Já agora que começamos a falar na Madeira, e após ter sido chamado a atenção para isto numa conversa hoje com pessoa amiga, haverá alguma alma caridosa que me possa explicar isto?
Eleições para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira:
Eleitores inscritos:
1980: 153.439
1984: 80.349
1988: 185.340
Fonte: CNE.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
França: tracking poll
Os gauleses cedem finalmente aos encantos das tracking polls - mais tarde que os portugueses, note-se - chamando-lhes, como não podia deixar de ser, outra coisa: baromètre électoral en continu. É na IPSOS, e começa hoje.
Entretanto, também no site da IPSOS, um óptimo texto do director, Pierre Giacometti, sobre sondagens de intenções de voto. Já aprendi umas coisas hoje.
Entretanto, também no site da IPSOS, um óptimo texto do director, Pierre Giacometti, sobre sondagens de intenções de voto. Já aprendi umas coisas hoje.
Madeira
Começam as sondagens na Madeira. Esta foi divulgada ontem:
Eurosondagem, 23 de Fevereiro, N=525
PSD: 59,1%
PS: 25%
CDS: 5,9%
PCP: 4,8%
BE: 3,4%
OBN: 1,8%
Recebi mensagens de leitores que me pedem comentários. Conheço muito mal a vida política na Madeira, mas dá para perceber que a coisa é divertida. Um dos e-mails aponta o facto de, no comunicado do PSD-Madeira em reacção aos resultados, se desvalorizar a sondagem por estar a "inflacionar" os resultados do PSD com vista a desmobilizar os seus eleitores, ao mesmo mesmo tempo se manifesta descrença nos resultados do PS ("o PSD não acredita na subserviência a Lisboa por parte de um quarto dos madeirenses"). Logo, pelos vistos, aquilo em que o PSD Madeira acredita mesmo é que o CDS, o PCP e o BE vão ter melhores resultados do que a sondagem sugere...
Outro e-mail aponta algo que não consegui descortinar das notícias a que tive acesso: que cerca de 100 dos 525 inquiridos não respondeu à pergunta sobre intenção de voto. As implicações disto são simples: por um lado, significa que a dimensão da amostra na base da qual se fizerem inferências sobre os resultados é menor do o total de inquiridos, o que, alías, sucede em todas as sondagens (há sempre pessoas que recusam responder a esta pergunta); por outro lado, lança a questão de saber se haverá um determinado perfil de votante que tende a rejeitar mais responder a este tipo de perguntas pelo telefone. Suponho que é este raciocínio que está subjacente àquilo que o leitor me diz no final do e-mail:
"Dois dias antes das eleições regionais de 2004, foi publicada outra sondagem que previa que o PSD teria 63% e PS 22 % das intenções de voto, e o que se verificou foi que o PSD obteve apenas 53% e o PS 27%."´
Pois, é muito possível que eleitores que não sejam do PSD tenham maior relutância em admitir as suas opções numa sondagem, especialmente pelo telefone. O mesmo, alías, parece suceder nas eleições autárquicas em relação ao partido que esteja no poder. Mas seria necessário ter pontos de comparação com sondagens que utilizassem outros métodos de inquirição para perceber se a ideia tem pernas para andar. Para já, é só uma hipótese.
Eurosondagem, 23 de Fevereiro, N=525
PSD: 59,1%
PS: 25%
CDS: 5,9%
PCP: 4,8%
BE: 3,4%
OBN: 1,8%
Recebi mensagens de leitores que me pedem comentários. Conheço muito mal a vida política na Madeira, mas dá para perceber que a coisa é divertida. Um dos e-mails aponta o facto de, no comunicado do PSD-Madeira em reacção aos resultados, se desvalorizar a sondagem por estar a "inflacionar" os resultados do PSD com vista a desmobilizar os seus eleitores, ao mesmo mesmo tempo se manifesta descrença nos resultados do PS ("o PSD não acredita na subserviência a Lisboa por parte de um quarto dos madeirenses"). Logo, pelos vistos, aquilo em que o PSD Madeira acredita mesmo é que o CDS, o PCP e o BE vão ter melhores resultados do que a sondagem sugere...
Outro e-mail aponta algo que não consegui descortinar das notícias a que tive acesso: que cerca de 100 dos 525 inquiridos não respondeu à pergunta sobre intenção de voto. As implicações disto são simples: por um lado, significa que a dimensão da amostra na base da qual se fizerem inferências sobre os resultados é menor do o total de inquiridos, o que, alías, sucede em todas as sondagens (há sempre pessoas que recusam responder a esta pergunta); por outro lado, lança a questão de saber se haverá um determinado perfil de votante que tende a rejeitar mais responder a este tipo de perguntas pelo telefone. Suponho que é este raciocínio que está subjacente àquilo que o leitor me diz no final do e-mail:
"Dois dias antes das eleições regionais de 2004, foi publicada outra sondagem que previa que o PSD teria 63% e PS 22 % das intenções de voto, e o que se verificou foi que o PSD obteve apenas 53% e o PS 27%."´
Pois, é muito possível que eleitores que não sejam do PSD tenham maior relutância em admitir as suas opções numa sondagem, especialmente pelo telefone. O mesmo, alías, parece suceder nas eleições autárquicas em relação ao partido que esteja no poder. Mas seria necessário ter pontos de comparação com sondagens que utilizassem outros métodos de inquirição para perceber se a ideia tem pernas para andar. Para já, é só uma hipótese.
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Lies, damned lies, and statistics
Sobre a controvérsia dos números do Ministério da Justiça, o que haveria para dizer já foi dito aqui.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Not really, but who cares
Rui Castro, no 31 da Armada, afirma que "de acordo com o barómetro feito pela Marktest para o DN e para a TSF, o Governo socialista e o Primeiro Ministro atingem os mais elevados níveis de popularidade desde que iniciaram funções há 2 anos".
Como podem ver no gráfico do post anterior, isto não é rigorosamente verdade, pelo menos no dito Barómetro.* But who cares? Isto, de resto, é só mais um exemplo daquilo que que falava aqui. É verdadeiramente curioso este desfasamento entre aquilo que os dados dizem sobre a opinião pública e aquilo que é, na "opinião publicada" (para lhe dar este nome), a percepção da popularidade do governo. Geralmente, estes desfasamentos são explicados em termos de uma assimetria no acesso à informação: enquanto a "opinião publicada" tem informação privilegiada, as "massas" reagem mais "tarde" ou são mais "manipuláveis". Foi assim, por exemplo, que se tentou explicar por que razão o PS continuava a merecer forte apoio popular em 2001, quando a "opinião publicada" já dava o governo Guterres como moribundo.
Mas desta vez, enquanto as "massas" estão longe de ser unânimes no apoio ao Primeiro-Ministro, são as "elites" que o apoiam ou, pelo menos (o que, na prática, não é tão diferente como possa parecer) partilham uma percepção de que o apoio é esmagador. Como se explica isto? Deixando de lado explicações socio-económicas das posições de "elites" e "massas" (mas não sei de as devemos deixar completamente de lado), talvez a explicação seja a mesma: a "informação privilegiada" que as "elites" têm (ou julgam ter) é a de que os "custos" da governação Sócrates são inevitáveis ou mesmo desejáveis, ao passo que "as massas" estão menos dispostas a ver a coisa por esse lado tão "reformista" e de "longo-prazo".
Mas veremos, no final, quem realmente sabia o quê.
* Suponho que a afirmação de Rui Castro seja mais ditada pelas intenções de voto no PS no mesmo Barómetro, que são realmente muito altas. Mas quem dá muita importância face value a intenções de voto em sondagens a dois anos de legislativas está, na minha opinião, a perder o seu tempo.
Como podem ver no gráfico do post anterior, isto não é rigorosamente verdade, pelo menos no dito Barómetro.* But who cares? Isto, de resto, é só mais um exemplo daquilo que que falava aqui. É verdadeiramente curioso este desfasamento entre aquilo que os dados dizem sobre a opinião pública e aquilo que é, na "opinião publicada" (para lhe dar este nome), a percepção da popularidade do governo. Geralmente, estes desfasamentos são explicados em termos de uma assimetria no acesso à informação: enquanto a "opinião publicada" tem informação privilegiada, as "massas" reagem mais "tarde" ou são mais "manipuláveis". Foi assim, por exemplo, que se tentou explicar por que razão o PS continuava a merecer forte apoio popular em 2001, quando a "opinião publicada" já dava o governo Guterres como moribundo.
Mas desta vez, enquanto as "massas" estão longe de ser unânimes no apoio ao Primeiro-Ministro, são as "elites" que o apoiam ou, pelo menos (o que, na prática, não é tão diferente como possa parecer) partilham uma percepção de que o apoio é esmagador. Como se explica isto? Deixando de lado explicações socio-económicas das posições de "elites" e "massas" (mas não sei de as devemos deixar completamente de lado), talvez a explicação seja a mesma: a "informação privilegiada" que as "elites" têm (ou julgam ter) é a de que os "custos" da governação Sócrates são inevitáveis ou mesmo desejáveis, ao passo que "as massas" estão menos dispostas a ver a coisa por esse lado tão "reformista" e de "longo-prazo".
Mas veremos, no final, quem realmente sabia o quê.
* Suponho que a afirmação de Rui Castro seja mais ditada pelas intenções de voto no PS no mesmo Barómetro, que são realmente muito altas. Mas quem dá muita importância face value a intenções de voto em sondagens a dois anos de legislativas está, na minha opinião, a perder o seu tempo.
Barómetro Marktest
O saldo de popularidade de Sócrates actualizado com a sondagem divulgada hoje.
Sócrates recupera, mas a diferença entre os dois "barómetros" continua a ser grande.
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Ségo-Sarko
Dois entusiasmos na imprensa:
1. Com Bayrou. A ideia é interessante, mas é também sintoma de falta de assunto.
2. Com uma possível recuperação de Ségolène após a performance televisiva, mas até agora detectada numa única sondagem, a amarelo, em baixo.

A seguir com atenção.
1. Com Bayrou. A ideia é interessante, mas é também sintoma de falta de assunto.
2. Com uma possível recuperação de Ségolène após a performance televisiva, mas até agora detectada numa única sondagem, a amarelo, em baixo.
A seguir com atenção.
A popularidade de Sócrates
Não venho dar mais uma contribuição para decifrar os "mistérios" da popularidade do Primeiro-Ministro, tema em voga nos jornais por estes dias. Venho apenas mostrar os dados. O próximo gráfico mostra a evolução do "saldo de popularidade" de Sócrates, ou seja, a percentagem de inquiridos que fazem uma avaliação positiva da sua actuação subtraída da percentagem daqueles que fazem uma evolução negativa. Como vêem...


Mas mesmo assim, continuar a falar de um "estado de graça" do Primeiro Ministro ou do Governo, e basear esse diagnóstico nas sondagens, parece-me deslocado. O PS continua à frente das intenções de voto? Em 2001 também estava.
1. A discrepância em termos absolutos entre os resultados da Eurosondagem e os da Marktest é enorme. Nos primeiros, Sócrates anda próximo de um saldo de 40 pontos positivos, e está hoje (ou melhor, estava no fim de Janeiro, quando foi feita a última sondagem) perto do "estado de graça" com que iniciou o mandato. Nos segundos, o saldo positivo é de apenas 8 pontos percentuais, tendo assim quase tantas pessoas a fazerem uma avaliação positiva como aquelas que fazem uma avaliação negativa da sua actuação, e estando muito longe dos mais de 30 pontos positivos com que iniciou o mandato. É o dia e a noite. Qualquer análise da "popularidade" de Sócrates tem de fazer uma escolha sobre em que dados confia. Pelos vistos, a maioria dos comentadores confia nos primeiros.
2. Mas é possível que se trate menos de uma questão de escolha daquilo em que se quer acreditar do que uma mera comparação com o líder da oposição. Nesse caso, percebe-se a ideia:
Mas mesmo assim, continuar a falar de um "estado de graça" do Primeiro Ministro ou do Governo, e basear esse diagnóstico nas sondagens, parece-me deslocado. O PS continua à frente das intenções de voto? Em 2001 também estava.
3. Disto isto, as tendências de evolução são semelhantes para os dois institutos. Para Sócrates, descida até às autárquicas de 2005, seguida de recuperação desde então, mais ou menos acidentada dependendo do instituto. Para Mendes, descida também desde chegada à liderança do partido, seguida de relativa estabilidade. Na Marktest, contudo, os últimos meses têm sido de acentuada degradação para Marques Mendes, e os resultados das sondagens pós-referendo não lhe serão certamente propícios.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
TNSEuroteste
Dia de embirrar com jornalistas? Talvez, peço já desculpa. Mas dizer que a TNSEuroteste é uma "empresa que dá os primeiros passos no mercado português" é uma afirmação, no mínimo, extravagante. A Euroteste existe desde 1988. Quando dirigida por Vidal de Oliveira, fez muitas sondagens eleitorais para os meios de comunicação social. Fez os inquéritos por questionário para vários projectos académicos que eu conheço bem, incluindo um de 2004 que, na parte portuguesa, coordenei no ICS. Faz, de há uns anos para cá, a componente portuguesa do Eurobarómetro. Tem feito, segundo o próprio PSD, vários trabalhos para o partido (não sei se continua a fazer ou não). Talvez o pormenor esteja no facto de ser há menos tempo parte do império TNS. Mas mesmo assim já pertence ao grupo desde, que eu saiba, 2000. Primeiros passos? Que disparate.
Religiosidade e voto
Sei, por experiência própria, que pôr académicos a falar com jornalistas é coisa que, por vezes, dá mau resultado. Nuns casos porque os primeiros procuram preservar a complexidade dos seus argumentos de uma forma que os jornalistas não conseguem (ou não podem mesmo) reconstituir nas suas peças. Noutros porque, antecipando esse desfecho, são os próprios académicos que simplificam os seus argumentos de forma a que, no final, o que é dito já não faz justiça àquilo que sabem e acaba depois numa versão "abastardada" que, de resto, é consumida acriticamente como sendo a "voz da verdade". Nada disto é fácil.
Mas às vezes os jornalistas não ajudam. Começo por dizer que gosto bastante do António Marujo como jornalista, mas como é possível fazer um título destes - "O voto católico não existiu no referendo sobre o aborto" - na edição do Público do dia 18? Uma coisa é dizer que o comportamento de voto no passado referendo não teve como causa única a religiosidade subjectiva dos inquiridos ou a sua prática religiosa, ou, por outras palavras, que "'é redutor' ler uma coincidência entre o catolicismo e a vitória do 'não' a norte do Mondego" (que é aquilo que Helena Vilaça, afinal, diz, antes de ser perder um pouco com alguns casos isolados que não aquecem nem arrefecem). Como alguém já escreveu, "o mundo é multivariado", e os comportamentos humanos não fogem à regra.
Mas dizer que não existiu "um voto católico" no referendo é esticar a corda para além daquilo que a corda aguenta. Qual é a hipótese que se está a tentar refutar com o título da peça? A de que todos os católicos teriam votado "Não" no referendo? A de que o único factor que explicou o voto foi a religião? Mas pela cabeça de quem passariam ideias dessas?
Na verdade, a religiosidade ou a prática religiosa são ainda, entre as variáveis estruturais ou socio-demográficas, e num país onde a ancoragem social do voto é muito ténue, dos poucos preditores do voto que nos ajudam a distinguir os eleitores entre si em eleições legislativas (em particular os do PCP e do BE dos do PS e os do PP dos do PSD). E como já referi aqui, nas sondagens sobre intenções de voto, a religiosidade era um dos principais preditores do voto "Não". E como não? E que mal tem assumi-lo? Porquê procurar contornar o incontornável? Não percebi.
Mas às vezes os jornalistas não ajudam. Começo por dizer que gosto bastante do António Marujo como jornalista, mas como é possível fazer um título destes - "O voto católico não existiu no referendo sobre o aborto" - na edição do Público do dia 18? Uma coisa é dizer que o comportamento de voto no passado referendo não teve como causa única a religiosidade subjectiva dos inquiridos ou a sua prática religiosa, ou, por outras palavras, que "'é redutor' ler uma coincidência entre o catolicismo e a vitória do 'não' a norte do Mondego" (que é aquilo que Helena Vilaça, afinal, diz, antes de ser perder um pouco com alguns casos isolados que não aquecem nem arrefecem). Como alguém já escreveu, "o mundo é multivariado", e os comportamentos humanos não fogem à regra.
Mas dizer que não existiu "um voto católico" no referendo é esticar a corda para além daquilo que a corda aguenta. Qual é a hipótese que se está a tentar refutar com o título da peça? A de que todos os católicos teriam votado "Não" no referendo? A de que o único factor que explicou o voto foi a religião? Mas pela cabeça de quem passariam ideias dessas?
Na verdade, a religiosidade ou a prática religiosa são ainda, entre as variáveis estruturais ou socio-demográficas, e num país onde a ancoragem social do voto é muito ténue, dos poucos preditores do voto que nos ajudam a distinguir os eleitores entre si em eleições legislativas (em particular os do PCP e do BE dos do PS e os do PP dos do PSD). E como já referi aqui, nas sondagens sobre intenções de voto, a religiosidade era um dos principais preditores do voto "Não". E como não? E que mal tem assumi-lo? Porquê procurar contornar o incontornável? Não percebi.
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
"Abstenção técnica"
O último número da revista "Eleições", editada pelo Stape (.pdf 3.65MB) tem vários artigos interessantes, entre eles um da autoria de Paulo Machado e Carla Gomes, intitulado "Mudança Social em Portugal: Contributos para uma Interpretação Sumária com Recurso à Base de dados do Recenseamento Eleitoral".
O objectivo do artigo é outro. Mas de passagem, os autores comparam o apuramento do recenseamento eleitoral em 2001 (Abril) e 2005 (Dezembro) com o recenseamento populacional do INE de 2001 (Março) e as estimativas, também do INE, em 31/12/2005, respeitante à população residente com 18 ou mais anos. Para 2001, encontram uma diferença de 4,9%, a favor do RE, valor que eu tinha em mente quando escrevi isto. Contudo, para finais de 2005, esta diferença é estimada em 2,1%. Tudo isto tem de ser encarado com mil cuidados, vários deles explicados no artigo. Mas é possível, afinal, que o problema da abstenção técnica não seja tão grave como se menciona aqui (nem tão grave como eu próprio tenderia a pensar que era).
O objectivo do artigo é outro. Mas de passagem, os autores comparam o apuramento do recenseamento eleitoral em 2001 (Abril) e 2005 (Dezembro) com o recenseamento populacional do INE de 2001 (Março) e as estimativas, também do INE, em 31/12/2005, respeitante à população residente com 18 ou mais anos. Para 2001, encontram uma diferença de 4,9%, a favor do RE, valor que eu tinha em mente quando escrevi isto. Contudo, para finais de 2005, esta diferença é estimada em 2,1%. Tudo isto tem de ser encarado com mil cuidados, vários deles explicados no artigo. Mas é possível, afinal, que o problema da abstenção técnica não seja tão grave como se menciona aqui (nem tão grave como eu próprio tenderia a pensar que era).
Sobre a participação eleitoral em referendos
Depois de ler o que se foi escrevendo, cito, pela quarta ou quinta vez, este útil texto (.pdf):
One of the first issues that arises in comparing referendum and election campaigns is that of voter turnout. Evidence suggests that turnout can vary much more widely in referendums than it does in elections. In Switzerland, where referendums are commonplace events, turnout is generally well below 50%, and can sometimes be much lower (Kobach, 1993). It can however rise to considerably higher levels when a particular issue engages wide voter interest or when a more intense campaign is waged by interested groups. In U. S. state referendums, turnout is notoriously low, and can be subject to even more extreme fluctuations. Butler and Ranney (1994) found that turnout over a large number of referendum cases in various nations averaged fifteen percentage points lower than that found in general elections in the same countries. Cronin (1989) found a comparable rate of "drop-off" -- i.e. the difference between voting the candidate and propositions sections of the ballot -- in American state referendums.
However, there is no reason to believe that turnout in referendums is necessarily lower than that found in elections. The turnout in some of the more important European referendums has generally been comparable to that found in national elections (table 3), and turnout in the 1995 Quebec sovereignty referendum registered an astonishing 94%, higher than in any provincial or federal election. Other important referendums in which turnout registered higher than that of a comparable election (table 3) are the 1992 Canadian constitutional referendum (+5), the 1994 Norwegian EU membership referendum (+13), the 1993 Danish referendum on the Edinburgh agreement (+3), and the 1993 Russian referendums (+12, +5). But clearly, a referendum held separately on a less salient issue runs the risk of lower voter participation. The 1992 New Zealand referendum on electoral reform (-28), the Puerto Rico statehood plebiscites (-9, -12), the 1980 Swedish nuclear power referendum (-15), and the 1986 Spanish referendum on NATO (-11) are all cases in which turnout fell significantly below that of the most nearly comparable election."
Em resumo: pode ser alta, especialmente quando diz respeito a questões de "regime", mas é, em geral, mais baixa do que em eleições de "primeira ordem", como não podia deixar de ser.
One of the first issues that arises in comparing referendum and election campaigns is that of voter turnout. Evidence suggests that turnout can vary much more widely in referendums than it does in elections. In Switzerland, where referendums are commonplace events, turnout is generally well below 50%, and can sometimes be much lower (Kobach, 1993). It can however rise to considerably higher levels when a particular issue engages wide voter interest or when a more intense campaign is waged by interested groups. In U. S. state referendums, turnout is notoriously low, and can be subject to even more extreme fluctuations. Butler and Ranney (1994) found that turnout over a large number of referendum cases in various nations averaged fifteen percentage points lower than that found in general elections in the same countries. Cronin (1989) found a comparable rate of "drop-off" -- i.e. the difference between voting the candidate and propositions sections of the ballot -- in American state referendums.
However, there is no reason to believe that turnout in referendums is necessarily lower than that found in elections. The turnout in some of the more important European referendums has generally been comparable to that found in national elections (table 3), and turnout in the 1995 Quebec sovereignty referendum registered an astonishing 94%, higher than in any provincial or federal election. Other important referendums in which turnout registered higher than that of a comparable election (table 3) are the 1992 Canadian constitutional referendum (+5), the 1994 Norwegian EU membership referendum (+13), the 1993 Danish referendum on the Edinburgh agreement (+3), and the 1993 Russian referendums (+12, +5). But clearly, a referendum held separately on a less salient issue runs the risk of lower voter participation. The 1992 New Zealand referendum on electoral reform (-28), the Puerto Rico statehood plebiscites (-9, -12), the 1980 Swedish nuclear power referendum (-15), and the 1986 Spanish referendum on NATO (-11) are all cases in which turnout fell significantly below that of the most nearly comparable election."
Em resumo: pode ser alta, especialmente quando diz respeito a questões de "regime", mas é, em geral, mais baixa do que em eleições de "primeira ordem", como não podia deixar de ser.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Wishful thinking
De um amigo:
"Fiquei um pouco intrigado com o teu optimismo sobre as boas práticas relativamente aos eleitores potenciais. Vou ter que reler os jornais para ver o que me escapou. Explicação alternativa que me passou pela cabeça:
- os votantes efectivos foram um retrato do “sentimento” subjacente da população - o que seria óptimo para o SIM, porque reforçaria a legitimidade para continuar apesar de o referendo não ser vinculativo;
- ter havido, no caso presente, uma correlação mais forte do que é normal entre disposição a responder aos inquéritos e disposição a votar."
Pois é. Só me baseio no facto de, conhecendo algums inquéritos feitos, ter notado a existência de baterias de perguntas destinadas a modelar a probabilidade do voto, coisa que sempre achei ter merecido pouca atenção no passado. E de nas eleições de grande abstenção - europeias e referendos - a precisão das sondagens ter vindo a aumentar e o grau de dispersão entre resultados ter vindo a diminuir. Mas a verdade é que este último aspecto se correlaciona também com o facto do trabalho de campo, a partir de 2000, poder ser conduzido até mais tarde. Logo, a verdade é que não tenho realmente elementos que me permitam dizer que, se os resultados da maior parte das sondagens foram o que foram, foi porque quem fez os inquéritos conseguiu distinguir bem entre os votantes prováveis e os outros. Wishful thinking, reconheço.
"Fiquei um pouco intrigado com o teu optimismo sobre as boas práticas relativamente aos eleitores potenciais. Vou ter que reler os jornais para ver o que me escapou. Explicação alternativa que me passou pela cabeça:
- os votantes efectivos foram um retrato do “sentimento” subjacente da população - o que seria óptimo para o SIM, porque reforçaria a legitimidade para continuar apesar de o referendo não ser vinculativo;
- ter havido, no caso presente, uma correlação mais forte do que é normal entre disposição a responder aos inquéritos e disposição a votar."
Pois é. Só me baseio no facto de, conhecendo algums inquéritos feitos, ter notado a existência de baterias de perguntas destinadas a modelar a probabilidade do voto, coisa que sempre achei ter merecido pouca atenção no passado. E de nas eleições de grande abstenção - europeias e referendos - a precisão das sondagens ter vindo a aumentar e o grau de dispersão entre resultados ter vindo a diminuir. Mas a verdade é que este último aspecto se correlaciona também com o facto do trabalho de campo, a partir de 2000, poder ser conduzido até mais tarde. Logo, a verdade é que não tenho realmente elementos que me permitam dizer que, se os resultados da maior parte das sondagens foram o que foram, foi porque quem fez os inquéritos conseguiu distinguir bem entre os votantes prováveis e os outros. Wishful thinking, reconheço.
A vinculatividade dos referendos
Anda por aqui uma discussão que me interessa muito, até porque já escrevinhei umas coisas sobre o tema: se deve ou não haver um quórum mínimo para a vinculatividade dos referendos.
Um dos argumentos que já apareceu nessa discussão - e que já tinha aparecido aqui - é o de que a própria pergunta, colocada nestes termos, é meramente formalista, dado que, como temos visto, a vontade maioritária é politicamente interpretada como vinculativa independemente de o ser ou não do ponto de vista formal.
Bem, estou a pensar e a escrever um pouco à pressa, mas acho que temos de ter cuidado aqui. Isso foi verdade nestes três referendos que tivemos. Mas noutros, o problema pode ser politicamente colocado de outra forma. Se até neste referendo da despenalização do aborto, com uma participação que, descontada a abstenção técnica, não deverá ter andado longe dos 50%, há gente (vagamente lunática, admito) capaz de levantar a questão, noutros temas - Constituição Europeia, por exemplo, pelos efeitos vastíssimos que produz a sua aprovação ou reprovação - a questão pode ser colocada de forma muito mais premente, se se entender ser politicamente vantajoso fazê-lo.
Mas agora, note-se: há um detalhe que eu terei ignorado e que pode fazer a diferença. Deixei-me influenciar muito pelo caso italiano nesta reflexão, onde de facto tem havido, por parte dos partidos e da Igreja, uma recorrente actuação estratégica quer no sentido de "ausência de mobilização" quer de verdadeiros apelos à abstenção, em ambos os casos procurando garantir que o resultado não fosse vinculativo.
Esqueci-me, contudo, que o caso italiano é diferente do português num aspecto possivelmente fulcral. Em Portugal, o que é referendado é uma medida susceptível de ser objecto de legislação por parte da AR. Já em Itália, a regra do quórum aplica-se aos referendos do art. 75. E os referendos do art. 75 são os referendos abrogativos, ou seja, aqueles através dos quais os eleitores se pronunciam sobre se uma lei já aprovada deve ser revogada ou alterada ("Sim") ou preservada ("Não"). Logo, a vinculatividade ou a falta dela têm efeitos automáticos independentemente da "intepretação política" que dela se faça: se for Sim vinculativo, a lei é alterada ou revogada; se for Não, vinculativo ou não, ou mesmo um Sim não vinculativo - e é aqui que o jogo da desmobilização tem sido feito - a lei mantém-se em vigor.
Logo, um "Sim" ser ou não vinculativo tem sempre consequências importantes em Itália. Em Portugal, creio, dependerá do tema. Estarei a ver bem a coisa?
Um dos argumentos que já apareceu nessa discussão - e que já tinha aparecido aqui - é o de que a própria pergunta, colocada nestes termos, é meramente formalista, dado que, como temos visto, a vontade maioritária é politicamente interpretada como vinculativa independemente de o ser ou não do ponto de vista formal.
Bem, estou a pensar e a escrever um pouco à pressa, mas acho que temos de ter cuidado aqui. Isso foi verdade nestes três referendos que tivemos. Mas noutros, o problema pode ser politicamente colocado de outra forma. Se até neste referendo da despenalização do aborto, com uma participação que, descontada a abstenção técnica, não deverá ter andado longe dos 50%, há gente (vagamente lunática, admito) capaz de levantar a questão, noutros temas - Constituição Europeia, por exemplo, pelos efeitos vastíssimos que produz a sua aprovação ou reprovação - a questão pode ser colocada de forma muito mais premente, se se entender ser politicamente vantajoso fazê-lo.
Mas agora, note-se: há um detalhe que eu terei ignorado e que pode fazer a diferença. Deixei-me influenciar muito pelo caso italiano nesta reflexão, onde de facto tem havido, por parte dos partidos e da Igreja, uma recorrente actuação estratégica quer no sentido de "ausência de mobilização" quer de verdadeiros apelos à abstenção, em ambos os casos procurando garantir que o resultado não fosse vinculativo.
Esqueci-me, contudo, que o caso italiano é diferente do português num aspecto possivelmente fulcral. Em Portugal, o que é referendado é uma medida susceptível de ser objecto de legislação por parte da AR. Já em Itália, a regra do quórum aplica-se aos referendos do art. 75. E os referendos do art. 75 são os referendos abrogativos, ou seja, aqueles através dos quais os eleitores se pronunciam sobre se uma lei já aprovada deve ser revogada ou alterada ("Sim") ou preservada ("Não"). Logo, a vinculatividade ou a falta dela têm efeitos automáticos independentemente da "intepretação política" que dela se faça: se for Sim vinculativo, a lei é alterada ou revogada; se for Não, vinculativo ou não, ou mesmo um Sim não vinculativo - e é aqui que o jogo da desmobilização tem sido feito - a lei mantém-se em vigor.
Logo, um "Sim" ser ou não vinculativo tem sempre consequências importantes em Itália. Em Portugal, creio, dependerá do tema. Estarei a ver bem a coisa?
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Fadiga eleitoral
Há muita coisa escrita por aí (.pdf) sobre o papel da "fadiga eleitoral" na abstenção. Mas "fadiga eleitoral", para mim, é ter seis eleições (Europeias 2004, Regionais 2004, Legislativas 2005, Autárquicas 2005, Presidenciais 2006, Referendo 2007) e treze sondagens à boca das urnas (contando duas nas regionais e sete nas autárquicas) em menos de três anos. Um apelo sentido, então, à contenção no uso futuro do referendo e à solidariedade com o Professor Carmona.
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