Como se pode ver por aqui, aqui e aqui, as sondagens não se portaram mal nestes dois estados. O que segue, dia 26, é a Carolina do Sul para os Democratas, onde tudo sugere uma vitória de Obama: 10 pontos de vantagem na média das últimas quatro sondagens e favoritismo claro nos mercados electrónicos. Segue-se depois a Florida para os dois partidos, no dia 29, última etapa antes da Super Tuesday no dia 5 de Fevereiro (os Republicanos ainda têm o Maine antes disso no dia 1).
Curiosamente, segundo parece (e confesso-me algo perdido nos meandros do caos eleitoral americano), nenhum mandato será atribuído nas primárias do partido Democrata na Florida, e apenas metade nas do partido Republicano, pelo facto de terem sido antecipadas contra a vontade dos órgãos nacionais dos partidos. Mas isso retira pouco à importância deste estado. Será crucial para Giuliani, cuja vantagem inicial parece, à luz das sondagens, ter-se evaporado. McCain começa a parecer - relutantemente - o frontrunner, mas evitar um GOP dividido após a Super Tuesday pode em grande medida depender do que suceder na Florida. E depois da presumível vitória de Obama em SC, era importante para ele que conseguisse evitar ou mitigar a vitória que se antevê para Clinton na Florida, para que seja o showdown no dia 5 a resolver o assunto a favor de um ou de outro.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
sexta-feira, janeiro 18, 2008
A blogosfera e a política
A blogosfera chegou às ciências sociais "sérias" (a Economia e a Ciência Política, portanto*): o último número (duplo) da Public Choice (no less) é dedicado ao tema Blogs, Politics and Power. Ainda não li uma linha, a não ser a Introdução:
"Blogs are not only more than a passing fad; they are a major topic for research both because they affect politics in their own right, and as a means of approaching important questions for the social sciences more generally."
A ler urgentemente.
*Os psicólogos (sociais) são sérios quando trabalham em articulação com uma delas. Hate mail de sociólogos, antropólogos e historiadores pode ser enviado para o endereço acima. Economistas que acham que a Ciência Política não é seria não precisam de escrever, que eu já sei. Cientistas que acham que "ciência social" é um oxímoro não lêem este blogue. :-)
"Blogs are not only more than a passing fad; they are a major topic for research both because they affect politics in their own right, and as a means of approaching important questions for the social sciences more generally."
A ler urgentemente.
*Os psicólogos (sociais) são sérios quando trabalham em articulação com uma delas. Hate mail de sociólogos, antropólogos e historiadores pode ser enviado para o endereço acima. Economistas que acham que a Ciência Política não é seria não precisam de escrever, que eu já sei. Cientistas que acham que "ciência social" é um oxímoro não lêem este blogue. :-)
Florida or bust
Giuliani apostou tudo na ideia de que nenhum momentum claro iria emergir das primárias nos pequenos estados - "early chaos" - e que, logo, o melhor era fazer o mais racional à luz do sistema eleitoral: apostar tudo nos grandes estados. O primeiro é a Florida, no dia 29.
Mas, há um pequeno problema:
1. Milagrosamente, McCain voltou ao mundo dos vivos. Mais: está a subir em todos os próximos estados e nas sondagens nacionais. O early chaos é menos caótico do que parece.
2. Florida está cada vez menos segura para Giuliani. As últimas cinco sondagens colocam-no atrás de McCain e Giuliani já não é o favorito nos mercados electrónicos. Se perde Florida, não é apenas Florida: é toda uma estratégia eleitoral que vai parecer, à luz dos analistas e dos eleitores, ter ido pelos ares.
Mas, há um pequeno problema:
1. Milagrosamente, McCain voltou ao mundo dos vivos. Mais: está a subir em todos os próximos estados e nas sondagens nacionais. O early chaos é menos caótico do que parece.
2. Florida está cada vez menos segura para Giuliani. As últimas cinco sondagens colocam-no atrás de McCain e Giuliani já não é o favorito nos mercados electrónicos. Se perde Florida, não é apenas Florida: é toda uma estratégia eleitoral que vai parecer, à luz dos analistas e dos eleitores, ter ido pelos ares.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Nevada, dia 19
Nas sondagens, e entre os Democratas, Obama aproxima-se de Clinton (a sondagem mais recente tem Obama com 2 pontos de avanço). Entre os Republicanos, entre estimativas pontuais e tendencias, é a confusão total. Neste momento, os mercados apostam em Obama e Romney.
Hirschman
"With this argument, the reactionary takes on once again the progressive’s clothes and argues as though both the new and the old progress were desirable, and then shows typically how a new reform, if carried out, would mortally endanger an older, highly prized one that has only recently been put into place. The older, hard-won conquests or accomplishments, so it is argued, are still fragile, still need to be consolidated and would be placed in jeopardy by the new program. I therefore call this argument the jeopardy thesis."
"Once again, then, a group of social analysts found itself irresistibly attracted to deriding those who aspire to change the world for the better. And it is not enough to show that these naive Weltverbesserer (world improvers) fall flat on their face: it must be proven that they are actually, if I may coin the corresponding German term, Weltverschlechterer (world worseners) , that they leave the world in a worse shape than prevailed before any 'reform' had been instituted."
"I hope that I will have convinced the reader that it is worthwhile to trace these theses through the debates of the last two hundred years, if only to marvel at certain invariants in argument and rhetoric, just as Flaubert liked to marvel at the invariant bêtise of his contemporaries. To show how the participants in these debates are caught by compelling reflexes and lumber predictably through certain set motions and maneuvers (...) My account and critique of the lines of argument most commonly used on behalf of reactive/reactionary causes could serve to make advocates of such causes a bit reluctant to trot out these same arguments over again and inclined to plead their case with greater originality, sophistication, and restraint. Second, my exercise could have an even more useful impact on reformers and sundry progressives. They are given notice here of the kinds of arguments and objections that are most likely to be raised against their programs. Hence, they may be impelled to take extra care in guarding against conceivable perverse effects and other problematic consequences."
"Once again, then, a group of social analysts found itself irresistibly attracted to deriding those who aspire to change the world for the better. And it is not enough to show that these naive Weltverbesserer (world improvers) fall flat on their face: it must be proven that they are actually, if I may coin the corresponding German term, Weltverschlechterer (world worseners) , that they leave the world in a worse shape than prevailed before any 'reform' had been instituted."
"I hope that I will have convinced the reader that it is worthwhile to trace these theses through the debates of the last two hundred years, if only to marvel at certain invariants in argument and rhetoric, just as Flaubert liked to marvel at the invariant bêtise of his contemporaries. To show how the participants in these debates are caught by compelling reflexes and lumber predictably through certain set motions and maneuvers (...) My account and critique of the lines of argument most commonly used on behalf of reactive/reactionary causes could serve to make advocates of such causes a bit reluctant to trot out these same arguments over again and inclined to plead their case with greater originality, sophistication, and restraint. Second, my exercise could have an even more useful impact on reformers and sundry progressives. They are given notice here of the kinds of arguments and objections that are most likely to be raised against their programs. Hence, they may be impelled to take extra care in guarding against conceivable perverse effects and other problematic consequences."
Albert O. Hirschman, "Two Hundred Years of Reactionary Rhetoric: The Case of the Perverse Effect", Tanner Lectures on Human Values, 1988 (obrigado à Mónica pela lembrança)
Iraque/Vietname
Apesar das melhorias reais no terreno, as mudanças na opinião pública são imperceptíveis. A última sondagem da Gallup sobre o Iraque é já de meados de Dezembro passado. O primeiro gráfico mostra a evolução das respostas à mesma questão colocada também pela Gallup sobre o Vietname, em sondagens realizadas a partir de 1965, e numa escala temporal aproximada (com 100 dias de diferença):

Balões de oxigénio
Para Romney (que ganha em Michigan), para as sondagens (que, numa análise geral, colocavam Romney em ligeira vantagem) e para os mercados electrónicos (que, correctamente, deram no final menos hipóteses a McCain do que as próprias sondagens).
Clinton ganhou? Sim, claro. Mas perdeu entre o eleitorado negro.
O excelente Jay Cost:
"Tonight's results are another indication that African Americans are breaking his [Obama's] way. The Clinton campaign should be worried about this. It appears as if Obama might be able to take an important part of the traditional Democratic coalition. He is thus moving beyond the relatively narrow appeal of previous "insurgent" Democratic candidates like Bill Bradley and Gary Hart. This is bad news for Clinton."
Clinton ganhou? Sim, claro. Mas perdeu entre o eleitorado negro.
O excelente Jay Cost:
"Tonight's results are another indication that African Americans are breaking his [Obama's] way. The Clinton campaign should be worried about this. It appears as if Obama might be able to take an important part of the traditional Democratic coalition. He is thus moving beyond the relatively narrow appeal of previous "insurgent" Democratic candidates like Bill Bradley and Gary Hart. This is bad news for Clinton."
segunda-feira, janeiro 14, 2008
Dois genes
Um paper com uma explicação genética para a participação eleitoral. Vou começar a preencher os papéis do subsídio de desemprego.
Michigan
Para os Democratas, é simples: Clinton será a candidata mais votada. Obama e Edwards não aparecem nos boletins. Mas a coisa é complicada. Tudo explicado aqui.
Para os Republicanos, Romney e McCain taco-a-taco nas sondagens (fonte: Pollster) e nos mercados electrónicos. As primeiras dão ligeira vantagem a Romney, os segundos a McCain (à hora a que escrevo isto) mas ambos sinalizam subida na fase final para Romney,



Entretanto, os recentes ataques mútuos de Obama e Clinton revelam a enorme delicadeza das circunstâncias desta eleição e os riscos que as campanhas negativas comportam para estas candidaturas (mais para Clinton do que para Obama, parece-me).
Para os Republicanos, Romney e McCain taco-a-taco nas sondagens (fonte: Pollster) e nos mercados electrónicos. As primeiras dão ligeira vantagem a Romney, os segundos a McCain (à hora a que escrevo isto) mas ambos sinalizam subida na fase final para Romney,



Entretanto, os recentes ataques mútuos de Obama e Clinton revelam a enorme delicadeza das circunstâncias desta eleição e os riscos que as campanhas negativas comportam para estas candidaturas (mais para Clinton do que para Obama, parece-me).
Popularidade
Com os novos dados da Eurosondagem de Janeiro de 2008, o saldo entre opiniões positivas e negativas para Sócrates, Cavaco e Menezes (sendo que, para este último, há ainda poucas observações). A discrepância entre os resultados da Marktest e da Eurosondagem para Sócrates permanece.
O tratamento das sondagens na imprensa
Vale a pena ler o artigo de ontem (para assinantes) do Provedor do Leitor do Público.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Dois e-mails
"Os seus posts sobre o falhanço das sondagens sobre as últimas primárias levantou-me uma dúvida. Não poderemos estar perante um caso em que as sondagens anunciadas possam ter tido uma influência sobre o comportamento dos eleitores, quer em termos de escolha como de abstenção?"
Num post antigo, escrevi sobre os efeitos das sondagens no comportamento, mencionando o estudo mais exaustivo sobre a matéria que conheço. Os resultados são inconclusivos. Creio que este caso ilustra novamente as dificuldades associadas a estimar o efeito das sondagens. Parece mais ou menos evidente que, para entre os eleitores que se decidiram mais tarde, Clinton teve vantagem. Mas como isolar os efeitos da imensidão de factores se escondem por detrás desse "mais tarde"? As sondagens que davam um bounce para Obama, produzindo uma reacção de mobilização dos eleitores de Clinton e/ou desmobilização dos eleitores de Obama? Talvez. Mas as lágrimas de Hillary? Talvez também. O último debate? Por que não? Os estudos que recorrem ao método experimental, que se dão num contexto de randomização de grupos (permitindo portanto isolar de forma clara o efeito das sondagens de outros efeitos) sugerem que elas produzem efeitos significativos. O problema, claro, é a validade externa desses estudos. Não creio que consigamos ter tão cedo uma resposta para estas questões.
"Gostaria de deixar duas notas, que podem ser relevantes sobre este tema: 1) O poder predictivo dos information markets, não é avaliado em função de resultados absolutos. A avaliação do interesse deste tipo de mecanismo, deve ser efectuada por comparação com outros métodos A questão relevante é determinar se, em cada momento do tempo, existe outra fonte de informação com maior poder predictivo.
A comparação entre os information markets e as sondagens tradicionais, foi objecto de estudos extensos e detalhados, em que as conclusões tendem a favorecer os Information Markets. Será ainda mais assim, se incorporarmos os custos de obtenção de informação e o seu atraso.
2) A audiência: em nenhum destes textos se refere que os Mercados apresentados são de âmbito nacional, enquanto estas "eleições" (podemos chamar isto?) são locais. Sendo assim, a ausência de informação adicional de uma larga maioria de participantes e o Teorema do Júri de Condorcet, são bons principios de explicação para as, supostas, más previsões."
Dois comentários:
1. Não creio que seja verdade que as conclusões dos estudos existentes tendam a favorecer invariavelmente uma maior capacidade preditiva dos prediction markets. Num post anterior encontra já um que chega à conclusão contrária. Ou melhor: à conclusão de que uma visão realista da forma como uma sondagem pode servir como elemento de previsão revela a ausência de superioridade dos prediction markets (eles próprios altamente influenciados, como se sabe e se viu, pelas sondagens). E mesmo os defensores dos prediction markets detectam vários enviesamentos e avançam dúvidas. Ver aqui, por exemplo.
2. Concordo com o problema que resulta da assimetria de informação entre a minoria dos participantes com informação "local" e a maioria dos participantes sem ela, sem dúvida.
Finalmente: não intepretem o meu post anterior sobre o tema como uma condenação geral dos prediction markets. Por forças ou fraquezas que tenham, alguma informação útil hão-de dar. E não é um caso isolado, como NH, que serve para chegar a veredictos. Agora que NH serviu para evidenciar fraquezas, lá isso serviu.
Num post antigo, escrevi sobre os efeitos das sondagens no comportamento, mencionando o estudo mais exaustivo sobre a matéria que conheço. Os resultados são inconclusivos. Creio que este caso ilustra novamente as dificuldades associadas a estimar o efeito das sondagens. Parece mais ou menos evidente que, para entre os eleitores que se decidiram mais tarde, Clinton teve vantagem. Mas como isolar os efeitos da imensidão de factores se escondem por detrás desse "mais tarde"? As sondagens que davam um bounce para Obama, produzindo uma reacção de mobilização dos eleitores de Clinton e/ou desmobilização dos eleitores de Obama? Talvez. Mas as lágrimas de Hillary? Talvez também. O último debate? Por que não? Os estudos que recorrem ao método experimental, que se dão num contexto de randomização de grupos (permitindo portanto isolar de forma clara o efeito das sondagens de outros efeitos) sugerem que elas produzem efeitos significativos. O problema, claro, é a validade externa desses estudos. Não creio que consigamos ter tão cedo uma resposta para estas questões.
"Gostaria de deixar duas notas, que podem ser relevantes sobre este tema: 1) O poder predictivo dos information markets, não é avaliado em função de resultados absolutos. A avaliação do interesse deste tipo de mecanismo, deve ser efectuada por comparação com outros métodos A questão relevante é determinar se, em cada momento do tempo, existe outra fonte de informação com maior poder predictivo.
A comparação entre os information markets e as sondagens tradicionais, foi objecto de estudos extensos e detalhados, em que as conclusões tendem a favorecer os Information Markets. Será ainda mais assim, se incorporarmos os custos de obtenção de informação e o seu atraso.
2) A audiência: em nenhum destes textos se refere que os Mercados apresentados são de âmbito nacional, enquanto estas "eleições" (podemos chamar isto?) são locais. Sendo assim, a ausência de informação adicional de uma larga maioria de participantes e o Teorema do Júri de Condorcet, são bons principios de explicação para as, supostas, más previsões."
Dois comentários:
1. Não creio que seja verdade que as conclusões dos estudos existentes tendam a favorecer invariavelmente uma maior capacidade preditiva dos prediction markets. Num post anterior encontra já um que chega à conclusão contrária. Ou melhor: à conclusão de que uma visão realista da forma como uma sondagem pode servir como elemento de previsão revela a ausência de superioridade dos prediction markets (eles próprios altamente influenciados, como se sabe e se viu, pelas sondagens). E mesmo os defensores dos prediction markets detectam vários enviesamentos e avançam dúvidas. Ver aqui, por exemplo.
2. Concordo com o problema que resulta da assimetria de informação entre a minoria dos participantes com informação "local" e a maioria dos participantes sem ela, sem dúvida.
Finalmente: não intepretem o meu post anterior sobre o tema como uma condenação geral dos prediction markets. Por forças ou fraquezas que tenham, alguma informação útil hão-de dar. E não é um caso isolado, como NH, que serve para chegar a veredictos. Agora que NH serviu para evidenciar fraquezas, lá isso serviu.
Outlier: as palavras e os actos
Os políticos portugueses gostam muito de aludir aos resultados dos estudos de sociológos e politólogos como eu e muitos outros a propósito do cepticismo e da descrença dos eleitores em relação à política, aos políticos e aos partidos. Gostam de dizer que isso os preocupa e que gostavam de contribuir para a resolução do problema, como se se tratasse de uma espécie de catástrofe natural sem intervenção humana. E maneira como se propõem resolver o problema é sugerindo mil e uma "reformas institucionais". Eu gostava de acreditar neles. Mas os actos falam mais alto que as palavras. Não há "reforma institucional" que valha para compensar as consequências daquilo que o governo fez nos últimos dois dias.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Teorias sobre o fiasco das sondagens em NH
Para todos os gostos, mas alguma convergência naquelas que têm já algum apoio empírico:
1. What was going on with the New Hampshire polls? Excessiva filtragem dos votantes menos prováveis, ponderações amostrais e o "Bradley effect" (eleitores dizem que votam em candidato negro e depois não o fazem)..
2. Why presidential polls are wrong? Recuperação de última hora de Hillary.
3. Pollsters Review Tactics After Forecast `Fiasco' . Recuperação de última hora de Hillary.
4. Pollsters flummoxed by New Hampshire primary. The New Hampshire contrarians.
5. Ballot Changes Cited in Vote's Discrepancy With Polls. A ordem dos candidatos nos boletins. isto é para levar a sério: Krosnick é uma das pessoas na academia que mais sabe sobre sondagens.
6. New Hampshire: So What Happened? Recuperação de última hora de Hillary e "Bradley effect".
7. Why were the polls wrong in New Hampshire? Mostly all of the above, excelente síntese por Anthony Wells.
E outras aqui, aqui e até uma conspiração aqui. Uma síntese (irónica): How the world will explain Clinton’s win despite final polling showing her way behind Obama
"Didn’t factor in the 24 hours of tears? The fact that New Hampshirites like to make news? That independents turned out for McCain and Clinton as well as for Obama? That without Huckabee as a factor, the McCain-Romney fight was taken more seriously in the end? That all those comments that she was bussing in people from New York and Massachusetts to pad the crowds were the nonsense some always suspected them to be? That Bill Clinton acting out and saying crazy things reminded people that they were once sympathetic to his wife? That her debate performance was mocked by the pundits but loved by the voters? The lingering impression of Billy Shaheen’s pre-Iowa words? The shadowy hand of Michael Whouley? That negative attacks — through the mail on issues such as abortion — work? The appeal of Clinton to 20 somethings? The 'doer versus talker' message? All those prominent women supporters in a state that has a lot of women elected leaders? The Chris Matthews hug? That Obama has limited appeal to blue-collar Democrats in places like Epping? That she took questions in town meetings at the end, which New Hampshire voters really like? That Obama had a Tom Bradley-Doug Wilder problem? More coming…."
1. What was going on with the New Hampshire polls? Excessiva filtragem dos votantes menos prováveis, ponderações amostrais e o "Bradley effect" (eleitores dizem que votam em candidato negro e depois não o fazem)..
2. Why presidential polls are wrong? Recuperação de última hora de Hillary.
3. Pollsters Review Tactics After Forecast `Fiasco' . Recuperação de última hora de Hillary.
4. Pollsters flummoxed by New Hampshire primary. The New Hampshire contrarians.
5. Ballot Changes Cited in Vote's Discrepancy With Polls. A ordem dos candidatos nos boletins. isto é para levar a sério: Krosnick é uma das pessoas na academia que mais sabe sobre sondagens.
6. New Hampshire: So What Happened? Recuperação de última hora de Hillary e "Bradley effect".
7. Why were the polls wrong in New Hampshire? Mostly all of the above, excelente síntese por Anthony Wells.
E outras aqui, aqui e até uma conspiração aqui. Uma síntese (irónica): How the world will explain Clinton’s win despite final polling showing her way behind Obama
"Didn’t factor in the 24 hours of tears? The fact that New Hampshirites like to make news? That independents turned out for McCain and Clinton as well as for Obama? That without Huckabee as a factor, the McCain-Romney fight was taken more seriously in the end? That all those comments that she was bussing in people from New York and Massachusetts to pad the crowds were the nonsense some always suspected them to be? That Bill Clinton acting out and saying crazy things reminded people that they were once sympathetic to his wife? That her debate performance was mocked by the pundits but loved by the voters? The lingering impression of Billy Shaheen’s pre-Iowa words? The shadowy hand of Michael Whouley? That negative attacks — through the mail on issues such as abortion — work? The appeal of Clinton to 20 somethings? The 'doer versus talker' message? All those prominent women supporters in a state that has a lot of women elected leaders? The Chris Matthews hug? That Obama has limited appeal to blue-collar Democrats in places like Epping? That she took questions in town meetings at the end, which New Hampshire voters really like? That Obama had a Tom Bradley-Doug Wilder problem? More coming…."
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Mudando de assunto (ou, num certo sentido, não)...
Fonte:Ellen Nolte e C. Martin McKee (2008), "Measuring the Health of Nations: Updating an Earlier Analysis", Health Affairs 27: 58-71. Resumo aqui.
Citações:
"The concept of amenable mortality - that is, deaths from certain causes before age 75 that are potentially preventable with timely and ef-fective health care - was developed in the 1970s to assess the quality and performance of health systems and to track changes over time. (...) In a Commonwealth Fund-supported study comparing preventable deaths in 19 industrialized countries, researchers found that the United States placed last. While the other nations improved dramatically between the two study periods—1997–98 and 2002–03—the U.S. improved only slightly on the measure."
"The largest reductions in amenable mortality were seen in countries with the highest initial levels, including Portugal, Finland, Ireland, and the U.K, but also in some higher-performing countries, like Australia and Italy. In contrast, the U.S. started from a relatively high level of amenable mortality but experienced smaller reductions. "
E a cobertura noticiosa do estudo, aqui.
E o outro fiasco...(actualizado)
Bad Bet: Why were the political futures markets so wrong about Obama and Clinton?
By Daniel Gross
"So, I've been watching the action in one of the political futures markets this evening, Intrade. And the action in this prediction market has reinforced my opinion that these are less futures markets than immediate-past markets. The price movement tends to respond to conventional wisdom and polling data; it doesn't lead them. Throughout the day and into the early evening, while polls were still open, Democratic investors, mimicking the post-Iowa c.w. and polls, believed Obama was highly likely to be the Democratic nominee. The Obama contract was trading in the lows 70s, meaning investors believed he had a 70 percent chance of being the nominee, while Hillary Clinton contracts were in the 20s. But between 7 p.m. and 8 p.m., as the Concord Monitor began to post early returns showing Hillary Clinton in the lead, the contracts started to move quickly."
Nobody knows anything
By Paul Krugman
"But to be more specific, the prediction markets — which you see, again and again, touted as having some mystical power to aggregate information, know no more than the conventional wisdom. (...) From inevitability to pitiful failure to front-runner again in just a few days. There’s no hint that the market saw either Iowa or New Hampshire coming, or knew anything beyond the bloviations of the talking heads."
E um paper de Setembro de 2007:
Are Political Markets Really Superior to Polls as Election Predictors?
ByRobert Erikson and Christopher Wlezien
"By our tests, the IEM election markets are not better than trial-heat polls for predicting elections. In fact, by a reasonable as opposed to naïve reading of the polls, the polls dominate the markets as an election forecaster. This is true in the sense that a trader in the market can readily profit by 'buying' candidates who, according to informed readings of the polls, are undervalued. Moreover, we find that market prices contain little information of value for forecasting beyond the information already available in the polls."
By Daniel Gross
"So, I've been watching the action in one of the political futures markets this evening, Intrade. And the action in this prediction market has reinforced my opinion that these are less futures markets than immediate-past markets. The price movement tends to respond to conventional wisdom and polling data; it doesn't lead them. Throughout the day and into the early evening, while polls were still open, Democratic investors, mimicking the post-Iowa c.w. and polls, believed Obama was highly likely to be the Democratic nominee. The Obama contract was trading in the lows 70s, meaning investors believed he had a 70 percent chance of being the nominee, while Hillary Clinton contracts were in the 20s. But between 7 p.m. and 8 p.m., as the Concord Monitor began to post early returns showing Hillary Clinton in the lead, the contracts started to move quickly."
Nobody knows anything
By Paul Krugman
"But to be more specific, the prediction markets — which you see, again and again, touted as having some mystical power to aggregate information, know no more than the conventional wisdom. (...) From inevitability to pitiful failure to front-runner again in just a few days. There’s no hint that the market saw either Iowa or New Hampshire coming, or knew anything beyond the bloviations of the talking heads."
E um paper de Setembro de 2007:
Are Political Markets Really Superior to Polls as Election Predictors?
ByRobert Erikson and Christopher Wlezien
"By our tests, the IEM election markets are not better than trial-heat polls for predicting elections. In fact, by a reasonable as opposed to naïve reading of the polls, the polls dominate the markets as an election forecaster. This is true in the sense that a trader in the market can readily profit by 'buying' candidates who, according to informed readings of the polls, are undervalued. Moreover, we find that market prices contain little information of value for forecasting beyond the information already available in the polls."
Fiasco
A vitória de Hillary Clinton em New Hampshire é daqueles acontecimentos que acabam por ser muito positivos para quem faz sondagens, se bem que não pareça. Quando tudo parece correr bem, ninguém se preocupa em investigar o que falhou, mesmo que muito possa ter corrido mal: pode "acertar-se" pelas razões erradas, ou mesmo por acaso. Mas quando há um desafasamento tão óbvio entre as sondagens e os resultados - a média das últimas cinco sondagens dava 38% para Obama e 31% para Clinton, quando os resultados foram 39% para Clinton e 37% para Obama - não há alternativa se não investigar o que correu mal e claro, aprender. Isto dito por quem, felizmente, não teve de fazer sondagens em New Hampshire...
Há um risco, contudo: a da multiplicação de explicações ad hoc e post hoc sobre o que se passou. Ontem de madrugada, já andava o inefável Wolf Blitzer na CNN a explicar que a lágrima ao canto do olho de Clinton"mostrou o seu lado humano" e que isso pode ter influenciado os resultados e yadda, yadda, yadda. A minha sugestão é que não acreditem. Aliás, não acreditem em nenhuma das dezenas de explicações que vão aparecer agora para dar conta do que aconteceu. Vai passar algum tempo e vai ser precisa muita análise até que se perceba qual ou quais dessas razões poderá estado realmente por detrás do falhanço das sondagens.
No mesmo sentido, ver Gary Langer, sobre o New Hampshire's Polling Fiasco:
"There will be a serious, critical look at the final pre-election polls in the Democratic presidential primary in New Hampshire; that is essential. It is simply unprecedented for so many polls to have been so wrong. We need to know why. But we need to know it through careful, empirically based analysis. There will be a lot of claims about what happened - about respondents who reputedly lied, about alleged difficulties polling in biracial contests. That may be so. It also may be a smokescreen - a convenient foil for pollsters who'd rather fault their respondents than own up to other possibilities - such as their own failings in sampling and likely voter modeling."
Há um risco, contudo: a da multiplicação de explicações ad hoc e post hoc sobre o que se passou. Ontem de madrugada, já andava o inefável Wolf Blitzer na CNN a explicar que a lágrima ao canto do olho de Clinton"mostrou o seu lado humano" e que isso pode ter influenciado os resultados e yadda, yadda, yadda. A minha sugestão é que não acreditem. Aliás, não acreditem em nenhuma das dezenas de explicações que vão aparecer agora para dar conta do que aconteceu. Vai passar algum tempo e vai ser precisa muita análise até que se perceba qual ou quais dessas razões poderá estado realmente por detrás do falhanço das sondagens.
No mesmo sentido, ver Gary Langer, sobre o New Hampshire's Polling Fiasco:
"There will be a serious, critical look at the final pre-election polls in the Democratic presidential primary in New Hampshire; that is essential. It is simply unprecedented for so many polls to have been so wrong. We need to know why. But we need to know it through careful, empirically based analysis. There will be a lot of claims about what happened - about respondents who reputedly lied, about alleged difficulties polling in biracial contests. That may be so. It also may be a smokescreen - a convenient foil for pollsters who'd rather fault their respondents than own up to other possibilities - such as their own failings in sampling and likely voter modeling."
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Obama e os efeitos de Iowa para NH
Algumas ideias:
1. NH: View from Sunday Morning, no habitual Pollster. Merece ser lido integralmente, mas:
"Obama is certainly rising, the only question is by how much;"
"Firm conclusions are premature for two important reasons. The first involves the issue of weekend interviewing, or more specifically, surveys based on interviews completed entirely on Friday night and Saturday. (...) The second and more important reason to be cautious about this Sunday morning snapshot is that New Hampshire voters are still in the midst of a difficult decision;"
"I cannot point to an academic study to prove this, but most campaign pollsters will tell you that when a candidate is gaining, vote preference is usually the last thing to change. The movement usually shows up first on internal measures."
2. Polls Picking Up an Obama Surge?, no também habitual The Fix:
"In the days since Clinton's third-place finish in Iowa, her campaign has insisted that New Hampshire would pay little attention to what happened in the Hawkeye State. "Voters in New Hampshire are fiercely independent," argued Clinton deputy communications director Phil Singer in the spin room following last night's Democratic debate. 'They make their own decisions [based on] what they see, not what happens in other places.' Tonight's polls seem to contradict that argument."
"Unlike in years past, however, there is so little time between the votes in Iowa and New Hampshire that even a temporary bounce could be enough to carry Obama to victory in the primary, a win that would be another major step forward in his quest for the nomination."
1. NH: View from Sunday Morning, no habitual Pollster. Merece ser lido integralmente, mas:
"Obama is certainly rising, the only question is by how much;"
"Firm conclusions are premature for two important reasons. The first involves the issue of weekend interviewing, or more specifically, surveys based on interviews completed entirely on Friday night and Saturday. (...) The second and more important reason to be cautious about this Sunday morning snapshot is that New Hampshire voters are still in the midst of a difficult decision;"
"I cannot point to an academic study to prove this, but most campaign pollsters will tell you that when a candidate is gaining, vote preference is usually the last thing to change. The movement usually shows up first on internal measures."
2. Polls Picking Up an Obama Surge?, no também habitual The Fix:
"In the days since Clinton's third-place finish in Iowa, her campaign has insisted that New Hampshire would pay little attention to what happened in the Hawkeye State. "Voters in New Hampshire are fiercely independent," argued Clinton deputy communications director Phil Singer in the spin room following last night's Democratic debate. 'They make their own decisions [based on] what they see, not what happens in other places.' Tonight's polls seem to contradict that argument."
"Unlike in years past, however, there is so little time between the votes in Iowa and New Hampshire that even a temporary bounce could be enough to carry Obama to victory in the primary, a win that would be another major step forward in his quest for the nomination."
domingo, janeiro 06, 2008
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Um ponto adicional sobre Iowa...
...é o seguinte (e que me foi sugerido hoje ao almoço pelo José Tavares): quando olhamos para os resultados das sondagens "à boca das urnas" (por assim dizer), vemos que não há uma grande correlação entre o voto em Obama e características socio-demográficas ou mesmo atitudinais dos eleitores. Obama dominou em quase todas as "auto-identificações ideológicas" e níveis de rendimento. As correlações mais fortes são com a idade e com o estado civil (provavelmente espúria esta última), mas isso, como vimos aqui, é o sinal de uma vantagem na capacidade de mobilização de novos eleitores. Isto não se passa da mesma forma com os candidatos republicanos, cada um deles aparentemente mais representante de determinados segmentos ou nichos do eleitorado. Se a isto somarmos o facto de um negro ter ganho num estado de brancos religiosos e conservadores, temos aqui duas coisas: por um lado, um sintoma da natureza "transversal" da candidatura de Obama; e por outro, um potencial efeito de demonstração que esse facto terá sobre as considerações dos eleitores nas futuras primárias. Há "electability" para dar e vender na candidatura de Obama.
Notas sobre Iowa
1. Obama e os novos eleitores:
"Obama's field operation -- led by Iowa state director Paul Tewes, adviser Steve Hildebrand and caucus director Mitch Stewart-- deserves a MASSIVE amount of credit for the work they did to recruit first-time caucus-goers. The Iowa Democratic Party was estimating turnout at 236,000 -- a huge increase from the 125,000 or so who turned out in 2004 (and an even larger leap over 2000's tiny 59,000 turnout). Tewes and Hildebrand were widely regarded as two of the best in the business, but even those who spoke glowingly of them didn't think they could grow the electorate over 200,000. Well, they did that and much, much more."
E ver isto.
2. A mobilização dos Democratas
"Republicans could well be in deep, deep trouble next November if turnout patterns in tonight's Iowa caucuses are born out across the country. More than 230,000 Democrats turned out, more than double the number of Iowa Republicans who did the same. The energy deficit has been clear for much of the past few years and led to Democrats' gains in the House and Senate in 2006. That chasm appears to be growing wider."
3. Iowa é importante, mas apenas na medida em que influencia New Hampshire:
"New Hampshire is the early state that has the biggest impact. Not Iowa. Iowa has a habit of picking losers. It is easy for media types to forget that because in its most recent outing, 2004, it single-handedly determined the winner. But historically, Iowa does not make much of a big ripple nationwide. The big question: will Iowa move New Hampshire? Obama needs it to. He is in second there right now. We don't have an answer yet - and history provides a mixed message. Sometimes Iowa does move New Hampshire. Sometimes it doesn't."
Ver também aqui.
4. Romney é o candidato dos Republicanos anti-Bush. Não parece que isso lhe seja particularmente favorável.
"Tonight was bad for Romney. Really bad. He lost by a lot. He lost by more than anybody expected. He lost after having led for a year. He lost after a monumental effort. This loss was bigger than Clinton's. He is not his party's frontrunner. He cannot afford to lose a state he tried so hard to win. Worse for Romney - McCain had already surged ahead of him in New Hampshire prior to tonight's loss."
"Obama's field operation -- led by Iowa state director Paul Tewes, adviser Steve Hildebrand and caucus director Mitch Stewart-- deserves a MASSIVE amount of credit for the work they did to recruit first-time caucus-goers. The Iowa Democratic Party was estimating turnout at 236,000 -- a huge increase from the 125,000 or so who turned out in 2004 (and an even larger leap over 2000's tiny 59,000 turnout). Tewes and Hildebrand were widely regarded as two of the best in the business, but even those who spoke glowingly of them didn't think they could grow the electorate over 200,000. Well, they did that and much, much more."
E ver isto.
2. A mobilização dos Democratas
"Republicans could well be in deep, deep trouble next November if turnout patterns in tonight's Iowa caucuses are born out across the country. More than 230,000 Democrats turned out, more than double the number of Iowa Republicans who did the same. The energy deficit has been clear for much of the past few years and led to Democrats' gains in the House and Senate in 2006. That chasm appears to be growing wider."
3. Iowa é importante, mas apenas na medida em que influencia New Hampshire:
"New Hampshire is the early state that has the biggest impact. Not Iowa. Iowa has a habit of picking losers. It is easy for media types to forget that because in its most recent outing, 2004, it single-handedly determined the winner. But historically, Iowa does not make much of a big ripple nationwide. The big question: will Iowa move New Hampshire? Obama needs it to. He is in second there right now. We don't have an answer yet - and history provides a mixed message. Sometimes Iowa does move New Hampshire. Sometimes it doesn't."
Ver também aqui.
4. Romney é o candidato dos Republicanos anti-Bush. Não parece que isso lhe seja particularmente favorável.
"Tonight was bad for Romney. Really bad. He lost by a lot. He lost by more than anybody expected. He lost after having led for a year. He lost after a monumental effort. This loss was bigger than Clinton's. He is not his party's frontrunner. He cannot afford to lose a state he tried so hard to win. Worse for Romney - McCain had already surged ahead of him in New Hampshire prior to tonight's loss."
"The press is not interpreting this as 'Clinton ties Obama among Democrats in entrance poll' or 'Mormon Romney finishes strong second in evangelical Iowa.' This matters. Watch how the press continues to interpret these results over the next few days. It is the source of information for persuadable voters in New Hampshire."
Resumo:
- Nos Democratas. Iowa acaba com Edwards. Agora é só entre Obama e Clinton. E se Obama ganha New Hampshire...Nas sondagens ainda está atrás de Clinton. Mas nos mercados electrónicos, que já estão a reagir a Iowa, já está à frente.
- Nos Republicanos, McCain, que parecia perdido, pode voltar à lista dos favoritos com New Hampshire. Romney sofre uma derrota muito grave e acaba se não ganhar New Hampshire, o que é cada vez mais provável. Thompson já acabou. Huckabee já não é uma curiosidade. Giuliani em suspenso.
quinta-feira, janeiro 03, 2008
Over by Tuesday?
No Insurgente, duvida-se que na Super Duper Tuesday, o dia 5 de Fevereiro de 2008, se fique a saber o nome dos candidatos dos partidos Democrata e Republicano.
Não há dúvida que é possível que permaneça alguma incerteza depois desse dia. Nessa altura, terão sido realizadas primárias em apenas (este "apenas" devia ter aspas) 30 estados para o candidato Democrata e 28 para o candidato Republicano. "Apenas" 60% dos delegados estarão eleitos por essa altura. E nem todos estão comprometidos com um candidato. E as convenções terão "superdelegados", não determinados pelos resultados das primárias. Matematicamente, é claro que é possível que os nomeados só se conheçam na última primária, a 3 de Junho.
Mas é, claro, altamente improvável. Na era "moderna" das primárias (e na era "pós-moderna" das Super Tuesdays, que começou em 1988), houve apenas um caso onde uma candidatura (de um partido onde o incumbent não seja o candidato) não ficou decidida na Super Tuesday. Foi em 1988, precisamente, com Dukakis a emergir após resultados inconclusivos nos estados do Sul. Mas em 1992 decidiu-se Clinton, em 1996 Dole, e em 2000 Bush e Gore. Acresce a isto que, este ano, com o crescente frontloading, a Super Tuesday vai bater o recorde de número de estados onde se realizam primárias e de número de delegados eleitos. Ao contrário das primeiras Super Tuesdays, o menu de estados é muito diverso, e vai desde o Arkansas à Califórnia. Eu ficaria muito, mas mesmo muito, surpreendido se tudo não ficasse decidido aí.
Não há dúvida que é possível que permaneça alguma incerteza depois desse dia. Nessa altura, terão sido realizadas primárias em apenas (este "apenas" devia ter aspas) 30 estados para o candidato Democrata e 28 para o candidato Republicano. "Apenas" 60% dos delegados estarão eleitos por essa altura. E nem todos estão comprometidos com um candidato. E as convenções terão "superdelegados", não determinados pelos resultados das primárias. Matematicamente, é claro que é possível que os nomeados só se conheçam na última primária, a 3 de Junho.
Mas é, claro, altamente improvável. Na era "moderna" das primárias (e na era "pós-moderna" das Super Tuesdays, que começou em 1988), houve apenas um caso onde uma candidatura (de um partido onde o incumbent não seja o candidato) não ficou decidida na Super Tuesday. Foi em 1988, precisamente, com Dukakis a emergir após resultados inconclusivos nos estados do Sul. Mas em 1992 decidiu-se Clinton, em 1996 Dole, e em 2000 Bush e Gore. Acresce a isto que, este ano, com o crescente frontloading, a Super Tuesday vai bater o recorde de número de estados onde se realizam primárias e de número de delegados eleitos. Ao contrário das primeiras Super Tuesdays, o menu de estados é muito diverso, e vai desde o Arkansas à Califórnia. Eu ficaria muito, mas mesmo muito, surpreendido se tudo não ficasse decidido aí.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Momento
Por estes dias, a leitura mais útil é o velhinho (1988) Presidential Primaries and the Dynamics of Public Choice, de Larry Bartels. Bartels mostrou pela primeira vez a importância do momento (o termo da Física, usado aqui num sentido figurativo) que os candidatos adquirem com os resultados das primeiras primárias. Segundo Bartels, os eleitores escolhem candidatos nas primárias na base da informação (em muitos casos reduzida) que têm sobre eles, das suas próprias predisposições e das suas expectativas sobre o desfecho do processo de nomeação. O primeiro e último pontos são cruciais. Os eleitores são estratégicos e, logo, escolhem entre candidatos próximos em relação às suas preferências mas também entre candidatos viáveis. E os eleitores sabem muito pouco sobre política (têm mais em que pensar) e, logo, usam os resultados das primárias como "heurística" para tomar decisões. Já na altura, Bartels criticava a possibilidade de que determinados candidatos insuficientemente conhecidos e testados ganhassem "momento" demasiado depressa (hoje, Obama, e ainda mais, Huckabee).
Jay Cost, no Real Clear Politics, tem um excelente artigo (em duas partes) sobre o assunto. Duas citações:
"The average voter pays little attention to politics, and so has little knowledge of it. This is how momentum can have such an effect. An electoral victory is big news to a voter who knows relatively little about the race. He undoubtedly hears about it, and so hears lots of positive information about the winner. As he did not know much to begin with, this information can be critical to his decision-making. Unsurprisingly, researchers have found that momentum can have its greatest effect on those who do not pay as much attention to the campaign."
"Clearly, the Republicans have no pre-election year frontrunner - like the Democrats in 1988. This means that momentum definitely could be a factor. As I said, we probably will not see the kind of successful slow-building momentum akin to what McCain almost had in 2000, though it is still possible. What is more likely is momentum that comes from a win in Iowa and/or New Hampshire - a candidate then uses those victories to launch himself beyond the rest of a lackluster field. "
O artigo de Jay Cost (que ainda há pouco tempo era um doutorando na Universidade de Chicago) é, de resto, um exemplo notável de como se pode trazer para o debate público e de forma compreensível mas rigorosa coisas bastante complicadas da bibliografia de Ciência Política.
Jay Cost, no Real Clear Politics, tem um excelente artigo (em duas partes) sobre o assunto. Duas citações:
"The average voter pays little attention to politics, and so has little knowledge of it. This is how momentum can have such an effect. An electoral victory is big news to a voter who knows relatively little about the race. He undoubtedly hears about it, and so hears lots of positive information about the winner. As he did not know much to begin with, this information can be critical to his decision-making. Unsurprisingly, researchers have found that momentum can have its greatest effect on those who do not pay as much attention to the campaign."
"Clearly, the Republicans have no pre-election year frontrunner - like the Democrats in 1988. This means that momentum definitely could be a factor. As I said, we probably will not see the kind of successful slow-building momentum akin to what McCain almost had in 2000, though it is still possible. What is more likely is momentum that comes from a win in Iowa and/or New Hampshire - a candidate then uses those victories to launch himself beyond the rest of a lackluster field. "
O artigo de Jay Cost (que ainda há pouco tempo era um doutorando na Universidade de Chicago) é, de resto, um exemplo notável de como se pode trazer para o debate público e de forma compreensível mas rigorosa coisas bastante complicadas da bibliografia de Ciência Política.
segunda-feira, dezembro 31, 2007
Iowa, a três dias
Estamos em pleno dark side of the moon. Mas é evidente que, nos estudos mais recentes, Clinton e Edwards sobem e Obama desce. Como sempre, o Pollster analisa tudo o que é importante:
- o desempenho passado das sondagens no Iowa;
- os efeitos do processo de caucus em fortalecer os dois candidatos da frente e prejudicar os afectados por quedas recentes. À luz dos dados mais recentes, isto é muito bom para Clinton e potencialmente mau para Obama.
- o desempenho passado das sondagens no Iowa;
- os efeitos do processo de caucus em fortalecer os dois candidatos da frente e prejudicar os afectados por quedas recentes. À luz dos dados mais recentes, isto é muito bom para Clinton e potencialmente mau para Obama.
sábado, dezembro 29, 2007
O ano eleitoral
2008 não será particularmente excitante. A excepção é o main event, nos Estados Unidos, que dura o ano todo. Começa já no dia 3 de Janeiro, no Iowa. Cinco dias depois é New Hampshire. Dia 5 de Fevereiro temos a Super Duper Tuesday. Por esta altura, já estará tudo decidido quanto aos candidatos à presidência de cada partido. Depois é gastar até ao dia 4 de Novembro. Em 2004, gastaram-se (oficialmente) mil e quatrocentos milhões de dólares, 0,7% do produto interno bruto português. Neste ciclo de 2008, para já, vamos em 426 milhões.
Salva-se também Espanha, em Março. A sondagem mais recente, do Instituto Opina, dá 45% ao PSOE, 8 pontos acima do PP, e a satisfação com Zapatero está acima dos 50 pontos. Mas as coisas podem não ser tão simples. O barómetro de Novembro do CIS dá apenas 2 pontos de vantagem ao PSOE e, mesmo se a vitória do PSOE parece provável, duvida-se de uma maioria absoluta.
Na Rússia, eleições presidenciais a 2 de Março. Dimitry Putin, desculpem, Vladimir Medvedev lidera as intenções de voto, com 40 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, um senhor chamado Zhirinovsky. Vai ser emocionante. No Zimbabwe, também em Março, Mugabe concorre a um sexto mandato, e em Setembro (5 e 6), haverá legislativas em Angola. Vai ser tão emocionante como na Rússia.
Salva-se também Espanha, em Março. A sondagem mais recente, do Instituto Opina, dá 45% ao PSOE, 8 pontos acima do PP, e a satisfação com Zapatero está acima dos 50 pontos. Mas as coisas podem não ser tão simples. O barómetro de Novembro do CIS dá apenas 2 pontos de vantagem ao PSOE e, mesmo se a vitória do PSOE parece provável, duvida-se de uma maioria absoluta.
Na Rússia, eleições presidenciais a 2 de Março. Dimitry Putin, desculpem, Vladimir Medvedev lidera as intenções de voto, com 40 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, um senhor chamado Zhirinovsky. Vai ser emocionante. No Zimbabwe, também em Março, Mugabe concorre a um sexto mandato, e em Setembro (5 e 6), haverá legislativas em Angola. Vai ser tão emocionante como na Rússia.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Iowa e New Hampshire update, a uma semana
1. Nos Democratas, uma sondagem recente do American Research Group dá uns espectaculares 14 pontos de avanço a Hillary Clinton sobre Edwards em Iowa, com Obama em terceiro. A confirmar nos próximos dias. Mas no Pollster, uma nota importante: o ARG tem dado resultados para Clinton sempre acima da tendência. Seja como for, os mercados electrónicos de futuros parecem ter levado a sondagem a sério: Obama desce e Clinton sobe no Intrade.
2. Nos Republicanos, Huckabee parece imparável, quer nas sondagens quer nos mercados electrónicos: a estimativa Franklin e Blumenthal para Huckabee, neste momento, é de 34%, contra 23% para Romney. No Intrade, Huckabee é absolutamente favorito. Mas há uma tendência recente para a diminuição da vantagem de Huckabee, que os mercados parecem não ter detectado (ou não levar ainda a sério).
3. Dito isto, duas precauções gerais sobre Iowa:
- as sondagens mais recentes estão potencialmente afectadas pelo período festivo. Polling on the dark side of the Moon, chama-lhe Blumenthal;
- as sondagens para um caucus, com baixíssima participação, estão sempre potencialmente afectadas pela dificuldade em estimar os votantes prováveis.
4. Em New Hampshire, Clinton e Obama praticamente empatados, se não contarmos, mais uma vez, com a sondagem ARG (que dá grande vantagem para Clinton). Mas tudo vai ser afectado pelo resultado de Iowa. E a grande notícia vem dos Republicanos: a subida de McCain, que já aparece empatado com Romney numa das sondagens.
5. E há quem esteja farto de ver as primárias americanas tão poderosamente afectadas por eleições em dois estados pequenos e não representativos (G. Terry Madonna e Michael Young, "Iowa e New Hampshire: Same Old, Same Old"):
"The entire nominating apparatus is again fixated on Iowa and New Hampshire, resulting in more candidate visits than ever; more media coverage than ever; more TV commercials than ever; and more money spent than ever. Once again the outcome of a presidential race may depend on the results of two small unrepresentative states";
"When the early states vote, many voters in other states not have thought deeply about their choices. But the intense and concentrated coverage for Iowa and New Hampshire introduce candidates to a national electorate as de facto "winners" or "losers" before more than 90% of voters can cast ballots."
2. Nos Republicanos, Huckabee parece imparável, quer nas sondagens quer nos mercados electrónicos: a estimativa Franklin e Blumenthal para Huckabee, neste momento, é de 34%, contra 23% para Romney. No Intrade, Huckabee é absolutamente favorito. Mas há uma tendência recente para a diminuição da vantagem de Huckabee, que os mercados parecem não ter detectado (ou não levar ainda a sério).
3. Dito isto, duas precauções gerais sobre Iowa:
- as sondagens mais recentes estão potencialmente afectadas pelo período festivo. Polling on the dark side of the Moon, chama-lhe Blumenthal;
- as sondagens para um caucus, com baixíssima participação, estão sempre potencialmente afectadas pela dificuldade em estimar os votantes prováveis.
4. Em New Hampshire, Clinton e Obama praticamente empatados, se não contarmos, mais uma vez, com a sondagem ARG (que dá grande vantagem para Clinton). Mas tudo vai ser afectado pelo resultado de Iowa. E a grande notícia vem dos Republicanos: a subida de McCain, que já aparece empatado com Romney numa das sondagens.
5. E há quem esteja farto de ver as primárias americanas tão poderosamente afectadas por eleições em dois estados pequenos e não representativos (G. Terry Madonna e Michael Young, "Iowa e New Hampshire: Same Old, Same Old"):
"The entire nominating apparatus is again fixated on Iowa and New Hampshire, resulting in more candidate visits than ever; more media coverage than ever; more TV commercials than ever; and more money spent than ever. Once again the outcome of a presidential race may depend on the results of two small unrepresentative states";
"When the early states vote, many voters in other states not have thought deeply about their choices. But the intense and concentrated coverage for Iowa and New Hampshire introduce candidates to a national electorate as de facto "winners" or "losers" before more than 90% of voters can cast ballots."
terça-feira, dezembro 18, 2007
sexta-feira, dezembro 14, 2007
14%
Rússia, VCIOM, 5-6 Maio, N=1600
Recently, Russia was criticized for human rights violations by the US Department of State. Why do you think the US Department of State criticized Russia? (up to two responses):
Because the US are disatisfied with Russia being independent and are looking for excuses to discredit Russia: 40%
Because of the US traditional preconceived attitude to Russia and Russians: 27%
To support westernized opposition forces in Russia:16%
Because human rights are often violated: 14%
Other:1%
Hard to answer:14%
Recently, Russia was criticized for human rights violations by the US Department of State. Why do you think the US Department of State criticized Russia? (up to two responses):
Because the US are disatisfied with Russia being independent and are looking for excuses to discredit Russia: 40%
Because of the US traditional preconceived attitude to Russia and Russians: 27%
To support westernized opposition forces in Russia:16%
Because human rights are often violated: 14%
Other:1%
Hard to answer:14%
Perguntas directas, respostas directas
Rússia, Nov. 20-23, Yury Levada Analytical Center, N=1600.
Do you agree or disagree with this statement? - "Maintaining order is very important, even if democratic principles and personal freedoms are trampled."
Agree: 69%
Disagree: 18%
Hard to answer: 13%
Do you agree or disagree with this statement? - "Maintaining order is very important, even if democratic principles and personal freedoms are trampled."
Agree: 69%
Disagree: 18%
Hard to answer: 13%
quinta-feira, dezembro 13, 2007
Referendos e ditaduras
E no meio da conversa que houve há uma semana sobre as "estranhas ditaduras" onde se perdem referendos, esqueci-me do melhor exemplo de todos.
Da Wikipedia:
The Zimbabwe constitution referendum of February 12-13, 2000 saw the defeat of a proposed new Constitution of Zimbabwe which had been drafted by a Constitutional Convention the previous year. The defeat was unexpected and was taken as a personal rebuff for President Robert Mugabe and a political triumph for the newly-formed opposition group, the Movement for Democratic Change. The new proposed constitution was notable for giving power to the government to seize farms owned by white farmers, without compensation, and transfer them to black farm owners as part of a scheme of land reform.
E a seguir:
DESPITE its humiliating defeat in last weekend's constitutional referendum, the Zimbabwe government said yesterday that it would push through an amendment that would allow the state to seize white-owned farms without compensation.
O resto já sabemos como foi.
Da Wikipedia:
The Zimbabwe constitution referendum of February 12-13, 2000 saw the defeat of a proposed new Constitution of Zimbabwe which had been drafted by a Constitutional Convention the previous year. The defeat was unexpected and was taken as a personal rebuff for President Robert Mugabe and a political triumph for the newly-formed opposition group, the Movement for Democratic Change. The new proposed constitution was notable for giving power to the government to seize farms owned by white farmers, without compensation, and transfer them to black farm owners as part of a scheme of land reform.
E a seguir:
DESPITE its humiliating defeat in last weekend's constitutional referendum, the Zimbabwe government said yesterday that it would push through an amendment that would allow the state to seize white-owned farms without compensation.
O resto já sabemos como foi.
terça-feira, dezembro 11, 2007
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Marktest, 20-23 de Novembro
Há dias, mencionei aqui que o DN não tinha publicado os resultados completos do Barómetro, nomeadamente em relação à avaliação dos líderes políticos. Mas a Marktest, como é hábito, põe tudo cá fora. Está aqui. E ainda tiveram a amabilidade de me cederem dados mais desagregados:
Cavaco Silva
Actuação positiva: 70%
Negativa: 12%
Ns/Nr: 18%
José Sócrates
Actuação positiva: 38%
Negativa: 45%
Ns/Nr: 17%
Luis Filipe Menezes
Actuação positiva: 27%
Negativa: 26%
Ns/Nr: 47%
Jerónimo de Sousa
Actuação positiva: 38%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 31%
Paulo Portas
Actuação positiva: 28%
Negativa: 49%
Ns/Nr: 23%
Francisco Louçã
Actuação positiva: 42%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 27%
Obrigado.
Cavaco Silva
Actuação positiva: 70%
Negativa: 12%
Ns/Nr: 18%
José Sócrates
Actuação positiva: 38%
Negativa: 45%
Ns/Nr: 17%
Luis Filipe Menezes
Actuação positiva: 27%
Negativa: 26%
Ns/Nr: 47%
Jerónimo de Sousa
Actuação positiva: 38%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 31%
Paulo Portas
Actuação positiva: 28%
Negativa: 49%
Ns/Nr: 23%
Francisco Louçã
Actuação positiva: 42%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 27%
Obrigado.
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Al Gathafi speaks...
Miguel Vale de Almeida chama a atenção para um anúncio de página inteira no Público que convida os eleitores a visitarem o site de Muammar Al Gathafi e onde se fazem umas considerações críticas à Convenção de Otava sobre Minas Terrestres ("Os países poderosos não precisam de minas para se protegerem. As minas são o meio de auto-defesa dos países fracos") e sobre a "ilegalidade do Tribunal Criminal Internacional".
Não quero estragar completamente o dia a Miguel Vale de Almeida, mas se ele soubesse que o Centro de História da Universidade de Lisboa, "em colaboração com a Reitoria e com o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação", vai organizar depois de amanhã um "Seminário" com a presença de Muammar Al Gathafi (ou Al Khadafi) onde ele vai falar sobre "Problemas da Sociedade Contemporânea"... Ai não acreditam? Então confirmem.
Não quero estragar completamente o dia a Miguel Vale de Almeida, mas se ele soubesse que o Centro de História da Universidade de Lisboa, "em colaboração com a Reitoria e com o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação", vai organizar depois de amanhã um "Seminário" com a presença de Muammar Al Gathafi (ou Al Khadafi) onde ele vai falar sobre "Problemas da Sociedade Contemporânea"... Ai não acreditam? Então confirmem.
Iowa
Em rigor, já não se pode dizer que Hillary Clinton lidera as sondagens no Iowa. A média das 13 sondagens conduzidas em Novembro é de 28% para Clinton e 25% para Obama. Mas quando olhamos apenas para as conduzidas na 2ª metade do mês, Clinton e Obama estão empatados com 27%.
Em New Hampshire, a mesma tendência. Clinton com 35% em média em Novembro, Obama com 23%. Mas na segunda metade do mês, 33% para Clinton e 24% para Obama. Aqui a margem ainda é confortável. Mas quem sabe o que se passará no Iowa, e as consequências disso?
Karl Rove, no Finantial Times (via Atlântico, onde ainda cheira um bocado a queimado), partilha pelos vistos da opinião (ah, ah!) que dei aqui em Outubro: Iowa é a única e derradeira chance que Obama tem para evitar o inevitável. Mas por que razão gostaria Rove de evitar este inevitável? Aposto tudo o que vocês quiserem que a campanha Clinton vai usar este artigo para mostrar que Rove e os Republicanos gostariam que Obama ganhasse. No meio da crise, um ponto para Hillary, portanto.
Em New Hampshire, a mesma tendência. Clinton com 35% em média em Novembro, Obama com 23%. Mas na segunda metade do mês, 33% para Clinton e 24% para Obama. Aqui a margem ainda é confortável. Mas quem sabe o que se passará no Iowa, e as consequências disso?
Karl Rove, no Finantial Times (via Atlântico, onde ainda cheira um bocado a queimado), partilha pelos vistos da opinião (ah, ah!) que dei aqui em Outubro: Iowa é a única e derradeira chance que Obama tem para evitar o inevitável. Mas por que razão gostaria Rove de evitar este inevitável? Aposto tudo o que vocês quiserem que a campanha Clinton vai usar este artigo para mostrar que Rove e os Republicanos gostariam que Obama ganhasse. No meio da crise, um ponto para Hillary, portanto.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Ainda a Venezuela e a "democracia", pós-referendo
A principal razão por que me interessa discutir se a Venezuela é ou não uma democracia é talvez um pouco diferente daquela que move alguns dos que têm debatido esta questão na blogosfera e fora dela. É evidente que não simpatizo com os atropelos de Chávez e que , independentemente dos benefícios ou não que tenham decorrido da sua governação para os venezuelanos (um aspecto sobre o qual se presume muito e demonstra pouco), acho que viver em democracia é um bem em si mesmo, algo intrinsecamente positivo.
Mas para além desta motivação assumidamente política, tenho outra, que talvez até seja mais importante para mim. Quando quero perceber, na minha actividade profissional, o que causa a emergência ou a sobrevivência das democracias, quais as consequências de se ter ou viver num regime democrático, ou a explicação dos comportamentos políticos nas democracias, convém-me ter no bolso pelo menos uma definição qualquer de "democracia", para saber que casos devo incluir, que casos excluir ou como os classifico. Num sentido mais lato, esta discussão continua a ser "política". Mas num sentido mais estrito, é uma questão de medição. O que é e o que não é uma democracia? Questão complicada, mas que tenho de quotidianamente tentar resolver.
Vem tudo isto a propósito dos resultados do referendo e de algumas reacções que inspiraram. Particularmente simbólica é esta:
"Estranha ditadura que promove eleições e que aceita os resultados quando é derrotada nas urnas. (...) Estranha ditadura em que a pobreza diminui e em que os estudos internacionais mostram que a maioria esmagadora dos eleitores está contente com a qualidade da democracia",
escreve Nuno Ramos de Almeida no cinco dias.
Pois lamento, mas ainda não estou persuadido. Tenho visto aqui e ali referências ao Chile, e acho que podemos começar por aí. Por um conjunto de razões que ainda se discutem, o referendo acabou mesmo por ser convocado em 1988, permitiu uma votação sem fraudes e os seus resultados - inesperadamente desfavoráveis para Pinochet - foram aceites pelos militares. Foi o início da transição para a democracia no Chile. Mas daí até dizer-se que o Chile era uma democracia em 1988 ou até em 1987, 1986 ou antes vai alguma distância, que pelos vistos Nuno Ramos de Almeida tem alguma dificuldade em discernir. Esta ideia de "validação" à posteriori do carácter democrático de um regime, através da qual se classifica como democrático todo o regime no qual o detentor do poder acaba por perder eleições, não deixa de ter um bom pedigree. Este belo livrinho usa-a, precisamente, para distinguir democracias de regimes não-democráticos. Mas se queremos ir por aqui e seguir os critérios de Przeworski e seus colegas, então temos de esperar que Chávez perca eleições presidenciais. Não me consta que tenha sido isso que sucedeu no passado Domingo.
De resto, é curioso que se mencione o caso do Chile e ninguém se tenha lembrado do caso...português. Em 1975, com alguma surpresa, quem ganhou as eleições não foi quem controlava as rédeas do poder. As eleições de 1975 tiveram, aliás, o condão especial de revelarem que o PCP e os sectores mais à esquerda do aparelho militar que tutelavam na altura o regime tinham muito menos apoio popular do que se julgava. Mas a não ser que Nuno Ramos de Almeida esteja preparado para nos explicar como, em 1975, Portugal era um regime democrático- coisa que, manifestamente, (ainda) não era - a derrota eleitoral dos detentores do poder não chega para definir um regime.
Chamo a atenção para um conjunto de estudos de Steven Levitsky e Lucan Way (obrigado Andrés pela lembrança). Levitsky e Way vêm escrevendo sobre aquilo que chamam "autoritarismos competitivos". Vale a pena ler com atenção:
"In competitive authoritarian regimes, formal democratic institutions are widely viewed as the principal means of obtaining and exercising political authority. Incumbents violate those rules so often and to such an extent, however, that the regime fails to meet conventional minimum standards for democracy. (...) Competitive authoritarianism must be distinguished from democracy on the one hand and full-scale authoritarianism on the other. Modern democratic regimes all meet four minimum criteria: 1) Executives and legislatures are chosen through elections that are open, free, and fair; 2) virtually all adults possess the right to vote; 3) political rights and civil liberties, including freedom of the press, freedom of association, and freedom to criticize the government without reprisal, are broadly protected; and 4) elected authorities possess real authority to govern, in that they are not subject to the tutelary control of military or clerical leaders. Although even fully democratic regimes may at times violate one or more of these criteria, such violations are not broad or systematic enough to seriously impede democratic challenges to incumbent governments. In other words, they do not fundamentally alter the playing field between government and opposition. (...) In competitive authoritarian regimes, by contrast, violations of these criteria are both frequent enough and serious enough to create an uneven playing field between government and opposition. Although elections are regularly held and are generally free of massive fraud, incumbents routinely abuse state resources, deny the opposition adequate media coverage, harass opposition candidates and their supporters, and in some cases manipulate electoral results. Journalists, opposition politicians, and other government critics may be spied on, threatened, harassed, or arrested. Members of the opposition may be jailed, exiled, or—less frequently—even assaulted or murdered. Regimes characterized by such abuses cannot be called democratic."
E há um artigo interessante na Foreign Policy de Janeiro do ano passado que explora a aplicação do conceito ao caso da Venezuela.
Há muita gente que discorda de Levitsky e Way. Não quero com tudo isto desvalorizar os resultados do referendo de Domingo passado, nem aquilo que eles nos podem dizer sobre a natureza do regime ou as suas perspectivas de mudança e evolução. Nem sequer estou certo se consigo, para já, chegar a um veredicto sobre se a Venezuela é ou não é uma democracia. Mas não me parece que perder um referendo chegue, por si só, para esse veredicto.
Mas para além desta motivação assumidamente política, tenho outra, que talvez até seja mais importante para mim. Quando quero perceber, na minha actividade profissional, o que causa a emergência ou a sobrevivência das democracias, quais as consequências de se ter ou viver num regime democrático, ou a explicação dos comportamentos políticos nas democracias, convém-me ter no bolso pelo menos uma definição qualquer de "democracia", para saber que casos devo incluir, que casos excluir ou como os classifico. Num sentido mais lato, esta discussão continua a ser "política". Mas num sentido mais estrito, é uma questão de medição. O que é e o que não é uma democracia? Questão complicada, mas que tenho de quotidianamente tentar resolver.
Vem tudo isto a propósito dos resultados do referendo e de algumas reacções que inspiraram. Particularmente simbólica é esta:
"Estranha ditadura que promove eleições e que aceita os resultados quando é derrotada nas urnas. (...) Estranha ditadura em que a pobreza diminui e em que os estudos internacionais mostram que a maioria esmagadora dos eleitores está contente com a qualidade da democracia",
escreve Nuno Ramos de Almeida no cinco dias.
Pois lamento, mas ainda não estou persuadido. Tenho visto aqui e ali referências ao Chile, e acho que podemos começar por aí. Por um conjunto de razões que ainda se discutem, o referendo acabou mesmo por ser convocado em 1988, permitiu uma votação sem fraudes e os seus resultados - inesperadamente desfavoráveis para Pinochet - foram aceites pelos militares. Foi o início da transição para a democracia no Chile. Mas daí até dizer-se que o Chile era uma democracia em 1988 ou até em 1987, 1986 ou antes vai alguma distância, que pelos vistos Nuno Ramos de Almeida tem alguma dificuldade em discernir. Esta ideia de "validação" à posteriori do carácter democrático de um regime, através da qual se classifica como democrático todo o regime no qual o detentor do poder acaba por perder eleições, não deixa de ter um bom pedigree. Este belo livrinho usa-a, precisamente, para distinguir democracias de regimes não-democráticos. Mas se queremos ir por aqui e seguir os critérios de Przeworski e seus colegas, então temos de esperar que Chávez perca eleições presidenciais. Não me consta que tenha sido isso que sucedeu no passado Domingo.
De resto, é curioso que se mencione o caso do Chile e ninguém se tenha lembrado do caso...português. Em 1975, com alguma surpresa, quem ganhou as eleições não foi quem controlava as rédeas do poder. As eleições de 1975 tiveram, aliás, o condão especial de revelarem que o PCP e os sectores mais à esquerda do aparelho militar que tutelavam na altura o regime tinham muito menos apoio popular do que se julgava. Mas a não ser que Nuno Ramos de Almeida esteja preparado para nos explicar como, em 1975, Portugal era um regime democrático- coisa que, manifestamente, (ainda) não era - a derrota eleitoral dos detentores do poder não chega para definir um regime.
Chamo a atenção para um conjunto de estudos de Steven Levitsky e Lucan Way (obrigado Andrés pela lembrança). Levitsky e Way vêm escrevendo sobre aquilo que chamam "autoritarismos competitivos". Vale a pena ler com atenção:
"In competitive authoritarian regimes, formal democratic institutions are widely viewed as the principal means of obtaining and exercising political authority. Incumbents violate those rules so often and to such an extent, however, that the regime fails to meet conventional minimum standards for democracy. (...) Competitive authoritarianism must be distinguished from democracy on the one hand and full-scale authoritarianism on the other. Modern democratic regimes all meet four minimum criteria: 1) Executives and legislatures are chosen through elections that are open, free, and fair; 2) virtually all adults possess the right to vote; 3) political rights and civil liberties, including freedom of the press, freedom of association, and freedom to criticize the government without reprisal, are broadly protected; and 4) elected authorities possess real authority to govern, in that they are not subject to the tutelary control of military or clerical leaders. Although even fully democratic regimes may at times violate one or more of these criteria, such violations are not broad or systematic enough to seriously impede democratic challenges to incumbent governments. In other words, they do not fundamentally alter the playing field between government and opposition. (...) In competitive authoritarian regimes, by contrast, violations of these criteria are both frequent enough and serious enough to create an uneven playing field between government and opposition. Although elections are regularly held and are generally free of massive fraud, incumbents routinely abuse state resources, deny the opposition adequate media coverage, harass opposition candidates and their supporters, and in some cases manipulate electoral results. Journalists, opposition politicians, and other government critics may be spied on, threatened, harassed, or arrested. Members of the opposition may be jailed, exiled, or—less frequently—even assaulted or murdered. Regimes characterized by such abuses cannot be called democratic."
E há um artigo interessante na Foreign Policy de Janeiro do ano passado que explora a aplicação do conceito ao caso da Venezuela.
Há muita gente que discorda de Levitsky e Way. Não quero com tudo isto desvalorizar os resultados do referendo de Domingo passado, nem aquilo que eles nos podem dizer sobre a natureza do regime ou as suas perspectivas de mudança e evolução. Nem sequer estou certo se consigo, para já, chegar a um veredicto sobre se a Venezuela é ou não é uma democracia. Mas não me parece que perder um referendo chegue, por si só, para esse veredicto.
sexta-feira, novembro 30, 2007
Dados em falta
Como sabem, não dou grande cobertura neste blogue a sondagens sobre intenções de voto em períodos fora das eleições. Uma percentagem muito elevada de eleitores não manifesta qualquer intenção e isso produz grande volatilidade e discrepâncias entre sondagens. Acho muito mais interessante, neste período, analisar as perguntas a que quase toda a gente responde, e que têm a ver com avaliação do desempenho do governo, da actuação dos líderes políticos ou da situação da economia. Como nem a primeira nem a última perguntas são regularmente colocadas, ficamos com a segunda.
Vem tudo isto a propósito do Barómetro Marktest divulgado hoje. Ao contrário do que é habitual, o DN não publica as avaliações de Sócrates, Cavaco e Menezes, limitando-se à intenção de voto e avaliações de ministros. Há alusões no texto às avaliações de Cavaco e Portas, mas os dados não foram colocados cá fora. Espero que ainda sejam.
Vem tudo isto a propósito do Barómetro Marktest divulgado hoje. Ao contrário do que é habitual, o DN não publica as avaliações de Sócrates, Cavaco e Menezes, limitando-se à intenção de voto e avaliações de ministros. Há alusões no texto às avaliações de Cavaco e Portas, mas os dados não foram colocados cá fora. Espero que ainda sejam.
quinta-feira, novembro 29, 2007
Rescaldo
O rescaldo do debate CNN/You Tube entre os candidatos republicanos. Ou como "Mo" Udall disse uma vez do seu próprio partido: "When Democrats organize a firing squad, they form a circle."
quarta-feira, novembro 28, 2007
Iowa, New Hampshire, CNN e You Tube
Com as primárias no Iowa e em New Hampshire a pouco mais de um mês, o dramatismo aumenta. No Iowa, como se vê por aqui, Clinton e Obama destacam-se. Mais: nas duas últimas sondagens, Obama está a par ou até à frente de Clinton. Mas são apenas duas sondagens e, em New Hampshire, a vantagem de Clinton é mais confortável.
Com os Republicanos, o incrível prepara-se para acontecer. Mitt Romney lidera as sondagens no Iowa seguido de...Mike Huckabee. Nem Giuliani, nem Thompson, nem McCain. E em New Hampshire, é também Mitt Romney que lidera, com grande vantagem.
Hoje, a CNN repete o bem sucedido formato de debate com perguntas em video introduzidas no You Tube. O debate Democrata foi muito importante para confirmar a liderança de Clinton e Obama (e serviu para abrir as hostilidades entre ambos). O debate de hoje pode ser igualmente importante.
P.S.- 4927 perguntas introduzidas no You Tube para os candidatos republicanos. Será que, nas próximas eleições em Portugal um dos canais irá tentar copiar este formato?
Com os Republicanos, o incrível prepara-se para acontecer. Mitt Romney lidera as sondagens no Iowa seguido de...Mike Huckabee. Nem Giuliani, nem Thompson, nem McCain. E em New Hampshire, é também Mitt Romney que lidera, com grande vantagem.
Hoje, a CNN repete o bem sucedido formato de debate com perguntas em video introduzidas no You Tube. O debate Democrata foi muito importante para confirmar a liderança de Clinton e Obama (e serviu para abrir as hostilidades entre ambos). O debate de hoje pode ser igualmente importante.
P.S.- 4927 perguntas introduzidas no You Tube para os candidatos republicanos. Será que, nas próximas eleições em Portugal um dos canais irá tentar copiar este formato?
domingo, novembro 25, 2007
Sabemos quando a vemos?
Tenho tido uma conversa com o Daniel Oliveira, do Arrastão, que entretanto ganhou ramificações noutros blogues: aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui. Sem contar com os e-mails que vou recebendo. Esta conversa alargada já se transformou num debate sobre o que é a democracia, a relação entre democracia e cultura política, a natureza dos direitos políticos, a qualidade das democracias e o liberalismo, ou seja, tudo temas leves. Em vez de responder aqui, respondo amanhã, no Público (e depois de amanhã aqui). O ponto, de resto, é muito simples: é cada vez mais difícil distinguir a democracia de outros regimes; é cada vez mais importante fazê-lo.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Ainda a Venezuela e a "democracia"
No Arrastão, Daniel Oliveira escreve sobre o conceito de democracia, as condições favoráveis ao seu "aprofundamento" ou "qualidade" e sobre a aplicação dos pontos anteriores ao caso da Venezuela. Não posso nem quero discutir todos os pontos, mas há um que me parece central. Segundo o Daniel, na ponderação da designação de um determinado regime como ditadura ou democracia temos de tomar em conta não apenas a nossa avaliação mas também a avaliação subjectiva daqueles quer vivem sob esse regime.
"O passo que se dá para passar a chamar ditadura a um regime (partindo do principio que quem lhe chama outra coisa o está a apoiar) é, para mim, um passo que deve ser ponderado. E nessa ponderação deve contar a nossa avaliação mas também a avaliação daqueles que vivem nesse regime."
O meu ponto fulcral de discordância está precisamente aqui. Quando abordamos estes assuntos, quanto mais não seja por questões de rigor analítico, não convém confundir num único conceito diferentes dimensões da realidade. Se eu tiver uma definição de "democracia" - como o Daniel pelos vistos tem ("eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes") - eu posso dizer se a Venezuela é ou não uma "democracia" independentemente daquilo que saiba sobre as opiniões subjectivas dos cidadãos venezuelanos. E a resposta é simples: não é. Um país onde há abundantes casos documentados de intimidação dos eleitores pelo governo, de silenciamento de meios de comunicação social oposicionistas, onde a lista de signatários do referendo anti-Chávez é usada activamente para discriminação no acesso à função pública, onde associações financiadas por países estrangeiros são perseguidas e onde não há controlo civil do aparelho militar não pode ser vista como uma democracia nos termos da definição do próprio Daniel.
Para quê misturar isto com a avaliação subjectiva dos eleitores ou com indicadores de desempenho económico ou social? Nada nos impede de, depois de constatarmos que a Venezuela deixou de ser um regime democrático, constatarmos também que Chávez tem muito apoio popular, que o nível de "satisfação com a democracia" é muito elevado ou até que as desigualdades sociais ou a pobreza possam ter diminuído (não sei se é assim, mas para o caso não interessa). Ou podemos até chegar à conclusão que muitos dos "democratas" que se opõem a Chávez também não são flor que se cheire. Não sei. Mas separar as coisas é condição indispensável para percebermos, por exemplo, se há relação entre umas e outras. Não posso é meter tudo isto dentro de um mesmo conceito. Em todos os inquéritos deste género, o país no mundo onde o nível de "satisfação com a democracia" é mais elevado é Singapura. Devemos então achar que Singapura é uma democracia só porque os cidadãos acham que aquilo é uma democracia e estão satisfeitos? E como lidamos com o enorme apoio popular a Putin na Rússia? Ou o apoio das classes médias chinesas ao regime e ao partido?
Depois, a questão do "consenso". Ter-me-ei explicado mal, mas tento corrigir. Na maior parte das "democracias ocidentais", também não há consenso sobre o que significa "democracia". Há quem ache que "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" são condições suficientes. E há quem ache que são condições necessárias mas não suficientes, fazendo-as acompanhar de "condições para que cada individuo possa determinar o rumo a dar à sua vida através das suas escolhas pessoais e da participação nas escolhas colectivas". Tudo bem. Contudo, o ponto sobre a Venezuela (e muitas novas democracias, "semi-democracias" ou "semi-autoritarismos") é outro: pelos vistos, há muita gente para quem "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" não são nem suficientes nem necessárias para que considerem o regime uma "democracia". E isso é importante saber, especialmente porque essas condições "culturais" estão fortemente relacionadas com a criação de oportunidades para lideranças autoritárias, golpes, e uma geralmente baixa qualidade da democracia.
"O passo que se dá para passar a chamar ditadura a um regime (partindo do principio que quem lhe chama outra coisa o está a apoiar) é, para mim, um passo que deve ser ponderado. E nessa ponderação deve contar a nossa avaliação mas também a avaliação daqueles que vivem nesse regime."
O meu ponto fulcral de discordância está precisamente aqui. Quando abordamos estes assuntos, quanto mais não seja por questões de rigor analítico, não convém confundir num único conceito diferentes dimensões da realidade. Se eu tiver uma definição de "democracia" - como o Daniel pelos vistos tem ("eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes") - eu posso dizer se a Venezuela é ou não uma "democracia" independentemente daquilo que saiba sobre as opiniões subjectivas dos cidadãos venezuelanos. E a resposta é simples: não é. Um país onde há abundantes casos documentados de intimidação dos eleitores pelo governo, de silenciamento de meios de comunicação social oposicionistas, onde a lista de signatários do referendo anti-Chávez é usada activamente para discriminação no acesso à função pública, onde associações financiadas por países estrangeiros são perseguidas e onde não há controlo civil do aparelho militar não pode ser vista como uma democracia nos termos da definição do próprio Daniel.
Para quê misturar isto com a avaliação subjectiva dos eleitores ou com indicadores de desempenho económico ou social? Nada nos impede de, depois de constatarmos que a Venezuela deixou de ser um regime democrático, constatarmos também que Chávez tem muito apoio popular, que o nível de "satisfação com a democracia" é muito elevado ou até que as desigualdades sociais ou a pobreza possam ter diminuído (não sei se é assim, mas para o caso não interessa). Ou podemos até chegar à conclusão que muitos dos "democratas" que se opõem a Chávez também não são flor que se cheire. Não sei. Mas separar as coisas é condição indispensável para percebermos, por exemplo, se há relação entre umas e outras. Não posso é meter tudo isto dentro de um mesmo conceito. Em todos os inquéritos deste género, o país no mundo onde o nível de "satisfação com a democracia" é mais elevado é Singapura. Devemos então achar que Singapura é uma democracia só porque os cidadãos acham que aquilo é uma democracia e estão satisfeitos? E como lidamos com o enorme apoio popular a Putin na Rússia? Ou o apoio das classes médias chinesas ao regime e ao partido?
Depois, a questão do "consenso". Ter-me-ei explicado mal, mas tento corrigir. Na maior parte das "democracias ocidentais", também não há consenso sobre o que significa "democracia". Há quem ache que "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" são condições suficientes. E há quem ache que são condições necessárias mas não suficientes, fazendo-as acompanhar de "condições para que cada individuo possa determinar o rumo a dar à sua vida através das suas escolhas pessoais e da participação nas escolhas colectivas". Tudo bem. Contudo, o ponto sobre a Venezuela (e muitas novas democracias, "semi-democracias" ou "semi-autoritarismos") é outro: pelos vistos, há muita gente para quem "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" não são nem suficientes nem necessárias para que considerem o regime uma "democracia". E isso é importante saber, especialmente porque essas condições "culturais" estão fortemente relacionadas com a criação de oportunidades para lideranças autoritárias, golpes, e uma geralmente baixa qualidade da democracia.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Sobre a "satisfação com a democracia" na Venezuela
No Arrastão, há um gráfico retirado do Economist (a fonte original é o Latinobarómetro) onde se mostra um nível elevado de "satisfação com o funcionamento da democracia" na Venezuela hoje em dia e um aumento muito pronunciado dessa satisfação desde 1996. O Daniel Oliveira é cuidadoso na interpretação desses resultados, não retirando deles uma justificação para os atropelos de Chávez e assinalando apenas que se trata da avaliação subjectiva da população. Mas há mais cuidados a ter. O relatório do Latinobarómetro (.pdf) tem uma considerações muito interessantes sobre o fenómeno. Cito algumas:
"(...) El mundo que la [Venezuela] observa la evalúa mal en un doble sentido: se le reprocha los límites al ejercicio de la libertad y las limitaciones impuestas a las instituciones políticas. Sin embargo, la percepción de los venezolanos es positiva, y causa mucha perplejidad, pues ellos declaran que les gusta la democracia como está en estos momentos, al menos mucho más que lo que dicen otros ciudadanos de otros países respecto de su propia democracia, en los cuales el mundo externo no critica la falta de libertad, ni el acoso a ciertas instituciones. Venezuela un país dividido por dos conceptos de democracia. Pero todos quieren ser llamados demócratas, incluso los que apoyan medidas no democráticas. Pocos pueden comprender desde afuera por qué tienen una visión positiva de la democracia. Lo que se observa desde afuera de un país, no necesariamente concuerda con la opinión que tienen los ciudadanos de ese país con respecto a lo que ellos están viviendo."
Sobre um outro dado - os venezuelanos são os latino-americanos mais de acordo com a ideia de que as privatizações foram positivas para o país:
" Nuevamente, el optimismo venezolano en este caso con las privatizaciones no solo es incongruente con el discurso político de izquierda de su gobernante, es contradictorio con los indicadores objetivos de las mejoras económicas de la población de ese país. Venezuela parece vivir un tiempo de sobre optimismo que eleva sus evaluaciones, expectativas y opiniones"
E sobre o facto de, apesar disso, os venezuelanos serem dos latino-americanos que se tornaram mais críticos em relação à "economia de mercado" nos últimos anos:
"Especialmente interesante es ver el caso de Venezuela, donde hay una gran mayoría que apoya la privatizaciones, 61% pero a la vez se fustiga el mercado con solo un 47% y hay insatisfacción con la economía (26%). Como ya decíamos mas arriba, Venezuela es un país donde las opiniones no concuerdan con la realidad objetiva, donde el clima de opinión produce contradicciones con ella. El liderazgo discursivo de Chávez hace que se creen climas de opinión sobre ciertas materias, pero estas de alguna manera no cambian las actitudes hacia todos los temas, sino solo hacia aquellos que mencionan, produciéndose contradicciones entre las respuestas. Chávez no ha fustigado las privatizaciones en específico, por lo que ellas no están afectadas por ese liderazgo discursivo, mientras que si ha atacado el mercado que si se ve afectado. Es una opinión pública dominada por esos climas de opinión que terminan siendo más coyunturales y más volátiles."
Há aqui dois pontos muito interessantes. O primeiro é sobre a forma como as elites políticas e o seu discurso condicionam a opinião pública - ou a expressão de opiniões através de inquéritos. O outro é sobre o que significa "democracia". Já em 1999, através do World Values Survey, se via uma coisa muito interessante na Venezuela: 91% (mais do que em Portugal, por exemplo) achavam que "a democracia é a melhor forma de governo"; mas apenas 49% achavam que "um líder forte que dispensasse eleições e o parlamento" era uma coisa "má" ou "muito má" para o país. Este tipo de padrão é muito comum, por exemplo, nos países africanos estudados pelo Afrobarómetro: alto apoio à democracia, mas baixa rejeição de soluções autoritárias. Para quem quer medir a real "legitimidade" dos regimes democráticos (como nós os entendemos) e o real grau de consolidação de um regime democrático, a rejeição do autoritarismo começa a ser, cada vez mais, um indicador superior à mera declaração de "apoio à democracia".
Assim, quando o Daniel diz "a democracia é isto", eu diria outra coisa: é isto um regime onde não há consenso sobre o que significa "democracia".
"(...) El mundo que la [Venezuela] observa la evalúa mal en un doble sentido: se le reprocha los límites al ejercicio de la libertad y las limitaciones impuestas a las instituciones políticas. Sin embargo, la percepción de los venezolanos es positiva, y causa mucha perplejidad, pues ellos declaran que les gusta la democracia como está en estos momentos, al menos mucho más que lo que dicen otros ciudadanos de otros países respecto de su propia democracia, en los cuales el mundo externo no critica la falta de libertad, ni el acoso a ciertas instituciones. Venezuela un país dividido por dos conceptos de democracia. Pero todos quieren ser llamados demócratas, incluso los que apoyan medidas no democráticas. Pocos pueden comprender desde afuera por qué tienen una visión positiva de la democracia. Lo que se observa desde afuera de un país, no necesariamente concuerda con la opinión que tienen los ciudadanos de ese país con respecto a lo que ellos están viviendo."
Sobre um outro dado - os venezuelanos são os latino-americanos mais de acordo com a ideia de que as privatizações foram positivas para o país:
" Nuevamente, el optimismo venezolano en este caso con las privatizaciones no solo es incongruente con el discurso político de izquierda de su gobernante, es contradictorio con los indicadores objetivos de las mejoras económicas de la población de ese país. Venezuela parece vivir un tiempo de sobre optimismo que eleva sus evaluaciones, expectativas y opiniones"
E sobre o facto de, apesar disso, os venezuelanos serem dos latino-americanos que se tornaram mais críticos em relação à "economia de mercado" nos últimos anos:
"Especialmente interesante es ver el caso de Venezuela, donde hay una gran mayoría que apoya la privatizaciones, 61% pero a la vez se fustiga el mercado con solo un 47% y hay insatisfacción con la economía (26%). Como ya decíamos mas arriba, Venezuela es un país donde las opiniones no concuerdan con la realidad objetiva, donde el clima de opinión produce contradicciones con ella. El liderazgo discursivo de Chávez hace que se creen climas de opinión sobre ciertas materias, pero estas de alguna manera no cambian las actitudes hacia todos los temas, sino solo hacia aquellos que mencionan, produciéndose contradicciones entre las respuestas. Chávez no ha fustigado las privatizaciones en específico, por lo que ellas no están afectadas por ese liderazgo discursivo, mientras que si ha atacado el mercado que si se ve afectado. Es una opinión pública dominada por esos climas de opinión que terminan siendo más coyunturales y más volátiles."
Há aqui dois pontos muito interessantes. O primeiro é sobre a forma como as elites políticas e o seu discurso condicionam a opinião pública - ou a expressão de opiniões através de inquéritos. O outro é sobre o que significa "democracia". Já em 1999, através do World Values Survey, se via uma coisa muito interessante na Venezuela: 91% (mais do que em Portugal, por exemplo) achavam que "a democracia é a melhor forma de governo"; mas apenas 49% achavam que "um líder forte que dispensasse eleições e o parlamento" era uma coisa "má" ou "muito má" para o país. Este tipo de padrão é muito comum, por exemplo, nos países africanos estudados pelo Afrobarómetro: alto apoio à democracia, mas baixa rejeição de soluções autoritárias. Para quem quer medir a real "legitimidade" dos regimes democráticos (como nós os entendemos) e o real grau de consolidação de um regime democrático, a rejeição do autoritarismo começa a ser, cada vez mais, um indicador superior à mera declaração de "apoio à democracia".
Assim, quando o Daniel diz "a democracia é isto", eu diria outra coisa: é isto um regime onde não há consenso sobre o que significa "democracia".
sexta-feira, novembro 16, 2007
Meet Mitt
Giuliani ainda lidera a nível nacional nas sondagens para as primárias republicanas. Mas nas cruciais primárias do Iowa e de New Hampshire quem está a ficar cada vez mais bem colocado (e com tendência de subida em todas as "primeiras primárias") é este senhor:

Meet Mitt.

Meet Mitt.
Dois pontos adicionais sobre as sondagens
Este correctíssimo post do A Pente Fino talvez não fosse necessário se:
1. Houvesse um local onde se pudesse consultar uma sondagem com algum detalhe, não apenas as suas características técnicas mas também, por que não, as estatísticas descritivas básicas (não era preciso mais que as frequências de resposta a cada pergunta);
2. Se os meios de comunicação social decidissem investir em formar jornalistas com competências mínimas para escreverem sobre sondagens.
Disto isto, a verdade é que muitos institutos de sondagens já poderiam ter, por sua iniciativa, começado a dar essa informação. É possível que, nalguns casos, se aguarde uma iniciativa da ERC. Ou que noutros se esteja a adiar isto por não ser uma prioridade de investimento. Mas posso dizer que o CESOP vai começar a fazê-lo em breve num site novo, em que, pelo menos para as sondagens político-eleitorais, vai disponibilizar:
1. O texto completo e ordem das perguntas;
2. Uma ficha metodológica completa;
3. As frequências relativas de resposta a cada questão.
A ver se no início de 2008 a coisa é colocada no ar.
1. Houvesse um local onde se pudesse consultar uma sondagem com algum detalhe, não apenas as suas características técnicas mas também, por que não, as estatísticas descritivas básicas (não era preciso mais que as frequências de resposta a cada pergunta);
2. Se os meios de comunicação social decidissem investir em formar jornalistas com competências mínimas para escreverem sobre sondagens.
Disto isto, a verdade é que muitos institutos de sondagens já poderiam ter, por sua iniciativa, começado a dar essa informação. É possível que, nalguns casos, se aguarde uma iniciativa da ERC. Ou que noutros se esteja a adiar isto por não ser uma prioridade de investimento. Mas posso dizer que o CESOP vai começar a fazê-lo em breve num site novo, em que, pelo menos para as sondagens político-eleitorais, vai disponibilizar:
1. O texto completo e ordem das perguntas;
2. Uma ficha metodológica completa;
3. As frequências relativas de resposta a cada questão.
A ver se no início de 2008 a coisa é colocada no ar.
A regulação das sondagens
Só pude assistir a dois painéis da conferência que a ERC organizou sobre a regulação das sondagens. Ao que parece, terei perdido o mais divertido, o do dia 14 de manhã, em que participaram alguns deputados. Um deles terá proposto que, para evitar a multiplicação de "erros", "fraudes" e "manipulações" em que o sector é, pelos vistos, pródigo, se deveria criar um "instituto público" dedicado a realizar sondagens, sob a dependência (sic) da Assembleia da República. Outro terá defendido o agravamento de multas a aplicar aos institutos de sondagens, sugerindo que a ERC passe também a utilizar como parâmetro da aplicação desses multas o grau de precisão com que as sondagens "acertam" nos resultados eleitorais.
Não vale a pena perder muito tempo a comentar estas duas pérolas. O exemplo do Centro de Investigaciones Sociológicas em Espanha, se os nossos deputados o conhecessem, talvez tivesse chegado. O CIS, dependente do governo espanhol, cumpre - como também foi explicado ontem por um membro da audiência - uma função importante, a de realizar inquéritos por questionário sobre temas de interesse público e académico. Mas quando se mete em sondagens político-eleitorais a coisa, geralmente, corre mal. Não é nem mais "preciso" nem "impreciso" que os privados e tudo o que faz é encarado - justa ou injustamente - sob um princípio de suspeição de favorecimento do governo do dia. Como assinalava Rui Ramos ontem à tarde, se se pusesse um "instituto público" a fazer as sondagens eleitorais, então é que nunca mais ninguém acreditava nelas. Sobre as multas para quem "não acerta", enfim, que dizer? Eu proponho que da próxima vez que um jornal pedir a um painel de economistas que faça previsões económicas para o ano seguinte haja um organismo público que, um ano depois, confronte as previsões com a realidade. Se falharem, multe-se.
Mais interessante é perceber que, excluindo os nossos deputados, os restantes actores relevantes - institutos, imprensa e regulador - começam a convergir num conjunto de ideias bastante sensatas. A primeira é a necessidade de mudar a legislação de forma a corrigir a sua falta de clareza e, nalguns casos, os seus erros técnicos, de que Vidal de Olveira deu alguns exemplos no dia 14 à tarde. A segunda é a ideia de que se deve clarificar quais os elementos técnicos da sondagem que devem ser obrigatoriamente divulgados pelos órgãos de comunicação social nas noticias sobre sondagens e quais devem ser publicitados de outra forma, seja através de um site da ERC, dos sites do órgãos de comunicação social ou dos próprios institutos.
Mais: que esses elementos mais completos da ficha técnica devem ser muito mais exaustivos do que são hoje e homogeneizados (para permitir comparabilidade). Aquilo que é depositado na ERC (e que é muito mais completo do que o que vem normalmente na comunicação social) deve ser mais completo e sistemático ainda e totalmente colocado ao dispor do público, para que os leitores interessados possam conhecer tudo aquilo que pode ajudar a explicar os resultados (e, logo, para que quem faz sondagens saiba que aquilo que está a fazer pode ser publicamente escrutinado e analisado pelos pares, especialistas e quaisquer pessoas interessadas). O resto é algo que o debate, a análise e a concorrência acabam por resolver. Aqui, é possível que alguns institutos venham a colocar resistências a esta ideia, alegando usar técnicas ou algoritmos "especiais", da sua própria "invenção", que constituem "tecnologia proprietária" e que não querem "ceder" à concorrência. Estas resistências têm que ser descritas como aquilo que realmente são: disparates algo suspeitos. Não há nada que qualquer instituto de sondagens use em Portugal que não tenha sido já "inventado", aplicado, testado, comentado e analisado noutro sítio qualquer. E se alguém tivesse realmente "inventado" alguma coisa genial, certamente já teria feito saber disso na literatura especializada.
Finalmente, começa a haver consenso em torno da necessidade de formas de co-regulação ou auto-regulação. E é curioso que seja o próprio regulador a desejar e estimular essa ideia. No relatório da ERC de 2006, os dois exemplos internacionais dados são de órgãos de auto-regulação (o NCPP e o BPC) e, no encerramento da conferência, foi o próprio membro da ERC com a tutela das sondagens que defendeu a ideia. Tudo bons sinais.
Não vale a pena perder muito tempo a comentar estas duas pérolas. O exemplo do Centro de Investigaciones Sociológicas em Espanha, se os nossos deputados o conhecessem, talvez tivesse chegado. O CIS, dependente do governo espanhol, cumpre - como também foi explicado ontem por um membro da audiência - uma função importante, a de realizar inquéritos por questionário sobre temas de interesse público e académico. Mas quando se mete em sondagens político-eleitorais a coisa, geralmente, corre mal. Não é nem mais "preciso" nem "impreciso" que os privados e tudo o que faz é encarado - justa ou injustamente - sob um princípio de suspeição de favorecimento do governo do dia. Como assinalava Rui Ramos ontem à tarde, se se pusesse um "instituto público" a fazer as sondagens eleitorais, então é que nunca mais ninguém acreditava nelas. Sobre as multas para quem "não acerta", enfim, que dizer? Eu proponho que da próxima vez que um jornal pedir a um painel de economistas que faça previsões económicas para o ano seguinte haja um organismo público que, um ano depois, confronte as previsões com a realidade. Se falharem, multe-se.
Mais interessante é perceber que, excluindo os nossos deputados, os restantes actores relevantes - institutos, imprensa e regulador - começam a convergir num conjunto de ideias bastante sensatas. A primeira é a necessidade de mudar a legislação de forma a corrigir a sua falta de clareza e, nalguns casos, os seus erros técnicos, de que Vidal de Olveira deu alguns exemplos no dia 14 à tarde. A segunda é a ideia de que se deve clarificar quais os elementos técnicos da sondagem que devem ser obrigatoriamente divulgados pelos órgãos de comunicação social nas noticias sobre sondagens e quais devem ser publicitados de outra forma, seja através de um site da ERC, dos sites do órgãos de comunicação social ou dos próprios institutos.
Mais: que esses elementos mais completos da ficha técnica devem ser muito mais exaustivos do que são hoje e homogeneizados (para permitir comparabilidade). Aquilo que é depositado na ERC (e que é muito mais completo do que o que vem normalmente na comunicação social) deve ser mais completo e sistemático ainda e totalmente colocado ao dispor do público, para que os leitores interessados possam conhecer tudo aquilo que pode ajudar a explicar os resultados (e, logo, para que quem faz sondagens saiba que aquilo que está a fazer pode ser publicamente escrutinado e analisado pelos pares, especialistas e quaisquer pessoas interessadas). O resto é algo que o debate, a análise e a concorrência acabam por resolver. Aqui, é possível que alguns institutos venham a colocar resistências a esta ideia, alegando usar técnicas ou algoritmos "especiais", da sua própria "invenção", que constituem "tecnologia proprietária" e que não querem "ceder" à concorrência. Estas resistências têm que ser descritas como aquilo que realmente são: disparates algo suspeitos. Não há nada que qualquer instituto de sondagens use em Portugal que não tenha sido já "inventado", aplicado, testado, comentado e analisado noutro sítio qualquer. E se alguém tivesse realmente "inventado" alguma coisa genial, certamente já teria feito saber disso na literatura especializada.
Finalmente, começa a haver consenso em torno da necessidade de formas de co-regulação ou auto-regulação. E é curioso que seja o próprio regulador a desejar e estimular essa ideia. No relatório da ERC de 2006, os dois exemplos internacionais dados são de órgãos de auto-regulação (o NCPP e o BPC) e, no encerramento da conferência, foi o próprio membro da ERC com a tutela das sondagens que defendeu a ideia. Tudo bons sinais.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Popularidade
terça-feira, novembro 13, 2007
Outlier: Panda Bear
Vocês desculpem todos que eu devo andar completamente distraído. E também devo andar bastante farto de sondagens, caso contrário não traria este assunto para aqui. Mas andava muito entretido a ouvir isto quando me fizeram saber que ele vive em Lisboa. Em Lisboa? Isto é como viver em 1966, andar a ouvir o Pet Sounds e encontrar o Brian Wilson a comer torradas num café em Campo de Ourique. Ainda estou a tentar encaixar a coisa.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Gattopardo, Outubro-Novembro 2008, N à volta dos 1000, Online
O Instituto de Sondagens Político-Eleitorais do Principado de Lampedusa resolveu conduzir uma sondagem online sobre o Tratado de Lisboa. Tal como sucede com todas as sondagens online de participação voluntária, esta também diz mais sobre os autores do que sobre outra coisa qualquer. O facto das opções de resposta serem oferecidas em rima - ideia que tenho vindo a ponderar para as sondagens da Católica - é um primeiro sinal. Depois vêm os próprios resultados, consequência do perfil dos leitores do blogue e logo, de alguma forma, espelho dos autores: a tendencial recusa das opções extremas ("Admirável" ou "Inaceitável") e a distribuição mais ou menos equitativa pelas opções restantes. Mas o melhor de tudo é mesmo o facto das opções de resposta oferecidas aos votantes não serem sequer mutuamente exclusivas. É um erro elementar na construção dum questionário, claro. Mas é acerto elementar em, digamos, tudo o resto. Aliás, foi disso que sempre gostei nos responsáveis deste instituto: para eles, as opções de resposta nunca são mutuamente exclusivas. Acho até que Pascal tinha uma frase boa sobre este assunto (e sobre todos os outros, de resto).
segunda-feira, novembro 05, 2007
Sobre os rankings e o "cheque-escolar"
No Público de ontem, sobre os rankings, para além de ser provavelmente o primeiro colunista na história da imprensa escrita a usar a expressão Hierarchical Linear Modelling num jornal de grande circulação, André Freire diz o óbvio, mas um óbvio que vale a pena repetir:
Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas.
Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.
Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.
Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando o relatório que André Freire menciona no seu artigo:
"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."
Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.
Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais. Dou um exemplo: é quase garantido que uma das coisas que mais deverá potenciar o bom desempenho dos alunos de escolas altamente selectivas no seu recrutamento é não apenas o facto de cada um dos alunos estar mais bem equipado para o sucesso escolar mas também o facto das turmas onde esses alunos estão serem compostas por um conjunto de alunos homogeneamente bem equipados para o sucesso. O primeiro efeito é individual; o segundo é contextual.
Disto isto, um ponto adicional sobre o cheque-escolar. Independentemente da minha opinião sobre o assunto - que confesso ainda não sei bem qual é - suspeito que a ideia tem muito menos receptividade entre os proprietários e dirigentes das melhores escolas privadas portuguesas do que aquilo que os defensores da ideia imaginam.
Primeiro, porque a introdução do cheque-escolar poderia levar ao que acabou por suceder na Suécia, ou seja, a proibição de cobrança, pelas escolas privadas, de mensalidades adicionais acima do valor do voucher (em moldes semelhantes, por exemplo, aquilo que defende o Partido Conservador no Reino Unido). Para as melhores escolas privadas portuguesas, que têm procura muito superior à oferta e cobram mensalidades muito superiores àquilo que o valor do "cheque-educação" alguma vez poderá ser no contexto português, uma medida destas seria um desastre.
Segundo, a introdução do voucher quase certamente obrigaria a regulação e monitorização dos critérios de admissão. Tal como sucedeu na Suécia, as escolas inscritas no esquema deixariam de poder recusar a admissão de alunos menos qualificados. Isto seria igualmente desastroso para as melhores escolas privadas portuguesas. Por um lado porque, como já vimos, é altamente provável que a homogeneidade das turmas "por cima" seja um factor favorável não só - como é óbvio - para o desempenho "agregado" das escolas (que essas escolas querem manter a altos níveis de forma a preservarem altos níveis de procura) como também para o desempenho individual de cada um dos alunos. Por outro lado, uma das maneiras como as melhores escolas privadas colocam um "premium" adicional ao produto que estão a vender consiste em restringir os critérios de admissão através de "cunhas". Como qualquer pessoa de classe média-alta que tenha filhos em idade escolar (ou que tenha amigos nessas condições) sabe perfeitamente, são raríssimos os casos de alunos que entram nos melhores colégios privados em Portugal sem "cunha" (talvez o St. Julian's seja a excepção, mas nem disso estou certo). Isto cumpre uma função essencial: preservando a homogeneidade social dos colégios através de um recurso às redes sociais dos pais, estes ficam a saber que, ao colocarem o filho no colégio, estão também a dar-lhe acesso a uma rede de relacionamentos que traz consigo uma coisa simples mas fundamental: capital social. Os vouchers colocariam isto em risco, e isto é algo que nenhum bom colégio privado (nem os pais que os procuram) querem realmente perder. É triste? Talvez. Mas é assim.
Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas.
Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.
Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.
Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando o relatório que André Freire menciona no seu artigo:
"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."
Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.
Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais. Dou um exemplo: é quase garantido que uma das coisas que mais deverá potenciar o bom desempenho dos alunos de escolas altamente selectivas no seu recrutamento é não apenas o facto de cada um dos alunos estar mais bem equipado para o sucesso escolar mas também o facto das turmas onde esses alunos estão serem compostas por um conjunto de alunos homogeneamente bem equipados para o sucesso. O primeiro efeito é individual; o segundo é contextual.
Disto isto, um ponto adicional sobre o cheque-escolar. Independentemente da minha opinião sobre o assunto - que confesso ainda não sei bem qual é - suspeito que a ideia tem muito menos receptividade entre os proprietários e dirigentes das melhores escolas privadas portuguesas do que aquilo que os defensores da ideia imaginam.
Primeiro, porque a introdução do cheque-escolar poderia levar ao que acabou por suceder na Suécia, ou seja, a proibição de cobrança, pelas escolas privadas, de mensalidades adicionais acima do valor do voucher (em moldes semelhantes, por exemplo, aquilo que defende o Partido Conservador no Reino Unido). Para as melhores escolas privadas portuguesas, que têm procura muito superior à oferta e cobram mensalidades muito superiores àquilo que o valor do "cheque-educação" alguma vez poderá ser no contexto português, uma medida destas seria um desastre.
Segundo, a introdução do voucher quase certamente obrigaria a regulação e monitorização dos critérios de admissão. Tal como sucedeu na Suécia, as escolas inscritas no esquema deixariam de poder recusar a admissão de alunos menos qualificados. Isto seria igualmente desastroso para as melhores escolas privadas portuguesas. Por um lado porque, como já vimos, é altamente provável que a homogeneidade das turmas "por cima" seja um factor favorável não só - como é óbvio - para o desempenho "agregado" das escolas (que essas escolas querem manter a altos níveis de forma a preservarem altos níveis de procura) como também para o desempenho individual de cada um dos alunos. Por outro lado, uma das maneiras como as melhores escolas privadas colocam um "premium" adicional ao produto que estão a vender consiste em restringir os critérios de admissão através de "cunhas". Como qualquer pessoa de classe média-alta que tenha filhos em idade escolar (ou que tenha amigos nessas condições) sabe perfeitamente, são raríssimos os casos de alunos que entram nos melhores colégios privados em Portugal sem "cunha" (talvez o St. Julian's seja a excepção, mas nem disso estou certo). Isto cumpre uma função essencial: preservando a homogeneidade social dos colégios através de um recurso às redes sociais dos pais, estes ficam a saber que, ao colocarem o filho no colégio, estão também a dar-lhe acesso a uma rede de relacionamentos que traz consigo uma coisa simples mas fundamental: capital social. Os vouchers colocariam isto em risco, e isto é algo que nenhum bom colégio privado (nem os pais que os procuram) querem realmente perder. É triste? Talvez. Mas é assim.
quarta-feira, outubro 31, 2007
"Centro de Estudos da Universidade Católica"
Têm circulado muitas notícias sobre um trabalho realizado por um" Centro de Estudos da Universidade Católica" para o Instituto Nacional de Administração, que analisa percepções e opiniões de cidadãos com idades entre os 30 e os 39 anos residentes em Lisboa e no Porto e de dirigentes da administração pública sobre o serviço público. Para que não haja confusões, que fique claro que o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica (CESOP), que dirijo, e de que normalmente se fala quando se trata de sondagens de opinião, não esteve envolvido neste trabalho. O "Centro de Estudos" mencionado pela comunicação social neste caso é outro, e o trabalho de recolha e análise de dados foi conduzido por um empresa chamada APEME (que por acaso conheço bastante bem).
terça-feira, outubro 30, 2007
"Why beautiful people have more daughters"
A propósito deste livro - mencionado no Blasfémias - onde se defende, entre outras coisas, "que a biologia humana teria evoluído no sentido de as pessoas mais atraentes gerarem mais filhas do que filhos" (ou que os homens com maiores níveis de rendimento têm mais sexo, ou que os engenheiros têm mais filhos que filhas), vale a pena vale a pena ler este post (e este artigo ou este). Há ideias tão irresistivelmente intrigantes que mesmo a sua falta de sustentação empírica não constitui obstáculo à sua propagação.
segunda-feira, outubro 29, 2007
O referendo europeu
O que eu acho sobre este assunto está hoje no Público e estará amanhã aqui. Mas não queria deixar de assinalar duas coisas:
1. A citação que mais circula do PM sobre este assunto é a seguinte: "a ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo". Mas queria chamar a atenção para o resto:
"Também compreendo todos os que acham que foi feita uma promessa por dois partidos de que haveria referendo, embora as condições sejam muito diferentes"
Ou seja:
a. Para o PM, ter havido ou não promessa é uma questão subjectiva ("os que acham que foi feita uma promessa");
b. O PM tem compreensão por essas pobres almas iludidas;
c. "As condições são muito diferentes".
2. Um quadro de um artigo de Russell Dalton e outros publicado no Journal of Democracy:

É muito curioso - e em rigor pouco surpreendente - que o apoio tenda a ser maior nos países que têm menos referendos do que nos países que os mais têm...
1. A citação que mais circula do PM sobre este assunto é a seguinte: "a ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo". Mas queria chamar a atenção para o resto:
"Também compreendo todos os que acham que foi feita uma promessa por dois partidos de que haveria referendo, embora as condições sejam muito diferentes"
Ou seja:
a. Para o PM, ter havido ou não promessa é uma questão subjectiva ("os que acham que foi feita uma promessa");
b. O PM tem compreensão por essas pobres almas iludidas;
c. "As condições são muito diferentes".
2. Um quadro de um artigo de Russell Dalton e outros publicado no Journal of Democracy:
É muito curioso - e em rigor pouco surpreendente - que o apoio tenda a ser maior nos países que têm menos referendos do que nos países que os mais têm...
sexta-feira, outubro 26, 2007
Marktest, 16-19 Outubro
Comparar resultados de diferentes institutos de sondagens entre si é perigoso, tendo em conta todas as diferenças metodológicas, desde a amostragem, à formulação das perguntas e respostas possíveis, ao modo de inquirição, métodos diferentes de redistribuição de indecisos, etc. Mas há apesar de tudo boas notícias para quem gosta de ver resultados relativamente congruentes entre diferentes sondagens:
1. A descida no PS detectada desde Maio pela Católica é congruente com os resultados da Marktest. Desde Maio, a estimativa de resultados eleitorais para o PS na Marktest desceu de 47% para 37% (de 46% para 41% na Católica);
2. Igualmente congruente é o facto de Sócrates aparecer com um saldo negativo de 21 pontos no barómetro Marktest: 54% avaliam negativamente a sua actuação, enquanto 33% fazem-no positivamente. Este é o pior resultado de sempre para o PM no barómetro Marktest, rivalizando apenas com os resultados de Setembro de 2005. Para a Católica, a avaliação média de 0-20 pontos feita pelos eleitores de Sócrates (8,9 valores) na sondagem mais recente é também a pior de sempre.
3. Menezes aparece comparativamente bem colocado na sondagem da Católica, com uma avaliação média de 9,9 pontos em 20. Na sondagem Marktest, aparece com um saldo de 2% (quase tantas pessoas a fazerem uma avaliação negativa como as que fazem uma avaliação positiva). Mais parecido, apesar do uso de perguntas e escalas distintas, seria difícil.
E se foram verificar a hierarquia dos ministros verão que, apesar dos instrumentos de medida serem diferentes, as semelhanças são muito claras.
Nunca se sabe se até que ponto os resultados de uma sondagem concreta podem ser fruto do acaso, mas isto deixa-me muito mais descansado. E outra coisa que me descansa, no que respeita à popularidade do Primeiro Ministro, é que, pelos vistos, o mundo não é completamente imprevisível.
1. A descida no PS detectada desde Maio pela Católica é congruente com os resultados da Marktest. Desde Maio, a estimativa de resultados eleitorais para o PS na Marktest desceu de 47% para 37% (de 46% para 41% na Católica);
2. Igualmente congruente é o facto de Sócrates aparecer com um saldo negativo de 21 pontos no barómetro Marktest: 54% avaliam negativamente a sua actuação, enquanto 33% fazem-no positivamente. Este é o pior resultado de sempre para o PM no barómetro Marktest, rivalizando apenas com os resultados de Setembro de 2005. Para a Católica, a avaliação média de 0-20 pontos feita pelos eleitores de Sócrates (8,9 valores) na sondagem mais recente é também a pior de sempre.
3. Menezes aparece comparativamente bem colocado na sondagem da Católica, com uma avaliação média de 9,9 pontos em 20. Na sondagem Marktest, aparece com um saldo de 2% (quase tantas pessoas a fazerem uma avaliação negativa como as que fazem uma avaliação positiva). Mais parecido, apesar do uso de perguntas e escalas distintas, seria difícil.
E se foram verificar a hierarquia dos ministros verão que, apesar dos instrumentos de medida serem diferentes, as semelhanças são muito claras.
Nunca se sabe se até que ponto os resultados de uma sondagem concreta podem ser fruto do acaso, mas isto deixa-me muito mais descansado. E outra coisa que me descansa, no que respeita à popularidade do Primeiro Ministro, é que, pelos vistos, o mundo não é completamente imprevisível.
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