terça-feira, setembro 16, 2008

Erro de análise e outras coisas

Uma leitora chama-me a atenção para o facto de que a tendência apontada no post anterior não ser um "efeito Palin", porque já vinha de trás. É absolutamente verdade, e penalizo-me. O problema foi que, em vez de olhar para todas as observações, me limitei a comparar dois pontos no tempo. Mas olhando para a série é evidente que, se acontece alguma coisa (reforço das bases de McCain mas perdas entre os independentes) é num momento anterior à convenção Republicana. Sorry, my mistake.

Outras questões. Primeiro, a de saber se a atenção que é dada aos resultados nacionais em detrimento dos estaduais faz algum sentido:

Acho mesmo que o uso destes valores é negligente pois induz o eleitor a tomar comportamentos e formular conclusões que podem não ser os mais correctos. Muitos deles apontam para um empate técnico em que a vantagem de um ou outro situa-se dentro da margem de erro. Concluir progressões com valores destes é para mim um erro, que se potencia ao ser divulgado e comentado. A eleição de Bush parece não ter servido de Lição.

Eu não seria tão céptico. Por um lado, se é evidente que a eleição o Presidente americano não é nem directa nem feita através de um círculo eleitoral nacional, a verdade também é que só três vezes (1876, 1888 e 2000) o candidato que teve mais votos não foi o Presidente. Pelo que a intenção de voto nacional e saber quem tem mais intenções de voto a esse nível é um indicador muito razoável de quem poderá ser o vencedor. Por outro lado, a verdade é que se dá muita atenção ao que se passa nos estados, como se pode ver aqui. O problema, claro, é que em vários estados há poucas sondagens e as indicações do que se vai passar neles são pouco fiáveis, pelo que basearmo-nos exclusivamente nessas sondagens seria também perigoso. Pelo que o enfoque na intenção de voto nacional não me parece errado, desde que, claro, se perceba que uma coisa é tentar fazer inferências sobre o voto popular a nível nacional e outra é fazer inferências sobre quem terá mais membros no colégio eleitoral (sendo que ambas as coisas tendem a coincidir).

Agora, para quem faz campanhas, as sondagens a nível nacional têm pouca utilidade. Veja-se o que diz o campaign manager de Obama:

"All we care about is these 18 states," he said. He repeated, with emphasis, that the campaign does not care about national polling. Instead, the campaign's own identification, registration and canvassing efforts provide the data he uses to determine where to invest money and resources. Plouffe also emphasized that the internal polling the campaign does is focused on those same 18 states, and that their real concern is not the horse race results but the "data underneath." Later, he added, "the top-line [polling data] doesn't tell you anything." Rather, they focus on who the "true undecideds" are, "how they're likely to break," and what messages will best persuade them.

Outro ponto:

A sondagem da Gallup que linkou, foi realizada com base em ca. de 2700 inquéritos. E é assumido um erro de cerca de 2% associado à sondagem. Estatísticamente, parece-me certo. Mas de facto esta amostra só poderia ser considerada representativa no caso da eleição para a presidência dos EUA se basear contagem total dos vos e não na eleição de um colégio eleitoral em cada estado. Para o último caso, a amostra tem de ser ponderada estadualmente. Em anexo tenho os cálculos da ponderação dos 2700 inquéritos por estado. E surpreendi-me quando vi que um número significativo de estados não chegam sequer à dezena. Com isto estamos bem longe de um erro de 2%! É legítimo apresentar-se resultados com tão pouca consistência para justificar tendências de voto?

Isto está ligado ao ponto anterior. Uma sondagem como esta da Gallup está a tentar fazer uma inferência descritiva sobre o voto popular, não sobre quem tem mais eleitos no colégio. Para o primeiro fim, está muito bem. Da mesma maneira que uma sondagem feita em Portugal raramente está a tentar apurar - pelo menos directamente - quem vai ter mais deputados. Para fazer isso directamente seria necessário fazer sondagens com amostras representativas de cada distrito e estimar deputados por distrito. Mas, claro, ninguém faz isso, porque os benefícios não compensam os custos: saber quem tem mais votos a nível nacional costuma ser suficiente para saber quem terá mais deputados. O que já é mais perigoso é tentar fazer esses cálculos com alguma aparência de objectividade com base em sondagens que têm como único objectivo medir o voto a nível nacional. Dei aqui um exemplo disso há uns anos. Até pode correr bem, mas também pode correr muito mal.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Voto por ideologia/identificação partidária- Gallup

Um dos resultados mais interessantes das sondagens sobre as eleições americanas não são tanto as intenções de voto gerais, mas a história que é contada pelos cruzamentos entre identificação partidária e voto.

Se olharem para esse cruzamento, a história das últimas semanas fica muito (demasiado?) simples:

1. Voto McCain entre Republicanos conservadores:
4-10 Agosto: 90%
1-7 Setembro: 94%

2. Voto McCain entre Republicanos moderados/liberais:
4-10 Agosto: 70%
1-7 Setembro: 78%

3. Voto McCain entre independentes:
4-10 Agosto: 33%
1-7 Setembro: 28%

3. Voto Obama entre independentes:
4-10 Agosto: 22%
1-7 Setembro: 29%

Não sei se perceberam a história: são os benefícios e os custos de Palin. McCain reforça a base, mas enfraquece junto aos independentes. O primeiro movimento foi o que lhe permitiu encostar a Obama. O segundo movimento é o de que Obama precisa que se consolide para ganhar em Novembro.

P.S- E antes que digam ou pensem:
1. Estas flutuações, apesar de não muito grandes e de se darem em sub-amostras, podem ser significativas porque não se referem a uma única sondagem, mas ao conjunto de todos os inquiridos na tracking poll durante uma semana.
2. Claro que a probabilidade dos independentes acabarem por votar é menor.
3. À luz disto, percebe-se melhor isto, não?: Barack Obama's campaign is seeking to retake the offensive in the contest against John McCain today with a renewed focus on the economy.

terça-feira, setembro 09, 2008

Agora sim

Agora sim, McCain encosta a Obama. O saldo dos dois "bounces" das convenções ainda está por fazer (pode acontecer ao de McCain o mesmo que aconteceu ao de Obama, ou seja, dissipar-se um pouco) mas, para já, tudo indica que quem mais ficou a ganhar com as convenções foi o ticket republicano. Como é hábito, excelente tratamento do tema por Charles Franklin.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Palin

Muito do que está aqui me parece bem observado sobre o discurso de ontem. A escolha de Palin teve uma dupla dimensão: o género e a ideologia. A primeira jogaria num sentido - por assim dizer, de atracção do eleitorado que votou em Hillary e de "retirar uma bandeira" aos Democratas, os únicos que tinham até agora tido uma mulher no ticket - e a segunda noutro - de consolidação do eleitorado Republicano mais conservador, permitindo a McCain uma certa despreocupação com essa base eleitoral. Ao contrário do que eu próprio julgava nos minutos seguintes depois de conhecer a nomeação de Palin, a dimensão mais importante parece ser a segunda. A primeira está lá, implícita, mas são os pergaminhos ultra-conservadores de Palin que mais contaram ontem.

Parece-me que os boatos iniciais sobre o filho de Palin, Trig, (que seria, segundo o boato, realmente o seu neto), difundidos inicialmente por um blog de simpatias democratas, só jogam contra os próprios Democratas, da mesma maneira que o artigo do NYT sobre a suposta amante de McCain. Não posso provar, mas de cada vez que qualquer coisa dessas aparecer e não se confirmar verdadeira, devem ser mais uns pontos percentuais de eleitores com simpatias republicanas que se consolidam como votantes de McCain. A percepção entre os Republicanos é a de que os media são todos visceralmente liberais, e coisas destas só o parecem confirmar. O grande problema de McCain - como atrair, com o seu perfil, o eleitorado Republicano mais conservador - parece, de resto, quase resolvido: 91% deles dizem que votarão nele na última tracking poll da Gallup.

Uma nota pessoal e, eventualmente, pouco imparcial: a exibição do filho de Palin, de quatro meses de idade, a passar de colo em colo de cada membro da família e até pelo colo da mulher de McCain, à noite, no meio de um barulho ensurdecedor, parecendo mais inconsciente - quase inerte - do que adormecido, constantemente focado pelas câmaras de televisão, especialmente quando Palin promete ser na Casa Branca uma "defensora" de quem filhos deficientes, foi para mim, que tenho um filho com oito meses de idade, uma das coisas mais obscenas que vi num ecrã de televisão em toda a minha vida. Mas não sou imparcial quando se trata de eleições americanas, repito. Depois do que se passou nos últimos oito anos, se em vez Obama o candidato Democrata fosse o Pato Donald, eu, se pudesse, votava no pato. É para verem o grave da coisa.

terça-feira, setembro 02, 2008

Previsões de modelos econométricos

Já aqui mencionei o último número do International Journal of Forecasting, sobre previsões das eleições americanas. No máximo, os artigos apresentavam modelos e previsões condicionais. Mas com as eleições a aproximarem-se e com dados da economia e de popularidade com um lag relativamente pequeno a ficarem disponíveis, aparecem as primeiras previsões concretas. Alguns dos papers foram apresentados na semana passada na reunião da American Political Science Association:

1. Lewis-Back e Tien. Paper e previsão para McCain: 43.2% do voto popular bipartidário.
2. Sidman e Mak.
Paper e previsão para McCain: 243 votos no colégio eleitoral (derrota).
3. Cuzan e Bundrik.
Paper e previsão para McCain: 48% do voto popular bipartidário.
4. Abramovitz.
Paper e previsão para McCain: 44.9% do voto popular bipartidário.
5. Erikson e Wlezien.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
6. Klarner.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
7. Hibbs.
Paper e previsão para McCain: 48.2% do voto popular bipartidário.
8. Fair.
Previsão para McCain: 48.5% do voto popular bipartidário.

Obama, supostamente, ganha em todos os modelos.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Efeitos da Convenção?

Um dos efeitos de curto-prazo sempre mais comentados é o "convention bounce", a ideia de que, após a convenção, o candidato tem um ganho em termos de intenções de voto. Este artigo de 1999, usando dados entre 1952 e 1992, sugere que o ganho médio anda pelos 7 pontos.

Um post no Pollster começa a abordar este assunto com os dados disponíveis. Na tracking poll da Gallup, de uma empate 45-45, passou-se para uma vantagem de 8 pontos para Obama. Na tracking poll da Rasmussen, um efeito muito menor.

O post lista várias razões para sermos cépticos em relação à capacidade para medir rigorosamente esse "bounce". E um artigo de John Zaller, de 2002, é mais céptico ainda:

"detection of exposure effects is likely to be unreliable unless the effects are both large and captured in a large survey. Surveys, or subsets of surveys, having fewer than about 2000 cases may be unreliable for detecting almost any sort of likely exposure effect; even surveys of 3000 could easily fail to detect politically important effects."

Alguma coisa deve ter beneficiado. Mas quanto, e por quanto tempo?

sexta-feira, agosto 29, 2008

Parece que Hillary vai ter de continuar a dar uma ajudinha.

McCain Picks Palin. O primeiro passo para mostrar que não é igual a Bush.

Rescaldo da DNC

Não estou a inventar nada de muito original, apenas a sintetizar ideias de outros. A coisa parece estar assim:

1. O discurso de ontem de Obama foi mais concreto e menos vago e gongórico que o habitual. Ainda bem para ele. Um dos problemas de Obama é que começa a haver cansaço - pelo menos entre a opinião publicada, se bem que talvez ainda não entre os eleitores - de tanto brilhantismo retórico, tanto dom da palavra e tanto recurso às emoções. O discurso ajudou a corrigir isso. Os comentadores estão a reagir como previsto. Se calhar, para os eleitores não faz nem nunca iria fazer diferença. Mas condicionar o comentário político é importante.

2. A táctica dos Democratas parece definida. McCain é um cidadão respeitabilíssimo - todas as referências, TODAS as que lhe foram feitas nos discursos mais importantes começavam com um elogio - mas está do lado errado da História. Desde que entrou na campanha, as suas políticas são iguais às de Bush. Oito anos já chegam. The third time is not the charm. Etc. Até o Economist tem saudades do McCain dos velhos tempos, seja lá o que isso for.

3. Há quem ache que isto é um erro catastrófico para os Democratas e uma oportunidade para McCain. Basta negar e recordar o passado de oposição a Bush e à direita dos Republicanos, e toda a campanha de Obama cai pela base. Este "basta" é duvidoso. Vai haver uma altura em que McCain poderá dizer isso. Mas agora, com a Convenção Republicana, não é certamente. Mas talvez possa dizer pouco depois. Mais de 80% dos Republicanos já dizem que votarão McCain, o que sugere que a base está consolidada e que, depois da convenção, a viragem ao centro já é possível. O Tricky Dick é capaz de não estar a ver a coisa completamente mal.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Do que eu me fui lembrar

É certo que a estrutura de incentivos é muito diferente. O que está em jogo é infinitamente mais importante. O resultado é incerto. Bill e Hillary não precisam de manter facções para poderem negociar bons lugares no parlamento ou outros para si e para os seus correligionários. Mas ontem e hoje de madrugada, ao ouvir os discursos de Hillary e Bill Clinton, e muito especialmente esta cuidadosa encenação:


"With eyes firmly on the future, in the spirit of unity, with the goal of victory, with faith in our party and our country"

Lembrei-me de pessoas como Luís Filipe Menezes, José Pedro Aguiar Branco, Manuel Alegre, António Borges e muitos outros. A diferença é abissal.

quarta-feira, agosto 27, 2008

O estado da corrida americana

Hoje, no Público, Rui Tavares repete a ideia de que"McCain acabou de ultrapassar Obama nas sondagens". Eu percebo, assim como percebo as notícias dos últimos dias sobre o assunto. O que elas querem mesmo dizer é que agora há (e até há pouco tempo não havia) sondagens que colocam McCain na frente. Mas para termos isto em perspectiva, atenção ao seguinte:

1. Das últimas 20 sondagens - aquelas cujo trabalho de campo apanhou o mês de Agosto - apenas 4 colocam McCain na frente, enquanto duas outras dão um empate.

2. As empresas que têm dado vantagem a McCain - Gallup, Rasmussen, Zogby - têm, ao longo da campanha, exibido resultados abaixo da tendência para Obama.

3. Por esta altura, em 2004, mais de metade das sondagens colocava Bush à frente de Kerry. E em 2000, por esta altura, todas as sondagens colocavam Bush à frente de Gore.

Logo:

1. Não compensar um erro (a sobrestimação da vantagem de Obama que tem prevalecido no discurso mediático) com outro (a sua subestimação).

2. Tomar em conta que os fundamentals da eleição costumam ser melhores preditores do resultado final a médio prazo do que uma sucessão de sondagens com resultados altamente variáveis nos meses anteriores.

3. Tomar em conta que nada nesses fundamentals alguma vez sugeriu que a vantagem - real - dos democratas seria descomunal.

4. Finalmente, tomar em conta que se todas as eleições são únicas, esta é mais única do que as outras.

À memória de Pedro Ornelas

segunda-feira, agosto 25, 2008

Biden: reacções

Dos mercados electrónicos. Positiva:




Dos eleitores. Mixed (Rasmussen reports):
On the day that Barack Obama announced Joe Biden as his running mate, 39% of voters said he made the right choice. A Rasmussen Reports national telephone survey found that 25% disagreed and another 35% are not sure. Women are notably less enthusiastic than men—33% of women say Biden was the right choice while 27% disagreed. Men, by a 46% to 24% margin, said that Obama made the right choice. Biden is now viewed favorably by 48% of voters and unfavorably by 34%. Those figures reflect a slight improvement from Thursday night polling. He earns favorable reviews from 52% of men and 45% of women.
Just 16% of women have a Very Favorable opinion of Biden while 19% have a Very Unfavorable view.
Obama has struggled among older voters and that’s one area where Biden shines—60% of senior citizens have a favorable opinion of him.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Zogby

"John McCain pela primeira vez à frente de Barack Obama", é notícia do Público que dá direito a primeira página. A sondagem é esta. É este o comentário do Pollster.com.

A irrelevância desta sondagem em si mesma não nega outra coisa, essa sim fundamental: McCain recupera terreno em relação a Obama nas últimas semanas.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Non sequitur

Uma coisa que demorei 38 anos para descobrir. No Continente, os panorama/vista/paisagem/passeio/caminho mais bonitos não são nunca os mais bonitos de Portugal. Nos Açores há sempre melhor.

sexta-feira, agosto 15, 2008

O nosso contributo para a silly season

O Sol destaca hoje um trabalho que fiz com o Luís Aguiar-Conraria, e que foi publicado pela IPRISVerbis. Pode ser descarregado aqui (.pdf). O working paper propriamente dito, um pouco mais extenso, está aqui (.pdf). Prevê, a mais de um ano de eleições, que o PS terá 38,4% dos votos nas eleições de 2009 (na pressuposição de um crescimento económico de 1% entre meados de 2008 e meados de 2009 e ausência de conflitos com Belém). Silly? Vocês dirão. Mas nós achamos que não.

Quem lê este blogue regularmente (sim, vocês os três) imagina como isto começou: a leitura de um número de uma revista dedicada a previsões das presidenciais americanas, um estímulo adicional e mãos à obra.

Obrigado ao Sol e ao jornalista Carlos Madeira pelo artigo cuidadoso, e ao Paulo Gorjão pelo convite.

domingo, agosto 03, 2008

Magalhães

Agradeço toda a atenção, e tal, mas é um bocado excessivo. Mas a grande vantagem é que é altamente improvável que gerações futuras de funcionários da Segurança Social me voltem a pôr o til no "e", como há dias na Loja do Cidadão. Só por isso, um grande bem-haja ao Plano Tecnológico.

terça-feira, julho 15, 2008

Férias

Este blogue entra em pausa estival, na esperança de que, em Setembro, alguém ainda se lembre que esta coisa existe. Nessa altura, as eleições americanas estarão ao rubro, após as convenções. Até lá.

Sondagem Católica para RTP/RDP/JN

O segundo barómetro político CESOP-UCP do ano (haverá quatro no total) foi realizado entre os dias 5 e 9 de Julho. Foi divulgado ontem e hoje pela RTP, RDP e o JN. Podem descarregar o relatório-síntese aqui.

Com esta sondagem, é possível fazer um ponto de situação em relação ao imediato "pós-Ferreira Leite":

Não é muito fácil comparar estas sondagens entre si, especialmente porque a Aximage não divulga - pelo menos no site do Correio da Manhã - dados sobre indecisos, outros partidos, brancos ou nulos. Logo, não é possível apresentar os dados de forma comparável com resultados eleitorais ou com as estimativas dos outros institutos. Por outro lado, pelo menos na notícia aqui, a soma das percentagens da Eurosondagem dá 102,1%, devendo haver um lapso qualquer (arredondamentos não será, porque os resultados são apresentados com uma casa decimal).

Contudo, numas contas muito simplistas, se os OBN para a Aximage fossem 5% (como nas legislativas de 2005), e se redistribuirmos indecisos proporcionalmente (eu sei que eles não gostam muito, mas vou fazer na mesma), os resultados ficariam assim:


Logo:

1. PS continua a ser o partido com mais intenções de voto;

2. Mas há grandes discrepâncias na vantagem sobre o PSD: entre 1 e 11 pontos;

3. PCP+BE entre 17 e 24%.

sexta-feira, julho 04, 2008

Popularidade

O mesmo gráfico que aqui, só que desta vez com os dados da Eurosondagem, divulgados hoje.

quarta-feira, julho 02, 2008

Lisboa SOS

Um blogue novo que publica fotografias enviadas por leitores que ilustram a degradação dos espaços públicos de Lisboa. "Contra a distracção". Infelizmente, vou ter muitas fotografias para mandar.

Projectos

Estou a trabalhar nisso. A sério. Não nas "chaves", nas no resto...

segunda-feira, junho 30, 2008

Previsões para as presidenciais americanas

O último número do International Journal of Forecasting é uma delícia para viciados nas eleições americanas. Vários artigos discutem o desempenho passado de modelos de previsão dos resultados das eleições, das sondagens e dos mercados electrónicos.

Em 2004, o primeiro modelo a ser divulgado, logo em Janeiro, foi o de Helmut Norpoth. Foi o primeiro modelo porque se baseia em variáveis que podem ser medidas relativamente cedo: os resultados das primárias em New Hampshire, os resultados das duas últimas eleições presidenciais e uma variável medindo identificação partidária (baseada nos resultados das eleições para o Congresso). Aplicado a todas as eleições desde 1912, o modelo prevê correctamente o vencedor em todas as eleições menos uma (1960). Para 2004, previa que Bush iria derrotar Kerry por 54,7% contra 45,3%. Na verdade, o resultado foi 50,7% contra 48,3%. Mas o modelo bateu, de longe, como instrumento de previsão, quer as sondagens quer as cotações dos mercados electrónicos da mesma altura, ou seja, Janeiro de 2004. E o que diz o modelo desta vez para Obama-McCain em 2008? 50,1% contra 49,9%. Um dos problemas disto, claro, está aqui:


O modelo de Douglas Hibbs tem duas variáveis principais:

(1) weighted-average growth of per capita real personal disposable income over the term, and (2) cumulative US military fatalities owing to unprovoked, hostile deployments of American armed forces in foreign conflicts.

Em 2004, previu correctamente a vitória de Bush, errando por apenas 1,8%. A previsão para 2008:

Those political-economic fundamentals imply an expected Republican two-party vote share centered on 48.2%. Barring unforeseen political shocks favoring the Republican candidate (presumptively John McCain), the Democratic standard bearer (presumptively Barack Obama) ought to win the 2008 presidential election by a margin in the neighborhood of 3.6 percentage points.

Ray Fair, com um modelo que inclui crescimento, inflação e nº de períodos trimestrais com crescimento económico elevado prevê 47,8% para os Republicanos. A página deixa-nos brincar com os valores das variáveis independentes e obter novas previsões.

Estes modelos costumam ter versões finais em Julho/Agosto, dado que utilizam dados da economia ou da popularidade do incumbent que só nesta altura estão disponíveis. Mas neste último número do IJF - com artigos escritos entre Julho e Novembro de 2007 - há já outras "previsões condicionais", baseadas em valores hipotéticos dos dados da popularidade e do crescimento. Alan Abramovitz prevê que uma vitória do Partido Republicano é impossível com os actuais valores da popularidade de Bush. Ela só começaria a tornar-se possível com um saldo de popularidade acima dos 10% em Junho de 2008. Neste momento, existe um saldo negativo com valores entre os -30 e os -50%. Michael Lewis-Beck e Charles Tien prevêm, condicionalmente, uma votação para o Partido Republicano entre 41.4 e 48.5%, dependendo de utilização de crescimento económico ou criação de empregos como variáveis independentes.

E depois há, claro, algo completamente diferente: The Keys to the White House, por Alan Lichtman, um historiador da American University. O método de Lichtman é um índice, de natureza qualitativa, que usa simplesmente respostas "sim"/"não" a 13 perguntas básicas. Quanto mais respostas "sim", maior a probabilidade de que o partido no poder renove a vitória. O método prevê correctamente o resultado de todas as eleições desde 1860 (mas ver aqui como a frase anterior não faz muito sentido). Eis as "chaves":


Destas perguntas, Lichtman respondia negativamente, em Novembro de 2007, a oito delas (e com Obama talvez tenha de responder a nove, ou seja, à última). Resposta: Democratas ganham. E como isto é convertível num modelo de previsão de percentagem de voto - nº de keys como variável independente do voto no incumbent - Lichtman prevê 46% para os Republicanos.

A última coisa a tomar em consideração, neste momento, é que, em 2004, a partir de Maio, os valores do Iowa Prediction Market estabilizou numa percentagem para Bush que, comparada com o que se veio a verificar em Novembro, exibia um desvio sempre igual ou inferior a um ponto percentual. E qual tem sido o valor para vote shares?


Em suma: ninguém, com excepção de Norpoth em Janeiro passado, prevê outra coisa que não uma vitória dos Democratas nesta eleição. Vou actualizando isto com as novas previsões à medida que forem saindo.

sexta-feira, junho 27, 2008

Novo ciclo

Com a última sondagem da Marktest, ficamos com uma primeira aproximação à avaliação que os portugueses fazem da actuação de Manuela Ferreira Leite. 43% não acham coisa alguma, o que não lhes fica mal, tendo em conta que, sensu stricto, não há nada para avaliar. Mas outros recorrem às suas predisposições ideológicas e partidárias, à imagem que dela formaram no passado recente ou distante ou até, quem sabe, à comparação com Sócrates, para chegar a uma conclusão. A conclusão a que a maioria desses chega é negativa, mas menos negativa que em relação a Menezes no período anterior ou Sócrates no momento actual. Mas tudo pode mudar à medida que mais opiniões se forem cristalizando. Para a Menezes, a mudança posterior foi para pior. Em relação a MFL, quem sabe?*

O gráfico que se segue (cliquem nele que verão melhor) é apenas para os dados da Marktest. Usa-se um saldo de % de avaliações positivas - % avaliações negativas, ponderado pelas não respostas. As linhas verticais marcam as últimas sondagens realizadas antes de momentos relevantes: eleição de Cavaco Silva; caso Independente; eleição de Menezes; eleição de Ferreira Leite.



*Ou para usar a terminologia de uma abordagem que aprendi há pouco tempo (olá LA-C): trará a eleição de MFL uma mudança de estrutura à serie de popularidade do líder do PSD, tal como aquela que, aparentemente, ocorre no caso de Sócrates após o caso Independente?

quarta-feira, junho 25, 2008

"Mobilização assimétrica", julgo ser o termo


Ainda a Irlanda

Poucas pessoas sabem tanto sobre o comportamento eleitoral na Irlanda (e não só) como Michael Marsh. Vale a pena ler este artigo no Sunday Post sobre o referendo: What did the voters mean when they said No to the Lisbon Treaty? Nem tudo o que lá é dito confere exactamente com o que defendi aqui, pelo que é ainda mais interessante, pelo menos para mim. Algumas passagens:

In this referendum campaign, although five out of six Irish parties, with a combined support of 85 per cent at the last national elections, supported the treaty, only 9 per cent of voters were contacted in person by the Yes side. The No side reached 8 per cent. A small group was contacted by both sides (3 per cent), but 86 per cent were not contacted at all. It seems difficult to maintain that the government or the other parties on the Yes side went all out to secure a victory. Moreover, it is indeed remarkable that the No side, lacking the established infrastructure of party organisations, reached about the same number of voters as the Yes side.

We asked whether Lisbon would have compromised Ireland’s neutrality; made the practice of abortion more likely in Ireland; led to a change in tax on businesses; reduced Ireland’s influence on EU decisions; strengthened the protection of workers’ rights; caused even more unemployment; lost us our European Commissioner for some of the time; and finally, simplified decision-making in the EU. The results indicate that the No arguments seemed to have won the campaign. Substantial majorities agree with their interpretation over the interpretation of the Yes side. Even on abortion, where their arguments were rejected by the Electoral Commission, a significant minority (39 per cent) was concerned that abortion could be brought closer had Ireland voted Yes.

Those most uncertain about their economic future, due to perceived decline in their own living standards in the last year, also tended to vote No. These factors are outside anyone’s immediate capacity to address, although dissatisfaction with the government - equally high at the time of Nice II - is not necessarily associated with a rejection of an EU treaty, at least to the degree it is associated here. Nor is it the case that voters were simply rejecting Europe. Over 40 per cent of No voters supported even more integration over protecting our independence from the EU.

E um gráfico espantoso, que mostra - aqui sim de acordo com o meu argumento - que o problema não foi a abstenção: aqueles que não votaram eram ainda mais hostis ao Tratado. Mais informação sobre a sondagem pós-eleitoral aqui.

terça-feira, junho 17, 2008

E já agora, este senhor para running mate.

"I'm not particularly interested in having a picture of me and George W. Bush on my wall" (a história completa contada aqui).

E agora, para o que realmente interessa


Para ficar tudo clarinho, neste blogue, por muito que se tente, não se consegue ser imparcial em relação ao resultado final. Independentemente de simpatias ou antipatias pessoais com os candidatos, quer-se tudo azul.

Mas na Polónia, ainda assim, sim

Survey: Poles support EU's reform treaty
Poles would back the European Union's Lisbon Treaty by a wide margin if it were put to a referendum, a newspaper reported Monday. A poll of 1,000 adults found 71 per cent of Poles said they would vote for the reform treaty, which Irish voters rejected in a referendum last week, the Dziennik daily said.

Na Holanda, também não

Poll: Dutch Would Also Reject EU Treaty

A majority of the Dutch is against the Treaty of Lisbon, according to a poll by Maurice de Hond. But the Netherlands is going ahead with its ratification. If the Netherlands were to hold a referendum now on the new EU treaty, 54 percent would vote against it, De Hond reported. He polled the views of the Dutch after the Irish rejected the treaty last week. A majority (56 percent) wants the Netherlands to also hold a referendum on the Treaty of Lisbon. It is an adaptation of the European Constitution, on which a referendum was held in the Netherlands in 2005 - which rejected it by 62 to 38 percent. (...) But there will be no referendum. The Netherlands is going ahead with the ratification of the Treaty of Lisbon, even though the Irish have rejected it, said Premier Jan Peter Balkenende.

segunda-feira, junho 16, 2008

Leitura útil por estes dias

Second-order’ versus ‘Issue-voting’ Effects in EU Referendums

Are referendums on EU treaties decided by voters’ attitudes to Europe (the ‘issue-voting’ explanation) or by voters’ attitudes to their national political parties and incumbent national government (the ‘second-order election model’ explanation)? In one scenario, these referendums will approximate to deliberative processes that will be decided by people’s views of the merits of European integration. In the other scenario, they will be plebiscites on the performance of national governments. We test the two competing explanations of the determinants of voting in EU referendums using evidence from the two Irish referendums on the Nice Treaty. We find that the issue-voting model outperforms the second-order model in both referendums. However, we also find that issue-voting was particularly important in the more salient and more intense second referendum. Most strikingly, attitudes to EU enlargement were much stronger predictors of vote at Nice 2 than at Nice 1. This finding about the rise in importance of attitudes to the EU points to the importance of campaigning in EU referendums.

sexta-feira, junho 06, 2008

Adenda

Há uns tempos, escrevi uma coisa sobre os "valores de esquerda" da actual Câmara de Lisboa. Junto adenda:

"A apresentação de um novo modelo da marca de automóveis Skoda arrancou ontem à tarde na Praça das Flores, sob os protestos dos comerciantes e moradores da zona. Em causa está o facto de a Câmara de Lisboa ter autorizado que a organização vedasse o local durante os 17 dias do evento, (...) a troco de 150 mil euros e da reabilitação do jardim central. (...) 'Ia a passar pelo meio do jardim, quando os seguranças apareceram e me barraram a passagem'"

Referendo Irlanda:

A sondagem mais recente, divulgada hoje, é da TNS, e é a primeira que dá vantagem ao Não.

Irish Times /TNS mrbi poll:


Isto contrasta, apesar de tudo, com as sondagens da Red C que tenho divulgado aqui. Aqui, chama-se a atenção para a diferença na formulação das perguntas. E toda a campanha fala em "Lisbon Treaty", em vez de "Reform Treaty"...

Uma coisa é certa: quando mais tempo dura a campanha, menos indecisos e mais "nãos".

quinta-feira, junho 05, 2008

Altruistic (sort of) plug

Eu se fosse a vocês não perdia isto:

Pedro Lains: Lectures on the History of European Integration

Sobre o voto económico

No seguimento do que escrevi 2ª feira passada, duas notas:

1. Num artigo muito recente, Pedro Adão Silva menciona que "há uma hipótese da sociologia eleitoral que tem revelado assinalável potencial explicativo e que nos diz que os eleitores sabem distinguir os partidos em função das suas prioridades e que, em períodos de maior desemprego e crise social, votarão mais à esquerda e em períodos de maior inflação e dificuldades financeiras, votarão mais à direita."

Aquilo a que o Pedro se refere é ao chamado "voto económico prospectivo". Ao contrário do que sucederia com o "voto económico retrospectivo" - em que os partidos de governo, e eventualmente mais os de esquerda - seriam prejudicados pelo desemprego, no "voto económico prospectivo" a hipótese é que os partidos de esquerda poderiam ser beneficiados pelo desemprego, sugerindo que os eleitores votam a pensar na forma como situações actuais podem ser resolvidas por políticas futuras.

Um dos aspectos mais interessantes deste livro tem precisamente a ver com este assunto e com alguma clarificação que é trazida a este respeito: o que eles concluem é que os efeitos do desemprego são diferentes consoantes a dimensão dos partidos de esquerda. "Grandes" partidos de esquerda no governo são castigados pelo desemprego. Partidos de esquerda "pequenos" são beneficiados pelo desemprego. Não sei se era bem nisto que o Pedro estava a pensar...

2. Ninguém percebeu ainda muito bem as "micro-fundações" do mecanismo através do qual os eleitores castigam os governos pelo mau desempenho da economia. Uma das conclusões que - pelo menos a mim - geram mais perplexidade é o facto de, quando usamos inquéritos, as avaliações que os inquiridos fazem da situação económica do país ter consequências muito maiores no voto que a avaliação da situação económica pessoal. Há quem diga que isto sinaliza "altruísmo"e grande responsabilidade dos eleitores, mas acho que há para aqui muita endogeneidade (a avaliação da situação económica é muito explicada por simpatias partidárias, e há muita racionalização das respostas nos inquéritos, mas enfim).

Seja como for, se for mesmo verdade que os eleitores retiram muita da informação sobre a economia dos media, então o que há a esperar até 2009 é um combate ferocíssimo sobre a interpretação dos números. Aqui vai haver imenso trabalho e espero que detectem as contabilidades criativas de ambos os lados. E vai valer muito a pena reler este clássico.

quarta-feira, junho 04, 2008

Boas companhias

Um guitarrista: Jerry Garcia (um machado quando tinha 4 anos).

Dois presidentes: Lula da Silva (precisamente o mindinho da mão esquerda) e Boris Yeltsin (dois, aparentemente a brincar com uma granada).

Dois actores do cinema mudo:Buster Keaton e Harold Lloyd.

The famous outlaw Jesse James.

Claus von Stauffenberg.

E Galileo Galilei (post mortem, ao que parece).

Never trust a pollster


É todo vosso. Já me disseram que se pode fazer uma vida quase normal.

segunda-feira, junho 02, 2008

sábado, maio 31, 2008

Popularidade Líderes Políticos, Maio 2008

Com os resultados do Barómetro Marktest, cujo trabalho de campo terminou no dia 26 de Maio, fica aqui a actualização dos saldos de popularidade do Presidente e do Primeiro-Ministro (novo método de cálculo explicado aqui). A verde, Marktest. A azul, Eurosondagem. Linhas verticais: para o gráfico do Presidente, primeira sondagem após eleição de Cavaco Silva; para gráfico Sócrates, primeira sondagem após divulgação de caso Independente pelo Público.


Antecipação: o Público amanhã

Amanhã, em "O Público errou":

"No 'Sobe e Desce' de ontem, ilustrando um texto sobre José Oliveira e Costa, ex-presidente do BPN, colocámos a fotografia de Rui Oliveira e Costa, Director da Eurosondagem. Pelo sucedido, as nossas desculpas."

segunda-feira, maio 26, 2008

As sondagens do PSD

Ando para aqui a tentar fazer algum sentido das várias sondagens que têm saído sobre os candidatos à liderança do PSD. Olhemos para elas:

1. Eurosondagem, 23 a 29 de Abril. Universo do estudo: totalidade dos eleitores.
Questão:
- "Quem está em melhores condições para liderar o PSD?" MFL, 29%; PSL,25%; PPC, 15,5%; NSilva e PA: 3%. Não respostas: 14,5% (cálculo próprio).

2. Aximage, 5 a 9 de Maio. Universo do estudo: totalidade dos eleitores, mas percentagens entre os eleitores do PSD.
Questões:
- "Quem é o melhor candidato para a liderança do PSD?" (aparentemente, pergunta aberta, des resposta espontânea). MFL, 40,8%; PSL, 13,2%; Jardim, 7,5%; Menezes, 4,5%; PPC: 3%; Marcelo, 2,5%; Outro, 4,1%; Sem opinião: 23,4%.
- "Quem tem mais hipóteses de vencer eleições a Sócrates?". MFL, 64,1%; PSL, 20%; PPC, 5,8%; PA; 1,6%; NSilva, 0,1%; Outro, 0,3%; Indiferente, 1,5%; Sem opinião, 6,6%.

3. Intercampus, 16 a 20 de Maio. Universo do estudo: totalidade dos eleitores.
Questão:
- "Qual é o melhor candidato à liderança do PSD?". MFL: 43,3%; PSL, 20,2%; PPC, 19,2%; NSilva e PA: menos de 1%. Sobram cerca de 17%, que devem ser não respostas.
Perguntou-se também"qual dos candidatos é o melhor para enfrentar José Sócrates nas legislativas?", mas as notícias não têm as frequências. Diz-se também que MFL é também a preferida quando se olha apenas para o eleitorado do PSD, mas não são reportados resultados.

Alguns comentários:

1. Note-se como todas as sondagens foram feitas a amostras representativas da totalidade do eleitorado, não do "eleitorado PSD". Nalguns casos, reportam-se resultados da sub-amostra do "eleitorado PSD", mas as notícias não explicam como foi medido esse conceito (votantes em 2005, pessoas que declaram actual intenção de voto no PSD, simpatizantes do partido ou outra coisa?). Note-se que isto implica margens de erro amostral muito superiores às declaradas para a totalidade da amostra. A Aximage, bem, reporta-as: 8,1%. A dimensão de uma amostra aleatória para inferências com margens de erro de 8.1% anda pelos 150 inquiridos.

2. Há que ter muito cuidado com as comparações, seja porque os universos sobre os quais se estão a fazer inferências são diferentes (totalidade do eleitorado ou eleitorado PSD) seja porque as questões são distintas. Os resultados da Intercampus, quase um mês depois da sondagem da Eurosondagem, são mais lisonjeiros para MFL e PPC no que respeita à totalidade do eleitorado. mas o resto é muito difícil, para não dizer impossível, de comparar.

3. Uma indicação interessante na sondagem da Aximage: há 64% dos inquiridos que acham que MFL é a melhor para bater Sócrates, mas apenas 41% que acham que é a melhor candidata. Há diferenças no formato da respostas - fechado na primeira pergunta, aberto na segunda - mas isto sugere que MFL beneficia de um eleitor do PSD "estratégico": ela não é a "melhor possível", mas é a melhor num contexto de competição com o PS.

E uma questão para os juristas: isto que se segue é uma sondagem? E se não é, o que é? E independentemente do que seja, como se fizeram exactamente estas contas? A versão online do jornal não é muito informativa a este respeito.

Ferreira Leite e Passos Coelho disputam vitória ombro-a-ombro
Por Sofia Rainho
Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho disputam ombro-a-ombro a liderança do PSD, de acordo com uma contagem de espingardas, distrito a distrito, feita pelo SOL. Passos Coelho parece assim recuperar terreno, depois do enorme favoritismo atribuído à partida a Ferreira Leite. Santana Lopes fica-se, por ora, pelo terceiro lugar

quinta-feira, maio 22, 2008

Politólogo

Substantivo masculino. Estudioso ou especialista de ciências políticas. 

Vem no Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora. A ver se isto ajuda Constança Cunha e Sá a poupar nas aspas. A não ser que, em conjunto com as longas citações, tenha sido para chegar o mais depressa possível ao limite de caracteres. E eu compreendo, oh se compreendo. Há dias em que não apetece nada escrever.

sexta-feira, maio 16, 2008

Referendo Irlanda




Treaty “No” vote remain a threat
In order to better understand where campaigners need to concentrate their efforts we have looked in more detail at the poll results. This more in depth analysis of voting intentions, suggests that those more likely to vote No tend to come from younger 18-44 year old male social demographic groups where, when re-proportioned to exclude Don’t Knows, the No vote wins out with more than half (54%) of voters claiming they will vote No. While those living in Connaught and Ulster regions are also far more likely to state they will vote No. It is these groups perhaps that the Yes campaigners need to target for conversion, and also that the No campaigners need to encourage to turn out to vote. In terms of further education on the issues involved in ratification of the Lisbon Reform Treaty, it appears that middle aged 25-44 female social demographic groups are most likely to state that they don’t know how they will vote, with almost half (49%) claiming this is the case. As such both campaigns will need to target this important group in an aim to win over potential floating voters.

quinta-feira, maio 15, 2008

Shameless plug

Sugiro uma visita ao site do novo Doutoramento em Ciência Política da Universidade de Lisboa. É um verdadeiro 3º ciclo, com uma forte componente curricular, mas que ao mesmo tempo permite a cada aluno que vá desenhando a forma como quer navegar pela Teoria Política, pelo Direito e pela Ciência Política empírica ao longo da sua formação. E confesso que fiquei surpreendido pela forma como foi fácil juntar a Faculdade de Direito, a Faculdade de Letras e o Instituto de Ciências Sociais neste projecto. Acho que vai valer a pena. Vão lá dar uma vista de olhos.

quarta-feira, maio 14, 2008

Jovens e política, 3

Jovens e política, 2

Sugestão de leitura: a página da National Foundation for Educational Research do Reino Unido sobre educação para a cidadania. É ler e comparar com o que faz por cá. Exemplo:

Citizenship at key stages 1 and 2 (Year 3-6). Unit 08: How do rules and laws affect me?

About this unit
In this unit, children learn about rules and how laws are made in a democracy. They develop their appreciation of why we need rules to protect rights and how they help us - at home, at school and in our wider communities. They discuss class and school rules and learn how to make suggestions and changes through the class or school council. They find out about the work of Parliament and MPs in creating and changing laws, and about the importance of discussion and debate. They take part in preparing and presenting arguments on topical issues. Using examples, children reflect on the variety of personal choices they can make and consider rights and responsibilities. They consider coercion and peer influence and explore the consequences of breaking the law. Children reflect on their learning and devise a poster to communicate what they have found out.


Depois não se admirem.

terça-feira, maio 06, 2008

Sobre o estudo do ICS sobre sexualidade

Recordava-me deste post de Eduardo Pitta e acabo de vir (foi só subir as escadas) da apresentação dos resultados do estudo pelo Pedro Moura Ferreira. Há uma clarificação importante a fazer. Em relação àquilo que EP menciona no post, falta um ponto na escala que foi realmente aplicada no inquérito: "nunca erradas". E o mais interessante - confirmando, de resto, o que EP sugere no post - é que as categorias intermédias são residuais: as respostas mais frequentes são "totalmente erradas" e "nunca erradas", sendo que a primeira é a moda (no sentido estatístico de ser a opção mais escolhida, claro). Assim, sobre o uso desta escala, e sobre as suas consequências sobre o "pretenso rigor do estudo" (e sem querer ser "caseiro") acho que a conclusão de EP é algo precipitada, fruto eventualmente da notícia que lhe serviu de fonte.

Outro ponto relevante: quer em relação à homossexualidade feminina quer masculina, as mulheres escolhem a opção "nunca erradas" mais frequentemente que os homens. O oposto sucede, por exemplo, em relação à infidelidade. E entre os mais jovens, a escolha do "nunca erradas" é mais frequente em ambos os casos. Tudo previsível.

segunda-feira, maio 05, 2008

Leituras e limites das sondagens

Algumas coisas com as quais tendo a concordar:

Sondagens & afins, no Origem das Espécies.

Sondagens & sondagens, no Tempo das Cerejas.

Em jeito de reciprocidade, no Lugares comuns.

Estudos de Mercado e Profecias Auto-Realizáveis, no Dissonância Cognitiva.

Apesar de tudo e do pessimismo de Vítor Dias, a verdade é que não me recordo de, antes da blogosfera, haver sítios onde se discutissem publicamente estes assuntos. Menos mal.

segunda-feira, abril 28, 2008

Fundação Vox Populi

Luis Queirós, da Marktest, e a sua mulher, Paula Queirós, criaram uma fundação sem fins lucrativos, chamada Vox Populi, com objectivos que "visam a prossecução e difusão das boas práticas aplicáveis à exegese dos estudos de opinião, ao desenvolvimento de investigação científica, académica e de cidadania, vocacionado para o estudo das comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo, na perspectiva de incentivar e promover a defesa da sustentabilidade e do progresso social e ambiental."

É uma boa notícia.

Jovens e política

Já não é novidade para ninguém que o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Católica, que dirijo, fez o estudo mencionado pelo Presidente no discurso do 25 de Abril. O estudo já foi muito comentado e não serei eu nem o Jesus Sanz, co-autores, que o vamos comentar para já. Os dados são passíveis de muitos tratamentos mais exaustivos e sofisticados, que tencionamos fazer. E estamos disponíveis para todos os esclarecimentos. Mas o que tínhamos para dizer para já, e com o tempo disponível, está lá, e agora cabe a outros dizerem o que muito bem entenderem.

No entanto, fica aqui de novo a ligação ao documento completo. Só faço isto para notar que muito do que tenho lido sobre o tema sugere que, quem comentou, não leu. Ou se leu, interpretou mais aquilo que já pensava sobre o assunto do que aquilo que o estudo realmente sugere.

quarta-feira, abril 23, 2008

Pennsylvania,3


Mas apesar disso, ainda não podem vir cortar. Eu aviso quando chegar a altura.

Pennsylvania, 2

A propósito da campanha Clinton na penúltima NYRB. Lembrei-me muito de mim e do meu dedinho:

The Clinton campaign's false assumption—based on a 350-page, state-by-state study in the summer of 2007 by key strategist Mark Penn—that Clinton's victory was "inevitable" led to a series of mistakes: (1) presenting herself as the "inevitable" nominee; (2) prematurely running a general election campaign; (3) assuming that the race would be over on February 5—Super Tuesday; and (4) believing that a number of small states that held caucuses could be skipped. And if Penn's strategy didn't work there was no Plan B. It's never a good idea to have a pollster in an important policy position in a campaign, since he or she can design the polling to get the answers he or she wants, as some believed Penn had done in the Clinton White House.

Pennsylvania

As sondagens portaram-se geralmente bem. Clinton tem mais um balão de oxigénio. A possibilidade de ainda vir a chegar a uma maioria dos votos é algo distante, mas existe. Continua tudo em aberto. Já o bem ou mal que isto faz à candidatura democrata, seja ela qual for, é outra conversa.

Outlier: só uma ideia

A propósito da "meada de calculismos" no PSD de que fala Rui Ramos hoje no Público, há um tema sobre o qual, no dia de hoje, e nos dias de hoje, seria bom voltarmos a ouvir as opiniões da candidata Manuela Ferreira Leite:

Ferreira Leite desaconselha temas da regionalização e referendo europeu
"Outra questão que não deve ser abordada pelos sociais-democratas, acrescentou Manuela Ferreira Leite, é o referendo ao Tratado da união Europeia. 'A questão devia ser deixada ao PS. Qual o interesse do PSD em ter uma campanha em que andará de braço dado com o PS? É tudo o que menos nos interessa', referiu.


sexta-feira, abril 18, 2008

As sondagens e o PSD

É impressionante o papel que as sondagens desempenham na vida do PSD. É certo que é difícil dizer até que ponto a derrota de Mendes ou a demissão de Menezes se devem aos maus resultados que um e outro tinham nas sondagens que antecederam imediatamente os dois eventos: afinal, quer os resultados dessas sondagens quer a derrota/demissão são ambos consequência de coisas mais profundas e menos visíveis. Mas é impossível não acreditar nalgum papel independente dos resultados das sondagens no processo: não só elas são constantemente mencionadas pelos agentes como arma de arremesso (até António Borges falava ontem das ditas) mas os acontecimentos sucedem-se em aparente ligação directa à divulgação dos resultados. O PSD é também o partido, de longe, que mais se agita publicamente com as sondagens, como este exemplo ilustra bem, para já não falar das obsessões permanentes com a comunicação social e a sua "independência". Para Durão Barroso, poucas coisas foram tão nefastas à sua consolidação como líder do partido como as sondagens que davam a vitória ao PS de Guterres, mesmo depois de 1999.

O que talvez diga alguma coisa sobre a natureza do partido. O PSD tem muitas semelhanças com o PS, e não as quero desvalorizar. Mas enquanto o PS tem apesar de tudo, facções internas divididas por conflitos em cuja base ainda se vislumbram fundamentos ideológicos, o PSD transformou-se em nada mais do que uma máquina para (tentar) ganhar eleições e converter votos em lugares políticos. Tudo, absolutamente tudo, depende da capacidade da liderança do momento para fazer esta máquina funcionar. É fascinante, e também algo deprimente. E note-se: dá à comunicação social - para já não falar dos institutos de sondagens - um poder sobre a vida do partido que, enfim, é capaz de ir um bocado para além do saudável.

PSD

Há uns dias, recebi um e-mail de uma jornalista que me pedia um depoimento em resposta à pergunta "O PSD pode desaparecer?". Estava fora do país e cheio de trabalho, entre aulas e conferências, e ao ler o e-mail de relance achei a pergunta algo despropositada e não lhe respondi (sorry). Mas pensando melhor...

quinta-feira, abril 17, 2008

Berlusconi

Tem-se falado muito por aí nos blogues sobre a forma como a classe jornalística portuguesa (essa corja de esquerdistas radicais) tem decidido ignorar, minimizar ou relativizar a vitória de Berlusconi em Itália. Eu até percebo a ideia. Mas para além de me fazer lembrar um bocado a ladainha do Partido Republicano sobre o media bias liberal generalizado nos Estados Unidos - uma "verdade" auto-evidente que tende a ser desmentida sempre que o assunto é abordado com um mínimo de seriedade - receio que leve a que se ignorem os óptimos exemplos. Com algum atraso, remeto para o artigo da passada 3ª feira de Jorge Almeida Fernandes. E se o faço é também para aproveitar para dizer que não me recordo de ter alguma vez lido um artigo de Jorge Almeida Fernandes que não fosse inteligente, ilustrado e objectivo. Caso raríssimo entre aqueles que escrevem nos jornais com regularidade, incluindo, receio bem, este que vos escreve estas linhas.

segunda-feira, abril 14, 2008

Itália 2

Primeiros resultados das sondagens à boca das urnas: 2 pontos de vantagem na câmara baixa, 3 no Senado, em ambos os casos para o Pdl de Berlusconi. Menor vantagem, portanto, do que aquilo que as sondagens de há duas semanas atrás sugeriam.

19.00: mas algumas horas depois (estive numa longa reunião), parece afinal que a vantagem anda pelos 4 pontos para o Pdl, 8 pontos para a coligação. Como sucedeu há dois anos, as sondagens à boca das urnas em Itália não são para ser levadas demasiado a sério...

Itália

Daqui a 30 minutos começam a cair os resultados das sondagens à boca das urnas. As últimas sondagens - divulgadas a 15 dias de distância - davam cerca de 5 pontos de vantagem para Berlusconi. Importa no entanto recordar que, em 2006, a vantagem dada pelas sondagens à Unione sobrestimou a que veio a ser a vantagem real. Há um paper na net sobre o assunto. O que significa uma de três coisas:

- as sondagens italianas sobrestimam o voto do vencedor;
- as sondagens italianas sobrestimam o voto da esquerda;
- as eleições de 2006 não servem para fazer inferências a este respeito.

Ficamos na mesma, portanto. Mas já falta pouco.

sexta-feira, abril 11, 2008

Um momento para ponderarmos possíveis dúvidas sobre as teorias do eleitor racional

As sondagens, 2

Deixo aqui também as mais recentes sondagens de cada instituto sobre intenções de voto, assinalando apenas as "estimativas de resultados eleitorais", ou seja, a forma como cada instituto entendeu apresentar os seus resultados de forma comparável com os resultados de eleições. Excluo a Aximage, apenas porque os resultados tais como os conheço não permitem distinguir indecisos e votos noutros partidos, brancos ou nulos.




Passou mais de um mês entre a sondagem do CESOP e a da Eurosondagem e há diferenças importantes quer na inquirição quer na amostragem e posteriores ponderações dos resultados. Mas a ordem dos partidos é igual nas três e as mensagens genéricas também: o PS lidera claramente mas está aquém da maioria absoluta; o PSD não passa dos trinta e muito poucos; os partidos à esquerda do PS somam perto ou acima dos 20%; o CDS-PP é o 5º partido.

As sondagens, 1

Com as mais recentes sondagens Marktest e Eurosondagem, podemos actualizar os gráficos habituais. Algumas alterações:

1. Os resultados de Mendes e Menezes num mesmo gráfico, assinalando o momento da mudança;
2. Os resultados de Sampaio e Cavaco num mesmo gráfico, assinalando o momento da mudança;
3. O saldo de popularidade pondera agora as não respostas, da seguinte forma:
(%Positivas-%Negativas)*(1-Não respostas ou indiferentes/100).








É fácil verificar que:

1. Depois de comparativamente baixos valores iniciais, Cavaco converge em valores elevados, semelhantes aos de Sampaio em final de mandato.
2. Discrepâncias Eurosondagem e Marktest para o caso de Sócrates; independentemente disso, não parece ainda possível dizer que a tendência é outra que não a de descida, iniciada após divulgação do caso "Independente";
3. Eleição de Menezes interrompeu tendência de descida para líder do PSD, mas as últimas sondagens Marktest sugerem nova descida, colocando hoje Menezes no ponto onde Mendes estava no 1º semestre de 2007.

quarta-feira, abril 02, 2008

Divertimento de alta qualidade

Aqui.
(Só uma correcção, irrelevante para o caso: o grupo que representa 50% da população é o que tem conhecimentos de economia e de matemática abaixo da mediana. Sou constitucionalmente obrigado a assinalar estas coisas.)

The "bumbling nincompoop" versus "the killjoy Stalinist"

Boris tem 47%, contra 37% de Ken Livingstone. Mr. Livinsgtone está desgostoso com as sondagens. Como não: 1/5 dos que se identificam com os trabalhistas tencionam votar Boris. Ken ainda não percebeu que, para um cargo sem poder, o melhor é arranjar um tipo que dê para distrair.

segunda-feira, março 24, 2008

Outlier: O Museu Broad

Com as leituras atrasadas, só agora cheguei a um artigo da NYRB sobre um novo museu integrado no Los Angeles County Museum of Art (LACMA), o Broad Contemporary Art Museum. "Broad" (lê-se como "road") é o nome de um senhor chamado Eli Broad, um bilionário americano que fez fortuna com negócios imobiliários e com forte pendor para a filantropia. O senhor Broad e a sua mulher Edythe têm uma colecção de arte contemporânea muito boa (ou pelo menos com coisas muito caras de nomes muito conhecidos), sendo que a maior parte das peças pertence a uma fundação com o seu nome, cuja missão consiste em emprestar arte contemporânea a museus públicos. So far so good.

Sucede que o senhor Broad achou que seria ainda melhor se tivesse um local onde pudesse mostrar em permanência muitas das suas valiosas peças. Deu então 56 milhões de dólares (cerca de 1% da sua fortuna) ao LACMA, instituição a cujo board of directors já pertencia, para construir um novo museu, com o seu nome, desenhado por um arquitecto por si escolhido (Renzo Piano). Entretanto, a directora do LACMA foi ejectada da instituição, ao que parece devido a conflitos com...Broad. A coisa construiu-se, e Broad comprometeu-se a gastar mais 10 milhões em aquisições.

Contudo, um mês antes da inauguração, o senhor Broad anunciou que, afinal, em vez de doar as obras ao LACMA, vai apenas emprestá-las, ao abrigo do modelo genérico que já tinha adoptado para a sua Fundação, sendo que todos os custos de operação são a cargo do LACMA, ou seja, dos contribuintes californianos. No NYRB, a coisa comenta-se assim:

The Los Angeles County Museum of Art receives substantial public funds and many of its staff members are civil service employees of Los Angeles County. Thus the parties who acceded to Broad's de facto privatization of a big chunk of LACMA—the cultural equivalent of a leveraged buyout, or taking a public company private—have done a grave disservice to the taxpayers of the county, who, whether they like it or not, will be footing the bill for much of Broad's monument to himself. It has long been customary for benefactors rich enough to have a museum named after them to provide an endowment for the upkeep of the building in perpetuity. The annual expense of such unglamorous necessities as utilities, cleaning, maintenance, guards, liability insurance, and other carrying charges is so daunting that many collectors who fantasized about founding a private museum have fallen into the arms of established institutions once they realized what autonomy would cost them. Strange as it may seem to those unfamiliar with the ways of American museums, art world veterans agree that Eli Broad pulled off an enviable deal for approximately $60 million.

Ao que parece, o edifício está muitos furos abaixo de anteriores museus de Renzo Piano. E a opinião do NYT sobre a exposição é a que se pode ler abaixo:

The works are intended to reflect the Broads’ penchant for collecting in depth. But the accumulation reads foremost as a display of pricey trophies, greatest hits of the present and recent past.

Enfim, coisas que acontecem muito longe daqui.

Obama e o Pastor, 2

Começa a formar-se um consenso nos analistas sobre uma mudança na campanha, como consequência do caso Wright. Leiam-se os títulos ou passagens dos artigos (e também os próprios, de preferência):


So Much for the "Post-Racial" Candidate

Wright Has Altered the Dem Race

Ou até a descoberta de que:

Racial Problems Transcend Wright

E etc. Tudo isto, claro, coexiste com muitas outras análises que sugerem a impossibilidade de uma vitória de Clinton:

Her own campaign acknowledges there is no way that she will finish ahead in pledged delegates. That means the only way she wins is if Democratic superdelegates are ready to risk a backlash of historic proportions from the party’s most reliable constituency. Unless Clinton is able to at least win the primary popular vote — which also would take nothing less than an electoral miracle — and use that achievement to pressure superdelegates, she has only one scenario for victory. An African-American opponent and his backers would be told that, even though he won the contest with voters, the prize is going to someone else. People who think that scenario is even remotely likely are living on another planet.

O que dizem as sondagens? Várias coisas importantes:

1. Nas preferências nacionais dos Democratas, Obama ainda lidera, mas Clinton recupera nos últimos dias.

2. O cenário para as próximas primárias parece fundamentalmente inalterado. Clinton é favorita na Pennsylvania e em West Virginia, enquanto Obama é favorito na Carolina do Norte. Mas aqui - muito importante - a coisa já esteve menos tremida (vejam as sondagens mais recentes) e falta muito tempo.

3. Independentemente disto, como se sabe, ninguém terá a maioria dos delegados. São os superdelegados que decidem. Quem vai ter a maioria dos delegados eleitos (Obama, certamente) e/ou a maioria dos votos (Obama ou Clinton, a grande questão) pode ser o argumento.

4. E a elegibilidade de Obama sofreu, nos últimos dias, um abalo. Nas sondagens nacionais, Clinton bate McCain (por uma unha negra) mas McCain bate Obama (por uma unha negra também).

Mesmo se for verdade que Obama já não pode perder a nomeação Democrata (um grande "se"), então também é verdade que, para McCain e os Republicanos, o aparecimento de Wright foi a melhor coisa que lhes poderia ter acontecido. Mas claro, a ideia de que este candidato poderia ser "pós-racial", particularmente nos estados do Sul, já tinha sido desmontada há algum tempo (ver ponto 1).


quarta-feira, março 19, 2008

Cinco anos amanhã


Fonte: Gallup





Obama e o Pastor

A história é conhecida: divulgadas as declarações do padre da paróquia onde Obama pertence, Obama distanciou-se do conteúdo, mas não da personagem. Em que ficámos? A CBS tem uma sondagem. A maioria diz não ter mudado de opinião sobre Obama. Entre os que mudaram, a mudança é negativa, mas é difícil dizer que isto produz efeitos relevantes. Entre os Democratas, ainda fez menos diferença.

E no entanto:

A tendência já vinha de trás. Mas a sondagem Rasmussen mais recente tem más notícias para Obama.

May Boris be With You

E em Maio, a Câmara de Londres. Boris Johnson, MP, partiu de trás mas está neste momento à frente nas sondagens, em parte, sem dúvida, devido ao apoio dos motociclistas e aos feridos da Guerra do Iraque.Quatro anos de divertimento garantido, é o que é.

Itália

A 13 de Abril haverá eleições legislativas em Itália, dois anos depois das últimas, ganhas por uma unha negra pela Unione liderada por Prodi. Mas a coligação mal resistiu em 2007 a uma votação sobre o envio de mais tropas para o Afeganistão, um mero sintoma, de resto, de problemas muito mais profundos, que se confirmaram na derrota na moção de confiança em Janeiro passado.

Desta vez é Berlusconi contra Walter Veltroni, líder do Partido Democrático. Veltroni quebrou a coligação e reconstituiu um outra, em versão reduzida, desta vez com os Radicais e a o partido de Di Pietro. Os comunistas e os verdes fizeram a sua própria coligação, La Sinistra - L'Arcobaleno (é bonito). Berlusconi lidera um partido de designação não menos encantadora: Popolo delle Libertá. Nem vou fazer de conta que percebo um décimo desta confusão e do que está por detrás dela.

Mas há sondagens, todas depositadas aqui. Há 16 sondagens até agora neste mês de Março. A soma das percentagens do PD (Veltroni)+IV (Di Pietro) anda, em média das sondagens realizadas em Março, pelos 36,7%, enquanto a média da soma das percentagens do PdL, Liga Norte e MPA (a coligação Berlusconi) anda pelos 43,9%. Tudo muito estável. No Economist, sofre-se:

The Economist Intelligence Unit now expects Silvio Berlusconi to be Italy's next prime minister. His coalition is still largely intact, which means he is likely to win the bonus seats under the existing electoral laws. His government is likely to be at least as unstable and ineffective as his previous one (2001-06), which did little to reform the economy.

Pois.

segunda-feira, março 10, 2008

Espanha

Um vírus (não informático) ou outro bicharoco qualquer que atacou metade da família (a minha metade) nos últimos dias impediu-me de dar a justa atenção ao caso das eleições espanholas. Constato, contudo, que do ponto de vista dos resultados, acabou por não suceder nada que obrigasse a uma revisão disto. E que do ponto de vista da sua interpretação política, não aconteceu nada que me leve a rever isto. O PP não parece ter perdido tanto como merecia, ou tanto como precisava, para se poder renovar e abrir espaço para figuras como esta. Mas vamos ver os próximos dias: pode ser que me engane.

P.S.- Nos órgãos de comunicação social portugueses, a precipitação habitual quando se trata de interpretar as sondagens estrangeiras. De que parlamento com menos de 350 deputados estavam a falar as pessoas que escreveram isto ou isto?

quarta-feira, março 05, 2008

Famílias

Das duas uma: ou depois de quatro anos a escrever nos jornais ainda ninguém faz a mais pequena ideia sobre qual é a minha"família" política; ou esse é um assunto que não interessa a ninguém. Inclino-me para a segunda hipótese.

Clinton

O meu dedinho, que se bem se recordam tem em risco a sua ligação à minha mão à conta de uma previsão apressada, respirou de alívio, pelo menos para já. Clinton ganhou TX, OH e RI, e tem apenas menos 300.000 votos e 130 delegados que Obama. Tem-se dito que os superdelegados - que, já se sabe, vão ser decisivos -votarão com a maioria. Certo. Mas a maioria de quê: votos ou delegados eleitos?