quinta-feira, abril 26, 2007

2ª volta

Nem sempre sucede, e quando sucede pode não ser pelas razões que pensamos. Mas a verdade é que, nestas eleições francesas, colocar os eleitores perante o cenário de Sarkozy vs. Royal na segunda volta e o facto de Sarkozy vs. Royal na segunda volta não parece fazer diferença. As sondagens antes e depois do dia 22 (à esquerda e à direita da linha de referência vertical no gráfico seguinte) não mostram mudanças.

terça-feira, abril 24, 2007

Sarkozy e Mitterrand

"Ce qui est remarquable concernant ce vote utile, c'est que Nicolas Sarkozy a composé avec l'électorat habituel du Front National à l'instar de ce que François Mitterrand avait réussi à faire avec le parti communiste en 1981. Nous sommes quasi dans le même contexte aujourd'hui qu'en 1981 - à l'exception des convictions politiques des deux hommes. Nicolas Sarkozy a réussi à régler le problème sur sa droite, reste désormais à se focaliser sur le centre. Le problème avait, en partie, été réglé avec la création de l'UMP en 2002 mais reste à l'actuel candidat de la droite parlementaire de terminer de le résoudre pour accéder à la présidence de la République." (Gérard Grunberg, Director de pesquisa no CEVIPOF)

Os analistas franceses adoram estes paralelismos históricos, e é bom quando, uma vez por outra, eles fazem sentido.

Outlier (and shameless plug, in a way)

Os cientistas sociais que andem por aí não se devem esquecer de que o ICS, onde trabalho, vai atribuir um prémio "destinado a galardoar obras de excepcional qualidade que contribuam, de forma decisiva, para o conhecimento da realidade portuguesa, histórica ou contemporânea" publicadas entre 1 de Janeiro de 2002 e 31 de Dezembro de 2006, o Prémio Sedas Nunes.

O júri é constituído pelo Presidente do Conselho Científico do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Jorge Vala) e por Carlos Fortuna (Coimbra), Diogo Lucena (Nova), Francisco Bethencourt (King’s College), José Ramón Montero (Autónoma de Madrid e Juan March), Maria Benedicta Monteiro (ISCTE), Robert Fishman (Notre Dame e Pompeu Fabra) e Robert Rowland (ISCTE).

Não se acanhem. Sempre são 20.000 euros.

Eu não posso concorrer, antes de mais porque ajudei a escolher o júri, mas também porque não tenho ideia de ter escrito "obra de excepcional qualidade" no período em questão. Maybe next time..

segunda-feira, abril 23, 2007

"L'indécision est en partie une création des sondages"

Um artigo interessante, já com duas semanas, no Le Monde, sobre a forma como a "indecisão" nas sondagens é "estimulada" nos inquéritos pelos próprios institutos, de forma a se protegerem dos erros e terem sempre justificação para o caso de as suas estimativas de afastarem na realidade.

Interessante, mas com dois erros um bocado a dar para o fatal. O primeiro vem quando o politólogo entrevistado diz que o que se passa na realidade é que os inquiridos ocultam o seu comportamento dos inquiridores, "e é por isso que as sondagens à boca das urnas falham também". Isso seria interessante se fosse verdade, mas não é, como se pode ver por aqui e muitos outros exemplos em posts neste mesmo blogue, em vários países.

O segundo vem quando o entrevistado afirma que está demonstrado que os inquiridos não se recordam "exactamente" de quanto tomaram uma decisão. Certo, mas a verdade é que nenhum inquérito pergunta a um eleitor "quando exactamente tomou" uma decisão. O que dá são intervalos de tempo relativamente amplos, e que funcionam, de resto, como uma escala ordinal entre "há muito" e "há pouco" tempo. E há carradas de artigos que mostram como os eleitores que se posicionam em diferentes pontos dessa escala são diferentes uns dos outros, e ainda por cima de maneiras previsíveis (mais ideologizados, com maior fidelidade partidária e mais sofisticados aqueles que tomam decisões antes).

O artigo também foi publicado na edição portuguesa do Courrier International.

O futuro

Há muita informação para digerir. Alguns resultados das sondagens à boca das urnas ou das telefónicas conduzidas ontem (muito mais interessantes e completas do que aquelas que se fazem em Portugal, que estão geralmente interessadas única e exclusivamente nas estimativas de voto) são animadores para Ségolène. Por exemplo, a CSA (agora dá para desconfiar um bocado, mas enfim) fez uma sondagem com amostra de1005 inquiridos, telefónica, conduzida na noite de ontem, em que mostra a intenção de voto futura de acordo com a passada:

Eleitores Bayrou: 45% Ségo, 19% Sarko, 16% abstenção.

Eleitores Le Pen: 60% Sarko, 19% Ségo, 21% abstenção.

A concentração de eleitores Le Pen em Sarkozy é muito menor do que se poderia esperar, ao passo que Ségolène domina entre os eleitores Bayrou.
Mas estes resultados não conferem com os de outros institutos. O IFOP sugere que os votos Bayrou se dividem, neste momento, entre 54% para Sarko e 46% para Ségo, com 83% dos votos Le Pen a irem para Sarko. Uma diferença enorme para os resultados da CSA. E mesmo com os resultados da CSA, Ségo continua abaixo de Sarko nas intenções de voto para a 2ª volta. Aliás, todas as sondagens de intenção de voto na 2ª volta conduzidas ontem (à direita da linha de referência vertical) dão-na abaixo de 50%:


Seja como for, há muito caminho para percorrer. Atente-se nisto: nas sondagens à boca das urnas conduzidas ontem, a percentagem de eleitores que disseram ter decidido em quem votar na última semana andou pelos 30% (BVA), 34% (CSA) e 36% (IPSOS). Cerca de um em cada três dos que votaram ontem terão tomado a sua decisão na última semana. É obra.

2º rescaldo

Ora bem. Pegando na última sondagem divulgada de cada instituto de opinião, calculando o desvio absoluto entre cada estimativa para cada um dos quatro principais candidatos e aqueles que foram os resultados finais, e calculando a média desses desvios, chegamos à coluna a vermelho:


Todos subestimaram Sarkozy, todos sobrestimaram Le Pen, todos sobrestimaram o peso dos pequenos candidatos. A IPSOS, a TNS e a BVA foram as que andaram mais próximo. Houve algumas avarias na CSA, ao contrário do que se tinha passado em 2002. A IPSOS apostou muitíssimo nestas eleições, especialmente com a tracking poll, e está a compensar. E, se me permitem, queria chamar a atenção para o facto de que este desempenho das sondagens não ser superior ao verificado, por exemplo, nas presidenciais em Portugal em 2006.

Nas sondagens à boca das urnas, tudo normal:

domingo, abril 22, 2007

Primeiro rescaldo

Amanhã veremos a coisa com calma, mas o essencial sobre como as sondagens se portaram está aqui.

O futuro? Um bom sítio para começar é o site da IPSOS, especialmente nos resultados completos de uma sondagem conduzida hoje pelo telefone. Muitas pistas interessantes, que analisaremos nos próximos dias.

sexta-feira, abril 20, 2007

Photo finish

Bem, ao que parece a IPSOS, pelo menos, ainda vai lançar dar uns números adicionais cá para fora, mas seria estranho que variassem muito dos anteriores. Os gráficos finais com as tendências:


Sim, estão a ver bem. "Ele" é o único que sobe.


Actualização:
CSA, 20-4, N=1002:
Sarko: 26,5%
Ségo: 25,5%
Le Pen: 16,5%
Bayrou: 16%
IPSOS, 20-4, N=1598
Sarko: 30%
Ségo: 23,5%
Bayrou: 17%
Le Pen: 13,5%
Há uns sondageiros que vão ficar muito mal dispostos no dia 22. A questão é, quais?

França: a recta final

Não sei se haverá mais sondagens durante o dia de hoje, mas é provável que a coisa fique por aqui. O quadro que se segue mostra as quatro sondagens de intenção de voto cujo trabalho de campo é mais recente (terminado ontem):



A CSA está cheia de incertezas sobre a ordem dos candidatos do ponto de vista das intenções de voto actuais, ao contrário do que sucede com as outras. Mas convém notar que, em 2002, a CSA nem foi quem se saiu pior: sobrestimou Jospin, como toda a gente, e subestimou Le Pen, como toda a gente. Mas a TNS-Sofres subestimou ainda mais Le Pen e a IPSOS teve resultados muito parecidos com os da CSA. Dia 22 pode, afinal, trazer surpresas.

quinta-feira, abril 19, 2007

quarta-feira, abril 18, 2007

segunda-feira, abril 16, 2007

O outro divino Marquês

Segundo as sondagens, Bayrou ganharia quer a Sarkozy quer a Royal numa segunda volta. Isto sucede porque, para além de ser a primeira preferência de um em cada cinco eleitores, ele é também a segunda preferência de muitos eleitores de Sarkozy e muitos eleitores de Royal. Contudo, como há mais eleitores cujas primeiras preferências são Sarkozy ou Royal, Bayrou pode não passar à segunda volta. Logo, apesar de haver uma maioria de eleitores que prefere Bayrou a Sarkozy, e uma maioria de eleitores que prefere Bayrou a Royal, Bayrou não será - a acreditar nas sondagens - presidente. O problema, de resto, já tinha sido detectado há mais de 200 anos por outro francês, que inventou um método para resolvê-lo. Mas não é assim que vai ser.

França

Estamos a menos de uma semana. Desde o dia 10, inclusivé, foram terminados os trabalhos de recolha de sete sondagens de intenções de voto nas presidenciais, de cinco institutos diferentes (todos os habituais menos a Louis-Harris, cujo último trabalho ainda é do dia 7).

Podemos começar por olhar para as médias das intenções de voto nas últimas sondagens conduzidas por esses institutos, assim como para o valor máximo e mínimo estimados para cada candidato:

Sarkozy: 28% (entre 26 e 30%)
Ségolène: 24% (entre 23 e 26%)
Bayrou: 18% (entre 17 e 21%)
Le Pen: 14% (entre 12 e 15%)

Nenhum instituto põe em causa esta ordenação dos candidatos . O valor mais alto para Ségolène em qualquer sondagem é igual ao valor mais baixo obtido por Sarkozy, e os valores mais altos para Bayrou e Le Pen, respectivamente, inferiores aos valores mais baixos para Ségolène e Bayrou.

Mas para Ségo e Bayrou há ainda muita incerteza. De resto, o voto à direita parece ser o mais seguro. A IPSOS fornece os dados se uma segunda questão, em que é pedido àqueles que declaram uma intenção de voto que digam se essa intenção é definitiva ou pode mudar. A percentagem dos que declaram ser essa a sua intenção definitiva, para cada candidato, são os seguintes:

Le Pen: 86%
Sarkozy: 74%
Ségolène: 67%
Bayrou: 50%

Logo, pelos vistos, e previsivelmente, é na opções Royal e Bayrou que parece poder haver maior instabilidade até ao dia das eleições, o que. presumivelmente, pode dar para tudo. Bayrou a subir à conta de Royal ou, pelo contrário, Royal a subir à conta de Bayrou.

Há ainda os que não indicam intenções de voto: 17% na IPSOS, 7% no IFOP, 21% na CSA, 23% na TNS. Aqui tudo se complica, porque não é evidente dos relatórios o que isto mede: pessoas que têm intenção de votar mas não sabem ou não dizem em quem, ou abstencionistas declarados, ou ambos. Mas há um factor que joga a favor de que as estimativas de intenção de voto feitas neste momento se aproximem relativamente dos resultados finais, e que é a comparativamente baixa abstenção que estas eleições deverão ter: todos os indicadores de interesse pela campanha revelam mobilização superior à de 2002. Em 2002, a abstenção na 1ª volta foi de 28,2%.

segunda-feira, abril 09, 2007

Montanha russa

Não há vaga de sondagens sobre as presidenciais francesas que não traga uma novidade qualquer, muitas vezes contraditória com a novidade anterior. Desta vez, com as primeiras sondagens de Abril, a "novidade" é mais uma descida de Ségolène, chegando aos valores mais baixos desde o início do ano (22%).


segunda-feira, abril 02, 2007

Outlier: a Tapada das Necessidades

Há quase um ano, escrevi isto neste blogue. Na edição de ontem do Público explica-se como se chegou a esta situação. Não consigo fazer um link à notícia, mas penso poder resumir: ministros e directores-gerais de vários governos, associações e ex-presidentes, todos metidos ao barulho. Protocolos assinados e não cumpridos e decisões casuísticas que se revogam umas às outras. E já promete tribunais, o que, como bem sabemos, permitirá certamente a resolução célere do assunto. O habitual.

quarta-feira, março 28, 2007

Soigne ta droite

Em quatro sondagens recentes, Sarko e Ségo estão tecnicamente empatados. Quem diria?

CSA, 22/3:
Sarko, 26%; Ségo, 26%.

TNS-Sofres, 22/3:
Sarko, 28%; Ségo, 26,5%.

IFOP, 23/3:
Sarko, 26%; Ségo, 25%.

Louis-Harris, a mais recente, 24/3:
Sarko, 27%; Ségo, 27%.

IPSOS e BVA estão a dar margens maiores, mas mesmo assim..

P.S. - O BVA já não. Sarko, 28%; Ségo, 27%.

terça-feira, março 27, 2007

Grandes portugueses, 2º e último post

Os institutos de sondagens que trabalham em Portugal, ou qualquer associação ou organismo que os representasse, deveriam ter dito alguma coisa sobre os resultados do concurso antes de eles serem conhecidos. Não necessariamente no sentido de criticar o programa mas sim de explicar os limites do exercício. Agora é tarde. Soa tudo um bocado a falso, como se se quisesse deslegitimar o resultado em concreto e não todo o processo. Eu disse alguma coisa, aqui, mas eu sou só eu e isto é só um blogue. Mais um elemento a considerar quando se pensar na lamentável ausência de uma instância de auto-regulação dos institutos de sondagens, que a APODEMO, compreensivelmente mais voltada para os estudos de mercado, não consegue suprir.

Isto não impede que se discuta o concurso como fenómeno "mediático" ou "cultural". Aí sim, estejam à vontade. Nem impede sequer que o concurso seja visto como tendo alguma "bondade" intrínseca, no sentido em que promoveu - será que promoveu? - alguma discussão - entre quem? - séria - em parte - sobre a história - recente - e a identidade portuguesas.

O que já percebo menos é o que terá passado pela cabeça do meu amigo André Freire para analisar os resultados como fruto de "uma militância de protesto contra a democracia, a classe política actual" como relectindo "um certo falhanço da democracia" ou um "défice de explicação aprofundada do que foi o regime e das vantagens que vieram com a democracia". O ponto é este, e muito simples: os resultados não merecem análise. O que eles significam e representam é completamente indeterminado. E quando a inferência descritiva é deficiente, a inferência explicativa é uma pura perda de tempo.

P.S- O que o André Azevedo Alves diz aqui seria correcto se dispuséssemos de um qualquer outro elemento dos resultados para além da distribuição de frequências do sentido de voto. Se soubéssemos, por exemplo, as características socio-demográficas ou as atitudes políticas dos votantes no concurso, poderíamos compará-las com as da população em geral, ou procurar relações entre essas características e o sentido de voto. Contudo, não creio que essa informação tenha sido recolhida.

sexta-feira, março 23, 2007

O homem, afinal, dá-me razão

Várias sondagens conduzidas nos últimos dias sobre as presidências francesas: TNS, BVA, CSA, Louis-Harris e, claro, a tracking poll da IPSOS.

Média das últimas três sondagens (BVA, IPSOS e CSA, entre os dias 20 e 22 de Março):

Sarkozy: 29%
Ségolène: 25%
Bayrou: 18%

Bayrou desce, portanto, enquanto Ségo e Sarko dão sinais de subida. O que tem de ser tem muita força. Dito isto, há discrepâncias muito importantes entre as sondagens. Basta dizer que a CSA coloca Sarko e Ségo empatados.

sexta-feira, março 16, 2007

França

Uma análise preciosa dos resultados das sondagens em França, no forum da IPSOS. Alguns destaques:

1. "Alors que depuis fin février, le score de Nicolas Sarkozy était stable au-dessus des 30% d'intentions de vote, il vient de perdre 4,5 points sur les 5 derniers jours (28,5% sur la mesure du 14 mars). On enregistre moins de mouvements autour de la candidature de Ségolène Royal, qui capte environ un quart des intentions de vote 1er tour. La dynamique est en revanche particulièrement favorable à François Bayrou, qui a gagné 10 points d'intentions de vote en un mois (23% aujourd'hui)." (agradeço e retribuo a confiança do João Gonçalves, mas acho que ele não leu o meu post que cita aqui com suficiente atenção. É que os problemas de Ségo já vieram à tona há muito tempo. São os problemas de outros que começam a vir à tona agora...).

2. "Jean Peyrelevade analyse la dynamique favorable à François Bayrou comme résultant du succès d'un discours "non démagogique", sans promesse non financée, qui évite la "réponse catégorielle systématique", c'est-à-dire le fait de donner verbalement satisfaction à chacune des catégories de personnes croisées pendant la campagne (infirmières, ouvriers d'airbus, enseignants, agriculteurs etc.). Pour lui, l'état de crise du pays, morale et intellectuelle, rend aujourd'hui recevable une réponse globale : "un projet politique général, cohérent, pas toujours très précis mais non démagogique et non catégorielle". Eric Dupin est d'accord avec cette proposition, que l'état de crise de la société française explique le succès de François Bayrou. (..) "Cela étant, il y a aussi dans le succès de François Bayrou l'état de défiance à l'égard de la classe politique. De ce point de vue là, les positions d'hostilité au système politique et médiatique ont lourdement contribué à sa progression."

3. "Les candidatures de Nicolas Sarkozy et François Bayrou ont en commun d'attirer au-delà de leur sensibilité politique d'origine. Nicolas Sarkozy bénéficie depuis quelques mois du soutien d'une partie des sympathisants du Front National et de l'UDF, quand François Bayrou mord sur l'électorat socialiste, et plus récemment UMP."

4. "Dans le détail, on relèvera surtout la perméabilité de l'opinion à une série de réformes 'de droite' . La majorité des Français se déclare favorable à l'alignement des régimes spéciaux de retraite sur le régime général, à la mise en place d'un système plus sélectif avant le baccalauréat, à l'assouplissement du droit du travail sur les conditions d'embauche et de licenciement des salariés, à la remise en cause de la loi sur les 35 heures."

5. "Pierre Giacometti termine l'exposé des données d'opinion en présentant les niveaux de fermeté du choix électoral par candidat, un des points clés de l'instabilité du rapport de force actuel. Avant la dégradation rapide et brutale de Jean-Pierre Chevènement il y a 5 ans, à peine la moitié des électeurs qui déclaraient une intention de vote en sa faveur déclaraient ce choix définitif. Aujourd'hui, la fermeté du choix "François Bayrou" est au même niveau, ce qui ouvre le champ des possibles. "

quinta-feira, março 15, 2007

Tendências França

Nada de muito novo, mas não faz mal voltar a olhar. A tentação, à medida que Bayrou se aproxima de Ségolène, é vê-la a ela como a mais ameaçada na passagem à 2ª volta. E é certamente correcto. Mas reparem como, nos últimos tempos, é Sarkozy o mais afectado pela subida de Bayrou. Há uma crescente convergência na intenção de voto para os três candidatos. E for assim:

- conseguirá Bayrou suster os seus eleitores que ainda se dizem incertos sobre a sua opção (em maior número do que os eleitores de Ségo ou Sarko)?

- e se não conseguir, para onde irão eles?

Ségo:




Sarko:



Bayrou:


França: mais três sondagens

BVA, CSA e IPSOS (rotação completa da amostra na tracking poll). Médias:

Sarkozy: 28%
Ségolène: 24%
Bayrou: 22%

terça-feira, março 13, 2007

Outlier: a carta do Ministro

Anda muita gente preocupada com a centralização de poder em José Sócrates e no Ministério da Administração Interna. Paulo Gorjão tem feito o inventário do que se tem escrito sobre o tema. Confesso que também andava inquieto, mas hoje fiquei muito mais descansado. Na página 38, o Público divulga uma carta do Ministro da Administração Interna, António Costa, dirigida a Paulo Ferreira, subdirector do jornal, onde, depois de contestar as suas afirmações em editoriais dos dias 3 e 9, conclui da seguinte forma:

"Até lá sugiro, que, para a próxima, pense três vezes antes de me insultar novamente".

Uma pessoa, assim, até fica mais descansada. Tento imaginar Michael Chertoff, Secretário do Departamento de Homeland Security, a escrever uma carta como esta a Bill Keller, do New York Times ("Until then I suggest that, next time, you think three times before insulting me again") e não consigo. Já consigo imaginar Bill Keller a ser inspeccionado pelo IRS, escutado pelo FBI e vigiado pela CIA, mas a receber uma carta estilo "cabeçada à Cais do Sodré" é mais difícil. O que até pode ser um bom sinal: quem realmente tem poder não fala assim.

segunda-feira, março 12, 2007

França: três novas sondagens

IPSOS (rotação completa da amostra da tracking poll); IFOP (já mencionada aqui anteontem); e TNS-Sofres, com trabalho de campo terminado entre os dias 8 e 10, e com metodologias muito semelhantes. Média dos três primeiros:

Sarkozy: 29%
Ségolène: 25%
Bayrou: 23%

sábado, março 10, 2007

Mas o homem insiste em desmentir-me

Sondagem que sai amanhã, do IFOP (9 Março, N= 881, Quotas, Telefónica):

Sarko: 28%
Ségo: 23%
Bayrou: 23%

Bayrou apanha Ségolène. E esta?

Ségo-Sarko em queda, Bayrou em alta

Ségolène:

Sarkozy:


Bayrou:

Eu continuo céptico sobre as chances de Bayrou. Ao contrário do que se pensa - e já falámos nesta história a propósito dos referendos - a identificação partidária conta muito para o comportamento eleitoral mesmo em eleições personalizadas ou onde não se vota em listas de partidos, e o PS vai fazer sentir o seu peso. E o voto em Bayrou é volátil. Mas os resultados são o que são.

quinta-feira, março 08, 2007

As sondagens em França, do ponto de vista dos sondados

Estudo interessante da IPSOS. Principais resultados:

* 57% des personnes interrogées jugent les sondages et enquêtes d’opinion indispensables à la démocratie;

Mas:

* Méfiance de 78% des personnes interrogées d’accord pour affirmer que les médias font parfois dire n’importe quoi aux chiffres issus des sondages;

E:

* 57% des personnes interviewées pensent que les sondages ont une influence sur les programmes et thèmes abordés dans la campagne et 55% qu’ils influent sur le choix des candidats officiels des partis politiques.

*Quand 59% des interviewés pensent que les sondages publiés au moment des périodes électorales ont une influence forte sur le vote des électeurs, ils ne sont plus que 15% à se dire personnellement influencés dans leur propre vote.

Há, na notícia, um tom de "auto-elogio" ou "auto-satisfação" com alguns resultados do inquérito que não me agrada especialmente. De resto, recordar o seguinte: por muito que seja o esforço na introdução de critérios "não-enviesados" para a selecção das amostras, as sondagens são feitas a amostras de pessoas que aceitam responder a sondagens. Nalguns casos, isso pode não ser problemático. Neste, contudo, é quase certo que a predisposição para responder está correlacionada com a opinião sobre as sondagens.

Pânico nas candidaturas Ségo e Sarko

Bayrou com 24% na sondagem CSA e 21% na BVA (ambos os links são pdfs). Bate Sarko e Ségo à vontade numa segunda volta.

Mas há outros resultados (IPSOS com 19%) e importa lembrar isto. Mesmo assim, não é por acaso que...

Simone Veil doit annoncer aujourd'hui qu'elle prend la tête du comité de soutien à Sarkozy

quarta-feira, março 07, 2007

Bayrou

Vejam onde aparece François Bayrou nesta hierarquia das "personalidades políticas " das quais os franceses têm melhor opinião, na última sondagem IFOP. Bem acima de Ségo ou Sarko.


Mas note-se também isto na tracking poll da IPSOS:

"La fermeté du choix de vote 1er tour est nettement différente selon le candidat considéré. Les deux tiers de ceux qui ont porté leur intention de vote sur Ségolène Royal et Jean-Marie Le Pen assurent que leur choix est définitif ; c'est plus élevé que pour Nicolas Sarkozy (58%). En revanche, près de 60% des électeurs actuels de François Bayrou se réservent le droit de changer d'avis. "

Bayrou est chouette, trés tendance. Mas isso chega?

terça-feira, março 06, 2007

O povo é sereno

E já que falamos de candidatos "up and coming", algumas peças sobre as sondagens e o que pode vir a ocorrer nos Estados Unidos:

1. Can You Trust What Polls Say about Obama's Electoral Prospects?

No one would deny that race still matters in U.S. politics. For the past half century, the political parties have been increasingly divided in their positions on racial issues, and that, in turn, has affected voters' decisions to call themselves Republicans or Democrats. But this review of exit polls and electoral outcomes in several recent elections suggests that fewer people are making judgments about candidates based solely, or even mostly, on race itself, and that relatively few people are now unwilling to tell pollsters how they honestly feel about particular candidates. In such an environment, the high standing of Barack Obama in presidential polling -- or, for that matter, of Colin Powell prior to the 1996 presidential election -- represents a significant change in American politics.

2. Blacks Shift To Obama, Poll Finds

Clinton's and Obama's support among white voters changed little since December, but the shifts among black Democrats were dramatic. In December and January Post-ABC News polls, Clinton led Obama among African Americans by 60 percent to 20 percent. In the new poll, Obama held a narrow advantage among blacks, 44 percent to 33 percent. The shift came despite four in five blacks having a favorable impression of the New York senator.

Mas:

Perhaps pollsters are just cautious by nature, but while I would have included those results as part of the story, I would have given them far less emphasis. The problem is that despite all efforts to emphasize the underlying statistical imprecision, specific numbers inevitably take on a life of their. The narrowing of the race among all voters was more modest, and given the other results out last week, the real shift among African-Americans was likely less than the 40 point net shifts measured by the Post/ABC polls. But that did not stop one Sunday talk show I watched (Chris Matthews) from pushing the 40 point shift as it if was the definitive result (no transcript available yet).

3. E aquilo que as sondagens nos dizem sobre o futuro: How Reliable Are the Early Presidential Polls? Pouco.

A look back at nearly 50 years of early primary polls suggests that Republican front-runners are often a good bet to capture the nomination, but the picture is more mixed for leading Democrats.

Republicanos:
Unfortunately for Republican aspirants in this cycle, no candidate can benefit from the GOP's traditional early leader tenacity for the simple reason that no single frontrunner has been established. Until recently, former New York mayor Rudy Giuliani and Sen. John McCain had been running neck-in-neck in Republican horse race polls. Although recent nationwide polls show Giuliani slightly outpacing McCain among likely GOP primary voters, some election watchers are skeptical about Giuliani's chances, given his relatively liberal views on social issues.

Democratas:
By contrast, early Democratic poll leaders won four out of eight open contests between 1960 and 2004. In early 2003, Sen. John Kerry was tied with Sen. Joseph Lieberman, but fell behind Gen. Wesley Clark and Vermont Gov. Howard Dean at different times later in the year before eventually getting the final nod from Democrats.

Em geral:
Early general election presidential trial heat polls have a poor track record. History suggests the political climate is almost certain to change between now and November 2008.

Ségo-Sarko, 6 de Março

Nova sondagem Louis-Harris. Sem novidades, a não ser para dizer que Bayrou chega, pela primeira vez, aos 20%...

segunda-feira, março 05, 2007

Ségo-Sarko

Duas novas sondagens: uma da TNS, e outra da IPSOS (que corresponde à primeira rotação completa da amostra na sua traking poll). Curioso é verificar que:

1.Ségo, depois de ter travado a descida, não dá, pelo contrário, sinais consistentes de recuperação.




2. Apesar disso, Sarko desce:


3. E como é isso possível? Bem, porque há alguém que está a subir:




sexta-feira, março 02, 2007

Ségo-Sarko, 2 de Março

Depois de três sondagens que indiciavam uma recuperação de Ségo, quatro mais recentes começam a contar uma história ligeiramente diferente: Ségo parou de descer, mas não é evidente que esteja a subir (ou, talvez, a "subida" terá sido uma reacção a quente ao programa de televisão). Esta indeterminação decorre também do facto de estarmos um período em que os resultados dos diferentes institutos mostram discrepâncias importantes: CSA mais Ségo, IPSOS mais Sarko.

Ainda quanto à IPSOS, continua a tracking poll. No fim da primeira rotação completa da amostra voltamos a olhar para eles.








Sondagem Universidade Católica sobre Lisboa

Universidade Católica, 28 Fevereiro, N=786, Aleatória, Telefónica

Alguns destaques:

Em geral, como avalia a actuação de Carmona Rodrigues como Presidente da Câmara?
Muito boa: 4%
Boa: 17%
Assim-assim: 38%
Má: 21%
Muito má:11%
Ns/Nr: 9%

Na sua opinião, a situação da cidade nos últimos dois anos melhorou, piorou ou ficou na mesma?
Melhorou: 15%
Piorou: 39%
Na mesma: 45%
Ns/Nr: 2%

Dos últimos presidentes que a Câmara de Lisboa teve, qual deles foi para si o melhor: Jorge Sampaio, João Soares, Santana Lopes ou Carmona Rodrigues?
Jorge Sampaio: 42%
João Soares:25%
Santana Lopes: 9%
Carmona Rodrigues: 11%
Ns/Nr: 13%

Tendo em conta a situação que se vive actualmente na Câmara de Lisboa, qual das seguintes coisas preferia que acontecesse?
Que Carmona Rodrigues cumprisse o seu mandato até ao fim: 44%
Que Carmona Rodrigues fosse substituído por outro vereador: 7%
Que houvesse eleições antecipadas para a Câmara Municipal:: 41%
Ns/Nr: 8%

Se houvesse eleições, já tem uma ideia em que partido votaria, esperaria para saber quem é o candidato, ou abstinha-se?
Já tem uma ideia: 29%
Esperaria para saber quem é o candidato: 56%
Abstinha-se:9%
Ns/Nr: 6%

Se houvesse eleições, como votaria (questão colocada àqueles que, na pergunta anterior, dizem "já ter uma ideia em que partido votariam"; percentagens resultam da resposta combinada às duas perguntas):
Esperaria para saber quem é o candidato: 56%
PS: 12%
PSD: 10%
BE: 2,5%
CDU: 1,5%
CDS/PP: 0,5%
Outro: 0%
Abstinha-se: 9%
Ns/Nr: 8,5%

Na próxima vez que por aqui haja dúvidas sobre sondagens da Católica, já sabe a quem pode recorrer, até porque assim evita dar resultados errados. O endereço de e-mail está no cabeçalho. Aqui ninguém tem vergonha do trabalho que faz nem medo do escrutínio público.

quinta-feira, março 01, 2007

Ségo: revisão em baixa

A tracking poll da IPSOS apresenta os seus primeiros resultados hoje. Ségo não se sai tão bem como nas sondagens anteriores. Ainda não é suficiente para matar a já detectada tendência de recuperação, mas..

Mais tesourinhos perplexizantes da história eleitoral portuguesa

Resultados oficiais do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, 1998, arquivo de resultados eleitorais do STAPE:

Sim: 1.308.607
Não: 1.357.698
Nulos: 16.102
Brancos:29.063
Votantes: 2.711.470
Abstenções: 5.776.956
Inscritos:8.488.426

Resultados oficiais do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, 1998, arquivo de resultados eleitorais da CNE:

Sim: 1.308.130
Não: 1.356.754
Nulos: 15.562
Brancos: 29.057
Votantes: 2.709.503
Abstenções: 5.786.586
Inscritos: 8.496.089

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Tesourinhos perplexizantes da história eleitoral portuguesa

Já agora que começamos a falar na Madeira, e após ter sido chamado a atenção para isto numa conversa hoje com pessoa amiga, haverá alguma alma caridosa que me possa explicar isto?

Eleições para a Assembleia Legislativa Regional da Madeira:

Eleitores inscritos:
1980: 153.439
1984: 80.349
1988: 185.340

Fonte: CNE.

França: tracking poll

Os gauleses cedem finalmente aos encantos das tracking polls - mais tarde que os portugueses, note-se - chamando-lhes, como não podia deixar de ser, outra coisa: baromètre électoral en continu. É na IPSOS, e começa hoje.

Entretanto, também no site da IPSOS, um óptimo texto do director, Pierre Giacometti, sobre sondagens de intenções de voto. Já aprendi umas coisas hoje.

Madeira

Começam as sondagens na Madeira. Esta foi divulgada ontem:

Eurosondagem, 23 de Fevereiro, N=525
PSD: 59,1%
PS: 25%
CDS: 5,9%
PCP: 4,8%
BE: 3,4%
OBN: 1,8%

Recebi mensagens de leitores que me pedem comentários. Conheço muito mal a vida política na Madeira, mas dá para perceber que a coisa é divertida. Um dos e-mails aponta o facto de, no comunicado do PSD-Madeira em reacção aos resultados, se desvalorizar a sondagem por estar a "inflacionar" os resultados do PSD com vista a desmobilizar os seus eleitores, ao mesmo mesmo tempo se manifesta descrença nos resultados do PS ("o PSD não acredita na subserviência a Lisboa por parte de um quarto dos madeirenses"). Logo, pelos vistos, aquilo em que o PSD Madeira acredita mesmo é que o CDS, o PCP e o BE vão ter melhores resultados do que a sondagem sugere...

Outro e-mail aponta algo que não consegui descortinar das notícias a que tive acesso: que cerca de 100 dos 525 inquiridos não respondeu à pergunta sobre intenção de voto. As implicações disto são simples: por um lado, significa que a dimensão da amostra na base da qual se fizerem inferências sobre os resultados é menor do o total de inquiridos, o que, alías, sucede em todas as sondagens (há sempre pessoas que recusam responder a esta pergunta); por outro lado, lança a questão de saber se haverá um determinado perfil de votante que tende a rejeitar mais responder a este tipo de perguntas pelo telefone. Suponho que é este raciocínio que está subjacente àquilo que o leitor me diz no final do e-mail:

"Dois dias antes das eleições regionais de 2004, foi publicada outra sondagem que previa que o PSD teria 63% e PS 22 % das intenções de voto, e o que se verificou foi que o PSD obteve apenas 53% e o PS 27%."´

Pois, é muito possível que eleitores que não sejam do PSD tenham maior relutância em admitir as suas opções numa sondagem, especialmente pelo telefone. O mesmo, alías, parece suceder nas eleições autárquicas em relação ao partido que esteja no poder. Mas seria necessário ter pontos de comparação com sondagens que utilizassem outros métodos de inquirição para perceber se a ideia tem pernas para andar. Para já, é só uma hipótese.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Not really, but who cares

Rui Castro, no 31 da Armada, afirma que "de acordo com o barómetro feito pela Marktest para o DN e para a TSF, o Governo socialista e o Primeiro Ministro atingem os mais elevados níveis de popularidade desde que iniciaram funções há 2 anos".

Como podem ver no gráfico do post anterior, isto não é rigorosamente verdade, pelo menos no dito Barómetro.* But who cares? Isto, de resto, é só mais um exemplo daquilo que que falava aqui. É verdadeiramente curioso este desfasamento entre aquilo que os dados dizem sobre a opinião pública e aquilo que é, na "opinião publicada" (para lhe dar este nome), a percepção da popularidade do governo. Geralmente, estes desfasamentos são explicados em termos de uma assimetria no acesso à informação: enquanto a "opinião publicada" tem informação privilegiada, as "massas" reagem mais "tarde" ou são mais "manipuláveis". Foi assim, por exemplo, que se tentou explicar por que razão o PS continuava a merecer forte apoio popular em 2001, quando a "opinião publicada" já dava o governo Guterres como moribundo.

Mas desta vez, enquanto as "massas" estão longe de ser unânimes no apoio ao Primeiro-Ministro, são as "elites" que o apoiam ou, pelo menos (o que, na prática, não é tão diferente como possa parecer) partilham uma percepção de que o apoio é esmagador. Como se explica isto? Deixando de lado explicações socio-económicas das posições de "elites" e "massas" (mas não sei de as devemos deixar completamente de lado), talvez a explicação seja a mesma: a "informação privilegiada" que as "elites" têm (ou julgam ter) é a de que os "custos" da governação Sócrates são inevitáveis ou mesmo desejáveis, ao passo que "as massas" estão menos dispostas a ver a coisa por esse lado tão "reformista" e de "longo-prazo".

Mas veremos, no final, quem realmente sabia o quê.

* Suponho que a afirmação de Rui Castro seja mais ditada pelas intenções de voto no PS no mesmo Barómetro, que são realmente muito altas. Mas quem dá muita importância face value a intenções de voto em sondagens a dois anos de legislativas está, na minha opinião, a perder o seu tempo.

Barómetro Marktest

O saldo de popularidade de Sócrates actualizado com a sondagem divulgada hoje.
Sócrates recupera, mas a diferença entre os dois "barómetros" continua a ser grande.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Ségo-Sarko

Dois entusiasmos na imprensa:

1. Com Bayrou. A ideia é interessante, mas é também sintoma de falta de assunto.


2. Com uma possível recuperação de Ségolène após a performance televisiva, mas até agora detectada numa única sondagem, a amarelo, em baixo.





A seguir com atenção.

A popularidade de Sócrates

Não venho dar mais uma contribuição para decifrar os "mistérios" da popularidade do Primeiro-Ministro, tema em voga nos jornais por estes dias. Venho apenas mostrar os dados. O próximo gráfico mostra a evolução do "saldo de popularidade" de Sócrates, ou seja, a percentagem de inquiridos que fazem uma avaliação positiva da sua actuação subtraída da percentagem daqueles que fazem uma evolução negativa. Como vêem...



1. A discrepância em termos absolutos entre os resultados da Eurosondagem e os da Marktest é enorme. Nos primeiros, Sócrates anda próximo de um saldo de 40 pontos positivos, e está hoje (ou melhor, estava no fim de Janeiro, quando foi feita a última sondagem) perto do "estado de graça" com que iniciou o mandato. Nos segundos, o saldo positivo é de apenas 8 pontos percentuais, tendo assim quase tantas pessoas a fazerem uma avaliação positiva como aquelas que fazem uma avaliação negativa da sua actuação, e estando muito longe dos mais de 30 pontos positivos com que iniciou o mandato. É o dia e a noite. Qualquer análise da "popularidade" de Sócrates tem de fazer uma escolha sobre em que dados confia. Pelos vistos, a maioria dos comentadores confia nos primeiros.

2. Mas é possível que se trate menos de uma questão de escolha daquilo em que se quer acreditar do que uma mera comparação com o líder da oposição. Nesse caso, percebe-se a ideia:

Mas mesmo assim, continuar a falar de um "estado de graça" do Primeiro Ministro ou do Governo, e basear esse diagnóstico nas sondagens, parece-me deslocado. O PS continua à frente das intenções de voto? Em 2001 também estava.

3. Disto isto, as tendências de evolução são semelhantes para os dois institutos. Para Sócrates, descida até às autárquicas de 2005, seguida de recuperação desde então, mais ou menos acidentada dependendo do instituto. Para Mendes, descida também desde chegada à liderança do partido, seguida de relativa estabilidade. Na Marktest, contudo, os últimos meses têm sido de acentuada degradação para Marques Mendes, e os resultados das sondagens pós-referendo não lhe serão certamente propícios.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

TNSEuroteste

Dia de embirrar com jornalistas? Talvez, peço já desculpa. Mas dizer que a TNSEuroteste é uma "empresa que dá os primeiros passos no mercado português" é uma afirmação, no mínimo, extravagante. A Euroteste existe desde 1988. Quando dirigida por Vidal de Oliveira, fez muitas sondagens eleitorais para os meios de comunicação social. Fez os inquéritos por questionário para vários projectos académicos que eu conheço bem, incluindo um de 2004 que, na parte portuguesa, coordenei no ICS. Faz, de há uns anos para cá, a componente portuguesa do Eurobarómetro. Tem feito, segundo o próprio PSD, vários trabalhos para o partido (não sei se continua a fazer ou não). Talvez o pormenor esteja no facto de ser há menos tempo parte do império TNS. Mas mesmo assim já pertence ao grupo desde, que eu saiba, 2000. Primeiros passos? Que disparate.

Religiosidade e voto

Sei, por experiência própria, que pôr académicos a falar com jornalistas é coisa que, por vezes, dá mau resultado. Nuns casos porque os primeiros procuram preservar a complexidade dos seus argumentos de uma forma que os jornalistas não conseguem (ou não podem mesmo) reconstituir nas suas peças. Noutros porque, antecipando esse desfecho, são os próprios académicos que simplificam os seus argumentos de forma a que, no final, o que é dito já não faz justiça àquilo que sabem e acaba depois numa versão "abastardada" que, de resto, é consumida acriticamente como sendo a "voz da verdade". Nada disto é fácil.

Mas às vezes os jornalistas não ajudam. Começo por dizer que gosto bastante do António Marujo como jornalista, mas como é possível fazer um título destes - "O voto católico não existiu no referendo sobre o aborto" - na edição do Público do dia 18? Uma coisa é dizer que o comportamento de voto no passado referendo não teve como causa única a religiosidade subjectiva dos inquiridos ou a sua prática religiosa, ou, por outras palavras, que "'é redutor' ler uma coincidência entre o catolicismo e a vitória do 'não' a norte do Mondego" (que é aquilo que Helena Vilaça, afinal, diz, antes de ser perder um pouco com alguns casos isolados que não aquecem nem arrefecem). Como alguém já escreveu, "o mundo é multivariado", e os comportamentos humanos não fogem à regra.

Mas dizer que não existiu "um voto católico" no referendo é esticar a corda para além daquilo que a corda aguenta. Qual é a hipótese que se está a tentar refutar com o título da peça? A de que todos os católicos teriam votado "Não" no referendo? A de que o único factor que explicou o voto foi a religião? Mas pela cabeça de quem passariam ideias dessas?

Na verdade, a religiosidade ou a prática religiosa são ainda, entre as variáveis estruturais ou socio-demográficas, e num país onde a ancoragem social do voto é muito ténue, dos poucos preditores do voto que nos ajudam a distinguir os eleitores entre si em eleições legislativas (em particular os do PCP e do BE dos do PS e os do PP dos do PSD). E como já referi aqui, nas sondagens sobre intenções de voto, a religiosidade era um dos principais preditores do voto "Não". E como não? E que mal tem assumi-lo? Porquê procurar contornar o incontornável? Não percebi.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

"Abstenção técnica"

O último número da revista "Eleições", editada pelo Stape (.pdf 3.65MB) tem vários artigos interessantes, entre eles um da autoria de Paulo Machado e Carla Gomes, intitulado "Mudança Social em Portugal: Contributos para uma Interpretação Sumária com Recurso à Base de dados do Recenseamento Eleitoral".

O objectivo do artigo é outro. Mas de passagem, os autores comparam o apuramento do recenseamento eleitoral em 2001 (Abril) e 2005 (Dezembro) com o recenseamento populacional do INE de 2001 (Março) e as estimativas, também do INE, em 31/12/2005, respeitante à população residente com 18 ou mais anos. Para 2001, encontram uma diferença de 4,9%, a favor do RE, valor que eu tinha em mente quando escrevi isto. Contudo, para finais de 2005, esta diferença é estimada em 2,1%. Tudo isto tem de ser encarado com mil cuidados, vários deles explicados no artigo. Mas é possível, afinal, que o problema da abstenção técnica não seja tão grave como se menciona aqui (nem tão grave como eu próprio tenderia a pensar que era).

Fadiga eleitoral, 2

Os meus apelos, pelos vistos, não produzem efeitos.

Sobre a participação eleitoral em referendos

Depois de ler o que se foi escrevendo, cito, pela quarta ou quinta vez, este útil texto (.pdf):

One of the first issues that arises in comparing referendum and election campaigns is that of voter turnout. Evidence suggests that turnout can vary much more widely in referendums than it does in elections. In Switzerland, where referendums are commonplace events, turnout is generally well below 50%, and can sometimes be much lower (Kobach, 1993). It can however rise to considerably higher levels when a particular issue engages wide voter interest or when a more intense campaign is waged by interested groups. In U. S. state referendums, turnout is notoriously low, and can be subject to even more extreme fluctuations. Butler and Ranney (1994) found that turnout over a large number of referendum cases in various nations averaged fifteen percentage points lower than that found in general elections in the same countries. Cronin (1989) found a comparable rate of "drop-off" -- i.e. the difference between voting the candidate and propositions sections of the ballot -- in American state referendums.

However, there is no reason to believe that turnout in referendums is necessarily lower than that found in elections. The turnout in some of the more important European referendums has generally been comparable to that found in national elections (table 3), and turnout in the 1995 Quebec sovereignty referendum registered an astonishing 94%, higher than in any provincial or federal election. Other important referendums in which turnout registered higher than that of a comparable election (table 3) are the 1992 Canadian constitutional referendum (+5), the 1994 Norwegian EU membership referendum (+13), the 1993 Danish referendum on the Edinburgh agreement (+3), and the 1993 Russian referendums (+12, +5). But clearly, a referendum held separately on a less salient issue runs the risk of lower voter participation. The 1992 New Zealand referendum on electoral reform (-28), the Puerto Rico statehood plebiscites (-9, -12), the 1980 Swedish nuclear power referendum (-15), and the 1986 Spanish referendum on NATO (-11) are all cases in which turnout fell significantly below that of the most nearly comparable election."

Em resumo: pode ser alta, especialmente quando diz respeito a questões de "regime", mas é, em geral, mais baixa do que em eleições de "primeira ordem", como não podia deixar de ser.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Wishful thinking

De um amigo:

"Fiquei um pouco intrigado com o teu optimismo sobre as boas práticas relativamente aos eleitores potenciais. Vou ter que reler os jornais para ver o que me escapou. Explicação alternativa que me passou pela cabeça:

- os votantes efectivos foram um retrato do “sentimento” subjacente da população - o que seria óptimo para o SIM, porque reforçaria a legitimidade para continuar apesar de o referendo não ser vinculativo;

- ter havido, no caso presente, uma correlação mais forte do que é normal entre disposição a responder aos inquéritos e disposição a votar."


Pois é. Só me baseio no facto de, conhecendo algums inquéritos feitos, ter notado a existência de baterias de perguntas destinadas a modelar a probabilidade do voto, coisa que sempre achei ter merecido pouca atenção no passado. E de nas eleições de grande abstenção - europeias e referendos - a precisão das sondagens ter vindo a aumentar e o grau de dispersão entre resultados ter vindo a diminuir. Mas a verdade é que este último aspecto se correlaciona também com o facto do trabalho de campo, a partir de 2000, poder ser conduzido até mais tarde. Logo, a verdade é que não tenho realmente elementos que me permitam dizer que, se os resultados da maior parte das sondagens foram o que foram, foi porque quem fez os inquéritos conseguiu distinguir bem entre os votantes prováveis e os outros. Wishful thinking, reconheço.

A vinculatividade dos referendos

Anda por aqui uma discussão que me interessa muito, até porque já escrevinhei umas coisas sobre o tema: se deve ou não haver um quórum mínimo para a vinculatividade dos referendos.

Um dos argumentos que já apareceu nessa discussão - e que já tinha aparecido aqui - é o de que a própria pergunta, colocada nestes termos, é meramente formalista, dado que, como temos visto, a vontade maioritária é politicamente interpretada como vinculativa independemente de o ser ou não do ponto de vista formal.

Bem, estou a pensar e a escrever um pouco à pressa, mas acho que temos de ter cuidado aqui. Isso foi verdade nestes três referendos que tivemos. Mas noutros, o problema pode ser politicamente colocado de outra forma. Se até neste referendo da despenalização do aborto, com uma participação que, descontada a abstenção técnica, não deverá ter andado longe dos 50%, há gente (vagamente lunática, admito) capaz de levantar a questão, noutros temas - Constituição Europeia, por exemplo, pelos efeitos vastíssimos que produz a sua aprovação ou reprovação - a questão pode ser colocada de forma muito mais premente, se se entender ser politicamente vantajoso fazê-lo.

Mas agora, note-se: há um detalhe que eu terei ignorado e que pode fazer a diferença. Deixei-me influenciar muito pelo caso italiano nesta reflexão, onde de facto tem havido, por parte dos partidos e da Igreja, uma recorrente actuação estratégica quer no sentido de "ausência de mobilização" quer de verdadeiros apelos à abstenção, em ambos os casos procurando garantir que o resultado não fosse vinculativo.

Esqueci-me, contudo, que o caso italiano é diferente do português num aspecto possivelmente fulcral. Em Portugal, o que é referendado é uma medida susceptível de ser objecto de legislação por parte da AR. Já em Itália, a regra do quórum aplica-se aos referendos do art. 75. E os referendos do art. 75 são os referendos abrogativos, ou seja, aqueles através dos quais os eleitores se pronunciam sobre se uma lei já aprovada deve ser revogada ou alterada ("Sim") ou preservada ("Não"). Logo, a vinculatividade ou a falta dela têm efeitos automáticos independentemente da "intepretação política" que dela se faça: se for Sim vinculativo, a lei é alterada ou revogada; se for Não, vinculativo ou não, ou mesmo um Sim não vinculativo - e é aqui que o jogo da desmobilização tem sido feito - a lei mantém-se em vigor.

Logo, um "Sim" ser ou não vinculativo tem sempre consequências importantes em Itália. Em Portugal, creio, dependerá do tema. Estarei a ver bem a coisa?

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Fadiga eleitoral

Há muita coisa escrita por (.pdf) sobre o papel da "fadiga eleitoral" na abstenção. Mas "fadiga eleitoral", para mim, é ter seis eleições (Europeias 2004, Regionais 2004, Legislativas 2005, Autárquicas 2005, Presidenciais 2006, Referendo 2007) e treze sondagens à boca das urnas (contando duas nas regionais e sete nas autárquicas) em menos de três anos. Um apelo sentido, então, à contenção no uso futuro do referendo e à solidariedade com o Professor Carmona.

Rescaldo

Os resultados provisórios do referendo de ontem são conhecidos:

Portugal:
Sim: 59,25%
Não: 40,75%

Continente:
Sim: 60,3%
Não: 39,7%

Apesar de serem provisórios, escusamos de estar com excessivos preciosismos e podemos partir deles para avaliar como correram as sondagens.

1. Pré-eleitorais: seguindo a sugestão deste leitor, os resultados das sondagens pré-eleitorais devem de facto ser comparados com os resultados no Continente e não com os resultados nacionais, dado que o universo destas sondagens é o conjunto dos eleitores no Continente. Noutras eleições isso costuma fazer pouca diferença, mas neste referendo (tal como em 1998) a inclinação forte dos Açores e da Madeira para o "Não", em contraste com o resto do país, fazem com que, apesar de tudo, haja uma diferença de um ponto percentual em relação aos resultados nacionais.



Olhando para o quadro anterior, é fácil perceber que TNSEuroteste, Intercampus e Católica (por esta ordem) foram quem, a uma semana ou pouco menos das eleições, mais se aproximaram daqueles que vieram a ser os resultados finais. Já a Aximage, apesar de, curiosamente, ter um trabalho de campo mais tardio, ficou um pouco mais longe que os outros três institutos. A Eurosondagem mais longe ainda. Andava, aliás, desalinhada dos restantes institutos desde o início, e assim continuou no fim. Compare-se isto com as presidenciais e os desvios na estimação dos resultados de Cavaco Silva ou com as legislativas e os desvios na estimação dos resultados do PS para percebermos como os referendos trazem, apesar de tudo, mais dificuldades do que outras eleições.

2. Sondagens boca das urnas: aqui, a comparação deve ser com os resultados nacionais. Nuns casos porque, verdadeiramente, os institutos de sondagens conduziram trabalho de campo nas regiões. Nos outros porque, mesmo que não haja trabalho de campo nas ilhas, as ditas "projecções" têm sempre ajustamentos de forma a poderem inferir de alguma forma esses resultados e o seu impacto nos resultados nacionais.



Neste caso, foi a Católica que ficou mais perto, mas as diferenças entre os diversos institutos são reduzidas: as projecções estiveram fundamentalmente correctas.

Em resumo: o cepticismo em relação às sondagens eleitorais que davam uma vantagem confortável ao Sim era exagerado. Isto é uma boa notícia: que se consiga fazer sondagens relativamente precisas em eleições com 56% de abstencionistas significa que há boas práticas na estimação dos votantes prováveis.

sábado, fevereiro 10, 2007

Correcção

Sem querer perturbar a vossa "reflexão", um e-mail de um leitor:

"No quadro do seu post "As sondagens de 1998" há um detalhe que talvez não seja muito rigoroso - é que não se pode comparar os valores das sondagens com os resultados nacionais globais: por norma, as sondagens são só feitas em Portugal continental. Ora, no "continente" o resultado não foi "49,1% - Sim; 50,9% - Não", foi mais algo como "50,3% - Sim; 49,7% - Não", o que quer dizer que as sondagens não falharam tanto como isso (pelo menos acertaram no vencedor, no contexto da população estudada)."

O leitor tem razão.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Factores de incerteza

E na verdade, são boas as razões para esse sentimento de incerteza:

1. Começa por aqui: sondagens realizadas num curto intervalo de tempo chegam a conclusões bastante diferentes sobre a relação de forças entre intenções de voto "Sim" e "Não". É quase certo que, no momento em que foram feitas, se possa dizer que entre os eleitores as intenções em votar "Sim" eram mais numerosas que as intenções em votar "Não". Mas quanto mais numerosas? E acresce a isto a percentagem considerável daqueles que dizem tencionar votar mas que se encontram indecisos (entre 6 e 17%). Nas legislativas de 2005, por exemplo, não passavam, na pior das hipóteses, de 10%.

2. Continua por aqui: reparem, por exemplo, na notável estabilidade das intenções de voto nas legislativas. Vejam como só nas sondagens da última semana essa estabilidade foi quebrada nas presidenciais. E como tudo tem sido diferente e mais volátil neste referendo. Nada disto é inesperado:

"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."

3. Aumenta quando olhamos para isto. Nenhuma sondagem em 1998 foi feita a tempo de tirar uma fotografia que fosse igual àquilo que, vários dias depois, acabou por suceder. Quem nos diz que a dinâmica de 2007 não é semelhante?

Dito isto, não quero que se saia daqui só com dúvidas absolutas. Há, pelo menos, uma afirmação probabilística que se pode fazer na base dos dados disponíveis: as chances de vitória do "Sim" são maiores hoje do que em 1998. A vantagem do "Sim" parece ser maior a menos tempo da eleição do que era em 1998 a mais tempo (não esquecer que as últimas sondagens de 1998 foram realizadas com maior distância do dia do referendo). É altamente provável que a participação eleitoral seja mais elevada o que, em princípio - "em princípio", noto - deverá favorecer o "Sim". Mas certezas? Impossível.

E agora, chega de sondagens. O que conta é o voto.

P.S.- Desculpem todas as "auto-ligações", mas foi para poupar tempo.

As sondagens interpretadas na imprensa

As expectativas partilhadas pelos jornalistas sobre o que irão ser os resultados são facilmente inferidas na base do tratamento dado às sondagens na imprensa.

1. Destaque de primeira página no Expresso para os votos válidos no "Sim": 53,1%.

2. Jornal de Notícias: 58% na primeira página, mas em letra pequena. Ênfase na peça à possível desmobilização dos jovens.

3. Público: é quase preciso virar o jornal do avesso para descobrir os 62% e toda a ênfase da peça é na "descida" do Sim e nos factores de incerteza.

Em resumo: independentemente dos resultados das sondagens, a incerteza é grande e ninguém acredita em vantagens confortáveis do "Sim".

Interlúdio

«A Universidade Católica, que é um instrumento do não, apresentou a espantosa sondagem de 16% de diferença para o sim, pretendendo que as pessoas não votem. Temos que garantir todos os votos, porque em 1998 as sondagens davam a vitória ao sim e depois tal não aconteceu, por um voto se ganha e por um se perde», afirmou Jerónimo de Sousa, num encontro realizado no Ginásio Atlético Clube, na Baixa da Banheira.

Dispersão

É grande. Reparem, de uma forma muito simples, nas sondagens divulgadas na última semana nas legislativas de 2005, nas presidenciais de 2006 e agora:




Em 2005 e 2006, as sondagens davam estimativas muito aproximadas para a votação no PS ou em Cavaco. Hoje, 9 pontos separam as estimativas máxima e mínima para o "Sim".

Tendências 2

Para perceber se há mudanças significativas de curto prazo, corri uma regressão linear simples com a percentagem de votos válidos no "Sim" como variável dependente e variáveis independentes "dummy" (o e 1) medindo se uma sondagem foi realizada por este ou aquele instituto e três variáveis "temporais": "Antes de Janeiro" (sondagens realizadas entre Outubro e Dezembro); "Janeiro"; e "Fevereiro". Eis os resultados:





A interpretação é simples: quando controlamos os efeitos do facto de diferentes sondagens terem sido realizadas por diferentes institutos, a estimativa de votos válidos no "Sim" tem vindo sempre a descer: 65% antes de Janeiro, 61% em Janeiro e 57% em Fevereiro. Esta análise está muito condicionada pelo facto de termos poucos casos (21 sondagens) e do "mix" concreto de institutos que realizaram sondagens em determinados períodos de tempo. Mas é o que se pode (ou o que sei) fazer. Os valores estimados para cada período visam apenas avaliar a existência de tendências estatisticamente significativas. E confirma-se também a Eurosondagem como "outlier", com estimativas significativamente abaixo das dos restantes institutos ao longo do período (o que não significa uma avaliação da precisão de uns ou outros).

Tendências 1

O que nos dizem as últimas sondagens à luz daquilo que já sabíamos sobre a evolução das intenções de voto?

Olhando para os dados em conjunto, continua a ser manifesta uma tendência de "médio prazo" de descida dos votos válidos no "Sim" a partir do início de Janeiro. Mas o declive tornou-se menos acentuado com as últimas sondagens.