sexta-feira, novembro 16, 2007

A regulação das sondagens

Só pude assistir a dois painéis da conferência que a ERC organizou sobre a regulação das sondagens. Ao que parece, terei perdido o mais divertido, o do dia 14 de manhã, em que participaram alguns deputados. Um deles terá proposto que, para evitar a multiplicação de "erros", "fraudes" e "manipulações" em que o sector é, pelos vistos, pródigo, se deveria criar um "instituto público" dedicado a realizar sondagens, sob a dependência (sic) da Assembleia da República. Outro terá defendido o agravamento de multas a aplicar aos institutos de sondagens, sugerindo que a ERC passe também a utilizar como parâmetro da aplicação desses multas o grau de precisão com que as sondagens "acertam" nos resultados eleitorais.

Não vale a pena perder muito tempo a comentar estas duas pérolas. O exemplo do Centro de Investigaciones Sociológicas em Espanha, se os nossos deputados o conhecessem, talvez tivesse chegado. O CIS, dependente do governo espanhol, cumpre - como também foi explicado ontem por um membro da audiência - uma função importante, a de realizar inquéritos por questionário sobre temas de interesse público e académico. Mas quando se mete em sondagens político-eleitorais a coisa, geralmente, corre mal. Não é nem mais "preciso" nem "impreciso" que os privados e tudo o que faz é encarado - justa ou injustamente - sob um princípio de suspeição de favorecimento do governo do dia. Como assinalava Rui Ramos ontem à tarde, se se pusesse um "instituto público" a fazer as sondagens eleitorais, então é que nunca mais ninguém acreditava nelas. Sobre as multas para quem "não acerta", enfim, que dizer? Eu proponho que da próxima vez que um jornal pedir a um painel de economistas que faça previsões económicas para o ano seguinte haja um organismo público que, um ano depois, confronte as previsões com a realidade. Se falharem, multe-se.

Mais interessante é perceber que, excluindo os nossos deputados, os restantes actores relevantes - institutos, imprensa e regulador - começam a convergir num conjunto de ideias bastante sensatas. A primeira é a necessidade de mudar a legislação de forma a corrigir a sua falta de clareza e, nalguns casos, os seus erros técnicos, de que Vidal de Olveira deu alguns exemplos no dia 14 à tarde. A segunda é a ideia de que se deve clarificar quais os elementos técnicos da sondagem que devem ser obrigatoriamente divulgados pelos órgãos de comunicação social nas noticias sobre sondagens e quais devem ser publicitados de outra forma, seja através de um site da ERC, dos sites do órgãos de comunicação social ou dos próprios institutos.

Mais: que esses elementos mais completos da ficha técnica devem ser muito mais exaustivos do que são hoje e homogeneizados (para permitir comparabilidade). Aquilo que é depositado na ERC (e que é muito mais completo do que o que vem normalmente na comunicação social) deve ser mais completo e sistemático ainda e totalmente colocado ao dispor do público, para que os leitores interessados possam conhecer tudo aquilo que pode ajudar a explicar os resultados (e, logo, para que quem faz sondagens saiba que aquilo que está a fazer pode ser publicamente escrutinado e analisado pelos pares, especialistas e quaisquer pessoas interessadas). O resto é algo que o debate, a análise e a concorrência acabam por resolver. Aqui, é possível que alguns institutos venham a colocar resistências a esta ideia, alegando usar técnicas ou algoritmos "especiais", da sua própria "invenção", que constituem "tecnologia proprietária" e que não querem "ceder" à concorrência. Estas resistências têm que ser descritas como aquilo que realmente são: disparates algo suspeitos. Não há nada que qualquer instituto de sondagens use em Portugal que não tenha sido já "inventado", aplicado, testado, comentado e analisado noutro sítio qualquer. E se alguém tivesse realmente "inventado" alguma coisa genial, certamente já teria feito saber disso na literatura especializada.

Finalmente, começa a haver consenso em torno da necessidade de formas de co-regulação ou auto-regulação. E é curioso que seja o próprio regulador a desejar e estimular essa ideia. No relatório da ERC de 2006, os dois exemplos internacionais dados são de órgãos de auto-regulação (o NCPP e o BPC) e, no encerramento da conferência, foi o próprio membro da ERC com a tutela das sondagens que defendeu a ideia. Tudo bons sinais.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Popularidade

Tenho andado desleixado, mas aqui está, com as últimas sondagens Marktest e Eurosondagem. Não há novidades, pelo que isto é só para memória futura. Quanto a Menezes, ainda é cedo.




terça-feira, novembro 13, 2007

Outlier: Panda Bear

Vocês desculpem todos que eu devo andar completamente distraído. E também devo andar bastante farto de sondagens, caso contrário não traria este assunto para aqui. Mas andava muito entretido a ouvir isto quando me fizeram saber que ele vive em Lisboa. Em Lisboa? Isto é como viver em 1966, andar a ouvir o Pet Sounds e encontrar o Brian Wilson a comer torradas num café em Campo de Ourique. Ainda estou a tentar encaixar a coisa.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Gattopardo, Outubro-Novembro 2008, N à volta dos 1000, Online

O Instituto de Sondagens Político-Eleitorais do Principado de Lampedusa resolveu conduzir uma sondagem online sobre o Tratado de Lisboa. Tal como sucede com todas as sondagens online de participação voluntária, esta também diz mais sobre os autores do que sobre outra coisa qualquer. O facto das opções de resposta serem oferecidas em rima - ideia que tenho vindo a ponderar para as sondagens da Católica - é um primeiro sinal. Depois vêm os próprios resultados, consequência do perfil dos leitores do blogue e logo, de alguma forma, espelho dos autores: a tendencial recusa das opções extremas ("Admirável" ou "Inaceitável") e a distribuição mais ou menos equitativa pelas opções restantes. Mas o melhor de tudo é mesmo o facto das opções de resposta oferecidas aos votantes não serem sequer mutuamente exclusivas. É um erro elementar na construção dum questionário, claro. Mas é acerto elementar em, digamos, tudo o resto. Aliás, foi disso que sempre gostei nos responsáveis deste instituto: para eles, as opções de resposta nunca são mutuamente exclusivas. Acho até que Pascal tinha uma frase boa sobre este assunto (e sobre todos os outros, de resto).

segunda-feira, novembro 05, 2007

Sobre os rankings e o "cheque-escolar"

No Público de ontem, sobre os rankings, para além de ser provavelmente o primeiro colunista na história da imprensa escrita a usar a expressão Hierarchical Linear Modelling num jornal de grande circulação, André Freire diz o óbvio, mas um óbvio que vale a pena repetir:

Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas.

Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.

Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.

Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando o relatório que André Freire menciona no seu artigo:

"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."

Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.

Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais. Dou um exemplo: é quase garantido que uma das coisas que mais deverá potenciar o bom desempenho dos alunos de escolas altamente selectivas no seu recrutamento é não apenas o facto de cada um dos alunos estar mais bem equipado para o sucesso escolar mas também o facto das turmas onde esses alunos estão serem compostas por um conjunto de alunos homogeneamente bem equipados para o sucesso. O primeiro efeito é individual; o segundo é contextual.

Disto isto, um ponto adicional sobre o cheque-escolar. Independentemente da minha opinião sobre o assunto - que confesso ainda não sei bem qual é - suspeito que a ideia tem muito menos receptividade entre os proprietários e dirigentes das melhores escolas privadas portuguesas do que aquilo que os defensores da ideia imaginam.

Primeiro, porque a introdução do cheque-escolar poderia levar ao que acabou por suceder na Suécia, ou seja, a proibição de cobrança, pelas escolas privadas, de mensalidades adicionais acima do valor do voucher (em moldes semelhantes, por exemplo, aquilo que defende o Partido Conservador no Reino Unido). Para as melhores escolas privadas portuguesas, que têm procura muito superior à oferta e cobram mensalidades muito superiores àquilo que o valor do "cheque-educação" alguma vez poderá ser no contexto português, uma medida destas seria um desastre.

Segundo, a introdução do voucher quase certamente obrigaria a regulação e monitorização dos critérios de admissão. Tal como sucedeu na Suécia, as escolas inscritas no esquema deixariam de poder recusar a admissão de alunos menos qualificados. Isto seria igualmente desastroso para as melhores escolas privadas portuguesas. Por um lado porque, como já vimos, é altamente provável que a homogeneidade das turmas "por cima" seja um factor favorável não só - como é óbvio - para o desempenho "agregado" das escolas (que essas escolas querem manter a altos níveis de forma a preservarem altos níveis de procura) como também para o desempenho individual de cada um dos alunos. Por outro lado, uma das maneiras como as melhores escolas privadas colocam um "premium" adicional ao produto que estão a vender consiste em restringir os critérios de admissão através de "cunhas". Como qualquer pessoa de classe média-alta que tenha filhos em idade escolar (ou que tenha amigos nessas condições) sabe perfeitamente, são raríssimos os casos de alunos que entram nos melhores colégios privados em Portugal sem "cunha" (talvez o St. Julian's seja a excepção, mas nem disso estou certo). Isto cumpre uma função essencial: preservando a homogeneidade social dos colégios através de um recurso às redes sociais dos pais, estes ficam a saber que, ao colocarem o filho no colégio, estão também a dar-lhe acesso a uma rede de relacionamentos que traz consigo uma coisa simples mas fundamental: capital social. Os vouchers colocariam isto em risco, e isto é algo que nenhum bom colégio privado (nem os pais que os procuram) querem realmente perder. É triste? Talvez. Mas é assim.

quarta-feira, outubro 31, 2007

"Centro de Estudos da Universidade Católica"

Têm circulado muitas notícias sobre um trabalho realizado por um" Centro de Estudos da Universidade Católica" para o Instituto Nacional de Administração, que analisa percepções e opiniões de cidadãos com idades entre os 30 e os 39 anos residentes em Lisboa e no Porto e de dirigentes da administração pública sobre o serviço público. Para que não haja confusões, que fique claro que o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica (CESOP), que dirijo, e de que normalmente se fala quando se trata de sondagens de opinião, não esteve envolvido neste trabalho. O "Centro de Estudos" mencionado pela comunicação social neste caso é outro, e o trabalho de recolha e análise de dados foi conduzido por um empresa chamada APEME (que por acaso conheço bastante bem).

terça-feira, outubro 30, 2007

"Why beautiful people have more daughters"

A propósito deste livro - mencionado no Blasfémias - onde se defende, entre outras coisas, "que a biologia humana teria evoluído no sentido de as pessoas mais atraentes gerarem mais filhas do que filhos" (ou que os homens com maiores níveis de rendimento têm mais sexo, ou que os engenheiros têm mais filhos que filhas), vale a pena vale a pena ler este post (e este artigo ou este). Há ideias tão irresistivelmente intrigantes que mesmo a sua falta de sustentação empírica não constitui obstáculo à sua propagação.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O referendo europeu

O que eu acho sobre este assunto está hoje no Público e estará amanhã aqui. Mas não queria deixar de assinalar duas coisas:

1. A citação que mais circula do PM sobre este assunto é a seguinte: "a ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo". Mas queria chamar a atenção para o resto:

"Também compreendo todos os que acham que foi feita uma promessa por dois partidos de que haveria referendo, embora as condições sejam muito diferentes"

Ou seja:
a. Para o PM, ter havido ou não promessa é uma questão subjectiva ("os que acham que foi feita uma promessa");
b. O PM tem compreensão por essas pobres almas iludidas;
c. "As condições são muito diferentes".


2. Um quadro de um artigo de Russell Dalton e outros publicado no Journal of Democracy:



É muito curioso - e em rigor pouco surpreendente - que o apoio tenda a ser maior nos países que têm menos referendos do que nos países que os mais têm...

sexta-feira, outubro 26, 2007

Marktest, 16-19 Outubro

Comparar resultados de diferentes institutos de sondagens entre si é perigoso, tendo em conta todas as diferenças metodológicas, desde a amostragem, à formulação das perguntas e respostas possíveis, ao modo de inquirição, métodos diferentes de redistribuição de indecisos, etc. Mas há apesar de tudo boas notícias para quem gosta de ver resultados relativamente congruentes entre diferentes sondagens:

1. A descida no PS detectada desde Maio pela Católica é congruente com os resultados da Marktest. Desde Maio, a estimativa de resultados eleitorais para o PS na Marktest desceu de 47% para 37% (de 46% para 41% na Católica);

2. Igualmente congruente é o facto de Sócrates aparecer com um saldo negativo de 21 pontos no barómetro Marktest: 54% avaliam negativamente a sua actuação, enquanto 33% fazem-no positivamente. Este é o pior resultado de sempre para o PM no barómetro Marktest, rivalizando apenas com os resultados de Setembro de 2005. Para a Católica, a avaliação média de 0-20 pontos feita pelos eleitores de Sócrates (8,9 valores) na sondagem mais recente é também a pior de sempre.

3. Menezes aparece comparativamente bem colocado na sondagem da Católica, com uma avaliação média de 9,9 pontos em 20. Na sondagem Marktest, aparece com um saldo de 2% (quase tantas pessoas a fazerem uma avaliação negativa como as que fazem uma avaliação positiva). Mais parecido, apesar do uso de perguntas e escalas distintas, seria difícil.

E se foram verificar a hierarquia dos ministros verão que, apesar dos instrumentos de medida serem diferentes, as semelhanças são muito claras.

Nunca se sabe se até que ponto os resultados de uma sondagem concreta podem ser fruto do acaso, mas isto deixa-me muito mais descansado. E outra coisa que me descansa, no que respeita à popularidade do Primeiro Ministro, é que, pelos vistos, o mundo não é completamente imprevisível.

CESOP, 20-21 de Outubro

Os dados fundamentais da sondagem da Católica estão no JN. Destacaria dois resultados. O primeiro é uma má notícia para o governo; o segundo é uma má notícia para o PSD.

1. O declínio da popularidade do governo e do Primeiro Ministro e a descida do PS nas intenções de voto. Pela primeira vez nos estudos da Católica, Sócrates não é o líder partidário com melhor avaliação por parte dos eleitores. Piora a avaliação de todos os membros do governo desde o último estudo (Maio de 2007) - com a excepção de Luís Amado- e não há ministros que mereçam, na média dos eleitores que os dizem conhecer, uma avaliação positiva. Finalmente, o PS desce nas intenções de voto.

A minha interpretação do fenómeno é ligeiramente diferente daquela que é feita nas páginas do JN, onde se sugere que é a descida do PS que "arrastou José Sócrates na queda". É muito mais provável que estejamos a observar o fenómeno inverso. As intenções de voto são influenciadas por muitos factores de curto prazo, mas também por coisas que mudam pouco e devagar : simpatia partidária e posicionamento ideológico, por exemplo. Logo, sendo muito difícil estabelecer relações de causa e efeito e fenómenos como este e com este tipo de dados, é muito mais plausível que seja a degradação da imagem do governo e do Primeiro-Ministro que esteja a "arrastar o PS na queda" do que o inverso. De resto, a queda do PS, sendo real, é também mitigada, não só porque é sustida por predisposições de longo-prazo dos eleitores mas também pela percepção de que a oposição não se constitui (ainda?) como real alternativa.

2. Uma clara maioria deseja um referendo ao Tratado. Como imaginam, a minha surpresa é nula. O que não imaginava é que a diferença entre os núcleos duros dos eleitorados do PS e do PSD fosse tão clara. Enquanto que os simpatizantes do PSD se repartem da mesma forma que o eleitorado em geral, os simpatizantes do PS estão divididos.

Notem-se as implicações disto. Por um lado, se Sócrates optar contra o referendo, vai ter menos trabalho que Menezes a convencer o seu eleitorado da inconveniência da coisa. Por outro lado, se Sócrates decidir, afinal, ir para a frente com o referendo*, o PSD entra em curto-circuito: em vez de concordar com a posição do líder do partido, a maioria dos eleitores do PSD fica de acordo com a liderança do partido adversário. O que confirma, claro, a validade de uma das regras básicas na política e na vida: é sempre melhor ficar calado do que falar cedo demais.

*Mas note-se que, claro, quem "decide" não é Sócrates...

quarta-feira, outubro 24, 2007

Outlier: o essencial e o acessório

Verifico que há quem esteja disponível para defender James Watson, apesar do seu racismo, porque isso pelos vistos serve para atacar os perigosos excessos do "politicamente correcto". Verifico também que há quem tenha desenvolvido um inesperado apreço pelos gémeos Kaczynski, apesar de terem sido responsáveis por regulares atropelos a algumas regras bastante elementares da democracia no seu país, simplesmente porque isso dá jeito para atacar o défice democrático da União Europeia, os excessos do tratado, a eurocracia e mais não sei o quê. E estes são os casos mais recentes, mas não muito diferentes, por exemplo, dos admiradores do actual presidente da Venezuela cuja principal (para não dizer única) explicação para a sua condição de fãs é o facto do homem "mandar vir com o Bush" (para citar um taxista que me transportou há umas semanas atrás, que isto dos taxistas, afinal, é um bocado mais complicado do que eu imaginava).

Na maior parte dos casos, estas parvoíces são completamente inofensivas. Mas quando acontecem em grande escala podem ser verdadeiramente deprimentes. Julgo que a última vez que isso sucedeu foi quando muitas pessoas que eu pensava serem bastante decentes defenderam a administração Bush e a invasão do Iraque, muito para além do que a simples racionalidade ainda admitia, porque isso lhes era conveniente para atacar a "complacência com o terrorismo" e o "anti-americanismo primário" de meia-dúzia de esquerdistas avulsos. Subordinando assim o essencial - aquilo que nos une como pessoas decentes- ao acessório - a possibilidade de ganhar uns feijões na luta contra adversários políticos domésticos, muitos deles politica e socialmente irrelevantes e alguns deles pura e simplesmente imaginários. Mas eu quero crer que tudo não passa de uma espécie de tique. Eles sabem que é estúpido e até queriam parar, mas é mais forte que eles. Haja paciência.

terça-feira, outubro 23, 2007

Truthiness


Os números de Stephen Colbert, na primeira sondagem: menos de 1% nas primárias do Partido Republicano, mas 2,3% nas primárias do Partido Democrata, à frente de Bill Richardson, Dennis Kucinich e Mike Gravel. A brincar, a brincar...

segunda-feira, outubro 22, 2007

Polónia

Três boas notícias da Polónia, para o meu gosto, pelo menos:

1. A derrota do PiS, dos gémeos Kaczynski.

2. O aumento da participação eleitoral, de 40 para 55 por cento, o que terá ajudado à precisão das sondagens pré-eleitorais.

3. A exclusão do parlamento, através de uma cláusula-barreira de 5%, da "Liga das Famílias Polacas" (ultraconservador e nacionalista) e da "Auto-Defesa da República da Polónia" (proteccionista e isolacionista).

Não se sabe ainda se a Plataforma Cívica terá maioria absoluta ou se precisará de fazer uma coligação com o Partido Popular Polaco. E importa não esquecer que um dos Kaczynski continua a ser o Presidente da República. Vai ser um teste interessante para o semipresidencialismo polaco.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Contaminações

Antes de mais, para não fazermos de conta que há discussões bacteriologicamente puras:

1. Pessoalmente, gostaria que o tratado ontem acordado fosse referendado, como penso que já se depreendia do último parágrafo disto;
2. Se houver referendo, a minha inclinação (não definitiva) seria a de votar a favor da sua ratificação.

Agora a discussão: Pacheco Pereira (JPP) preferia que as sondagens sobre se o tratado ontem acordado deveria ou não ser submetido a referendo tivessem tido lugar antes do acordo de ontem. Segundo JPP - espero estar a interpretar correctamente - o facto do acordo ter sido obtido (e todo o folclore patrioteiro que temos visto) "inquina" os resultados, impedindo que possamos obter uma medida mais "limpa" das atitudes dos eleitores. Também segundo JPP, dizer-se que é preferível fazer a sondagem depois do tratado "existir" é um argumento falacioso, porque o tratado já "existe" há muito tempo nos seus aspectos fundamentais.

Ora bem:

1. Não duvido que o "facto consumado" venha a afectar os resultados. Mas o que queremos realmente saber da opinião pública portuguesa: aquilo que os portugueses desejavam antes do acordo ter sido conseguido, ou aquilo que desejam depois do acordo? Em rigor, quereríamos saber ambas as coisas, até para podermos medir o efeito da obtenção do acordo (e de todo o folclore, etc.). Mas não tendo sido possível mobilizar recursos financeiros para fazer duas vagas da sondagem (ou mesmo um painel, que teria sido o ideal), então acho que, se tivesse de escolher (e tive), é preferível depois. "Depois" é, afinal, a "realidade". É aquilo que se passou. É aquilo com que todos, oponentes e apoiantes do referendo, oponentes e apoiantes do tratado, temos de lidar daqui para frente.

2. Faço assim notar que a minha preferência pelo "depois" nada tem a ver com o conteúdo do tratado, desconhecido, antes e depois (pelo menos a curto prazo, e provavelmente a longo), da esmagadora maioria dos europeus. Defender o contrário seria, concordo, uma falácia, mas não é o conteúdo do tratado que interessa a este nível: é o seu significado político, do qual, para o bem e para o mal, faz parte o acordo obtido ontem em Lisboa.

3. Dito isto, estaremos cá para ver, mas não creio que vá fazer grande diferença fazer a sondagem antes ou imediatamente depois. Como quis fazer notar na primeira parte deste post, o apoio aos referendos é generalizado, certamente antes e provavelmente nos próximos dias. Mais interessante será saber como irão os eleitores reagir à discussão que se seguirá, e em particular às mensagens que vão receber dos líderes partidários sobre a conveniência ou inconveniência do referendo. Vai ser, aliás, um teste interessante à capacidade dos partidos para persuadirem os eleitores, caso se verifique que, na comparação entre as opiniões dos próximos dias e as opiniões das próximas semanas, existem diferenças significativas, e que esses diferenças estejam correlacionadas com coisas como a identificação partidária, por exemplo.

Ainda sobre referendos

1. Vale a pena ler, para quem tiver acesso à B-On, este artigo saído no mês passado, de Shawn Bowler, Todd Donovan e Jeffrey Karp, onde se mostra, entre outras coisas, como o apoio à democracia directa como forma de tomar decisões políticas é esmagador nas democracias industrializadas.


Mostra-se também no artigo como esse apoio não vem apenas das pessoas mais desencantadas com o funcionamento da democracia representativa. Ele vem ainda mais, simplesmente, da parte das pessoas que se interessam mais pela política e desejam mais oportunidades de participação, sem necessariamente exibirem maiores níveis de desconfiança em relação ao sistema político.
Logo, há determinadas interpretações que convém não fazer dos resultados desta sondagem. Não creio que haja uma predisposição especial para referendar o tratado hoje aprovado. O que há é um apoio generalizado ao instituto do referendo, para este tratado e tudo o resto. E não parece que haja um apoio ao referendo baseado na desconfiança em relação às elites políticas. O que há, pelo menos tanto como essa desconfiança, é vontade e interesse em participar. O problema é se as elites começam a dar a ideia de que "conspiram" para impedir essa participação....

2. Para fazer a vontade a Pacheco Pereira, a sondagem da Católica que vai para o campo neste fim de semana coloca a questão. Estou a brincar: o questionário estava preparado desde a semana passada. Quanto ao "inquinado", é relativo. O que é mais realista e com consequências para o futuro: saber se se deseja o referendo a um tratado antes ou depois dele existir?

quinta-feira, outubro 18, 2007

Referendo

Salvaguardando o facto de, quando questionados em sondagens, os eleitores de todos as democracias desejarem maioritariamente submeter todos os assuntos a referendos, isto não é, apesar de tudo, propriamente irrelevante:

Voters in five EU countries want treaty referendum - poll
LONDON (Thomson Financial) - A substantial majority of voters in five large European Union countries want a referendum on the bloc's new reform treaty, according to a poll published Thursday. The Financial Times/Harris survey showed that 70 pct of respondents in Britain, France, Germany, Italy and Spain wanted a vote on the new treaty, with 20 pct saying one was not necessary, with 10 pct unsure. It comes as EU leaders are set to kick off a two-day summit in Lisbon today, where they hope to reach agreement on a final draft of the treaty, which critics allege is essentially the same as the moribund constitution, which was torpedoed in 2005 by 'no' votes in France and the Netherlands. According to the poll, 76 pct of Germans, 75 pct of Britons, 72 pct of Italians, 65 pct of Spaniards and 63 pct of French wanted a referendum on the treaty.

As eleições na Polónia

As indicações existentes sobre o que pode vir a acontecer no próximo Domingo são muito contraditórias. Na sondagem PBS DGA conduzida no dia 11, o PiS dominava nas intenções de voto, com uma vantagem de 5 pontos. Mas cinco dias depois (dia 16), a Plataforma Cívica aparece com uma vantagem de 5 pontos sobre o PiS. Há quem ache que isto reflecte uma mudança real, devida a vitória de Donald Tusk no debate televisivo com Jaroslaw Kaczynski. Mas o problema, claro, é que, com uma abstenção que não deverá ser muito inferior aos 60%, a tradicional dificuldade das sondagens em distinguir votantes provaveis de votantes improváveis e abstencionistas produz grande volatilidade nas intenções de voto.

As consequências disto, contudo, já são visíveis. Kaczynski, que sexta-feira passada achava que a cimeira informal de Lisboa ia ser "um sucesso", já disse ontem que "não quer nada mais do que aquilo que são os direitos da Polónia" e que se as "exigências da Polónia" não forem satisfeitas o melhor será "adiar a discussão".

P.S. - Só agora é que reparei que os gémeos têm o mesmo apelido que este.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Ainda sobre a "nova Constituição" (2)

Subscrevendo isto, um ponto adicional. Há qualquer coisa de errado - não sei se comigo se com a agenda política portuguesa - quando os assuntos do dia se podem comentar todos com auto-citações de coisas antigas. Aqui vai mais uma, pedindo as vossas desculpas:

"Questions of institutional design have the extraordinary benefit — from the point of view of political elites — of dramatically increasing the asymmetry of information between voters and elites. They involve highly complex technical issues, thus reducing the size of the audience capable of understanding the implications of extant rules and proposed changes. The vagaries of the German and other mixed electoral systems, the implications of comparative semipresidentialism, the internal organization of parliament, the judiciary or the public prosecution, the modalities of judicial review of legislation – all these are all highly complex technical matters that promptly produce an irresistible urge on the part of common citizens to change to a different TV channel or — for those very few who do read political news in newspapers— skip to a different newspaper article. On the other hand, changing any of these institutional features requires the agreement of, at least, the two main political parties in parliament, since most of these rules are protected by supermajority procedures. This allows parties to easily shift blame for the inability to produce the proposed institutional reforms, pointing out the opponent’s devious (but publicly unverifiable) purposes behind advancing or refusing changes whose implications are understood, in reality, by virtually nobody.

Thus, by framing the (in)ability to achieve substantive political outcomes in terms of the (in)ability to change institutional variables, parties are able to reap important electoral advantages: citizens’ doubly lack the necessary knowledge to hold parties accountable, both because the fail to understand the implications of extant rules and their proposed changes and because they have enormous difficulties in assigning responsibility for those changes or the lack of them. All this, in my view, endangers neither the stability of democracy in Portugal nor its fundamental public legitimacy. However, it allows parties and governments to deviate attention from their policy failures, shifting it to domains where electoral accountability is made more difficult for citizens. It creates false and recurrently frustrated public expectations about the power of institutional changes to produce substantive political outcomes. And it contributes to reinforce the already large divide between the political agenda and the actual concerns of common citizens in Portugal. In other words, the permanent contestation around most aspects of the institutional framework of Portuguese democracy may constitute a threat to the quality of democratic rule. "


In: "The institutional framework of the transition to democracy in Portugal", in Marietta Minotos (org.), The transition to democracy in Spain, Portugal and Greece, thirty years after. Athens: Karamanlis Foundation, 2006.

terça-feira, outubro 16, 2007

Ainda sobre a "nova Constituição"

José Manuel Fernandes (de quem me considero amigo, para se perceber já que não há aqui maus fígados), no editorial de hoje no Público, acha que, apesar das sucessivas revisões, "muitos dos pontos da nossa Constituição são programáticos", dando como exemplo o facto de nela se estabelecer um"serviço nacional de saúde universal e geral (...) tendencialmente gratuito" ou "progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino", ou ainda que é direito das comissões de trabalhadores "exercer o controlo de gestão nas empresas". JMF critica estas disposições, afirmando que "uma Constituição deve estabelecer regras, não fins a atingir; deve "tratar sobretudo dos meios e não dos fins".

Não quero entrar na discussão - que domino mal - entre "direitos positivos" e "direitos negativos", sobre que normas são realmente "programáticas", ou sobre as vantagens e desvantagens da inclusão de direitos económicos e sociais numa Constituição. Nem espero ter grande sucesso a vender a minha posição, porventura demasiado "pós-moderna" para muitos gostos: a de que a distinção entre aquilo a que JMF chama "regras" (digamos, os direitos políticos liberais básicos, os direitos que servem como pré-condições para uma economia de mercado e as regras que regulam o funcionamento das instituições políticas) e aquilo a que chama "fins" (suponho, tudo o que tenha a ver com direitos económicos e sociais) é muito problemática. É uma distinção a-histórica, ignora que aquilo que é hoje descrito como "regra" foi historicamente (e em rigor continua a ser) um "fim", que nenhum direito é absoluto (incluindo os direitos cívicos) e que todos exigem acção do estado para serem implementados.

Não. Vou só perguntar o seguinte: como é que JMF consegue compatibilizar a sua argumentação com a última frase do editorial?

"Finalmente, por que não assumir que a geração de hoje não pode endividar-se pela geração de amanhã, limitando na lei fundamental os défices públicos a todos os níveis?"

Se estabelecer limites constitucionais ao défice não é "programático" ou um "fim", então já não sei falar português. Por que será assim tão difícil dizer-se que aquilo que se deseja é uma Constituição que favoreça a prossecução de determinados fins em vez de outros, em vez de fazermos de conta que umas regras são neutras e outras não? Assim é que era bonito para nos entendermos todos.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Mais outliers

1. Parece que o valor médio pago por In Rainbows, dos Radiohead, é oito dólares. Por esta altura, o total pago já deverá andar pelos 10 milhões de dólares. Um artigo de ontem no NYT comparando isto com a economia das gorjetas.

2. Mais um Nobel da economia para a teoria dos jogos, depois dos de 1994, 1996 e 2005.

3. É "verdade". Uma mania um bocado parva. A ver se me curo.

Outlier: Menezes e o TC

Menezes retoma uma das propostas que a magistratura judicial faz tradicionalmente desde 1982 sobre a jurisdição constitucional em Portugal:

Mais polémica poderá ser a sua proposta de extinguir o Tribunal Constitucional: "Um TC que é conhecido por resultados 7/6 ou 6/7 quando uma dada maioria parlamentar está em funções não prestigia aquilo que é a sua arquitectura".O presidente do PSD defende por isso uma "discussão nacional ampla" e defende que seja o Supremo Tribunal de Justiça "com magistrados profissionais" a "analisar de forma mais isenta a constitucionalidade das leis em Portugal".

O meu comentário, escrito há cinco anos:

"Na verdade, há democracias onde a fiscalização da constitucionalidade das leis, quando existe, é concedida exclusivamente aos tribunais comuns. Contudo, importa notar que esses supremos tribunais se parecem muito pouco com os nossos, sendo, em regra, escolhidos por órgãos políticos (tal como sucede com o Supremo Tribunal nos Estados Unidos). Logo, transferir os actuais poderes do TC para o STJ colocar-nos-ia numa posição absolutamente singular no panorama internacional. Ser-se original não é pecado. Mas cabe aos proponentes dessa ideia explicar por que razão deverá o enorme poder de contrariar a vontade das maiorias parlamentares ser concedido a juízes politicamente irresponsáveis e cujos méritos técnico-jurídicos nestas matérias estão longe de se poderem dar como adquiridos. Afinal, a opacidade do funcionamento interno do poder judicial em Portugal, a negligente aplicação de critérios de mérito na progressão na carreira e o permanente impedimento à entrada de não-juízes nos tribunais superiores são as melhores razões para que, ao contrário de José Marques Vidal, não possamos ver o Tribunal Constitucional como 'um luxo desnecessário'."

E estou um bocado desapontado: não se arranja uma brincadeira mais original para fazer com a Constituição? Que tal mudar o parlamento para Gaia e o TC para Ílhavo? Isso é que era giro.

terça-feira, outubro 09, 2007

Iowa

Já vimos aqui como tudo se encaminha para que Hillary seja a candidata do Partido Democrata. Mas vimos também como tudo pode mudar de repente: em 2004, Dean era o favorito, mas as vitórias de Kerry nas primárias de Iowa e New Hampshire mudaram tudo.

Como está então Hillary nestes dois estados cruciais? Bem, depende. Em New Hampshire, Clinton tem grande vantagem nas sondagens. Mas em Iowa, a coisa não é exactamente assim. Só desde Agosto começou a aparecer consistentemente em 1º lugar, e mesmo assim com uma vantagem reduzida. Acresce a isto que o "Iowa caucus" é muito diferente das outras primárias propriamente ditas (ver aqui para uma explicação), tornando as sondagens num indicador menos fiável do que pode suceder. Obama e Edwards estão em máxima mobilização no Hawkeye State: é a última oportunidade que têm para impedir o que parece inevitável.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Polónia, 4

Os gémeos descolam? Depois da incerteza e confusão nas sondagens mais recentes, há um primeiro sinal claro de que o PiS ganha vantagem:

Angus Reid Global Monitor - The governing Law and Justice Party (PiS) could remain the top political group in Poland after this month’s ballot, according to a poll by PBS DGA published in Gazeta Wyborcza. 36 per cent of respondents would support the conservative PiS in the election, up six points since mid-September.
The opposition Civic Platform (PO) is second with 31 per cent, followed by the Left and Democracy (LiD) coalition with 16 per cent, the Self-Defence of the Polish Republic (SRP) with six per cent, the Peasant’s Party (PSL) with five per cent, and the League of Polish Families (LPR) with three per cent. Under the country’s proportional representation system, a party must receive at least five per cent of the vote—and a coalition at least eight per cent—to elect members.

Brown e as eleições

Uma das discussões da semana foi a de saber se Gordon Brown iria ou não convocar eleições no Reino Unido, tendo em conta o que parecia ser um conjunto de sondagens vantajosas desde a saída de Blair mas um suposto "big turnaround" em favor dos Conservadores nos últimos dias.

A decisão é conhecida: não haverá eleições. É certo que os dados agregados não autorizam (ainda?) a ideia de um qualquer "big turnaround". Utilizando como fonte o arquivo de sondagens do excelente UK Polling Report, a aplicação de uma regressão local aos resultados sugere que as últimas sondagens estão longe de terem o peso suficiente para, de forma estatisticamente significativa, sugerirem uma inversão da tendência de subida dos Trabalhistas que se iniciou desde o abandono de Blair.

Contudo, eles lá saberão o que estão a fazer. A análise do que sucede nos círculos em concreto é potencialmente mais útil do que os resultados agregados a nível nacional: basta uma medida como a recentemente proposta pelos Conservadores, de eliminação parcial do imposto sucessório (particularmente atraente nos prósperos "shires"), para que as perdas dos Trabalhistas, em vez de se reflectirem uniformemente a nível nacional, se concentrem em círculos mais disputados e os façam perder esses círculos. De facto, parece que foi isso mesmo que sucedeu: a decisão de Brown terá sido influenciada por sondagens conduzida em círculos eleitorais particularmente disputados e vulneráveis. E se assim foi, foi uma jogada de mestre de David Cameron.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Directas no PSD: as sondagens

Menezes é o preferido entre os eleitores em geral, mas Mendes é o preferido por aqueles que se dizem votantes do PSD. Tudo bem. Mas daí até dizer-se que "este dado não pode deixar de ser interpretado como uma inclinação de voto para as directas de hoje" a distância é considerável. Talvez melhor dizer que "pode ser interpretado", mas é tudo menos obrigatório. Descontando a questão da pergunta usada ("estar preparado para ser Primeiro Ministro" não é a mesma coisa que perguntar em quem se votaria se se pudesse votar), é muito difícil saber se os "eleitores" do PSD são representantivos dos "militantes".

Até porque temos de saber de que eleitores estamos a falar. Por exemplo, na sondagem do DN, estamos - por aquilo que consigo entender do texto - a falar daqueles que hoje votariam PSD. Aí, Mendes ganha. Mas como é óbvio, os que votariam hoje PSD são precisamente aqueles que olham para Mendes com maior simpatia, e não necessariamente todos os eleitores habituais do PSD. Note-se o que sucede quando a sub-amostra muda, e passa a ser composta pelos que "votaram PSD em 2005" (em vez daqueles que votariam agora): nesse caso, Menezes ganha, aqui.

"Não pode deixar de ser interpretado como uma inclinação de voto para as directas de hoje"? Bem, poder até pode.

P.S.- Vale a pena ler isto sobre o assunto.
P.P.S. (29 Setembro) - Hate to say I told you so.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Polónia, 3

Três sondagens contraditórias em poucos dias.

Uma:
WARSAW (Thomson Financial) - Poland's largest opposition party Civic Platform leads ruling party Law and Justice by two percentage points according to a poll by the Gfk Polonia agency today. Civic Platform had the support of 26 pct of voters while Law and Justice polled 24 pct, the survey, ahead of parlimentary elections on Oct 21, showed. The poll showed the Left and Democrats alliance would gain 10 pct of votes, populist party Samoobrona 5 pct and the Peasants Party (PSL) 6 pct. The poll was conducted among 974 adult Poles on Sept 21-23.

E duas:
Angus Reid Global Monitor- Poland’s right-leaning governing party has gained a significant amount of public support this month, according to a poll by SMG/KRC released by TVP. 36.1 per cent of respondents would back the Law and Justice Party (PiS) in this year’s legislative election, up nine points in a week.

E três:
Angus Reid Global Monitor - Poland’s main opposition party has gained public backing this month, according to a poll by PBS DGA published in Gazeta Wyborcza. 30 per cent of respondents would vote for the Civic Platform (PO) in the next legislative election, up four points since early September.

terça-feira, setembro 25, 2007

A inevitabilidade de Clinton...

...como candidata do Partido Democrata começa a desenhar-se. Nos dados das sondagens:


Fonte: Pollster.com

Nas apostas: ver Political Futures na Slate.

E até Bush acha que será ela a nomeada.

Mas importa não esquecer isto:


Fonte: Political Arithmetik

The disclosure project

O queixinhas que escreve neste blogue já mencionou aqui várias vezes o problema da falta de informação detalhada nas fichas técnicas nas sondagens feitas em Portugal, e até já o fez em artigos académicos. Mas para não ser só queixinhas, também já dei exemplos de boas práticas, especialmente por parte da Marktest. E aproveito para dizer que o problema não é só nosso, longe disso. Um artigo de 2002 já abordava o problema nos Estados Unidos. E vejamos, por exemplo, o que se diz no Pollster.com de Mark Blumenthal e Charles Franklin:

Over the last few months I have written a series of posts that examined the remarkably limited methodological information released about pre-election polls in the early presidential primary states (here, here and here, plus related items here). The gist is that these surveys often show considerable variation in the types of "likely voters" they select yet disclose little about the population they sample beyond the words "likely voter." More often than not, the pollsters release next to nothing about how tightly they screen or about the demographic composition of their primary voter samples.

Why do so many pollsters disclose so little? A few continue to cite proprietary interests. Some release their data solely through their media sponsors, which in the past limited the space or airtime available for methodological details (limits now largely moot given the Internet sites now maintained by virtually all media outlets and pollsters). And while none say so publicly, my sense is that many withhold these details to avoid the nit-picking and second guessing that inevitably comes from unhappy partisans hoping to discredit the results.


Do pollsters have an ethical obligation to report methodological details about who they sampled? Absolutely (and more on that below), and as we have learned, most will disclose these details on request as per the ethical codes of the American Association for Public Opinion Research (
AAPOR) and the National Council on Public Polls (NCPP). Regular readers will know that we have received prompt replies from many pollsters in response to such requests (some pertinent examples here, here, here and here).

(...)

So I have come to this conclusion: Starting today we will begin to formally request answers to a limited but fundamental set of methodological questions for every public poll asking about the primary election released in, for now, a limited set of states: Iowa, New Hampshire, South Carolina or for the nation as a whole. We are starting today with requests emailed to the Iowa pollsters and will work our way through the other early states and national polls over the next few weeks, expanding to other states as our time and resources allow.


These are our questions:
* Describe the questions or procedures used to select or define likely voters or likely caucus goers (essentially the same questions I asked of pollsters just before the 2004 general election).

* The question that, as Gary Langer of ABC News
puts it, "anyone producing a poll of 'likely voters' should be prepared to answer:" What share of the voting-age population do they represent? (The specific information will vary from poll to poll; more details on that below).

* We will ask pollsters to provide the results to demographic questions and key attributes measures among the likely primary voter samples. In other words, what is the composition of each primary voter sample (or subgroup) in terms of gender, age, race, etc.?

* What was the sample frame (random digit dial, registered voter list, listed telephone directory, etc)? Did the sample frame include or exclude cell phones?

* What was the mode of interview (telephone using live interviewers, telephone using an automated, interactive voice response [IVR] methodology, in-person, Internet, mail-in)?

* And in the few instances where pollsters do not already provide it, what was the verbatim text of the trial heat vote question or questions?

Our goal is to both collect this information and post it alongside the survey results on our poll summary pages, as a regular ongoing feature of Pollster.com. Obviously, some pollsters may choose to ignore some or all of our requests, but if they do our summary table will show it. We are starting with Iowa, followed by New Hampshire, South Carolina and the national surveys, in order to keep this task manageable and to determine the feasibility of making such requests for every survey we track.


Hear hear!

quinta-feira, setembro 20, 2007

Transatlantic trends

Com algum atraso, lembro que já saíram os resultados dos inquéritos Transatlantic Trends de 2007, realizados nos Estados Unidos e em vários países europeus (incluindo Portugal, com apoio da FLAD). Num post escrito há um ano, descrevi os principais resultados de 2006:

1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;
2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;
3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;
4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo;
5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa.

Ora bem: o que temos este ano?

1. Percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça continua a aumentar;

2. Apoio da opção militar no Irão muito superior nos Estados Unidos em comparação com os países europeus, mas concordância geral com a ideia de que um Irão nuclear levará a proliferação;

3. Declínio no apoio ao papel da NATO em França, Reino Unido e Alemanha;

4. Sentimentos dos turcos em relação aos EUA e à UE continuam a "arrefecer";

5. Introduzida este ano como opção de resposta no questionário, a dependência energética aparece, cá e lá, como a maior ameaça, mais ainda que o terrorismo;

6. Portugal é um dos países onde há mais gente que:
- acha que as relações Europa/EUA são irrecuperáveis;
- acha que a China é uma ameaça económica (olá Maria José);
- apoia o papel da EU em missões de paz ;
- apoia o envio/manutenção de tropas no Afeganistão.

E muito mais. Vale mesmo a pena ler.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Sarkozy e Condorcet

Lembram-se deste post? Claro que não. Mas já há um artigo sobre o assunto na última French Politics:

"The French Presidential Election of 2007: Was Sarkozy the Condorcet Winner?"
Paul R Abramson

Nicolas Sarkozy was elected in the runoff election held against Ségolène Royal on 6 May 2007. Over 100 public preelection polls were conducted between 18 October 2006 and 21 April 2007. These polls strongly suggest that Sarkozy would not have won a series of head-to-head contests against all 11 of his opponents; that is to say, he would not have met the criterion for fairness in elections advanced by the Marquis de Condorcet in the 18th century. These polls suggest that François Bayrou met this criterion and that he would have defeated Sarkozy had he advanced to the second round of the elections.

Polónia, 2: incerteza

The Law & Justice (PiS) and liberal Civic Platform (PO) both received support from 26% voters in a poll commissioned by the TV news programme Wiadomosci broadcast by public television TVP1, conducted by researchers from TNS OBOP. The centre-left coalition LiD would make it into Parliament with backing from 9% of voters. Other parties would not exceed the 5% threshold guaranteeing presence in Poland's Parliament.The poll was conducted among 675 out of 1,000 people who were at least "rather positive" about taking part in the general vote.

Another poll, conducted by PBS DGA, shows PO with 30% and PiS 29%. The election will hinge on voter turnout. PiS' voters are generally older and located in rural areas. These voters tend to vote in greater numbers, while city dwellers and younger people - the PO's core supporters - tend to have other things to do and do not turn out at the polls as frequently. Additionally, there are anywhere from one to two million Poles living and working abroad in another EU country (UK, Ireland, Germany, etc.). A lot will depend on whether these people arrive at Polish consulates to cast their votes.

Fonte: Warsaw Voice

Não costumo usar o blogue para estas coisas...

...mas é só para avisar que o disco do ano sai no dia 9.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Polónia

Como já toda a gente sabe, há eleições na Polónia no dia 21 de Outubro, dois dias depois da conferência que é suposta levar à aprovação do "Tratado de Lisboa". Um bocado como tentar montar um puzzle de 1500 peças ao ar livre no meio do furacão Katrina.

Para quem não sabe polaco, tentar reconstituir as sondagens existentes de fontes secundárias noutras línguas é bastante difícil. É seguro dizer-se que "Plataforma Cívica", que ficou em segundo lugar nas eleições de 2005, lidera as sondagens neste momento. Mas a vantagem não é grande em relação ao "Lei e Justiça" dos gémeos Kaczynski e, de resto, em 2005 também ocorria o mesmo.

Mais interessante é que, na base das sondagens mais recentes, nem a "Liga das Famílias Polacas" nem a "Auto-Defesa da República da Polónia", dois partidos que têm feito parte da coligação de governo, têm garantida a representação parlamentar, que exige a superação de uma cláusula-barreira de 5% dos votos.

Grécia

Com as últimas sondagens a terem sido conduzidas há mais de duas semanas, e com uma aparente aproximação entre PASOK e ND desde Julho, a incerteza era grande. Mas o sobrinho de Constantine Karamanlis voltou, tal como em 2004, a ganhar ao neto de George Papandreou e ao filho de Andreas Papandreou. Por outras palavras, apesar dos resultados serem ainda provisórios, ganhou a ND, liderada por Costas Karamanlis, com 42% dos votos, contra o PASOK, com 38%. A ND preserva à maioria absoluta, por uma unha negra.



Falou-se muito sobre os incêndios e sobre o castigo ao governo que eles trariam. Mas a ter havido castigo, foi para o "bloco central". ND e PASOK perdem, em comparação com 2004, quer em percentagem de votos quer em deputados. O Partido Comunista passa de 6 para 8% e ganha 10 deputados, o SYRIZA (para simplificar, uma espécie de BE lá do sítio, mas com mais conflitos internos) passa de 3 para 5% e ganha 10 deputados, e o LAOS (é difícil explicar do que se trata, mas imaginem uma espécie de Partido da Nova Democracia com esteróides) ganha 10 deputados.

terça-feira, setembro 04, 2007

Austrália

Finalmente - partindo do princípio que as eleições para o parlamento de Trinidad e Tobago não vos excitam particularmente - segue-se a Austrália, algures antes do fim do ano (a data definitiva não está marcada). John Howard, primeiro-ministro desde 1996 -quando pôs fim a 13 anos de governo de centro-esquerda do Australian Labor Party - prepara-se para perder as eleições, como se pode depreender da análise dos dados das sondagens feitas no Oz Politics, um excelente site mantido por Bryan Palmer.

Argentina

Continuando a ronda pelas eleições mais importantes que se aproximam, temos as presidenciais argentinas a 28 de Outubro. Como é sabido, a mulher de Néstor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner, é a candidata da Frente para a Vitória, o partido que controla actualmente a presidência e o que tem maior representação parlamentar. Um bom site para seguir os resultados das sondagens - e as eleições argentinas em geral - é este. Para os resultados eleitorais passados, a melhor fonte que conheço é o atlas eleitoral de Andy Tow. Segundo as sondagens mais recentes, Cristina Kirchner aparece como vencedora à primeira volta. Recorde-se que, para ganhar à primeira volta, Kirchner necessita apenas de mais de 45% dos votos, ou mais de 40% desde que tenha mais de 10 pontos de vantagem em relação ao segundo classificado.

A Sra. Kirchner explicava tudo isto há mais de um ano: "el peronismo es lo más parecido que hay a los argentinos (...) "Somos capaces los peronistas como los argentinos de generar las acciones más generosas y los personajes mas sublimes, como las acciones más horribles. Así de contradictorios somos". Pois.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Grécia

As eleições na Grécia começam a aquecer (não, não tenciona ser uma piadinha parva). São no dia 16, mas a divulgação de sondagens públicas terminou anteontem. Não é fácil - para quem não saiba grego - coligir informação completa e fidedigna sobre resultados de sondagens. O melhor a que cheguei foi o que se segue. No caso das últimas sondagens, na ausência de estimativas sobre "Outros, brancos e nulos", faço, para fins de redistribuição, duas pressuposições: a primeira, comum, é a de redistribuição proporcional dos indecisos; a segundo é a de que as estimativas dos OBN's para as últimas sondagens são iguais às do instituto respectivo em cada sondagem mais recente.




A diferença entre ND e PASOK tem sido sempre reduzida, mas sempre com vantagem para a ND. Claro que se a ND perder não faltará quem atribua isso ao factor dos fogos florestais, mas é ainda cedo para saber. O certo é que a diferença entre ND e PASOK apertou nas sondagens a partir do início de Junho, e não agora. Em 2004, as sondagens andaram todas muito, muito perto dos resultados finais (ND: 45,4%, PASOK: 40,5%), depois de redistribuidos os indecisos.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Satisfação com funcionamento da democracia

Um gráfico de um paper que ando a escrever sobre a cultura política no Sul da Europa. Parece-me que está tudo dito.

"Silly" é eufemismo

Tenho andado por fora nas últimas semanas, mas com a ajuda do Google Reader, onde recupero os blogues de leitura habitual, descubro o que andei a perder. Desde as manifestações de solidariedade, incluindo de Belém (onde não se é, pelos vistos, imune à "sillyness") em relação a uma directora de um museu que não viu a comissão de serviço renovada por fazer críticas públicas à tutela, passando por assembleias gerais de um banco que serviram unicamente para gastar um milhão de euros de dinheiro dos accionistas (10 minutos do salário médio de um administrador do dito banco), mostrar os novos Mercedes classe S à população e ajudar o Comendador Berardo a bater o recorde mundial de horas de presença em noticiários televisivos, até ao comprazimento estético com a destruição de um hectare de milho e à transformação dos meninos numa ameaça comparável à Al-Qaeda (com críticas aos Serviços de Informação e Segurança e tudo), sem esquecer um candidato a líder do maior partido da oposição que tem um "blogue pessoal" escrito por um assessor que copia entradas da Wikipedia para escrever posts, tivemos tudo o que é preciso para uma perfeita "silly season".

E agora, já podemos regressar à normalidade? Ou a normalidade é isto?

terça-feira, julho 31, 2007

Popularidade

Como barómetro Marktest, ficamos assim:

Cavaco continua nas alturas.




Sócrates não desce, mas também não recupera do abalo "pós-Independente":


Mendes é o caso mais estranho. Já sabemos que, em termos absolutos, Marktest e Eurosondagem dão resultados diferentes quer para Sócrates quer para Mendes. Mas as tendências têm sido semelhantes. Agora, contudo, enquanto Mendes está estável na Eurosondagem, afunda-se na Marktest. A seguir.

Estado em que se encontra este blogue (TM)


segunda-feira, julho 16, 2007

Noite de eleições

Por vezes, é assim mesmo que tudo me parece (incluindo eu próprio).

Via Arte da Fuga.

Rescaldo, 2

Não é preciso ciência para perceber que o PS teve menos votos do que que as sondagens mediram a uma semana ou menos das eleições, e que a tendência (não unânime, mas tendência) foi de subestimação do PSD, especial - e curiosamente - nas sempre mais precisas sondagens à boca das urnas. Há duas explicações normalmente avançadas para coisas como estas: "abstenção por certeza de vitória" e "espiral do silêncio". Na primeira, a história é simples: eleitores inicialmente dispostos a votar no PS desinteressam-se no final por verem como era grande o favoritismo de Costa. Na segunda, a percepção de uma situação de "crise" na candidatura do PSD leva os seus eleitores a ocultarem o seu sentido de voto. Nas sondagens à boca das urnas, por muito que se tente impedir que a "vontade de responder" enviese a amostra, há sempre o fenómeno das recusas, presumivelmente, neste caso, concentradas em votantes no PSD.

São só duas histórias possíveis, não testadas com dados sólidos. Mas são boas hipóteses de partida à luz do que se conhece quer do passado quer de outros contextos eleitorais.

domingo, julho 15, 2007

Rescaldo

Já é possível o rescaldo, com todas as freguesias contadas. Seria sempre possível esperar pelos oficiais mas é improvável que isso faça qualquer diferença. A metodologia é a habitual: o erro 3 de Mosteller, ou seja, a média, para cada sondagem, dos valores absolutos dos desvios entre as estimativas e os resultados finais.

(quadro revisto, com correcção da estimativa da Intercampus para o CDS-PP na sondagem à boca das urnas; o erro médio, contudo, permanece inalterado)

Parabéns à Aximage, que foi quem esteve mais próximo entre as sondagens pré-eleitorais. Seguem-se a Católica e a Eurosondagem, mas a diferença pode, de um certo ponto de vista, ser encarada como maior do que os 0,3 de diferença no erro médio, dado que quer a Católica quer a Eurosondagem colocaram Negrão à frente de Carmona, o que não sucedeu.

De um outro ponto de vista ainda, os resultados sugerem (sem provar) mais precisão para as amostras aleatórias (Aximage, Católica, Eurosondagem) e para sondagens realizadas mais perto do acto eleitoral (Aximage). Já no que respeita ao modo de inquirição, nada é evidente: a Aximage foi telefónica e a Católica e a Eurosondagem presenciais com boletim simulado em urna, ao passo que a Marktest foi telefónica e a Intercampus, de novo, com boletim. Não me parece que se tire grandes lições no que respeita ao modo de inquirição.

Na boca das urnas, como é normal, os resultados foram melhores para todos. As diferenças entre os diferentes institutos são muito reduzidas, mas foi a Intercampus, seguida da Católica e da Eurosondagem, quem mais se aproximou do que acabou por suceder.

sexta-feira, julho 13, 2007

Para descontrair...

Uma resposta ao desafio. Foram estes (excluindo tudo o que tem a ver com "trabalho"):




Sobre as sondagens

Se se esperava que estas últimas sondagens viessem, como sucede noutras ocasiões, "convergir" nesta última semana, e resolver assim algumas das incertezas que permaneciam, não foi isso que sucedeu.

* Onde a incerteza diminuiu um pouco foi em relação ao PS. Até este semana, tínhamos visto resultados entre os 31 e os 40 por cento, nove pontos de diferença. Mas nesta semana, o mínimo é 32 e o máximo 37.1. Se excluirmos a Intercampus, o mínimo é 32 e o máximo 34.2. Nada, absolutamente nada, sugere que o PS poderá não ganhar esta eleição. E nada sugere que a possa ganhar com maioria absoluta. Não há impossíveis, mas...

* A incerteza também diminuiu em relação às restantes listas, mas muito menos. Na base destes resultados, é impossível saber quem tem mais intenções de voto: Carmona ou Negrão. Em duas sondagens (Intercampus e Aximage) estão, para todos os efeitos, empatados. Noutras duas (Católica e Eurosondagem), é Negrão quem leva vantagem. Para outra ainda (Marktest) é Carmona. Leio os comentaristas e vejo que está toda a gente muito certa de que Carmona ficará em segundo. Os dados não consentem essa ideia, mas quem sabe?

* Se esquecermos a Intercampus, Roseta, Ruben e Sá Fernandes são quem têm a vida mais certa: entre 9.5 e 12.1 para a primeira, entre 7 e 10.2 para o segundo, e entre 4.8 e 8 para o terceiro. O problema é que não há razão plausível para esquecer a Intercampus. É certo que, em 2005, as coisas lhes correram mal, mas as coisas já "correram mal" a quase toda a gente. A Intercampus está farta de fazer sondagens pré-eleitorais e à boca das urnas e, na base do único parâmetro que temos - a comparação com os resultados eleitorais - não há razão nenhuma (pelo contrário) para dizermos que não são capazes de descrever correctamente as intenções e comportamentos dos eleitores. Pelo que a incerteza permanece.

* Telmo Correia entre 2 e 4. Eu percebo, mas sinceramente não estou a ver. Cá estaremos para confirmar.

Até a detecção de tendências parece impossível. A ideia geral que fica é que Costa, Carmona, Negrão e Roseta podem todos ter descido, ao passo que Ruben, Sá e Telmo subido. Mas isso é só comparando as primeiras sondagens com estas últimas. Comparando instituto a instituto, há tendências para todos os gostos. E do ponto de vista metodológico, se alguém encontrar alguma relação entre método de amostragem ou de inquirição e os resultados, avise que eu gostava de saber qual é.

Esta eleição tem a receita ideal para gerar esta incerteza nas sondagens, assim como desfasamentos elevados entre estes resultados e o que venha a suceder no Domingo:
- candidatos independentes, que como já vimos, produzem volatilidade acima do normal;
- presumível elevada abstenção, sempre problemática para as sondagens;
- eleitores ausentes em férias que podem regressar entretanto e eleitores presentes que podem partir para férias entretanto;
- eleitores recenseados em Lisboa mas que não vivem em Lisboa e podem vir votar (não tendo sido captados pelas sondagens).

Sejam quais forem os resultados no Domingo, já se pode dizer que haverá institutos cujas estimativas se vão desviar bastante desses resultados. Continua a ser difícil fazer sondagens em Lisboa.

quinta-feira, julho 12, 2007

As últimas sondagens

Este post vai ser actualizado ao longo do próximo dia e meio. Vamos só recordar as regras básicas, para não haver confusões:

1. Os resultados são retirados da imprensa. Fazem-se hiperligações para as notícias sempre que disponíveis.

2. São apresentados dois tipos de resultados: intenções directas de voto/resultados brutos, ou seja, a distribuição das diversas opções de resposta pelo total da amostra; e estimativas de resultados eleitorais, a negrito, ou seja, a distribuição das opções válidas de voto.

3. Quando os institutos não divulgam uma estimativa de resultados eleitorais, isto significa que não querem fazer quaisquer pressuposições sobre a forma como os indivíduos que dizem não saber ou não querer dizer em quem vão votar se distribuem pelas restantes opções.

4. Contudo, nesses casos, calculamos as estimativas de resultados eleitorais presumindo que as opções "Ns/Nr" significam abstenção (casos assinalados com um asterisco). Porquê?

- as intenções directas de voto não são comparáveis entre si, devido a diferenças metodológicas que causam enormes variações nas percentagens de não respostas e de abstencionistas declarados que são captados pelas sondagens, e devido ao facto de que os abstencionistas declarados são incluídos nuns casos e não noutros.

- alguns institutos não divulgam intenções directas de voto, o que inviabiliza ainda mais quaisquer comparações;

- tornar os resultados comparáveis entre si e com resultados eleitorais presumindo abstenção de "Ns/Nr" é a boa prática internacional nesta área, sancionada e confirmada dezenas de vezes em muitos estudos académicos (como este ou este, ou ainda neste referência clássica).

Isto não significa que o autor deste blogue esteja convicto (ou deixe de o estar) de que esta pressuposição é a que permite melhores inferências descritivas sobre a população ou até melhores "previsões". E é perfeitamente respeitável que os responsáveis de institutos não tenham qualquer teoria sobre o que fazer aos "indecisos". Contudo, na ausência dessa teoria, convém evitar confusões desnecessárias na opinião pública causadas pela não-comparabilidade dos resultados (como neste caso) ou até, como infelizmente já sucedeu (mas felizmente cada vez menos), que a posteriori se possam fazer manipulações grosseiras , comparando resultados brutos de sondagens com resultados eleitorais sempre que isso ajude a dar uma imagem de "maior precisão".

5. Quando as estimativas são calculadas por mim, os resultados são apresentados sem casas decimais, apenas porque sou da opinião que não faz sentido apresentar casas decimais em sondagens. Aqui explica-se porquê. Contudo, isto não passa de uma opinião. Os resultados divulgados com casas decimais são apresentados tal como divulgados.

Então vamos lá (14.56h, dia 13):


-Grande estabilidade nos resultados da Marktest em relação à última sondagem. Aumento de OBN deve-se, em grande medida, ao aumento da declaração de "voto em branco";

- Na Católica, em comparação com o final de Maio, o mais assinalável é a subida de Ruben e Sá. Mas note-se nos resultados brutos: 32% de indecisos. Estes valores variam muito de instituto para instituto, porque são medidos de maneira diferente (nuns casos como opção dada pelo inquirido de forma espontânea, noutros como uma de várias opções previstas, noutros com uma pergunta específica). Mas nunca tinha visto, em sondagens da Católica, um valor tão alto.;

- A Intercampus mostra estimativas que prolongam tendências que vem detectando desde o início: Costa, Carmona e Ruben a subirem; Negrão e Roseta a descerem. É mais "excêntrica" sondagem das últimas quatro, nomeadamente no que diz respeito a Costa, Roseta e Ruben, mas isso nada diz sobre a precisão com que está a captar a realidade, que pode ser maior do que a de todas as restantes;

- Eurosondagem muito semelhante à sua sondagem anterior.

Amanhã falamos com mais calma.

Fontes para as últimas sondagens:
Marktest
Eurosondagem
Intercampus
Aximage



quarta-feira, julho 11, 2007

Dismal science

Já que andamos a falar da "dismal science", um artigo interessante na última International Political Science Review, intitulado "Should Economists Rule the World? Trends and Implications of Leadership Patterns in the Developing World, 1960—2005". O artigo mostra o aumento do número de líderes políticos mundiais com formação em economia, e procura relacionar isso com o desempenho económico dos países. O resultado é desastroso. O artigo tem vários problemas teóricos e empíricos, nomeadamente o facto de não estimar os efeitos da "tecnocratização" das lideranças controlando o efeito de muitas outras coisas que podem afectar o desempenho económico. Mas mesmo assim, vale a pena ler.


Mercados electrónicos

Neste blogue, já fiz diversas menções aos mercados electrónicos de previsão de resultados eleitorais, tais como o Wahlstreet na Alemanha ou os Iowa Markets nos Estados Unidos. Há uma grande discussão, um bocado defensiva de parte a parte, sobre as virtudes e defeitos destas coisas. A bibliografia existente é enorme.

Agora há uma iniciativa portuguesa: Eu Voto. Que isto possa vir a ter algum interesse depende da taxa de participação, pelo que só posso apelar a que entrem em jogo.

Eu já participei, sob pseudónimo. Comprei umas acções baratíssimas. E ainda antes de ter inside information (só a deverei ter hoje ao fim da noite).

terça-feira, julho 10, 2007

Os pequenos partidos nas sondagens

aqui alguma discussão sobre a apresentação de estimativas sobre os pequenos partidos nas sondagens, em parte motivada pelo facto de, neste blogue, elas serem agregadas com as estimativas de votos brancos e nulos. Duas explicações:

1. Comparabilidade: nem todas as sondagens apresentaram resultados para partidos com intenções de voto inferiores às do CDS-PP.

2. Erro amostral:
- 16% dos inquiridos da última sondagem da Intercampus afirmaram que não iriam votar. Logo, com uma amostra de 800, as estimativas foram calculadas na base das intenções de voto manifestadas por 672 votantes.
- Não sei quantos disseram que não sabem em quem votariam. Mas imaginemos que foram 9% como na sondagem anterior da Intercampus. Logo, teríamos intenções de votos válidas dadas por 612 pessoas.
- A notícia relata que, entre esses, 1% disseram que votariam em Garcia Pereira. 1% de 612 são...6 pessoas. Para uma amostra aleatória de 612, a margem de erro associada a uma estimativa de 1%, com 95% de confiança, é 0,79% Isto quer dizer que Garcia Pereira pode ter, com 95% de confiança e se a amostra fosse aleatória (que não é), qualquer coisa entre 0,21% e oito vezes mais do que isso, ou seja, 1,79%. Dizer isto sobre o PCTP/MRPP ou não dizer nada é a mesma coisa. É por isto que prefiro não dar os resultados dos pequenos partidos, achando preferível agregá-los.

Dito isto, o CDS-PP está incluído no quadro, mesmo tendo intenções de voto, nalguns casos, de 1%. Mas como noutras sondagens tem estimativas bastante superiores, achei que fazia sentido incluir Telmo Correia.

Outlier: É preciso azar

Nuno Teles, do Ladrão de Bicicletas, dá-me um arraial de porrada a propósito deste artigo ontem no Público: chama-lhe um "arrazoado de dados e comparações entre a Europa e os E.U.A. feitas à medida do argumento" e uma coisa pouco séria (e é pequeno consolo que diga que o meu trabalho "normalmente prima pela seriedade").

Se eu me tivesse conseguido explicar melhor, Nuno Teles teria conseguido detectar que:

1. Começo por apresentar dois ângulos possíveis de análise ao facto de, nos países europeus da OCDE, se trabalhar menos (e cada vez menos) que nos Estados Unidos. Ambos resultam, em grande medida, deste trabalho de Alberto Alesina (e mais indirectamente, disto ou disto). O primeiro consiste em lamentar o facto e as suas causas (impostos e sindicatos), dado que ele favorece que, em contextos de aumento da produtividade nos EUA a ritmo superior ao que se passa na Europa (a não ser que Nuno Teles deseje contestar isso também), o declínio do trabalho leva ao declínio económico da Europa. O segundo consiste em assinalar, como Alesina também o faz, que nos países europeus onde se trabalha menos as pessoas parecem estar mais satisfeitas com a vida, sugerindo que escolher a solução que produz mais "bem estar" deste ponto de vista depende, em grande medida, do que queiramos definir como "bem estar". Afinal, os europeus estão "bem" assim, independentemente de acharmos que são parvos ou não.

2. Contudo, uma das coisas que me intriga no artigo de Alesina é que a hipótese de que "menos trabalho" produz "mais satisfação" é testada apenas, a nível micro ou macro, em contextos europeus. O que me fez pensar que a ideia de que há um "trade-off" entre "trabalho" e "felicidade" pode não ser verdadeira, ou verdadeira apenas para alguns contextos. Foi essa ideia que tentei explorar.

3. Mas claro que o Nuno nunca poderia ter percebido que era essa a minha intenção. Ainda se eu tivesse escrito qualquer coisa assim como:

"Há, por isso, um terceiro ângulo possível para o assunto, que não se concentra nem nos efeitos perversos do "estatismo" ou do "sindicalismo" europeus nem nas tradicionais descrições dos americanos como "bárbaros" fanatizados pelo trabalho e pelo consumismo."

o Nuno teria podido perceber que aquilo o que o meu artigo procurava fazer era explorar um ângulo alternativo aos dois anteriores, e escusava de ter andado a gastar o teclado a atacar-me por ter defendido coisas que não defendi. Mas espera: e não é que eu escrevi mesmo aquilo? Deve ter sido o Público do Nuno que ia com essa parte cortada. É preciso azar.

4. O terceiro ângulo é, afinal, o da "job satisfaction", que está em declínio na Europa e, após um declínio nos anos 70/80, estabilizou nos Estados Unidos. Procurei sugerir que a noção de que há um trade-off entre trabalho e satisfação é uma coisa muito europeia, e dar algumas indicações de que, nos Estados Unidos, a preocupação dos gestores com as condições físicas e psicológicas de trabalho, com a autonomia e a participação, tendem a ser maiores do que na Europa. Baseei-me nos trabalhos de Francis Green e, sem o nomear, num artigo que li há uns tempos no NYT do Alan Kruger.

Mas claro que o Nuno não podia saber isto. Não estava lá escrito. Ou estava? Uma pessoa, às tantas, já nem sabe.

segunda-feira, julho 09, 2007

Sócrates, Eurosondagem, Julho 2007

Nova sondagem da Eurosondagem relevante para a questão da popularidade de Sócrates. Adicionando esta, a evolução desde 2005 pode ser acompanhada assim:

A diferença entre os resultados obtidos pela Marktest e pela Eurosondagem é enorme, apesar da semelhança das tendências. Não sei que razões explicam isto.

sexta-feira, julho 06, 2007

Outlier: Materiais fundamentais para o estudo do PCP no século XXI

"No outro dia, vi que tinha os dois últimos números da New York Review of Books por ler. Então dei-me conta de há quanto tempo estou em campanha".

Ruben de Carvalho, citado no Público.