Não me passava pela cabeça, inicialmente, escrever sobre este assunto, que é o tipo de coisas que me costumam passar por baixo do radar. Mas começa a ser evidente que muitas pessoas parecem estar persuadidas de que os resultados do "Big Brother Grandes Portugueses" são representativos de alguma coisa. De facto, de alguma coisa serão representativos, mas da opinião da população portuguesa não serão certamente. Vamos lá então à história clássica, já contada mil e uma vezes em aulas de cadeiras de metodologia das ciências sociais ou de estudos de opinião pública:
"The first rule of survey sampling is that respondents cannot select themselves. Self-selection introduces socioeconomic and demographic biases; "man-on-the-street" polls, straw polls, call-ins, and mail-ins all violate this rule. Most online polls are also not scientific in nature and should be taken as entertainment. One example of the impact of poor methodology on poll results is the 1936 Literary Digest poll. 10 million ballots were mailed to households listed in telephone directories or state auto registrations. This introduced significant biases since, in 1936, Republicans were more likely than working class Democrats or Southern farmers to have phones or cars. 2.4 million ballots were returned, but this type of mail-in return allows people to self-select as poll respondents. The problem with self-selection is that people who respond to mail surveys tend to be better educated, have higher incomes, and feel more strongly about the matters dealt with in the questionnaire than the general population. As a result of so many errors, the poll incorrectly predicted that Republican Gov. Alf Landon of Kansas would defeat Democrat Franklin Delano Roosevelt for President. "
Aliás, foi nestas eleições que um jovem chamado George Gallup começou a construir o seu império e mudou a face das sondagens e dos estudos de opinião pública.
Outra história que já nos poderá ser mais familiar é a "vitória" de Santana Lopes no debate com Sócrates na SIC Notícias em Fevereiro de 2005. Como ilustração das virtudes do método, basta.
E isto não é uma "crítica" aos "Grandes Portugueses". Criticar o quê? "Should be taken as entertainment". Nem mais, nem menos.
P.S.- Sobre o assunto, ler Rui Ramos, no Público.
P.P.S. - Certo, certo, mas já agora vale a pena explicar porquê: quando se trata de amostras de populações humanas, o facto de alguém de recusar a fornecer informação faz desde logo com que a informação recolhida provenha de uma amostra auto-seleccionada. Mas a diferença está em que o processo de selecção não é ele próprio enviesado, para além de que se pode recolher alguma informação sobre quem recusou e procurar com ela corrigir os enviesamentos causados pelas não-respostas. Numa amostra de um call-in, tudo, do princípio ao fim, está fora de controlo.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Trends 1998/2007
Sondagem Markest
Divulgada hoje no DN, mas realizada antes da sondagem da Católica divulgada na passada 6ª feira (na ficha técnica - .pdf. - publicada no DN vem 20 de Outubro de 2006, mas é evidentemente um lapso: deverá ser 19 de Janeiro, tal como vem na TSF). Lista actualizada:
sexta-feira, janeiro 26, 2007
quinta-feira, janeiro 25, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
As sondagens em 1998
As incertezas e contradições que resultam da leitura do quadro apresentado aqui fazem com que, desta vez, antecipe um exercício que costumo deixar para os últimos dias antes das eleições, a saber, a análise das sondagens pré-eleitorais em actos eleitorais anteriores. Fui pescar aos arquivos as sondagens divulgadas pelo Público, Diário de Notícias, Expresso, Independente e Visão nos três meses que antecederam o referendo de 1998 (é possível que me tenha falhado uma ou outra, mas procurei ser exaustivo).
Apresento-as da mesma forma que venho adoptando para as sondagens do referendo de 11 de Fevereiro: excluindo abstencionistas e apresentando apenas intenções directas de voto e estimativas de resultados (sem brancos e nulos). Sempre que um órgão de comunicação não apresentou estimativas, limitei-me a redistribuir indecisos proporcionalmente, para comparar resultados entre si e com resultados eleitorais. Quando essas estimativas foram divulgadas, apresento os resultados tal como foram apresentados na imprensa. As fichas técnicas costumavam ser mais incompletas do que são hoje, mas procurei interpretá-las o melhor que pude para dar a informação metodológica. Recordem-se, por fim, que até 2000 não era possível divulgar sondagens na última semana antes do acto eleitoral.

Lendo artigos recentes na imprensa sobre as sondagens de 1998 e alguns comentários nos blogues, até parece que os resultados do referendo apanharam toda a gente de surpresa. Na época, eu nem estava no país e não acompanhei isto, mas não pode ter sido bem assim.
É verdade que a Euroexpansão (não confundir com a Eurosondagem) dava, a um mês do referendo, nada menos que 86% de intenções de votos válidos para o "Sim". E é também verdade que, a duas semanas do referendo, o Centro de Sondagens da Universidade Moderna dava uma vantagem de 22 pontos para o "Sim" em votos válidos. Mas olhem para as sondagens da Metris em Abril e Maio, para já não falar das duas sondagens realizadas mais perto do dia (Metris e Católica, esta última sem divulgação dos resultados brutos na imprensa). Para quem olhava para isto com olhos de ver, não teria sido preciso muito para perceber que, com a dinâmica de descida do "Sim" evidente na comparação das várias sondagens Metris, SIC/Visão e Católica ao longo do tempo, e com uma mera vantagem de 4 a 5 pontos a mais de uma semana do referendo, o resultado final só podia ser incerto. Hindsight ajuda sempre, claro. Mas se, na altura, alguém tinha certezas sobre a vitória do "Sim", então era porque não tinha pensado muito sobre o assunto.
O que nos diz isto que possa servir para a situação actual? A verdade é que suscita mais dúvidas que certezas. Por um lado, parece evidente que as dificuldades que um referendo - e em particular um referendo num tema como este - coloca à capacidade de descrever e prever intenções de voto (descritas aqui ou aqui, por exemplo) não são inultrapassáveis. Mas por outro lado, diz-nos também que aquilo que a maioria das sondagens está a dizer não é necessariamente o que estará mais próximo da realidade. É possível que os actuais resultados da Eurosondagem vão suscitando algum cepticismo quando confrontados com os obtidos pelos outros institutos, e esse é, confesso, o meu primeiro e imediato instinto (mais sondagens a dizer uma coisa que outra). Mas quem nos diz que esse cepticismo não é igual àquele que foi certamente suscitado pelos resultados que a Metris ia obtendo nos meses de Abril e Maio de 1998?
Apresento-as da mesma forma que venho adoptando para as sondagens do referendo de 11 de Fevereiro: excluindo abstencionistas e apresentando apenas intenções directas de voto e estimativas de resultados (sem brancos e nulos). Sempre que um órgão de comunicação não apresentou estimativas, limitei-me a redistribuir indecisos proporcionalmente, para comparar resultados entre si e com resultados eleitorais. Quando essas estimativas foram divulgadas, apresento os resultados tal como foram apresentados na imprensa. As fichas técnicas costumavam ser mais incompletas do que são hoje, mas procurei interpretá-las o melhor que pude para dar a informação metodológica. Recordem-se, por fim, que até 2000 não era possível divulgar sondagens na última semana antes do acto eleitoral.
Lendo artigos recentes na imprensa sobre as sondagens de 1998 e alguns comentários nos blogues, até parece que os resultados do referendo apanharam toda a gente de surpresa. Na época, eu nem estava no país e não acompanhei isto, mas não pode ter sido bem assim.
É verdade que a Euroexpansão (não confundir com a Eurosondagem) dava, a um mês do referendo, nada menos que 86% de intenções de votos válidos para o "Sim". E é também verdade que, a duas semanas do referendo, o Centro de Sondagens da Universidade Moderna dava uma vantagem de 22 pontos para o "Sim" em votos válidos. Mas olhem para as sondagens da Metris em Abril e Maio, para já não falar das duas sondagens realizadas mais perto do dia (Metris e Católica, esta última sem divulgação dos resultados brutos na imprensa). Para quem olhava para isto com olhos de ver, não teria sido preciso muito para perceber que, com a dinâmica de descida do "Sim" evidente na comparação das várias sondagens Metris, SIC/Visão e Católica ao longo do tempo, e com uma mera vantagem de 4 a 5 pontos a mais de uma semana do referendo, o resultado final só podia ser incerto. Hindsight ajuda sempre, claro. Mas se, na altura, alguém tinha certezas sobre a vitória do "Sim", então era porque não tinha pensado muito sobre o assunto.
O que nos diz isto que possa servir para a situação actual? A verdade é que suscita mais dúvidas que certezas. Por um lado, parece evidente que as dificuldades que um referendo - e em particular um referendo num tema como este - coloca à capacidade de descrever e prever intenções de voto (descritas aqui ou aqui, por exemplo) não são inultrapassáveis. Mas por outro lado, diz-nos também que aquilo que a maioria das sondagens está a dizer não é necessariamente o que estará mais próximo da realidade. É possível que os actuais resultados da Eurosondagem vão suscitando algum cepticismo quando confrontados com os obtidos pelos outros institutos, e esse é, confesso, o meu primeiro e imediato instinto (mais sondagens a dizer uma coisa que outra). Mas quem nos diz que esse cepticismo não é igual àquele que foi certamente suscitado pelos resultados que a Metris ia obtendo nos meses de Abril e Maio de 1998?
segunda-feira, janeiro 22, 2007
Leituras
Muito recomendáveis no momento actual:
1. Um número especial do European Journal of Political Research (volume 41, nº 6) sobre referendos;
2. Lawrence LeDuc, "Referendums and Elections: How do Campaigns Differ?" (.pdf)., um paper que depois veio a aparecer depois, adaptado, neste livro. Duas citações potencialmente interessantes:
"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."
"A second type of dynamic occurs when a referendum on a reasonably well known issue begins to take on a new direction over the course of the campaign. Often this takes place when opposition groups are successful in changing the subject of a referendum, or raising doubts about the issue that is really being discussed. D'Arcy & Laver (1990) documented this type of campaign in their study of the 1986 Irish divorce referendum, coining the term opinion reversal to describe the dynamic. Prior to that campaign, public opinion polls had shown substantial support for a change in the laws governing divorce, and there was initially little organized opposition to the referendum. But the campaign took on an unexpected direction as non-party groups became involved and began to refocus the debate in terms of the rights of women and the integrity of family life. Support for the proposed change in the divorce law declined rapidly. Within a few months after the referendum, however, public opinion polls had returned to a normal reading on the issue of divorce. But the rapid shift in the discourse over a short campaign had been enough to defeat the proposal."
1. Um número especial do European Journal of Political Research (volume 41, nº 6) sobre referendos;
2. Lawrence LeDuc, "Referendums and Elections: How do Campaigns Differ?" (.pdf)., um paper que depois veio a aparecer depois, adaptado, neste livro. Duas citações potencialmente interessantes:
"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."
"A second type of dynamic occurs when a referendum on a reasonably well known issue begins to take on a new direction over the course of the campaign. Often this takes place when opposition groups are successful in changing the subject of a referendum, or raising doubts about the issue that is really being discussed. D'Arcy & Laver (1990) documented this type of campaign in their study of the 1986 Irish divorce referendum, coining the term opinion reversal to describe the dynamic. Prior to that campaign, public opinion polls had shown substantial support for a change in the laws governing divorce, and there was initially little organized opposition to the referendum. But the campaign took on an unexpected direction as non-party groups became involved and began to refocus the debate in terms of the rights of women and the integrity of family life. Support for the proposed change in the divorce law declined rapidly. Within a few months after the referendum, however, public opinion polls had returned to a normal reading on the issue of divorce. But the rapid shift in the discourse over a short campaign had been enough to defeat the proposal."
Sondagens referendo despenalização aborto: ponto de situação
O quadro seguinte lista as sondagens publicadas na comunicação social desde Outubro de 2006 sobre intenções de voto no referendo da despenalização do aborto, incluindo a de hoje divulgada no Correio da Manhã.
Que confusão, não? O "Sim" parece ter perdido algum gás desde Outubro. Mas quanto? Até ao quase empate da Eurosondagem? Ou até à ainda confortável vantagem da Intercampus ou da Aximage?
As discrepâncias existentes no que respeita às estimativas da abstenção divulgadas pela comunicação social - ou melhor, o facto de umas sondagens divulgarem "estimativas" e outras apenas "abstenção declarada" - são de tal modo grandes que, no que respeita à "intenção directa de voto" ou "resultados brutos", decidi excluir a abstenção do total e limito-me apenas a apresentar a forma como as intenções "Sim", "Não" e os "Ns/Nr/Brancos/Nulos" se distribuem numa base de 100%.
Para algumas sondagens - Eurosondagem, por exemplo - isso implicou fazer alguns simples cálculos adicionais, dado que as intenções foram apresentadas de forma separada por dois segmentos: os que dizem que "iriam votar" e os que dizem que "talvez fossem votar". Isso é perfeitamente legítimo, claro, mas o quadro seguinte apresenta a distribuição de todas as intenções de voto recolhidas (independentemente da convicção de votar), para tornar os resultados das diferentes sondagens comparáveis entre si.
Já nos "votos válidos", o quadro apresenta aquilo que cada instituto ou órgão de comunicação social entendeu divulgar como melhor estimativa da distribuição de votos válidos, quando o fez. Mas aqui também, houve institutos que divulgaram apenas intenções directas de voto (incluindo indecisos e outros votos não válidos). Nesses casos - assinalados no quadro com um asterisco*- limitei-me a redistribuir os indecisos proporcionalmente, com o mero fim de tornar, uma vez mais os resultados comparáveis entre si.
Que confusão, não? O "Sim" parece ter perdido algum gás desde Outubro. Mas quanto? Até ao quase empate da Eurosondagem? Ou até à ainda confortável vantagem da Intercampus ou da Aximage?
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Sondagem referendo aborto Eurosondagem
Erosão do voto "Sim" desde Outubro, claro que sim, mas...tanto? Ou será que sim? Nova sondagem, aqui.
Eurosondagem, 16 Janeiro, N=2569, Aleatória, Telefónica
Sim: 44,1%
Não: 39,9%
Branco/Nulo/Ns/Nr: 16,0%
Se não fosse o Oliveira e Costa, esta coisa das sondagens não tinha piada nenhuma...
Eurosondagem, 16 Janeiro, N=2569, Aleatória, Telefónica
Sim: 44,1%
Não: 39,9%
Branco/Nulo/Ns/Nr: 16,0%
Se não fosse o Oliveira e Costa, esta coisa das sondagens não tinha piada nenhuma...
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Exercícios com os dados de intenção de voto (longo)
Este é um tipo de exercício que nunca costumo fazer. Explicar o comportamento eleitoral é algo que só faz realmente sentido a posteriori, com dados de inquérito que meçam comportamentos dos indivíduos, e não intenções de voto ou de votar. Mas tenho lido muita coisa, especialmente em comentários jornalísticos, sobre quem são os supostos apoiantes do sim, do não, os indecisos e abstencionistas no referendo. Tenho dúvidas sobre o que tenho lido e vale a pena olhar para isto com alguma atenção.
O que fiz foi pegar na base de dados da última sondagem da Católica sobre o referendo (Outubro) e reparti os eleitores em quatro grupos na base das suas intenções de voto declaradas.
1. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Sim" (46%);
2. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Não"(18%);
3. O que não têm a certeza se vão votar, ou dizem que sim mas não sabem como votarão ("Indecisos" - 19%);
4. E os que dizem desde já que não tencionam votar (17%).
O inquérito perguntava também aos inquiridos a sua idade, o grau de instrução, o posicionamento ideológico esquerda-direita, a identificação partidária e se tinham filhos. E tinha informação sobre o sexo de cada um e sobre a dimensão da freguesia onde o inquérito tinha sido feito (para medir, mesmo que superficialmente, a existência de uma clivagem urbano-rural).


O que fiz foi pegar na base de dados da última sondagem da Católica sobre o referendo (Outubro) e reparti os eleitores em quatro grupos na base das suas intenções de voto declaradas.
1. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Sim" (46%);
2. Os que dizem ter a certeza que vão votar e que vão votar "Não"(18%);
3. O que não têm a certeza se vão votar, ou dizem que sim mas não sabem como votarão ("Indecisos" - 19%);
4. E os que dizem desde já que não tencionam votar (17%).
O inquérito perguntava também aos inquiridos a sua idade, o grau de instrução, o posicionamento ideológico esquerda-direita, a identificação partidária e se tinham filhos. E tinha informação sobre o sexo de cada um e sobre a dimensão da freguesia onde o inquérito tinha sido feito (para medir, mesmo que superficialmente, a existência de uma clivagem urbano-rural).
Pegando neste informação, corri uma regressão multinomial logística com a intenção de voto como variável dependente, "Sim" como categoria de referência e os factores descritos anteriormente como variáveis independentes. Por outras palavras, a pergunta é: em que aspectos em que os declarados votantes do Não, os indecisos e os declarados abstencionistas se diferenciam significativamente dos votantes do Sim?
A resposta aparece nos quadros seguintes, que os curiosos podem usar para chegarem às suas próprias conclusões (isto foi tudo feito um bocado à pressa e peço desculpa pela apresentação um bocado canhestra; não tive maneira de assinalar os coeficientes estatisticamente significativos, pelo que vão ter de confiar no que vos direi):
O que quer isto dizer em português ? Várias coisas:
1. A dimensão das freguesias onde se vive e ter ou não ter filhos não têm efeitos de qualquer espécie na intenção de voto, assim que se controlam os efeitos das restantes variáveis.
2. O sexo dos inquiridos não ajuda a distinguir os eleitores entre si no que respeita às suas intenções, a não ser numa coisa: a intenção de votar. Por outras palavras, os homens declaravam-se desde já, em Outubro, mais inclinados a abster-se que as mulheres. Mas a diferença não é grande, apesar de ser estatisticamente significativa.
3. Quanto mais instruídos os inquiridos, mais inclinados a votar e menos indecisos. A instrução, contudo, não afecta a intenção de voto dos que a declaram: a distribuição entre "Sim" e "Não" (mais de 2 para 1) é igual nos níveis de instrução mais altos e nos mais baixos. Isto é curioso, dado que a instrução não costuma ter efeitos significativos na abstenção quando medida em estudos pós-eleitorais. Sugere duas coisas: este efeito da instrução está a ser sobrestimado (muitos dos que dizem que agora que vão votar acabam por não ir); ou então (ou também) os referendos são diferentes de outros actos eleitorais, sendo mais exigentes em termos de recursos cognitivos. Há boas razões para supor que as duas coisas são verdade.
4. Os mais velhos (55 ou mais anos) tendem, em comparação com os restantes, a declarar que vão votar "Não" ou que não vão votar de todo. Por outro lado, nos dois outros estratos (18-34 e 35-54), há uma razão de votos previstos "Sim"/"Não" praticamente igual, mas nos estratos mais jovens há mais indecisão.
5.Ideologia: para além de, naturalmente, tenderem mais a escolher o "Não", os indivíduos mais à direita estão também mais indecisos e declaram-se mais abstencionistas que os outros.
6. Religiosidade: quanto mais religiosos admitem ser subjectivamente, mais os eleitores tendem a votar "Não" e, em geral, a declarar já ter uma intenção de voto definida. É entre os que se dizem menos religiosos que há já mais abstenção assumida.
7. Identificação partidária: o que se espera. Em comparação com os "independentes" ou sem simpatias partidárias, os que as têm estão todos mais mobilizados. E no sentido previsível: simpatizantes do BE e do PCP muitíssimo mais inclinados a votarem "Sim", do PS muito mais inclinados a votarem "Sim", PSD algo (pouco) mais inclinados a votarem "Não", do CDS muitíssimo mais inclinados a votarem "Não". Depois venham-me cá dizer que o que se decide em referendos não tem nada a ver com partidos (sobre esta cândida ilusão, vale muito a pena ler isto).
No fim da próxima semana, vou tentar voltar com uma análise semelhante dos dados da próxima sondagem da Católica, a ver se estes padrões se confirmam ou se mudaram.
Mas entretanto, para o futuro, o raciocínio pode ser este: esta abstenção que as sondagens pré-eleitorais medem é inferior àquela que se vai verificar; logo, se queremos ter alguma ideia sobre como os resultados vão evoluir, o jogo pode consistir em pensar em que grupos a participação está a ser mais sobrestimada e, logo, como a sua previsível desmobilização pode afectar os resultados. Deste ponto de vista, há alguns sinais animadores para o "Não". Os mais jovens tendem hoje a dizer-se mobilizados, e mobilizados para o "Sim", mas haverá uma erosão inevitável desta participação. As pessoas que se situam à esquerda também se dizem mais mobilizadas e com tendência clara para o "Sim", mas aqui também deverá haver alguma erosão.
Contudo, para que o "Não" capitalize com isto, tem de evitar a desmobilização no seu próprio campo. Quem fará o trabalho para trazer as pessoas de direita, que se dizem especialmente indecisos e desinclinados a votar, para as eleições ou, pelo menos, evitar a sua desmobilização? O PSD não será certamente. A igreja? Claro. Mas com que efeitos? Os menos religiosos já são os que mais se tencionam abster e, mesmo assim, a margem do "Sim" continua muito grande. Poder-se-á ainda persuadir os mais religiosos que tencionam votar "Sim", que os há. Mas com que efeitos? Esses que se dizem "mais religiosos" são apenas 20% dos eleitores.
Logo, se a distribuição das intenções de voto que as sondagens vêm medindo nestes meses - mais de 2 para 1 a favor do "Sim" - for real, a margem para inverter a relação entre o "Sim" e o "Não" neste referendo é muito limitada.*
Já quanto à abstenção e à "vinculatividade" do referendo, bem, isso é outra conversa...
*Tudo isto, claro, partindo do pressuposto de que já será difícil fazer com que muitas pessoas que têm manifestado uma intenção de voto mudem de opinião, dado que essas intenções, pelos vistos, já se encontram bem ancoradas em factores de longo prazo (religiosidade, identificação partidária, identificação ideológica). O pressuposto - mais um - parece-me razoável, mas pode revelar-se errado, claro.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Bonjour Monsieur Hulot
Não é este, mas sim este. Os Verdes estão em polvorosa e aguarda-se por uma decisão no dia 22. Entretanto, já dá para ver que Hulot (cenários com a sua candidatura, abaixo, a verde) é muito mais atraente para os eleitores que Voynet (que anda pelos 2% de intenção de voto). Aliás, os franceses adoram-no: é a terceira figura pública mais popular, logo a seguir a Zidane e Yannick Noah.

Mas em quem eu votaria, de caras, era mesmo neste.
Mas em quem eu votaria, de caras, era mesmo neste.
Já não era mau
BBC Editoral Guidelines
Reporting opinion polls
The following rules for reporting the findings of voting intention polls in the United Kingdom conducted by any polling organisation must be applied:
- we do not lead a news bulletin or programme simply with the results of a voting intention poll.
- we do not headline the results of a voting intention poll unless it has prompted a story which itself deserves a headline and reference to the poll's findings is necessary to make sense of it.
-we do not rely on the interpretation given to a poll's results by the organisation or publication which commissioned it. We should look at the questions, the results and the trend.
- we report the findings of voting intention polls in the context of trend. The trend may consist of the results of all major polls over a period or may be limited to the change in a single pollster's findings. Poll results which defy trends without convincing explanation should be treated with particular care.
- we do not use language which gives greater credibility to the polls than they deserve. We should say polls "suggest" but never "prove" or even "show".
-we report the expected margin of error if the gap between the contenders is within the margin. Television and online graphics should always show the margin of error.
- we report the organisation which carried out the poll and the organisation or publication which commissioned it. This information too should always be shown in television and online graphics.
- we report the dates of the fieldwork, and include them in television and online graphics, and draw attention to events which may have had a significant effect on public opinion since it was done.
- we report whether the poll was carried out face to face, by telephone or over the internet.
Reporting opinion polls
The following rules for reporting the findings of voting intention polls in the United Kingdom conducted by any polling organisation must be applied:
- we do not lead a news bulletin or programme simply with the results of a voting intention poll.
- we do not headline the results of a voting intention poll unless it has prompted a story which itself deserves a headline and reference to the poll's findings is necessary to make sense of it.
-we do not rely on the interpretation given to a poll's results by the organisation or publication which commissioned it. We should look at the questions, the results and the trend.
- we report the findings of voting intention polls in the context of trend. The trend may consist of the results of all major polls over a period or may be limited to the change in a single pollster's findings. Poll results which defy trends without convincing explanation should be treated with particular care.
- we do not use language which gives greater credibility to the polls than they deserve. We should say polls "suggest" but never "prove" or even "show".
-we report the expected margin of error if the gap between the contenders is within the margin. Television and online graphics should always show the margin of error.
- we report the organisation which carried out the poll and the organisation or publication which commissioned it. This information too should always be shown in television and online graphics.
- we report the dates of the fieldwork, and include them in television and online graphics, and draw attention to events which may have had a significant effect on public opinion since it was done.
- we report whether the poll was carried out face to face, by telephone or over the internet.
Popularidade líderes políticos (Portugal)
A não ser que me tenha escapado alguma coisa, a Marktest não tem feito o seu Barómetro habitual desde Novembro. Ficamos com a Eurosondagem e os resultados divulgados no Expresso no Sábado passado. Os gráficos seguintes mostram a evolução dos saldos de opiniões positivas (% positivas - % negativas) para Sócrates, Cavaco e Marques Mendes na Marktest e na Eurosondagem de Março de 2005 (Sócrates), Abril de 2005 (Mendes) e Março de 2006 (Cavaco) até agora.

sexta-feira, janeiro 12, 2007
Sondagens referendo aborto
Com a da Intercampus, divulgada ontem, e a da Aximage, divulgada hoje, ficamos assim:

(gralha corrigida. Obrigado LA-C)
Esquecendo os resultados das sondagens Aximage e Eurosondagem em Outubro de 2006 (claros outliers em relação aos restantes, incluindo os de outras sondagens conduzidas pelos mesmos centros), é porventura a primeira vez que chega um sinal de que, apesar da vantagem do "Sim" permanecer grande, a relação entre as intenções de voto "Sim" e "Não" está a alterar-se a favor do "Não". Na Aximage, onde é possível fazer a comparação (mesma metodologia em todas as sondagens), os indecisos diminuem em relação ao final de 2006, o "Sim" desce e o "Não" sobe. Não deixa de ser verdade, contudo, que duas sondagens realizadas no mesmo momento mas com metodologias bem distintas - as mais recentes Aximage e Intercampus - dão resultados também diferentes, a segunda mais favorável ao "Sim".
Um aspecto recorrente no tratamento jornalístico dos resultados da sondagem Intercampus é a "contradição" entre os resultados da pergunta do referendo e os de outras perguntas. Há quem fique muito perturbado com o assunto e pressinta graves malfeitorias por detrás deste tipo de coisas. Importa não esquecer, contudo, o seguinte:
- esta "contradição" não é nova. Em duas sondagens anteriores da Católica, apesar de expressivas maiorias se pronunciarem pelo "Sim" ao referendo, as mesmas pessoas mostravam-se mais cépticas quando as questões sobre o aborto eram colocadas de outra forma, ou seja, perguntando-lhes se acham que "o aborto deveria ser legal" em determinadas circunstâncias. Esta sondagem da Intercampus usa questões muito semelhantes (trocando, parece-me, o "legal" pelo "autorizado") e dá resultados onde, mais uma vez, o apoio manifestado desta forma é bastante menor do que o verificado na pergunta tal como será colocada no referendo;
- se uma "contradição" destas se repete sistematicamente, então a "contradição" só deverá estar na nossa cabeça. E assim me parece ser: o estímulo dado pela pergunta do referendo - "despenalização", "10 semanas", "estabelecimento de saúde legalmente autorizado" - é muito diferente do estímulo dado quando se pergunta genericamente se o aborto deve ser "legal" ou "autorizado" nesta ou naquela circunstância. Logo, a resposta terá de ser diferente, e tudo isto só chama a atenção para a complexidade do tema "aborto" e a ambivalência de sentimentos e atitudes que gera entre os cidadãos.
Não me canso de chamar a atenção para as consequências do "enquadramento" do tema para a resposta dos eleitores. Já escrevi sobre o tema aqui.
(gralha corrigida. Obrigado LA-C)
Esquecendo os resultados das sondagens Aximage e Eurosondagem em Outubro de 2006 (claros outliers em relação aos restantes, incluindo os de outras sondagens conduzidas pelos mesmos centros), é porventura a primeira vez que chega um sinal de que, apesar da vantagem do "Sim" permanecer grande, a relação entre as intenções de voto "Sim" e "Não" está a alterar-se a favor do "Não". Na Aximage, onde é possível fazer a comparação (mesma metodologia em todas as sondagens), os indecisos diminuem em relação ao final de 2006, o "Sim" desce e o "Não" sobe. Não deixa de ser verdade, contudo, que duas sondagens realizadas no mesmo momento mas com metodologias bem distintas - as mais recentes Aximage e Intercampus - dão resultados também diferentes, a segunda mais favorável ao "Sim".
Um aspecto recorrente no tratamento jornalístico dos resultados da sondagem Intercampus é a "contradição" entre os resultados da pergunta do referendo e os de outras perguntas. Há quem fique muito perturbado com o assunto e pressinta graves malfeitorias por detrás deste tipo de coisas. Importa não esquecer, contudo, o seguinte:
- esta "contradição" não é nova. Em duas sondagens anteriores da Católica, apesar de expressivas maiorias se pronunciarem pelo "Sim" ao referendo, as mesmas pessoas mostravam-se mais cépticas quando as questões sobre o aborto eram colocadas de outra forma, ou seja, perguntando-lhes se acham que "o aborto deveria ser legal" em determinadas circunstâncias. Esta sondagem da Intercampus usa questões muito semelhantes (trocando, parece-me, o "legal" pelo "autorizado") e dá resultados onde, mais uma vez, o apoio manifestado desta forma é bastante menor do que o verificado na pergunta tal como será colocada no referendo;
- se uma "contradição" destas se repete sistematicamente, então a "contradição" só deverá estar na nossa cabeça. E assim me parece ser: o estímulo dado pela pergunta do referendo - "despenalização", "10 semanas", "estabelecimento de saúde legalmente autorizado" - é muito diferente do estímulo dado quando se pergunta genericamente se o aborto deve ser "legal" ou "autorizado" nesta ou naquela circunstância. Logo, a resposta terá de ser diferente, e tudo isto só chama a atenção para a complexidade do tema "aborto" e a ambivalência de sentimentos e atitudes que gera entre os cidadãos.
Não me canso de chamar a atenção para as consequências do "enquadramento" do tema para a resposta dos eleitores. Já escrevi sobre o tema aqui.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Sondagem aborto Intercampus
Nova sondagem sobre intenção de voto no referendo de despenalização do aborto, aqui, a primeira até ao momento com simulação de voto em urna.
Sim: 67%
Não 33%
Amanhã o Público deverá trazer mais detalhes e actualizarei o quadro habitual. Mas é fácil constatar, desde já, a consistência com a maioria das sondagens mais recentes, pelo menos no que respeita à distribuição daqueles que indicam uma intenção de voto.
Sim: 67%
Não 33%
Amanhã o Público deverá trazer mais detalhes e actualizarei o quadro habitual. Mas é fácil constatar, desde já, a consistência com a maioria das sondagens mais recentes, pelo menos no que respeita à distribuição daqueles que indicam uma intenção de voto.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Campanhas
Só para chamar a atenção da argúcia dos movimentos que apoiam o "Não" quando introduzem a questão de "quem paga" neste complicado pacote de temas e dimensões que se formou em torno do referendo do dia 11. Ao fazerem-no, criam uma "no-win situation" para os lados do "Sim": se for o Estado, então "não com os meus impostos"; se for privado, então são "as clínicas espanholas que vêm enriquecer à custa dos abortos". Uma vez mais, vê-se como, em situações como estas, o enquadramento que é dado aos temas é absolutamente central, afectando a opinião pública directa ou, mesmo, indirectamente (levando os oponentes a cometerem erros e a dizerem o que não devem).
Dito isto, também não acho que a "campanha" do "Sim" seja assim tão má como se diz. Pelo menos, parece ter percebido que teria de enfatizar um determinado enquadramento da questão que tinha sido secundarizado em 1998: a do referendo como mera oportunidade para "despenalização". Para o bem ou para o mal, a ideia de "livre escolha das mulheres" (a "barriga é minha") ou as preocupações de saúde pública parecem comover pouca gente, mas o mesmo não sucede com a ideia de colocar mulheres na cadeia por fazerem um aborto. Isto é certo e sabido dos dados de opinião, e só se estranha que tenha demorado tanto tempo a perceber.
O problema do "Sim" talvez seja outro: não parece haver "uma campanha do Sim", mas sim "campanhas", pouco concertadas entre si, deixando uma vez mais aos partidos de esquerda, tal como em 98, a quase totalidade do trabalho e, especialmente, da coordenação, coisa que, precisamente, são incapazes de fazer. Em 98, a coisa terá sido tão difícil que, em vez de coordenação dos partidos existentes, se deu origem a um partido novo (o BE, claro).
Contudo, a principal diferença de 2007 reside nas posições do PS e do PSD, na prática simétricas em relação ao que se passou em 98. Não é diferença pequena. É provavelmente ela que explica a enorme vantagem do Sim em relação ao Não nas sondagens e o facto dessa diferença ter vindo a resistir ao longo do tempo. A posição do PS ligou o"Sim" a uma predisposição de longo-prazo dos eleitores (a identificação partidária), ligação essa que tinha sido diluída em 98. E a não posição do PSD facilita, por parte dos eleitores, a identificação do "Não" como uma posição exclusiva da "Direita", coisa que costuma ser fatal por estas bandas.
Mas isto não diminui a argúcia de quem vem conduzindo a campanha do "Não". E daqui até 11 de Fevereiro ainda corre muita água.
Dito isto, também não acho que a "campanha" do "Sim" seja assim tão má como se diz. Pelo menos, parece ter percebido que teria de enfatizar um determinado enquadramento da questão que tinha sido secundarizado em 1998: a do referendo como mera oportunidade para "despenalização". Para o bem ou para o mal, a ideia de "livre escolha das mulheres" (a "barriga é minha") ou as preocupações de saúde pública parecem comover pouca gente, mas o mesmo não sucede com a ideia de colocar mulheres na cadeia por fazerem um aborto. Isto é certo e sabido dos dados de opinião, e só se estranha que tenha demorado tanto tempo a perceber.
O problema do "Sim" talvez seja outro: não parece haver "uma campanha do Sim", mas sim "campanhas", pouco concertadas entre si, deixando uma vez mais aos partidos de esquerda, tal como em 98, a quase totalidade do trabalho e, especialmente, da coordenação, coisa que, precisamente, são incapazes de fazer. Em 98, a coisa terá sido tão difícil que, em vez de coordenação dos partidos existentes, se deu origem a um partido novo (o BE, claro).
Contudo, a principal diferença de 2007 reside nas posições do PS e do PSD, na prática simétricas em relação ao que se passou em 98. Não é diferença pequena. É provavelmente ela que explica a enorme vantagem do Sim em relação ao Não nas sondagens e o facto dessa diferença ter vindo a resistir ao longo do tempo. A posição do PS ligou o"Sim" a uma predisposição de longo-prazo dos eleitores (a identificação partidária), ligação essa que tinha sido diluída em 98. E a não posição do PSD facilita, por parte dos eleitores, a identificação do "Não" como uma posição exclusiva da "Direita", coisa que costuma ser fatal por estas bandas.
Mas isto não diminui a argúcia de quem vem conduzindo a campanha do "Não". E daqui até 11 de Fevereiro ainda corre muita água.
Obrigado
Ao Insurgente e ao Kontratempos, dois dos poucos blogues que tenho tempo para pôr aqui, especialmente ao segundo por me fazer ver, mesmo que involuntariamente, que o título que tenho dado aos posts que fogem ao tema do blogue ("off topic") deveria ter sido desde o início, claro, "outlier". Burro.
Presidenciais 2008
A não perder, os vários posts do Political Arithmetik sobre as opiniões dos americanos sobre os possíveis candidatos para 2008 e a informação do The Fix sobre o que se vai passando nas "máquinas" das diferentes candidaturas. Os Democratas com o dilema habitual: os únicos candidatos viáveis com apoio junto das bases são os que geram opiniões mais polarizadas entre a população. Os Republicanos com um dilema simétrico: os candidatos com maiores chances a nível nacional - McCain e Giuliani - são os que geram mais urticária actual (McCain) e potencial (Giuliani) junto das bases mais conservadoras do partido.
Off topic: a guerra da imaginação
O que fazer quando todos os factos contrariam as nossas teorias? Capitular? Nunca. A solução é torná-las invulneráveis aos factos. Fazer com que sejam "infalsificáveis", formulando-as de tal modo que se tornem insusceptíveis de serem refutadas (ou confirmadas) pelos dados da realidade.
Rui Ramos, discutindo a invasão do Iraque, fornece-nos hoje no Público uma amostra deste tipo de estratégia argumentativa: "Um presidente Gore, acolitado por Lieberman (tão "falcão" como Cheney) teria feito o mesmo [que a administração Bush]". E eis-nos assim transportados para um mundo alternativo, visitável apenas com as asas da imaginação, invulnerável a qualquer confronto com o mundo real.
Contudo, essa invulnerabilidade é só aparente. Apesar de nunca podermos vir a observar se uma presidência Gore agiria da mesma forma que uma presidência Bush, sabemos qual é premissa na base da qual Rui Ramos chega a essa conclusão: a de que "os EUA tinham esgotado o saco de truques para contar Saddam", ou seja, a de que a invasão era inevitável. Rui Ramos vende-nos isto como um axioma (o "óbvio", suponho, quanto há uma semana nada o era). Mas era precisamente isto que merecia demonstração empírica, em vez de ser apresentado como uma "verdade auto-evidente". E não é, claro, como qualquer ser humano que tenha lido algum relato sobre o processo de inspecções ou sobre o processo de tomada de decisão no interior da administração Bush (mesmo as que não descrevem a invasão com antipatia) facilmente poderia constatar. E é aqui que um artigo erudito e elegante, como sempre, revela aquilo que o torna absolutamente inútil: o seu total - e aparentemente consentido ou mesmo deliberado - divórcio da realidade.
Inútil e, num certo sentido, nocivo: afinal, como se pode ler num artigo de Mark Danner publicado na penúltima NYRB e que dá o título a este post, foi este divórcio da realidade, antes, durante e depois da invasão, que produziu o desastre que já ninguém consegue evitar reconhecer.
Rui Ramos, discutindo a invasão do Iraque, fornece-nos hoje no Público uma amostra deste tipo de estratégia argumentativa: "Um presidente Gore, acolitado por Lieberman (tão "falcão" como Cheney) teria feito o mesmo [que a administração Bush]". E eis-nos assim transportados para um mundo alternativo, visitável apenas com as asas da imaginação, invulnerável a qualquer confronto com o mundo real.
Contudo, essa invulnerabilidade é só aparente. Apesar de nunca podermos vir a observar se uma presidência Gore agiria da mesma forma que uma presidência Bush, sabemos qual é premissa na base da qual Rui Ramos chega a essa conclusão: a de que "os EUA tinham esgotado o saco de truques para contar Saddam", ou seja, a de que a invasão era inevitável. Rui Ramos vende-nos isto como um axioma (o "óbvio", suponho, quanto há uma semana nada o era). Mas era precisamente isto que merecia demonstração empírica, em vez de ser apresentado como uma "verdade auto-evidente". E não é, claro, como qualquer ser humano que tenha lido algum relato sobre o processo de inspecções ou sobre o processo de tomada de decisão no interior da administração Bush (mesmo as que não descrevem a invasão com antipatia) facilmente poderia constatar. E é aqui que um artigo erudito e elegante, como sempre, revela aquilo que o torna absolutamente inútil: o seu total - e aparentemente consentido ou mesmo deliberado - divórcio da realidade.
Inútil e, num certo sentido, nocivo: afinal, como se pode ler num artigo de Mark Danner publicado na penúltima NYRB e que dá o título a este post, foi este divórcio da realidade, antes, durante e depois da invasão, que produziu o desastre que já ninguém consegue evitar reconhecer.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Jogo perigoso
É inevitável que o PP, em Espanha, critique o PSOE pela sua postura em relação à ETA, especialmente as hesitações entre "suspender" e "pôr fim" ao processo negocial, procurando assim, naturalmente, recolher benefícios políticos. Mas o jogo tem de ser jogado com muita cautela:
Metrocopia/ABC, 3 Jan. 2007, N=605, Telefónica
Devem o PSOE e o PP trabalhar em conjunto para alcançar a paz no País Basco?
Sim: 90%
No: 10%
Como avalia o desempenho de José Luis Rodríguez Zapatero e de Mariano Rajoy depois do ataque da ETA?
Zapatero:
Bom:22%
Médio: 38%
Mau: 30%
Rajoy:
Bom:13%
Médio: 32%
Mau: 42%
Metrocopia/ABC, 3 Jan. 2007, N=605, Telefónica
Devem o PSOE e o PP trabalhar em conjunto para alcançar a paz no País Basco?
Sim: 90%
No: 10%
Como avalia o desempenho de José Luis Rodríguez Zapatero e de Mariano Rajoy depois do ataque da ETA?
Zapatero:
Bom:22%
Médio: 38%
Mau: 30%
Rajoy:
Bom:13%
Médio: 32%
Mau: 42%
segunda-feira, janeiro 08, 2007
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Ségo-Sarko
Agora que muitas investiduras tiveram lugar e que Sarkozy apresentou a sua declaração de candidatura, Dezembro parece bom momento para começar a acompanhar as intenções de voto para as presidenciais francesas. Não que as sondagens realizadas ao longo de 2006 tenham dito coisas muito diferentes daquilo que as de Dezembro dizem: Ségo e Sarko estão lado a lado, com pequenas variações de instituto para instituto.

E este ano vamos salvar muitas árvores e poupar muita tinta a propósito de temas como a "subida da extrema-direita", o fenómeno "Frente Nacional" e o Angst habitual sobre tudo o que sucede em França: não haverá surpresa Le Pen. O que não impede, pelo contrário, análises interessantes sobre o eleitorado da Frente Nacional. Ver, por exemplo, esta entrevista com Nonna Mayer, do CEVIPOF, que desfaz alguns mitos sobre o assunto.
E a propósito desta entrevista, veja-se como os sites dos institutos de sondagens franceses são um manancial de informação onde os fanáticos destes temas se podem entreter ininterruptamente daqui até ao dia das eleições. Particularmente interessantes são os seguintes dossiês:
1. BVA: os temas chave da campanha;
2. A síntese de fim de ano de Pierre Giacometti, director da IPSOS;
3. Todo o site especial da TNS-Sofres dedicado às presidenciais;
4. O Barómetro Político Francês do CEVIPOF.
Voltarei com mais calma a alguns dos resultados destes estudos.
E este ano vamos salvar muitas árvores e poupar muita tinta a propósito de temas como a "subida da extrema-direita", o fenómeno "Frente Nacional" e o Angst habitual sobre tudo o que sucede em França: não haverá surpresa Le Pen. O que não impede, pelo contrário, análises interessantes sobre o eleitorado da Frente Nacional. Ver, por exemplo, esta entrevista com Nonna Mayer, do CEVIPOF, que desfaz alguns mitos sobre o assunto.
E a propósito desta entrevista, veja-se como os sites dos institutos de sondagens franceses são um manancial de informação onde os fanáticos destes temas se podem entreter ininterruptamente daqui até ao dia das eleições. Particularmente interessantes são os seguintes dossiês:
1. BVA: os temas chave da campanha;
2. A síntese de fim de ano de Pierre Giacometti, director da IPSOS;
3. Todo o site especial da TNS-Sofres dedicado às presidenciais;
4. O Barómetro Político Francês do CEVIPOF.
Voltarei com mais calma a alguns dos resultados destes estudos.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Referendo: mais uma
Da Aximage, hoje, no Correio da Manhã:
Sem mudanças significativas.
Duas notas para fanáticos:
1. A ficha técnica de hoje explica que a amostragem foi aleatória e estratificada por região, habitat, sexo, idade, instrução e voto legislativo. Normalmente, sem outra explicação, isso significaria que, na verdade, foi aleatória na selecção de domicílios e por quotas na selecção de inquiridos. Mas depois explica-se na ficha publicada no jornal que houve "reequilibragem" da amostra para garantir proporcionalidade pelas variáveis de estratificação. Isso já deve significar que foi de facto aleatória na selecção de inquiridos e que, na base de informação obtida dos inquiridos e de informação conhecida acerca do universo, os resultados foram ponderados, corrigindo distorções na amostra em termos de sexo, idade, instrução e comportamento de voto passado. Mudo, portanto, de "quotas" para "aleatória" na coluna "amostragem". É até possível que tenha sido sempre assim, mas não detectei esse ponto em fichas anteriores.
2. A notícia do Correio da Manhã incide muito sobre o tema da abstenção: 43,2% nesta sondagem. "Abstenção ameaça 'sim', escreve-se. Mas, esperando que os responsáveis da Aximage não se aborreçam outra vez comigo, o leitor interessado gostaria de ter, mesmo sem grandes detalhes, uma explicação genérica sobre como se chega a este valor. Resultará ele das respostas de inquiridos que dizem abertamente tencionar não votar, mesmo após ponderação? Duvidoso: valores desta ordem não surgem nem em sondagens pós-eleitorais, quanto mais em sondagens de intenção de voto. Logo, deverá resultar de uma inferência, de uma extrapolação. Mas qual, como, e na base de quê? Eu tenho os meus palpites, mas isso não serve de nada.
Iraque
Iraq Centre for Research and Strategic Studies/Gulf Research Center, N=2000v (apenas Bagdade, Anbar e Najaf), Novembro 2006, Face-a-face.
Do you feel the situation in the country is better today or better before the U.S.-led invasion?
Better today: 5%
Better before: 90%
Not sure: 5%
Notar que o universo não é a população iraquiana, mas sim das três cidades assinaladas. Ver aqui uma breve discussão sobre as dificuldades em fazer sondagens em locais como o Iraque. Mas notar também, por outro lado, que o ICRSS é dirigido por Saadoun al Duleimi, nem mais nem menos que o Ministro da Defesa no actual governo iraquiano.
Do you feel the situation in the country is better today or better before the U.S.-led invasion?
Better today: 5%
Better before: 90%
Not sure: 5%
Notar que o universo não é a população iraquiana, mas sim das três cidades assinaladas. Ver aqui uma breve discussão sobre as dificuldades em fazer sondagens em locais como o Iraque. Mas notar também, por outro lado, que o ICRSS é dirigido por Saadoun al Duleimi, nem mais nem menos que o Ministro da Defesa no actual governo iraquiano.
terça-feira, janeiro 02, 2007
Leituras
Um número triplo extraordinário da Critical Review que não vai ser esquecido tão cedo por todos os que se interessam pelos temas da opinião pública. Estão lá muitos dos que contam nesta área: Althaus, Graber, Hardin, Lupia, Kinder, Popkin e até o velhinho Converse.
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Grande Rússia (e saudades da Pequena e da Branca)
Public Opinion Foundation, Dez. 9-10, N=1500, Face-a-face
Leonid Brezhnev ruled the country for 18 years, from 1964 to 1982. Would you rate Brezhnev’s rule as good or bad for the country?
Good: 61%
Bad: 17%
Hard to answer: 22%
All-Russian Public Opinion Research, Dez.16-17, N=1600, Face-a-face
Who was Russia’s politician of the year?
Vladimir Putin: 76%
Vladimir Zhirinovsky: 13%
Dmitry Medvedev: 12%
Leonid Brezhnev ruled the country for 18 years, from 1964 to 1982. Would you rate Brezhnev’s rule as good or bad for the country?
Good: 61%
Bad: 17%
Hard to answer: 22%
All-Russian Public Opinion Research, Dez.16-17, N=1600, Face-a-face
Who was Russia’s politician of the year?
Vladimir Putin: 76%
Vladimir Zhirinovsky: 13%
Dmitry Medvedev: 12%
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Merry As You Like It
Estados Unidos, FOX News/Opinion Dynamics Poll, Nov. 29-30, 2005. N=900, Telefónica
Around this time of year, there is talk about whether holiday decorations on public property should include a nativity scene. Some say nativity scenes should not be on public property because this violates the separation of church and state. Others say it is acceptable for nativity scenes to be on public property because they are part of the historical celebration of Christmas. What is your view? Should nativity scenes be allowed on public property, or not?
Allowed: 83%
Not Allowed12%
Unsure:5%
Are you offended by stores that instruct employees not to say 'Merry Christmas' and make it a policy to specifically not use the words 'Merry Christmas' in advertising and promotions?
Yes:45%
No: 49%
Unsure: 6%
Around this time of year, there is talk about whether holiday decorations on public property should include a nativity scene. Some say nativity scenes should not be on public property because this violates the separation of church and state. Others say it is acceptable for nativity scenes to be on public property because they are part of the historical celebration of Christmas. What is your view? Should nativity scenes be allowed on public property, or not?
Allowed: 83%
Not Allowed12%
Unsure:5%
Are you offended by stores that instruct employees not to say 'Merry Christmas' and make it a policy to specifically not use the words 'Merry Christmas' in advertising and promotions?
Yes:45%
No: 49%
Unsure: 6%
Merry Christmas
Estados Unidos, Princeton Survey Research Associates, N= 1,009, Dez-2-4, 2004,Telefónica
Now, regardless of your own religious beliefs, we'd like your views on Jesus. Do you think Jesus Christ ever actually lived, or not?
Did: 93%
Did Not: 3%
Unsure: 4%
Now I have a few questions about the Bible. Do you believe that every word of the Bible is literally accurate -- that the events it describes actually happened, or not?
Yes, Believe: 55%
No, Do Not Believe: 38%
Unsure: 7%
Which of these two positions do you most agree with?
The entire story of Christmas—the Virgin Birth, the angelic proclamation to the shepherds, the Star of Bethlehem and the Wise Men from the East—is historically accurate: 67%
The story of Christmas is a theological invention written to affirm faith in Jesus Christ: 24%
DK/NA: 9%
Now, regardless of your own religious beliefs, we'd like your views on Jesus. Do you think Jesus Christ ever actually lived, or not?
Did: 93%
Did Not: 3%
Unsure: 4%
Now I have a few questions about the Bible. Do you believe that every word of the Bible is literally accurate -- that the events it describes actually happened, or not?
Yes, Believe: 55%
No, Do Not Believe: 38%
Unsure: 7%
Which of these two positions do you most agree with?
The entire story of Christmas—the Virgin Birth, the angelic proclamation to the shepherds, the Star of Bethlehem and the Wise Men from the East—is historically accurate: 67%
The story of Christmas is a theological invention written to affirm faith in Jesus Christ: 24%
DK/NA: 9%
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Chile e Pinochet
Observo, perplexo, esta espécie de polémica sobre se Pinochet foi ou não bom para a humanidade em geral e o Chile em particular. A maioria dos chilenos, provavelmente, também ficaria espantada:
As a dictator:82%
As a good leader:18%
Simples, não? Se não, o Pedro Lomba no DN de Sábado passado explica.
Chile, Centro de Encuestas La Tercera, 14-15 de Dezembro, N=564, Telefónica.
Was Augusto Pinochet personally responsible for human rights violations?
Completely or mostly responsible: 69%
Somewhat or not responsible: 31%
Completely or mostly responsible: 69%
Somewhat or not responsible: 31%
Do you think Pinochet’s government was important for Chile to reach its current economic development?
Yes: 63%
No: 39%
Yes: 63%
No: 39%
Qual es el aspecto que tiene más importancia en la trayectoria de Pinochet, al hacer un juicio sobre él y su gobierno?
Las violaciones a los derechos humanos : 56%
El nuevo modelo económico que introdujo en Chile: 24%
El golpe de Estado que terminó con el gobierno de Allende: 20%
Centro de Estudios de la Realidade Contemporánea, 27-Jul-6 Ago., Face-a-face, N=1200
How do you think Augusto Pinochet will be remembered?As a dictator:82%
As a good leader:18%
Simples, não? Se não, o Pedro Lomba no DN de Sábado passado explica.
Sondagem referendo aborto
Esta, da Aximage, tinha-me passado despercebida. Actualizo agora o quadro. A anterior discrepância entre os resultados da Aximage e os da Marktest, Católica ou Intercampus desaparece.
domingo, dezembro 17, 2006
O estudo para a APF, 2
Os inquéritos por questionário visam por vezes medir atitudes e comportamentos que os inquiridos têm dificuldades em admitir, especialmente quando essas atitudes e comportamentos são potencialmente sujeitos a censura social ou moral. É o caso quando se colocam questões sobre a abstenção (vista por muitos como "dever cívico"), o consumo de drogas, a violência doméstica, práticas sexuais, evasão fiscal ou o aborto, só para dar alguns exemplos. William Foddy, no livro Constructing Questions for Interviews and Questionnaires (traduzido e editado em português pela Celta como Como Perguntar?) tem um capítulo inteiro dedicado ao assunto.
Era isto que, à partida, me interessava saber sobre o estudo feito para a APF. Lendo o relatório, verifica-se que foram tomadas duas principais medidas para lidar com o assunto. Por um lado, para inquirir presencialmente as 2000 mulheres entre os 18 e os 49 anos seleccionadas aleatoriamente para fazerem parte da amostra, foram apenas utilizadas entrevistadoras (e não entrevistadores). A pressuposição é que, num tema como este, mulheres se sentirão mais à vontade respondendo a mulheres. A segunda medida, segundo o relatório, foi a de aplicar todo o bloco de perguntas sobre "práticas de aborto" em sistema de auto-preenchimento, ou seja, preservando o anonimato também perante as próprias entrevistadoras.
Nunca se sabe se isto é suficiente, mas alguma coisa se fez, e quase tudo o resto que se pode fazer tem mais a ver com a formação dos entrevistadores e a confiança que conseguem transmitir aos entrevistados. Seja como for, há algo que é praticamente certo: a percentagem estimada neste estudo para as mulheres entre os 18 e os 49 anos que já fizeram um aborto não espontâneo (14,5%) deverá estar a subestimar os valores reais. Não é que não haja factores que também podem levar à sobrestimação: as mulheres mais dispostas a responder a estas perguntas poderão, eventualmente, tender a partilhar valores que, também eles, mais as predispõem a ter feito uma IVG. Mas os factores no sentido contrário - o da subestimação - tendem a ser muito mais fortes. Só para dar um exemplo, um estudo de 2001 realizado em New Jersey, onde se confrontaram os resultados de um inquérito por questionário com os registos médicos de mulheres cobertas pelo Medicaid, mostra que apenas 29% dos abortos efectivamente realizados foram reportados nas respostas aos inquéritos. Não estou a dizer que a subestimação, neste inquérito em Portugal, será da mesma ordem: as diferenças do contexto são tão grandes que essa inferência é impossível. Mas há muitas razões que nos fazem supor que a subestimação exista (cf. artigo e referências citadas). O que, por sua vez, obriga a alguma cautela quando se afirma que a maior parte das IVG's têm lugar até às 10 semanas: há razões para pensar que o "underreporting" seja maior quando o aborto acontece mais tarde...
Quanto ao resto, seria realmente bom que o estudo fosse disponibilizado de forma a que todos lhe pudessem ter acesso. Para além do interesse substantivo dos resultados, há várias coisas a discutir: a selecção da amostra (que tem apenas explicação sumária no relatório); a opção de restringir o universo a mulheres com 18 anos ou mais (por que não ter começado aos 15, como é prática comum em estudos semelhantes?), o facto de não se distinguir claramente as IVG's realizadas ao abrigo da lei vigente das restantes; etc.
Era isto que, à partida, me interessava saber sobre o estudo feito para a APF. Lendo o relatório, verifica-se que foram tomadas duas principais medidas para lidar com o assunto. Por um lado, para inquirir presencialmente as 2000 mulheres entre os 18 e os 49 anos seleccionadas aleatoriamente para fazerem parte da amostra, foram apenas utilizadas entrevistadoras (e não entrevistadores). A pressuposição é que, num tema como este, mulheres se sentirão mais à vontade respondendo a mulheres. A segunda medida, segundo o relatório, foi a de aplicar todo o bloco de perguntas sobre "práticas de aborto" em sistema de auto-preenchimento, ou seja, preservando o anonimato também perante as próprias entrevistadoras.
Nunca se sabe se isto é suficiente, mas alguma coisa se fez, e quase tudo o resto que se pode fazer tem mais a ver com a formação dos entrevistadores e a confiança que conseguem transmitir aos entrevistados. Seja como for, há algo que é praticamente certo: a percentagem estimada neste estudo para as mulheres entre os 18 e os 49 anos que já fizeram um aborto não espontâneo (14,5%) deverá estar a subestimar os valores reais. Não é que não haja factores que também podem levar à sobrestimação: as mulheres mais dispostas a responder a estas perguntas poderão, eventualmente, tender a partilhar valores que, também eles, mais as predispõem a ter feito uma IVG. Mas os factores no sentido contrário - o da subestimação - tendem a ser muito mais fortes. Só para dar um exemplo, um estudo de 2001 realizado em New Jersey, onde se confrontaram os resultados de um inquérito por questionário com os registos médicos de mulheres cobertas pelo Medicaid, mostra que apenas 29% dos abortos efectivamente realizados foram reportados nas respostas aos inquéritos. Não estou a dizer que a subestimação, neste inquérito em Portugal, será da mesma ordem: as diferenças do contexto são tão grandes que essa inferência é impossível. Mas há muitas razões que nos fazem supor que a subestimação exista (cf. artigo e referências citadas). O que, por sua vez, obriga a alguma cautela quando se afirma que a maior parte das IVG's têm lugar até às 10 semanas: há razões para pensar que o "underreporting" seja maior quando o aborto acontece mais tarde...
Quanto ao resto, seria realmente bom que o estudo fosse disponibilizado de forma a que todos lhe pudessem ter acesso. Para além do interesse substantivo dos resultados, há várias coisas a discutir: a selecção da amostra (que tem apenas explicação sumária no relatório); a opção de restringir o universo a mulheres com 18 anos ou mais (por que não ter começado aos 15, como é prática comum em estudos semelhantes?), o facto de não se distinguir claramente as IVG's realizadas ao abrigo da lei vigente das restantes; etc.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
O estudo da APF (aditado)
Era muito bom que o relatório do estudo encomendado pela Associação para o Planeamento da Família sobre o aborto em Portugal fosse colocado online. Fui ao site da APF e só encontro o programa da sessão onde foi apresentado (.pdf). Pelas notícias de jornal, para além de alguns dos resultados, sabemos que foi um inquérito por questionário, aplicado a 2000 mulheres, pela empresa Consulmark. Segundo o DN, o estudo também incide sobre as intenções de voto das mulheres no referendo de Fevereiro. Quer isto dizer que as 2.000 mulheres inquiridas no estudo eram todas eleitoras, ou seja, com 18 anos ou mais? Ou que as intenções de voto foram obtidas junto de uma sub-amostra? Estas e muitas outras questões. Em resumo, era bom saber mais.
P.S.- Entretanto, amavelmente, já mo fizeram chegar. Comento em breve, se houver comentários úteis a fazer.
P.S.- Entretanto, amavelmente, já mo fizeram chegar. Comento em breve, se houver comentários úteis a fazer.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Jagshemash
Borat existe mesmo, mas não é no Cazaquistão:
Poll: One-third of Ukrainians don't want Jews
(via Fruits and Votes)
Poll: One-third of Ukrainians don't want Jews
(via Fruits and Votes)
Sondagem da Católica para "Não Obrigada"
Paulo Pinto Mascarenhas menciona os dados de uma sondagem que a Universidade Católica conduziu no final de Setembro para a plataforma "Não Obrigada". Na verdade, os resultados não são surpreendentes. Basta comparar com outra sondagem, com semelhante metodologia de amostragem e inquirição, que foi feita também pela Católica, apenas 15 dias depois. Ao contrário do que sucedeu com a sondagem para a RTP/RDP e Público, não fui eu o técnico responsável pela coordenação do trabalho para a "Não Obrigada", apesar dos inquéritos terem, nalguns casos, questões muito semelhantes, o que se deve ao facto de ambos se terem parcialmente baseado num estudo anterior da Católica, por sua vez parcialmente inspirado em exemplos internacionais.
Os resultados divulgados pela "Não Obrigada", e a comparação com a sondagem realizada posteriormente:
Sondagem "Não Obrigada":
"O aborto devia ser permitido quando a mãe ou a família não têm meios para sustentar a criança". Sim: 33%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"O aborto devia ser legal quando a mãe ou a família não têm meios para sustentar a criança". Sim: 34%
Sondagem "Não Obrigada":
"O aborto devia ser permitido quando a mulher não quer ter o filho". Sim: 32%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"O aborto devia ser legal quando a mãe não deseja ter o filho" Sim: 29%
Os resultados apresentados pela "Não Obrigada" em relação a uma questão adicional já não são directamente comparáveis, dado que os menus de opções de resposta fornecidos eram ligeiramente diferentes: a sondagem para a "Não Obrigada" introduzia a opção "Desde o momento em que bate o coração", ao passo que a sondagem RTP/RDP/Público introduzia uma opção "Não tenho opinião formada sobre o assunto". Mas mesmo assim, aqui ficam os dados.
Sondagem "Não Obrigada":
"Em sua opinião, quando é que começa a vida humana?"
Desde o momento da concepção: 54%
Desde o momento em que há actividade cerebral no feto:7%
Desde o momento em que o feto tem possibilidade de sobreviver fora da barriga da mãe: 7%
Desde o momento do nascimento: 15%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"Na sua opinião, quando é que se pode dizer que começa uma vida humana?"
A partir do momento da concepção: 48%
A partir do momento em que há actividade cerebral:15%
A partir do momento em que há possibilidade de sobreviver fora da barriga da mãe: 8%
A partir do momento do nascimento: 8%
Uma nota final: apesar das semelhanças nos resultados, leio e releio a formulação das perguntas e das opções de resposta e reforço uma conclusão a que já tinha chegado há muito tempo: nos inquéritos, não há perguntas "neutras". Nunca. Por muito que seja o esforço em evitar enviesamentos óbvios, todas introduzem estímulos diferentes, com potenciais efeitos nos resultados (efeitos esses, contudo, cuja existência real e dimensão são muito difíceis de apurar, devido a todas as outras fontes de erro associadas a uma sondagem). E obviamente, o mesmo sucede quanto à formulação das perguntas colocadas em referendos...
Os resultados divulgados pela "Não Obrigada", e a comparação com a sondagem realizada posteriormente:
Sondagem "Não Obrigada":
"O aborto devia ser permitido quando a mãe ou a família não têm meios para sustentar a criança". Sim: 33%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"O aborto devia ser legal quando a mãe ou a família não têm meios para sustentar a criança". Sim: 34%
Sondagem "Não Obrigada":
"O aborto devia ser permitido quando a mulher não quer ter o filho". Sim: 32%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"O aborto devia ser legal quando a mãe não deseja ter o filho" Sim: 29%
Os resultados apresentados pela "Não Obrigada" em relação a uma questão adicional já não são directamente comparáveis, dado que os menus de opções de resposta fornecidos eram ligeiramente diferentes: a sondagem para a "Não Obrigada" introduzia a opção "Desde o momento em que bate o coração", ao passo que a sondagem RTP/RDP/Público introduzia uma opção "Não tenho opinião formada sobre o assunto". Mas mesmo assim, aqui ficam os dados.
Sondagem "Não Obrigada":
"Em sua opinião, quando é que começa a vida humana?"
Desde o momento da concepção: 54%
Desde o momento em que há actividade cerebral no feto:7%
Desde o momento em que o feto tem possibilidade de sobreviver fora da barriga da mãe: 7%
Desde o momento do nascimento: 15%
Sondagem RTP/RDP/Público:
"Na sua opinião, quando é que se pode dizer que começa uma vida humana?"
A partir do momento da concepção: 48%
A partir do momento em que há actividade cerebral:15%
A partir do momento em que há possibilidade de sobreviver fora da barriga da mãe: 8%
A partir do momento do nascimento: 8%
Uma nota final: apesar das semelhanças nos resultados, leio e releio a formulação das perguntas e das opções de resposta e reforço uma conclusão a que já tinha chegado há muito tempo: nos inquéritos, não há perguntas "neutras". Nunca. Por muito que seja o esforço em evitar enviesamentos óbvios, todas introduzem estímulos diferentes, com potenciais efeitos nos resultados (efeitos esses, contudo, cuja existência real e dimensão são muito difíceis de apurar, devido a todas as outras fontes de erro associadas a uma sondagem). E obviamente, o mesmo sucede quanto à formulação das perguntas colocadas em referendos...
terça-feira, dezembro 12, 2006
Iraque: fim de ciclo
Estados Unidos, Rasmussen, N=1000, Dez. 2-3, Telefone
The Iraq Study Group is expected to recommend removing almost all U.S. combat troops from Iraq by early 2008. Do you favour or oppose this proposal?
Favour: 64%
Oppose: 22%
DK/NA:4%
Estados Unidos, Knowledge Networks, N=1326, Nov. 21-29, Internet poll (representativa)
Do you think the U.S. military presence in Iraq is currently:
A stabilizing force: 35%
Provoking more conflict than it is preventing: 60%
No answer: 5%
To try to address the problem of stabilizing Iraq, there is a debate about whether to work with Iraq’s neighboring countries with whom we have other disputes. Do you think it is a good idea or bad idea for the US to have talks with Iran?
Good idea: 75%
Bad idea: 21%
No Answer: 4%
What about having such talks with Syria?
Good idea:75%
Bad idea: 19%
No Answer: 6%
Do you think the US should or should not have permanent military bases in Iraq?
Should:27%
Should not:68%
No Answer: 5%
The Iraq Study Group is expected to recommend removing almost all U.S. combat troops from Iraq by early 2008. Do you favour or oppose this proposal?
Favour: 64%
Oppose: 22%
DK/NA:4%
Estados Unidos, Knowledge Networks, N=1326, Nov. 21-29, Internet poll (representativa)
Do you think the U.S. military presence in Iraq is currently:
A stabilizing force: 35%
Provoking more conflict than it is preventing: 60%
No answer: 5%
To try to address the problem of stabilizing Iraq, there is a debate about whether to work with Iraq’s neighboring countries with whom we have other disputes. Do you think it is a good idea or bad idea for the US to have talks with Iran?
Good idea: 75%
Bad idea: 21%
No Answer: 4%
What about having such talks with Syria?
Good idea:75%
Bad idea: 19%
No Answer: 6%
Do you think the US should or should not have permanent military bases in Iraq?
Should:27%
Should not:68%
No Answer: 5%
Discurso eleitoral
Como é que os políticos fazem discursos na noite eleitoral?
"Tendo em conta a conhecida aversão dos portugueses aos números, assim como a concorrência desleal de blogues que usam despudoradamente a imagem e as mais modernas técnicas de propaganda para influenciar os eleitores, este nosso resultado - um segundo lugar - só pode ser visto como uma inequívoca, retumbante e arrasadora vitória eleitoral. Queria agradecer desde já às nossas bases, que demonstraram enorme dedicação e exemplar sentido cívico em circunstâncias adversas, etc."
Agora a sério: fico muito contente. Obrigado aos organizadores e a quem votou.
"Tendo em conta a conhecida aversão dos portugueses aos números, assim como a concorrência desleal de blogues que usam despudoradamente a imagem e as mais modernas técnicas de propaganda para influenciar os eleitores, este nosso resultado - um segundo lugar - só pode ser visto como uma inequívoca, retumbante e arrasadora vitória eleitoral. Queria agradecer desde já às nossas bases, que demonstraram enorme dedicação e exemplar sentido cívico em circunstâncias adversas, etc."
Agora a sério: fico muito contente. Obrigado aos organizadores e a quem votou.
sexta-feira, dezembro 01, 2006
quinta-feira, novembro 30, 2006
Votações e enviesamentos cognitivos
Desde já se adverte que o facto de, nesta votação, isto aparecer, da última vez que vi, à frente disto na lista dos melhores blogues temáticos, não tem qualquer fundamento racional, e só poderá ser uma consequência dos seguintes enviesamentos cognitivos:
1. Efeito de primazia, causado pela primeira votação ;
2. Efeito bandwagon, suscitado após as consequências do efeito de primazia, reforçando-o.
O conteúdo deste post é, por sua vez, explicado por um terceiro tipo de enviesamento cognitivo.
1. Efeito de primazia, causado pela primeira votação ;
2. Efeito bandwagon, suscitado após as consequências do efeito de primazia, reforçando-o.
O conteúdo deste post é, por sua vez, explicado por um terceiro tipo de enviesamento cognitivo.
Sondagem referendo aborto
Mais uma, da Marktest. O texto não esclarece se a pergunta sobre intenção de voto foi apenas colocada àqueles que disseram tencionar votar (73%), mas é provável que assim tenha sido.

Continua a "clivagem" entre os resultados da Católica, da Intercampus e da Marktest, por um lado, e aqueles obtidos pela Aximage e pela Eurosondagem, por outro. Nestas condições, "tendências" é coisa sobre a qual nem vale a pena perder muito tempo, a não ser para dizer o óbvio: diminuição do "Sim" e aumento do "Não" na sondagem Marktest, mas demasiado pequenas para podermos daí inferir a existência de uma mudança real.

Continua a "clivagem" entre os resultados da Católica, da Intercampus e da Marktest, por um lado, e aqueles obtidos pela Aximage e pela Eurosondagem, por outro. Nestas condições, "tendências" é coisa sobre a qual nem vale a pena perder muito tempo, a não ser para dizer o óbvio: diminuição do "Sim" e aumento do "Não" na sondagem Marktest, mas demasiado pequenas para podermos daí inferir a existência de uma mudança real.
quarta-feira, novembro 29, 2006
Mais Turquia
O Eurobarómetro 64, realizado há um ano, dá uma boa ideia dos sentimentos dos europeus em relação à entrada da Turquia na União Europeia. 55% dos Europeus são contra. A rejeição é mais elevada na Áustria, na Alemanha e em França, para cima de 70%. Isto é especialmente importante porque, como se dizia no Guardian a propósito de um estudo anterior, "France and Austria are due to hold referendums on Turkish membership once the accession talks end in about 10 years, all but guaranteeing that Turkey will be blocked if the current climate prevails."
É também por saberem isso que os turcos estão cada vez mais indispostos "connosco", como se vê neste relatório (.pdf). E como não? Para quê apoiar todas as reformas pedidas pela UE, algumas delas tocando nos receios de perda de identidade nacional e em temas que beliscam o nacionalismo turco, se, no final, os políticos europeus se escudarão por detrás dos referendos para deixar a Turquia de fora? O crescimento do cepticismo é perfeitamente racional.
É por tudo isto que a posição do Papa é tão importante. Afinal, até o Papa pode mudar de ideias...
É também por saberem isso que os turcos estão cada vez mais indispostos "connosco", como se vê neste relatório (.pdf). E como não? Para quê apoiar todas as reformas pedidas pela UE, algumas delas tocando nos receios de perda de identidade nacional e em temas que beliscam o nacionalismo turco, se, no final, os políticos europeus se escudarão por detrás dos referendos para deixar a Turquia de fora? O crescimento do cepticismo é perfeitamente racional.
É por tudo isto que a posição do Papa é tão importante. Afinal, até o Papa pode mudar de ideias...
terça-feira, novembro 28, 2006
Turquia
Quem também parece ter perdido a paciência, neste caso com a União Europeia, são os turcos:
International Strategic Research Organization, N=1100, Nov. 4, 2006
Should Turkey suspend its accession talks with the European Union (EU) in the event of continued pressure from the bloc on opening ports and airports?
Yes: 70%
No: 20%
Not sure: 10%
Do you think Turkey and the EU will reach a compromise on the row over ports and airports?
Yes: 26%
No: 63%
Not sure: 11%
O nacionalismo turco é uma coisa potente. Mas não é fácil persuadir seja quem for da seriedade das intenções europeias - ou da plausibilidade da entrada da Turquia na UE, faça a Turquia o que fizer - quando se vêem coisas como estas:
Alemanha, FG Wahlen / ZDF, N=1303, Nov. 9
Do you support or oppose Turkey’s accession to the European Union (EU)?
Support: 33%
Oppose: 61%
Not sure: 6%
International Strategic Research Organization, N=1100, Nov. 4, 2006
Should Turkey suspend its accession talks with the European Union (EU) in the event of continued pressure from the bloc on opening ports and airports?
Yes: 70%
No: 20%
Not sure: 10%
Do you think Turkey and the EU will reach a compromise on the row over ports and airports?
Yes: 26%
No: 63%
Not sure: 11%
O nacionalismo turco é uma coisa potente. Mas não é fácil persuadir seja quem for da seriedade das intenções europeias - ou da plausibilidade da entrada da Turquia na UE, faça a Turquia o que fizer - quando se vêem coisas como estas:
Alemanha, FG Wahlen / ZDF, N=1303, Nov. 9
Do you support or oppose Turkey’s accession to the European Union (EU)?
Support: 33%
Oppose: 61%
Not sure: 6%
Israel
Enquanto Olmert procura negociar com a Autoridade Palestiniana, os israelitas parecem ter perdido a paciência com Olmert. Para posição negocial, dificilmente poderia ser pior.
Teleseker / Maariv, N=450, Nov. 9, 2006.
Should prime minister Ehud Olmert resign?
Yes: 51%
No: 42%
Dahaf Institute / Yediot Ahronot, N=4999, Nov. 20, 2006
Who is best to be prime minister?
Benjamin Netanyahu:47%
Ehud Olmert: 22%
Mas as as coisas para a outra parte não estão muito melhor:
Palestinian Center for Public Opinion, 18 Out. 2006, N=1020
How do you evaluate the performance of the Palestinian Prime Minister, Mr. Ismael Haniyyeh at present?
Very good: 18%
Good: 23%
Mediocre: 26%
Bad: 15%
Very bad: 17%
Don't know: 2%
Teleseker / Maariv, N=450, Nov. 9, 2006.
Should prime minister Ehud Olmert resign?
Yes: 51%
No: 42%
Dahaf Institute / Yediot Ahronot, N=4999, Nov. 20, 2006
Who is best to be prime minister?
Benjamin Netanyahu:47%
Ehud Olmert: 22%
Mas as as coisas para a outra parte não estão muito melhor:
Palestinian Center for Public Opinion, 18 Out. 2006, N=1020
How do you evaluate the performance of the Palestinian Prime Minister, Mr. Ismael Haniyyeh at present?
Very good: 18%
Good: 23%
Mediocre: 26%
Bad: 15%
Very bad: 17%
Don't know: 2%
segunda-feira, novembro 27, 2006
Ainda Venezuela (aditado)
Clima generalizado de suspeita sobre as sondagens. Sobre a Penn, Shoen & Berland, cujas sondagens dão Rosales bem perto de Chávez, algumas notícias - cuja proveniência merece, ela própria, algum cepticismo - relata antigas acções fraudulentas. Realmente, a reputação da PSB é a de associar com excessiva facilidade aos actores políticos locais: veja-se Itália e os trabalhinhos para Berlusconi. E reconheça-se que não é fácil acreditar nestas sondagens quando se lê esta notícia sobre a garantida "vitória por avalanche" de Rosales na ... www.petroleumworld.com...
Mas entretanto, vale a pena ler os resultados desta experiência, onde diferentes inquiridos numa sondagem preencheram o voto com canetas de cores diferentes, de forma a se estimarem os efeitos da percepção de que a sondagem poderia estar associada a diferentes candidaturas. Friederich Welsch é um politólogo com obra publicada. Isto não garante tudo, mas ajuda, e o argumento - a "espiral do medo" - é plausível.
Mas a lição final talvez seja esta: quando não se pode confiar nas eleições, também não se pode confiar nas sondagens.
P.S. - Ilustração do ponto anterior: resultados eleitorais vs. sondagens à boca da urnas na Venezuela.
P.P.S. - E um post, desta vez criticando as sondagens "chavistas".
Mas entretanto, vale a pena ler os resultados desta experiência, onde diferentes inquiridos numa sondagem preencheram o voto com canetas de cores diferentes, de forma a se estimarem os efeitos da percepção de que a sondagem poderia estar associada a diferentes candidaturas. Friederich Welsch é um politólogo com obra publicada. Isto não garante tudo, mas ajuda, e o argumento - a "espiral do medo" - é plausível.
Mas a lição final talvez seja esta: quando não se pode confiar nas eleições, também não se pode confiar nas sondagens.
P.S. - Ilustração do ponto anterior: resultados eleitorais vs. sondagens à boca da urnas na Venezuela.
P.P.S. - E um post, desta vez criticando as sondagens "chavistas".
Mais Venezuela
Este é mais um exemplo de como o conhecimento do contexto é vital e o meu é, para ser generoso, limitadíssimo (talvez um português que esteja na Venezuela e que leia isto possa ajudar, mas duvido que o Margens de Erro chegue tão longe...)
Eis que logo depois de avisar aqui acerca das sondagens que dão Rosales muito perto de Chávez para as eleições do dia 3 de Dezembro, surge esta (relatório completo, .pdf), da IPSOS, que coloca Chávez com uma vantagem brutal. A IPSOS é uma grande multinacional e não costuma brincar em serviço, mas haveria que saber mais sobre quem está a fazer o trabalho na Venezuela. Pelos vistos, é a IPSOS-Brasil, que esteve ausente de tudo o que foram sondagens para as presidenciais brasileiras publicadas nos media... Mas especulo: olho para a variedade incrível de resultados nas sondagens para as presidenciais na Venezuela e não sei o que pensar. O melhor é continuar a seguir aqui.
Eis que logo depois de avisar aqui acerca das sondagens que dão Rosales muito perto de Chávez para as eleições do dia 3 de Dezembro, surge esta (relatório completo, .pdf), da IPSOS, que coloca Chávez com uma vantagem brutal. A IPSOS é uma grande multinacional e não costuma brincar em serviço, mas haveria que saber mais sobre quem está a fazer o trabalho na Venezuela. Pelos vistos, é a IPSOS-Brasil, que esteve ausente de tudo o que foram sondagens para as presidenciais brasileiras publicadas nos media... Mas especulo: olho para a variedade incrível de resultados nas sondagens para as presidenciais na Venezuela e não sei o que pensar. O melhor é continuar a seguir aqui.
sexta-feira, novembro 24, 2006
Popularidade líderes políticos, Portugal
Nova sondagem da Marktest para DN e TSF, aqui (.pdf). O gráfico seguinte mostra a evolução do saldo entre as percentagens de opiniões positivas e negativas para Sócrates, Marques Mendes, e Cavaco (e Sampaio como ponto de comparação para este último) nas sondagens de Marktest desde Março de 2005:

Mantém-se a discrepância de valores entre a Eurosondagem (a azul) e a Marktest (a verde) no que respeita a Sócrates. Numa, Sócrates tem estado relativamente estável e até com tendência de subida. Noutra, Sócrates desceu abruptamente em Outubro, e agora pouco recupera. Vá-se lá saber.

Os gráficos estão feitos um bocado à pressa, mas estou sem tempo para mais.

Mantém-se a discrepância de valores entre a Eurosondagem (a azul) e a Marktest (a verde) no que respeita a Sócrates. Numa, Sócrates tem estado relativamente estável e até com tendência de subida. Noutra, Sócrates desceu abruptamente em Outubro, e agora pouco recupera. Vá-se lá saber.

Os gráficos estão feitos um bocado à pressa, mas estou sem tempo para mais.
quinta-feira, novembro 23, 2006
Surpresa na Venezuela?
Fast Venezuela, N=2288, última semana de Outubro
Which candidate would you vote for in the presidential election?
Hugo Chávez (MVR): 49%
Manuel Rosales (UNT): 47,6%
Benjamín Rausseo (Piedra): 1.3%
Reacção previsível da candidatura Chávez: "Mario Issea, one of Chávez’s campaign coordinators, said the president would earn a new term adding, 'The phoney polls are trying to establish a trend to allow Rosales to claim fraud, but true surveys and the people are corroborating that Chávez will win.' "
Para uma análise dos números recentes, ver aqui, onde não é fácil distinguir quais serão as "phoney polls" e quais serão os "true surveys"... A seguir com muita atenção, especialmente porque não é de todo garantido que Chávez esteja inteiramente disposto a, digamos, perder.
Which candidate would you vote for in the presidential election?
Hugo Chávez (MVR): 49%
Manuel Rosales (UNT): 47,6%
Benjamín Rausseo (Piedra): 1.3%
Reacção previsível da candidatura Chávez: "Mario Issea, one of Chávez’s campaign coordinators, said the president would earn a new term adding, 'The phoney polls are trying to establish a trend to allow Rosales to claim fraud, but true surveys and the people are corroborating that Chávez will win.' "
Para uma análise dos números recentes, ver aqui, onde não é fácil distinguir quais serão as "phoney polls" e quais serão os "true surveys"... A seguir com muita atenção, especialmente porque não é de todo garantido que Chávez esteja inteiramente disposto a, digamos, perder.
quarta-feira, novembro 22, 2006
Off topic: o livro de Santana Lopes
Pareceu-me muitíssimo acertado o artigo de Rui Ramos hoje no Público (só para assinantes) sobre o livro de Pedro Santana Lopes. A ideia com que se fica no final da leitura do livro é que tudo aquilo que lemos nos jornais é verdadeiro. Quando digo que o que lemos nos jornais é “verdadeiro” não me refiro aos “factos”, mas sim àquilo que a cobertura política nos jornais nos transmite sobre o que significa “fazer política”: ressentimentos, amizades, vinganças, recompensas, empatias, antipatias, produzir e desfazer “impressões” e gerir aparências.
Devido à sua absoluta falta de auto-reflexividade, Santana Lopes parece não se dar conta que, ao mesmo tempo que ensaia uma “denúncia” desta forma de fazer política, o que escreve revela-o como não sabendo fazer outra coisa. E levanta a suspeita que aquilo que o distingue dos seus colegas de profissão, amigos ou inimigos, é simplesmente o facto de não se aperceber do que está a revelar: que para todos eles, como escreve Rui Ramos, o eleitorado não passa de “um mero reflexo de intrigas de bastidores”. Não sei se iria ao ponto de, como Rui Ramos, designar Santana Lopes ou Durão Barroso como representativos desta “camarilha” que é, supostamente, a nossa classe política. Mas se não serão rigorosamente representativos, também não poderão ser casos únicos, nem no seu partido nem nos outros.
Um aspecto que Rui Ramos não menciona é a forma como esta concepção da política é inteiramente cega em relação aos “formalismos” institucionais, ou pelo menos aos que realmente contam (é sensível apenas aqueles que são destituídos de consequências mas fazem parte da “gestão da imagem”). Por exemplo, um dos factos que Santana Lopes relata, e que encara com absoluta naturalidade, é o facto de, ainda enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, receber com grande frequência nos Paços do Concelho pessoas que com ele vinham tratar de assuntos de “governo”. Por exemplo, Cardoso e Cunha, em conflito com Fernando Pinto na TAP. Na Câmara Municipal de Lisboa? Mas claro: quem melhor do que o “número dois” do partido, mas também Presidente da Câmara, para fazer chegar as suas preocupações ao Primeiro Ministro, mas também presidente do partido? Tudo normal.
Devido à sua absoluta falta de auto-reflexividade, Santana Lopes parece não se dar conta que, ao mesmo tempo que ensaia uma “denúncia” desta forma de fazer política, o que escreve revela-o como não sabendo fazer outra coisa. E levanta a suspeita que aquilo que o distingue dos seus colegas de profissão, amigos ou inimigos, é simplesmente o facto de não se aperceber do que está a revelar: que para todos eles, como escreve Rui Ramos, o eleitorado não passa de “um mero reflexo de intrigas de bastidores”. Não sei se iria ao ponto de, como Rui Ramos, designar Santana Lopes ou Durão Barroso como representativos desta “camarilha” que é, supostamente, a nossa classe política. Mas se não serão rigorosamente representativos, também não poderão ser casos únicos, nem no seu partido nem nos outros.
Um aspecto que Rui Ramos não menciona é a forma como esta concepção da política é inteiramente cega em relação aos “formalismos” institucionais, ou pelo menos aos que realmente contam (é sensível apenas aqueles que são destituídos de consequências mas fazem parte da “gestão da imagem”). Por exemplo, um dos factos que Santana Lopes relata, e que encara com absoluta naturalidade, é o facto de, ainda enquanto Presidente da Câmara de Lisboa, receber com grande frequência nos Paços do Concelho pessoas que com ele vinham tratar de assuntos de “governo”. Por exemplo, Cardoso e Cunha, em conflito com Fernando Pinto na TAP. Na Câmara Municipal de Lisboa? Mas claro: quem melhor do que o “número dois” do partido, mas também Presidente da Câmara, para fazer chegar as suas preocupações ao Primeiro Ministro, mas também presidente do partido? Tudo normal.
terça-feira, novembro 21, 2006
Parce que c'est une femme
Não comecei já a coligir dados sobre as presidenciais em França porque as sondagens existentes ainda vêem lidando com muitos e diferentes cenários. Agora que Ségolène Royal foi nomeada candidata pelo PS francês, a coisa simplica-se, mas falta ainda a nomeação de Sarkozy. Na UMP, esperneia-se, mas a coisa é inevitável.
Não é novidade para ninguém que Royal e Sarkozy dominam as sondagens. Sarkozy quase sempre à frente em intenções de voto na 1ª volta, e praticamente empatados para uma segunda volta. Exemplos: Ipsos; TNS-Sofres; CSA.
Entretanto, o CEVIPOF (o Centro de Pesquisa Política de Sciences Po) vem fazendo um série de estudos muito recomendáveis, enquadrados no "Barómetro Político Francês" e com trabalho de campo feito pelo IFOP. O último relatório (.pdf) está aqui.
No Canhoto, mencionava-se há dias esta frase de SR no debate das primárias do PS: Qu'est-ce qui fait ma différence? Il y en a une visible, sur laquelle je n'insisterai pas.
Pois de facto não vale a pena insistir. Sondagem da IPSOS, de 18 de Novembro:
Ségolène Royal vient d’être désignée candidate du PS à l’élection présidentielle. Vous, personnellement, qu’est-ce qui vous attire le plus dans la candidature de Ségolène Royal ?
Resposta mais mencionada: "parce que c'est une femme" (37%).
Não é novidade para ninguém que Royal e Sarkozy dominam as sondagens. Sarkozy quase sempre à frente em intenções de voto na 1ª volta, e praticamente empatados para uma segunda volta. Exemplos: Ipsos; TNS-Sofres; CSA.
Entretanto, o CEVIPOF (o Centro de Pesquisa Política de Sciences Po) vem fazendo um série de estudos muito recomendáveis, enquadrados no "Barómetro Político Francês" e com trabalho de campo feito pelo IFOP. O último relatório (.pdf) está aqui.
No Canhoto, mencionava-se há dias esta frase de SR no debate das primárias do PS: Qu'est-ce qui fait ma différence? Il y en a une visible, sur laquelle je n'insisterai pas.
Pois de facto não vale a pena insistir. Sondagem da IPSOS, de 18 de Novembro:
Ségolène Royal vient d’être désignée candidate du PS à l’élection présidentielle. Vous, personnellement, qu’est-ce qui vous attire le plus dans la candidature de Ségolène Royal ?
Resposta mais mencionada: "parce que c'est une femme" (37%).
segunda-feira, novembro 13, 2006
Eleições americanas 5
A verdadeira história sobre as eleições americanas começa a emergir:
1. Fortíssima correlação entre aprovação de Bush e comportamento de voto nas eleições estaduais (.pdf) entre os que aprovam Bush, 84% votaram em candidatos Republicanos; entre os que desaprovam (a maioria), 83% votou em candidatos Democratas. Falta ainda saber, claro, até que ponto uma (a aprovação de Bush) e outra (o comportamento de voto) foram predeterminadas pelas predisposições partidárias e ideológicas dos eleitores
2. Fortíssima correlação entre aprovação da guerra do Iraque e comportamento de voto nas eleições: entre os que estão contra a guerra (a maioria), 80% votaram em candidatos Democratas; entre os que estão a favor, 80% votaram Republicano. Mas aqui, convém não sobrestimar o efeito líquido que esta atitude em relação à guerra poderá ter tido na decisão de voto. Muitos do que são contra a guerra votariam Democrata com ou sem guerra, pelo simples facto de que são eleitores fieis do partido.
3. Contudo, quer a aprovação de Bush quer a opinião sobre a guerra (elas próprias, certamente, muitíssimo correlacionadas) algum efeito líquido terão de ter tido nestas eleições, porque a principal mudança ocorreu entre os eleitores independentes (sem identificação partidária) e ideologicamente moderados: foi entre estes que se deu a viragem fulcral a favor dos candidatos Democratas (ver aqui). Mais análises terão de ser feitas para sabermos até que ponto a opinião sobre Bush e/ou sobre a guerra terá sido o factor decisivo para estes eleitores decisivos, mas é implausível que tenham sido irrelevantes.
4. Dito isto, estas eleições não sinalizam um realinhamento ideológico ou partidário fundamental do eleitorado americano. Não há sinais de que as bases sociais e religiosas do Partido Republicano tenham sido significativamente abaladas. O que parece ter sucedido, para além do partido Republicano ter sido abandonado por independentes e moderados, foi uma mobilização diferencial dos eleitorados de cada partido, mais baixa para os eleitores Republicanos do que para os eleitores Democratas.
1. Fortíssima correlação entre aprovação de Bush e comportamento de voto nas eleições estaduais (.pdf) entre os que aprovam Bush, 84% votaram em candidatos Republicanos; entre os que desaprovam (a maioria), 83% votou em candidatos Democratas. Falta ainda saber, claro, até que ponto uma (a aprovação de Bush) e outra (o comportamento de voto) foram predeterminadas pelas predisposições partidárias e ideológicas dos eleitores
2. Fortíssima correlação entre aprovação da guerra do Iraque e comportamento de voto nas eleições: entre os que estão contra a guerra (a maioria), 80% votaram em candidatos Democratas; entre os que estão a favor, 80% votaram Republicano. Mas aqui, convém não sobrestimar o efeito líquido que esta atitude em relação à guerra poderá ter tido na decisão de voto. Muitos do que são contra a guerra votariam Democrata com ou sem guerra, pelo simples facto de que são eleitores fieis do partido.
3. Contudo, quer a aprovação de Bush quer a opinião sobre a guerra (elas próprias, certamente, muitíssimo correlacionadas) algum efeito líquido terão de ter tido nestas eleições, porque a principal mudança ocorreu entre os eleitores independentes (sem identificação partidária) e ideologicamente moderados: foi entre estes que se deu a viragem fulcral a favor dos candidatos Democratas (ver aqui). Mais análises terão de ser feitas para sabermos até que ponto a opinião sobre Bush e/ou sobre a guerra terá sido o factor decisivo para estes eleitores decisivos, mas é implausível que tenham sido irrelevantes.
4. Dito isto, estas eleições não sinalizam um realinhamento ideológico ou partidário fundamental do eleitorado americano. Não há sinais de que as bases sociais e religiosas do Partido Republicano tenham sido significativamente abaladas. O que parece ter sucedido, para além do partido Republicano ter sido abandonado por independentes e moderados, foi uma mobilização diferencial dos eleitorados de cada partido, mais baixa para os eleitores Republicanos do que para os eleitores Democratas.
A popularidade de Sócrates
Escreveu-se muito, incluindo aqui, sobre a última sondagem da Marktest, divulgada no Diário de Notícias, que apontava para uma súbita descida da popularidade de José Sócrates. Mas avisou-se também, por exemplo aqui, que uma sondagem era apenas uma sondagem.
Pessoalmente - mas isto era apenas um "gut feeling" - pareceu-me que a sondagem da Marktest terá medido qualquer coisa real. A descida ocorreu após uma série de acontecimentos que previsivelmente deveriam ter impacto sobre a popularidade do Primeiro Ministro. Contudo, os resultados da sondagem realizada pela Eurosondagem e divulgada no Expresso colocam isto em dúvida, ou melhor, sugerem uma hipótese alternativa: a de que quem sofreu em termos da avaliação popular foi o governo, e não o Primeiro Ministro.
Para repetir uma banalidade, mais uma sondagem é só mais uma sondagem. Entretanto, há que esperar por mais resultados. Contudo, a espera pode não resolver todas as dúvidas. Como podem ver se seguida, apesar da Marktest e da Eurosondagem mostrarem resultados que parecem seguir as mesmas tendências (sendo que assistimos agora, precisamente, à principal excepção), há discrepâncias a nível absoluto entre elas (maior popularidade para Sócrates na Eurosondagem) cuja explicação me escapa completamente.
Pessoalmente - mas isto era apenas um "gut feeling" - pareceu-me que a sondagem da Marktest terá medido qualquer coisa real. A descida ocorreu após uma série de acontecimentos que previsivelmente deveriam ter impacto sobre a popularidade do Primeiro Ministro. Contudo, os resultados da sondagem realizada pela Eurosondagem e divulgada no Expresso colocam isto em dúvida, ou melhor, sugerem uma hipótese alternativa: a de que quem sofreu em termos da avaliação popular foi o governo, e não o Primeiro Ministro.
Para repetir uma banalidade, mais uma sondagem é só mais uma sondagem. Entretanto, há que esperar por mais resultados. Contudo, a espera pode não resolver todas as dúvidas. Como podem ver se seguida, apesar da Marktest e da Eurosondagem mostrarem resultados que parecem seguir as mesmas tendências (sendo que assistimos agora, precisamente, à principal excepção), há discrepâncias a nível absoluto entre elas (maior popularidade para Sócrates na Eurosondagem) cuja explicação me escapa completamente.
Simplismos e simplismos
No passado dia 9, João Miranda, no Blasfémias, escreveu um post onde apontava o "simplismo" daqueles que, analisando os resultados das últimas eleições americanas, dão como explicação desses resultados a avaliação que os americanos hoje fazem da invasão do Iraque. Critiquei alguns aspectos desse post aqui.
Agora, JM responde, dizendo que a única coisa que quis fazer foi chamar a atenção para o simplismo desse tipo de análise, e que só procurou "provar" que ela não teve em consideração alguns factos óbvios. E acrescenta que
"não pretende provar nenhuma tese sobre os resultados das eleições americanas, pretende apenas provar que as análises que estão a ser feitas não provam que o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas."
Eu acho que isto estaria correctíssimo se tivesse sido realmente aquilo que JM fez no post mencionado. Mas não foi. Na verdade, aquilo que JM fez foi não apenas apontar o simplismo das análises que apontam o Iraque como causa da derrota do Partido Republicano, mas também defender a teoria de que o Iraque não foi a principal causa da derrota do Partido Republicano. Dizer que uma hipótese pode não ser confirmada pelos factos e dizer que uma hipótese é infirmada pelos factos são duas coisas muito diferentes.
Os dados avançados por JM que, cito o post, "contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas" são os seguintes:
1. Os partidos dos presidentes americanos são sempre penalizados nas eleições realizadas no sexto ano do seu mandato, mas isso deve-se, em parte, "ao cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder";
2. Nas sondagens à boca das urnas, os próprios eleitores explicaram as suas razões, "e o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem."
3. Candidatos republicanos que se opuseram à invasão do Iraque foram derrotados nas urnas. "Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?"
Sucede que estes argumentos não servem para "contrariar a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas":
1. O argumento 1 aponta uma regularidade empírica - as eleições realizadas a meio de um segundo mandato são sempre mais penalizadoras para o partido do presidente do que as eleições realizadas a meio de um primeiro mandato - mas essa regularidade em nada impede que, nestas eleições, as atitudes sobre o Iraque tenham sido as que mais influenciaram a decisão do voto directa ou indirectamente (contribuindo para a formação da opinião sobre a actuação do Presidente e do seu partido, que se saber ter sempre enorme peso na decisão de voto e nos resultados deste tipo de eleição).
2. O argumento 2. não serve por razões já explicadas aqui e aqui.
2. O argumento 3. confunde um resultado agregado (vitória ou derrota) com decisões individuais dos eleitores, e em nada refuta a hipótese de que, entre os muitos factores que podem influenciar esses decisões, a opinião sobre o Iraque possa ter sido a que (directa ou indirectamente) tenha tido mais peso.
Gosto de muitos posts de JM no Blasfémias. Têm quase sempre a característica de desafiarem o "senso-comum", apresentando ângulos novos para olharmos para uma questão ou desmontando falsos pressupostos na base dos quais algumas conclusões "óbvias" são tiradas nos meios de comunicação social. Contudo, por vezes - como agora, ou quando escreve sobre o "aquecimento global" - desafiar o senso comum confunde-se com desafiar o bom senso. Neste caso, os argumentos que avança para infirmar a hipótese de que o Iraque terá sido o principal factor nestes eleições são tão débeis como os argumentos que têm sido avançados para confirmar a mesma hipótese, apesar de aparecerem revestidos de uma aparentemente maior "objectividade" e "atenção aos factos". É só este último aspecto que, aliás, fez com que essa sua análise tenha merecido o meu comentário: mais perigoso que o senso comum só o senso comum que ostenta uma pretensa objectividade.
É também isto que, diga-se, abre o flanco a uma crítica adicional que outros - que não eu - lhe possam querer fazer, a mesma que, sem qualquer fundamentação a não ser a do palpite, JM faz àqueles que defendem que o Iraque foi o principal factor nestas eleições: a de ter formado "opinião muito antes de saírem os primeiros resultados com base em preconceitos e não com base em factos."
Agora, JM responde, dizendo que a única coisa que quis fazer foi chamar a atenção para o simplismo desse tipo de análise, e que só procurou "provar" que ela não teve em consideração alguns factos óbvios. E acrescenta que
"não pretende provar nenhuma tese sobre os resultados das eleições americanas, pretende apenas provar que as análises que estão a ser feitas não provam que o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas."
Eu acho que isto estaria correctíssimo se tivesse sido realmente aquilo que JM fez no post mencionado. Mas não foi. Na verdade, aquilo que JM fez foi não apenas apontar o simplismo das análises que apontam o Iraque como causa da derrota do Partido Republicano, mas também defender a teoria de que o Iraque não foi a principal causa da derrota do Partido Republicano. Dizer que uma hipótese pode não ser confirmada pelos factos e dizer que uma hipótese é infirmada pelos factos são duas coisas muito diferentes.
Os dados avançados por JM que, cito o post, "contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas" são os seguintes:
1. Os partidos dos presidentes americanos são sempre penalizados nas eleições realizadas no sexto ano do seu mandato, mas isso deve-se, em parte, "ao cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder";
2. Nas sondagens à boca das urnas, os próprios eleitores explicaram as suas razões, "e o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem."
3. Candidatos republicanos que se opuseram à invasão do Iraque foram derrotados nas urnas. "Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?"
Sucede que estes argumentos não servem para "contrariar a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas":
1. O argumento 1 aponta uma regularidade empírica - as eleições realizadas a meio de um segundo mandato são sempre mais penalizadoras para o partido do presidente do que as eleições realizadas a meio de um primeiro mandato - mas essa regularidade em nada impede que, nestas eleições, as atitudes sobre o Iraque tenham sido as que mais influenciaram a decisão do voto directa ou indirectamente (contribuindo para a formação da opinião sobre a actuação do Presidente e do seu partido, que se saber ter sempre enorme peso na decisão de voto e nos resultados deste tipo de eleição).
2. O argumento 2. não serve por razões já explicadas aqui e aqui.
2. O argumento 3. confunde um resultado agregado (vitória ou derrota) com decisões individuais dos eleitores, e em nada refuta a hipótese de que, entre os muitos factores que podem influenciar esses decisões, a opinião sobre o Iraque possa ter sido a que (directa ou indirectamente) tenha tido mais peso.
Gosto de muitos posts de JM no Blasfémias. Têm quase sempre a característica de desafiarem o "senso-comum", apresentando ângulos novos para olharmos para uma questão ou desmontando falsos pressupostos na base dos quais algumas conclusões "óbvias" são tiradas nos meios de comunicação social. Contudo, por vezes - como agora, ou quando escreve sobre o "aquecimento global" - desafiar o senso comum confunde-se com desafiar o bom senso. Neste caso, os argumentos que avança para infirmar a hipótese de que o Iraque terá sido o principal factor nestes eleições são tão débeis como os argumentos que têm sido avançados para confirmar a mesma hipótese, apesar de aparecerem revestidos de uma aparentemente maior "objectividade" e "atenção aos factos". É só este último aspecto que, aliás, fez com que essa sua análise tenha merecido o meu comentário: mais perigoso que o senso comum só o senso comum que ostenta uma pretensa objectividade.
É também isto que, diga-se, abre o flanco a uma crítica adicional que outros - que não eu - lhe possam querer fazer, a mesma que, sem qualquer fundamentação a não ser a do palpite, JM faz àqueles que defendem que o Iraque foi o principal factor nestas eleições: a de ter formado "opinião muito antes de saírem os primeiros resultados com base em preconceitos e não com base em factos."
sexta-feira, novembro 10, 2006
Peço desculpa...
...e não é para ser chato ou para me armar em esperto, mas esta discussão, no que diz respeito às causas dos resultados das eleições americanas, é um bocado absurda. Dizer que factores específicos explicam ou deixam de explicar as decisões dos eleitores em eleições como as de anteontem - para além do sobejamente demostrado efeito da avaliação da actuação do Presidente, o que aliás revela que há muito de "não local" nestes resultados - olhando para resultados agregados de sondagens à boca da urnas é a mesma coisa que escrever uma tese sobre física sub-atómica olhando muito perto e durante muito tempo para um bloco de cimento. Uma perda de tempo.
Primeiro, porque as sondagens à boca das urnas olham apenas para votantes e não para eleitores, impedindo a explicação de um elemento central nos resultados eleitorais e na punição aos governos: quem decide não votar. Segundo, porque a análise dos factores explicativos do comportamento eleitoral tem de ser multivariada e utilizando controlo estatístico - noções com que julgo o João Miranda deverá estar mais do que vagamente familiarizado - e não se faz comparando resultados agregados de uma suposta causa com resultados agregados de uma suposta consequência. Terceiro, ao contrário do que sugere o João Miranda, explicar os comportamentos dos eleitores na base daquilo que eles dizem sobre as motivações do seu comportamento é o pior caminho possível: fica-se apenas com racionalizações. Finalmente, é preciso olhar ou para dados individuais ou, pelo menos, para bons e completos dados ecológicos. E se não se queria responder a simplismos com outros simplismos, o melhor era nem ter começado. Desculpem, mas é assim. O resto é conversa e retórica política. Tenham lá calma que não há de tardar muito até que as análises sérias comecem a aparecer.
P.S.- E explicar o habitual castigo ao "incumbent" na base de "cansaço" é pura preguiça. As explicações sérias são fáceis de encontrar. Basta ler blogues.
Primeiro, porque as sondagens à boca das urnas olham apenas para votantes e não para eleitores, impedindo a explicação de um elemento central nos resultados eleitorais e na punição aos governos: quem decide não votar. Segundo, porque a análise dos factores explicativos do comportamento eleitoral tem de ser multivariada e utilizando controlo estatístico - noções com que julgo o João Miranda deverá estar mais do que vagamente familiarizado - e não se faz comparando resultados agregados de uma suposta causa com resultados agregados de uma suposta consequência. Terceiro, ao contrário do que sugere o João Miranda, explicar os comportamentos dos eleitores na base daquilo que eles dizem sobre as motivações do seu comportamento é o pior caminho possível: fica-se apenas com racionalizações. Finalmente, é preciso olhar ou para dados individuais ou, pelo menos, para bons e completos dados ecológicos. E se não se queria responder a simplismos com outros simplismos, o melhor era nem ter começado. Desculpem, mas é assim. O resto é conversa e retórica política. Tenham lá calma que não há de tardar muito até que as análises sérias comecem a aparecer.
P.S.- E explicar o habitual castigo ao "incumbent" na base de "cansaço" é pura preguiça. As explicações sérias são fáceis de encontrar. Basta ler blogues.
quarta-feira, novembro 08, 2006
Depois (e antes) da tempestade, a bonança
Outra impressão que fica depois de ser ver, ouvir e ler o comentário político nos Estados Unidos no dia de hoje é a de que as eleições trouxeram uma enorme mudança qualitativa na forma como o tema do Iraque é tratado.
Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.
Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.
Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:
He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.
He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.
During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.
Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.
Um gajo porreiro.
Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.
Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.
Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:
He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.
He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.
During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.
Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.
Um gajo porreiro.
Eleições americanas 4 (aditado)
Estou em Notre Dame, Indiana, por razões que nada têm que ver com as eleições americanas. Mas sempre se pode aproveitar para ir tomando o pulso ao que se passa aqui de uma maneira diferente daquilo que se pode fazer à distância.
Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.
Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.
Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".
Três observações mais impressionistas:
1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...
2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.
3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.
* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.
Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.
Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.
Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".
Três observações mais impressionistas:
1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...
2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.
3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.
* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.
Eleições americanas 3
Confirma-se eleição de senador Democrata no Montana. Só falta confirmar Virginia.
Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.
Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.
Eleições americanas 2
A Câmara dos Representantes, como previsto, passou para os Democratas. No Senado, tudo depende dos resultados em dois estados já mencionados aqui: Montana (1.700 votos de vantagem para o candidato democrata) e Virginia (8.ooo votos de vantagem para o candidato democrata).
segunda-feira, novembro 06, 2006
Eleições americanas
O melhor sítio para ficar com uma ideia do que pode suceder amanhã é o indispensável pollster.com, dos nossos conhecidos Mark Blumenthal e Charles Franklin. Na base de centenas de sondagens divulgadas, tudo aponta para que os Democratas ganhem uma maioria da Câmara dos Representantes, mas no Senado as dúvidas são maiores. Tudo depende do que acontecer em quatro estados: Montana, Missouri, Viriginia e Maryland. Em todos eles, há um Democrata à frente nas sondagens, mas em todos eles a margem é muito curta. E vai ser preciso que os Democratas ganhem todos os quatro estados para de facto "controlarem" o Senado: se houver um empate 50/50, quem fica com poder de desempate é esta gentil criatura.
Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.
Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.
terça-feira, outubro 31, 2006
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