O Eurobarómetro 64, realizado há um ano, dá uma boa ideia dos sentimentos dos europeus em relação à entrada da Turquia na União Europeia. 55% dos Europeus são contra. A rejeição é mais elevada na Áustria, na Alemanha e em França, para cima de 70%. Isto é especialmente importante porque, como se dizia no Guardian a propósito de um estudo anterior, "France and Austria are due to hold referendums on Turkish membership once the accession talks end in about 10 years, all but guaranteeing that Turkey will be blocked if the current climate prevails."
É também por saberem isso que os turcos estão cada vez mais indispostos "connosco", como se vê neste relatório (.pdf). E como não? Para quê apoiar todas as reformas pedidas pela UE, algumas delas tocando nos receios de perda de identidade nacional e em temas que beliscam o nacionalismo turco, se, no final, os políticos europeus se escudarão por detrás dos referendos para deixar a Turquia de fora? O crescimento do cepticismo é perfeitamente racional.
É por tudo isto que a posição do Papa é tão importante. Afinal, até o Papa pode mudar de ideias...
quarta-feira, novembro 29, 2006
terça-feira, novembro 28, 2006
Turquia
Quem também parece ter perdido a paciência, neste caso com a União Europeia, são os turcos:
International Strategic Research Organization, N=1100, Nov. 4, 2006
Should Turkey suspend its accession talks with the European Union (EU) in the event of continued pressure from the bloc on opening ports and airports?
Yes: 70%
No: 20%
Not sure: 10%
Do you think Turkey and the EU will reach a compromise on the row over ports and airports?
Yes: 26%
No: 63%
Not sure: 11%
O nacionalismo turco é uma coisa potente. Mas não é fácil persuadir seja quem for da seriedade das intenções europeias - ou da plausibilidade da entrada da Turquia na UE, faça a Turquia o que fizer - quando se vêem coisas como estas:
Alemanha, FG Wahlen / ZDF, N=1303, Nov. 9
Do you support or oppose Turkey’s accession to the European Union (EU)?
Support: 33%
Oppose: 61%
Not sure: 6%
International Strategic Research Organization, N=1100, Nov. 4, 2006
Should Turkey suspend its accession talks with the European Union (EU) in the event of continued pressure from the bloc on opening ports and airports?
Yes: 70%
No: 20%
Not sure: 10%
Do you think Turkey and the EU will reach a compromise on the row over ports and airports?
Yes: 26%
No: 63%
Not sure: 11%
O nacionalismo turco é uma coisa potente. Mas não é fácil persuadir seja quem for da seriedade das intenções europeias - ou da plausibilidade da entrada da Turquia na UE, faça a Turquia o que fizer - quando se vêem coisas como estas:
Alemanha, FG Wahlen / ZDF, N=1303, Nov. 9
Do you support or oppose Turkey’s accession to the European Union (EU)?
Support: 33%
Oppose: 61%
Not sure: 6%
Israel
Enquanto Olmert procura negociar com a Autoridade Palestiniana, os israelitas parecem ter perdido a paciência com Olmert. Para posição negocial, dificilmente poderia ser pior.
Teleseker / Maariv, N=450, Nov. 9, 2006.
Should prime minister Ehud Olmert resign?
Yes: 51%
No: 42%
Dahaf Institute / Yediot Ahronot, N=4999, Nov. 20, 2006
Who is best to be prime minister?
Benjamin Netanyahu:47%
Ehud Olmert: 22%
Mas as as coisas para a outra parte não estão muito melhor:
Palestinian Center for Public Opinion, 18 Out. 2006, N=1020
How do you evaluate the performance of the Palestinian Prime Minister, Mr. Ismael Haniyyeh at present?
Very good: 18%
Good: 23%
Mediocre: 26%
Bad: 15%
Very bad: 17%
Don't know: 2%
Teleseker / Maariv, N=450, Nov. 9, 2006.
Should prime minister Ehud Olmert resign?
Yes: 51%
No: 42%
Dahaf Institute / Yediot Ahronot, N=4999, Nov. 20, 2006
Who is best to be prime minister?
Benjamin Netanyahu:47%
Ehud Olmert: 22%
Mas as as coisas para a outra parte não estão muito melhor:
Palestinian Center for Public Opinion, 18 Out. 2006, N=1020
How do you evaluate the performance of the Palestinian Prime Minister, Mr. Ismael Haniyyeh at present?
Very good: 18%
Good: 23%
Mediocre: 26%
Bad: 15%
Very bad: 17%
Don't know: 2%
segunda-feira, novembro 27, 2006
Ainda Venezuela (aditado)
Clima generalizado de suspeita sobre as sondagens. Sobre a Penn, Shoen & Berland, cujas sondagens dão Rosales bem perto de Chávez, algumas notícias - cuja proveniência merece, ela própria, algum cepticismo - relata antigas acções fraudulentas. Realmente, a reputação da PSB é a de associar com excessiva facilidade aos actores políticos locais: veja-se Itália e os trabalhinhos para Berlusconi. E reconheça-se que não é fácil acreditar nestas sondagens quando se lê esta notícia sobre a garantida "vitória por avalanche" de Rosales na ... www.petroleumworld.com...
Mas entretanto, vale a pena ler os resultados desta experiência, onde diferentes inquiridos numa sondagem preencheram o voto com canetas de cores diferentes, de forma a se estimarem os efeitos da percepção de que a sondagem poderia estar associada a diferentes candidaturas. Friederich Welsch é um politólogo com obra publicada. Isto não garante tudo, mas ajuda, e o argumento - a "espiral do medo" - é plausível.
Mas a lição final talvez seja esta: quando não se pode confiar nas eleições, também não se pode confiar nas sondagens.
P.S. - Ilustração do ponto anterior: resultados eleitorais vs. sondagens à boca da urnas na Venezuela.
P.P.S. - E um post, desta vez criticando as sondagens "chavistas".
Mas entretanto, vale a pena ler os resultados desta experiência, onde diferentes inquiridos numa sondagem preencheram o voto com canetas de cores diferentes, de forma a se estimarem os efeitos da percepção de que a sondagem poderia estar associada a diferentes candidaturas. Friederich Welsch é um politólogo com obra publicada. Isto não garante tudo, mas ajuda, e o argumento - a "espiral do medo" - é plausível.
Mas a lição final talvez seja esta: quando não se pode confiar nas eleições, também não se pode confiar nas sondagens.
P.S. - Ilustração do ponto anterior: resultados eleitorais vs. sondagens à boca da urnas na Venezuela.
P.P.S. - E um post, desta vez criticando as sondagens "chavistas".
Mais Venezuela
Este é mais um exemplo de como o conhecimento do contexto é vital e o meu é, para ser generoso, limitadíssimo (talvez um português que esteja na Venezuela e que leia isto possa ajudar, mas duvido que o Margens de Erro chegue tão longe...)
Eis que logo depois de avisar aqui acerca das sondagens que dão Rosales muito perto de Chávez para as eleições do dia 3 de Dezembro, surge esta (relatório completo, .pdf), da IPSOS, que coloca Chávez com uma vantagem brutal. A IPSOS é uma grande multinacional e não costuma brincar em serviço, mas haveria que saber mais sobre quem está a fazer o trabalho na Venezuela. Pelos vistos, é a IPSOS-Brasil, que esteve ausente de tudo o que foram sondagens para as presidenciais brasileiras publicadas nos media... Mas especulo: olho para a variedade incrível de resultados nas sondagens para as presidenciais na Venezuela e não sei o que pensar. O melhor é continuar a seguir aqui.
Eis que logo depois de avisar aqui acerca das sondagens que dão Rosales muito perto de Chávez para as eleições do dia 3 de Dezembro, surge esta (relatório completo, .pdf), da IPSOS, que coloca Chávez com uma vantagem brutal. A IPSOS é uma grande multinacional e não costuma brincar em serviço, mas haveria que saber mais sobre quem está a fazer o trabalho na Venezuela. Pelos vistos, é a IPSOS-Brasil, que esteve ausente de tudo o que foram sondagens para as presidenciais brasileiras publicadas nos media... Mas especulo: olho para a variedade incrível de resultados nas sondagens para as presidenciais na Venezuela e não sei o que pensar. O melhor é continuar a seguir aqui.
sexta-feira, novembro 24, 2006
Popularidade líderes políticos, Portugal
Nova sondagem da Marktest para DN e TSF, aqui (.pdf). O gráfico seguinte mostra a evolução do saldo entre as percentagens de opiniões positivas e negativas para Sócrates, Marques Mendes, e Cavaco (e Sampaio como ponto de comparação para este último) nas sondagens de Marktest desde Março de 2005:

Mantém-se a discrepância de valores entre a Eurosondagem (a azul) e a Marktest (a verde) no que respeita a Sócrates. Numa, Sócrates tem estado relativamente estável e até com tendência de subida. Noutra, Sócrates desceu abruptamente em Outubro, e agora pouco recupera. Vá-se lá saber.

Os gráficos estão feitos um bocado à pressa, mas estou sem tempo para mais.

Mantém-se a discrepância de valores entre a Eurosondagem (a azul) e a Marktest (a verde) no que respeita a Sócrates. Numa, Sócrates tem estado relativamente estável e até com tendência de subida. Noutra, Sócrates desceu abruptamente em Outubro, e agora pouco recupera. Vá-se lá saber.

Os gráficos estão feitos um bocado à pressa, mas estou sem tempo para mais.
quinta-feira, novembro 23, 2006
Surpresa na Venezuela?
Fast Venezuela, N=2288, última semana de Outubro
Which candidate would you vote for in the presidential election?
Hugo Chávez (MVR): 49%
Manuel Rosales (UNT): 47,6%
Benjamín Rausseo (Piedra): 1.3%
Reacção previsível da candidatura Chávez: "Mario Issea, one of Chávez’s campaign coordinators, said the president would earn a new term adding, 'The phoney polls are trying to establish a trend to allow Rosales to claim fraud, but true surveys and the people are corroborating that Chávez will win.' "
Para uma análise dos números recentes, ver aqui, onde não é fácil distinguir quais serão as "phoney polls" e quais serão os "true surveys"... A seguir com muita atenção, especialmente porque não é de todo garantido que Chávez esteja inteiramente disposto a, digamos, perder.
Which candidate would you vote for in the presidential election?
Hugo Chávez (MVR): 49%
Manuel Rosales (UNT): 47,6%
Benjamín Rausseo (Piedra): 1.3%
Reacção previsível da candidatura Chávez: "Mario Issea, one of Chávez’s campaign coordinators, said the president would earn a new term adding, 'The phoney polls are trying to establish a trend to allow Rosales to claim fraud, but true surveys and the people are corroborating that Chávez will win.' "
Para uma análise dos números recentes, ver aqui, onde não é fácil distinguir quais serão as "phoney polls" e quais serão os "true surveys"... A seguir com muita atenção, especialmente porque não é de todo garantido que Chávez esteja inteiramente disposto a, digamos, perder.
quarta-feira, novembro 22, 2006
Off topic: o livro de Santana Lopes
Pareceu-me muitíssimo acertado o artigo de Rui Ramos hoje no Público (só para assinantes) sobre o livro de Pedro Santana Lopes. A ideia com que se fica no final da leitura do livro é que tudo aquilo que lemos nos jornais é verdadeiro. Quando digo que o que lemos nos jornais é “verdadeiro” não me refiro aos “factos”, mas sim àquilo que a cobertura política nos jornais nos transmite sobre o que significa “fazer política”: ressentimentos, amizades, vinganças, recompensas, empatias, antipatias, produzir e desfazer “impressões” e gerir aparências.
Devido à sua absoluta falta de auto-reflexividade, Santana Lopes parece não se dar conta que, ao mesmo tempo que ensaia uma “denúncia” desta forma de fazer política, o que escreve revela-o como não sabendo fazer outra coisa. E levanta a suspeita que aquilo que o distingue dos seus colegas de profissão, amigos ou inimigos, é simplesmente o facto de não se aperceber do que está a revelar: que para todos eles, como escreve Rui Ramos, o eleitorado não passa de “um mero reflexo de intrigas de bastidores”. Não sei se iria ao ponto de, como Rui Ramos, designar Santana Lopes ou Durão Barroso como representativos desta “camarilha” que é, supostamente, a nossa classe política. Mas se não serão rigorosamente representativos, também não poderão ser casos únicos, nem no seu partido nem nos outros.
Um aspecto que Rui Ramos não menciona é a forma como esta concepção da política é inteiramente cega em relação aos “formalismos” institucionais, ou pelo menos aos que realmente contam (é sensível apenas aqueles que são destituídos de consequências mas fazem parte da “gestão da imagem”). Por exemplo, um dos factos que Santana Lopes relata, e que encara com absoluta naturalidade, é o facto de, ainda enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, receber com grande frequência nos Paços do Concelho pessoas que com ele vinham tratar de assuntos de “governo”. Por exemplo, Cardoso e Cunha, em conflito com Fernando Pinto na TAP. Na Câmara Municipal de Lisboa? Mas claro: quem melhor do que o “número dois” do partido, mas também Presidente da Câmara, para fazer chegar as suas preocupações ao Primeiro Ministro, mas também presidente do partido? Tudo normal.
Devido à sua absoluta falta de auto-reflexividade, Santana Lopes parece não se dar conta que, ao mesmo tempo que ensaia uma “denúncia” desta forma de fazer política, o que escreve revela-o como não sabendo fazer outra coisa. E levanta a suspeita que aquilo que o distingue dos seus colegas de profissão, amigos ou inimigos, é simplesmente o facto de não se aperceber do que está a revelar: que para todos eles, como escreve Rui Ramos, o eleitorado não passa de “um mero reflexo de intrigas de bastidores”. Não sei se iria ao ponto de, como Rui Ramos, designar Santana Lopes ou Durão Barroso como representativos desta “camarilha” que é, supostamente, a nossa classe política. Mas se não serão rigorosamente representativos, também não poderão ser casos únicos, nem no seu partido nem nos outros.
Um aspecto que Rui Ramos não menciona é a forma como esta concepção da política é inteiramente cega em relação aos “formalismos” institucionais, ou pelo menos aos que realmente contam (é sensível apenas aqueles que são destituídos de consequências mas fazem parte da “gestão da imagem”). Por exemplo, um dos factos que Santana Lopes relata, e que encara com absoluta naturalidade, é o facto de, ainda enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, receber com grande frequência nos Paços do Concelho pessoas que com ele vinham tratar de assuntos de “governo”. Por exemplo, Cardoso e Cunha, em conflito com Fernando Pinto na TAP. Na Câmara Municipal de Lisboa? Mas claro: quem melhor do que o “número dois” do partido, mas também Presidente da Câmara, para fazer chegar as suas preocupações ao Primeiro Ministro, mas também presidente do partido? Tudo normal.
terça-feira, novembro 21, 2006
Parce que c'est une femme
Não comecei já a coligir dados sobre as presidenciais em França porque as sondagens existentes ainda vêem lidando com muitos e diferentes cenários. Agora que Ségolène Royal foi nomeada candidata pelo PS francês, a coisa simplica-se, mas falta ainda a nomeação de Sarkozy. Na UMP, esperneia-se, mas a coisa é inevitável.
Não é novidade para ninguém que Royal e Sarkozy dominam as sondagens. Sarkozy quase sempre à frente em intenções de voto na 1ª volta, e praticamente empatados para uma segunda volta. Exemplos: Ipsos; TNS-Sofres; CSA.
Entretanto, o CEVIPOF (o Centro de Pesquisa Política de Sciences Po) vem fazendo um série de estudos muito recomendáveis, enquadrados no "Barómetro Político Francês" e com trabalho de campo feito pelo IFOP. O último relatório (.pdf) está aqui.
No Canhoto, mencionava-se há dias esta frase de SR no debate das primárias do PS: Qu'est-ce qui fait ma différence? Il y en a une visible, sur laquelle je n'insisterai pas.
Pois de facto não vale a pena insistir. Sondagem da IPSOS, de 18 de Novembro:
Ségolène Royal vient d’être désignée candidate du PS à l’élection présidentielle. Vous, personnellement, qu’est-ce qui vous attire le plus dans la candidature de Ségolène Royal ?
Resposta mais mencionada: "parce que c'est une femme" (37%).
Não é novidade para ninguém que Royal e Sarkozy dominam as sondagens. Sarkozy quase sempre à frente em intenções de voto na 1ª volta, e praticamente empatados para uma segunda volta. Exemplos: Ipsos; TNS-Sofres; CSA.
Entretanto, o CEVIPOF (o Centro de Pesquisa Política de Sciences Po) vem fazendo um série de estudos muito recomendáveis, enquadrados no "Barómetro Político Francês" e com trabalho de campo feito pelo IFOP. O último relatório (.pdf) está aqui.
No Canhoto, mencionava-se há dias esta frase de SR no debate das primárias do PS: Qu'est-ce qui fait ma différence? Il y en a une visible, sur laquelle je n'insisterai pas.
Pois de facto não vale a pena insistir. Sondagem da IPSOS, de 18 de Novembro:
Ségolène Royal vient d’être désignée candidate du PS à l’élection présidentielle. Vous, personnellement, qu’est-ce qui vous attire le plus dans la candidature de Ségolène Royal ?
Resposta mais mencionada: "parce que c'est une femme" (37%).
segunda-feira, novembro 13, 2006
Eleições americanas 5
A verdadeira história sobre as eleições americanas começa a emergir:
1. Fortíssima correlação entre aprovação de Bush e comportamento de voto nas eleições estaduais (.pdf) entre os que aprovam Bush, 84% votaram em candidatos Republicanos; entre os que desaprovam (a maioria), 83% votou em candidatos Democratas. Falta ainda saber, claro, até que ponto uma (a aprovação de Bush) e outra (o comportamento de voto) foram predeterminadas pelas predisposições partidárias e ideológicas dos eleitores
2. Fortíssima correlação entre aprovação da guerra do Iraque e comportamento de voto nas eleições: entre os que estão contra a guerra (a maioria), 80% votaram em candidatos Democratas; entre os que estão a favor, 80% votaram Republicano. Mas aqui, convém não sobrestimar o efeito líquido que esta atitude em relação à guerra poderá ter tido na decisão de voto. Muitos do que são contra a guerra votariam Democrata com ou sem guerra, pelo simples facto de que são eleitores fieis do partido.
3. Contudo, quer a aprovação de Bush quer a opinião sobre a guerra (elas próprias, certamente, muitíssimo correlacionadas) algum efeito líquido terão de ter tido nestas eleições, porque a principal mudança ocorreu entre os eleitores independentes (sem identificação partidária) e ideologicamente moderados: foi entre estes que se deu a viragem fulcral a favor dos candidatos Democratas (ver aqui). Mais análises terão de ser feitas para sabermos até que ponto a opinião sobre Bush e/ou sobre a guerra terá sido o factor decisivo para estes eleitores decisivos, mas é implausível que tenham sido irrelevantes.
4. Dito isto, estas eleições não sinalizam um realinhamento ideológico ou partidário fundamental do eleitorado americano. Não há sinais de que as bases sociais e religiosas do Partido Republicano tenham sido significativamente abaladas. O que parece ter sucedido, para além do partido Republicano ter sido abandonado por independentes e moderados, foi uma mobilização diferencial dos eleitorados de cada partido, mais baixa para os eleitores Republicanos do que para os eleitores Democratas.
1. Fortíssima correlação entre aprovação de Bush e comportamento de voto nas eleições estaduais (.pdf) entre os que aprovam Bush, 84% votaram em candidatos Republicanos; entre os que desaprovam (a maioria), 83% votou em candidatos Democratas. Falta ainda saber, claro, até que ponto uma (a aprovação de Bush) e outra (o comportamento de voto) foram predeterminadas pelas predisposições partidárias e ideológicas dos eleitores
2. Fortíssima correlação entre aprovação da guerra do Iraque e comportamento de voto nas eleições: entre os que estão contra a guerra (a maioria), 80% votaram em candidatos Democratas; entre os que estão a favor, 80% votaram Republicano. Mas aqui, convém não sobrestimar o efeito líquido que esta atitude em relação à guerra poderá ter tido na decisão de voto. Muitos do que são contra a guerra votariam Democrata com ou sem guerra, pelo simples facto de que são eleitores fieis do partido.
3. Contudo, quer a aprovação de Bush quer a opinião sobre a guerra (elas próprias, certamente, muitíssimo correlacionadas) algum efeito líquido terão de ter tido nestas eleições, porque a principal mudança ocorreu entre os eleitores independentes (sem identificação partidária) e ideologicamente moderados: foi entre estes que se deu a viragem fulcral a favor dos candidatos Democratas (ver aqui). Mais análises terão de ser feitas para sabermos até que ponto a opinião sobre Bush e/ou sobre a guerra terá sido o factor decisivo para estes eleitores decisivos, mas é implausível que tenham sido irrelevantes.
4. Dito isto, estas eleições não sinalizam um realinhamento ideológico ou partidário fundamental do eleitorado americano. Não há sinais de que as bases sociais e religiosas do Partido Republicano tenham sido significativamente abaladas. O que parece ter sucedido, para além do partido Republicano ter sido abandonado por independentes e moderados, foi uma mobilização diferencial dos eleitorados de cada partido, mais baixa para os eleitores Republicanos do que para os eleitores Democratas.
A popularidade de Sócrates
Escreveu-se muito, incluindo aqui, sobre a última sondagem da Marktest, divulgada no Diário de Notícias, que apontava para uma súbita descida da popularidade de José Sócrates. Mas avisou-se também, por exemplo aqui, que uma sondagem era apenas uma sondagem.
Pessoalmente - mas isto era apenas um "gut feeling" - pareceu-me que a sondagem da Marktest terá medido qualquer coisa real. A descida ocorreu após uma série de acontecimentos que previsivelmente deveriam ter impacto sobre a popularidade do Primeiro Ministro. Contudo, os resultados da sondagem realizada pela Eurosondagem e divulgada no Expresso colocam isto em dúvida, ou melhor, sugerem uma hipótese alternativa: a de que quem sofreu em termos da avaliação popular foi o governo, e não o Primeiro Ministro.
Para repetir uma banalidade, mais uma sondagem é só mais uma sondagem. Entretanto, há que esperar por mais resultados. Contudo, a espera pode não resolver todas as dúvidas. Como podem ver se seguida, apesar da Marktest e da Eurosondagem mostrarem resultados que parecem seguir as mesmas tendências (sendo que assistimos agora, precisamente, à principal excepção), há discrepâncias a nível absoluto entre elas (maior popularidade para Sócrates na Eurosondagem) cuja explicação me escapa completamente.
Pessoalmente - mas isto era apenas um "gut feeling" - pareceu-me que a sondagem da Marktest terá medido qualquer coisa real. A descida ocorreu após uma série de acontecimentos que previsivelmente deveriam ter impacto sobre a popularidade do Primeiro Ministro. Contudo, os resultados da sondagem realizada pela Eurosondagem e divulgada no Expresso colocam isto em dúvida, ou melhor, sugerem uma hipótese alternativa: a de que quem sofreu em termos da avaliação popular foi o governo, e não o Primeiro Ministro.
Para repetir uma banalidade, mais uma sondagem é só mais uma sondagem. Entretanto, há que esperar por mais resultados. Contudo, a espera pode não resolver todas as dúvidas. Como podem ver se seguida, apesar da Marktest e da Eurosondagem mostrarem resultados que parecem seguir as mesmas tendências (sendo que assistimos agora, precisamente, à principal excepção), há discrepâncias a nível absoluto entre elas (maior popularidade para Sócrates na Eurosondagem) cuja explicação me escapa completamente.
Simplismos e simplismos
No passado dia 9, João Miranda, no Blasfémias, escreveu um post onde apontava o "simplismo" daqueles que, analisando os resultados das últimas eleições americanas, dão como explicação desses resultados a avaliação que os americanos hoje fazem da invasão do Iraque. Critiquei alguns aspectos desse post aqui.
Agora, JM responde, dizendo que a única coisa que quis fazer foi chamar a atenção para o simplismo desse tipo de análise, e que só procurou "provar" que ela não teve em consideração alguns factos óbvios. E acrescenta que
"não pretende provar nenhuma tese sobre os resultados das eleições americanas, pretende apenas provar que as análises que estão a ser feitas não provam que o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas."
Eu acho que isto estaria correctíssimo se tivesse sido realmente aquilo que JM fez no post mencionado. Mas não foi. Na verdade, aquilo que JM fez foi não apenas apontar o simplismo das análises que apontam o Iraque como causa da derrota do Partido Republicano, mas também defender a teoria de que o Iraque não foi a principal causa da derrota do Partido Republicano. Dizer que uma hipótese pode não ser confirmada pelos factos e dizer que uma hipótese é infirmada pelos factos são duas coisas muito diferentes.
Os dados avançados por JM que, cito o post, "contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas" são os seguintes:
1. Os partidos dos presidentes americanos são sempre penalizados nas eleições realizadas no sexto ano do seu mandato, mas isso deve-se, em parte, "ao cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder";
2. Nas sondagens à boca das urnas, os próprios eleitores explicaram as suas razões, "e o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem."
3. Candidatos republicanos que se opuseram à invasão do Iraque foram derrotados nas urnas. "Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?"
Sucede que estes argumentos não servem para "contrariar a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas":
1. O argumento 1 aponta uma regularidade empírica - as eleições realizadas a meio de um segundo mandato são sempre mais penalizadoras para o partido do presidente do que as eleições realizadas a meio de um primeiro mandato - mas essa regularidade em nada impede que, nestas eleições, as atitudes sobre o Iraque tenham sido as que mais influenciaram a decisão do voto directa ou indirectamente (contribuindo para a formação da opinião sobre a actuação do Presidente e do seu partido, que se saber ter sempre enorme peso na decisão de voto e nos resultados deste tipo de eleição).
2. O argumento 2. não serve por razões já explicadas aqui e aqui.
2. O argumento 3. confunde um resultado agregado (vitória ou derrota) com decisões individuais dos eleitores, e em nada refuta a hipótese de que, entre os muitos factores que podem influenciar esses decisões, a opinião sobre o Iraque possa ter sido a que (directa ou indirectamente) tenha tido mais peso.
Gosto de muitos posts de JM no Blasfémias. Têm quase sempre a característica de desafiarem o "senso-comum", apresentando ângulos novos para olharmos para uma questão ou desmontando falsos pressupostos na base dos quais algumas conclusões "óbvias" são tiradas nos meios de comunicação social. Contudo, por vezes - como agora, ou quando escreve sobre o "aquecimento global" - desafiar o senso comum confunde-se com desafiar o bom senso. Neste caso, os argumentos que avança para infirmar a hipótese de que o Iraque terá sido o principal factor nestes eleições são tão débeis como os argumentos que têm sido avançados para confirmar a mesma hipótese, apesar de aparecerem revestidos de uma aparentemente maior "objectividade" e "atenção aos factos". É só este último aspecto que, aliás, fez com que essa sua análise tenha merecido o meu comentário: mais perigoso que o senso comum só o senso comum que ostenta uma pretensa objectividade.
É também isto que, diga-se, abre o flanco a uma crítica adicional que outros - que não eu - lhe possam querer fazer, a mesma que, sem qualquer fundamentação a não ser a do palpite, JM faz àqueles que defendem que o Iraque foi o principal factor nestas eleições: a de ter formado "opinião muito antes de saírem os primeiros resultados com base em preconceitos e não com base em factos."
Agora, JM responde, dizendo que a única coisa que quis fazer foi chamar a atenção para o simplismo desse tipo de análise, e que só procurou "provar" que ela não teve em consideração alguns factos óbvios. E acrescenta que
"não pretende provar nenhuma tese sobre os resultados das eleições americanas, pretende apenas provar que as análises que estão a ser feitas não provam que o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas."
Eu acho que isto estaria correctíssimo se tivesse sido realmente aquilo que JM fez no post mencionado. Mas não foi. Na verdade, aquilo que JM fez foi não apenas apontar o simplismo das análises que apontam o Iraque como causa da derrota do Partido Republicano, mas também defender a teoria de que o Iraque não foi a principal causa da derrota do Partido Republicano. Dizer que uma hipótese pode não ser confirmada pelos factos e dizer que uma hipótese é infirmada pelos factos são duas coisas muito diferentes.
Os dados avançados por JM que, cito o post, "contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas" são os seguintes:
1. Os partidos dos presidentes americanos são sempre penalizados nas eleições realizadas no sexto ano do seu mandato, mas isso deve-se, em parte, "ao cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder";
2. Nas sondagens à boca das urnas, os próprios eleitores explicaram as suas razões, "e o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem."
3. Candidatos republicanos que se opuseram à invasão do Iraque foram derrotados nas urnas. "Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?"
Sucede que estes argumentos não servem para "contrariar a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas":
1. O argumento 1 aponta uma regularidade empírica - as eleições realizadas a meio de um segundo mandato são sempre mais penalizadoras para o partido do presidente do que as eleições realizadas a meio de um primeiro mandato - mas essa regularidade em nada impede que, nestas eleições, as atitudes sobre o Iraque tenham sido as que mais influenciaram a decisão do voto directa ou indirectamente (contribuindo para a formação da opinião sobre a actuação do Presidente e do seu partido, que se saber ter sempre enorme peso na decisão de voto e nos resultados deste tipo de eleição).
2. O argumento 2. não serve por razões já explicadas aqui e aqui.
2. O argumento 3. confunde um resultado agregado (vitória ou derrota) com decisões individuais dos eleitores, e em nada refuta a hipótese de que, entre os muitos factores que podem influenciar esses decisões, a opinião sobre o Iraque possa ter sido a que (directa ou indirectamente) tenha tido mais peso.
Gosto de muitos posts de JM no Blasfémias. Têm quase sempre a característica de desafiarem o "senso-comum", apresentando ângulos novos para olharmos para uma questão ou desmontando falsos pressupostos na base dos quais algumas conclusões "óbvias" são tiradas nos meios de comunicação social. Contudo, por vezes - como agora, ou quando escreve sobre o "aquecimento global" - desafiar o senso comum confunde-se com desafiar o bom senso. Neste caso, os argumentos que avança para infirmar a hipótese de que o Iraque terá sido o principal factor nestes eleições são tão débeis como os argumentos que têm sido avançados para confirmar a mesma hipótese, apesar de aparecerem revestidos de uma aparentemente maior "objectividade" e "atenção aos factos". É só este último aspecto que, aliás, fez com que essa sua análise tenha merecido o meu comentário: mais perigoso que o senso comum só o senso comum que ostenta uma pretensa objectividade.
É também isto que, diga-se, abre o flanco a uma crítica adicional que outros - que não eu - lhe possam querer fazer, a mesma que, sem qualquer fundamentação a não ser a do palpite, JM faz àqueles que defendem que o Iraque foi o principal factor nestas eleições: a de ter formado "opinião muito antes de saírem os primeiros resultados com base em preconceitos e não com base em factos."
sexta-feira, novembro 10, 2006
Peço desculpa...
...e não é para ser chato ou para me armar em esperto, mas esta discussão, no que diz respeito às causas dos resultados das eleições americanas, é um bocado absurda. Dizer que factores específicos explicam ou deixam de explicar as decisões dos eleitores em eleições como as de anteontem - para além do sobejamente demostrado efeito da avaliação da actuação do Presidente, o que aliás revela que há muito de "não local" nestes resultados - olhando para resultados agregados de sondagens à boca da urnas é a mesma coisa que escrever uma tese sobre física sub-atómica olhando muito perto e durante muito tempo para um bloco de cimento. Uma perda de tempo.
Primeiro, porque as sondagens à boca das urnas olham apenas para votantes e não para eleitores, impedindo a explicação de um elemento central nos resultados eleitorais e na punição aos governos: quem decide não votar. Segundo, porque a análise dos factores explicativos do comportamento eleitoral tem de ser multivariada e utilizando controlo estatístico - noções com que julgo o João Miranda deverá estar mais do que vagamente familiarizado - e não se faz comparando resultados agregados de uma suposta causa com resultados agregados de uma suposta consequência. Terceiro, ao contrário do que sugere o João Miranda, explicar os comportamentos dos eleitores na base daquilo que eles dizem sobre as motivações do seu comportamento é o pior caminho possível: fica-se apenas com racionalizações. Finalmente, é preciso olhar ou para dados individuais ou, pelo menos, para bons e completos dados ecológicos. E se não se queria responder a simplismos com outros simplismos, o melhor era nem ter começado. Desculpem, mas é assim. O resto é conversa e retórica política. Tenham lá calma que não há de tardar muito até que as análises sérias comecem a aparecer.
P.S.- E explicar o habitual castigo ao "incumbent" na base de "cansaço" é pura preguiça. As explicações sérias são fáceis de encontrar. Basta ler blogues.
Primeiro, porque as sondagens à boca das urnas olham apenas para votantes e não para eleitores, impedindo a explicação de um elemento central nos resultados eleitorais e na punição aos governos: quem decide não votar. Segundo, porque a análise dos factores explicativos do comportamento eleitoral tem de ser multivariada e utilizando controlo estatístico - noções com que julgo o João Miranda deverá estar mais do que vagamente familiarizado - e não se faz comparando resultados agregados de uma suposta causa com resultados agregados de uma suposta consequência. Terceiro, ao contrário do que sugere o João Miranda, explicar os comportamentos dos eleitores na base daquilo que eles dizem sobre as motivações do seu comportamento é o pior caminho possível: fica-se apenas com racionalizações. Finalmente, é preciso olhar ou para dados individuais ou, pelo menos, para bons e completos dados ecológicos. E se não se queria responder a simplismos com outros simplismos, o melhor era nem ter começado. Desculpem, mas é assim. O resto é conversa e retórica política. Tenham lá calma que não há de tardar muito até que as análises sérias comecem a aparecer.
P.S.- E explicar o habitual castigo ao "incumbent" na base de "cansaço" é pura preguiça. As explicações sérias são fáceis de encontrar. Basta ler blogues.
quarta-feira, novembro 08, 2006
Depois (e antes) da tempestade, a bonança
Outra impressão que fica depois de ser ver, ouvir e ler o comentário político nos Estados Unidos no dia de hoje é a de que as eleições trouxeram uma enorme mudança qualitativa na forma como o tema do Iraque é tratado.
Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.
Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.
Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:
He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.
He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.
During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.
Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.
Um gajo porreiro.
Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.
Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.
Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:
He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.
He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.
During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.
Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.
Um gajo porreiro.
Eleições americanas 4 (aditado)
Estou em Notre Dame, Indiana, por razões que nada têm que ver com as eleições americanas. Mas sempre se pode aproveitar para ir tomando o pulso ao que se passa aqui de uma maneira diferente daquilo que se pode fazer à distância.
Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.
Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.
Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".
Três observações mais impressionistas:
1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...
2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.
3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.
* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.
Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.
Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.
Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".
Três observações mais impressionistas:
1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...
2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.
3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.
* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.
Eleições americanas 3
Confirma-se eleição de senador Democrata no Montana. Só falta confirmar Virginia.
Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.
Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.
Eleições americanas 2
A Câmara dos Representantes, como previsto, passou para os Democratas. No Senado, tudo depende dos resultados em dois estados já mencionados aqui: Montana (1.700 votos de vantagem para o candidato democrata) e Virginia (8.ooo votos de vantagem para o candidato democrata).
segunda-feira, novembro 06, 2006
Eleições americanas
O melhor sítio para ficar com uma ideia do que pode suceder amanhã é o indispensável pollster.com, dos nossos conhecidos Mark Blumenthal e Charles Franklin. Na base de centenas de sondagens divulgadas, tudo aponta para que os Democratas ganhem uma maioria da Câmara dos Representantes, mas no Senado as dúvidas são maiores. Tudo depende do que acontecer em quatro estados: Montana, Missouri, Viriginia e Maryland. Em todos eles, há um Democrata à frente nas sondagens, mas em todos eles a margem é muito curta. E vai ser preciso que os Democratas ganhem todos os quatro estados para de facto "controlarem" o Senado: se houver um empate 50/50, quem fica com poder de desempate é esta gentil criatura.
Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.
Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.
terça-feira, outubro 31, 2006
segunda-feira, outubro 30, 2006
sexta-feira, outubro 27, 2006
Queda de Sócrates 2
Como interpretar?
1. Em primeiro lugar, uma sondagem é uma sondagem. Há mil e uma razões para que esta sondagem em concreto possa não estar a captar mudanças reais.
2. Mesmo que estejamos perante uma mudança real (e saberemos melhor se assim é com futuros resultados), a verdade é que o que era anormal era a elevada popularidade de Sócrates desde as autárquicas. Os ciclos políticos não costumam ser assim.*
3. Dito isto, a confirmar-se, uma descida é uma descida, e parece grande. A que se deverá? Não há nenhuma mudança fundamental no "pano de fundo" de "médio-prazo" que costuma afectar estas coisas, ou seja, a situação económica. De resto, mesmo que houvesse, ela costuma ter um efeito diferido nas atitudes dos eleitores, que demoram algum tempo a interiorizar essas mudanças. E mesmo que tivesse efeito imediato, teria sido para cima, e não para baixo.
4. Pelo que a coisa deve estar ligada a factores de muito curto prazo. Não se pode ter a certeza, claro, mas parece-me que o "fim da crise" decretado pelo Ministro da Economia (e logo retirado) e a questão da electricidade não podem ser irrelevantes. Primeiro, tiveram muito maior amplificação mediática do que anteriores episódios que alguns anunciaram ditar o "fim do estado de graça" (o que nunca aconteceu, até agora). Segundo, porque aquilo que os torna importantes é o facto de eles entrarem em contradição directa com o princípio genérico que visa legitimar a actuação do governo desde o início: a "resolução" da crise pelo ataque aos "privilégios" e aos "privilegiados" e a noção de que os sacrifícios serão distribuídos de forma equitativa ou mesmo progressiva. Sem crise, então para que servem os sacrifícios? E são os consumidores (os eleitores em geral) que têm a culpa dos aumentos da electricidade? Não tenho informação nem competência para avaliar a actuação do Ministério da Economia e da Inovação em todas as suas dimensões. Mas do ponto de vista político e comunicacional, é um tumor maligno.
5. Gostava muito de saber em que estratos sociais é que a descida de Sócrates na sondagem da Markest foi mais acentuada. Era capaz de apostar que foi nos mais baixos.
6. Também me cheira (só isso) que os meios de comunicação social começam a ficar menos dóceis com o governo. Não faço ideia se os noticiários da RTP são "governamentalizados" - há anos não vejo televisão a essas horas - e não me parece sensato, com todo o respeito (a sério), usar o Abrupto como fonte de análise imparcial sobre o tema. Mas o que a multiplicação de críticas à RTP quer provavelmente dizer é que, pelo menos, o contraste entre a cobertura da RTP e dos restantes meios de comunicação começa a tornar-se evidente.
7. E atenção, que vem aí a saúde, tema "popular" por excelência. Se a coisa correr como no caso da electricidade - em que a explicação cabal do "porquê" dos aumentos chegou depois do anúncio dos próprios - é melhor Sócrates apertar o cinto de segurança. Correia de Campos é já, na sondagem da Marktest, o ministro cuja popularidade mais desceu em Outubro.
*A propósito disto, uma nota. Numa conferência recente em que apresentei um estudo sobre o comportamento eleitoral nas presidenciais, um dos membros do público chamou a atenção para um factor muito importante: as eleições locais. O PS foi severamente castigado nas autárquicas, o que pode ter "descomprimido o ambiente" para o período seguinte, levando à recuperação da popularidade de Sócrates (que temos mostrado neste blogue e é visível no post anterior) e, de resto, ao facto de, quando analisamos dados individuais sobre decisão de voto nas presidenciais, a avaliação do governo não ter tido qualquer impacto. A hipótese é muito interessante.
1. Em primeiro lugar, uma sondagem é uma sondagem. Há mil e uma razões para que esta sondagem em concreto possa não estar a captar mudanças reais.
2. Mesmo que estejamos perante uma mudança real (e saberemos melhor se assim é com futuros resultados), a verdade é que o que era anormal era a elevada popularidade de Sócrates desde as autárquicas. Os ciclos políticos não costumam ser assim.*
3. Dito isto, a confirmar-se, uma descida é uma descida, e parece grande. A que se deverá? Não há nenhuma mudança fundamental no "pano de fundo" de "médio-prazo" que costuma afectar estas coisas, ou seja, a situação económica. De resto, mesmo que houvesse, ela costuma ter um efeito diferido nas atitudes dos eleitores, que demoram algum tempo a interiorizar essas mudanças. E mesmo que tivesse efeito imediato, teria sido para cima, e não para baixo.
4. Pelo que a coisa deve estar ligada a factores de muito curto prazo. Não se pode ter a certeza, claro, mas parece-me que o "fim da crise" decretado pelo Ministro da Economia (e logo retirado) e a questão da electricidade não podem ser irrelevantes. Primeiro, tiveram muito maior amplificação mediática do que anteriores episódios que alguns anunciaram ditar o "fim do estado de graça" (o que nunca aconteceu, até agora). Segundo, porque aquilo que os torna importantes é o facto de eles entrarem em contradição directa com o princípio genérico que visa legitimar a actuação do governo desde o início: a "resolução" da crise pelo ataque aos "privilégios" e aos "privilegiados" e a noção de que os sacrifícios serão distribuídos de forma equitativa ou mesmo progressiva. Sem crise, então para que servem os sacrifícios? E são os consumidores (os eleitores em geral) que têm a culpa dos aumentos da electricidade? Não tenho informação nem competência para avaliar a actuação do Ministério da Economia e da Inovação em todas as suas dimensões. Mas do ponto de vista político e comunicacional, é um tumor maligno.
5. Gostava muito de saber em que estratos sociais é que a descida de Sócrates na sondagem da Markest foi mais acentuada. Era capaz de apostar que foi nos mais baixos.
6. Também me cheira (só isso) que os meios de comunicação social começam a ficar menos dóceis com o governo. Não faço ideia se os noticiários da RTP são "governamentalizados" - há anos não vejo televisão a essas horas - e não me parece sensato, com todo o respeito (a sério), usar o Abrupto como fonte de análise imparcial sobre o tema. Mas o que a multiplicação de críticas à RTP quer provavelmente dizer é que, pelo menos, o contraste entre a cobertura da RTP e dos restantes meios de comunicação começa a tornar-se evidente.
7. E atenção, que vem aí a saúde, tema "popular" por excelência. Se a coisa correr como no caso da electricidade - em que a explicação cabal do "porquê" dos aumentos chegou depois do anúncio dos próprios - é melhor Sócrates apertar o cinto de segurança. Correia de Campos é já, na sondagem da Marktest, o ministro cuja popularidade mais desceu em Outubro.
*A propósito disto, uma nota. Numa conferência recente em que apresentei um estudo sobre o comportamento eleitoral nas presidenciais, um dos membros do público chamou a atenção para um factor muito importante: as eleições locais. O PS foi severamente castigado nas autárquicas, o que pode ter "descomprimido o ambiente" para o período seguinte, levando à recuperação da popularidade de Sócrates (que temos mostrado neste blogue e é visível no post anterior) e, de resto, ao facto de, quando analisamos dados individuais sobre decisão de voto nas presidenciais, a avaliação do governo não ter tido qualquer impacto. A hipótese é muito interessante.
Queda de Sócrates
Tal como medida na última sondagem Marktest/DN/TSF (.pdf). Haveria várias maneiras de a mostrar, mas opto aqui por mostrar a evolução do saldo entre opiniões positivas e negativas. Marques Mendes também paga a factura do que parece ser um aumento geral da insatisfação política, mas menos.
Professor Karamba
Mais uma sondagem sobre o referendo
Uma sondagem feita pela Intercampus e divulgada ontem pela TVI, a juntar às três mais recentes:

Muito intrigante. É preciso deixar assentar a poeira.

Muito intrigante. É preciso deixar assentar a poeira.
quarta-feira, outubro 25, 2006
E para não pensarem que não aceito críticas
Acho que a Lâmpada Mágica tem razão em relação a uma das perguntas sobre a eutanásia.
terça-feira, outubro 24, 2006
Já podia ter dito
O Renas e Veados faz alguns comentários adicionais:
No entanto continua sem responder àquela que me parece ser a principal, porquê é que a questão do casamento foi a única nesta sondagem a merecer mais hipóteses de resposta que o "sim ou não" de todas as outras?
É simples: se a questão fosse colocada apenas em termos de uma dicotomia "a favor" ou "contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo", todas as pessoas que consideram que pessoas do mesmo sexo devem poder formar uniões com os mesmos ou alguns direitos de um casamento, mas discordam que o instituto legal se chame "casamento", não saberiam como responder. Provavelmente uns responderiam "contra", outros responderiam "a favor" e muitos refugiar-se-iam na não-resposta.
Se estivessemos perante um referendo em que as coisas fossem colocadas nesses termos, ou uma medida política sobre a qual se quisesse conhecer aprovação ou reprovação (como aqui), então era precisamente isso que se quereria saber. Mas como não é o caso, dar várias hipóteses plausíveis de resposta permitiu obter mais nuances de opinião, em vez de se sobrestimar o grau de polarização social sobre o tema. Foi só isto. E é isto, aliás, que se faz na maior parte das sondagens sobre este tema concreto quando não está em causa um referendo ou uma medida política concreta (ver aqui muitos exemplos): fornecer mais hipóteses do que mera dicotomia a favor/contra o casamento, para poder captar variância nos resultados. Procurei apenas seguir o que me pareceu boa prática.
E veja como poder fazer uma enorme diferença fornecer várias alternativas, seja em diferentes perguntas ou como diferentes opções de resposta a uma mesma pergunta: a maioria dos americanos é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo; a maioria dos americanos é favor de uniões que dêem muitos dos mesmos direitos. Voilá. Se a coisa ficasse só em "Sim"/Não" ao casamento, ficaríamos a saber menos do que aquilo que sabemos agora.
Quanto aos temas onde a Universidade Católica é suposta fazer ou não estudos, e distorções e assuntos semelhantes, já debati isso aqui e já me chega.
No entanto continua sem responder àquela que me parece ser a principal, porquê é que a questão do casamento foi a única nesta sondagem a merecer mais hipóteses de resposta que o "sim ou não" de todas as outras?
É simples: se a questão fosse colocada apenas em termos de uma dicotomia "a favor" ou "contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo", todas as pessoas que consideram que pessoas do mesmo sexo devem poder formar uniões com os mesmos ou alguns direitos de um casamento, mas discordam que o instituto legal se chame "casamento", não saberiam como responder. Provavelmente uns responderiam "contra", outros responderiam "a favor" e muitos refugiar-se-iam na não-resposta.
Se estivessemos perante um referendo em que as coisas fossem colocadas nesses termos, ou uma medida política sobre a qual se quisesse conhecer aprovação ou reprovação (como aqui), então era precisamente isso que se quereria saber. Mas como não é o caso, dar várias hipóteses plausíveis de resposta permitiu obter mais nuances de opinião, em vez de se sobrestimar o grau de polarização social sobre o tema. Foi só isto. E é isto, aliás, que se faz na maior parte das sondagens sobre este tema concreto quando não está em causa um referendo ou uma medida política concreta (ver aqui muitos exemplos): fornecer mais hipóteses do que mera dicotomia a favor/contra o casamento, para poder captar variância nos resultados. Procurei apenas seguir o que me pareceu boa prática.
E veja como poder fazer uma enorme diferença fornecer várias alternativas, seja em diferentes perguntas ou como diferentes opções de resposta a uma mesma pergunta: a maioria dos americanos é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo; a maioria dos americanos é favor de uniões que dêem muitos dos mesmos direitos. Voilá. Se a coisa ficasse só em "Sim"/Não" ao casamento, ficaríamos a saber menos do que aquilo que sabemos agora.
Quanto aos temas onde a Universidade Católica é suposta fazer ou não estudos, e distorções e assuntos semelhantes, já debati isso aqui e já me chega.
Brasil, 2º turno
segunda-feira, outubro 23, 2006
A sondagem da Católica
Tenho lido na blogosfera alguns comentários aos resultados da sondagem da Católica. Antes de mais, acedo à sugestão do João Gonçalves, mas por intermédio de outrem: se quiserem ver a melhor apresentação dos resultados desta sondagem, farão melhor em ir aqui, onde o Jorge Camões arranjou uma maneira de os transformar em "beautiful evidence". Os dados estão apresentados de forma a facilitar muitíssimo a sua compreensão. Este link vai já para os meus favoritos.
A apresentação mais imaginativa dos dados permite inclusivamente de deles possam emergir mais facilmente explicações para os padrões encontrados. Para o Jorge Camões, eles mostram:
"Que temas associados a minorias visíveis são aqueles que têm maior percentagem de rejeição. Que a eutanásia a pedido da família e a pena de morte estão estranhamente próximas. Que há um grupo de temas (quotas na política, células estaminais, sacerdócio, prostituição), todos curiosamente mais próximas do universo feminino, com níveis elevados de desconhecimento ou indiferença que se traduzem na incapacidade de opinar. Que a educação sexual nas escolas é o único tema consensual."
O que, aliás, não será muito diferente disto, se bem entendo:
"Tudo visto e ponderado, constituímos uma sociedade "aética" em que a "norma" vale muito dentro de casa e para os outros, e começa a valer menos assim que se desce as escadas ou se apanha o elevador para a rua."
Li também, no blogue de Miguel Vale de Almeida, meu antigo professor no ISCTE - de resto, um dos melhores - alguns comentários à sondagem. MVA critica o facto de nela se incluirem, ao mesmo tempo, perguntas sobre os direitos dos homossexuais e sobre outros temas:
"Colocar a igualdade de direitos no mesmo plano que o consumo das drogas ou o sacerdócio feminino numa confissão religiosa é mais do que enviesamento: é partilhar da premissa (e oferecê-la aos inquiridos) de que há um problema moral (para não dizer pior) com a homossexualidade. E se a pergunta tivesse sido a única da sondagem? Ou junto com outras perguntas relacionadas com a igualdade perante a lei?"
Eu percebo o argumento. Não excluo que a convivência destas várias perguntas num mesmo inquérito influencie as respostas e também preferia fazer uma sondagem para cada tema.
Mas dito isto, acho que Miguel Vale de Almeida está a ser "disingenous". Primeiro, ele sabe perfeitamente que há um traço comum a todas estas perguntas: o modo, limites e natureza da regulação dos comportamentos individuais por parte do Estado. Têm a ver com políticas de regulação, e não políticas extractivas e redistributivas, onde o que está em jogo são interesses específicos e recursos materiais. E no caso do sacerdócio feminino, tem a ver com a regulação dos comportamentos imposta pelo agente social que, antes do Estado ter assumido o monopólio legal, exercia essa função: a Igreja. É isso que une todas estas perguntas, e não outra coisa qualquer.
Para além disso, se se levasse a de MVA avante, então tínhamos de deitar fora o General Social Survey, o British Social Attitudes Survey, o European Values Study ou o World Values Survey, todos eles estudos onde, num mesmo questionário, são colocadas estas e outros perguntas sobre estes e outros temas. Foi destes questionários, aliás, que muitas das perguntas colocadas na sondagem da Católica foram textualmente retiradas. E já agora: donde vem a insólita ideia de MVA - insólita especialmente para um cientista social e, muito especialmente, um antropólogo - de que a questão da igualdade de direitos cívicos e políticos não tem a ver com valores?
Depois há a sugestão - "São Dagem" - retomada aqui, de que os resultados foram o que foram porque a sondagem foi feita pela Universidade Católica. Será isso? Mas então por que razão a sondagem haveria de dar resultados claramente desfavoráveis, nuns casos, em relação às posições defendidas na doutrina oficial da igreja, e favoráveis noutros? Embirração especial com os homossexuais?
A verdade é outra. Releio agora os resultados de um inquérito realizado em 1998 em parceria pelo ICS e pelo ISCTE, a instituição onde MVA trabalha, no âmbito do International Social Survey Programme. Questionados sobre as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo (e, note-se, nem sequer se está a falar em "direitos"), 73% dizem que a sua mera existência "é sempre errada". MVA pode não gostar de viver num país onde as pessoas respondem desta maneira a estas perguntas. Agora, se o quiser mudar, fazer de conta que o país não é o que é, ou que tudo não passa de uma mera construção da Universidade Católica, não me parece bom ponto de partida.
A apresentação mais imaginativa dos dados permite inclusivamente de deles possam emergir mais facilmente explicações para os padrões encontrados. Para o Jorge Camões, eles mostram:
"Que temas associados a minorias visíveis são aqueles que têm maior percentagem de rejeição. Que a eutanásia a pedido da família e a pena de morte estão estranhamente próximas. Que há um grupo de temas (quotas na política, células estaminais, sacerdócio, prostituição), todos curiosamente mais próximas do universo feminino, com níveis elevados de desconhecimento ou indiferença que se traduzem na incapacidade de opinar. Que a educação sexual nas escolas é o único tema consensual."
O que, aliás, não será muito diferente disto, se bem entendo:
"Tudo visto e ponderado, constituímos uma sociedade "aética" em que a "norma" vale muito dentro de casa e para os outros, e começa a valer menos assim que se desce as escadas ou se apanha o elevador para a rua."
Li também, no blogue de Miguel Vale de Almeida, meu antigo professor no ISCTE - de resto, um dos melhores - alguns comentários à sondagem. MVA critica o facto de nela se incluirem, ao mesmo tempo, perguntas sobre os direitos dos homossexuais e sobre outros temas:
"Colocar a igualdade de direitos no mesmo plano que o consumo das drogas ou o sacerdócio feminino numa confissão religiosa é mais do que enviesamento: é partilhar da premissa (e oferecê-la aos inquiridos) de que há um problema moral (para não dizer pior) com a homossexualidade. E se a pergunta tivesse sido a única da sondagem? Ou junto com outras perguntas relacionadas com a igualdade perante a lei?"
Eu percebo o argumento. Não excluo que a convivência destas várias perguntas num mesmo inquérito influencie as respostas e também preferia fazer uma sondagem para cada tema.
Mas dito isto, acho que Miguel Vale de Almeida está a ser "disingenous". Primeiro, ele sabe perfeitamente que há um traço comum a todas estas perguntas: o modo, limites e natureza da regulação dos comportamentos individuais por parte do Estado. Têm a ver com políticas de regulação, e não políticas extractivas e redistributivas, onde o que está em jogo são interesses específicos e recursos materiais. E no caso do sacerdócio feminino, tem a ver com a regulação dos comportamentos imposta pelo agente social que, antes do Estado ter assumido o monopólio legal, exercia essa função: a Igreja. É isso que une todas estas perguntas, e não outra coisa qualquer.
Para além disso, se se levasse a de MVA avante, então tínhamos de deitar fora o General Social Survey, o British Social Attitudes Survey, o European Values Study ou o World Values Survey, todos eles estudos onde, num mesmo questionário, são colocadas estas e outros perguntas sobre estes e outros temas. Foi destes questionários, aliás, que muitas das perguntas colocadas na sondagem da Católica foram textualmente retiradas. E já agora: donde vem a insólita ideia de MVA - insólita especialmente para um cientista social e, muito especialmente, um antropólogo - de que a questão da igualdade de direitos cívicos e políticos não tem a ver com valores?
Depois há a sugestão - "São Dagem" - retomada aqui, de que os resultados foram o que foram porque a sondagem foi feita pela Universidade Católica. Será isso? Mas então por que razão a sondagem haveria de dar resultados claramente desfavoráveis, nuns casos, em relação às posições defendidas na doutrina oficial da igreja, e favoráveis noutros? Embirração especial com os homossexuais?
A verdade é outra. Releio agora os resultados de um inquérito realizado em 1998 em parceria pelo ICS e pelo ISCTE, a instituição onde MVA trabalha, no âmbito do International Social Survey Programme. Questionados sobre as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo (e, note-se, nem sequer se está a falar em "direitos"), 73% dizem que a sua mera existência "é sempre errada". MVA pode não gostar de viver num país onde as pessoas respondem desta maneira a estas perguntas. Agora, se o quiser mudar, fazer de conta que o país não é o que é, ou que tudo não passa de uma mera construção da Universidade Católica, não me parece bom ponto de partida.
Sondagens sobre despenalização do aborto
Em poucos dias, três sondagens sobre o tema. Resultados:
1. Aximage, Correio da Manhã, 2-4 Outubro 2006, Quotas, Telefónica, N=550:
"Concorda com a despenalização da interrupção oluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Sim: 47,9%
Não: 39,9%
Sem opinião: 12,2%
2. Católica, Público, 14-15 Outubro 2006, Aleatória, Presencial, N=1282:
"Concorda com a despenalização da interrupção oluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Sim: 53%
Não: 21%
Não tenciona votar: 16%
Sem opinião: 10%
3. Eurosondagem, Expresso/SIC/RR, Aleatória, Telefónica, N=1033:
"Se houver um referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, como tenciona votar? (só quem respondeu "vai votar")
"Sim à descriminalização": 45,4%
"Não à descriminalização": 42,4%
Ns/Nr: 12,1%
Não é preciso fazer muitas contas para perceber que há grandes discrepâncias. Na sondagem da Católica, a percentagem de apoiantes da despenalização é 2,5 vezes maior que a de opositores. Na sondagem Aximage, 1,2 vezes. Na sondagem Eurosondagem é quase 1 para 1.
Estas discrepâncias não são novidade e não podem ser exclusivamente fruto do erro amostral nem parecem estar exclusivamente ligadas às diferentes opções genéricas de amostragem ou inquirição que costumam ser seguidas pelos diferentes institutos. Basta comparar os actuais resultados da Eurosondagem com este seu estudo de Fevereiro de 2004:
Eurosondagem, Expresso, 3 de Fevereiro de 2004, Aleatória, Telefónica, N=1025
Como votaria no referendo? (apenas aqueles que disseram que votariam)
"Pela legalização do aborto": 79%
"Contra a legalização": 14%
Não é fácil fazer sentido de tudo isto. No quadro seguinte, apresento, da forma mais comparável possível, os resultados das várias sondagens que conheço desde o início de 2004 sobre o tema. Nos casos em que as sondagens colocavam a pergunta em termos de "voto num referendo", há percentagens para aqueles que dizem que não iriam votar (no caso da Eurosondagem recalculei os resultados de forma a que esses fizessem parte do total).

Ajuda um bocadinho, mas não muito. Os resultados parecem ser brutalmente sensíveis a forma como a pergunta é formulada e às opções de resposta fornecidas, para além de serem certamente sensíveis a tudo o resto (amostragem, inquirição, etc). Hoje, no Público (amanhã, aqui) procurei explicar por que razão isto sucede e o que isto nos diz sobre as atitudes dos portugueses sobre o tema.
1. Aximage, Correio da Manhã, 2-4 Outubro 2006, Quotas, Telefónica, N=550:
"Concorda com a despenalização da interrupção oluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Sim: 47,9%
Não: 39,9%
Sem opinião: 12,2%
2. Católica, Público, 14-15 Outubro 2006, Aleatória, Presencial, N=1282:
"Concorda com a despenalização da interrupção oluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"
Sim: 53%
Não: 21%
Não tenciona votar: 16%
Sem opinião: 10%
3. Eurosondagem, Expresso/SIC/RR, Aleatória, Telefónica, N=1033:
"Se houver um referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, como tenciona votar? (só quem respondeu "vai votar")
"Sim à descriminalização": 45,4%
"Não à descriminalização": 42,4%
Ns/Nr: 12,1%
Não é preciso fazer muitas contas para perceber que há grandes discrepâncias. Na sondagem da Católica, a percentagem de apoiantes da despenalização é 2,5 vezes maior que a de opositores. Na sondagem Aximage, 1,2 vezes. Na sondagem Eurosondagem é quase 1 para 1.
Estas discrepâncias não são novidade e não podem ser exclusivamente fruto do erro amostral nem parecem estar exclusivamente ligadas às diferentes opções genéricas de amostragem ou inquirição que costumam ser seguidas pelos diferentes institutos. Basta comparar os actuais resultados da Eurosondagem com este seu estudo de Fevereiro de 2004:
Eurosondagem, Expresso, 3 de Fevereiro de 2004, Aleatória, Telefónica, N=1025
Como votaria no referendo? (apenas aqueles que disseram que votariam)
"Pela legalização do aborto": 79%
"Contra a legalização": 14%
Não é fácil fazer sentido de tudo isto. No quadro seguinte, apresento, da forma mais comparável possível, os resultados das várias sondagens que conheço desde o início de 2004 sobre o tema. Nos casos em que as sondagens colocavam a pergunta em termos de "voto num referendo", há percentagens para aqueles que dizem que não iriam votar (no caso da Eurosondagem recalculei os resultados de forma a que esses fizessem parte do total).

Ajuda um bocadinho, mas não muito. Os resultados parecem ser brutalmente sensíveis a forma como a pergunta é formulada e às opções de resposta fornecidas, para além de serem certamente sensíveis a tudo o resto (amostragem, inquirição, etc). Hoje, no Público (amanhã, aqui) procurei explicar por que razão isto sucede e o que isto nos diz sobre as atitudes dos portugueses sobre o tema.
quinta-feira, outubro 19, 2006
655.000 (4)
Entretanto, apercebi-me que também no Aspirina B se escreveu sobre o estudo da Lancet. E foi nos comentários ao post que encontrei uma ligação ao que me parece ser, até agora, o melhor comentário ao estudo: este, de um sociólogo americano especializado em saúde pública, por sua vez com uma outra ligação para um artigo que pode ajudar a explicar por que razão muitas mortes poderão ficar por registar. A leitura deste último artigo não é para quem tenha um estômago fraco.
quarta-feira, outubro 18, 2006
Popularidade líderes políticos (Portugal)
Os dados mais recentes sobre os níveis de aprovação pública de Sócrates, Cavaco Silva e Marques Mendes são tão aborrecidos e trazem tão poucas mudanças em relação ao passado recente que, perdoem-me, nem os analiso. Podem ir vê-los aqui e aqui. Volto ao assunto quando houver novidades.
O que, já que falamos no assunto, pode nem tardar muito, com ministros e secretários de estado a dizerem coisas como esta, esta ou esta. Aposto que o PM não está a achar graça nenhuma à brincadeira.
P.S.- O Bloguítica já tinha opinado que se trata de um problema viral e adiciona o outro caso óbvio. Mas a leitura disto sugere que, neste caso concreto, a doença é provavelmente genética.
O que, já que falamos no assunto, pode nem tardar muito, com ministros e secretários de estado a dizerem coisas como esta, esta ou esta. Aposto que o PM não está a achar graça nenhuma à brincadeira.
P.S.- O Bloguítica já tinha opinado que se trata de um problema viral e adiciona o outro caso óbvio. Mas a leitura disto sugere que, neste caso concreto, a doença é provavelmente genética.
terça-feira, outubro 17, 2006
2º turno, Brasil
Resultados muito aproximados, quer em intenções directas de voto quer em votos válidos, para as quatro sondagens já realizadas depois da 1ª volta das eleições:

Segundo a pesquisa IBOPE, "a grande maioria (82%) dos eleitores afirma que seu voto já está definitivo, sendo 88% entre os eleitores de Lula e 85% entre os de Geraldo Alckmin."

Segundo a pesquisa IBOPE, "a grande maioria (82%) dos eleitores afirma que seu voto já está definitivo, sendo 88% entre os eleitores de Lula e 85% entre os de Geraldo Alckmin."
655.000 (3)
Mais críticas ao estudo da Lancet, desta vez dos responsáveis do projecto Iraq Body Count (via Insurgente). Texto integral aqui. Alguns destaques:
1. O desfasamento em relação à cobertura dos meios de comunicação social:
If we consider the Lancet's June 2005 – June 2006 period, whose violent toll it estimates at 330,000, then daily estimates become lower but would still require 768 unrecorded violent deaths for every 67 that are recorded. The IBC database shows that the average number of people killed in any one violent attack is five. Therefore it would require about 150 unreported, average-size, violent assaults per day to account for 768 deaths. It is unlikely that incidents of this scale would be so consistently missed by the various media in Iraq. Although IBC technically requires only two sources for every corroborated death in its database, we actually collect, archive and analyse every unique report we can find about each incident before it is added to our database. For larger incidents the number of reports can run into the dozens, including news published in English in the original and others, mostly the Iraqi press, published in translation. In IBC's news archive for August 2006 the average-size attack leaving 5 civilians killed has a median number of 6 reports on it.
2. O desfasamento em relação ao número conhecido de feridos:
If 600,000 people have died violent deaths, then the 3:1 ratio implies that 1,800,000 Iraqis have by now been wounded. This would correspond to 1 in every 15 Iraqis.
3. A falta de credibilidade "face value" da taxa de mortalidade entre adultos masculinos
Of the 287 violent post-invasion deaths recorded by the Lancet authors where the age and sex was known, 235 (82%) were adult males between 15 and 59 years old. Extrapolating to the population as a whole would mean that around 470,000 men in this age group have been killed violently, i.e. one in 15 (7%) of adult males aged 15 to 59.
4. O desfasamento entre as certidões de óbito emitidas e as recebidas
If the Lancet estimate is correct then it follows that either (a) 500,000 documented violent deaths, for which certificates were issued, have somehow managed to completely disappear without a trace to Iraqi officials or the international media or (b) there is a vast, elaborate, and very successful, cover up of this massive number of bodies and their associated paper trail being carried out in Iraq.
5. O estranho aumento da taxa de mortalidade
Those who keenly recall the reported carnage associated with the invasion in 2003 will scarcely credit the notion that similar events but of a much greater scale and extent have continued unremarked and unrecorded, including by locals, in a nation at the level of education and urbanisation of Iraq. Iraq is not an undeveloped society where tiny, self-sufficient communities live in isolation and ignorance of each other.
O cerne da questão, segundo as pessoas da IBC:
The most likely source of such a flaw is some bias in the sampling methodology such that violent deaths were vastly over-represented in the sample. The precise potential nature of such bias is not clear at this point (it could, for example, involve problems in the application of a statistical method originally designed for studying the spread of disease in a population to direct and ongoing violence-related phenomena). But to dismiss the possibility of such bias out of hand is surely both irresponsible and unwise.
O debate continua...
1. O desfasamento em relação à cobertura dos meios de comunicação social:
If we consider the Lancet's June 2005 – June 2006 period, whose violent toll it estimates at 330,000, then daily estimates become lower but would still require 768 unrecorded violent deaths for every 67 that are recorded. The IBC database shows that the average number of people killed in any one violent attack is five. Therefore it would require about 150 unreported, average-size, violent assaults per day to account for 768 deaths. It is unlikely that incidents of this scale would be so consistently missed by the various media in Iraq. Although IBC technically requires only two sources for every corroborated death in its database, we actually collect, archive and analyse every unique report we can find about each incident before it is added to our database. For larger incidents the number of reports can run into the dozens, including news published in English in the original and others, mostly the Iraqi press, published in translation. In IBC's news archive for August 2006 the average-size attack leaving 5 civilians killed has a median number of 6 reports on it.
2. O desfasamento em relação ao número conhecido de feridos:
If 600,000 people have died violent deaths, then the 3:1 ratio implies that 1,800,000 Iraqis have by now been wounded. This would correspond to 1 in every 15 Iraqis.
3. A falta de credibilidade "face value" da taxa de mortalidade entre adultos masculinos
Of the 287 violent post-invasion deaths recorded by the Lancet authors where the age and sex was known, 235 (82%) were adult males between 15 and 59 years old. Extrapolating to the population as a whole would mean that around 470,000 men in this age group have been killed violently, i.e. one in 15 (7%) of adult males aged 15 to 59.
4. O desfasamento entre as certidões de óbito emitidas e as recebidas
If the Lancet estimate is correct then it follows that either (a) 500,000 documented violent deaths, for which certificates were issued, have somehow managed to completely disappear without a trace to Iraqi officials or the international media or (b) there is a vast, elaborate, and very successful, cover up of this massive number of bodies and their associated paper trail being carried out in Iraq.
5. O estranho aumento da taxa de mortalidade
Those who keenly recall the reported carnage associated with the invasion in 2003 will scarcely credit the notion that similar events but of a much greater scale and extent have continued unremarked and unrecorded, including by locals, in a nation at the level of education and urbanisation of Iraq. Iraq is not an undeveloped society where tiny, self-sufficient communities live in isolation and ignorance of each other.
O cerne da questão, segundo as pessoas da IBC:
The most likely source of such a flaw is some bias in the sampling methodology such that violent deaths were vastly over-represented in the sample. The precise potential nature of such bias is not clear at this point (it could, for example, involve problems in the application of a statistical method originally designed for studying the spread of disease in a population to direct and ongoing violence-related phenomena). But to dismiss the possibility of such bias out of hand is surely both irresponsible and unwise.
O debate continua...
segunda-feira, outubro 16, 2006
655.000 (2)
O Insurgente vem publicando vários posts onde se discute a credibilidade do estudo publicado na Lancet onde estima a mortalidade causada pela invasão do Iraque. Alguns deles são laterais , incluindo, por exemplo, cartoons, ou uma gravação vídeo onde o editor da revista de pronuncia contra a invasão. Tudo bem, que não se pode estar sempre a falar a sério.
Mas há um post muito interessante, onde se transcreve um e-mail de um "médico com algumas noções de epidemiologia", Fernando Gomes da Costa, que coloca várias dúvidas sobre o estudo. Longe de mim colocar-me na posição dos autores, que se defenderão como puderem. Mas quando a defesa já está no próprio texto do estudo, o melhor mesmo é lê-lo com atenção, como aliás eu já sugeria da primeira vez que falei no assunto. As perguntas de Fernando Gomes da Costa:
1- Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?
Segundo os autores, os clusters foram escolhidos aleatoriamente, sendo excluídos apenas três:
" On two occasions, miscommunication resulted in clusters not being visited in Muthanna and Dahuk, and instead being included in other Governorates. In Wassit, insecurity caused the team to choose the next nearest population area, in accordance with the study protocol. Later it was discovered that this second site was actually across the boundary in Baghdad Governorate."
Foi assim apenas excluído um cluster por razões potencialmente correlacionadas com as mencionadas na pergunta do e-mail, e dois outros por falta de comunicação. Consequências?
"The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths."
2- Os inquiridos contabilizaram (em meados de 2006) o número de familiares mortos desde os 14 meses anteriores à invasão até aos 14 seguintes. Foram mortes confirmadas por atestados em 90% dos casos dos 87% solicitados, o que dá 79% de confirmações. Temos assim que em 600.000 há portanto 126.000 casos não confirmados.
Este problema é mencionado no estudo:
"Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable."
3- As mortes não relatadas não puderam ser, obviamente, controladas por atestados. Isto quer dizer que nada nos garante não haver uma minimização do número de mortes antes da invasão, o que poderá distorcer grandemente o método de comparação "antes e depois".
Cito do estudo:
"Our estimate of the pre-invasion crude or all-cause mortality rate is in close agreement with other sources"
Essas fontes são:
CIA 2003 Factbook entry for Iraqhttp://permanent.access.gpo.gov/lps35389/2003/iz.html(accessed Oct 2, 2006).
US Agency for International Health and US Census Bureau. Global population profile: 2002. Washington, DC: US Census Bureau, 2004:.
Podem estar também erradas, claro. Mas o fundamental é que a estimativa da mortalidade pré-invasão que resulta do inquérito coincide com resultados obtidos independentemente do inquérito.
4- Uma das mais óbvias desonestidades do “estudo” tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em “paz”) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números.
Lamento, mas não há comparação com "os 14 meses a seguir". O que há é comparação da taxa de mortalidade de um período de tempo antes da invasão (14 meses) com um período de tempo posterior, a saber:
"We measured deaths from January, 2002, to July, 2006, which included the period of the 2004 survey." ~
Para além disso, a noção de que "na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno" terá sido a fase com maior mortalidade não parece resistir aos dados:
"By mid-year 2006, 91 violent deaths had occurred in 6 months, compared with 27 post-invasion in 2003 and 77 in 2004, and 105 for 2005, suggesting that violence has escalated substantially."
A mortalidade aumentou (em vez de diminuir) após os tais "14 meses"
5- Finalmente, todos sabemos que sempre que alguém morre vítima da violência bélica no Iraque isso nos é diligentemente comunicado pela generalidade da imprensa. Seria muito fácil essa mesma imprensa (ou algum curioso) dedicar-se a pegar nos jornais desde a altura da invasão e somar as mortes (só violentas e dos iraquianos, atenção). Mas vamos supor, já atirando muito (mas muito) por alto, que desde Março de 2003 morreram em média diariamente 100 pessoas vítimas de atentados, bombas, (ou torturas dos americanos, pois claro!). Há muitos dias, como hoje, em que nada vem relatado, mas fica por conta dos outros...Teríamos assim, desde Março de 2003: 100(mortes/dia)x365(dias/ano)x3,5(3 anos e meio) = 127.750 mortes! Um bocadinho longe das 600.000...Como diz a outra: há coisas fantásticas, não há? Já agora, fazendo as contas com os números do “estudo” da Lancet: 600.000 (mortes)/(3,5x365 dias) = 469 mortes por dia, ininterruptamente desde 2003! A ser assim, e lendo a nossa imparcialíssima imprensa, até o Avante está vendido ao imperialismo americano!
Aqui não há muito a dizer: o autor do e-mail acredita na imprensa mas "não acredita" nos números. Eu também gostava de não acreditar. Mas não me parece que isso chegue.
Já agora, fica aqui um excerto do estudo onde os autores - com honestidade - listam muitos dos seus possíveis enviesamentos, alguns no sentido da sobrestimação e outros no sentido da subestimação da mortalidade:
All surveys have potential for error and bias. The extreme insecurity during this survey could have introduced bias by restricting the size of teams, the number of supervisors, and the length of time that could be prudently spent in all locations, which in turn affected the size and nature of questionnaires. Further, calling back to households not available on the initial visit was felt to be too dangerous. Families, especially in households with combatants killed, could have hidden deaths. Under-reporting of infant deaths is a wide-spread concern in surveys of this type. Entire households could have been killed, leading to a survivor bias. The population data used for cluster selection were at least 2 years old, and if populations subsequently migrated from areas of high mortality to those with low mortality, the sample might have over-represented the high-mortality areas. The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths. Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable.
Large-scale migration out of Iraq could affect our death estimates by decreasing population size. Out-migration could introduce inaccuracies if such a process took place predominantly in households with either high or low violent death history. Internal population movement would be less likely to affect results appreciably. However, the number of individual households with in-migration was much the same as those with out-migration in our survey.
Although interviewers used a robust process for identifying clusters, the potential exists for interviewers to be drawn to especially affected houses through conscious or unconscious processes. Although evidence of this bias does not exist, its potential cannot be dismissed. Furthermore, families might have misclassified information about the circumstances of death. Deaths could have been over or under-attributed to coalition forces on a consistent basis. The numbers of non-violent deaths were low, thus, estimation of trends with confidence was difficult. Not sampling two of the Governorates could have underestimated the total number of deaths, although these areas were generally known as low-violence Governorates. Finally, the sex of individuals who had died might not have been accurately reported by households. Female deaths could have been under-reported, or there might have been discomfort felt in reporting certain male deaths.
Mas há um post muito interessante, onde se transcreve um e-mail de um "médico com algumas noções de epidemiologia", Fernando Gomes da Costa, que coloca várias dúvidas sobre o estudo. Longe de mim colocar-me na posição dos autores, que se defenderão como puderem. Mas quando a defesa já está no próprio texto do estudo, o melhor mesmo é lê-lo com atenção, como aliás eu já sugeria da primeira vez que falei no assunto. As perguntas de Fernando Gomes da Costa:
1- Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?
Segundo os autores, os clusters foram escolhidos aleatoriamente, sendo excluídos apenas três:
" On two occasions, miscommunication resulted in clusters not being visited in Muthanna and Dahuk, and instead being included in other Governorates. In Wassit, insecurity caused the team to choose the next nearest population area, in accordance with the study protocol. Later it was discovered that this second site was actually across the boundary in Baghdad Governorate."
Foi assim apenas excluído um cluster por razões potencialmente correlacionadas com as mencionadas na pergunta do e-mail, e dois outros por falta de comunicação. Consequências?
"The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths."
2- Os inquiridos contabilizaram (em meados de 2006) o número de familiares mortos desde os 14 meses anteriores à invasão até aos 14 seguintes. Foram mortes confirmadas por atestados em 90% dos casos dos 87% solicitados, o que dá 79% de confirmações. Temos assim que em 600.000 há portanto 126.000 casos não confirmados.
Este problema é mencionado no estudo:
"Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable."
3- As mortes não relatadas não puderam ser, obviamente, controladas por atestados. Isto quer dizer que nada nos garante não haver uma minimização do número de mortes antes da invasão, o que poderá distorcer grandemente o método de comparação "antes e depois".
Cito do estudo:
"Our estimate of the pre-invasion crude or all-cause mortality rate is in close agreement with other sources"
Essas fontes são:
CIA 2003 Factbook entry for Iraqhttp://permanent.access.gpo.gov/lps35389/2003/iz.html(accessed Oct 2, 2006).
US Agency for International Health and US Census Bureau. Global population profile: 2002. Washington, DC: US Census Bureau, 2004:.
Podem estar também erradas, claro. Mas o fundamental é que a estimativa da mortalidade pré-invasão que resulta do inquérito coincide com resultados obtidos independentemente do inquérito.
4- Uma das mais óbvias desonestidades do “estudo” tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em “paz”) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números.
Lamento, mas não há comparação com "os 14 meses a seguir". O que há é comparação da taxa de mortalidade de um período de tempo antes da invasão (14 meses) com um período de tempo posterior, a saber:
"We measured deaths from January, 2002, to July, 2006, which included the period of the 2004 survey." ~
Para além disso, a noção de que "na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno" terá sido a fase com maior mortalidade não parece resistir aos dados:
"By mid-year 2006, 91 violent deaths had occurred in 6 months, compared with 27 post-invasion in 2003 and 77 in 2004, and 105 for 2005, suggesting that violence has escalated substantially."
A mortalidade aumentou (em vez de diminuir) após os tais "14 meses"
5- Finalmente, todos sabemos que sempre que alguém morre vítima da violência bélica no Iraque isso nos é diligentemente comunicado pela generalidade da imprensa. Seria muito fácil essa mesma imprensa (ou algum curioso) dedicar-se a pegar nos jornais desde a altura da invasão e somar as mortes (só violentas e dos iraquianos, atenção). Mas vamos supor, já atirando muito (mas muito) por alto, que desde Março de 2003 morreram em média diariamente 100 pessoas vítimas de atentados, bombas, (ou torturas dos americanos, pois claro!). Há muitos dias, como hoje, em que nada vem relatado, mas fica por conta dos outros...Teríamos assim, desde Março de 2003: 100(mortes/dia)x365(dias/ano)x3,5(3 anos e meio) = 127.750 mortes! Um bocadinho longe das 600.000...Como diz a outra: há coisas fantásticas, não há? Já agora, fazendo as contas com os números do “estudo” da Lancet: 600.000 (mortes)/(3,5x365 dias) = 469 mortes por dia, ininterruptamente desde 2003! A ser assim, e lendo a nossa imparcialíssima imprensa, até o Avante está vendido ao imperialismo americano!
Aqui não há muito a dizer: o autor do e-mail acredita na imprensa mas "não acredita" nos números. Eu também gostava de não acreditar. Mas não me parece que isso chegue.
Já agora, fica aqui um excerto do estudo onde os autores - com honestidade - listam muitos dos seus possíveis enviesamentos, alguns no sentido da sobrestimação e outros no sentido da subestimação da mortalidade:
All surveys have potential for error and bias. The extreme insecurity during this survey could have introduced bias by restricting the size of teams, the number of supervisors, and the length of time that could be prudently spent in all locations, which in turn affected the size and nature of questionnaires. Further, calling back to households not available on the initial visit was felt to be too dangerous. Families, especially in households with combatants killed, could have hidden deaths. Under-reporting of infant deaths is a wide-spread concern in surveys of this type. Entire households could have been killed, leading to a survivor bias. The population data used for cluster selection were at least 2 years old, and if populations subsequently migrated from areas of high mortality to those with low mortality, the sample might have over-represented the high-mortality areas. The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths. Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable.
Large-scale migration out of Iraq could affect our death estimates by decreasing population size. Out-migration could introduce inaccuracies if such a process took place predominantly in households with either high or low violent death history. Internal population movement would be less likely to affect results appreciably. However, the number of individual households with in-migration was much the same as those with out-migration in our survey.
Although interviewers used a robust process for identifying clusters, the potential exists for interviewers to be drawn to especially affected houses through conscious or unconscious processes. Although evidence of this bias does not exist, its potential cannot be dismissed. Furthermore, families might have misclassified information about the circumstances of death. Deaths could have been over or under-attributed to coalition forces on a consistent basis. The numbers of non-violent deaths were low, thus, estimation of trends with confidence was difficult. Not sampling two of the Governorates could have underestimated the total number of deaths, although these areas were generally known as low-violence Governorates. Finally, the sex of individuals who had died might not have been accurately reported by households. Female deaths could have been under-reported, or there might have been discomfort felt in reporting certain male deaths.
sexta-feira, outubro 13, 2006
2º turno
Posso estar enganado, mas ainda só dei com duas sondagens de intenção de voto na segunda volta das presidenciais brasileiras realizadas após o 1º turno. São ambas da Datafolha (6 e 10 de Outubro). Lula surge com 50/51% de intenções directas de voto, e 54/56% de votos válidos.
A visão de longo prazo está no gráfico seguinte: 60 sondagens, realizadas desde 2005, em que o cenário Lula/Alckmin foi avançado. Descida constante de Lula até há um ano, recuperação até fim de Agosto deste ano, e declínio deste então. As percentagens são de votos válidos:

Quando olhamos para as intenções directas de voto, o mecanismo do que se passa desde fim de Agosto fica mais claro. A percentagem de votantes que afirma tencionar votar em Lula numa segunda volta não desce muito. Só que, entretanto, aqueles que se diziam abstencionistas e indecisos vão diminuindo e, pelos vistos, passando para Alckmin (clique para ampliar):

Chega para Alckmin? Isso exigiria uma de três coisas. A primeira seria uma transferência para Alckmin de alguns daqueles que dizem hoje tencionar votar Lula. Mas segundo a Datafolha, 90% dos que afirmam tencionar votar em Lula ou Alckmin dizem que a sua decisão é definitiva. Não há muito espaço para mudanças de última hora. A segunda consistiria em que todos os que agora se dizem indecisos, abstencionistas ou votos brancos e nulos passassem para Alckmin. É implausível. A terceira seria que houvesse uma excepcional desmobilização de última hora entre o eleitorado Lula. Nada disto parece muito credível. Mas esperar para ver.
A visão de longo prazo está no gráfico seguinte: 60 sondagens, realizadas desde 2005, em que o cenário Lula/Alckmin foi avançado. Descida constante de Lula até há um ano, recuperação até fim de Agosto deste ano, e declínio deste então. As percentagens são de votos válidos:

Quando olhamos para as intenções directas de voto, o mecanismo do que se passa desde fim de Agosto fica mais claro. A percentagem de votantes que afirma tencionar votar em Lula numa segunda volta não desce muito. Só que, entretanto, aqueles que se diziam abstencionistas e indecisos vão diminuindo e, pelos vistos, passando para Alckmin (clique para ampliar):

Chega para Alckmin? Isso exigiria uma de três coisas. A primeira seria uma transferência para Alckmin de alguns daqueles que dizem hoje tencionar votar Lula. Mas segundo a Datafolha, 90% dos que afirmam tencionar votar em Lula ou Alckmin dizem que a sua decisão é definitiva. Não há muito espaço para mudanças de última hora. A segunda consistiria em que todos os que agora se dizem indecisos, abstencionistas ou votos brancos e nulos passassem para Alckmin. É implausível. A terceira seria que houvesse uma excepcional desmobilização de última hora entre o eleitorado Lula. Nada disto parece muito credível. Mas esperar para ver.
quinta-feira, outubro 12, 2006
655.000
Uma utilização menos usual da técnica do inquérito por questionário: um estudo publicado pela revista Lancet estima em 655.000 o número de mortos devidos à invasão no Iraque. Este "devido" deve ser concebido com significando que estas mortes estão "em excesso" em relação ao que seria previsível na base das taxas de mortalidade verificadas nos anos imediatamente anteriores. O estudo revela também que a taxa de mortalidade mais do que duplicou no período 2003-2006 em relação ao período anterior, e que parece estar a aumentar. Estima-se que cerca das 600.000 mortes tenham sido violentas.
Como se calcularam estes números? O melhor é ler. A base é um inquérito por questionário a 12.000 iraquianos. A metodologia é complexa e haverá muitos pontos para debate. Exemplo num blogue: aqui.
Entretanto, há quem recorra, como habitualmente, à fé : George W. Bush ou John Howard dizem que não "acreditam" nos números.
Como se calcularam estes números? O melhor é ler. A base é um inquérito por questionário a 12.000 iraquianos. A metodologia é complexa e haverá muitos pontos para debate. Exemplo num blogue: aqui.
Entretanto, há quem recorra, como habitualmente, à fé : George W. Bush ou John Howard dizem que não "acreditam" nos números.
quarta-feira, outubro 04, 2006
A "queda" de Lula (2)
Eduardo Leoni, do Brazilian Politics, chama-me à atenção por e-mail de um dado importante: Lula não "perdeu" votos. O que sucede é que não conseguiu angariar votos entre os indecisos.
Assim é, quando olhamos para as intenções directas de voto:

Lula mexe pouco, mas Alckmin sobe à medida que os indecisos descem. Eduardo Leoni levanta outro problema que decorre daqui: a pressuposição de que os indecisos se redistribuem proporcionalmente pelas opções válidas (ou, o que é a mesma coisa, que se vão todos abster) não funciona no Brasil...
Assim é, quando olhamos para as intenções directas de voto:

Lula mexe pouco, mas Alckmin sobe à medida que os indecisos descem. Eduardo Leoni levanta outro problema que decorre daqui: a pressuposição de que os indecisos se redistribuem proporcionalmente pelas opções válidas (ou, o que é a mesma coisa, que se vão todos abster) não funciona no Brasil...
terça-feira, outubro 03, 2006
A "queda" de Lula
Anda por aí alguma discussão sobre as razões da incapacidade de Lula ganhar à 1ª volta. A maior parte delas anda pela questão da corrupção (no Público, só para assinantes). Mas atentem no seguinte gráfico com a evolução das intenções de voto em Lula e Alckmin no IBOPE, só para usar o instituto que mais se aproximou dos resultados que Lula acabou por obter:

O que se vê é que Lula vem a descer desde finais de Agosto. O que está para a direita do dia 10 de Setembro são sondagens realizadas após a divulgação do escândalo do "dossiê Serra", e pode-se levantar a hipótese de que essa divulgação terá acelerado a descida. Mas a descida vem de antes, como já repeti aqui até à exaustão, e importa também explicá-la. Descontando o que às vezes me parece ser uma certa mania da perseguição, amplificada aqui, estou de acordo: não se deu suficiente importância a Alckmin. Lula perde votos devido a uma boa campanha do seu opositor, e não apenas devido à corrupção.

O que se vê é que Lula vem a descer desde finais de Agosto. O que está para a direita do dia 10 de Setembro são sondagens realizadas após a divulgação do escândalo do "dossiê Serra", e pode-se levantar a hipótese de que essa divulgação terá acelerado a descida. Mas a descida vem de antes, como já repeti aqui até à exaustão, e importa também explicá-la. Descontando o que às vezes me parece ser uma certa mania da perseguição, amplificada aqui, estou de acordo: não se deu suficiente importância a Alckmin. Lula perde votos devido a uma boa campanha do seu opositor, e não apenas devido à corrupção.
segunda-feira, outubro 02, 2006
Brasil: rescaldo e 2ª volta
O quadro seguinte compara as últimas estimativas de cada instituto com os resultados finais. Parabéns ao Datafolha e ao Ipespe. O segundo é especialmente notável, tendo em conta a utilização de uma amostra reduzida e a inquirição telefónica. Mas pode-se também levantar a hipótese de que o Ipespe tenha tido "razão antes de tempo", ou seja, que estivesse no dia 26 a subestimar a votação em Lula, acabando por se aproximar dos resultados finais devido à tendência geral de queda de Lula que se prolongou após o dia 26. Seja como for, as diferenças entre os institutos são reduzidas, a não ser no caso Sensus. Se quiserem comparar com a performance dos institutos portugueses em 2006, podem ir aqui. Nada mau para nós, mas o Brasil é o Brasil e Portugal é Portugal...

2ª volta? O que temos são os últimos resultados de sondagens que colocavam os eleitores perante o cenário Lula/Alckmin. O score de Lula oscila entre 62% e 52%. Mas agora, vai ser difícil levar os resultados da Sensus muito a sério.

2ª volta? O que temos são os últimos resultados de sondagens que colocavam os eleitores perante o cenário Lula/Alckmin. O score de Lula oscila entre 62% e 52%. Mas agora, vai ser difícil levar os resultados da Sensus muito a sério.
sábado, setembro 30, 2006
Qualquer palpite é chute
Acaba de ser divulgada uma sondagem da Vox Populi, terminada ontem, que dá 52% de votos válidos para Lula (contra 60% na última sondagem, realizada dia 19). Mais uma que dá tendência de descida. Aguarda-se, pelo menos, uma última sondagem da Datafolha. As restantes (as mais recentes) são as seguintes:

A noite eleitoral no Domingo é capaz de acabar tarde. “O segundo turno é provável”, arrisca um especialista na análise de pesquisas. “Mas a essa altura dos acontecimentos, qualquer palpite é chute”, afirma.
P.S.- Actualização com IBOPE e Datafolha:

A noite eleitoral no Domingo é capaz de acabar tarde. “O segundo turno é provável”, arrisca um especialista na análise de pesquisas. “Mas a essa altura dos acontecimentos, qualquer palpite é chute”, afirma.
P.S.- Actualização com IBOPE e Datafolha:
sexta-feira, setembro 29, 2006
6ª feira: ponto de situação
O Ipespe dá 51% de votos válidos em Lula, em sondagem realizada no dia 26, confirmando a tendência de descida verificada em todos os outros institutos (o estudo anterior dava 53%). Não esquecer, contudo, que as sondagens Ipespe são telefónicas, presumivelmente deixando fora a amostra o eleitorado mais pobre.
Amanhã deveremos conhecer os resultados das últimas sondagens Vox Populi, Datafolha e IBOPE. Irão ter, pelo menos no caso Datafolha, amostras de muito grande dimensão, o que não só diminui a margem de erro amostral mas também permite uma estratificação mais fina da amostra. Isso, contudo, não resolve todos os problemas, como se pode depreender do quadro seguinte, onde se comparam os resultados das eleições de 1998 e 2002 com os resultados das últimas sondagens realizadas pelo IBOPE (ambas as eleições) e pelo Datafolha (2002). Como vêem, há um fenómeno recorrente: no dia das eleições, o vencedor recolheu menos votos do que aquilo que é estimado nas base das últimas sondagens. Coincidência?
Amanhã deveremos conhecer os resultados das últimas sondagens Vox Populi, Datafolha e IBOPE. Irão ter, pelo menos no caso Datafolha, amostras de muito grande dimensão, o que não só diminui a margem de erro amostral mas também permite uma estratificação mais fina da amostra. Isso, contudo, não resolve todos os problemas, como se pode depreender do quadro seguinte, onde se comparam os resultados das eleições de 1998 e 2002 com os resultados das últimas sondagens realizadas pelo IBOPE (ambas as eleições) e pelo Datafolha (2002). Como vêem, há um fenómeno recorrente: no dia das eleições, o vencedor recolheu menos votos do que aquilo que é estimado nas base das últimas sondagens. Coincidência?
quinta-feira, setembro 28, 2006
Novas sondagens IBOPE e Datafolha
Na sondagem IBOPE, terminada dia 26, Lula aparece com 53% de votos válidos, menos 1 ponto que na sondagem anterior (terminada dia 22). A"subida" de que se fala no texto linkado é nas intenções de voto, mas o que sucede é que, como os votos brancos, nulos e indecisos diminuem, a redistribuição acaba por redundar numa descida para Lula em termos de votos válidos.
Na sondagem Datafolha, terminada dia 27, Lula desce também um ponto em votos válidos, de 54% para 53%, em relação à pesquisa anterior (terminada dia 24).
Ambas as "descidas" são, tomadas individualmente, estatisticamente irrelevantes. Contudo, o facto de ambas indicarem descida e de essa descida vir na continuidade de uma tendência anterior sugere que podem indicar algo mais do que um mero efeito de erro aleatório. De assinalar também que as estimativas para os vários candidatos que resultam das sondagens IBOPE e Datafolha serem rigorosamente iguais (53%, 36%, 9%, 2%).
Dito isto, as notícias podiam ser piores para Lula. Como o gráfico abaixo mostra - evolução dos resultados limpos de "house effects" - Lula desceu de forma contínua desde a 2ª quinzena de Agosto até agora. Contudo, o ritmo de descida parece ter abrandado nas sondagens desta última semana. Chegou-se ao último reduto de eleitorado indefectível?
Na sondagem Datafolha, terminada dia 27, Lula desce também um ponto em votos válidos, de 54% para 53%, em relação à pesquisa anterior (terminada dia 24).
Ambas as "descidas" são, tomadas individualmente, estatisticamente irrelevantes. Contudo, o facto de ambas indicarem descida e de essa descida vir na continuidade de uma tendência anterior sugere que podem indicar algo mais do que um mero efeito de erro aleatório. De assinalar também que as estimativas para os vários candidatos que resultam das sondagens IBOPE e Datafolha serem rigorosamente iguais (53%, 36%, 9%, 2%).
Dito isto, as notícias podiam ser piores para Lula. Como o gráfico abaixo mostra - evolução dos resultados limpos de "house effects" - Lula desceu de forma contínua desde a 2ª quinzena de Agosto até agora. Contudo, o ritmo de descida parece ter abrandado nas sondagens desta última semana. Chegou-se ao último reduto de eleitorado indefectível?
quarta-feira, setembro 27, 2006
Polémicas
Lá também há. Excertos:
SAMBA DA PESQUISA DOIDA
Se você estava em dúvida entre o Ibope e o Datafolha, agora já tem à sua disposição o Sensus, visto pelo mercado como uma espécie de Heloisa Helena entre os institutos. A última sondagem do Sensus, divulgada nesta terça, informa que Lula está com 51,4% das intenções de voto, contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin.São números diferentes dos que foram coletados pelo Datafolha (49% X 31%) e muito diferentes dos informados pelo Ibope (47% X 33%). Os pesquisadores do Datafolha foram às ruas na sexta-feira. Os do Ibope, de quarta a sexta. E os do Sensus, de sexta a domingo. Há pelo menos um ponto de contato entre as três pesquisas: a sexta-feira. Levando-se em conta que o eleitorado cujos humores se tenta medir é rigorosamente o mesmo, pode-se concluir: tem instituto que vai sair dessa eleição com a credibilidade carbonizada. A margem de erro dessa conclusão é zero. Logo mais teremos novas pesquisas. Essa disputa está bem mais interessante do que a briga entre os presidenciáveis. A propósito, Geraldo Alckmin considerou o resultado da pesquisa Sensus “um escândalo”.
Pesquisas divergem; em quem acreditar?
Gustavo Krieger
Do Correio Braziliense
O Ibope diz que a vantagem de Lula sobre a soma dos candidatos de oposição é de três pontos. Para o Datafolha, são oito. O Sensus aposta em 15 e o Vox Populi em 17. Tudo isso em pesquisas divulgadas num intervalo de cinco dias. Afinal, em quem acreditar? Para qualquer candidato, pesquisa boa é aquela que o mostra na dianteira. A verdade é que todas seguem métodos científicos. Mas cada uma tem o seu método e estas diferenças ajudam a explicar os índices disparatados. A metodologia do Sensus é domiciliar: os pesquisadores vão até a casa dos eleitores para aplicar os questionários. O Datafolha adota a “abordagem em pontos de fluxo populacional”. Escolhem pontos de grande concentração, como o Viaduto do Chá, em São Paulo ou a plataforma da rodoviária, em Brasília. Para compensar eventuais distorções, o Datafolha faz mais entrevistas que seus concorrentes. Na última rodada, ouviu 4.319 pessoas, contra 2 mil do Sensus e 2002 do Ibope. O perfil dos eleitores também é diferente. Lula é mais forte entre os mais pobres, menos instruídos ou que vivem no interior. Quanto mais destes eleitores na amostra, mais votos ele terá. O Sensus divide a pesquisa entre áreas urbanas e rurais, enquanto a Datafolha se concentra em cidades. O resultado é que uma é mais urbana que a outra e a diferença pode ser grande. Na pesquisa do Sensus de ontem, Lula obteve dez pontos percentuais a mais nas áreas rurais que nas cidades. Há discrepância também na divisão por escolaridade. Na pesquisa do Ibope, 27% dos pesquisados tinham estudado até a quarta série. No Sensus, este segmento representava 35%. Para a Sensus, os eleitores com ensino médio são 29% dos pesquisados. No Ibope são 37% e no Datafolha 39%. Este deslocamento muda o resultado da pesquisa. Lula tem em média 20 pontos percentuais a mais entre os eleitores menos instruídos que entre os que fizeram o segundo grau. Cada instituto tem justificativas para suas escolhas. Domingo à noite, será possível saber quem está certo.
A disputa das pesquisas
Mais curiosa do que a disputa eleitoral propriamente dita tem sido a guerra dos números das pesquisas eleitorais. Ontem, por exemplo, o Instituto Sensus apresentou à opinião pública seu novo levantamento: Lula está com 51,4% das intenções de voto contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin. A pesquisa foi realizada entre a última sexta-feira e domingo. Praticamente no mesmo período, Ibope e DataFolha também foram a campo. Os resultados apurados, respectivamente, são os seguintes: 47% (Lula) e 33% (Alckmin); e 49% (Lula) e 31% (Alckmin). A diferença dos percentuais de dois institutos (Ibope e Data Folha) em comparação com o Sensus é elevada demais, confundindo inclusive todos aqueles que acompanham os desdobramentos da campanha, mesmo porque todos, simultaneamente, estão tentando fotografar o mesmo momento eleitoral. Se houver equívoco ou manipulação de dados, a partir de segunda-feira os incautos pagarão um preço alto demais: a perda da credibilidade – um elemento crucial de sobrevivência de quem tem como negócio principal a realização de pesquisas de opinião.
Na verdade:
1. As diferenças entre os resultados apresentados pelos institutos são potencialmente muito maiores do que as ditadas pela margem de erro amostral ou pelos momentos diferentes no tempo em que são aplicadas. Amostragem, método de inquirição, questionário, aplicação do inquérito, ponderações a posteriori, todos estes são factores que podem causar diferenças entre os resultados obtidos;
2. Apesar disso, há métodos que permitem detectar se existem tendências detectadas por todos os institutos, independentemente de metodologias utilizadas. Foi o que fiz aqui. As intenções de voto válidas em Lula têm vindo a descer. E não há quaisquer sinais de que o dossiê Serra tenha produzido efeitos: a tendência de descida é anterior ao escândalo e o seu ritmo não mudou.
3. O que não é possível saber: o que vai acontecer no Domingo. As pesquisas feitas até agora são o passado. O Domingo é o futuro. Há abstenção, há votos brancos e nulos, há mudanças de opinião. E os resultados não dão uma vantagem suficiente a Lula para que uma vitória à 1ª volta esteja, com um grau de certeza elevado, ao abrigo destas mudanças futuras.
4. E o passado ajuda a fazer inferências sobre o futuro: há resultados eleitorais passados, e o confronto entre eles e as sondagens revela que o favorito foi beneficiado nas sondagens em relação àquilo que acabou por acontecer (mais sobre isto, com dados, no final desta semana).
Logo, se me perguntassem, eu diria que a vitória à 1ª volta está em risco muito sério. Lula sabe disso, obviamente.
SAMBA DA PESQUISA DOIDA
Se você estava em dúvida entre o Ibope e o Datafolha, agora já tem à sua disposição o Sensus, visto pelo mercado como uma espécie de Heloisa Helena entre os institutos. A última sondagem do Sensus, divulgada nesta terça, informa que Lula está com 51,4% das intenções de voto, contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin.São números diferentes dos que foram coletados pelo Datafolha (49% X 31%) e muito diferentes dos informados pelo Ibope (47% X 33%). Os pesquisadores do Datafolha foram às ruas na sexta-feira. Os do Ibope, de quarta a sexta. E os do Sensus, de sexta a domingo. Há pelo menos um ponto de contato entre as três pesquisas: a sexta-feira. Levando-se em conta que o eleitorado cujos humores se tenta medir é rigorosamente o mesmo, pode-se concluir: tem instituto que vai sair dessa eleição com a credibilidade carbonizada. A margem de erro dessa conclusão é zero. Logo mais teremos novas pesquisas. Essa disputa está bem mais interessante do que a briga entre os presidenciáveis. A propósito, Geraldo Alckmin considerou o resultado da pesquisa Sensus “um escândalo”.
Pesquisas divergem; em quem acreditar?
Gustavo Krieger
Do Correio Braziliense
O Ibope diz que a vantagem de Lula sobre a soma dos candidatos de oposição é de três pontos. Para o Datafolha, são oito. O Sensus aposta em 15 e o Vox Populi em 17. Tudo isso em pesquisas divulgadas num intervalo de cinco dias. Afinal, em quem acreditar? Para qualquer candidato, pesquisa boa é aquela que o mostra na dianteira. A verdade é que todas seguem métodos científicos. Mas cada uma tem o seu método e estas diferenças ajudam a explicar os índices disparatados. A metodologia do Sensus é domiciliar: os pesquisadores vão até a casa dos eleitores para aplicar os questionários. O Datafolha adota a “abordagem em pontos de fluxo populacional”. Escolhem pontos de grande concentração, como o Viaduto do Chá, em São Paulo ou a plataforma da rodoviária, em Brasília. Para compensar eventuais distorções, o Datafolha faz mais entrevistas que seus concorrentes. Na última rodada, ouviu 4.319 pessoas, contra 2 mil do Sensus e 2002 do Ibope. O perfil dos eleitores também é diferente. Lula é mais forte entre os mais pobres, menos instruídos ou que vivem no interior. Quanto mais destes eleitores na amostra, mais votos ele terá. O Sensus divide a pesquisa entre áreas urbanas e rurais, enquanto a Datafolha se concentra em cidades. O resultado é que uma é mais urbana que a outra e a diferença pode ser grande. Na pesquisa do Sensus de ontem, Lula obteve dez pontos percentuais a mais nas áreas rurais que nas cidades. Há discrepância também na divisão por escolaridade. Na pesquisa do Ibope, 27% dos pesquisados tinham estudado até a quarta série. No Sensus, este segmento representava 35%. Para a Sensus, os eleitores com ensino médio são 29% dos pesquisados. No Ibope são 37% e no Datafolha 39%. Este deslocamento muda o resultado da pesquisa. Lula tem em média 20 pontos percentuais a mais entre os eleitores menos instruídos que entre os que fizeram o segundo grau. Cada instituto tem justificativas para suas escolhas. Domingo à noite, será possível saber quem está certo.
A disputa das pesquisas
Mais curiosa do que a disputa eleitoral propriamente dita tem sido a guerra dos números das pesquisas eleitorais. Ontem, por exemplo, o Instituto Sensus apresentou à opinião pública seu novo levantamento: Lula está com 51,4% das intenções de voto contra 27,5% atribuídos a Geraldo Alckmin. A pesquisa foi realizada entre a última sexta-feira e domingo. Praticamente no mesmo período, Ibope e DataFolha também foram a campo. Os resultados apurados, respectivamente, são os seguintes: 47% (Lula) e 33% (Alckmin); e 49% (Lula) e 31% (Alckmin). A diferença dos percentuais de dois institutos (Ibope e Data Folha) em comparação com o Sensus é elevada demais, confundindo inclusive todos aqueles que acompanham os desdobramentos da campanha, mesmo porque todos, simultaneamente, estão tentando fotografar o mesmo momento eleitoral. Se houver equívoco ou manipulação de dados, a partir de segunda-feira os incautos pagarão um preço alto demais: a perda da credibilidade – um elemento crucial de sobrevivência de quem tem como negócio principal a realização de pesquisas de opinião.
Na verdade:
1. As diferenças entre os resultados apresentados pelos institutos são potencialmente muito maiores do que as ditadas pela margem de erro amostral ou pelos momentos diferentes no tempo em que são aplicadas. Amostragem, método de inquirição, questionário, aplicação do inquérito, ponderações a posteriori, todos estes são factores que podem causar diferenças entre os resultados obtidos;
2. Apesar disso, há métodos que permitem detectar se existem tendências detectadas por todos os institutos, independentemente de metodologias utilizadas. Foi o que fiz aqui. As intenções de voto válidas em Lula têm vindo a descer. E não há quaisquer sinais de que o dossiê Serra tenha produzido efeitos: a tendência de descida é anterior ao escândalo e o seu ritmo não mudou.
3. O que não é possível saber: o que vai acontecer no Domingo. As pesquisas feitas até agora são o passado. O Domingo é o futuro. Há abstenção, há votos brancos e nulos, há mudanças de opinião. E os resultados não dão uma vantagem suficiente a Lula para que uma vitória à 1ª volta esteja, com um grau de certeza elevado, ao abrigo destas mudanças futuras.
4. E o passado ajuda a fazer inferências sobre o futuro: há resultados eleitorais passados, e o confronto entre eles e as sondagens revela que o favorito foi beneficiado nas sondagens em relação àquilo que acabou por acontecer (mais sobre isto, com dados, no final desta semana).
Logo, se me perguntassem, eu diria que a vitória à 1ª volta está em risco muito sério. Lula sabe disso, obviamente.
terça-feira, setembro 26, 2006
Sensus
Divulgada há poucas horas, a última pesquisa Sensus dá 59% de intenções de votos válidos a Lula. Convém ter atenção, contudo, ao facto dos últimos resultados da Sensus para Lula terem ficado acima da tendência: 61% no início de Agosto e 62% no final de Agosto. Isto não significa, claro, que estejam errados. Significa apenas que são outliers em relação à tendência geral (da mesma forma que as sondagens do IBPS e, até certa altura, as da Vox Populi, foram outliers no sentido oposto).
segunda-feira, setembro 25, 2006
E com a pesquisa IBOPE divulgada ontem...
Os efeitos do "dossiê Serra" (3)
A terceira maneira de ver a coisa é pensar na passagem do tempo como uma variável explicativa dos valores estimados nas sondagens e estimar esse efeito controlando os "house effects" (o facto da sondagem ter sido feita por este ou aquele instituto) e retirando a constante da equação de regressão. Assim, ficamos com valores das intenções válidas de voto para Lula associados a um cada período de tempo, independentemente do instituto que realizou a pesquisa. O valor da "2ª quinzena de Setembro" mostra como estão as coisas após a divulgação do caso:

Lula desce. Mas já vinha a descer a partir de final de Agosto. E não desce da primeira para a segunda quinzena de Setembro a um ritmo superior àquele em que descida da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro.
Veredicto preliminar:
1. As intenções válidas de voto em Lula estão a descer;
2. Não sabemos se o "dossiê Serra" está a produzir qualquer efeito. A tendência de descida é anterior à divulgação do escândalo.
Stay tuned.

Lula desce. Mas já vinha a descer a partir de final de Agosto. E não desce da primeira para a segunda quinzena de Setembro a um ritmo superior àquele em que descida da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro.
Veredicto preliminar:
1. As intenções válidas de voto em Lula estão a descer;
2. Não sabemos se o "dossiê Serra" está a produzir qualquer efeito. A tendência de descida é anterior à divulgação do escândalo.
Stay tuned.
Os efeitos do "dossiê Serra" (2)
Outra maneira de vermos a coisa consiste em olharmos para o conjunto de todas as sondagens, ajustarmos uma curva de regressão local e ver "a olho" o que se poderá ter passado: 
Tudo o que está à direita da linha vertical são sondagens divulgadas após o escândalo do dossiê. Lula parece estar a descer, sim. Mas já vinha a descer antes da divulgação, como já se dizia aqui.

Tudo o que está à direita da linha vertical são sondagens divulgadas após o escândalo do dossiê. Lula parece estar a descer, sim. Mas já vinha a descer antes da divulgação, como já se dizia aqui.
Os efeitos do "dossiê Serra" (1)
Como podemos avaliar se a divulgação do escândalo ligado ao "dossiê Serra" afectou as intenções de voto para as presidênciais no Brasil. Não é fácil, mas vamos por partes.
Uma primeira aproximação à questão pode ser feita comparando os resultados das últimas sondagens realizadas antes da divulgação pública do caso com aqueles que foram realizadas a seguir:

Em três das quatro sondagens para as quais temos ponto de comparação, Lula desce. E note-se que a excepção é a Vox Populi, onde a comparação é feita com uma sondagem de finais de Agosto. Claro que, olhando para cada sondagem individualmente, a diferença pré-pós não é estatisticamente significativa, podendo estar recoberta pela margem de erro amostral. Mas quando três em cada quatro sondagens detectam uma mesma tendência, a incerteza diminui.
Uma primeira aproximação à questão pode ser feita comparando os resultados das últimas sondagens realizadas antes da divulgação pública do caso com aqueles que foram realizadas a seguir:

Em três das quatro sondagens para as quais temos ponto de comparação, Lula desce. E note-se que a excepção é a Vox Populi, onde a comparação é feita com uma sondagem de finais de Agosto. Claro que, olhando para cada sondagem individualmente, a diferença pré-pós não é estatisticamente significativa, podendo estar recoberta pela margem de erro amostral. Mas quando três em cada quatro sondagens detectam uma mesma tendência, a incerteza diminui.
sexta-feira, setembro 22, 2006
Brasil pós-escândalo
Nada como um escândalo de última hora para animar uma eleição. Agora é o "dossiê" Serra. Detalhes aqui.
Os números de sondagens realizadas após a denúncia do escândalo (a vermelho, no quadro seguinte) são algo contraditórios (adiciono as duas últimas sondagens Ipespe, um instituto que me tinha passado completamente ao lado; daqui a dias apresento as sondagens anteriores):

Na sondagem Datafolha, não há efeito visível. Nas sondagens IBOPE e Ibespe, há diminuição das intenções válidas de voto. E na sondagem Vox Populi, Lula sobe (em virtude da redistribuição de um comparativamente grande número de indecisos). 2ª feira prometo tentar desvendar o mistério...
Os números de sondagens realizadas após a denúncia do escândalo (a vermelho, no quadro seguinte) são algo contraditórios (adiciono as duas últimas sondagens Ipespe, um instituto que me tinha passado completamente ao lado; daqui a dias apresento as sondagens anteriores):

Na sondagem Datafolha, não há efeito visível. Nas sondagens IBOPE e Ibespe, há diminuição das intenções válidas de voto. E na sondagem Vox Populi, Lula sobe (em virtude da redistribuição de um comparativamente grande número de indecisos). 2ª feira prometo tentar desvendar o mistério...
terça-feira, setembro 19, 2006
Brasil, a menos de duas semanas
Com mais duas sondagens nos últimos dias (IBOPE e Datafolha), apresento a estimativa para a evolução das intenções válidas de voto nas duas candidaturas, limpas de "house effects". Da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro, a tendência é de ligeiras descidas de Lula e Helena, e subida de Alckmin.
segunda-feira, setembro 11, 2006
Transatlantic Trends 2006
Com impecável sentido de oportunidade, foi divulgado há dias mais um relatório da série Transatlantic Trends, um inquérito de opinião anual que examina as atitudes de Europeus e Norte-Americanos em relação à relação transatlântica.
Principais resultados:
1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;
2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;
3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;
4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo (e quem me tiver lido hoje no Público imaginará como me congratulo com estas opiniões...);
5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa;
De notar que Portugal faz parte dos países estudados, graças ao apoio da FLAD, a quem devemos dar os parabéns por continuar a apoiar a nossa integração neste Transatlantic Trends. Temos algumas especificidades, tais como vermos a imigração como ameaça importante ou darmos forte apoio à europeização da política externa, entre outras.
Mas o melhor é ler tudo. É o que farei nos próximos dias.
Principais resultados:
1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;
2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;
3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;
4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo (e quem me tiver lido hoje no Público imaginará como me congratulo com estas opiniões...);
5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa;
De notar que Portugal faz parte dos países estudados, graças ao apoio da FLAD, a quem devemos dar os parabéns por continuar a apoiar a nossa integração neste Transatlantic Trends. Temos algumas especificidades, tais como vermos a imigração como ameaça importante ou darmos forte apoio à europeização da política externa, entre outras.
Mas o melhor é ler tudo. É o que farei nos próximos dias.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Brasil: actualização
Mais três sondagens na nossa lista: Vox Populi, IBOPE e Datafolha, esta última já em Setembro.

A menos de um mês das eleições, convergência em torno de 57-58% para Lula, mesmo por parte de institutos que, antes, tinham dado valores abaixo (Datafolha e Vox Populi) e acima (IBOPE) da tendência para Lula.

Com o endurecimento da campanha e o tempo de antena, Alckmin sobe. Também aqui institutos que antes tendiam a "beneficiar" (Vox Populi) ou "prejudicar" (IBOPE) Alckmin têm resultados recentes muito convergentes:

Mas se Lula mantém e Alckmin sobe, alguém tem de descer...

Por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui discutem-se os resultados das sondagens no Brasil, com alguns detalhes adicionais sobre a desagregação dos resultados e pesquisas qualitativas.

A menos de um mês das eleições, convergência em torno de 57-58% para Lula, mesmo por parte de institutos que, antes, tinham dado valores abaixo (Datafolha e Vox Populi) e acima (IBOPE) da tendência para Lula.

Com o endurecimento da campanha e o tempo de antena, Alckmin sobe. Também aqui institutos que antes tendiam a "beneficiar" (Vox Populi) ou "prejudicar" (IBOPE) Alckmin têm resultados recentes muito convergentes:

Mas se Lula mantém e Alckmin sobe, alguém tem de descer...

Por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui discutem-se os resultados das sondagens no Brasil, com alguns detalhes adicionais sobre a desagregação dos resultados e pesquisas qualitativas.
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