Há dias, no Twitter, o Gabriel Silva perguntava:
GabrielfSilva @PCMagalhaes 1a questão técnica (q há mto desejava fazer): as sondagens por telefone é só para fixo? Se sim, tal não distorce 1 bocadinho?...
Começo por dizer que sei muito menos sobre isto do que devia. O grosso do trabalho da Católica são presenciais, e os inquéritos académicos com que lido no ICS (European Social Survey, European Values Study, estudos eleitorais de vários tipos, etc) também, pelo que nunca fiz investigação própria sobre a matéria. Mas há algumas coisas que se podem dizer.
A primeira é que, segundo o INE, em 2008, havia 30% de alojamentos privados que não tinham telefone fixo. Isto significa um primeiro desvio sério em relação à pressuposição de amostragem aleatória da população: a probabilidade dos residentes em domicílios sem telefone fixo de serem seleccionados para responder às sondagens telefónicas que são feitas em Portugal sobre intenções de voto ou estudos políticos vários não é igual à dos restantes. É zero. Zero.
Isto é um problema? À partida, a resposta tem de ser sempre "Sim". É por isso os inquéritos académicos que servem de "golden standard" para a indústria são todos presenciais: se as pessoas que não vivem em alojamentos com telefone fixo forem sistematicamente diferentes das outras, todas as inferências que se façam da amostra para a população em geral vão estar enviesadas.
Contudo, na prática, as coisas podem não ser tão graves como se possa pensar:
1. Pode haver matérias em que aquilo em que a população que vive em alojamentos sem fixo é diferente da população sem fixo não esteja correlacionado com as variáveis de interesse.
2. A utilização de amostragem por quotas ou ponderação pós-amostral, dando à amostra características conhecidas do universo, pode ajudar a corrigir esses enviesamentos.
3. As vantagens das sondagens telefónicas- nomeadamente, um controlo muito mais apertado sobre o trabalho de campo do que nas presenciais - podem compensar as desvantagens.
4. As características socio-demográficas da população sem telefone fixo podem ser suficientemente heterogéneas para neutralizarem os enviesamentos causados. Por exemplo, há boas razões para supor que a população sem fixo combina população idosa e rural com população mais jovem e urbana (mobile-only).
Tudo isto são questões para investigar, coisa que não fiz. Nos Estados Unidos, onde até há uns anos toda a gente tinha fixo, o grande espectro hoje é a população "mobile-only". E apesar de toneladas de papel de investigação sobre o assunto, que relata diferenças significativas entre as diferentes populações, a causa dessas diferenças permanece um mistério. Em Portugal, julgo saber que há estudos de mercado que tratam esta população, e era bom haver estudos sobre o assunto. Não conheço nenhum.
No fim de tudo, diria o seguinte:
1. Resistiria sempre muitíssimo à ideia de fazer um estudo académico sobre atitudes e comportamentos sociais pelo telefone em Portugal.
2. Sou menos resistente à ideia de fazer estudos sobre intenções de voto e atitudes políticas pelo telefone, por uma razão simples: não existem diferenças significativas entre a precisão das sondagens, confrontadas com resultados eleitorais, ditadas pelo modo de inquirição (mas isto é para um objectivo muito concreto, ou seja, descrever opiniões políticos ou intenções de voto. Para investigação séria e "pesada" sobre causas de comportamentos políticos, acho as telefónicas, genericamente, inapropriadas).
3. Se as perspectivas futuras fossem a de um desaparecimento do fixo e aumento da população "mobile-only", estaria disposto a rever a posição 2. Mas felizmente para nós, os pacotes de comunicações, que incluem internet, cabo e telefone, podem ajudar a contrariar esta tendência.
4. Independentemente disto, há um espectro mais grave: as pessoas cada vez menos querem responder a sondagens. Mas isso é uma verdade para as presenciais e para as telefónicas. Hoje, taxas de resposta de 30% em estudos presenciais académicos, com montanhas de dinheiro, 5 ou 6 revisitas ao mesmo domicílio, etc, são consideradas óptimas. O estudo da Católica sobre o Freeport demorava três minutos a responder e teve uma taxa de resposta de 52%. A metade que responde é igual à metade que recusou ou não estava acessível? Não é. O grande problema, para mim, é este. Parece que a resposta do futuro é o chamado "multi-mode" ou "mixed-mode", ou seja, adoptar para um mesmo inquérito vários métodos de inquirição (postal, presencial, internet, telefónica) adaptados a cada população. A ver.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Margens com menos erro.
Não sei se já repararam na coluna do lado direito. Daqui até às eleições, o Luís Aguiar-Conraria vai também andar por estes lados. A ideia, claro, é espremermos os dados das sondagens eleitorais até ao tutano. Nem vai ser preciso ler a assinatura dos posts: se for disparate, é meu; se for inteligente, o mais provável é que seja dele.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
CESOP/Católica, 30Jan-1Fev, N=801, Tel. "Caso Freeport"
O relatório-síntese da sondagem pode ser descarregado aqui.
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
(Atrasada): Intercampus, 17-21 Janeiro, N=609, Tel.
PS: 42,3%
PSD: 27%
BE: 12,2%
PCP: 11,9%
CDS-PP: 5,7%
Estes resultados foram apresentados na última 6ª feira, em comparação com os da sondagem que terminou dia 28. Mas não os consegui ver apresentados na emissão da TVI da 6ª feira anterior (onde apenas se mostrou a "pontuação" dos líderes políticos). Acho que faz sentido, contudo, tomá-los em conta.
PSD: 27%
BE: 12,2%
PCP: 11,9%
CDS-PP: 5,7%
Estes resultados foram apresentados na última 6ª feira, em comparação com os da sondagem que terminou dia 28. Mas não os consegui ver apresentados na emissão da TVI da 6ª feira anterior (onde apenas se mostrou a "pontuação" dos líderes políticos). Acho que faz sentido, contudo, tomá-los em conta.
Intercampus, 23 a 28 Janeiro, N=621, Tel.
PS: 36,9%
PSD: 31,4%
BE:13,6%
PCP: 13%
CDS-PP:5,1%
A soma destes resultados dá 100%, pelo que a projecção não contempla votos para outros partidos, brancos e nulos.
Obrigado, Helena.
PSD: 31,4%
BE:13,6%
PCP: 13%
CDS-PP:5,1%
A soma destes resultados dá 100%, pelo que a projecção não contempla votos para outros partidos, brancos e nulos.
Obrigado, Helena.
domingo, fevereiro 01, 2009
sábado, janeiro 31, 2009
Marktest, 20-23 Janeiro, N=809
PS: 39,6%
PSD: 24,9%
CDU: 11,9%
BE: 10,1%
CDS-PP: 9,7%
O título no Semanário Económico - "José Sócrates está mais longe da maioria absoluta" - é um caso interessante. A jornalista esperaria perdas em relação à última sondagem, devido ao caso Freeport. Mas o trabalho de campo acabou a 23, pelo que não poderia reflectir claramente quaisquer efeitos do caso. Logo, uma perda de 0,5 pontos percentuais em relação a Novembro passado, que normalmente significaria "estabilidade", passa a significar "José Sócrates está mais longe da maioria absoluta".
PSD: 24,9%
CDU: 11,9%
BE: 10,1%
CDS-PP: 9,7%
O título no Semanário Económico - "José Sócrates está mais longe da maioria absoluta" - é um caso interessante. A jornalista esperaria perdas em relação à última sondagem, devido ao caso Freeport. Mas o trabalho de campo acabou a 23, pelo que não poderia reflectir claramente quaisquer efeitos do caso. Logo, uma perda de 0,5 pontos percentuais em relação a Novembro passado, que normalmente significaria "estabilidade", passa a significar "José Sócrates está mais longe da maioria absoluta".
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Intervalo higiénico
Para quem se interessa por política, como eu, os últimos dias têm sido animados. Mas hoje à tarde, um intervalo. Já estou, pelo menos em relação a isto, como o João Gonçalves: ponho isto (por acaso o que tenho é o Schiff, mas não faz mal) no leitor de CD's e, dois segundos depois, fica-se a achar que esta fantochada toda, esta gente - eu incluído -e este país não têm, afinal, importância de espécie alguma. Experimentem clicar e vejam lá se não é.
Já me passa.
Já me passa.
Tempo político
A Marina Costa Lobo, minha colega no ICS, tem agora um blogue: Tempo Político. Já dá para perceber que vai valer a pena seguir. Gostei especialmente do post a propósito de Samuel Huntington, onde se ilustra uma tendência do Embaixador José Cutileiro para falar de coisas sobre as quais nada sabe. Não é a primeira vez.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Shortcuts
Aqui ao lado, na barra lateral, encontram ligações directas para dois gráficos. Um é um scatterplot para todas as sondagens, enquanto o outro tem as estimativas mensais controlados os "house effects".
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Linhas de referência
Daqui a umas semanas, o gráfico que mostrei num post abaixo vai ter, para além dos dados das sondagens que se seguirem, uma linha de referência adicional. Vou marcá-la no dia 21 de Janeiro e vou-lhe dar o título "Freeport".
House effects
Um dos problemas dos gráficos anteriores é o facto de as diferentes estimativas não serem rigorosamente comparáveis entre si. Aquilo que gostaríamos de ter para apreciarmos a existência de tendências nas intenções de voto seriam estimativas cuja variação de um momento para outro se devesse apenas a dois factores: ruído aleatório (inevitável tendo em conta que estamos a lidar com amostras) e mudanças reais nas preferências dos eleitores. Mas o problema é que lidamos com sondagens de diferentes institutos, em números diferentes de instituto para instituto, e cujos resultados são afectados por escolhas e práticas metodológicas próprias que afectam os resultados, os chamados "house effects".

O lado simpático disto é que não é muito diferente dos gráficos mostrados aqui, que se limitam a usar todos os dados de todas as sondagens. Mas o que farei daqui em diante - a não ser que me mostrem que isto é um disparate - é apresentar ambos os gráficos.
Como limpamos os resultados destes "house effects"? O meu problema, claro, é que à medida que estas questões se complicam a minha rudimentar econometria começa a patinar. Mas socorro-me de Robert Erikson e Christopher Wlezien, que sugerem o seguinte procedimento:
1. Estimar um modelo de regressão linear para os resultados para cada partido de todas as sondagens, onde se introduzem variáveis mudas para cada instituto de sondagens (no nosso caso 5-1 dummies).
2. Acrescentar ao modelo dummies para períodos temporais;
3. Omitir a constante do modelo.
Os coeficientes para cada uma das dummies de período temporal são a estimativa de resultados eleitorais para cada período e para cada partido ajustada em relação aos "house effects". Feita a operação, trabalhando com períodos temporais mensais, obtemos o seguinte:
O lado simpático disto é que não é muito diferente dos gráficos mostrados aqui, que se limitam a usar todos os dados de todas as sondagens. Mas o que farei daqui em diante - a não ser que me mostrem que isto é um disparate - é apresentar ambos os gráficos.
Tendências
Num comentário a um post anterior, diz-se que "normalmente sobem primeiro os partidos mais contestatários e mais perto das eleições é que os partidos com reais hipoteses de constituir uma alternativa de governo começam a subir. Foi assim com Durão Barroso quando subiu a 1º ministro."
Será? Não sei. Gostava de ver dados. A única coisa que tenho são dados sobre os três meses anteriores às eleições de 2002:

Aqui, sucedeu exactamente o contrário do que o leitor sugere. Em 2005 a hipótese também não se confirma. Mas os períodos são curtos . Tudo depende do que significa "mais perto".
Será? Não sei. Gostava de ver dados. A única coisa que tenho são dados sobre os três meses anteriores às eleições de 2002:

Aqui, sucedeu exactamente o contrário do que o leitor sugere. Em 2005 a hipótese também não se confirma. Mas os períodos são curtos . Tudo depende do que significa "mais perto".
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Comentários
Desde que abri a caixa há uns meses, ainda não rejeitei qualquer comentário. Até hoje. Só para ficar registado, não publicarei comentários com insultos dirigidos a outras pessoas (se forem insultos dirigidos a mim provavelmente até publico). Os restantes critérios decidirei à medida que for recebendo os comentários, porque aqui quem decide o que aparece sou eu e publico aquilo que muito bem me apetecer. Mas sempre que rejeitar algum aviso, para terem uma ideia da taxa de rejeição.
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Partido a partido, instituto a instituto: PSD
O mesmo para o PSD:
Como já alguém assinalou num comentário, há simetria com as tendências do PS. Eurosondagem algo discrepante na fase final, mas o resto confere.
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