quinta-feira, fevereiro 15, 2007
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Wishful thinking
"Fiquei um pouco intrigado com o teu optimismo sobre as boas práticas relativamente aos eleitores potenciais. Vou ter que reler os jornais para ver o que me escapou. Explicação alternativa que me passou pela cabeça:
- os votantes efectivos foram um retrato do “sentimento” subjacente da população - o que seria óptimo para o SIM, porque reforçaria a legitimidade para continuar apesar de o referendo não ser vinculativo;
- ter havido, no caso presente, uma correlação mais forte do que é normal entre disposição a responder aos inquéritos e disposição a votar."
Pois é. Só me baseio no facto de, conhecendo algums inquéritos feitos, ter notado a existência de baterias de perguntas destinadas a modelar a probabilidade do voto, coisa que sempre achei ter merecido pouca atenção no passado. E de nas eleições de grande abstenção - europeias e referendos - a precisão das sondagens ter vindo a aumentar e o grau de dispersão entre resultados ter vindo a diminuir. Mas a verdade é que este último aspecto se correlaciona também com o facto do trabalho de campo, a partir de 2000, poder ser conduzido até mais tarde. Logo, a verdade é que não tenho realmente elementos que me permitam dizer que, se os resultados da maior parte das sondagens foram o que foram, foi porque quem fez os inquéritos conseguiu distinguir bem entre os votantes prováveis e os outros. Wishful thinking, reconheço.
A vinculatividade dos referendos
Um dos argumentos que já apareceu nessa discussão - e que já tinha aparecido aqui - é o de que a própria pergunta, colocada nestes termos, é meramente formalista, dado que, como temos visto, a vontade maioritária é politicamente interpretada como vinculativa independemente de o ser ou não do ponto de vista formal.
Bem, estou a pensar e a escrever um pouco à pressa, mas acho que temos de ter cuidado aqui. Isso foi verdade nestes três referendos que tivemos. Mas noutros, o problema pode ser politicamente colocado de outra forma. Se até neste referendo da despenalização do aborto, com uma participação que, descontada a abstenção técnica, não deverá ter andado longe dos 50%, há gente (vagamente lunática, admito) capaz de levantar a questão, noutros temas - Constituição Europeia, por exemplo, pelos efeitos vastíssimos que produz a sua aprovação ou reprovação - a questão pode ser colocada de forma muito mais premente, se se entender ser politicamente vantajoso fazê-lo.
Mas agora, note-se: há um detalhe que eu terei ignorado e que pode fazer a diferença. Deixei-me influenciar muito pelo caso italiano nesta reflexão, onde de facto tem havido, por parte dos partidos e da Igreja, uma recorrente actuação estratégica quer no sentido de "ausência de mobilização" quer de verdadeiros apelos à abstenção, em ambos os casos procurando garantir que o resultado não fosse vinculativo.
Esqueci-me, contudo, que o caso italiano é diferente do português num aspecto possivelmente fulcral. Em Portugal, o que é referendado é uma medida susceptível de ser objecto de legislação por parte da AR. Já em Itália, a regra do quórum aplica-se aos referendos do art. 75. E os referendos do art. 75 são os referendos abrogativos, ou seja, aqueles através dos quais os eleitores se pronunciam sobre se uma lei já aprovada deve ser revogada ou alterada ("Sim") ou preservada ("Não"). Logo, a vinculatividade ou a falta dela têm efeitos automáticos independentemente da "intepretação política" que dela se faça: se for Sim vinculativo, a lei é alterada ou revogada; se for Não, vinculativo ou não, ou mesmo um Sim não vinculativo - e é aqui que o jogo da desmobilização tem sido feito - a lei mantém-se em vigor.
Logo, um "Sim" ser ou não vinculativo tem sempre consequências importantes em Itália. Em Portugal, creio, dependerá do tema. Estarei a ver bem a coisa?
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Fadiga eleitoral
Rescaldo
Portugal:
Sim: 59,25%
Não: 40,75%
Continente:
Sim: 60,3%
Não: 39,7%
Apesar de serem provisórios, escusamos de estar com excessivos preciosismos e podemos partir deles para avaliar como correram as sondagens.
1. Pré-eleitorais: seguindo a sugestão deste leitor, os resultados das sondagens pré-eleitorais devem de facto ser comparados com os resultados no Continente e não com os resultados nacionais, dado que o universo destas sondagens é o conjunto dos eleitores no Continente. Noutras eleições isso costuma fazer pouca diferença, mas neste referendo (tal como em 1998) a inclinação forte dos Açores e da Madeira para o "Não", em contraste com o resto do país, fazem com que, apesar de tudo, haja uma diferença de um ponto percentual em relação aos resultados nacionais.
Olhando para o quadro anterior, é fácil perceber que TNSEuroteste, Intercampus e Católica (por esta ordem) foram quem, a uma semana ou pouco menos das eleições, mais se aproximaram daqueles que vieram a ser os resultados finais. Já a Aximage, apesar de, curiosamente, ter um trabalho de campo mais tardio, ficou um pouco mais longe que os outros três institutos. A Eurosondagem mais longe ainda. Andava, aliás, desalinhada dos restantes institutos desde o início, e assim continuou no fim. Compare-se isto com as presidenciais e os desvios na estimação dos resultados de Cavaco Silva ou com as legislativas e os desvios na estimação dos resultados do PS para percebermos como os referendos trazem, apesar de tudo, mais dificuldades do que outras eleições.
2. Sondagens boca das urnas: aqui, a comparação deve ser com os resultados nacionais. Nuns casos porque, verdadeiramente, os institutos de sondagens conduziram trabalho de campo nas regiões. Nos outros porque, mesmo que não haja trabalho de campo nas ilhas, as ditas "projecções" têm sempre ajustamentos de forma a poderem inferir de alguma forma esses resultados e o seu impacto nos resultados nacionais.
Neste caso, foi a Católica que ficou mais perto, mas as diferenças entre os diversos institutos são reduzidas: as projecções estiveram fundamentalmente correctas.
Em resumo: o cepticismo em relação às sondagens eleitorais que davam uma vantagem confortável ao Sim era exagerado. Isto é uma boa notícia: que se consiga fazer sondagens relativamente precisas em eleições com 56% de abstencionistas significa que há boas práticas na estimação dos votantes prováveis.
domingo, fevereiro 11, 2007
sábado, fevereiro 10, 2007
Correcção
"No quadro do seu post "As sondagens de 1998" há um detalhe que talvez não seja muito rigoroso - é que não se pode comparar os valores das sondagens com os resultados nacionais globais: por norma, as sondagens são só feitas em Portugal continental. Ora, no "continente" o resultado não foi "49,1% - Sim; 50,9% - Não", foi mais algo como "50,3% - Sim; 49,7% - Não", o que quer dizer que as sondagens não falharam tanto como isso (pelo menos acertaram no vencedor, no contexto da população estudada)."
O leitor tem razão.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Factores de incerteza
1. Começa por aqui: sondagens realizadas num curto intervalo de tempo chegam a conclusões bastante diferentes sobre a relação de forças entre intenções de voto "Sim" e "Não". É quase certo que, no momento em que foram feitas, se possa dizer que entre os eleitores as intenções em votar "Sim" eram mais numerosas que as intenções em votar "Não". Mas quanto mais numerosas? E acresce a isto a percentagem considerável daqueles que dizem tencionar votar mas que se encontram indecisos (entre 6 e 17%). Nas legislativas de 2005, por exemplo, não passavam, na pior das hipóteses, de 10%.
2. Continua por aqui: reparem, por exemplo, na notável estabilidade das intenções de voto nas legislativas. Vejam como só nas sondagens da última semana essa estabilidade foi quebrada nas presidenciais. E como tudo tem sido diferente e mais volátil neste referendo. Nada disto é inesperado:
"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."
3. Aumenta quando olhamos para isto. Nenhuma sondagem em 1998 foi feita a tempo de tirar uma fotografia que fosse igual àquilo que, vários dias depois, acabou por suceder. Quem nos diz que a dinâmica de 2007 não é semelhante?
Dito isto, não quero que se saia daqui só com dúvidas absolutas. Há, pelo menos, uma afirmação probabilística que se pode fazer na base dos dados disponíveis: as chances de vitória do "Sim" são maiores hoje do que em 1998. A vantagem do "Sim" parece ser maior a menos tempo da eleição do que era em 1998 a mais tempo (não esquecer que as últimas sondagens de 1998 foram realizadas com maior distância do dia do referendo). É altamente provável que a participação eleitoral seja mais elevada o que, em princípio - "em princípio", noto - deverá favorecer o "Sim". Mas certezas? Impossível.
E agora, chega de sondagens. O que conta é o voto.
P.S.- Desculpem todas as "auto-ligações", mas foi para poupar tempo.
As sondagens interpretadas na imprensa
1. Destaque de primeira página no Expresso para os votos válidos no "Sim": 53,1%.
2. Jornal de Notícias: 58% na primeira página, mas em letra pequena. Ênfase na peça à possível desmobilização dos jovens.
3. Público: é quase preciso virar o jornal do avesso para descobrir os 62% e toda a ênfase da peça é na "descida" do Sim e nos factores de incerteza.
Em resumo: independentemente dos resultados das sondagens, a incerteza é grande e ninguém acredita em vantagens confortáveis do "Sim".
Interlúdio
Dispersão
Em 2005 e 2006, as sondagens davam estimativas muito aproximadas para a votação no PS ou em Cavaco. Hoje, 9 pontos separam as estimativas máxima e mínima para o "Sim".
Tendências 2
A interpretação é simples: quando controlamos os efeitos do facto de diferentes sondagens terem sido realizadas por diferentes institutos, a estimativa de votos válidos no "Sim" tem vindo sempre a descer: 65% antes de Janeiro, 61% em Janeiro e 57% em Fevereiro. Esta análise está muito condicionada pelo facto de termos poucos casos (21 sondagens) e do "mix" concreto de institutos que realizaram sondagens em determinados períodos de tempo. Mas é o que se pode (ou o que sei) fazer. Os valores estimados para cada período visam apenas avaliar a existência de tendências estatisticamente significativas. E confirma-se também a Eurosondagem como "outlier", com estimativas significativamente abaixo das dos restantes institutos ao longo do período (o que não significa uma avaliação da precisão de uns ou outros).
Tendências 1
Olhando para os dados em conjunto, continua a ser manifesta uma tendência de "médio prazo" de descida dos votos válidos no "Sim" a partir do início de Janeiro. Mas o declive tornou-se menos acentuado com as últimas sondagens.
As últimas sondagens
Cá vamos nós. Relembrando as regras básicas:
1. Coloco apenas a informação publicada nos jornais ou que se pode inferir directamente dessa informação;
2. Nas "intenções directas de voto", excluo a abstenção declarada ou estimada da base de cálculo, deixando apenas intenções "Sim", "Não", e "Indecisos/Não respostas". Isto sucede porque, nalguns casos, os institutos apresentam valores para a abstenção declarada, enquanto noutros parece evidente que os valores apresentados resultam de uma estimativa que não sei como é feita em cada caso.
3. No caso da sondagem Intercampus, não posso fazer o que descrevo no ponto anterior, porque a peça no Público não apresenta a percentagem daqueles que, entre todos os inquiridos, disseram tencionar votar mas não saber ainda como. É possível que a questão nem tenha sido colocada assim, tendo em conta que no Público se divulgam os resultados das respostas a uma escala sobre "clareza do voto". É possível que esta escala tenha sido usada para ponderar os votos. Mas não sei.
4. A minha informação sobre a sondagem TNS Euroteste foi retirada de um despacho da Lusa e com a ajuda de uma amável jornalista que lá trabalha. Mas vou ainda hoje comprar o Sol - uma estreia - para confirmar.
5. Há quatro casos - Católica, Intercampus, Eurosondagem e TNSEuroteste - em que, para além das intenções directas de voto, são dadas na imprensa estimativas de votos válidos, invariavelmente partindo da pressuposição da abstenção dos indecisos. Apresento essas estimativas. No caso da Aximage, sou eu quem aplica essa pressuposição, com o mero fim analítico de tornar todas as sondagens comparáveis entre si e com os resultados eleitorais.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Últimas sondagens: Aximage
Sim: 52,6%
Não: 41,5%
Indecisos: 5,9%
Se, apenas para o fim de tornar esta sondagem comparável com outras e com resultados eleitorais, redistribuirmos os indecisos proporcionalmente pelas opções válidas, ficamos com 56% para o Sim e 44% para o Não. Em relação à anterior sondagem da Aximage, isto representa uma estabilização das intenções de voto.
Hoje haverá mais duas, pelo menos.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Heresthetics
" 'Democratic political outcomes (...) are an amalgamation that often operates quite personally and unfairly, giving special advantages to smarter or bolder or more powerful or more creative ot simply luckier participants' (Riker 1982, p. 200). The outgrowth of the indeterminacy Riker sees in democratic regimes is a type of political entrepeneurship he labels heresthetic. This is the art of creating successful coalitions by reframing alternatives, so that people are induced or compelled to join without necessarily being persuaded to the leader's point of view."
Linda L. Fowler, recensão de The Art of Political Manipulation
"The classic heresthetic is reducing or increasing dimensionality. Thus, when 'a person expects to lose on some decision, the fundamental heresthetical device is to divide the majority with a new alternative, one that he prefers to the alternative previously expected to win. (...) A pure heresthetic does not shape preferences but structures a situation so that other participants must act in a way that suits the heresthetician's interests even though the former's preferences remain unchanged."
Andrew Taylor, Stanley Baldwin, heresthetics and the realignment of British politics
"Advocates attempt to manipulate preferences in several ways. (...) However, the most frequently attempted manipulation - and the one to which advocates devote most of their creative energy and time - is the formulation and presentation of 'interpretations' of various policy proposals. (...) An 'interpretation' consists on a set of arguments about the consequences of the policy proposal. (...) The aim of each interpretation is to emphasize a dimension of judgement what will lead people to prefer on policy proposal over competing, alternative proposals."
Richard Lau et al, Political Beliefs, Policy Interpretations, and Political Persuasion.