segunda-feira, outubro 16, 2006

655.000 (2)

O Insurgente vem publicando vários posts onde se discute a credibilidade do estudo publicado na Lancet onde estima a mortalidade causada pela invasão do Iraque. Alguns deles são laterais , incluindo, por exemplo, cartoons, ou uma gravação vídeo onde o editor da revista de pronuncia contra a invasão. Tudo bem, que não se pode estar sempre a falar a sério.

Mas há um post muito interessante, onde se transcreve um e-mail de um "médico com algumas noções de epidemiologia", Fernando Gomes da Costa, que coloca várias dúvidas sobre o estudo. Longe de mim colocar-me na posição dos autores, que se defenderão como puderem. Mas quando a defesa já está no próprio texto do estudo, o melhor mesmo é lê-lo com atenção, como aliás eu já sugeria da primeira vez que falei no assunto. As perguntas de Fernando Gomes da Costa:

1- Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?

Segundo os autores, os clusters foram escolhidos aleatoriamente, sendo excluídos apenas três:
" On two occasions, miscommunication resulted in clusters not being visited in Muthanna and Dahuk, and instead being included in other Governorates. In Wassit, insecurity caused the team to choose the next nearest population area, in accordance with the study protocol. Later it was discovered that this second site was actually across the boundary in Baghdad Governorate."

Foi assim apenas excluído um cluster por razões potencialmente correlacionadas com as mencionadas na pergunta do e-mail, e dois outros por falta de comunicação. Consequências?

"The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths."


2- Os inquiridos contabilizaram (em meados de 2006) o número de familiares mortos desde os 14 meses anteriores à invasão até aos 14 seguintes. Foram mortes confirmadas por atestados em 90% dos casos dos 87% solicitados, o que dá 79% de confirmações. Temos assim que em 600.000 há portanto 126.000 casos não confirmados.

Este problema é mencionado no estudo:

"Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable."


3- As mortes não relatadas não puderam ser, obviamente, controladas por atestados. Isto quer dizer que nada nos garante não haver uma minimização do número de mortes antes da invasão, o que poderá distorcer grandemente o método de comparação "antes e depois".

Cito do estudo:

"Our estimate of the pre-invasion crude or all-cause mortality rate is in close agreement with other sources"

Essas fontes são:

CIA 2003 Factbook entry for Iraqhttp://permanent.access.gpo.gov/lps35389/2003/iz.html(accessed Oct 2, 2006).
US Agency for International Health and US Census Bureau. Global population profile: 2002. Washington, DC: US Census Bureau, 2004:.

Podem estar também erradas, claro. Mas o fundamental é que a estimativa da mortalidade pré-invasão que resulta do inquérito coincide com resultados obtidos independentemente do inquérito.


4- Uma das mais óbvias desonestidades do “estudo” tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em “paz”) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números.

Lamento, mas não há comparação com "os 14 meses a seguir". O que há é comparação da taxa de mortalidade de um período de tempo antes da invasão (14 meses) com um período de tempo posterior, a saber:

"We measured deaths from January, 2002, to July, 2006, which included the period of the 2004 survey." ~

Para além disso, a noção de que "na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno" terá sido a fase com maior mortalidade não parece resistir aos dados:

"By mid-year 2006, 91 violent deaths had occurred in 6 months, compared with 27 post-invasion in 2003 and 77 in 2004, and 105 for 2005, suggesting that violence has escalated substantially."

A mortalidade aumentou (em vez de diminuir) após os tais "14 meses"


5- Finalmente, todos sabemos que sempre que alguém morre vítima da violência bélica no Iraque isso nos é diligentemente comunicado pela generalidade da imprensa. Seria muito fácil essa mesma imprensa (ou algum curioso) dedicar-se a pegar nos jornais desde a altura da invasão e somar as mortes (só violentas e dos iraquianos, atenção). Mas vamos supor, já atirando muito (mas muito) por alto, que desde Março de 2003 morreram em média diariamente 100 pessoas vítimas de atentados, bombas, (ou torturas dos americanos, pois claro!). Há muitos dias, como hoje, em que nada vem relatado, mas fica por conta dos outros...Teríamos assim, desde Março de 2003: 100(mortes/dia)x365(dias/ano)x3,5(3 anos e meio) = 127.750 mortes! Um bocadinho longe das 600.000...Como diz a outra: há coisas fantásticas, não há? Já agora, fazendo as contas com os números do “estudo” da Lancet: 600.000 (mortes)/(3,5x365 dias) = 469 mortes por dia, ininterruptamente desde 2003! A ser assim, e lendo a nossa imparcialíssima imprensa, até o Avante está vendido ao imperialismo americano!

Aqui não há muito a dizer: o autor do e-mail acredita na imprensa mas "não acredita" nos números. Eu também gostava de não acreditar. Mas não me parece que isso chegue.

Já agora, fica aqui um excerto do estudo onde os autores - com honestidade - listam muitos dos seus possíveis enviesamentos, alguns no sentido da sobrestimação e outros no sentido da subestimação da mortalidade:

All surveys have potential for error and bias. The extreme insecurity during this survey could have introduced bias by restricting the size of teams, the number of supervisors, and the length of time that could be prudently spent in all locations, which in turn affected the size and nature of questionnaires. Further, calling back to households not available on the initial visit was felt to be too dangerous. Families, especially in households with combatants killed, could have hidden deaths. Under-reporting of infant deaths is a wide-spread concern in surveys of this type. Entire households could have been killed, leading to a survivor bias. The population data used for cluster selection were at least 2 years old, and if populations subsequently migrated from areas of high mortality to those with low mortality, the sample might have over-represented the high-mortality areas. The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths. Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable.
Large-scale migration out of Iraq could affect our death estimates by decreasing population size. Out-migration could introduce inaccuracies if such a process took place predominantly in households with either high or low violent death history. Internal population movement would be less likely to affect results appreciably. However, the number of individual households with in-migration was much the same as those with out-migration in our survey.
Although interviewers used a robust process for identifying clusters, the potential exists for interviewers to be drawn to especially affected houses through conscious or unconscious processes. Although evidence of this bias does not exist, its potential cannot be dismissed.
Furthermore, families might have misclassified information about the circumstances of death. Deaths could have been over or under-attributed to coalition forces on a consistent basis. The numbers of non-violent deaths were low, thus, estimation of trends with confidence was difficult. Not sampling two of the Governorates could have underestimated the total number of deaths, although these areas were generally known as low-violence Governorates. Finally, the sex of individuals who had died might not have been accurately reported by households. Female deaths could have been under-reported, or there might have been discomfort felt in reporting certain male deaths.

sexta-feira, outubro 13, 2006

2º turno

Posso estar enganado, mas ainda só dei com duas sondagens de intenção de voto na segunda volta das presidenciais brasileiras realizadas após o 1º turno. São ambas da Datafolha (6 e 10 de Outubro). Lula surge com 50/51% de intenções directas de voto, e 54/56% de votos válidos.

A visão de longo prazo está no gráfico seguinte: 60 sondagens, realizadas desde 2005, em que o cenário Lula/Alckmin foi avançado. Descida constante de Lula até há um ano, recuperação até fim de Agosto deste ano, e declínio deste então. As percentagens são de votos válidos:

Quando olhamos para as intenções directas de voto, o mecanismo do que se passa desde fim de Agosto fica mais claro. A percentagem de votantes que afirma tencionar votar em Lula numa segunda volta não desce muito. Só que, entretanto, aqueles que se diziam abstencionistas e indecisos vão diminuindo e, pelos vistos, passando para Alckmin (clique para ampliar):



Chega para Alckmin? Isso exigiria uma de três coisas. A primeira seria uma transferência para Alckmin de alguns daqueles que dizem hoje tencionar votar Lula. Mas segundo a Datafolha, 90% dos que afirmam tencionar votar em Lula ou Alckmin dizem que a sua decisão é definitiva. Não há muito espaço para mudanças de última hora. A segunda consistiria em que todos os que agora se dizem indecisos, abstencionistas ou votos brancos e nulos passassem para Alckmin. É implausível. A terceira seria que houvesse uma excepcional desmobilização de última hora entre o eleitorado Lula. Nada disto parece muito credível. Mas esperar para ver.

quinta-feira, outubro 12, 2006

655.000

Uma utilização menos usual da técnica do inquérito por questionário: um estudo publicado pela revista Lancet estima em 655.000 o número de mortos devidos à invasão no Iraque. Este "devido" deve ser concebido com significando que estas mortes estão "em excesso" em relação ao que seria previsível na base das taxas de mortalidade verificadas nos anos imediatamente anteriores. O estudo revela também que a taxa de mortalidade mais do que duplicou no período 2003-2006 em relação ao período anterior, e que parece estar a aumentar. Estima-se que cerca das 600.000 mortes tenham sido violentas.

Como se calcularam estes números? O melhor é ler. A base é um inquérito por questionário a 12.000 iraquianos. A metodologia é complexa e haverá muitos pontos para debate. Exemplo num blogue: aqui.

Entretanto, há quem recorra, como habitualmente, à fé : George W. Bush ou John Howard dizem que não "acreditam" nos números.

quarta-feira, outubro 04, 2006

A "queda" de Lula (2)

Eduardo Leoni, do Brazilian Politics, chama-me à atenção por e-mail de um dado importante: Lula não "perdeu" votos. O que sucede é que não conseguiu angariar votos entre os indecisos.

Assim é, quando olhamos para as intenções directas de voto:

Lula mexe pouco, mas Alckmin sobe à medida que os indecisos descem. Eduardo Leoni levanta outro problema que decorre daqui: a pressuposição de que os indecisos se redistribuem proporcionalmente pelas opções válidas (ou, o que é a mesma coisa, que se vão todos abster) não funciona no Brasil...

terça-feira, outubro 03, 2006

A "queda" de Lula

Anda por aí alguma discussão sobre as razões da incapacidade de Lula ganhar à 1ª volta. A maior parte delas anda pela questão da corrupção (no Público, só para assinantes). Mas atentem no seguinte gráfico com a evolução das intenções de voto em Lula e Alckmin no IBOPE, só para usar o instituto que mais se aproximou dos resultados que Lula acabou por obter:

O que se vê é que Lula vem a descer desde finais de Agosto. O que está para a direita do dia 10 de Setembro são sondagens realizadas após a divulgação do escândalo do "dossiê Serra", e pode-se levantar a hipótese de que essa divulgação terá acelerado a descida. Mas a descida vem de antes, como já repeti aqui até à exaustão, e importa também explicá-la. Descontando o que às vezes me parece ser uma certa mania da perseguição, amplificada aqui, estou de acordo: não se deu suficiente importância a Alckmin. Lula perde votos devido a uma boa campanha do seu opositor, e não apenas devido à corrupção.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Brasil: rescaldo e 2ª volta

O quadro seguinte compara as últimas estimativas de cada instituto com os resultados finais. Parabéns ao Datafolha e ao Ipespe. O segundo é especialmente notável, tendo em conta a utilização de uma amostra reduzida e a inquirição telefónica. Mas pode-se também levantar a hipótese de que o Ipespe tenha tido "razão antes de tempo", ou seja, que estivesse no dia 26 a subestimar a votação em Lula, acabando por se aproximar dos resultados finais devido à tendência geral de queda de Lula que se prolongou após o dia 26. Seja como for, as diferenças entre os institutos são reduzidas, a não ser no caso Sensus. Se quiserem comparar com a performance dos institutos portugueses em 2006, podem ir aqui. Nada mau para nós, mas o Brasil é o Brasil e Portugal é Portugal...



2ª volta? O que temos são os últimos resultados de sondagens que colocavam os eleitores perante o cenário Lula/Alckmin. O score de Lula oscila entre 62% e 52%. Mas agora, vai ser difícil levar os resultados da Sensus muito a sério.

sábado, setembro 30, 2006

Qualquer palpite é chute

Acaba de ser divulgada uma sondagem da Vox Populi, terminada ontem, que dá 52% de votos válidos para Lula (contra 60% na última sondagem, realizada dia 19). Mais uma que dá tendência de descida. Aguarda-se, pelo menos, uma última sondagem da Datafolha. As restantes (as mais recentes) são as seguintes:



A noite eleitoral no Domingo é capaz de acabar tarde. “O segundo turno é provável”, arrisca um especialista na análise de pesquisas. “Mas a essa altura dos acontecimentos, qualquer palpite é chute”, afirma.

P.S.- Actualização com IBOPE e Datafolha:

sexta-feira, setembro 29, 2006

Vale (muito) a pena ler

Os bastidores das pesquisas eleitorais

Meu reino por um ponto a mais

6ª feira: ponto de situação

O Ipespe dá 51% de votos válidos em Lula, em sondagem realizada no dia 26, confirmando a tendência de descida verificada em todos os outros institutos (o estudo anterior dava 53%). Não esquecer, contudo, que as sondagens Ipespe são telefónicas, presumivelmente deixando fora a amostra o eleitorado mais pobre.

Amanhã deveremos conhecer os resultados das últimas sondagens Vox Populi, Datafolha e IBOPE. Irão ter, pelo menos no caso Datafolha, amostras de muito grande dimensão, o que não só diminui a margem de erro amostral mas também permite uma estratificação mais fina da amostra. Isso, contudo, não resolve todos os problemas, como se pode depreender do quadro seguinte, onde se comparam os resultados das eleições de 1998 e 2002 com os resultados das últimas sondagens realizadas pelo IBOPE (ambas as eleições) e pelo Datafolha (2002). Como vêem, há um fenómeno recorrente: no dia das eleições, o vencedor recolheu menos votos do que aquilo que é estimado nas base das últimas sondagens. Coincidência?

quinta-feira, setembro 28, 2006

Novas sondagens IBOPE e Datafolha

Na sondagem IBOPE, terminada dia 26, Lula aparece com 53% de votos válidos, menos 1 ponto que na sondagem anterior (terminada dia 22). A"subida" de que se fala no texto linkado é nas intenções de voto, mas o que sucede é que, como os votos brancos, nulos e indecisos diminuem, a redistribuição acaba por redundar numa descida para Lula em termos de votos válidos.

Na sondagem Datafolha, terminada dia 27, Lula desce também um ponto em votos válidos, de 54% para 53%, em relação à pesquisa anterior (terminada dia 24).

Ambas as "descidas" são, tomadas individualmente, estatisticamente irrelevantes. Contudo, o facto de ambas indicarem descida e de essa descida vir na continuidade de uma tendência anterior sugere que podem indicar algo mais do que um mero efeito de erro aleatório. De assinalar também que as estimativas para os vários candidatos que resultam das sondagens IBOPE e Datafolha serem rigorosamente iguais (53%, 36%, 9%, 2%).

Dito isto, as notícias podiam ser piores para Lula. Como o gráfico abaixo mostra - evolução dos resultados limpos de "house effects" - Lula desceu de forma contínua desde a 2ª quinzena de Agosto até agora. Contudo, o ritmo de descida parece ter abrandado nas sondagens desta última semana. Chegou-se ao último reduto de eleitorado indefectível?

quarta-feira, setembro 27, 2006

Polémicas

Lá também há. Excertos:

SAMBA DA PESQUISA DOIDA
Se você estava em dúvida entre o Ibope e o Datafolha, agora já tem à sua disposição o Sensus, visto pelo mercado como uma espécie de Heloisa Helena entre os institutos. A última sondagem do Sensus, divulgada nesta terça, informa que Lula está com 51,4% das intenções de voto, contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin.São números diferentes dos que foram coletados pelo Datafolha (49% X 31%) e muito diferentes dos informados pelo Ibope (47% X 33%). Os pesquisadores do Datafolha foram às ruas na sexta-feira. Os do Ibope, de quarta a sexta. E os do Sensus, de sexta a domingo. Há pelo menos um ponto de contato entre as três pesquisas: a sexta-feira. Levando-se em conta que o eleitorado cujos humores se tenta medir é rigorosamente o mesmo, pode-se concluir: tem instituto que vai sair dessa eleição com a credibilidade carbonizada. A margem de erro dessa conclusão é zero. Logo mais teremos novas pesquisas. Essa disputa está bem mais interessante do que a briga entre os presidenciáveis. A propósito, Geraldo Alckmin considerou o resultado da pesquisa Sensus “um escândalo”.

Pesquisas divergem; em quem acreditar?
Gustavo Krieger

Do Correio Braziliense
O Ibope diz que a vantagem de Lula sobre a soma dos candidatos de oposição é de três pontos. Para o Datafolha, são oito. O Sensus aposta em 15 e o Vox Populi em 17. Tudo isso em pesquisas divulgadas num intervalo de cinco dias. Afinal, em quem acreditar? Para qualquer candidato, pesquisa boa é aquela que o mostra na dianteira. A verdade é que todas seguem métodos científicos. Mas cada uma tem o seu método e estas diferenças ajudam a explicar os índices disparatados. A metodologia do Sensus é domiciliar: os pesquisadores vão até a casa dos eleitores para aplicar os questionários. O Datafolha adota a “abordagem em pontos de fluxo populacional”. Escolhem pontos de grande concentração, como o Viaduto do Chá, em São Paulo ou a plataforma da rodoviária, em Brasília. Para compensar eventuais distorções, o Datafolha faz mais entrevistas que seus concorrentes. Na última rodada, ouviu 4.319 pessoas, contra 2 mil do Sensus e 2002 do Ibope. O perfil dos eleitores também é diferente. Lula é mais forte entre os mais pobres, menos instruídos ou que vivem no interior. Quanto mais destes eleitores na amostra, mais votos ele terá. O Sensus divide a pesquisa entre áreas urbanas e rurais, enquanto a Datafolha se concentra em cidades. O resultado é que uma é mais urbana que a outra e a diferença pode ser grande. Na pesquisa do Sensus de ontem, Lula obteve dez pontos percentuais a mais nas áreas rurais que nas cidades. Há discrepância também na divisão por escolaridade. Na pesquisa do Ibope, 27% dos pesquisados tinham estudado até a quarta série. No Sensus, este segmento representava 35%. Para a Sensus, os eleitores com ensino médio são 29% dos pesquisados. No Ibope são 37% e no Datafolha 39%. Este deslocamento muda o resultado da pesquisa. Lula tem em média 20 pontos percentuais a mais entre os eleitores menos instruídos que entre os que fizeram o segundo grau. Cada instituto tem justificativas para suas escolhas. Domingo à noite, será possível saber quem está certo.

A disputa das pesquisas
Mais curiosa do que a disputa eleitoral propriamente dita tem sido a guerra dos números das pesquisas eleitorais. Ontem, por exemplo, o Instituto Sensus apresentou à opinião pública seu novo levantamento: Lula está com 51,4% das intenções de voto contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin. A pesquisa foi realizada entre a última sexta-feira e domingo. Praticamente no mesmo período, Ibope e DataFolha também foram a campo. Os resultados apurados, respectivamente, são os seguintes: 47% (Lula) e 33% (Alckmin); e 49% (Lula) e 31% (Alckmin). A diferença dos percentuais de dois institutos (Ibope e Data Folha) em comparação com o Sensus é elevada demais, confundindo inclusive todos aqueles que acompanham os desdobramentos da campanha, mesmo porque todos, simultaneamente, estão tentando fotografar o mesmo momento eleitoral. Se houver equívoco ou manipulação de dados, a partir de segunda-feira os incautos pagarão um preço alto demais: a perda da credibilidade – um elemento crucial de sobrevivência de quem tem como negócio principal a realização de pesquisas de opinião.

Na verdade:

1. As diferenças entre os resultados apresentados pelos institutos são potencialmente muito maiores do que as ditadas pela margem de erro amostral ou pelos momentos diferentes no tempo em que são aplicadas. Amostragem, método de inquirição, questionário, aplicação do inquérito, ponderações a posteriori, todos estes são factores que podem causar diferenças entre os resultados obtidos;

2. Apesar disso, há métodos que permitem detectar se existem tendências detectadas por todos os institutos, independentemente de metodologias utilizadas. Foi o que fiz aqui. As intenções de voto válidas em Lula têm vindo a descer. E não há quaisquer sinais de que o dossiê Serra tenha produzido efeitos: a tendência de descida é anterior ao escândalo e o seu ritmo não mudou.

3. O que não é possível saber: o que vai acontecer no Domingo. As pesquisas feitas até agora são o passado. O Domingo é o futuro. Há abstenção, há votos brancos e nulos, há mudanças de opinião. E os resultados não dão uma vantagem suficiente a Lula para que uma vitória à 1ª volta esteja, com um grau de certeza elevado, ao abrigo destas mudanças futuras.

4. E o passado ajuda a fazer inferências sobre o futuro: há resultados eleitorais passados, e o confronto entre eles e as sondagens revela que o favorito foi beneficiado nas sondagens em relação àquilo que acabou por acontecer (mais sobre isto, com dados, no final desta semana).

Logo, se me perguntassem, eu diria que a vitória à 1ª volta está em risco muito sério. Lula sabe disso, obviamente.

terça-feira, setembro 26, 2006

Sensus

Divulgada há poucas horas, a última pesquisa Sensus dá 59% de intenções de votos válidos a Lula. Convém ter atenção, contudo, ao facto dos últimos resultados da Sensus para Lula terem ficado acima da tendência: 61% no início de Agosto e 62% no final de Agosto. Isto não significa, claro, que estejam errados. Significa apenas que são outliers em relação à tendência geral (da mesma forma que as sondagens do IBPS e, até certa altura, as da Vox Populi, foram outliers no sentido oposto).

segunda-feira, setembro 25, 2006

E com a pesquisa IBOPE divulgada ontem...

Lula aparece com 52% de intenções válidas de voto. O quadro completo:



As conclusões anteriores não mudam, contudo. Há descida, mas prolonga tendência anterior.

Os efeitos do "dossiê Serra" (3)

A terceira maneira de ver a coisa é pensar na passagem do tempo como uma variável explicativa dos valores estimados nas sondagens e estimar esse efeito controlando os "house effects" (o facto da sondagem ter sido feita por este ou aquele instituto) e retirando a constante da equação de regressão. Assim, ficamos com valores das intenções válidas de voto para Lula associados a um cada período de tempo, independentemente do instituto que realizou a pesquisa. O valor da "2ª quinzena de Setembro" mostra como estão as coisas após a divulgação do caso:

Lula desce. Mas já vinha a descer a partir de final de Agosto. E não desce da primeira para a segunda quinzena de Setembro a um ritmo superior àquele em que descida da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro.

Veredicto preliminar:

1. As intenções válidas de voto em Lula estão a descer;

2. Não sabemos se o "dossiê Serra" está a produzir qualquer efeito. A tendência de descida é anterior à divulgação do escândalo.

Stay tuned.

Os efeitos do "dossiê Serra" (2)

Outra maneira de vermos a coisa consiste em olharmos para o conjunto de todas as sondagens, ajustarmos uma curva de regressão local e ver "a olho" o que se poderá ter passado:
Tudo o que está à direita da linha vertical são sondagens divulgadas após o escândalo do dossiê. Lula parece estar a descer, sim. Mas já vinha a descer antes da divulgação, como já se dizia aqui.

Os efeitos do "dossiê Serra" (1)

Como podemos avaliar se a divulgação do escândalo ligado ao "dossiê Serra" afectou as intenções de voto para as presidênciais no Brasil. Não é fácil, mas vamos por partes.

Uma primeira aproximação à questão pode ser feita comparando os resultados das últimas sondagens realizadas antes da divulgação pública do caso com aqueles que foram realizadas a seguir:


Em três das quatro sondagens para as quais temos ponto de comparação, Lula desce. E note-se que a excepção é a Vox Populi, onde a comparação é feita com uma sondagem de finais de Agosto. Claro que, olhando para cada sondagem individualmente, a diferença pré-pós não é estatisticamente significativa, podendo estar recoberta pela margem de erro amostral. Mas quando três em cada quatro sondagens detectam uma mesma tendência, a incerteza diminui.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Brasil pós-escândalo

Nada como um escândalo de última hora para animar uma eleição. Agora é o "dossiê" Serra. Detalhes aqui.

Os números de sondagens realizadas após a denúncia do escândalo (a vermelho, no quadro seguinte) são algo contraditórios (adiciono as duas últimas sondagens Ipespe, um instituto que me tinha passado completamente ao lado; daqui a dias apresento as sondagens anteriores):



Na sondagem Datafolha, não há efeito visível. Nas sondagens IBOPE e Ibespe, há diminuição das intenções válidas de voto. E na sondagem Vox Populi, Lula sobe (em virtude da redistribuição de um comparativamente grande número de indecisos). 2ª feira prometo tentar desvendar o mistério...

terça-feira, setembro 19, 2006

Brasil, a menos de duas semanas

Com mais duas sondagens nos últimos dias (IBOPE e Datafolha), apresento a estimativa para a evolução das intenções válidas de voto nas duas candidaturas, limpas de "house effects". Da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro, a tendência é de ligeiras descidas de Lula e Helena, e subida de Alckmin.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Transatlantic Trends 2006

Com impecável sentido de oportunidade, foi divulgado há dias mais um relatório da série Transatlantic Trends, um inquérito de opinião anual que examina as atitudes de Europeus e Norte-Americanos em relação à relação transatlântica.

Principais resultados:

1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;

2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;

3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;

4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo (e quem me tiver lido hoje no Público imaginará como me congratulo com estas opiniões...);

5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa;

De notar que Portugal faz parte dos países estudados, graças ao apoio da FLAD, a quem devemos dar os parabéns por continuar a apoiar a nossa integração neste Transatlantic Trends. Temos algumas especificidades, tais como vermos a imigração como ameaça importante ou darmos forte apoio à europeização da política externa, entre outras.

Mas o melhor é ler tudo. É o que farei nos próximos dias.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Brasil: actualização

Mais três sondagens na nossa lista: Vox Populi, IBOPE e Datafolha, esta última já em Setembro.


A menos de um mês das eleições, convergência em torno de 57-58% para Lula, mesmo por parte de institutos que, antes, tinham dado valores abaixo (Datafolha e Vox Populi) e acima (IBOPE) da tendência para Lula.

Com o endurecimento da campanha e o tempo de antena, Alckmin sobe. Também aqui institutos que antes tendiam a "beneficiar" (Vox Populi) ou "prejudicar" (IBOPE) Alckmin têm resultados recentes muito convergentes:


Mas se Lula mantém e Alckmin sobe, alguém tem de descer...


Por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui discutem-se os resultados das sondagens no Brasil, com alguns detalhes adicionais sobre a desagregação dos resultados e pesquisas qualitativas.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Sondagem Gallup International em 33 países: Israel e Líbano

A Gallup International, através das suas filiadas, conduziu uma sondagem em 33 países (incluindo Israel e Líbano) na 2ª e 3ª semanas de Agosto. O relatório é muito longo e pode ser lido aqui (.pdf).

Os resultados globais têm um interesse relativo (%'s da amostra geral acham isto ou aquilo), dado que dependem de algo que, de alguma forma, os predetermina: a escolha de países onde ocorreram sondagens. Foram estes:

Argentina, Austrália, Austria, Camarões, Canadá, Croácia, Finlândia, Alemanha, Geórgia, Grécia, Islândia, Índia, Indonésia, Irlanda, Israel, Coreia do Sul, Kosovo, Líbano, Luxemburgo, Moldova, Marrocos, Noruega, Paquistão, Portugal, Roménia, Rússia, Senegal, África do Sul, Suécia, Suíça, Reino Unido, Estados Unidos, Vietname.

E há ainda outro problema. As amostras variam muito de dimensão, entre 300 (na Grécia) e 1392 (na Rússia) - o que não me parece especialmente problemático - mas, nalguns casos, as amostras representam exclusivamente populações urbanas: Grécia (porquê?), Camarões, Geórgia, Indonésia, Líbano, Marrocos, Paquistão, Portugal (porquê?), Noruega (porquê?), Roménia, Senegal (Dakar), Suécia (porquê?) e Vietname. Nada disto invalida os resultados, mas faz com que tenhamos que os ver como são: em vários casos, não podem ser vistos como representativos da opinião da população nacional. Daí que fazer grandes agregações de resultados com todas as sondagens me pareça um exercício de interesse duvidoso.

Olhando para os resultados de outro ponto de vista, que dizer?

1. Who do you think initiated the war in Lebanon; Israel or Hezbollah?
Em geral, cerca de um terço dos inquiridos não respondeu. Na Alemanha, no Luxemburgo, no Reino Unido, no Canadá e Estados Unidos (e Israel, claro), maiorias defendem que foi o Hezbollah. Nos restantes casos, predomina a colocação da responsabilidade em Israel, de forma mais extrema nos países asiáticos e africanos incluídos no estudo do que nos países europeus (Grécia é excepção, mas eu não levaria os resultados gregos excessivamente a sério, pelas razões antes mencionadas).

2. Do you think Israel has gone too far, has taken about the right amount of military action or has not gone far enough?
A resposta simples e rápida é "too far", para maiorias em todos os países menos nos Estados Unidos e, claro, Israel.

3. Which side do you sympathize with more?
Aí está uma pergunta sem paninhos quentes. Mas portugueses, suíços, suecos, alemães, finlandeses e luxemburgueses repõem os paninhos: nem com uns nem com outros. Nos países asiáticos - incluindo, note-se, Coreia do Sul e Vietname - a resposta mais mencionada é "Hezbollah". O mesmo em África. Excepções: Índia e África do Sul, of course.

4. Há maiorias em todos os países apoiando a ideia de que a UN deve enviar uma força de manutenção de paz. Um consenso um bocado gasoso.

5. Um consenso porventura menos esperado e talvez menos gasoso. Cito: "In most participating countries, including the whole list of Western Europeans, the majority mentions Israel’s actions increase Hezbollah’s popularity, reaching a peak of agreement in Lebanon (79%; 65% fully agree) and Senegal (80%)." E até em Israel e nos Estados Unidos sucede isto: "in Israel, tough the majority believes support for Hezbollah will not increase (60%) a significant proportion of 36% differs. In the US although 43% states Israel’s action will spur support for Hezbollah, 26% disagrees. "

6. Uma profunda clivagem: "there appears to be consensus in considering Hezbollah as a terrorist organization in most of the countries that participated in the survey, reaching a peak of virtually all Israelis (97%). The exception [e que excepções] is countries with high proportion of Muslims such as Indonesia, Pakistan, Morocco and Senegal where more than half do not consider Hezbollah a terrorist organization. 87% of Lebanese are in this group".

7. Cito: "In Western Europe half the countries surveyed have higher proportion of people stating troops should not be sent (Austria, Portugal, Germany, Greece, Switzerland and UK) while in the other half, the strongest opinion is supportive (Sweden, Norway, Luxembourg, Ireland, Iceland and Finland).". Este nosso governo, de facto, não brinca em serviço quando se trata de tomar a opinião pública em consideração.

Há outras perguntas, mas estas pareceram-me as mais interessantes. O link para o relatório completo está lá em cima.

O relatório é de dia 28. Será que algum jornal português já apresentou estes resultados? E especialmente os resultados em Portugal? Não reparei.

Reader's Guide to Polls

Já que estamos nisto, e via pollster.com, cheguei a um texto de Jack Rosenthal, publicado no New York Times. Tudo isto já foi escrito e repetido mil vezes, mas vale sempre a pena repetir. Transcrevo algumas passagens:

Precisely False vs. Approximately Right: A Reader’s Guide to Polls
By JACK ROSENTHAL
Published: August 27, 2006


"False Precision
Beware of decimal places. When a polling story presents data down to tenths of a percentage point, what the pollster almost always demonstrates is not precision but pretension."


"Sampling Error
For a typical election sample of 1,000, the error rate is plus or minus three percentage points for each candidate, meaning that a 50-50 race could actually differ by 53 to 47. But the three-point figure applies only to the entire sample. How many of those are likely voters? In the recent Connecticut primary, 40 percent of eligible Democrats voted. Even if a poll identified the likely voters perfectly, there still would be just 400 of them, and the error rate for that number would be plus or minus five points. This caution applies forcefully to conclusions about other subgroups. What could a typical survey tell about, say, college-age women? Out of a random sample of 1,000, a little more than half would be women and only about 70 would be of college age. That’s too small a subsample to support any but the most general findings."


"Questions
How questions are phrased can mean wide shifts, even with wholly neutral words. Men respond poorly, for instance, to questions asking if they are “worried” about something, so careful pollsters will ask if they are “concerned.”
(...) The order of questions is another source of potential error. That’s illustrated by questions asked by the Pew Research Center. Andrew Kohut, its president, says: 'If you first ask people what they think about gay marriage, they are opposed. They vent. And if you then ask what they think about civil unions, a majority support that.'"

"Answers
People never wish to look uninformed and will often answer questions despite ignorance of the subject. (...) Respondents also want to appear to be good citizens. When the Times/CBS News Poll asks voters if they voted in the 2004 presidential election, 73 percent say yes. Shortly after the election, however, the Census Bureau reported that only 64 percent of the eligible voters actually voted. Jon Krosnick, an authority on polling and politics at Stanford, uses the term “satisficing” to describe behavior when a pollster calls. If people find the subject compelling, they become engaged. If not, they answer impatiently. Either way, says Kathy Frankovich, director of surveys for CBS News, 'people grab the first thing that comes to mind.'"


"Intensity
How strongly people feel about an issue may be the most important source of poll misunderstanding. In survey after survey, half the respondents favor stronger gun controls — but don’t care nearly as much as the 10 percent who want them relaxed."


"Public opinion is not precise, and in any case it is constantly churning. Measuring it cannot hope to be precise. What readers can hope for, whether in an individual poll, a consensus from several polls or from the polling profession generally, is the truth — approximately right."

Blumenthal + Franklin

Os dois blogues que me servem de referência para o que significa informar sobre e analisar sondagens - o Mystery Pollster e o Political Arithmetik - conduzidos por Mark Blumenthal e Charles Franklin, decidiram juntar forças aqui: pollster.com. O Political Arithmetik continua - ainda bem - a ter existência própria. A não perder, especialmente tendo em conta a aproximação das "midterm elections" no Estados Unidos.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Ciência Política no Brasil

Através deste site, cheguei ao site da Associação Brasileira de Ciência Política, um lugar de visita indispensável a quem se interessa a sério pela política no Brasil. Especialmente interessante é a lista de papers apresentados no último encontro (o 5º; nós por cá na APCP ainda só tivemos três), que foi em Belo Horizonte. O site não é particularmente amigável, mas se clicarem em "Programação" e forem às sessões temáticas lá encontrarão os papers.

Vale muito a pena ler vários, entre os quais este (.pdf), de Yan de Souza Carreirão, sobre os efeitos do Mensalão nas preferências, atitudes políticas e intenções de voto dos brasileiros. Principais conclusões (ainda preliminares, note-se):

1. "Começando pelas preferências partidárias: foram afetadas pelo "mensalão", mas de forma não muito intensa, embora aparentemente mais duradoura, já que o PT, mesmo tendo se recuperado um pouco em relação ao período mais crítico, parece ter perdido algo em torno de 5% das preferências em âmbito nacional, comparando com o período "pré-mensalão". Nenhum partido conseguiu crescer significativamente com o declínio do PT; o efeito principal do "mensalão", parece ter sido o do aumento do descrédito dos eleitores nos partidos e nos políticos, em geral."

2. "Contrariamente ao que ocorreu nas três últimas eleições presidenciais, mas, de forma semelhante ao que ocorreu em 1989, as clivagens socioeconômicas (de renda, escolaridade e região do país) têm se mostrado relevantes para diferenciar os eleitores, segundo a avaliação que fazem do governo e segundo suas intenções de voto. São os mais pobres, menos educados e das regiões mais pobres que avaliam melhor o governo e votam mais em Lula."

3. "A avaliação moral tem um impacto relevante: isso fica claro com o declínio da aprovação ao governo, da preferência pelo PT e das intenções de voto em Lula, durante o auge da crise do "mensalão", bem como as variações nestas variáveis, segundo as opiniões dos eleitores sobre corrupção. Mas, a avaliação dos resultados das políticas econômica e social do governo também mostra sua força ao longo de todo o período. A manutenção da estabilidade econômica, com taxas de crescimento econômico um pouco maiores do que as ocorridas no governo anterior; o aumento do emprego com carteira assinada; um maior crescimento do poder de compra do salário mínimo; a ampliação da abrangência e do volume de recursos destinados aos programas sociais do governo que implicam em transferência de renda (especialmente o Bolsa Família), tudo isso parece ter neutralizado, em grande parte, os efeitos negativos das denúncias do "mensalão" e resultado numa avaliação mais positiva do governo Lula, comparado ao governo FHC, especialmente nos segmentos mais pobres e mais beneficiados pelo aumento do salário mínimo e pelos programas sociais."

E uma pergunta muito interessante:

"Central para ponderar a influência de cada um destes fatores é a interpretação sobre as causas da recuperação da avaliação do governo e das intenções de voto no presidente Lula, ao longo do presente ano. É possível pensar que essa recuperação se deva em parte a uma avaliação "final" (até o momento) de que o presidente Lula não estava envolvido nos fatos revelados pelas acusações. Outra possibilidade é a de que essa recuperação seja fruto de uma percepção mais "cínica": o que importaria seria a avaliação sobre os benefícios trazidos pelas políticas governamentais, independente da moralidade das suas ações. O fato de serem especialmente os mais pobres, menos escolarizados e da região Nordeste que avaliam melhor o governo e têm maiores intenções de voto no presidente, coloca como questão crucial a relação de causalidade: estes segmentos sustentam o presidente por terem menos informações e, portanto, por não conseguirem avaliar "corretamente" a gravidade das acusações e o grau de envolvimento do presidente, ou por se sentirem beneficiários dos resultados das políticas governamentais ?"

A história do próximo dia 1 de Outubro já começou a ser escrita. À atenção daqueles que se interessam por estas coisas.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Vietname/Iraque

Um artigo interessante que explica por que razão o paralelismo entre a situação no Iraque e no Vietname tem limites, sugerindo que os desafios enfrentados no primeiro caso são muito menos complexos que no segundo. A contrapor com outro, também recente, igualmente apontando as diferenças entre os dois contextos, mais analítico e ligeiramente menos optimista.

Só lhes falta explicar por que razão essa diferença objectiva (a favor, apesar de tudo, das perspectivas no Iraque) tem como contraponto uma opinião pública que ficou muito mais pessimista muito mais depressa e com muito menos baixas. Mudança de valores sociais? Papel da comunicação social? Polarização de opiniões sobre presidência Bush? Rápida deslegitimação da intervenção por revelação do logro das WMD's?

Eleições Brasil (longo)

Nova rodada de pesquisas eleitorais no Brasil: Sensus, IBOPE e Datafolha. Começo por dizer que, quando olhamos para as intenções válidas de voto (eliminando e redistribuindo proporcionalmente as percentagens de indecisos, votos e branco e não respostas), todas apontam para uma muito ligeira subida de Lula. De 61 para 62% na Sensus; de 56 para 57% na Datafolha; e (num mais curto espaço de tempo), de 57 para 59% no IBOPE. A subida nem mereceria menção se não tivesse ocorrido nas três sondagens, o que diminui a probabilidade de ser fruto de mero erro amostral.



O gráfico seguinte mostra a evolução dos resultados para Lula, ajustando aos pontos obtidos uma curva de regressão local. É visível, quando tomamos em conta toda a informação disponível, que a descida de Lula em meados de Julho aqui assinalada parece ter sido mero acidente de percurso.


É evidente que a evolução mostrada no quadro anterior está muito dependente do número de sondagens feitas por cada instituto e o momento em que a fizeram. Logo, podemos estimar uma intenção de voto "mensal" para cada candidato que seja independente dos "house effects" trazidos para os resultados por cada instituto (ver aqui como se faz):



Por outras palavras, independentemente do instituto que realizou a pesquisa, a melhor estimativa para as intenções de voto em Lula nas pesquisas realizadas em Agosto é de 56,1%, uma subida em relação a Julho. Alckmin desce e Helena sobe, apesar de, em relação a esta última, os dados de mais curto prazo (as últimas sondagens de Agosto) sugerem que as coisas estão menos bem que no início do mês de Agosto.

Falta um mês. O que pode mudar? Começo por assinalar aquilo que alguns portugueses já sabem: os institutos brasileiros têm excelente reputação internacional, apesar de serem ajudados, no que diz respeito à relação entre as estimativas que dão e os resultados eleitorais, pelo voto obrigatório.

Noto também um único elemento de incerteza em relação aos resultados dados até agora: o único instituto (IBPS) que utilizou uma metodologia de amostragem e de inquirição diferente dos restantes (selecção aleatória de inquiridos e telefónica) deu resultados significativamente mais baixos para Lula do que os restantes. Tudo o resto - excepto o IBOPE no início de Junho - são sondagens muito próximas umas das outras. Não sei se há algum brasileiro a ler isto que nos possa ajudar, mas eu gostava de saber se, no passado, o desempenho das sondagens pareceu ser afectado por opções sobre amostragem e inquirição. O meu palpite é que telefónicas no Brasil hão-de comportar grandes problemas de exclusão das camadas mais pobres da população - domicílios sem telefone - e daí piores resultados para Lula e, potencialmente, mais longe dos valores reais da população. Mas é só um palpite.

O que parece, tendo em conta os baixos números de indecisos, é que a coisa está quase feita: Lula tem tudo para ganhar no 1º turno. Contudo, eleições presidenciais em países com sistemas de partidos com baixíssimos níveis de institucionalização ajudam a criar um eleitorado muito volátil, muito sensível a factores de curto prazo. Pelo que convém ir vendo o que as próximas sondagens vão dizer.

terça-feira, agosto 29, 2006

A opinião pública libanesa

Seria bom se tivéssemos uma maneira de apreciar o efeito da guerra no Médio Oriente na opinião pública libanesa em relação ao Hezbollah. Mas não é nada fácil. O exemplo junto mostra como a simples escolha de opções de resposta a uma mesma pergunta em duas sondagens diferentes pode inviabilizar uma comparação segura.

Em Abril de 2004, como já referi aqui, 79% dos Xiitas estavam contra o desarmamento do Hezbollah em quaisquer circunstâncias, enquanto que, entre os restantes grupos religiosos, aqueles que defendiam esse desarmamento eram, mesmo assim, minoritários. A divisão para o total da população era:

Do you agree or disagree with the following statement?"Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%

O que temos agora (14-17 Agosto)?

"The poll by IPSOS for the French-language daily L'Orient-Le Jour found 51 percent of respondents supported the group's disarmament, with 49 percent against, a difference within the survey's margin of error."

O apoio ao desarmamento aumentou ou diminuiu? Depende. Pode ter aumentado de 24% para 51% ou diminuido de 55% para 51%, dependendo da forma como agregamos os resultados do primeiro inquérito e daquilo que nele significa "concordância" com o desarmamento.

Fica contudo a sensação de que, pelo menos, houve algo que aumentou: a polarização de opiniões entre grupos religiosos.

"Among the Shiite community -- Lebanon's largest and the support base for Hizbullah -- the poll found 84 percent of respondents wanted the group to keep its weapons.But among the Druze and Christian communities, 79 percent and 77 percent respectively wanted the group to surrender its arsenal.Among the Sunni community, the poll found a slender majority of 54 percent in favor of the group disarming."

Disto isto, com estas incertezas todas, o anterior resultado torna ainda mais curioso o recente artigo no Jerusalem Post do nosso já conhecido amigo Edward Luttwak. Aqui há uns tempos, num artigo reproduzido no Público que mencionei aqui, Luttwak defendia que o verdadeiro objectivo de Israel no conflito era, aumentando os custos da tolerância em relação do Hezbollah, deslegitimá-lo enquanto partido político aos olhos da população libanesa. Hoje, Luttwak acha que "the outcome of the war is likely to be more satisfactory than many now seem to believe". Porque o Hezbollah foi deslegitimado enquanto partido político? Não.

"Nasrallah has a political constituency, and it happens to be centered in southern Lebanon. Implicitly accepting responsibility for having started the war, Nasrallah has directed his Hizbullah to focus on rapid reconstruction in villages and towns, right up to the Israeli border. He cannot start another round of fighting that would quickly destroy everything again. Yet another unexpected result of the war is that Nasrallah's power-base in southern Lebanon is more than ever a hostage for Hizbullah's good behavior."

Afinal, a guerra produziu efeitos positivos porque o Hezbollah sobreviveu como partido político e por isso está condicionado pelos interesses das suas bases. Sucede que essas bases, como acabámos de ver, estão tão ou mais encarniçadamente contra o desarmamento do que estavam no passado.

Isto de um tipo ter de falar todos os dias sobre a mesma coisa (e de já saber a mensagem que quer transmitir antes de meter os factos na equação) é no que dá.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Líderes

Segue-se a minha melhor estimativa da evolução real dos níveis de popularidade de Sócrates, Cavaco e Mendes, com Sampaio introduzido para servir de ponto de comparação. Há duas empresas a fazerem sondagens regulares, pelo menos uma vez por mês cada. Cada uma delas pergunta aos inquiridos se têm uma opinião positiva ou negativa da actuação dos vários líderes políticos. Mas como a pergunta tem formulações ligeiramente diferentes e, ao que me parece, diferentes opções de resposta (para já não falar de metodologias de amostragem e inquirição diferentes), o que faço é o seguinte:

1. Elaboro um índice de popularidade, calculado da seguinte forma: (2* "% de opiniões favoráveis" + "% de indiferentes")/2. Resulta daqui um valor que oscila entre 0 e 100, com 0 a significar 100% de opiniões negativas, 100 a significar 100% de opiniões positivas, e 50 a significar que há tantas positivas como negativas.

2. Usando dummies para a Eurosondagem e a Marktest e para cada um dos meses onde foram conduzidos inquéritos, corro uma regressão em que a variável dependente é o índice de popularidade para cada líder político e excluindo a constante da equação. Aquilo que obtenho para cada mês é a estimativa do índice de popularidade limpo de "house effects". Tudo isto funcionaria muito melhor se houvesse mais sondagens e mais institutos, mas é o que se pode fazer.



Nas próximas semanas deverão aparecer as sondagens realizadas em Agosto e logo se verá se isso traz novidades especiais. Mas entretanto, é impossível não notar:

1. A estagnação de Marques Mendes a níveis perto do "fifty/fifty" (tantas opiniões positivas como negativas);

2. A subida de Sócrates, lenta mas imperturbável, desde que ultrapassadas as confusões das autárquicas. Não é muito frequente ver um padrão deste género. A curva "clássica" do ciclo de popularidade é um ligeiro aumento logo após as eleições, seguida de uma descida até a meio do mandato, seguida de uma subida até ao final. Mas o que este conseguiu foi perder gás nos primeiros oito meses (se bem que de forma muito menos abrupta do que tinha sucedido com Durão Barroso em 2002) para de seguida começar logo a subir. Macacos me mordam se o apoio de Sócrates a Cavaco nas presidenciais (não erro muito se colocar a coisa nesses termos, pois não?) não tem qualquer coisa a ver com isto...

3. Cavaco sobe ainda mais depressa e já ultrapassou os valores que Sampaio exibia, por exemplo, em Outubro. Sobre isto, há um artigo (para subscritores) de Constança Cunha e Sá no Público, onde a única coisa que não percebo é por que razão a autora parece julgar que a coisa poderia ser diferente.

terça-feira, agosto 22, 2006

Brasil

Um mês depois, a aparente subida de Alckmin em meados de Julho revela-se pouco consistente. Nas sondagens de Agosto, Lula volta aos níveis anteriores de intenções válidas de voto, mesmo com Helena vindo disparada por aí acima. O melhor mesmo é ir acompanhando a coisa.

Failing to be smart

De volta.

Uma semana depois do cessar-fogo no Líbano, os israelitas não estão felizes. 70% acham que Israel não devia ter acedido ao cessar-fogo sem o regresso dos soldados raptados. 66% acham ou que nem Israel nem o Hezbollah ganharam a guerra ou mesmo que foi o Hezbollah o vencedor. 67% querem ver Hassan Nasrallah morto, mesmo que isso implique o recomeço da guerra. 63% gostavam de ver um ataque "preventivo" de Israel contra instalações nucleares no Irão. Aqui, aqui e aqui.

No Líbano, o apoio ao Hezbollah aumentou, pelo menos a julgar por sondagens realizadas durante o conflito. 87% apoiavam a reacção do Hezbollah à "agressão israelita". O apoio era maioritário em todos os grupos religiosos, incluindo Drusos e Cristãos. Aqui. Isto mesmo tendo em conta que, na mesma sondagem, a maioria dos Drusos se manifestou contra o rapto de soldados israelitas. No Egipto, o apoio ao Hamas também subiu exponencialmente. Aqui.

Na Palestina, há cada vez menos palestinianos a desejarem um acordo de paz com Israel. Eram 76% em Junho. São 51% agora. Aqui. 97% apoiam o Hezbollah contra Israel. A confiança em Ismael Hanieh, do Hamas, já ultrapassou a confiança em Mahmoud Abbas. Aqui (.pdf).

"Sadly, the struggle over soft power did not have to turn out this way. (...) Israel had to use force in response to Hezbollah's attack to reestablish the credibility of its deterrence, but it misjudged the scale and duration of its hard-power response. (...) And with dead Lebanese children continually displayed on television day after day, public outrage was bound to limit the leeway of moderate Arab leaders and enhance Hezbollah's narrative. (...) By failing to be smart about how we combine our hard and soft power in the struggle against jihadist terrorism, we fall into the trap set by Al Qaeda's Osama bin Laden and Hezbollah's Hassan Nasrallah, who want to cast the conflict as a clash of civilizations." (Joseph Nye, aqui, via Bloguítica).

sexta-feira, julho 21, 2006

Brasil: temos eleição


As duas sondagens mais recentes confirmam a tendência de descida de Lula. Essa descida faz-se não por diminuição do número de pessoas que nele tencionam votar, mas sim por:

1. Diminuição do número de indecisos e a concomitante...
2. Subida das intenções de voto em Alckmin a partir de Junho, assim como a ...
3. Subida das intenções de voto em Heloísa Helena desde o início de Julho.

A partir de hoje entro em serviços mínimos até meados de Agosto. Quem se interesse pela política brasileira não perde nada em ir, por exemplo, aqui (aproveitando também a lista de ligações a cientistas políticos que estudam o Brasil), aqui ou aqui.

Os americanos e a guerra no Médio Oriente

Survey USA, 16 de Julho, N=1200, Telefónica

Should the United States military get involved? Or should the United States military stay out of it?
Get involved: 12%
Stay out of it: 84%
Not sure: 4%

Should United States diplomats attempt to negotiate a ceasefire between Israel and its neighbours? Or should the United States stay out of it?
Stay out of it: 52%
Attempt to negotiate a ceasefire: 44%
Not sure: 4%

Does Israel have the right to attack Lebanon?
Yes:54%
No: 34%
Not sure: 12%

About the Middle East. Is the kidnapping of Israeli soldiers an act of war against Israel? Or not?
Yes: 60%
No: 25%
Not sure: 15%


Opinion Research Corporation, 19 Julho, N=633, Telefónica

Do you think Israel's military reaction to the situation in the Middle East has gone too far, not gone far enough, or been about right?
Too Far: 31%
Not Far Enough: 14%
About Right: 35%
Unsure: 20%

Which of the following statements comes closer to your view of what Israel should do? Israel should continue taking military action until Hezbollah can no longer launch attacks against Israel. OR, Israel should agree to a cease-fire as soon as possible.
Continue: 39%
Cease-fire: 43%
Unsure: 17%

Tendências maioritárias: apoio a Israel e ao direito de retaliar, resposta tende a ser mais vista como adequada ou até insuficiente, divisão sobre cessar-fogo ou continuação de ataques, desejo de não envolvimento americano (especialmente militar).

quinta-feira, julho 20, 2006

O BE e os seus militantes

Este artigo de Ruben de Carvalho (via Abrupto) é muito divertido.

Para a próxima vez, sugiro que se use uma metodologia menos conspícua mas ainda simples (daí chamar-se "regra de três simples"). Por exemplo:

BE/Portalegre: 3216 votos; 61 militantes.
BE/Lisboa: 103944 votos; logo, 103944*61/3216 militantes, ou seja, 1972 militantes.

Assim, a coisa ficava menos óbvia, ao passo que os matematicamente inclinados não deixariam de apreciar uma proporcionalidade esteticamente atraente entre votos e militantes em todos os distritos. Mais: se se fizer a coisa no Excel, pode actualizar-se automaticamente a base de dados de militantes com a mera introdução de novos resultados eleitorais em cada distrito, solução simples para um problema que vem afectando outros partidos. E na medida em que tudo nesta equação passa a depender de Portalegre, talvez valesse a pena um esforço maior de mobilização nesse distrito, de forma a automaticamente aumentar o número de militantes em todos o país. Vão por mim que é só vantagens.

Haverá, fora de brincadeiras, uma explicação plausível para o sucedido? Difícil imaginar.

quarta-feira, julho 19, 2006

Hezbollah e opinião pública libanesa

Não sei onde Edward Luttwak foi buscar a ideia, expressa hoje em artigo no Público (aqui, para subscritores) de que o desarmamento do Hezbollah era visto como condição para a sua aceitação pelos libaneses. Pelo menos, o que sabe da opinião pública libanesa lança sérias dúvidas sobre o diagnóstico. Em Abril de 2004, foi feita a seguinte sondagem no Líbano:

Zogby International, N=600, 2ª semana de Abril de 2004

Do you agree or disagree with the following statement? - "Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%

Decompondo os resultados por filiação religiosa, nem entre os Maronitas havia uma maioria a favor do desarmamento incondicional, enquanto que, entre os Xiitas, 79% eram contra esse desarmamento em quaisquer circunstâncias. Na mesma sondagem, questionados sobre se estavam ou não de acordo que os Estados Unidos colocassem maior pressão sobre a Síria para o desarmamento do Hezbollah, 61% eram contra (e só entre os Maronitas havia uma maioria a favor).

As perspectivas noutros países não são especialmente diferentes. Na Jordânia, numa sondagem bem mais recente (23 de Junho passado, Centre for Strategic Studies at the University of Jordan), 63% classificavam o Hezbollah como uma "organização de resistência legítima" (e não como uma organização terrorista).

É possível que "o objectivo político de Israel" seja "destruir a posição do Hezbollah enquanto partido político legítimo do Líbano". E é muito possível que os líderes árabes vejam o Hezebollah como um "irritante" ou mesmo um "inimigo mais perigoso que Israel", como também se diz numa notícia do Público. Mas o sentimento das populações não condiz nem com o putativo objectivo de Israel nem com as alegadas posições das lideranças políticas árabes, o que, em última análise, vai condicionar quer o sucesso do primeiro quer a manutenção das segundas. Esse sentimento, aquilo que o produz e o ressentimento brutal quer contra Israel quer contra os Estados Unidos, não deviam - pela milionésima vez - ser sub-estimados na análise da questão.

terça-feira, julho 18, 2006

Mais sondagens Médio Oriente

Uma mensagem convida-me a adoptar uma definição mais lata do "conflito" e a incluir sondagens anteriores aos ataques do Hezbollah, incluindo também o período que se seguiu ao rapto de Gilad Shalit e os ataques de Israel em Gaza. O que encontro é isto:

Na Palestina [Jerusalem Media Communications Center, 21-22 Junho, N=1197, face-a-face, aleatória (aqui, .pdf)]
* 77.2% expressed its support for the military operation that included the abduction of the Israeli soldier Gilad Shalit while only 21.7% said they opposed it;
* 66.8% supported the continuation of such operations that aim at the abduction of Israeli soldiers as a suitable response within the current political conditions compared with 30.7% who reject them and find them harmful to the Palestinian national interests;
* 60.4% supported the continuation of firing rockets against Israeli targets as a suitable response within the current political conditions whereas only 36% said they reject them and find them harmful to the Palestinian national interests;
Em Israel (30 Junho, sondagem publicada no Yedioth Ahronoth, não tenho elementos metodológicos):

* 53 percent of Israelis polled said the country should hold negotiations to secure his [Gilad Shalit] release, while 43 percent backed a military operation;
*58 percent of those polled would back a prisoner release if it was clear militants would otherwise kill the soldier, while 35 percent opposed it.

E já agora, aprovação da actuação de Olmert (são sondagens de institutos diferentes e formulações da pergunta ligeiramente distintas, mas as diferenças são tão grandes que certamente não se devem a isso):

* 7 Junho: 35%;
* 5 de Julho: 43%.
* 17 de Julho: 78%.

Logo:

1. Na Palestina, apoio forte ao rapto de Shalit e aos ataques a Israel;

2. Em Israel, fica a ideia que as atitudes mudaram substancialmente quando o Hezbollah e o Líbano entraram na equação;

3. Se a ideia era testar Olmert e se a ideia de Olmert é dar uma imagem de força neste teste, então a coisa não lhe está a correr mal para já. Resta saber as consequências a médio e longo prazo disto tudo...

Israel, Líbano, Hezbollah: sondagem

A primeira sondagem feita em Israel desde o início do conflito foi feita pelo Dahaf Institute e os resultados aparecem publicados no Yedioth Ahronoth.

Dahaf Institute, N=513, Telefónica, 17 Julho:

"Fighting should continue until Hizbullah is completely eradicated": 58%
"Fighting should go on only until Hizbullah pulls back from the border": 23%
"We should stop fighting and start negotiating": 17%

"Military operation is justified": 86%
"Military action is a mistake": 14%

Performance of Israeli military forces:
"Very good": 62%
"Fairly good": 25%
"Fairly bad": 5%
"Very bad": 4%

O apoio à acção militar e ao desempenho das IDF é ainda mais elevado entre a população que vive no norte de Israel.

Vou tentar acompanhar a publicação doutras sondagens quer em Israel quer noutros países, mas para já julgo poder dizer com segurança que esta é a única publicada até agora sobre o tema.

terça-feira, julho 11, 2006

Cá está

Sondagem Sensus confirma indicações anteriores da Datafolha e da Vox Populi: Alckmin sobe, Lula desce.

Presidenciais Brasil

Enquanto estive fora saíram duas sondagens: Vox Populi e Datafolha (hoje, ao que parece, há resultados da Sensus). Os resultados são intrigantes: depois dos dados IBOPE, que colocavam Lula com resultados estratosféricos no âmbito da "crise" do PMDB, agora Lula volta a descer e Alckmin a subir. Particularmente interessantes são os quadros da Datafolha, que mostram que os eleitores do PMDB estão, na sua maioria, indecisos, mas que os decididos se dividem agora, quase equitativamente, entre Lula e Alckmin. Deverá estar aqui a chave da subida de Alckmin. Afinal, as coisas estão mais abertas para uma segunda volta do que se pensava.

segunda-feira, julho 10, 2006

Popularidade líderes políticos Portugal

Depois de uns dias sem posts, regresso com a análise habitual dos barómetros da Marktest e da Eurosondagem. O primeiro gráfico mostra a evolução dos índices de popularidade de José Sócrates, Marques Mendes, Cavaco Silva e (como ponto de comparação com o anterior) Jorge Sampaio de Março de 2005 a 23 de Junho de 2006 (último dia de trabalho de campo do último barómetro Marktest). A forma como o índice é calculado já foi explicada em posts anteriores, mas recordo que pode oscilar entre 0 (100% de opiniões negativas) e 100 (100% de opiniões positivas).


Como podem verificar, segundo a Marktest:

1. Cavaco continua a subir, aproximando-se dos valores de Sampaio no final do mandato;
2. Estabilidade para Sócrates e Mendes, com o primeiro a manter a vantagem que conquistou ao segundo a partir do fim de 2005. Último barómetro dá ligeira descida do primeiro e subida do segundo, mas é cedo para tirar conclusões. Estas flutuações já ocorreram em meses anteriores, tendo sido de seguida corrigidas, parecendo ser mais fruto de erro aleatório do que outra coisa qualquer. Veremos se o mesmo sucede no próximo mês (se bem que a realização deste tipo de inquéritos durante o Verão comporta os mais variados problemas, a começar pela qualidade das amostras).

O gráfico seguinte mostra a mesma análise para a Eurosondagem, desde Abril de 2005 a 4 de Julho de 2006 (último dia de trabalho de campo da última sondagem). Há semelhanças e diferenças em relação à Marktest. Semelhanças em relação a Cavaco, cuja subida constante desde a tomada de posse se confirma (apesar de total estabilidade de Junho para Julho). Diferenças no que respeita a Sócrates, que obtém resultados mais lisonjeiros aqui na Eurosondagem, nunca tendo estado a par com Marques Mendes e mostrando tendência de subida.

Politicamente, contudo, tudo igual: Cavaco ganhou rapidamente "pátina" presidencial; Sócrates mantém imagem mais positiva que negativa; líder da oposição ainda longe do PM. Tanto trabalho para tão poucas novidades...

quarta-feira, junho 14, 2006

Brasil: PMDB sem candidato

Ao longo dos últimos meses, tenho afixado aqui os resultados das sondagens de intenção de voto realizadas no Brasil após a confirmação da candidatura de Alckmin. Contudo, havia ainda algo por decidir: se o PMDB teria candidato. Confirma-se agora que não terá candidato, preferindo o partido repartir os despojos da previsível vitória de Lula.

Logo, revisitei as sondagens anteriores de modo a apresentar os resultados das respostas à pergunta sobre intenção de voto onde o cenário oferecido aos eleitores era aquele sem um candidato do PMDB. Nem todas ofereciam esse cenário, pelo que nem todos os resultados apresentados são comparáveis entre si. O que são comparáveis entre si estão assinalados a negrito.



Já toda a gente disse e repetiu que a ausência de um candidato para o PMDB - especialmente a ausência de Garotinho - iria favorecer Lula e aumentar a probabilidade de uma vitória à ª1 volta. Mas talvez valha agora a pena assinalar é que as intenções de voto em Lula estão a aumentar independentemente da presença ou ausência de um candidato do PMDB, especialmente porque a subida de Lula está associada a uma descida de Alckmin mesmo nos cenários de ausência de candidato PMDB (se excluirmos a sondagem IBPS de 3 de Maio, um claro outlier).

segunda-feira, junho 12, 2006

Popularidade II

Para facilitar a leitura, fica a evolução dos índices de popularidade nos dois barómetros (Marktest e Eurosondagem):

Marktest


Eurosondagem

Como vêem, tudo muito parecido, a não ser com Sócrates. A Marktest parece ser mais sensível a mudanças do que a Eurosondagem; a Marktest sugere que Sócrates está a descer desde Março, enquanto a Eurosondagem lhe dá sinais de recuperação recente.

Popularidade líderes políticos Portugal

Sondagem da Eurosondagem divulgada no Expresso neste Sábado. Cavaco sobe vertiginosamente seja qual for o indicador utilizado [% de opiniões positivas, saldo positivas-negativas, índice (2*positivo+ns-nr-indif)/2]. Resultados coincidem na tendência com os obtidos há dias pela Marktest.




Mendes sobe nas opiniões positivas, mas desce globalmente, devido a aumento muito acentuado das opiniões negativas. Resultados congruentes com os da Marktest.


Sócrates recupera depois de uma descida em Maio, seja qual for o indicador utilizado. Aqui as coisas não jogam com o Barómetro da Marktest, que sugere, na melhor da hipóteses, estagnação e, na pior, continuação de tendência de descida iniciada a partir de Março.


A seguir com atenção. Estes barómetros, apesar de terem sempre resultado em valores absolutos muito diferentes, tem sido quase perfeitamente congruentes nas tendências detectadas.

Lidos no Canhoto

Este post de Paulo Pedroso, com uma análise bi-dimensional (notoriedade e popularidade) dos rankings dos membros do governo medidos através do Barómetro Marktest.

Estes posts de Rui Pena Pires, sobre o tema do voto obrigatório, tema que já foi abordado em vários posts na blogosfera (por exemplo, este).

sexta-feira, junho 09, 2006

Timor: sondagem

Como complemento àquilo que escrevi aqui, assim como àquilo vamos lendo aqui, aqui ou aqui, talvez valha a pena olharmos para os resultados de uma das poucas sondagens realizadas em Timor-Leste [mantenho o inglês dos relatório original (.pdf), mas claro que as perguntas e opções de resposta foram feitas nas várias línguas originais]:

The Asia Foundation/Charney Research/AC Nielsen, Dezembro 2002, N=1114, aleatório, presencial

In what languages can you speak? (pergunta de resposta múltipla; soma das percentagens superior a 100%):
Tetum: 88%
Indonesian: 40%
Mambae: 17%
Makasa’e: 10%
Portuguese: 7%
Others with 5% or less: 27%

Apenas 7% dos inquiridos declaram saber falar português.


How concerned are you about corruption in the government: very concerned, somewhat concerned, not really concerned, or not at all concerned?
Very: 76%
Somewhat: 14%
Not concerned: 5%
DK/NA: 5%

90% dos inquiridos estavam, do final de 2002, "muito" ou "algo" preocupados com a corrupção no governo


People talk a lot in East Timor today about the Constitution. What does the Constitution mean for the country?
Source of law / basic law for citizens: 28%
Way of life / guidance on being citizens: 15%
Law and order: 8%
Rules for an independent country: 7%
Public and government participation: 4%
A good thing: 3%
Effort to develop rules / future law and order; 2%
Other: 1%
Unsure: 33%

1/3 da população não sabia dizer o que era a Constituição.


This year the Constitution was adopted as the highest law in East Timor. Did you feel there was genuine public participation when it was written, or not?
Yes: 45%
No: 41%
DK/NA: 15%

Mais de 40% acham que a Constituição foi aprovada sem participação pública. O sentimento era especialmente forte em Baucau e na região Leste do país, claro.


Nada acontece por acaso.

quarta-feira, junho 07, 2006

Estancou a sangria?

Há sinais de que a popularidade de Bush, no mínimo, parou de descer e, no máximo, estará a recuperar. O Political Arithmetik analisa os dados e aponta as posições de Bush sobre a imigração (apoiadas transversalmente pela população) como presumíveis responsáveis. Mas assinala também como esta recuperação está intimamente ligada a uma subida da popularidade de Bush entre os simpatizantes do Partido Republicano. A aproximação das eleições é certamente responsável por esta remobilização das bases.

segunda-feira, junho 05, 2006

Sondagens Brasil

Duas novas sondagens, uma do IBOPE e outra da Vox Populi. Lula continua a subir à custa da indefinição no PMDB. Mas mesmo no cenário com Garotinho (na Vox Populi), Lula tem vitória à 1ª volta, e o cenário Pedro Simon usado no IBOPE é-lhe, claro, ainda mais favorável.

Popularidade líderes políticos Portugal

Com algum atraso, vamos aos dados do Barómetro Marktest (.pdf). O gráfico abaixo mostra a evolução dos resultados do Barómetro desde Março de 2005 no que respeita à percentagem de inquiridos que faz uma avaliação positiva da actuação de cada um dos líderes políticos. Sampaio permanece no gráfico para termos um ponto de comparação com Cavaco.

Usando toda a informação resultante do Barómetro Marktest - opiniões positivas, negativas e sem opinião - tenho usado um índice já explicado aqui. Os resultados não são muito diferentes, fazendo apenas com que as diferenças entre eles e o efeito da passagem do tempo se tornem menos expressivos:


Logo:

1. Cavaco começa aproximação ao habitual "olimpo" presidencial;
2. Sócrates, apesar da manter vantagem sobre Mendes, dá sinais de descida.

quinta-feira, maio 25, 2006

quarta-feira, maio 24, 2006

Ainda sobre jornalistas e especialistas...

Nada mais oportuno do que estes artigos, via Ponto Media.

O livro de Carrilho: notas de leitura

Lá fui ler o livro. Queria apenas deixar umas notas sobre as passagens em que o autor se refere a sondagens pré-eleitorais:


"A sondagem da Universidade Católica, de meados de Julho, é curiosa, porque nos dados brutos a relação entre a minha candidatura e a de C. Rodrigues é de 22/24, a favor dele, mas quando se projectam os votos dos indecisos o resultado final é-me favorável, com 41%, ficando ele nos 36%" (p. 116)

Sobre isto, os interessados podem consultar este meu post da altura.


"Nesta situação, abria-se também o debate sobre o significado destes dados. O ponto principal era o de avaliar a credibilidade das sondagens e dos métodos utilizados, uma vez que umas empresas (a Aximage e a Eurosondagem) utilizavam o sistema de consulta telefónica, a Universidade Católica utilizara o sistema de consulta de rua e a Metris utilizava o método de voto em urna". (p. 116)

Só uma clarificação: a Católica não faz sondagens pré-eleitorais por "consulta de rua", mas sim nos domicílios dos eleitores, presencial ou telefonicamente. Há alguns casos, excepcionais, em que se recorre a entrevistas na rua no contexto de uma sondagem presencial, mas apenas quando as dificuldades em contornar o problema das recusas ou das ausências nos domicílios são muito grandes.


"Tendo confirmado que Lisboa está já com uma cobertura de rede fixa muito baixa, perto dos 50%, pareceu-me que a metodologia a seguir deveria ser a do voto em urna, em que o cidadão é colocado numa situação análoga à do dia da eleição propriamente dita. Foi nesse sentido também que recebi pareceres de especialistas, que contudo me alertaram para a maior deficiência desta metodologia, e que é a de não medir a abstenção, factor que nas eleições de hoje - e nomeadamente nas autárquicas - é muitas vezes decisivo" (p. 116)

"a Metris, com o voto em urna, a acreditar na vitória do PS, a Aximage, com o voto telefónico, a distanciar o PSD. A acreditar nestes dados, tudo seria decidido (como foi) pela abstenção, e sobretudo pelo tipo (mais de esquerda ou de direita) da abstenção, que é o que as sondagens de voto em urna não apanham" (p. 163).

Há aqui dois equívocos. O primeiro consiste em dizer-se que as sondagens que utilizam voto simulado em urna "medem" melhor ou pior a abstenção. Não há razão nenhuma para tal. Todas as sondagens, de forma a procurarem medir a intenção de não votar (ou quaisquer outros indicadores na base dos quais a intenção de não votar se possa inferir) têm de fazer perguntas. Nada impede que uma sondagem de voto em urna coloque essas perguntas e que, após respondidas, entregue o boletim ao inquirido para que ele o preencha confidencialmente. Não percebo qual é o problema especial das sondagens com voto em urna deste ponto de vista. Dificuldade em estimar a abstenção têm todos, telefónicos, com urna ou sem urna.

O segundo equívoco está na"deficiência" das sondagens de voto em urna: elas têm uma deficiência, sim, mas não tem a ver com a abstenção. Tem a ver com o facto de impedirem que se coloque uma bateria de perguntas de dimensão razoável que nos permita conhecer em detalhe as características socio-demográficas a atitudinais dos indivíduos. Precisamente para não se perturbar a vantagem do voto em urna - inquérito breve e confidencial no que respeita à intenção de voto - o questionário associado tem de ser igualmente breve. Logo, até podemos obter uma maior precisão na medição das intenções reais de voto, mas ficamos a saber muito pouco sobre o eleitorado.

Já agora, por que razão anda uma campanha a fazer sondagens com urna? De que serve a essa campanha "saber" quais as percentagens de voto que ela ou os adversários vão obter, ainda por cima a meses das eleições? Não servirão as sondagens dos media para isso? Não seria mais útil para a campanha conhecer melhor as características do eleitorado, os alvos que deve procurar atingir, as prioridades e atitudes dos eleitores? Para isso, as sondagens em urna não servem. E se não servem para isto, de que servem a uma campanha? É possível que haja uma explicação, mas não estou a ver.

segunda-feira, maio 22, 2006

A jornalista e o "especialista": estudo de caso

Na semana passada fui contactado telefonicamente por uma jornalista do Expresso, que me pediu um depoimento sobre o livro de Manuel Maria Carrilho e as questões por ele levantadas. Comecei por lhe dizer que não li o livro e que nada sei sobre o mundo das agências de informação, mas retorquiu-me que queria falar comigo para discutir a questão do efeito real da comunicação social no comportamento de voto. Acedi.

Disse-lhe, mais uma vez, que não tinha lido o livro. Que em Portugal não havia, que eu soubesse, muita investigação sobre o efeito das mensagens dos media nos resultados eleitorais. Mas que havia muita investigação noutros países, e o que se sabia, em geral, era o seguinte:

1. Que o facto de alguém ser exposto a mensagens negativas sobre um candidato ou partido não tem necessariamente um grande efeito sobre o seu comportamento. Que os indivíduos não são uma "folha em branco". Eles partem para a campanha com as suas próprias predisposições políticas, que os fazem interpretar essas mensagens de uma forma congruente com essas predisposições. Dei um exemplo extremo: o facto de um simpatizante do Partido Comunista ser exposto a muitas mensagens negativas sobre o partido não implica que deixe de votar nele. Pelo contrário: pode mesmo interpretar essas mensagens como sendo enviesadas e, assim reforçar as suas predisposições. Que, deste ponto de vista, não conhecia estudos que indicassem que o factor decisivo numa vitória ou derrota eleitoral tenha sido a comunicação social.

2. Que, no caso Carrilho, parece ter sucedido algo muito semelhante ao caso Santana Lopes: a cobertura do candidato foi quase universalmente negativa, o que sugere que, em vez de uma "conspiração" por parte de um conjunto concreto de órgãos de comunicação, o problema estaria no candidato, na sua actuação e na desadequação do seu perfil em relação àquilo que os media definem como o perfil "aceitável" de um candidato.

3. Contudo, apesar do que disse no ponto 1, sabe-se que os media podem ter efeitos mais insidiosos no comportamento eleitoral, ao carregaram a agenda política de temas que desfavorecem ou favorecem o ângulo através do qual um candidato pode ser avaliado, mesmo sem transmitirem mensagens explícitas a favor ou contra ele. Dei o exemplo simples do que implica para o sucesso eleitoral de um Presidente ou Primeiro-Ministro que, sob condições económicas negativas, a agenda dos media esteja carregada de notícias sobre o estado da economia. Não há propriamente uma mensagem explícita contra esse líder político, mas há a construção de um critério de avaliação. Não falei em "agenda-setting", "framing" ou "priming", para não complicar.

4. Que, a olho, me parecia que os jornais portugueses eram muito vulneráveis à influência de seja quem for que lhes coloque nas mãos informação "preparada". Que, por inexperiência, incompetência ou excesso de trabalho, os jornalistas tendem frequentemente a assumir uma atitude passiva em relação aos "pacotes" de informação que as agências e os assessores lhes fazem chegar (na altura, não sabia que "cerca de 70% das notícias publicadas nos jornais portugueses têm como origem as agências de informação ou os gabinetes de Imprensa", mas estou tudo menos surpreendido).

A jornalista pediu-me autorização para usar dados deste blogue para procurar uma relação entre a cobertura jornalística da campanha autárquica em Lisboa e os resultados de sondagens. Dei-lha, sugerindo também que consultasse o site da Marktest, pedindo-lhe apenas que referisse as fontes.

Qual foi o resultado destes dez minutos de conversa? Este parágrafo:

Pedro Magalhães, do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica, refuta de forma categórica as teses de Carrilho e alerta para os efeitos contraproducentes das campanhas negativas: «Se eu for apoiante do Partido Comunista e se recebo da Comunicação Social apenas críticas ao meu partido, começo a achar que elas são enviezadas e posso até reforçar as minhas crenças».

Não interpretem este post como uma crítica à jornalista. Como é óbvio, ela tinha de fazer uma selecção daquilo que eu disse e integrar essa selecção de forma coerente em toda a notícia ( tenho apenas duas críticas: os resultados das sondagens foram apresentados no Expresso sem menção da fonte de onde foram coligidos; "enviesadas" escreve-se com "s", e não com "z").

Mas este pequeno e irrelevante caso levanta várias questões interessantes. Já tinham pensado como, de cada vez que lêem "depoimentos" nos jornais, eles resultam de uma criteriosa selecção por parte do jornalista daquilo que foi dito? E quais os critérios de selecção e apresentação? Por que razão terá a jornalista optado por escrever que o autor do depoimento "refuta de forma categórica das teses de Carrilho", quando esse autor lhe disse que não conhece em pormenor as ditas teses e quando o conjunto do seu depoimento não parece constituir exactamente uma "refutação categórica" delas (ver pontos 3. e 4.).

E o caso faz também com que me coloque a mim próprio outras questões. Há um ano, Pacheco Pereira escreveu um texto onde defendia que as opiniões daqueles que estudam temas políticos não eram diferentes "de opiniões políticas, de cidadãos, no espaço público" sem outra "legitimidade acrescida enquanto opiniões de natureza política":

"O resultado ou são truísmos (a transposição de um resultado académico ipsis verbis para uma afirmação de carácter político raras vezes resulta noutra coisa) ou são puras opiniões políticas, a que o estatuto académico dá uma aura de isenção e intangibilidade que confunde o debate público."

Na altura critiquei-o, defendendo que o debate político poderia "eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas 'opiniões políticas' são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso."

Contudo, este caso faz-me pensar se ele não terá razão. Que contribuição específica ou adicional ao debate político pode dar um "especialista" quando aquilo que ele diz é "ensalsichado" pela máquina de produção de notícias e depois, ainda por cima, se vende a salsicha como proveniente de região especial demarcada, legitimando uma mensagem que, da forma como é apresentada, acaba por fazer parte de um determinado argumentário político (mesmo que não partilhado pela fonte)?

Esta foi a parte do pensamento sobre o tema. A parte da acção é mais simples: nunca mais dou um depoimento à imprensa sem ter completo controlo sobre a forma como esse depoimento vai ser apresentado. Live and learn.

sexta-feira, maio 19, 2006

Sondagem em São Paulo

Da Datafolha. Alguns destaques:

- "Para 56% dos moradores da cidade de São Paulo, o governador Cláudio Lembo (PFL) teve uma atuação ruim ou péssima durante os ataques do PCC que deixaram o estado de São Paulo em pânico nos últimos dias";

- "Quando indagados sobre a responsabilidade pelos ataques terem acontecido, a maioria (55%) atribui muita responsabilidade ao Poder Judiciário pelos acontecimentos. Para 30% o governador Cláudio Lembo tem muita responsabilidade e para 39% um pouco de responsabilidade pelos ataques. (...) Atribuem muita responsabilidade ao presidente Lula (PT) 39%, e acham que o ex-governador Geraldo Alckmin, que deixou o cargo para se candidatar à Presidência há pouco mais de um mês, é muito responsável pelos ataques 37%."

- "Para 65% o governo do estado negociou para que os ataques parassem. Desses, 42% acham que o governo agiu mal ao negociar e 21% acham que agiu bem."

segunda-feira, maio 15, 2006

"Everything is up in the air"

USA Today, 17 de Março de 2003:

"It's a new era for foreign policy," says William Kristol, a leading Republican who helped develop the strategy while the party was out of power during the Clinton administration. "Iraq has implications beyond Iraq and in a sense is about more than Iraq. It reflects a broader worldview. How it goes — whether it goes well or not — will very much affect people's judgments about what to do in the future" in the world. (...) If war with Iraq succeeds as envisioned, Kristol says, the United States will be in a position to pursue a more confrontational policy toward rogue regimes and move to "remake" the Middle East.

And if it doesn't go well? "Then everything is up in the air."


Estados Unidos, CBS News/NYT Poll, 8 Maio de 2006, Telefónica, N=1241.
"Looking back, do you think the United States did the right thing in taking military action against Iraq, or should the U.S. have stayed out?"

Did the right thing: 39% (Fevereiro: 41%)
Should have stayed out: 56% (Fevereiro: 54%)
Unsure: 5% (Fevereiro: 5%)


"Which comes closer to your opinion—Iran is a threat to the United States that requires military action now, Iran is a threat that can be contained with diplomacy now, or Iran is not a threat to the United States at this time?"

Threat requiring action now: 11% (Fevereiro: 20%)
Threat that can be contained: 58% (Fevereiro: 55%)
Not a threat at this time: 22% (Fevereiro: 19%)
Not sure: 8% (Fevereiro: 6%)