quinta-feira, setembro 04, 2008

Palin

Muito do que está aqui me parece bem observado sobre o discurso de ontem. A escolha de Palin teve uma dupla dimensão: o género e a ideologia. A primeira jogaria num sentido - por assim dizer, de atracção do eleitorado que votou em Hillary e de "retirar uma bandeira" aos Democratas, os únicos que tinham até agora tido uma mulher no ticket - e a segunda noutro - de consolidação do eleitorado Republicano mais conservador, permitindo a McCain uma certa despreocupação com essa base eleitoral. Ao contrário do que eu próprio julgava nos minutos seguintes depois de conhecer a nomeação de Palin, a dimensão mais importante parece ser a segunda. A primeira está lá, implícita, mas são os pergaminhos ultra-conservadores de Palin que mais contaram ontem.

Parece-me que os boatos iniciais sobre o filho de Palin, Trig, (que seria, segundo o boato, realmente o seu neto), difundidos inicialmente por um blog de simpatias democratas, só jogam contra os próprios Democratas, da mesma maneira que o artigo do NYT sobre a suposta amante de McCain. Não posso provar, mas de cada vez que qualquer coisa dessas aparecer e não se confirmar verdadeira, devem ser mais uns pontos percentuais de eleitores com simpatias republicanas que se consolidam como votantes de McCain. A percepção entre os Republicanos é a de que os media são todos visceralmente liberais, e coisas destas só o parecem confirmar. O grande problema de McCain - como atrair, com o seu perfil, o eleitorado Republicano mais conservador - parece, de resto, quase resolvido: 91% deles dizem que votarão nele na última tracking poll da Gallup.

Uma nota pessoal e, eventualmente, pouco imparcial: a exibição do filho de Palin, de quatro meses de idade, a passar de colo em colo de cada membro da família e até pelo colo da mulher de McCain, à noite, no meio de um barulho ensurdecedor, parecendo mais inconsciente - quase inerte - do que adormecido, constantemente focado pelas câmaras de televisão, especialmente quando Palin promete ser na Casa Branca uma "defensora" de quem filhos deficientes, foi para mim, que tenho um filho com oito meses de idade, uma das coisas mais obscenas que vi num ecrã de televisão em toda a minha vida. Mas não sou imparcial quando se trata de eleições americanas, repito. Depois do que se passou nos últimos oito anos, se em vez Obama o candidato Democrata fosse o Pato Donald, eu, se pudesse, votava no pato. É para verem o grave da coisa.

terça-feira, setembro 02, 2008

Previsões de modelos econométricos

Já aqui mencionei o último número do International Journal of Forecasting, sobre previsões das eleições americanas. No máximo, os artigos apresentavam modelos e previsões condicionais. Mas com as eleições a aproximarem-se e com dados da economia e de popularidade com um lag relativamente pequeno a ficarem disponíveis, aparecem as primeiras previsões concretas. Alguns dos papers foram apresentados na semana passada na reunião da American Political Science Association:

1. Lewis-Back e Tien. Paper e previsão para McCain: 43.2% do voto popular bipartidário.
2. Sidman e Mak.
Paper e previsão para McCain: 243 votos no colégio eleitoral (derrota).
3. Cuzan e Bundrik.
Paper e previsão para McCain: 48% do voto popular bipartidário.
4. Abramovitz.
Paper e previsão para McCain: 44.9% do voto popular bipartidário.
5. Erikson e Wlezien.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
6. Klarner.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
7. Hibbs.
Paper e previsão para McCain: 48.2% do voto popular bipartidário.
8. Fair.
Previsão para McCain: 48.5% do voto popular bipartidário.

Obama, supostamente, ganha em todos os modelos.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Efeitos da Convenção?

Um dos efeitos de curto-prazo sempre mais comentados é o "convention bounce", a ideia de que, após a convenção, o candidato tem um ganho em termos de intenções de voto. Este artigo de 1999, usando dados entre 1952 e 1992, sugere que o ganho médio anda pelos 7 pontos.

Um post no Pollster começa a abordar este assunto com os dados disponíveis. Na tracking poll da Gallup, de uma empate 45-45, passou-se para uma vantagem de 8 pontos para Obama. Na tracking poll da Rasmussen, um efeito muito menor.

O post lista várias razões para sermos cépticos em relação à capacidade para medir rigorosamente esse "bounce". E um artigo de John Zaller, de 2002, é mais céptico ainda:

"detection of exposure effects is likely to be unreliable unless the effects are both large and captured in a large survey. Surveys, or subsets of surveys, having fewer than about 2000 cases may be unreliable for detecting almost any sort of likely exposure effect; even surveys of 3000 could easily fail to detect politically important effects."

Alguma coisa deve ter beneficiado. Mas quanto, e por quanto tempo?

sexta-feira, agosto 29, 2008

Parece que Hillary vai ter de continuar a dar uma ajudinha.

McCain Picks Palin. O primeiro passo para mostrar que não é igual a Bush.

Rescaldo da DNC

Não estou a inventar nada de muito original, apenas a sintetizar ideias de outros. A coisa parece estar assim:

1. O discurso de ontem de Obama foi mais concreto e menos vago e gongórico que o habitual. Ainda bem para ele. Um dos problemas de Obama é que começa a haver cansaço - pelo menos entre a opinião publicada, se bem que talvez ainda não entre os eleitores - de tanto brilhantismo retórico, tanto dom da palavra e tanto recurso às emoções. O discurso ajudou a corrigir isso. Os comentadores estão a reagir como previsto. Se calhar, para os eleitores não faz nem nunca iria fazer diferença. Mas condicionar o comentário político é importante.

2. A táctica dos Democratas parece definida. McCain é um cidadão respeitabilíssimo - todas as referências, TODAS as que lhe foram feitas nos discursos mais importantes começavam com um elogio - mas está do lado errado da História. Desde que entrou na campanha, as suas políticas são iguais às de Bush. Oito anos já chegam. The third time is not the charm. Etc. Até o Economist tem saudades do McCain dos velhos tempos, seja lá o que isso for.

3. Há quem ache que isto é um erro catastrófico para os Democratas e uma oportunidade para McCain. Basta negar e recordar o passado de oposição a Bush e à direita dos Republicanos, e toda a campanha de Obama cai pela base. Este "basta" é duvidoso. Vai haver uma altura em que McCain poderá dizer isso. Mas agora, com a Convenção Republicana, não é certamente. Mas talvez possa dizer pouco depois. Mais de 80% dos Republicanos já dizem que votarão McCain, o que sugere que a base está consolidada e que, depois da convenção, a viragem ao centro já é possível. O Tricky Dick é capaz de não estar a ver a coisa completamente mal.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Do que eu me fui lembrar

É certo que a estrutura de incentivos é muito diferente. O que está em jogo é infinitamente mais importante. O resultado é incerto. Bill e Hillary não precisam de manter facções para poderem negociar bons lugares no parlamento ou outros para si e para os seus correligionários. Mas ontem e hoje de madrugada, ao ouvir os discursos de Hillary e Bill Clinton, e muito especialmente esta cuidadosa encenação:


"With eyes firmly on the future, in the spirit of unity, with the goal of victory, with faith in our party and our country"

Lembrei-me de pessoas como Luís Filipe Menezes, José Pedro Aguiar Branco, Manuel Alegre, António Borges e muitos outros. A diferença é abissal.

quarta-feira, agosto 27, 2008

O estado da corrida americana

Hoje, no Público, Rui Tavares repete a ideia de que"McCain acabou de ultrapassar Obama nas sondagens". Eu percebo, assim como percebo as notícias dos últimos dias sobre o assunto. O que elas querem mesmo dizer é que agora há (e até há pouco tempo não havia) sondagens que colocam McCain na frente. Mas para termos isto em perspectiva, atenção ao seguinte:

1. Das últimas 20 sondagens - aquelas cujo trabalho de campo apanhou o mês de Agosto - apenas 4 colocam McCain na frente, enquanto duas outras dão um empate.

2. As empresas que têm dado vantagem a McCain - Gallup, Rasmussen, Zogby - têm, ao longo da campanha, exibido resultados abaixo da tendência para Obama.

3. Por esta altura, em 2004, mais de metade das sondagens colocava Bush à frente de Kerry. E em 2000, por esta altura, todas as sondagens colocavam Bush à frente de Gore.

Logo:

1. Não compensar um erro (a sobrestimação da vantagem de Obama que tem prevalecido no discurso mediático) com outro (a sua subestimação).

2. Tomar em conta que os fundamentals da eleição costumam ser melhores preditores do resultado final a médio prazo do que uma sucessão de sondagens com resultados altamente variáveis nos meses anteriores.

3. Tomar em conta que nada nesses fundamentals alguma vez sugeriu que a vantagem - real - dos democratas seria descomunal.

4. Finalmente, tomar em conta que se todas as eleições são únicas, esta é mais única do que as outras.

À memória de Pedro Ornelas

segunda-feira, agosto 25, 2008

Biden: reacções

Dos mercados electrónicos. Positiva:




Dos eleitores. Mixed (Rasmussen reports):
On the day that Barack Obama announced Joe Biden as his running mate, 39% of voters said he made the right choice. A Rasmussen Reports national telephone survey found that 25% disagreed and another 35% are not sure. Women are notably less enthusiastic than men—33% of women say Biden was the right choice while 27% disagreed. Men, by a 46% to 24% margin, said that Obama made the right choice. Biden is now viewed favorably by 48% of voters and unfavorably by 34%. Those figures reflect a slight improvement from Thursday night polling. He earns favorable reviews from 52% of men and 45% of women.
Just 16% of women have a Very Favorable opinion of Biden while 19% have a Very Unfavorable view.
Obama has struggled among older voters and that’s one area where Biden shines—60% of senior citizens have a favorable opinion of him.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Zogby

"John McCain pela primeira vez à frente de Barack Obama", é notícia do Público que dá direito a primeira página. A sondagem é esta. É este o comentário do Pollster.com.

A irrelevância desta sondagem em si mesma não nega outra coisa, essa sim fundamental: McCain recupera terreno em relação a Obama nas últimas semanas.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Non sequitur

Uma coisa que demorei 38 anos para descobrir. No Continente, os panorama/vista/paisagem/passeio/caminho mais bonitos não são nunca os mais bonitos de Portugal. Nos Açores há sempre melhor.

sexta-feira, agosto 15, 2008

O nosso contributo para a silly season

O Sol destaca hoje um trabalho que fiz com o Luís Aguiar-Conraria, e que foi publicado pela IPRISVerbis. Pode ser descarregado aqui (.pdf). O working paper propriamente dito, um pouco mais extenso, está aqui (.pdf). Prevê, a mais de um ano de eleições, que o PS terá 38,4% dos votos nas eleições de 2009 (na pressuposição de um crescimento económico de 1% entre meados de 2008 e meados de 2009 e ausência de conflitos com Belém). Silly? Vocês dirão. Mas nós achamos que não.

Quem lê este blogue regularmente (sim, vocês os três) imagina como isto começou: a leitura de um número de uma revista dedicada a previsões das presidenciais americanas, um estímulo adicional e mãos à obra.

Obrigado ao Sol e ao jornalista Carlos Madeira pelo artigo cuidadoso, e ao Paulo Gorjão pelo convite.

domingo, agosto 03, 2008

Magalhães

Agradeço toda a atenção, e tal, mas é um bocado excessivo. Mas a grande vantagem é que é altamente improvável que gerações futuras de funcionários da Segurança Social me voltem a pôr o til no "e", como há dias na Loja do Cidadão. Só por isso, um grande bem-haja ao Plano Tecnológico.

terça-feira, julho 15, 2008

Férias

Este blogue entra em pausa estival, na esperança de que, em Setembro, alguém ainda se lembre que esta coisa existe. Nessa altura, as eleições americanas estarão ao rubro, após as convenções. Até lá.

Sondagem Católica para RTP/RDP/JN

O segundo barómetro político CESOP-UCP do ano (haverá quatro no total) foi realizado entre os dias 5 e 9 de Julho. Foi divulgado ontem e hoje pela RTP, RDP e o JN. Podem descarregar o relatório-síntese aqui.

Com esta sondagem, é possível fazer um ponto de situação em relação ao imediato "pós-Ferreira Leite":

Não é muito fácil comparar estas sondagens entre si, especialmente porque a Aximage não divulga - pelo menos no site do Correio da Manhã - dados sobre indecisos, outros partidos, brancos ou nulos. Logo, não é possível apresentar os dados de forma comparável com resultados eleitorais ou com as estimativas dos outros institutos. Por outro lado, pelo menos na notícia aqui, a soma das percentagens da Eurosondagem dá 102,1%, devendo haver um lapso qualquer (arredondamentos não será, porque os resultados são apresentados com uma casa decimal).

Contudo, numas contas muito simplistas, se os OBN para a Aximage fossem 5% (como nas legislativas de 2005), e se redistribuirmos indecisos proporcionalmente (eu sei que eles não gostam muito, mas vou fazer na mesma), os resultados ficariam assim:


Logo:

1. PS continua a ser o partido com mais intenções de voto;

2. Mas há grandes discrepâncias na vantagem sobre o PSD: entre 1 e 11 pontos;

3. PCP+BE entre 17 e 24%.

sexta-feira, julho 04, 2008

Popularidade

O mesmo gráfico que aqui, só que desta vez com os dados da Eurosondagem, divulgados hoje.

quarta-feira, julho 02, 2008

Lisboa SOS

Um blogue novo que publica fotografias enviadas por leitores que ilustram a degradação dos espaços públicos de Lisboa. "Contra a distracção". Infelizmente, vou ter muitas fotografias para mandar.

Projectos

Estou a trabalhar nisso. A sério. Não nas "chaves", nas no resto...