quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Sondagem IPOM

Noticiada aqui. Sugiro cautela com a interpretação dos "votos válidos". Primeiro, como sucede noutras ocasiões, são cálculo meu, não do órgão de informação ou do instituto. Segundo, porque 45,6+37,2+8,8+3,4=95, e não sei o que foi feito dos 5% que faltam. É possível que a notícia esteja incompleta de alguma forma ou que eu não a tenha intepretado correctamente, apesar de a ter relido várias vezes. Seja como for, imputo os 5% em falta aos Ns/Nr. Para quem não se recorda do que é o IPOM, fará melhor em ver aqui.

Ségo-Sarko


Sarko continua em crescendo.

Campanhas, 2

Esta notícia é interessante e intrigante. Parto sempre do princípio que os actores políticos são racionais e conhecem muito melhor a estrutura de custos e benefícios de uma decisão do que os "analistas" e "comentadores". Logo, quando não percebo uma decisão, tendo a concluir imediatamente que não tenho informação ou argúcia suficiente para a perceber. É este o caso: não entendo a posição de António Costa, logo, haverá qualquer coisa que não estou a ver bem.

O que me parecia que o "Não" tinha de fazer nesta campanha, e tem feito muito bem, é com que os eleitores não se limitem a ver neste referendo apenas uma decisão sobre a "despenalização do aborto", reenquadrando o tema de forma a que ele apareça como um referendo sobre o respeito pela vida, sobre a ordem social e moral onde queremos viver e sobre onde vai parar o dinheiro dos nossos impostos, por exemplo. E o "Não" teria também de sugerir, como tem feito, a existência de uma incerteza fundamental sobre o "day after" de uma vitória do "Sim": aumento do número de abortos, desregulação, abortos a passarem à frente de intervenções cirurgicas, despenalização "na prática" de abortos depois das 10 semanas, etc, etc, etc.

Isto parece-me uma boa estratégia a dois níveis. Por um lado, joga bem com o facto dos eleitores serem avessos ao risco: o que existe pode ser mau, mas se o que vem tanto pode ser melhor como pode ser pior, é melhor ficar como estamos. Por outro lado, como o "day after" de uma vitória do "Sim" pode ter várias configurações diferentes, importa que o eleitor o conceba como trazendo aquela que é a configuração mais radical de todas: o modelo de "período" - escolha livre ilimitada da mulher dentro de um determinado período de tempo - em vez de um modelo de "distress", em que, apesar da decisão última ser da mulher dentro de um determinado período e dessa decisão não ser penalizada, o aborto continua a ser visto como excepção e alguma espécie de aconselhamento ou mesmo dissuasão são obrigatórios, solução, de resto, comum na Europa. Visto à luz da primeira alternativa, o "Sim" pode aparecer aos eleitores como sendo demasiado extremista e radical, desmobilizando os moderados e reduzindo os votantes - como sucedeu em 1998 - aos "núcleos duros" de cada opção.

Nestas circunstâncias, sabendo como praticamente metade dos portugueses acha que a "vida" começa na concepção - mesmo que não vejam necessariamente essa vida como detentora dos mesmos direitos de uma pessoa humana - ou que a maioria dos portugueses acha que a escolha da mulher não pode ser ilimitada, o "Sim" teria de fazer duas coisas. Uma seria abandonar o discurso da "barriga é minha". Isso foi feito, apesar de tudo, com consideráveis rigor e disciplina. A outra seria tentar persuadir os eleitores - partindo do princípio que tal coisa é possível - que o "day after" de uma vitória do "Sim" não traria necessariamente incerteza, desregulação e radicalismo, mas sim uma solução que, apesar de tudo, poderia aparecer como moderada, de compromisso, e logo de equilíbrio e estável para o futuro. Que, uma vez mais, o poder político não iria usar o referendo apenas para se desresponsabilizar, obtendo uma decisão dos eleitores mas deixando depois o "day after" ao acaso. No passado, o "Não" sempre tomou muita atenção a este aspecto, explicando que, apesar de defender a manutenção da penalização, haveria no "day after" de uma vitória do "Não" um esforço em matéria de planeamento familiar e de apoio social.

António Costa, contudo, quer silêncio absoluto sobre o "day after". Do ponto de vista estrito do resultado do referendo, a decisão parece, à primeira vista, péssima. Mas é possível que António Costa ache que vitória do "Sim" está "no papo", ou que, apesar das dúvidas, é sempre preferível não se comprometer com nada que não saiba se vai querer cumprir. Ele lá saberá.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Amostras voluntárias

Não me passava pela cabeça, inicialmente, escrever sobre este assunto, que é o tipo de coisas que me costumam passar por baixo do radar. Mas começa a ser evidente que muitas pessoas parecem estar persuadidas de que os resultados do "Big Brother Grandes Portugueses" são representativos de alguma coisa. De facto, de alguma coisa serão representativos, mas da opinião da população portuguesa não serão certamente. Vamos lá então à história clássica, já contada mil e uma vezes em aulas de cadeiras de metodologia das ciências sociais ou de estudos de opinião pública:

"The first rule of survey sampling is that respondents cannot select themselves. Self-selection introduces socioeconomic and demographic biases; "man-on-the-street" polls, straw polls, call-ins, and mail-ins all violate this rule. Most online polls are also not scientific in nature and should be taken as entertainment. One example of the impact of poor methodology on poll results is the 1936 Literary Digest poll. 10 million ballots were mailed to households listed in telephone directories or state auto registrations. This introduced significant biases since, in 1936, Republicans were more likely than working class Democrats or Southern farmers to have phones or cars. 2.4 million ballots were returned, but this type of mail-in return allows people to self-select as poll respondents. The problem with self-selection is that people who respond to mail surveys tend to be better educated, have higher incomes, and feel more strongly about the matters dealt with in the questionnaire than the general population. As a result of so many errors, the poll incorrectly predicted that Republican Gov. Alf Landon of Kansas would defeat Democrat Franklin Delano Roosevelt for President. "

Aliás, foi nestas eleições que um jovem chamado George Gallup começou a construir o seu império e mudou a face das sondagens e dos estudos de opinião pública.

Outra história que já nos poderá ser mais familiar é a "vitória" de Santana Lopes no debate com Sócrates na SIC Notícias em Fevereiro de 2005. Como ilustração das virtudes do método, basta.

E isto não é uma "crítica" aos "Grandes Portugueses". Criticar o quê? "Should be taken as entertainment". Nem mais, nem menos.

P.S.- Sobre o assunto, ler Rui Ramos, no Público.

P.P.S. - Certo, certo, mas já agora vale a pena explicar porquê: quando se trata de amostras de populações humanas, o facto de alguém de recusar a fornecer informação faz desde logo com que a informação recolhida provenha de uma amostra auto-seleccionada. Mas a diferença está em que o processo de selecção não é ele próprio enviesado, para além de que se pode recolher alguma informação sobre quem recusou e procurar com ela corrigir os enviesamentos causados pelas não-respostas. Numa amostra de um call-in, tudo, do princípio ao fim, está fora de controlo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Trends 1998/2007


Regressões locais (smoothing) aplicadas à percentagem de votos "Sim" em estimativas de resultados eleitorais.

Sondagem Markest

Divulgada hoje no DN, mas realizada antes da sondagem da Católica divulgada na passada 6ª feira (na ficha técnica - .pdf. - publicada no DN vem 20 de Outubro de 2006, mas é evidentemente um lapso: deverá ser 19 de Janeiro, tal como vem na TSF). Lista actualizada:

terça-feira, janeiro 23, 2007

As sondagens em 1998

As incertezas e contradições que resultam da leitura do quadro apresentado aqui fazem com que, desta vez, antecipe um exercício que costumo deixar para os últimos dias antes das eleições, a saber, a análise das sondagens pré-eleitorais em actos eleitorais anteriores. Fui pescar aos arquivos as sondagens divulgadas pelo Público, Diário de Notícias, Expresso, Independente e Visão nos três meses que antecederam o referendo de 1998 (é possível que me tenha falhado uma ou outra, mas procurei ser exaustivo).

Apresento-as da mesma forma que venho adoptando para as sondagens do referendo de 11 de Fevereiro: excluindo abstencionistas e apresentando apenas intenções directas de voto e estimativas de resultados (sem brancos e nulos). Sempre que um órgão de comunicação não apresentou estimativas, limitei-me a redistribuir indecisos proporcionalmente, para comparar resultados entre si e com resultados eleitorais. Quando essas estimativas foram divulgadas, apresento os resultados tal como foram apresentados na imprensa. As fichas técnicas costumavam ser mais incompletas do que são hoje, mas procurei interpretá-las o melhor que pude para dar a informação metodológica. Recordem-se, por fim, que até 2000 não era possível divulgar sondagens na última semana antes do acto eleitoral.



Lendo artigos recentes na imprensa sobre as sondagens de 1998 e alguns comentários nos blogues, até parece que os resultados do referendo apanharam toda a gente de surpresa. Na época, eu nem estava no país e não acompanhei isto, mas não pode ter sido bem assim.

É verdade que a Euroexpansão (não confundir com a Eurosondagem) dava, a um mês do referendo, nada menos que 86% de intenções de votos válidos para o "Sim". E é também verdade que, a duas semanas do referendo, o Centro de Sondagens da Universidade Moderna dava uma vantagem de 22 pontos para o "Sim" em votos válidos. Mas olhem para as sondagens da Metris em Abril e Maio, para já não falar das duas sondagens realizadas mais perto do dia (Metris e Católica, esta última sem divulgação dos resultados brutos na imprensa). Para quem olhava para isto com olhos de ver, não teria sido preciso muito para perceber que, com a dinâmica de descida do "Sim" evidente na comparação das várias sondagens Metris, SIC/Visão e Católica ao longo do tempo, e com uma mera vantagem de 4 a 5 pontos a mais de uma semana do referendo, o resultado final só podia ser incerto. Hindsight ajuda sempre, claro. Mas se, na altura, alguém tinha certezas sobre a vitória do "Sim", então era porque não tinha pensado muito sobre o assunto.

O que nos diz isto que possa servir para a situação actual? A verdade é que suscita mais dúvidas que certezas. Por um lado, parece evidente que as dificuldades que um referendo - e em particular um referendo num tema como este - coloca à capacidade de descrever e prever intenções de voto (descritas aqui ou aqui, por exemplo) não são inultrapassáveis. Mas por outro lado, diz-nos também que aquilo que a maioria das sondagens está a dizer não é necessariamente o que estará mais próximo da realidade. É possível que os actuais resultados da Eurosondagem vão suscitando algum cepticismo quando confrontados com os obtidos pelos outros institutos, e esse é, confesso, o meu primeiro e imediato instinto (mais sondagens a dizer uma coisa que outra). Mas quem nos diz que esse cepticismo não é igual àquele que foi certamente suscitado pelos resultados que a Metris ia obtendo nos meses de Abril e Maio de 1998?

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Leituras

Muito recomendáveis no momento actual:

1. Um número especial do European Journal of Political Research (volume 41, nº 6) sobre referendos;

2. Lawrence LeDuc, "Referendums and Elections: How do Campaigns Differ?" (.pdf)., um paper que depois veio a aparecer depois, adaptado, neste livro. Duas citações potencialmente interessantes:

"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."

"A second type of dynamic occurs when a referendum on a reasonably well known issue begins to take on a new direction over the course of the campaign. Often this takes place when opposition groups are successful in changing the subject of a referendum, or raising doubts about the issue that is really being discussed. D'Arcy & Laver (1990) documented this type of campaign in their study of the 1986 Irish divorce referendum, coining the term opinion reversal to describe the dynamic. Prior to that campaign, public opinion polls had shown substantial support for a change in the laws governing divorce, and there was initially little organized opposition to the referendum. But the campaign took on an unexpected direction as non-party groups became involved and began to refocus the debate in terms of the rights of women and the integrity of family life. Support for the proposed change in the divorce law declined rapidly. Within a few months after the referendum, however, public opinion polls had returned to a normal reading on the issue of divorce. But the rapid shift in the discourse over a short campaign had been enough to defeat the proposal."

Sondagens referendo despenalização aborto: ponto de situação

O quadro seguinte lista as sondagens publicadas na comunicação social desde Outubro de 2006 sobre intenções de voto no referendo da despenalização do aborto, incluindo a de hoje divulgada no Correio da Manhã.

As discrepâncias existentes no que respeita às estimativas da abstenção divulgadas pela comunicação social - ou melhor, o facto de umas sondagens divulgarem "estimativas" e outras apenas "abstenção declarada" - são de tal modo grandes que, no que respeita à "intenção directa de voto" ou "resultados brutos", decidi excluir a abstenção do total e limito-me apenas a apresentar a forma como as intenções "Sim", "Não" e os "Ns/Nr/Brancos/Nulos" se distribuem numa base de 100%.

Para algumas sondagens - Eurosondagem, por exemplo - isso implicou fazer alguns simples cálculos adicionais, dado que as intenções foram apresentadas de forma separada por dois segmentos: os que dizem que "iriam votar" e os que dizem que "talvez fossem votar". Isso é perfeitamente legítimo, claro, mas o quadro seguinte apresenta a distribuição de todas as intenções de voto recolhidas (independentemente da convicção de votar), para tornar os resultados das diferentes sondagens comparáveis entre si.

Já nos "votos válidos", o quadro apresenta aquilo que cada instituto ou órgão de comunicação social entendeu divulgar como melhor estimativa da distribuição de votos válidos, quando o fez. Mas aqui também, houve institutos que divulgaram apenas intenções directas de voto (incluindo indecisos e outros votos não válidos). Nesses casos - assinalados no quadro com um asterisco*- limitei-me a redistribuir os indecisos proporcionalmente, com o mero fim de tornar, uma vez mais os resultados comparáveis entre si.


Que confusão, não? O "Sim" parece ter perdido algum gás desde Outubro. Mas quanto? Até ao quase empate da Eurosondagem? Ou até à ainda confortável vantagem da Intercampus ou da Aximage?

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Sondagem referendo aborto Eurosondagem

Erosão do voto "Sim" desde Outubro, claro que sim, mas...tanto? Ou será que sim? Nova sondagem, aqui.

Eurosondagem, 16 Janeiro, N=2569, Aleatória, Telefónica

Sim: 44,1%
Não: 39,9%
Branco/Nulo/Ns/Nr: 16,0%

Se não fosse o Oliveira e Costa, esta coisa das sondagens não tinha piada nenhuma...

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Exercícios com os dados de intenção de voto (longo)

Este é um tipo de exercício que nunca costumo fazer. Explicar o comportamento eleitoral é algo que só faz realmente sentido a posteriori, com dados de inquérito que meçam comportamentos dos indivíduos, e não intenções de voto ou de votar. Mas tenho lido muita coisa, especialmente em comentários jornalísticos, sobre quem são os supostos apoiantes do sim, do não, os indecisos e abstencionistas no referendo. Tenho dúvidas sobre o que tenho lido e vale a pena olhar para isto com alguma atenção.

O que fiz foi pegar na base de dados da última sondagem da Católica sobre o referendo (Outubro) e reparti os eleitores em quatro grupos na base das suas intenções de voto declaradas.

1. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Sim" (46%);
2. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Não"(18%);
3. O que não têm a certeza se vão votar, ou dizem que sim mas não sabem como votarão ("Indecisos" - 19%);
4. E os que dizem desde já que não tencionam votar (17%).

O inquérito perguntava também aos inquiridos a sua idade, o grau de instrução, o posicionamento ideológico esquerda-direita, a identificação partidária e se tinham filhos. E tinha informação sobre o sexo de cada um e sobre a dimensão da freguesia onde o inquérito tinha sido feito (para medir, mesmo que superficialmente, a existência de uma clivagem urbano-rural).

Pegando neste informação, corri uma regressão multinomial logística com a intenção de voto como variável dependente, "Sim" como categoria de referência e os factores descritos anteriormente como variáveis independentes. Por outras palavras, a pergunta é: em que aspectos em que os declarados votantes do Não, os indecisos e os declarados abstencionistas se diferenciam significativamente dos votantes do Sim?

A resposta aparece nos quadros seguintes, que os curiosos podem usar para chegarem às suas próprias conclusões (isto foi tudo feito um bocado à pressa e peço desculpa pela apresentação um bocado canhestra; não tive maneira de assinalar os coeficientes estatisticamente significativos, pelo que vão ter de confiar no que vos direi):



O que quer isto dizer em português ? Várias coisas:
1. A dimensão das freguesias onde se vive e ter ou não ter filhos não têm efeitos de qualquer espécie na intenção de voto, assim que se controlam os efeitos das restantes variáveis.
2. O sexo dos inquiridos não ajuda a distinguir os eleitores entre si no que respeita às suas intenções, a não ser numa coisa: a intenção de votar. Por outras palavras, os homens declaravam-se desde já, em Outubro, mais inclinados a abster-se que as mulheres. Mas a diferença não é grande, apesar de ser estatisticamente significativa.
3. Quanto mais instruídos os inquiridos, mais inclinados a votar e menos indecisos. A instrução, contudo, não afecta a intenção de voto dos que a declaram: a distribuição entre "Sim" e "Não" (mais de 2 para 1) é igual nos níveis de instrução mais altos e nos mais baixos. Isto é curioso, dado que a instrução não costuma ter efeitos significativos na abstenção quando medida em estudos pós-eleitorais. Sugere duas coisas: este efeito da instrução está a ser sobrestimado (muitos dos que dizem que agora que vão votar acabam por não ir); ou então (ou também) os referendos são diferentes de outros actos eleitorais, sendo mais exigentes em termos de recursos cognitivos. Há boas razões para supor que as duas coisas são verdade.
4. Os mais velhos (55 ou mais anos) tendem, em comparação com os restantes, a declarar que vão votar "Não" ou que não vão votar de todo. Por outro lado, nos dois outros estratos (18-34 e 35-54), há uma razão de votos previstos "Sim"/"Não" praticamente igual, mas nos estratos mais jovens há mais indecisão.
5.Ideologia: para além de, naturalmente, tenderem mais a escolher o "Não", os indivíduos mais à direita estão também mais indecisos e declaram-se mais abstencionistas que os outros.
6. Religiosidade: quanto mais religiosos admitem ser subjectivamente, mais os eleitores tendem a votar "Não" e, em geral, a declarar já ter uma intenção de voto definida. É entre os que se dizem menos religiosos que há já mais abstenção assumida.
7. Identificação partidária: o que se espera. Em comparação com os "independentes" ou sem simpatias partidárias, os que as têm estão todos mais mobilizados. E no sentido previsível: simpatizantes do BE e do PCP muitíssimo mais inclinados a votarem "Sim", do PS muito mais inclinados a votarem "Sim", PSD algo (pouco) mais inclinados a votarem "Não", do CDS muitíssimo mais inclinados a votarem "Não". Depois venham-me cá dizer que o que se decide em referendos não tem nada a ver com partidos (sobre esta cândida ilusão, vale muito a pena ler isto).
No fim da próxima semana, vou tentar voltar com uma análise semelhante dos dados da próxima sondagem da Católica, a ver se estes padrões se confirmam ou se mudaram.
Mas entretanto, para o futuro, o raciocínio pode ser este: esta abstenção que as sondagens pré-eleitorais medem é inferior àquela que se vai verificar; logo, se queremos ter alguma ideia sobre como os resultados vão evoluir, o jogo pode consistir em pensar em que grupos a participação está a ser mais sobrestimada e, logo, como a sua previsível desmobilização pode afectar os resultados. Deste ponto de vista, há alguns sinais animadores para o "Não". Os mais jovens tendem hoje a dizer-se mobilizados, e mobilizados para o "Sim", mas haverá uma erosão inevitável desta participação. As pessoas que se situam à esquerda também se dizem mais mobilizadas e com tendência clara para o "Sim", mas aqui também deverá haver alguma erosão.
Contudo, para que o "Não" capitalize com isto, tem de evitar a desmobilização no seu próprio campo. Quem fará o trabalho para trazer as pessoas de direita, que se dizem especialmente indecisos e desinclinados a votar, para as eleições ou, pelo menos, evitar a sua desmobilização? O PSD não será certamente. A igreja? Claro. Mas com que efeitos? Os menos religiosos já são os que mais se tencionam abster e, mesmo assim, a margem do "Sim" continua muito grande. Poder-se-á ainda persuadir os mais religiosos que tencionam votar "Sim", que os há. Mas com que efeitos? Esses que se dizem "mais religiosos" são apenas 20% dos eleitores.
Logo, se a distribuição das intenções de voto que as sondagens vêm medindo nestes meses - mais de 2 para 1 a favor do "Sim" - for real, a margem para inverter a relação entre o "Sim" e o "Não" neste referendo é muito limitada.*
Já quanto à abstenção e à "vinculatividade" do referendo, bem, isso é outra conversa...
*Tudo isto, claro, partindo do pressuposto de que já será difícil fazer com que muitas pessoas que têm manifestado uma intenção de voto mudem de opinião, dado que essas intenções, pelos vistos, já se encontram bem ancoradas em factores de longo prazo (religiosidade, identificação partidária, identificação ideológica). O pressuposto - mais um - parece-me razoável, mas pode revelar-se errado, claro.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Bonjour Monsieur Hulot

Não é este, mas sim este. Os Verdes estão em polvorosa e aguarda-se por uma decisão no dia 22. Entretanto, já dá para ver que Hulot (cenários com a sua candidatura, abaixo, a verde) é muito mais atraente para os eleitores que Voynet (que anda pelos 2% de intenção de voto). Aliás, os franceses adoram-no: é a terceira figura pública mais popular, logo a seguir a Zidane e Yannick Noah.




Mas em quem eu votaria, de caras, era mesmo neste.

Já não era mau

BBC Editoral Guidelines

Reporting opinion polls
The following rules for reporting the findings of voting intention polls in the United Kingdom conducted by any polling organisation must be applied:

- we do not lead a news bulletin or programme simply with the results of a voting intention poll.
- we do not headline the results of a voting intention poll unless it has prompted a story which itself deserves a headline and reference to the poll's findings is necessary to make sense of it.
-we do not rely on the interpretation given to a poll's results by the organisation or publication which commissioned it. We should look at the questions, the results and the trend.
- we report the findings of voting intention polls in the context of trend. The trend may consist of the results of all major polls over a period or may be limited to the change in a single pollster's findings. Poll results which defy trends without convincing explanation should be treated with particular care.
- we do not use language which gives greater credibility to the polls than they deserve. We should say polls "suggest" but never "prove" or even "show".
-we report the expected margin of error if the gap between the contenders is within the margin. Television and online graphics should always show the margin of error.
- we report the organisation which carried out the poll and the organisation or publication which commissioned it. This information too should always be shown in television and online graphics.
- we report the dates of the fieldwork, and include them in television and online graphics, and draw attention to events which may have had a significant effect on public opinion since it was done.
- we report whether the poll was carried out face to face, by telephone or over the internet.

Popularidade líderes políticos (Portugal)

A não ser que me tenha escapado alguma coisa, a Marktest não tem feito o seu Barómetro habitual desde Novembro. Ficamos com a Eurosondagem e os resultados divulgados no Expresso no Sábado passado. Os gráficos seguintes mostram a evolução dos saldos de opiniões positivas (% positivas - % negativas) para Sócrates, Cavaco e Marques Mendes na Marktest e na Eurosondagem de Março de 2005 (Sócrates), Abril de 2005 (Mendes) e Março de 2006 (Cavaco) até agora.





sexta-feira, janeiro 12, 2007

Sondagens referendo aborto

Com a da Intercampus, divulgada ontem, e a da Aximage, divulgada hoje, ficamos assim:


(gralha corrigida. Obrigado LA-C)

Esquecendo os resultados das sondagens Aximage e Eurosondagem em Outubro de 2006 (claros outliers em relação aos restantes, incluindo os de outras sondagens conduzidas pelos mesmos centros), é porventura a primeira vez que chega um sinal de que, apesar da vantagem do "Sim" permanecer grande, a relação entre as intenções de voto "Sim" e "Não" está a alterar-se a favor do "Não". Na Aximage, onde é possível fazer a comparação (mesma metodologia em todas as sondagens), os indecisos diminuem em relação ao final de 2006, o "Sim" desce e o "Não" sobe. Não deixa de ser verdade, contudo, que duas sondagens realizadas no mesmo momento mas com metodologias bem distintas - as mais recentes Aximage e Intercampus - dão resultados também diferentes, a segunda mais favorável ao "Sim".

Um aspecto recorrente no tratamento jornalístico dos resultados da sondagem Intercampus é a "contradição" entre os resultados da pergunta do referendo e os de outras perguntas. Há quem fique muito perturbado com o assunto e pressinta graves malfeitorias por detrás deste tipo de coisas. Importa não esquecer, contudo, o seguinte:

- esta "contradição" não é nova. Em duas sondagens anteriores da Católica, apesar de expressivas maiorias se pronunciarem pelo "Sim" ao referendo, as mesmas pessoas mostravam-se mais cépticas quando as questões sobre o aborto eram colocadas de outra forma, ou seja, perguntando-lhes se acham que "o aborto deveria ser legal" em determinadas circunstâncias. Esta sondagem da Intercampus usa questões muito semelhantes (trocando, parece-me, o "legal" pelo "autorizado") e dá resultados onde, mais uma vez, o apoio manifestado desta forma é bastante menor do que o verificado na pergunta tal como será colocada no referendo;

- se uma "contradição" destas se repete sistematicamente, então a "contradição" só deverá estar na nossa cabeça. E assim me parece ser: o estímulo dado pela pergunta do referendo - "despenalização", "10 semanas", "estabelecimento de saúde legalmente autorizado" - é muito diferente do estímulo dado quando se pergunta genericamente se o aborto deve ser "legal" ou "autorizado" nesta ou naquela circunstância. Logo, a resposta terá de ser diferente, e tudo isto só chama a atenção para a complexidade do tema "aborto" e a ambivalência de sentimentos e atitudes que gera entre os cidadãos.

Não me canso de chamar a atenção para as consequências do "enquadramento" do tema para a resposta dos eleitores. Já escrevi sobre o tema aqui.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Sondagem aborto Intercampus

Nova sondagem sobre intenção de voto no referendo de despenalização do aborto, aqui, a primeira até ao momento com simulação de voto em urna.

Sim: 67%
Não 33%

Amanhã o Público deverá trazer mais detalhes e actualizarei o quadro habitual. Mas é fácil constatar, desde já, a consistência com a maioria das sondagens mais recentes, pelo menos no que respeita à distribuição daqueles que indicam uma intenção de voto.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Campanhas

Só para chamar a atenção da argúcia dos movimentos que apoiam o "Não" quando introduzem a questão de "quem paga" neste complicado pacote de temas e dimensões que se formou em torno do referendo do dia 11. Ao fazerem-no, criam uma "no-win situation" para os lados do "Sim": se for o Estado, então "não com os meus impostos"; se for privado, então são "as clínicas espanholas que vêm enriquecer à custa dos abortos". Uma vez mais, vê-se como, em situações como estas, o enquadramento que é dado aos temas é absolutamente central, afectando a opinião pública directa ou, mesmo, indirectamente (levando os oponentes a cometerem erros e a dizerem o que não devem).

Dito isto, também não acho que a "campanha" do "Sim" seja assim tão má como se diz. Pelo menos, parece ter percebido que teria de enfatizar um determinado enquadramento da questão que tinha sido secundarizado em 1998: a do referendo como mera oportunidade para "despenalização". Para o bem ou para o mal, a ideia de "livre escolha das mulheres" (a "barriga é minha") ou as preocupações de saúde pública parecem comover pouca gente, mas o mesmo não sucede com a ideia de colocar mulheres na cadeia por fazerem um aborto. Isto é certo e sabido dos dados de opinião, e só se estranha que tenha demorado tanto tempo a perceber.

O problema do "Sim" talvez seja outro: não parece haver "uma campanha do Sim", mas sim "campanhas", pouco concertadas entre si, deixando uma vez mais aos partidos de esquerda, tal como em 98, a quase totalidade do trabalho e, especialmente, da coordenação, coisa que, precisamente, são incapazes de fazer. Em 98, a coisa terá sido tão difícil que, em vez de coordenação dos partidos existentes, se deu origem a um partido novo (o BE, claro).

Contudo, a principal diferença de 2007 reside nas posições do PS e do PSD, na prática simétricas em relação ao que se passou em 98. Não é diferença pequena. É provavelmente ela que explica a enorme vantagem do Sim em relação ao Não nas sondagens e o facto dessa diferença ter vindo a resistir ao longo do tempo. A posição do PS ligou o"Sim" a uma predisposição de longo-prazo dos eleitores (a identificação partidária), ligação essa que tinha sido diluída em 98. E a não posição do PSD facilita, por parte dos eleitores, a identificação do "Não" como uma posição exclusiva da "Direita", coisa que costuma ser fatal por estas bandas.

Mas isto não diminui a argúcia de quem vem conduzindo a campanha do "Não". E daqui até 11 de Fevereiro ainda corre muita água.