terça-feira, novembro 18, 2008

Project Implicit

O Project Implicit é um site contém uma série de inquéritos online que procuram detectar enviesamentos inconscientes através de associações implícitas. Há testes sobre atitudes em relação a homossexuais, obesos, preferências por ciências humanas ou naturais, tons de pele, países e idades. Há versões dos inquéritos em português.

Não juro pela validade científica desta coisa. Cheguei a isto, precisamente, através de um artigo no NYT onde se discute o assunto (via Social Science Statistics Blog). Mas por outro lado, não tenho dúvida de que muitas das perguntas usadas em questionários convencionais sobre estas coisas estão completamente contaminados pela normatividade social, por aquilo que os respondentes acham que os inquiridores querem ouvir (ou mesmo por aquilo que nós queremos ouvir sobre nós próprios). Não é impossível que testes deste género ajudem a contornar este problema.

Experimentem.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Ainda a raça e as eleições americanas.

Preparava-me para não voltar ao assunto da raça e o voto nas eleições americanas enquanto não houvesse mais dados e análises possíveis. O American National Election Study deverá estar no campo e daqui a meses haverá coisas interessantes para dizer. E é possível que o Pew tenha coisas sobre o tema em breve. Contudo, numa questão lateral à que me ocupou aqui, mas centralíssima em si mesma, vale muito a pena ler este texto do LA-C: Uma Lança na América.

Bibliografia para os dias que correm.





Mais aqui. Kenneth Peterson, autor de vários destes livros, tem um site muito interessante sobre este tema. Foi lá que encontrei o seguinte texto. Atenção ao mito nº 5.

THE TEN MYTHS (AND TRUTHS) OF TEACHER EVALUATION:

Myth 1: The central purpose of teacher evaluation is to improve teachers and teaching. The truth is that there is scarce research to suggest that evaluation causes teacher growth. Rather, teachers will improve if you give them enough TIME to work on good ideas: uninterrupted time with students, time to plan and implement what is already known, and sufficient discretionary time to be full human beings. There are other very good reasons to evaluate: to document current good practice, reassure teachers of a needed and effective job, reassure audiences, identify good teaching practices for emulation, and prevent bad evaluation practices.

Myth 2: Better teacher evaluation is just a better rating instrument or framework of teacher behaviors. The truth is that educators do not agree on what should be included in any single catalog of teacher performances or competencies, none could encompass all of what the open-ended nature of teaching should have, teachers are effective using different sets of small numbers of behaviors, and teachers work in varied contexts which call for different competency sets. Comprehensive frameworks, descriptions, systems analysis, and lists of duties (e.g., Danielson, 1996; Heath & Nelson, 1974; Scriven, 1988) help build understanding of good teaching, but they don't cause good evaluation.

Myth 3: Excellent teaching is accomplished by strong performance of 22 (or 27 or 60) components of teaching. Rather, a good teacher performs three or four components extremely well, adequately performs some others, and (to be honest) poorly or spottily performs many other things that a teacher is "supposed" to do. Doing a few things well at the moment carries the entire performances of teaching and learning; the other possible performances simply don't matter at the given time in the real human world of a classroom. It is a misleading strategy to try to assess every possible component, duty, competency, or element of a teacher performance at a point in time in order to understand the overall quality of that teaching.

Myth 4: Specific a priori goals (unique to individual or from a general framework) are needed to evaluate a teacher. Rather, good teaching can be documented after the teaching has been done by highlighting the actual specific outcomes, performances, or preparations that played a role in that specific teacher performance.

Myth 5: A uniform system of teacher evaluation is essential: all teachers should be evaluated the same way. The reality is that teachers are good for different constellations of reasons. They work in quite different settings, with different kinds of demands and criteria for quality. Also, we just cannot get all the information we might want for each instance of teacher evaluation. Fairness demands that all teachers have an equal opportunity to document their quality in the ways most appropriate to them.

Myth 6: Pupil achievement data cannot be used in teacher evaluation, or they can be used for all teachers. Rather, we can get good pupil achievement data for some but not all teachers in a district; and the teacher evaluation system should reflect the state-of-the-art of data availability.

Myth 7: Teacher quality can be objectively measured and known by using a sufficiently accurate checklist and rating scheme, or by comparing pupil achievement test scores. Rather, all evaluation is subjective. However, there is good subjectivity and bad subjectivity. Good subjectivity is (a) based on the best objective evidence available, (b) controlled for individual bias, (c) involves the interested audiences, and (d) employs some public logic.

Myth 8: Teacher Evaluation and Staff Development are inextricably bound together. The reality is that these are two important, but independent, programs.

Myth 9: The principal is the only and best evaluator. Rather, others can provide information or opinion, and should be involved. Peer teachers, clients, and comparative norms all play a role.

Myth 10: Bad teachers cannot be dismissed. The reality is that action on unsatisfactory teachers is a principal duty which is widely expected by lay public, parents, teachers, the legal system, and some school districts. It is difficult (and expensive), and should be, to badly dismiss a deficient teacher or to dismiss a good teacher. However, principals can effectively team with other district personnel to act on the small number of deficient teachers.
P.S. - Como é óbvio, não percebo nada deste assunto. Mas alguns minutos de pesquisa mostram que há, pelos vistos, muito para tentar perceber.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Voto preferencial

O estudo que André Freire, Manuel Meirinho e Diogo Moreira fizeram a convite do PS para fundamentar uma nova proposta de reforma do sistema eleitoral já foi publicado. Ainda não acabei a leitura e não vou fazer juízos, porque seriam sempre precipitados. Mas queria assinalar um dos aspectos mais inovadores: o abandono da ideia dos círculos uninominais e a introdução do voto preferencial a aplicar aos círculos de base distrital/regional. Na proposta, o eleitor poderá ou votar num partido ou num dos candidatos da lista apresentada pelo partido. Em ambos os casos, o voto conta como voto no partido e o número de deputados a atribuir por partido são determinados pelo método D'Hondt. Mas a expressão da preferência num candidato pode afectar que candidatos de cada partido são eleitos. Há algumas variações previstas: os candidatos aparecerem no boletim ordenados por vontade dos partidos ou não; a expressão de uma opção por um candidato ser obrigatória ou não; e outras. Mas a inovação é esta: o voto preferencial passa a ser possível (ou torna-se mesmo, em alternativa, obrigatório).

Como disse, não faço para já juízos sobre a bondade da proposta. Mas assinalo uma coincidência interessante: a introdução do voto preferencial também está em cima da mesa para as eleições europeias. Podem descarregar aqui a versão portuguesa de um projecto de relatório da Comissão de Assuntos Constitucionais do PE onde se prevê a eliminação das listas fechadas nas eleições europeias. A maneira como os deputados portugueses do PE e as lideranças partidárias vão reagir a isto vai ser um primeiro ensaio sobre as possibilidades do voto preferencial nas eleições para a AR.

Teorias sobre as eleições americanas

Um apanhado geral sobre como se portaram, por Mark Schmitt, na Prospect.

What's wrong with the European Union.

Ontem estive no Parlamento Europeu em Bruxelas, numa conferência. No edifício Paul- Henri Spaak, o elevador tem um botão para o andar 5 1/2. Cinco e meio, sim. Pensei que isto só acontecia em filmes.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Racismos

Segundo Alberto Gonçalves, "Obama concentrou na quase totalidade o voto preto, avalanche que nem a tradicional predilecção das minorias pelo partido democrático justifica. Com a eleição de Obama, insusceptível de repetição noutra democracia, o racismo dos brancos americanos tornou-se, pelo menos oficialmente, uma memória triste. O racismo dos pretos americanos é, se calhar, uma questão actual. A que não convém aludir."

Suponho que isto quer dizer que o facto de John Kerry ter captado "apenas" 88% do voto dos negros que participaram na eleição em 2004 e Obama ter captado 95% do mesmo voto em 2008 deverá ser visto como expressão do "racismo dos pretos americanos". Nem imagino como Alberto Gonçalves interpretará o facto de, em 2008, 62% do voto asiático ter ido para Obama, contra 56% do mesmo voto para Kerry em 2004. Ou o facto de 67% do voto hispânico ter ido para Obama, contra apenas 53% do mesmo voto ter ido para Kerry em 2004. Só pode ser, claro, o anti-branquismo dos castanhos e dos amarelos. Realmente, sobre questões de "raça" e voto, não tem sido fácil dar uma para a caixa.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Participação eleitoral

Em O Tempo das Cerejas, discute-se qual terá sido realmente a participação/abstenção eleitoral nas eleições americanas. O problema é complicado, e o Number's Guy no WSJ.com discute-o hoje.

Curtis Gans, do Committee for the Study of the American Electorate, explica por que é tão complicado e por que razão as estimativas de participação são tão diferentes (tão maiores) do que o número de votos contados até ao momento (cerca de 124 milhões, esta manhã):

"This is complicated this year by the enormous number of ballots which were cast before election day. Some states are better equipped than others to count those ballots in a timely fashion. But California, for instance, often does not fully complete its counting of a massive number of absentee ballots until three weeks after the election. Oregon and Washington can take up to two weeks. None of those states are battleground states but both Oregon and Washington have close statewide contests--Oregon for Senate, Washington for governor. In some of the battleground states, complete or even nearly complete may not be available tonight. Any reporting that I and CSAE do will make note of the states like the western ones for which the early tallies are not indicative of the actual turnout when counting has been completed."

quinta-feira, novembro 06, 2008

Mapas

Num comentário, pedem-se mapas não por estados mas sim por condados. Aqui, não há nada que não se faça pelos clientes:

Mais (e ainda melhores) mapas aqui.

Apanhado geral

1. As sondagens estiveram bem. Os agregadores de sondagens ainda melhor. As previsões com modelos quantitativos também. Nate Silver é o maior.

2. Isto não implica necessariamente que não tenha havido Bradley effect. Mas implica que, se houve, foi neutralizado por outros factores.

3. A boa prestação dos modelos quantitativos, que, em geral, previam este resultado há muitos meses, também não implica que a campanha tenha sido irrelevante. Mas implica que os fundamentals são o primeiro sítio para onde olhar e que as flutuações de curto-prazo nas sondagens devem ser descontadas.

4. Essa prestação também não implica necessariamente que a raça tenha sido irrelevante para o voto. Mas em conjunto com a prestação de Obama junto dos eleitores brancos (que não foi nada má, em comparação com Kerry, por exemplo), põe o fardo da prova do outro lado.

5. A participação eleitoral voltou a aumentar, pela terceira eleição consecutiva. Quando se lembrarem de dizer que os Estados Unidos são um país de elevada abstenção, mordam a língua: por estes dias, Portugal não é muito diferente.

6. A participação dos jovens aumentou, mas pouco. O que aumentou mais foi a participação de jovens que votou em Obama. Entre os que têm menos de 30 anos, 66% votou em Obama. Há pelos menos 30 anos que não se via nada assim. O legado para o futuro pode ser importante.

7. Obama dominou entre as minorias étnicas, entre os mais pobres, entre os menos instruídos, mas também entre os mais instruídos. E esteve a par de McCain entre os mais ricos. Isto mostra fissuras nas bases sociais de apoio tradicionais dos Republicanos. E apesar de quer McCain quer Obama terem conseguido mobilizar bem aqueles que se identificam com, respectivamente, os partidos Republicano e Democrata, há cada vez menos "Republicanos", e os "Republicanos" estiveram mais desmobilizados nesta eleição. Curto prazo, ou legado para o futuro? A ver.

8. O declínio da imagem de McCain nas sondagens coincide com a crise financeira. Mas a crise financeira não teve grande impacto nas sondagens de intenções de voto propriamente ditas. Não vai ser fácil perceber isto, e muito menos tendo em conta que tudo isto também coincide com os debates e com o desencanto com Sarah Palin.

9. Não há sinais claros de que o mapa dos "estados vermelhos" e "estados azuis" tenha sido redesenhado. Pelo contário: as perdas e ganhos são uniformes. Simon Jackman já tinha avisado. A tese do grande "realinhamento" sofre aqui um bocadinho (talvez um bocadão).

quarta-feira, novembro 05, 2008

Para bushistas, clintonistas e palinistas, with love

Essas coisas do "saber perder" ou do "fair play" são tretas - como se pode ver por aqui ou por aqui - e só têm graça nos livros do P. G. Wodehouse. E o "saber ganhar" também é um atributo sobrevalorizado:

 "Nesta hora, guardo um pensamento para os adversários lusos de Barack Obama. Não os apoiantes de McCain (de que, aliás, só consegui recensear um), mas os bushistas, da primeira à última hora, e os clintonistas; a arrogância e o desdém com que trataram o candidato democrata e os seus apoiantes merecem ser recordados. Obama e os seus seguidores foram quase sempre tratados como pouco mais do que idiotas, patetas e crédulos. Os patamares de infantilismo argumentativo atingidos neste percurso conheceram exemplos notáveis – e que vão perdurar."

"No calor da noite, esqueci-me de saudar os bloggers portugueses que acolheram a designação de Sarah Palin para candidata a VP como uma escolha «brilhante» de John McCain. É esta argúcia que lhes tem valido darem hoje opinião em tudo quanto é jornal, estação de rádio ou canal de televisão portugueses. É o chamado «circo mediático». Embora eu não esteja certo de que esta expressão contenha alguma metáfora."

Aqui e aqui. Vale mesmo a pena ler tudo.

Para digerir lentamente

A página da CNN sobre as sondagens à boca das urnas. O mais interessante de tudo? A tabela sobre rendimento e voto, nomeadamente a irrelevância das diferenças entre McCain e Obama nos escalões mais altos.

P.S.- Andrew Gelman já tem uma primeira análise, assim do como do desempenho das sondagens pré-eleitorais. No Bradley effect, thank you very much.

O fim da Guerra Civil

And so it came to pass that on Nov. 4, 2008, shortly after 10 p.m. Eastern time, the American Civil War ended, as a black man — Barack Hussein Obama — won enough electoral votes to become president of the United States.

Finishing our Work, por Thomas L. Friedman.

McCain

Belo discurso.

O meu estado portou-se bem

Go Buckeyes!

Vitória

terça-feira, novembro 04, 2008

Exit polls

(Corrigido)
No FiveThirtyEight, 10 razões para ignorar as sondagens à boca das urnas: diz-se o que eu tinha dito aqui, e muito mais.

Pergunta-se num comentário:
"A minha percepção é que as sondagens à boca da urna em Portugal tem sido mais precisas que as sondagens pré-eleitorais, embora todos nos lembremos de um ou dois casos em que falharam, como na segunda eleição de Guterres em que pelo menos uma delas previa a maioria absoluta. Há evidência que favoreçam a fiabilidade de um tipo de sondagens sobre as outras? A falta de credibilidade atribuída por este e outros blogues de sondagens (como o pollster) terá a ver com diferenças metodológicas?"

Algumas respostas em cima do joelho:
1. A percepção é correcta. Em abstracto, não pode deixar de ser assim. Uma sondagem à boca das urnas usa uma amostra muito maior que uma sondagem pré-eleitoral e mede comportamentos de votantes, não intenções de eventuais votantes.
2. O problema dos Estados Unidos começa por ser, claro, de exigência e escala. O que se pede como elemento informativo é uma boa estimativa do voto em cada um dos 50 estados (ou, no mínimo, dos 15 ou 16 estados mais competitivos), e não uma boa estimativa do voto popular no conjunto do país, ao contrário do que sucede em Portugal. Ainda por cima, quer-se sempre saber se há alguém que tenha mais um voto que qualquer um dos adversários em cada estado, e não se, digamos, o PS tem mais ou menos à volta de 43%. É muito difícil, e os recursos envolvidos são tão astronómicos que, nos EUA, há uma única sondagem à boca das urnas (e não três, como em Portugal).
3. Depois, há toda uma série de "trapalhadas" que nós podemos pura e simplesmente ignorar: early voting, antes de mais, assim como durações diferentes de abertura de locais de voto, regras diferentes de estado para estado, centenas de eleições diferentes a ocorrerem ao mesmo tempo (não se esqueçam que, em cada condado, se está a votar para muitas outras coisas para além do Presidente e diferentes umas das outras), etc, etc, etc.
4. Depois, o problema de recusa sistemática (ou de participação entusiástica) de um determinado tipo de eleitor ou outro, sendo também real em Portugal, parece ser, pelo que consigo perceber, muito menos grave (por enquanto).

Estou menos convencido com o ponto 1 dos argumentos de Nate Silver, ligado à amostragem. Claro que cluster sampling (onde só os indivíduos nos locais de voto seleccionados têm probabilidade de serem seleccionados) tem uma margem de erro maior que uma sondagem puramente aleatória (onde todos os eleitores têm a mesma probabilidade de serem seleccionados). Em rigor é mesmo assim e é por isso que os intervalos que cá se dão nas estimativas no fecho das urnas são maiores do que aquilo que seriam se as amostras fossem puramente aleatórias. Mas na prática, que sondagem acaba por ter uma amostra verdadeiramente aleatória? Nenhuma.

Duas leituras aconselhadas às luminárias da opinião nacional que acham que quem ganhar hoje "não vai fazer grande diferença"

The Plum Book (United States Government Policy and Supporting Positions): 2004 Edition, com as mais de de 7.000 posições no governo federal nomeadas pelo Presidente dos Estados Unidos.

A página da Casa Branca sobre os juízes dos tribunais federais nomeados por George W. Bush.

Haveria mais coisas para ler, mas eu sei que vocês são pessoas muito ocupadas.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Milagres

A convergência miraculosa nos resultados das últimas sondagens antes das eleições, já antes assinalada neste blogue aqui ou aqui a propósito das eleições inglesas ou portuguesas, volta a acontecer, desta vez nos Estados Unidos. Nate Silver não está com meias medidas:

"Has the race settled down some? Perhaps in some proverbial sense it has. But I also think that pollsters peek at one another's results, and that there's something of a herd mentality not to be the one who falls out of line. Remember, folks, it's these final sets of national numbers that will go down on the record for all time's sake."

Evidentemente.

Amanhã.

Não me passa pela cabeça tentar dizer-vos aquilo que outros podem dizer e explicar muito melhor do que eu. De resto, uma das coisas mais espantosas desta eleição - que já se antevia em eleições passadas - é a qualidade e sofisticação das análises disponíveis sobre as eleições americanas. Desde o Pollster - cuja encarnação anterior, o Mistery Pollster, é uma das razões que me fez criar este blogue - até ao FiveThirtyEight, passando pelo The Ballot ou o The Monkey Cage, tudo o que há para dizer de interesse está lá dito.

O que sobra é apenas reforçar algumas ideias para a noite de 4 para 5 de Novembro. Aqui vão (e espero não me ter enganado nas contas no meio desta complicação):

1. Quais os estados onde a vitória de Obama é uma quase certeza absoluta, na base das sondagens e dos resultados de eleições anteriores? Os seguintes: Vermont, Connecticut, Delaware, Illinois, Maine, Maryland, Massachussets, DC, New Jersey, Michigan, Minnesota, New York, Rhode Island, Wisconsin, California, Hawaii, Oregon e Washington. Aqui não há "efeito Bradley" que valha. Perder é quase impensável. Feitas as contas, são 227 votos eleitorais. Faltam 43 para Obama ganhar.

2. Depois há alguns estados onde Obama tem vantagens muito expressivas nas sondagens mas que, na história recente, nem sempre foram ganhos por candidatos democratas. Falamos de New Hampshire (onde W. Bush ganhou a Gore), New Mexico (onde W. Bush ganhou a Kerry) e Iowa (idem). Neste momento, a estimativa da vantagem de Obama sobre McCain nestes três estados oscila entre os 9 e os 13 pontos. De resto, Clinton em 1992 e Kerry em 2004 ganharam NH, ao passo que Clinton em 1992 e Gore em 2000 ganharam Iowa and New Mexico. As dúvidas são muito poucas. Somem lá mais 16 votos. Faz 243. Ficam a faltar 27 para Obama ganhar.

3. Onde poderá Obama ir buscar esses 27? Há um estado onde a vantagem, não sendo tão expressiva como nos casos anteriores, é ainda assim muito relevante: Pennsylvania. Nas sondagens realizadas desde finais de Abril passado, há apenas uma em que McCain estava à frente de Obama, e isso foi em 12 de Setembro e era uma sondagem da Zogby (enough said). Nas sondagens realizadas na última semana (desde dia 27 de Outubro), a vantagem de Obama anda entre os 4 e os 14 pontos. Clinton ganhou Pennsylvania em 1992 (9 pontos) e 1996 (idem). Gore ganhou em 2000 (4 pontos). Kerry ganhou em 2004 (3 pontos). Vamos, com algumas cautelas, colocar já estes 21 votos do lado de Obama. Faz 264. Ficam a faltar 6.

4. Onde pode Obama ir buscar os 6 votos que faltam? Todos os restantes estados têm ou vantagens curtas para um ou outro candidato ou resultados passados menos tranquilizadores para os Democratas.

Mas notem: só faltam 6 votos. Segue-se uma lista de estados onde Obama pode ganhar e onde, se ganhar apenas um deles (e na base das pressuposições anteriores), ultrapassa os 270 votos. Por ordem de encerramento das urnas:
- Virginia: 13 votos, vantagem de 6 pontos nas sondagens;
- Carolina do Norte: 15 votos, vantagem de 1 ponto nas sondagens;
- Ohio: 20 votos, vantagem de 5 pontos nas sondagens.
- Florida: 27 votos, vantagem de 3 pontos nas sondagens;
- Missouri, 11 votos, vantagem de 2 pontos nas sondagens;
- Colorado, 9 votos, vantagem de 7 pontos nas sondagens.

Por outras palavras: se tudo o que está nos pontos 1, 2 e 3 der certo, basta que um destes estados caia para Obama para os 270 estarem garantidos. E a isto acrescem alguns estados que estão com ligeira vantagem para McCain nas sondagens mas ainda competitivos: Georgia (15 votos) e Indiana (11 votos). E há ainda estados que, sózinhos, não chegam aos 6 votos, mas estão, neste momento, ambos inclinados para Obama: North Dakota (3 votos) e Nevada (5 votos).

5. Logo, como se sugere aqui, atenção então a Virginia, Indiana e Georgia, que encerram à meia-noite de Lisboa. Se um deles cair para Obama, ficamos com sinais muito fortes de que tudo poderá estar terminado. Mas se nenhum deles cair para Obama, ainda haverá várias outras hipóteses.

6. Dito isto, muito cuidado com as sondagens à boca das urnas. Quatro razões:

- É sempre possível que haja fuga de dados durante o dia, apesar da equipa responsável estar de quarentena, fechada numa sala, até às cinco da tarde. Mas mesmo que haja fugas, serão dados parciais e não ponderados ou até, possivelmente, pura desinformação.

- Os dados que estarão disponíveis nos sites após o encerramento serão mais fiáveis, mas há uma razão para que esses dados, comuns e iguais para todas as estações, sejam trabalhados em cada uma delas por um batalhão de analistas. Quando dizem too close to call, é por que é too close to call. Já ninguém confia apenas nas sondagens à boca das urnas, a não ser que as vantagens sejam muito grandes. E se são muito grandes, não deverá ser em nenhum dos estados que interessam.

- O voto antecipado está a ser muito grande nalguns estados. Nalguns estados muito importantes para a decisão de amanhã, os números são incríveis. No Colorado, por exemplo, as pessoas que já votaram correspondem a 74% dos todos os que votaram em 2004. 54% na Florida. 61% na Georgia. 67% no Nevada. 73% no Novo México. Neste contexto, só se fossem atrasados mentais é que as pessoas na Edison-Mitofsky se limitavam a conduzir sondagens no dia das eleições. Como é óbvio, não são. O consórcio encarregado da sondagem à boca das urnas tem vindo a fazer sondagens em 18 estados de forma a medir o comportamento daqueles que já votaram, e ponderará esses elementos no dia das eleições. Mas seja como for, não é preciso ser-se atrasado mental para cometer erros e usar pressuposições erradas nessas ponderações.

- Também devido ao voto antecipado, será preciso ter cuidado com os primeiros dados "reais" a virem das assembleias de voto e que são usados para tomar decisões em conjugação com os dados das sondagens à boca da urnas. Como avisa Michael MacDonald,

Beware of election night results released at poll closing, as they may be misleading. Many states and localities quickly report results for their early voters. The reporting method varies widely among states. If these surveys are correct that Obama supporters are voting early at higher rates than McCain supporters, these early election results may give a false impression of what the actual election result will be once all votes are counted.

7. Finalmente: muito do que está acima presume que as centenas e centenas de sondagens divulgadas estão a dar informação fiável sobre as intenções de voto, ou pelo menos informação onde os enviesamentos são aleatórios ou, se não forem aleatórios, se cancelam mutuamente ou, se não se cancelarem mutuamente, são enviesamentos relativamente limitados. Há algumas razões para supor que isto não é necessariamente verdade. Estão muito bem resumidas e discutidas aqui por Anthony Wells, mas a ideia com que se fica é que não são suficientes para nos convencerem de que aquilo que julgamos estar a ver com as sondagens está fundamentalmente errado. E no entanto...

E é tudo. Sei que há muita gente interessada nisto por aí. Isto foi escrito um pouco à pressa. Logo, se encontrarem algum erro de raciocínio ou de contabilidade no que está acima, agradeço mesmo que me avisem.

sábado, novembro 01, 2008

If at first you don't succeed, try, try again.

1. "O CDS sobe, talvez por efeito dos ecos do bom resultado eleitoral nos Açores." Vem no site da SIC Notícias e foi dito em off na peça televisiva por uma jornalista. A subida consistiu em ter passado de 4,8 para 5,2%, ou seja, uma subida de uns espectaculares 0,4 pontos percentuais. Por outras palavras, nem sequer sabemos se o CDS subiu, desceu ou ficou na mesma. E a dos "ecos do bom resultado eleitoral dos Açores", então, é de truz. Uma relação causa-efeito tão credível como se ela tivesse dito que o CDS subiu na sondagem por causa do pastel de nata que eu comi ontem pela tarde.

2. A propósito dos rankings das escolas, reponho de seguida o que escrevi há um ano. Nada mudou, os disparates que se diziam continuam a ser ditos, continuam a ser refutados, e nada disto, pelos vistos, faz qualquer espécie de diferença. Não faz mal. 

A citação do W.C. Fields que dá o título a este post não acaba aqui. Continua assim: "Then quit. No use being a damn fool about it." Mas eu sou um damn fool.

Sobre os rankings e o cheque-escolar (5-11-2007):
No Público de ontem, sobre os rankings, para além de ser provavelmente o primeiro colunista na história da imprensa escrita a usar a expressão Hierarchical Linear Modelling num jornal de grande circulação, André Freire diz o óbvio, mas um óbvio que vale a pena repetir:

"Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas."

Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.

Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é
que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.

Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando
o relatório que André Freire menciona no seu artigo:

"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."

Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.

Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Sondagens à la carte.

Quem está esperançoso ou angustiado com a possibilidade de as sondagens nos Estados Unidos estarem erradas, e muito especialmente quem acha que os resultados das sondagens são condicionados pelas preferências de quem as faz ou do meio de comunicação social que as encomenda e publica, pode ver todos os seus anseios ou receios confirmados por este paper: Evidence of Systematic Bias in 2008 Presidential Polling (via Andrew Gelman).

Claro que sou suspeito, mas por que não pensar que parte do enviesamento se deve ao próprio inquirido, recusando responder para certas sondagens ou ocultando-lhes o seu comportamento?

quarta-feira, outubro 29, 2008

Obamercial

Hoje, vai passar um anúncio/programa com a duração de meia-hora, publicidade da campanha da Barack Obama, na Fox, NBC, CBS, Univision, MSNBC e BET, em horário nobre. Só a ABC e a CNN ficam de fora. NBC e CBS vão receber um milhão de dólares cada. Não se via disto desde Ross Perot.

Ainda sobre "forecasting", a questão racial e as sondagens

Recebi hoje a PS, e voltei a olhar para os modelos de forecasting de que tenho falado várias vezes. E há uma coisa muito interessante de que não me tinha dado conta. O modelo de Lewis-Beck e Tien prevê, como eu dizia aqui, 43% dos votos para McCain na base de quatro variáveis: popularidade de Bush em Julho; crescimento real do PNB do último trimestre de 2007 até ao 2º trimestre de 2008; se o incumbent concorre ou não; e o crescimentos dos empregos.

Simplesmente, Lewis-Beck e Tien defendem que "Obama will lose a chunk of votes because he is black". Logo, estimam factores de correcção para a votação inicialmente prevista para Obama - 57%. Esses factores de correcção resultam de duas fontes:

1. Um estudo de 2007 sobre a prediposição para votar num presidente negro;
2. A comparação entre as votações, estado a estado, de Kerry e Obama nas primárias.

E concluem que Obama terá 50,1%. Ora aqui vamos ter uma boa oportunidade para perceber se Lewis-Beck e Tien deviam ter mexido no modelo original ou não por causa da questão "racial".

Outlier: chá e torradas

Há uns tempos, João Pinto e Castro sugeria à SEDES que, em vez de andar a dizer "renhaunau renhaunau" de seis em seis meses após reuniões com chá e torradas, desse ao pedal e criasse um blogue que "estimulasse a reflexão colectiva sobre temas de grande relevância para o país". Sobre "estimular a reflexão colectiva" ou a "grande relevância para o país" não sei, mas pelo menos o blogue já está. Agora deixa cá comer mais uma torradinha.

P.S.- E aí está, estimulada "a reflexão colectiva sobre temas de grande relevância para o país". Isto dos blogues é um bocadinho menos complicado do que parece :-)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Vale a pena ler

James Stimson, sobre os resultados das sondagens nos Estados Unidos:

Saturday 10/25: Stability and Variability
Variability: This is a race of considerable variability in various organization's estimates of what should be the same quantity. And at the same time I have never seen such stability in my estimates of the daily lead. A typical day sees about ten organizations report an Obama lead varying between 1 and 14 points. Thirteen points difference is a lot, more than double what would be expected from sampling fluctuation alone. This arises chiefly, it appears, from two sources, (1) initial assumptions about the partisan makeup of the electorate, and (2) varying likely voter assumptions.

Ler o resto aqui.

domingo, outubro 26, 2008

Uma tempestade perfeita

O meu artigo de amanhã no Público é sobre - suspense - as eleições americanas. É o último que escrevo antes do dia 4 de Novembro. Quem se interesse poderá ler amanhã no jornal e depois de amanhã aqui. Mas quem se interesse muito - sim, estou a falar de vocês os três - pode descarregar isto, uma apresentação em Powerpoint que fiz há dias na Faculdade de Direito da UL e onde se coligem uma série de dados sobre os fundamentals desta eleição:

1. Mudanças na composição social do eleitorado (o famoso argumento Judis/Teixeira);
2. Mudanças na identificação partidária nos últimos anos;
3. Mudanças nas posições ideológicas nos últimos anos;
4. Avaliação do titular (incumbent);
5. Economia e percepções do estado da economia;

E ainda:
6. Temas da campanha;
7. Avaliação dos candidatos;
8. Mobilização.

Nada disto tem grandes pretensões nem grandes teorias por detrás a não ser as de coligir dados dispersos, ter uma visão das eleições que vá para além das sondagens de intenções de voto e presumir que há factores de médio e até longo prazo que ditam muito do que estamos a observar e cujo conhecimento ajuda a reduzir as incertezas.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Bush apoia McCain e Palin.

Três perguntas.

Três perguntas num comentário ao post abaixo. Vou tentar responder, remetendo, sempre que possível, para quem sabe responder melhor do que eu:

1. Trata-se da fiabilidade das sondagens que são agregadas nos principais sites como o RCP, Pollster ou 538. No mesmo dia ou espaço curto de tempo, cerca de meia dúzia sondagens são capazes de ter 6 ou 8 pontos percentuais de diferença nos resultados (relativamente à distância entre candidatos), acontecendo isto com muita regularidade. Isto não compromete a confiança das sondagens?

Não devemos ficar surpreendidos com o facto de diferentes sondagens, conduzidas no mesmo momento, exibirem resultados cujas diferenças estão acima do que seria autorizado pelo erro amostral. Há uma multiplicidade de opções técnicas - amostragem, modelos de votantes prováveis, ponderadores, formato das perguntas, etc, etc, etc - que produzem essas diferenças. Há um livro muito bom de um antigo professor meu cujo título resume isso muito bem: The Total Survey Error Approach, em que "total" significa o erro amostral mais todas as outras fontes de erro. Como lidar com isto? Por um lado, importa procurar estimar em que medida há enviesamentos característicos trazidos por cada conjunto de opções metodológicas. Como essas opções tendem a ser estáveis em cada instituto, é possível estimar aquilo que se chama "house effects", ou seja, a tendência de cada instituto para favorecer/desfavorecer cada candidato ou partido. Mas isto mostra-nos apenas um determinado desvio em relação à (vamos chamar-lhe assim) "média", e não em relação à " realidade". O que é a realidade? Ninguém sabe. Mas o que o Nate Silver faz é tomar a prestação passada dos institutos de sondagens como indicador da sua aproximação a essa realidade, presumir que essa aproximação é um bom indicador da sua aproximação à realidade presente, e ponderar os resultados das sondagens na base disso. Aqui estão os indicadores do "track record" de cada instituto que o FiveThirtyEight usa nessas ponderações. É a abordagem mais "sofisticada" (mas também com alguns riscos. Nada garante que desempenho passado seja bom desempenho futuro, especialmente se as circunstâncias políticas e sociais mudarem. O próprio Nate Silver dá um exemplo). O Pollster.com e o RCP são mais agnósticos, o que também não é necessariamente boa ideia.

2ª A média das amostras penso que andam em cerca de 2000 pessoas por sondagem a nível nacional. Não será este um número demasiado baixo para um país de 300 milhões? Penso que 2000 é o número usado regularmente em Portugal, estou certo?

Não, não, e também não (sorry). Não sei o número médio, mas é fácil calcular olhando para esta lista. Sobre o - sempre intrigante - fenómeno de a dimensão do universo ser (quase completamente irrelevante para o erro amostral, ver aqui. Em Portugal, as amostras andam entre os 600 e os 1200. Só na véspera das eleições se costuma usar amostras maiores.

3º Esta já é de leitura de sondagens. Há já sondagens (em número e qualidade) suficientes para falarmos de uma tendência após o último debate presidencial, principalmente nos estados mais decisivos?

Sim, e parece que não teve efeitos.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Ainda sobre os efeitos da "raça" no comportamento eleitoral nestas presidenciais.

Há muita gente (alguma dela particularmente competente) que se tem pronunciado sobre este assunto. Larry Bartels, por exemplo, usando dados do American National Election Survey de 2004, sugere que esse efeito pode andar por um custo de 3,7% para Obama.

Mas vejamos a questão por outro lado. Há meses que circulam modelos econométricos que prevêem, na base dos tais "fundamentals" - economia, cansaço/aprovação do incumbent, etc. - a percentagem de votos para candidatos do Partido Republicano (o incumbent). Estes modelos são "cegos" em relação à "raça" dos candidatos. Alguns deles podem tê-la indirectamente, se usarem sondagens sobre os candidatos -mesmo que distantes no tempo em relação às eleições - mas a maioria não tem. Os resultados estão no Pollyvote:


A vantagem máxima para o candidato Democrata é de 16 pontos, a mínima é de 0,2 pontos. Mas a média é de 5,4 pontos.

Agora olhem para aqui:

A estimativa actual da vantagem de Obama, excluídos indecisos e 3ºs candidatos, é de 8,3 pontos. Por outras palavras a vantagem de Obama é maior do que se poderia esperar "given the fundamentals". Claro que: ainda não é dia 4, e mesmo até à véspera do dia 4, as sondagens podem vir a revelar-se erradas. Mas se há alguma coisa que se possa dizer "given the fundamentals", é que o facto de Obama ser negro o favorece eleitoralmente. Absurdo, não é? Sim, mas o contrário, na base disto, também é.

quarta-feira, outubro 22, 2008

O Bartoon explica.

Este debate é interessante, e eu já tinha prometido que ia falar nisto. Um pretexto, então.

Também não gostei especialmente de ver Ronald Dworkin, depois de descrever (correctamente) as consequências (catastróficas) que uma vitória dos Republicanos e a designação de juízes para o Supremo com o perfil prometido por McCain teriam para a interpretação da Constituição Americana, terminar dizendo que "if a remarkably distinguished candidate like Obama loses, this can be for only one reason." Mas as razões porque não gostei são, eventualmente, diferentes das de Miguel Morgado:

1. Primeiro, não há nunca "only one reason".

2. Segundo, ao contrário do que também diz Mark Danner - e retoma João Galamba - , não me parece nada que, "given the 'fundamentals', (...) the contest is so close". So close? Dia 4 cá estaremos para ver. Mas isto não me parece nada close. Vantagens de 6-8 pontos no voto popular não é coisa de somenos e não aparecem todos os dias. Nixon ganhou a McGovern por 23 pontos em 1972, mas.. McGovern? De resto, esta vantagem - ou até bastante menos - é precisamente da ordem do que se poderia esperar given the fundamentals. Esta ideia de que Obama deveria estar a arrasar mas só não está por causa da raça perde sentido logo na parte do "arrasar", porque negligencia a actual polarização do eleitorado americano e tudo aquilo que dá estabilidade ao seu comportamento, independentemente de factores de mais curto-prazo, tais como a economia ou desempenho do incumbent (mas dia 4 espero de não ter de engolir isto tudo).

3. Finalmente, não gostei porque este discurso é exactamente o contrário daquele que Obama tem tido e exactamente o contrário daquilo que lhe convém ter. Ainda bem que a NYRB só é lida por intelectualóides como eu e vocês que estão a ler isto.

Claro que importa perceber por que razão "este discurso é exactamente o contrário daquele que Obama tem tido e exactamente o contrário daquilo que lhe convém ter." É porque, precisamente, o problema existe. Há quilómetros de estantes com coisas sérias escritas sobre o assunto: "Black and white voters do seem to prefer candidates of their own race in biracial elections and, consequently, it is exceedingly rare for black candidates to be elected outside of majority-minority political jurisdictions (Barker et al.1999, Canon 1999, Walton & Smith 2000)". De resto, o grande mérito estratégico da candidatura de Obama e o seu enorme pragmatismo tem residido em fazer com que o problema pareça não existir, desactivando-o como um elemento legítimo de contestação política e retirando-lhe saliência. Claro que os Republicanos têm tentando activá-lo subtilmente, como outros textos na NYRB sugerem (o de Andrew Delbanco, por exemplo). Mas não o podem activar explicitamente: Obama não lhes deu a oportunidade, e fazê-lo por iniciativa própria seria suicídio. Daí que Jeremiah Wright tenha estado ausente da galeria de ataques a Obama, e só surgirá, se surgir, como táctica última de desespero total por parte dos Republicanos.

Quanto ao resto, os meus textos preferidos neste NYRB são os de Joan Didion e de Paul Krugman. Didion, como sempre, para além da elegantíssima escrita, tem um dedo especial para desenterrar a forma como os temas reais e mais importantes na vida americana são retirados do debate político e mediático e substituídos ou misturados com temas fictícios:


"The presence of Barack Obama in the electoral process allowed us to talk as if "the race issue" had reached a happy ending. We did not need to talk about how the question of race has been and continues to be used to exacerbate the real issue in American life, which is class, or absence of equal opportunity."



"For a while, however, Democrats in general, and Barack Obama in particular, seemed to have lost the plot. Instead of running against the Republican economic record, Obama spent the primary season and the first few weeks of the general election campaign portraying himself as a "post-partisan" politician, someone who transcended the traditional party divide. In his speeches, he tended to hold both parties equally culpable for the country's woes, denouncing the failed policies of right and left equally. (...) But all of that has changed in the past few weeks. (...) These days, Obama doesn't try to place blame equally on right and left, he denounces "an economic philosophy that says we should give more and more to those with the most and hope that prosperity trickles down to everyone else," and describes the crisis as "a final verdict on this failed philosophy." He sounds, in other words, a lot like Bill Clinton in 1992. And that's a good thing."

Não acontece muitas vezes que a mensagem política "certa" seja "certa" de duas maneiras: por descrever correcta e profundamente a realidade, e por ser a mais adequada eleitoralmente. Mas desta vez aconteceu. Os Republicanos andam a agitar a frase "spread the wealth" que Obama disse a "Joe the Plumber", como se isso o fizesse perder votos. Um erro, parece-me. O Bartoon de hoje explica tudo isto muito bem.


terça-feira, outubro 21, 2008

Até na Science se fala do "Bradley effect"...

Do Voter Surveys Underestimate the Impact of Racial Bias?

Podemos acreditar no que estamos a ver? Depende.

Os textos no post abaixo sobre as possibilidades de recuperação de McCain pressupõem que aquilo que as sondagens nos estão a dizer é, "na média", verdade. Que Obama tem uma vantagem de mais de 5 pontos sobre McCain, que Obama subiu drasticamente desde a crise financeira, que McCain vem recuperando nos últimos dias.

Mas se isto tudo, ou parte disto, for mentira? E se houver um enviesamento sistemático nos resultados? Uma das fontes de enviesamento já aqui muito discutida é o chamado Bradley Effect, através do qual a vantagem de Obama sobre McCain poderá estar a ser sobrestimada. A segunda é o recurso a telefones fixos, através do qual a vantagem de Obama sobre McCain poderá estar a ser sistematicamente subestimada.

James Stimson, da UNC em Chapel Hill, recorda-nos um terceiro possível enviesamento, que desta vez tem repercussões naquilo que julgamos estar a observar nos últimos dias: as pressuposições sobre os votantes prováveis que estão inseridas nos modelos.

The entry of new tracking polls (with likely voter estimates) and the changeover of existing ones to likely voter estimates are confusing the situation this week. Because Republicans traditionally turn out at higher rates than do Democrats, the likely voter estimates shift the composition of samples in the Republican direction, producing better numbers for McCain. This is creating what appears to be an illusory trend toward McCain support, an apparent decline in the Obama lead. This is seen most clearly in the Gallup organization's now triple daily reports. With a pleasing transparency, Gallup is reporting registered voters numbers (as before) and two different likely voter estimates. One Gallup calls the traditional filter assumes that historic turnout patterns will prevail and thus African-Americans and young people, for example, are assumed to turn out at relatively low rates (compared to the perennial turnout champs, the middle-aged and middle class.) Knowing that such assumptions are likely to be inaccurate this year, Gallup is also using a filter (called Expanded) that is based only on what respondents say about voting intentions. I commend Gallup for leaving us free to make our own assumptions about turnout, rather than imposing its own on us (and usually without any information about what they are.) From its latest release (10/19) Gallup shows an Obama lead of 10 points (52-42) among registered voters, 7 points (51-44) among the Expanded likely voter set and only 3 points (49-46) with the Traditional likely voter filter. It makes quite a difference which one gets reported. There is no trend in the registered voter estimates. But if you compare the older registered voter numbers with the newer likely voter numbers the illusion of trend appears.

As possibilidades de McCain

The State of the Race, por Jay Cost: "This makes a comeback for McCain quite difficult, but not inconceivable."

Today's Polls, 10/20, por Nate Silver: "McCain needs to get those numbers down about twice as quickly as Obama got them up, and he does not have any debates or other major public events to assist him."

segunda-feira, outubro 20, 2008

O fim da "chatice"

Diogo Belford Henriques respondeu ao post abaixo. Espero não ser injusto se vir a coisa assim: DBH não gostou de uma sondagem pré-eleitoral da Eurosondagem que dava 4,8% ao CDS. Após as eleições, tendo o CDS-PP obtido 8,7%, exprimiu esse descontentamento, mas não tinha mais para argumentar que a simples constatação da discrepância. Mas lendo posteriormente o meu post onde descrevia alguns dos constrangimentos e dificuldades ligadas à realização de sondagens dos Açores, DBH descobriu um ângulo para criticar a sondagem que tanto o apoquentara, mesmo que vários aspectos do que descrevi nem sequer se apliquem ao estudo telefónico da Eurosondagem. E toca de transformar esses constrangimentos em omissões graves, acabando por acusar todos os que fizeram sondagens nos Açores de serem preguiçosos e incompetentes. E ainda houve tempo para levantar a hipótese de que tanta preguiça e incompetência não passassem de uma desconsideração aos açorianos.

Neste último post, o ângulo é algo diferente. DBH acha "grave" que as sondagens à boca das urnas nos Açores não tenham trabalho de campo em todas as ilhas e que o serviço público de televisão não pague tudo o que for preciso para garantir isso. Mas o que importa perceber é que todas as sondagens e todos os estudos deste género resultam de compromissos entre o ideal e o possível. Amostras de 15.000 inquiridos em vez de 5.000, ir a todos os locais de voto de uma freguesia ou ir a todas as freguesias em vez de ir apenas a algumas, incluir telefones celulares em sondagens telefónicas em vez de apenas telefones fixos, fazer 15 ou 20 tentativas de encontrar um inquirido aleatoriamente numa casa em vez de apenas 4 ou 5, dar um mês em vez de uma semana de formação aos inquiridores, etc, etc, etc,  a lista do "ideal" nas sondagens é interminável e inatingível. O importante é garantir que aquilo que se sacrifica não é suficientemente "grave" para impedir boas inferências. E manifestamente não foi, o que não nos impede de reconhecer e tentar descobrir os custos que esses sacrifícios podem ter imposto, até para se perceber que sacrifícios são legítimos da próxima vez.

Eu acho que este tipo de discussão até pode ser, em geral, saudável, e só acontece porque há cada vez mais transparência na maneira como se fazem sondagens. Sabem-se coisas intrigantes de que dantes nem se fazia ideia, aparecem novas perguntas, e conversa-se. Acho, se calhar com alguma pretensão, que não dei um contributo completamente irrelevante para isso. 
Mas acho também que há dois tipos de discussão sobre sondagens e duas opções para as pessoas, como DBH, que exercem funções políticas. Podem aprender alguma coisa sobre sondagens e passam a poder fazer questões e críticas interessantes a quem trabalha nisto. Eu conheço algumas pessoas assim em quase todos os partidos (uma delas tem um blogue e outra até foi Primeiro-Ministro). Mas também se podem limitar a ter um discurso estritamente político sobre sondagens. O segundo é perfeitamente legítimo, mas serve apenas para conversarem uns com os outros. Não serve para mais.

"Coming back", ou "natural tightening"?

Aí está. "Is McCain Coming Back?"

A "chatice"

Diogo Belford Henriques (DBH) comenta, num post no 31 da Armada, este meu post sobre as sondagens à boca das urnas nos Açores.

DBH confunde várias coisas, a saber:

1. "Porque (sic) foram os resultados das eleições de ontem diferentes da sondagem (Eurosondagem, não CESOP)?"
O meu post não tem a ver com esse assunto. O meu post tem a ver com o facto da realização de sondagens nos Açores introduzir dificuldades diferentes (e superiores) à realização de outro tipo de sondagens eleitorais, mesmo que sejam sondagens à boca das urnas (e, por isso, livres dos problemas trazidos pela abstenção não declarada e pela medição de intenções e não comportamentos).

2. "Ao contrário do que diz o Pedro Magalhães, é possível ir a todas as ilhas"
Ao contrário do que sugere DBH, nenhum meio de comunicação social está disposto a pagar o que seria necessário pagar para que um instituto de sondagens pudesse realizar trabalho de campo presencial em todas as ilhas dos Açores, dispondo assim de uma amostra representativa dos - neste caso - votantes em todo o arquipélago e evitando assim ter de estimar alguns resultados por extrapolação, com todo o risco e incerteza que isso implica. A não ser que DBH esteja a querer dizer que é possível ir a todas as ilhas, ou seja, que há meios de transporte para lá chegar caso se queira lá ir. Mas se é isso, La Palisse estará contente na sua tumba.

3. "É possível telefonar (se não puder ir) a eleitores em todas as ilhas"
Quando DBH me explicar como é que se fazem sondagens à boca das urnas pelo telefone, eu ficar-lhe-ei eternamente grato.

4. "É possível ler na internet os jornais e rádios de cada ilha e conhecer as notícias e a política local (...) Mas implica trabalho."
Não, não vou dizer que não é possível ler rádios. Mas vou dizer que qualquer organização tem de ponderar os recursos de que dispõe e os benefícios que tenciona recolher do seu investimento. E vou dizer também que, por muito investimento que se faça, é muito mais fácil a alguém que conhece a política nacional e algumas "políticas locais" saber onde procurar informação e interpretá-la correctamente do que a alguém que não as conhece. O meu post era uma confissão de ignorância. Fizemos investimento para compensar essa ignorância (que nos permitiu perceber, entre muitas outras coisas, que os resultados que estávamos a captar do CDS eram credíveis) mas esse investimento daria sempre, em comparação com o que fizéssemos noutros contextos com os quais temos maior familiaridade, menos retornos.

5. "É possível que os "pequenos partidos" decidam livremente e consigam ter bons candidatos em nove ilhas."
Sim, é possível. E?

E parece que a palavra "chatice" também foi mal interpretada. Foi usada no sentido de dizer que as eleições nos Açores, por razões que já devem ser óbvias, nos colocam problemas maiores que as outras. Mas não é "chato" trabalhar nos Açores. Faz-se o que se gosta e, ainda por cima, aprende-se. E não é chato ir aos Açores. São lindos. Têm uma pessoa ou outra um bocado obtusa. Mas isso é coisa que também há (se calhar até mais) no Continente.

P.S- Dou-me conta que a única parte do post que não comentei foi o parágrafo final. Mas essa é a única parte do texto que me parece verdadeiramente mal-intencionada, pelo que nem vale a pena comentar.

As duas Tinas

Ainda o Bradley effect

A síntese da questão e do debate por Mark Blumenthal, aqui e aqui.

E uma visão "iconoclasta" (nunca existiu), aqui (mas muito prejudicada pelo facto do efeito ter sido detectado em muitas eleições e sondagens pré-eleitorais).

O Professor e o Monstro.

Larry Bartels tem um ensaio imperdível intitulado "The Irrational Electorate" na The Wilson Quartely. A economia comportamental está na berra, e chega a altura da sua influência se sentir também na Ciência Política. Bartels chega a citar um dos mais conhecidos livros de divulgação sobre o tema, que por acaso li nestas férias:

Outros livros relacionados que li nestas férias, já agora:




Achei-os todos muito bons, o Winner's Curse mais canonicamente académico, os restantes óptimos livros de divulgação académica (o Nudge mais "policy-oriented", aparentemente próximo dos círculos de Obama), como cá não há.
Voltando a Bartels:
"These and other recent studies offer abundant evidence that election outcomes can be powerfully affected by factors unrelated to the competence and convictions of the candidates. But if voters are so whimsical, choosing the candidate with the most ­competent-­looking face or the most recent television ad, how do they often manage to sound so sensible? Most people seem able to provide ­cogent-­sounding reasons for voting the way they do. However, careful observation suggests that these “reasons” often are merely rationalizations constructed from readily available campaign rhetoric to justify preferences formed on other ­grounds."
O ensaio é uma crítica à ideia de que os votantes são racionais e de que a sua ignorância possa ser compensada quer pelo recurso a "heurísticas" quer pela agregação das decisões individuais.

E uma curiosidade: Rush Limbaugh adorou o ensaio. Sim, Rush Limbaugh:
"I mention this story, actually it's an article from the Wilson Quarterly, the Woodrow Wilson Center for scholars: "The Irrational Electorate." It's by Larry Bartels who directs the Center for the Study of Democratic Politics in Princeton University's Woodrow Wilson School of Public and International Affairs. He is the author of Unequal Democracy: The Political Economy of the New Gilded Age, published earlier this year by the Russell Sage Foundation and Princeton University Press. Now, when you print it out, it runs four or five pages. I'm not a scholar, and Mr. Bartels is, and, to me, the first part -- I had to read this a bunch of times. It reads like gobbledygook, and what it is is an analysis of a whole bunch of studies worldwide over many, many decades of the electorates, the electorates in democracies. And let me just give you some excerpts. One sentence in this piece -- and this is about how people determine who they are going to vote for. People are very short term in their focus. They tend to vote based on how the economy is going, rewarding or throwing the bums out regardless of party. But here's some interesting bits for you."

Açores 2

Rodrigo Moita de Deus pergunta no 31 de Armada: "Nas últimas legislativas regionais da Madeira também houve directos de televisão e mesas redondas com comentadores?"

Uma das maiores constipações da minha vida foi apanhada no dia 6 de Maio de 2007, noite das eleições regionais da Madeira, sentado três horas ao ar livre na Baía do Funchal enquanto José Alberto Carvalho, Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino e, a espaços, Joe Berardo e outros madeirenses, discutiam animadamente os mais variados assuntos (incluindo a vitória de Sarkozy) em directo e ao vivo para a RTP nacional.

Por isso sim - atchim - houve directos de televisão e mesas redondas com comentadores...

Açores

De seguida, o quadro comparando as estimativas da sondagem à boca da urnas do CESOP com os que vieram a ser os resultados finais.
Não é mau, mas é pior que na Madeira, não é? Enquanto que tudo está muito próximo para os restantes partidos, o PS foi claramente sobrestimado.
Porquê? Os Açores é sempre uma chatice. Não se consegue ir a todas as ilhas e não conhecemos a política local: o carteiro que era candidato de um partido e agora passou para outro; os eleitores que andam chateados com a Câmara Municipal e castigam o partido nas regionais, etc. Ainda por cima, este ano, à conta do círculo de compensação, os pequenos partidos foram a todo o lado.
Pelo que consigo perceber neste momento, há duas razões para a sobrestimação do PS:
1. O problema começa logo na sondagem feita em S. Miguel e na Terceira (as únicas ilhas a que realmente fomos). Os resultados reais no conjunto das duas ilhas são 29,4% para o PSD e 53,5% para o PS. Mas nós tínhamos 27,1% para o PSD e 55,5% para o PS. Porquê este desvio? Não é assim tão grande, mas é maior do que costumamos apanhar. Não parecem ser as recusas: a correlação entre a percentagem de pessoas que recusou responder e a votação no PSD em 2004 é de .22, positiva (como se esperaria) mas baixa.
2. A extrapolação do que se passa na Terceira e S. Miguel para o resto dos Açores é perigosa, ou foi perigosa nesta eleição. Mesmo com os valores correctos para Terceira e S. Miguel, o nosso modelo continua a dar votos a mais ao PS (51%). Conclusão: parece que a entrada dos pequenos partidos em todos os círculos eleitorais mudou o jogo.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Manipulação no Intrade

A propósito deste post:

Trader Drove Up Price of McCain ‘Stock’ in Online Market.

Obrigado ao José Gomes André pela notícia.

"Robocalls"

Podem ouvir aqui e aqui duas das chamadas telefónicas pré-gravadas que a candidatura de McCain anda a fazer na Carolina do Norte, no Ohio, no Colorado e na Virginia.
(via The Ballot).

Brooks on Obama

O conservador preferido dos liberais americanos, David Brooks, escreve um belo artigo sobre Obama no NYT. Brooks tem dúvidas: um potencial grande presidente, ou um "mero observador em vez de um líder"? Mas ver Obama comparado a F.D.R. e a Reagan é, ao mesmo tempo, extravagante e arguto:

"Some candidates are motivated by something they lack. For L.B.J., it was respect. For Bill Clinton, it was adoration. These politicians are motivated to fill that void. Their challenge once in office is self-regulation. How will they control the demons, insecurities and longings that fired their ambitions? But other candidates are propelled by what some psychologists call self-efficacy, the placid assumption that they can handle whatever the future throws at them. Candidates in this mold, most heroically F.D.R. and Ronald Reagan, are driven upward by a desire to realize some capacity in their nature. They rise with an unshakable serenity that is inexplicable to their critics and infuriating to their foes. Obama has the biography of the first group but the personality of the second."

Visualização de informação

Charles Franklin tem mais um gráfico - agora o nerd em mim toma conta - lindo no Political Arithmetik. E com esse gráfico, mostra:

1. Como a tarefa de McCain é incrivelmente difícil;
2. Como não se pode dizer que ela é completamente impossível, especialmente tendo em conta o que, aparentemente, se está a passar no Ohio. Ver aqui e, nas "tools", escolher a opção de smoothing "more sensitive".

Obama faz o que lhe compete quando avisa apoiantes: "I guess it's two words for you: New Hampshire".

Azares

O Público coloca na primeira página "McCain cada vez mais longe de Obama". A média móvel da vantagem de Obama sobre McCain na Real Clear Politics passa de +8,2 (dia 14) para +7,3 (dia15) para +6,8 (dia 16). A internet está em baixo na Rua Viriato?

Só me meto com o Público porque é o "meu" jornal, quer como leitor quer como colunista.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Darth Vader vai à oficina

Cheney receives shock to correct heartbeat.

O Senado

Nos blogues portugueses, não se tem falado muito nas eleições para o Senado, mas agora que a vitória nas presidenciais parece muito provável, a preocupação dos Democratas é ganhar suficientes lugares no Senado para terem não só uma maioria mas também uma maioria "fillibuster-proof", ou seja, 60 lugares.

Como estão as coisas? Bem, democratas e republicanos têm 49 senadores cada, e há ainda 2 independentes: Joe Lieberman (cada vez mais próximo dos Republicanos, mas liberal - no sentido americano - em muitos temas) e Bernie Sanders (o único socialista no Senado e que vota com os Democratas a maior parte das vezes). Lieberman e Sanders fazem parte do grupo parlamentar dos Democratas (mas Lieberman pode mudar de ideias).

Em Novembro, estão em disputa 35 lugares, 23 nas mãos de Republicanos e 12 nas mãos de Democratas. Há uma série de estados onde nada deve mudar. Não há estados Democratas em risco de passaram para Republicanos. Mas há várias possibilidades de mudança de mãos de Republicanos para Democratas: Alaska, Colorado, Georgia, Minnesota, New Hampshire, New Mexico, North Carolina, Oregon e Virginia. Nove potenciais pick-ups, que deixariam os Democratas com 58 senadores. Com Sanders, 59. E Lieberman 60. Parece que, se queremos emoções no dia 4, vai ter de ser aqui.

Os debates

A vantagem de Obama, em pontos percentuais, nas sondagens sobre os "vencedores dos debates":

Dia 27 de Setembro:
CNN: +13
CBS (indecisos): +28
Mediacurves (independentes): +22

Dia 8 de Outubro:
CNN: +24
CBS (indecisos): +12
Mediacurves (independentes): +18

Dia 15 de Outubro:
CNN: +27
CBS (indecisos):+31
Mediacurves (independentes):+30

É curioso que seja neste último debate que as vantagens de Obama sejam maiores, tendo em conta que, objectivamente, não é nada evidente que este tenha sido o melhor debate para ele, pelo contrário. Mas esta amostra é, se pensarmos bem, auto-seleccionada (só viu o debate quem quis) e a leitura do que se passou é, naturalmente, moldada pelo "mood" geral da campanha. McCain esteve melhor que nos debates anteriores, mas manifestamente não chegou, e nunca poderia ter chegado (a não ser que tivesse havido uma catástrofe qualquer).

quarta-feira, outubro 15, 2008

Boatos

Aproveito para informar que o Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica não conduziu nem vai conduzir qualquer estudo nos Açores medindo intenções de voto. O único trabalho que será feito é uma sondagem à boca das urnas, cujos resultados serão divulgados à hora de encerramento das urnas. Logo, todos os alegados resultados de uma "sondagem da Católica nos Açores" que circulam por aí são falsos.

Early voting

A impressão que me ficou desta visita a uma secção de voto em Columbus parece ser mais representativa do que eu imaginava. Nas sondagens que vem fazendo nalguns estados, a Survey USA tem tentado apanhar os early voters. Conclusões (via FiveThirtyEight):

1. Nos estados do Ohio, Novo México, Georgia e Indiana, até aos dias 9-13 de Outubro, tinham votado mais de 10% dos eleitores recenseados. Na Carolina do Norte, até ao dia 6, apenas 5%.
2. Entre os que ainda não votaram - entre as intenções de voto - Obama domina no Indiana, Novo México e Ohio, enquanto McCain domina na Georgia e na Carolina do Norte.
3. Mas entre os early voters, Obama domina nos cinco estados, com margens que chegam aos 34%.

Mera correlação entre prediposição para votar antes e preferência por Obama? Ou também sinal de uma excepcional mobilização dos Democratas?

ACORN

Começam a acumular-se relatos de tentativas de fraude no registo de novos eleitores por parte de uma organização chamada ACORN, alegadamente apartidária mas com também alegadas ligações ao Partido Democrata e até a Obama. Obama já tentou neutralizar o potencial escândalo.

Comício em Columbus




Maldade


Afinal, sempre apareceram. Numa secção de voto em Columbus, Ohio, voluntário Republicano produz uma convincente imitação do candidato do partido à presidência dos Estados Unidos.

terça-feira, outubro 14, 2008

The Ohio State Buckeyes





Apesar da separação entre Estado e Igreja, há uma religião oficial no Ohio. O estádio está cheio para todos os jogos. São 105.000 pessoas. Começam por beber uns copos numa zona chamada Heiny Gate. Esta zona está vedada e ninguém pode levar bebidas alcoólicas para fora dela. Contudo, para muitos undergrduates, os copos começam 6ª feira à noite e só acabam na noite do dia seguinte. Depois seguem, os que cabem, para a St. John Arena, onde toca a TBDBITL: The Best Damn Band in the Land. Depois a banda segue em passo de corrida para o estádio, onde há uma cerimónia adicional à entrada do túnel. No estádio, todos de pé, primeiro para ouvir a Carmen Ohio e depois para o hino dos Estados Unidos. O Script Ohio consiste em escrever o nome do estádio com os elementos da banda. Depois há o "dotting the i", ou seja, um dos músicos serve de "ponto no i". Depois disto tudo ainda há o jogo, e pelo meio cheerleaders, os gestos que fazem O-H-I-O com os braços em cada um dos quatro lados do estádio, o half-time show, festejos se Michigan está a perder, o Hang On Sloopy no último quarter e, se ganham os Buckeyes, tocam os sinos no estádio. Ganhámos a Purdue, não me lembro por quantos. O jogo foi chato, toda a gente achou. Há um livro do Eric Hobsbwam que se chama The Invention of Tradition de que gostei muito quando li, há muito muito tempo.

Está tudo decidido?

Larry Bartels e Robert Erikson

Já agora, lembro-me de há uns anos anunciar neste blogue a chegada à blogosfera de vários cientistas políticos. Mas com Bartels e Erikson, chegámos finalmente ao topo da cadeia alimentar.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Sign of The Times

Paul Krugman Wins Economics Nobel

Votar em Columbus, Ohio

Já se pode. E já se podia a 35 dias das eleições. De há dois anos para cá, o chamado absentee voting passou a ser aberto a todas as pessoas. Na baixa de Columbus existe um centro aberto. Basta levar a carta de condução ou dar o número da Segurança Social. Ate há dias, era ainda possível, no mesmo local, o recenseamento e o voto. Durante esses dias, havia filas com centenas de pessoas. Mas agora só se aceitam votos.

O boletim de voto é impresso no momento. Isto sucede porque neste centro podem votar pessoas que residem em diferentes círculos eleitorais e em cada círculo eleitoral há eleições com candidatos diferentes para cargos diferentes. Vota-se em muita coisa ao mesmo tempo. Abaixo está um sample ballot, um boletim de voto fictício distribuido pelo Partido Democrata, onde se explica em quem se deve votar para cada cargo.

Tenho assim um palpite sobre o partido em que a maior parte das pessoas abaixo estão a votar.

A distribuição dos sample ballots faz-se à porta, por voluntários dos partidos e até alguns candidatos. Têm de estar a uma distância minima do edifício, 50 metros, creio. Hoje, e em todos os dias anteriores desde que isto abriu, dizem-me, só estiveram aqui voluntários e candidatos do Partido Democrata. Nao sei como interpretar isto. Sentimento de derrota antecipada? Early voters are all Democrats anyway?


A candidata a Coroner pelo Partido Democrata, Jan Gorniak.