hezbollah's Hassan Nasrallah, who want to cast the conflict as a clash of civilizations." (Joseph Nye, aqui, via Bloguítica).