quinta-feira, maio 14, 2009
Sondagens
Na TVI 24, Morais Sarmento acusa uma empresa de sondagens de "alterar a realidade com sondagens que não são verdadeiras". No Avante, declara-se a "falência absoluta" das sondagens. Vai ser um ano longo, este.
segunda-feira, maio 11, 2009
Broken Windows
A propósito do editorial do director do "i" e desta resposta de João Gonçalves, impora notar que, como em tudo o que sucede nos Estados Unidos, há quilómetros de estantes sobre o assunto. Alguns dos trabalhos em revistas peer-reviewed mais recentes e/ou mais citados:
Broken windows: New evidence from New York City and a five-city social experiment- "evidence (..) provides no support for a simple first-order disorder-crime relationship as hypothesized by Wilson and Keller."
Carrots, Sticks, and Broken Windows - "it is important to emphasize that arrests for felonies have the largest effect on felony crimes and that the effects of broken-windows policing, although significant for some crimes, are not universally significant, nor are they of great magnitude."
The irony of broken windows policing: A micro-place study of the relationship between disorder, focused police crackdowns and fear of crime: "This study provided evidence for the broken windows policing hypothesis that disorder leads to fear of crime. Examining fear of crime among citizens at a micro-place unit of analysis revealed that higher levels of both perceived social disorder and observed physical disorder led to significantly higher levels of fear of crime. For those advocating broken windows policing approaches, however, the data also suggest reason for caution. Those living in an area that received the extra police presence (controlling for other factors in the model) also reported higher levels of fear."
E dois estudos que interpretam os mesmos dados chegando a conclusões diferentes. O primeiro é o mais citado de sempre sobre o tema:
Systematic social observation of public spaces: A new look at disorder in urban neighborhoods:
"observed disorder did not match the theoretical expectations set up by the main thesis of “broken windows” (Wilson and Kelling 1982; Kelling and Coles 1996). Disorder is a moderate correlate of predatory crime, and it varies consistently with antecedent neighborhood characteristics. Once these characteristics were taken into account, however, the connection between disorder and crime vanished in 4 out of 5 tests—including homicide, arguably our best measure of violence."
Spuriousness or mediation? Broken windows according to Sampson and Raudenbush (1999): "In sum, Wilson and Kelling's broken windows theory argues that disorder causes social withdrawal and low informal social control, which in turn causes crime. Sampson and Raudenbush, 1999 interpreted their own results as not supporting the broken windows theory because disorder did not have a direct effect on crime after controlling for collective efficacy. The problem with this interpretation is that the broken windows theory never argued that disorder had a direct unmediated effect on crime. According to the broken windows theory, disorder undermines informal social control, which in turn leads to an increase in crime. This is the core premise of the broken windows theory, a premise that Sampson and Raudenbush's results did not contradict."
E uma última frase neste último artigo que diz tudo:
"While debate in the popular press continues, academics are pushing forward in their attempts to understand the link between disorder and crime. Several articles have been published in recent years showing empirical evidence both in support of and against the broken windows theory (...) Thus far, no final consensus has been reached."
Era fácil se fosse só as broken windows, não era?
P.S. - Só para dizer que, não sendo especialista do assunto, até simpatizo com a tese. Mas os resultados das experiências dos psicólogos sociais, como acontece tantas vezes, não são fáceis de replicar e comprovar quando se sai de ambientes mais artificiais e se tenta generalizar...
P.P.S - Enviada por um leitor, uma referência adicional de Steven Levitt, tornada famosa devido ao argumento sobre os efeitos de Roe vs. Wade na criminalidade: Understanding Why Crime Fell in the 1990s.
Broken windows: New evidence from New York City and a five-city social experiment- "evidence (..) provides no support for a simple first-order disorder-crime relationship as hypothesized by Wilson and Keller."
Carrots, Sticks, and Broken Windows - "it is important to emphasize that arrests for felonies have the largest effect on felony crimes and that the effects of broken-windows policing, although significant for some crimes, are not universally significant, nor are they of great magnitude."
The irony of broken windows policing: A micro-place study of the relationship between disorder, focused police crackdowns and fear of crime: "This study provided evidence for the broken windows policing hypothesis that disorder leads to fear of crime. Examining fear of crime among citizens at a micro-place unit of analysis revealed that higher levels of both perceived social disorder and observed physical disorder led to significantly higher levels of fear of crime. For those advocating broken windows policing approaches, however, the data also suggest reason for caution. Those living in an area that received the extra police presence (controlling for other factors in the model) also reported higher levels of fear."
E dois estudos que interpretam os mesmos dados chegando a conclusões diferentes. O primeiro é o mais citado de sempre sobre o tema:
Systematic social observation of public spaces: A new look at disorder in urban neighborhoods:
"observed disorder did not match the theoretical expectations set up by the main thesis of “broken windows” (Wilson and Kelling 1982; Kelling and Coles 1996). Disorder is a moderate correlate of predatory crime, and it varies consistently with antecedent neighborhood characteristics. Once these characteristics were taken into account, however, the connection between disorder and crime vanished in 4 out of 5 tests—including homicide, arguably our best measure of violence."
Spuriousness or mediation? Broken windows according to Sampson and Raudenbush (1999): "In sum, Wilson and Kelling's broken windows theory argues that disorder causes social withdrawal and low informal social control, which in turn causes crime. Sampson and Raudenbush, 1999 interpreted their own results as not supporting the broken windows theory because disorder did not have a direct effect on crime after controlling for collective efficacy. The problem with this interpretation is that the broken windows theory never argued that disorder had a direct unmediated effect on crime. According to the broken windows theory, disorder undermines informal social control, which in turn leads to an increase in crime. This is the core premise of the broken windows theory, a premise that Sampson and Raudenbush's results did not contradict."
E uma última frase neste último artigo que diz tudo:
"While debate in the popular press continues, academics are pushing forward in their attempts to understand the link between disorder and crime. Several articles have been published in recent years showing empirical evidence both in support of and against the broken windows theory (...) Thus far, no final consensus has been reached."
Era fácil se fosse só as broken windows, não era?
P.S. - Só para dizer que, não sendo especialista do assunto, até simpatizo com a tese. Mas os resultados das experiências dos psicólogos sociais, como acontece tantas vezes, não são fáceis de replicar e comprovar quando se sai de ambientes mais artificiais e se tenta generalizar...
P.P.S - Enviada por um leitor, uma referência adicional de Steven Levitt, tornada famosa devido ao argumento sobre os efeitos de Roe vs. Wade na criminalidade: Understanding Why Crime Fell in the 1990s.
"Manipulação infernal"
É o título de um artigo de Miguel Roquette, Vice-Presidente da Comissão Política da distrital de Setúbal do CDS-PP, publicado no Setúbal na Rede. Pode ser lido na íntegra aqui. Dois excertos:
"A Universidade Católica Portuguesa – através do Centro de Estudos e Sondagens de Opiniões (CESOP), tem demonstrado uma incompetência e uma desonestidade que escandaliza qualquer pessoa minimamente bem formada. Esta atitude, já com longos anos de prática demonstra como a igreja católica portuguesa e a sua componente científica troca conscientemente os mandamentos de Deus, por interesses materiais e de grupos apoiados na manipulação da verdade. Como católico, fico profundamente chocado quando o vício do pecado se torna banal ao ponto de ser exibido com naturalidade em público. "
"Manipular a verdade é próprio das pessoas de mau carácter, pactuar com situações destas é um exemplo de que a comunicação social é pobre do ponto de vista jornalístico, no mínimo passiva, mas a igreja ao mais alto nível apoiar valores contrários aos sagrados princípios demonstra a fraqueza humana."
"A Universidade Católica Portuguesa – através do Centro de Estudos e Sondagens de Opiniões (CESOP), tem demonstrado uma incompetência e uma desonestidade que escandaliza qualquer pessoa minimamente bem formada. Esta atitude, já com longos anos de prática demonstra como a igreja católica portuguesa e a sua componente científica troca conscientemente os mandamentos de Deus, por interesses materiais e de grupos apoiados na manipulação da verdade. Como católico, fico profundamente chocado quando o vício do pecado se torna banal ao ponto de ser exibido com naturalidade em público. "
"Manipular a verdade é próprio das pessoas de mau carácter, pactuar com situações destas é um exemplo de que a comunicação social é pobre do ponto de vista jornalístico, no mínimo passiva, mas a igreja ao mais alto nível apoiar valores contrários aos sagrados princípios demonstra a fraqueza humana."
sábado, maio 09, 2009
Europeias. Marktest, 14-19 Abril, N=803, Tel.
PS: 33,1%
PSD: 32,9%
BE: 8,4%
CDU: 7,6%
CDS-PP: 4,5%
Brancos/Nulos: 13,5%
O total disto é 100%, pelo que presumo que ninguém na amostra indicou intenção de voto noutros partidos. A notícia no Semanário Económico indica igualmente que, em relação à totalidade da amostra, 50,7% afirmaram não saber em quem votariam ou não respondem.
Uma nota final para assinalar que, do ponto de vista do trabalho de campo, esta foi de facto a primeira sondagem, das três já divulgadas, a ser conduzida.
PSD: 32,9%
BE: 8,4%
CDU: 7,6%
CDS-PP: 4,5%
Brancos/Nulos: 13,5%
O total disto é 100%, pelo que presumo que ninguém na amostra indicou intenção de voto noutros partidos. A notícia no Semanário Económico indica igualmente que, em relação à totalidade da amostra, 50,7% afirmaram não saber em quem votariam ou não respondem.
Uma nota final para assinalar que, do ponto de vista do trabalho de campo, esta foi de facto a primeira sondagem, das três já divulgadas, a ser conduzida.
sexta-feira, maio 08, 2009
Sondagens e democracia
Há sempre uma grande discussão sobre o papel das sondagens na democracia. Há quem aponte consequências negativas. Num post que escrevi há uns anos, assinalei - por interposta pessoa - uma delas: um efeito negativo na forma como se cobre noticiosamente a actividade política. Mas também já citei aqui, há menos tempo, uma conferência do Stanley Greenberg onde ele explica como, se bem com dúvidas e hesitações, acabou por concluir por um saldo positivo: conhecer o que os cidadãos preferem pode ajudar a fazer com que os líderes políticos "respeitem as pessoas, respondam aos seus interesses e torná-los, em última análise, susceptíveis de serem politicamente responsabilizados."
Por estes dias, passa-se algo que me faz lembrar estas palavras de Greenberg. Ao abrigo do novo Estatuto dos Açores, a Assembleia Legislativa Regional prepara-se para legalizar a "Sorte de Varas" em toda a região, ou seja, se bem percebo - não sou nada entendido - as corridas de touros com picadores. O tema tem sido controverso nos Açores mas - digo isto à distância, talvez esteja errado - não parece ser suficientemente importante para poder ditar o resultado de futuras eleições. Em circunstâncias destas, os agentes políticos têm incentivos para acederem à vontade de interesses particularistas, que até podem ser partilhados por muito pouca gente mas estão bem organizados e dão grande importância a um determinado tema. Neste caso, os membros da Tertúlia Tauromáquica Terceirense.
Mas o que pensa a generalidade dos açorianos de tudo isto? A verdade é que não se sabe. É até possível que a maioria esteja a favor ou seja indiferente. É certo que, na Assembleia Legislativa dos Açores entraram, se não erro, 406 petições sobre o assunto, 17 a favor da Sorte de Varas e 389 contra. Mas não é absolutamente garantido que isto reflicta a distribuição das preferências dos açorianos. Houve uma sondagem online, com resultados muito desfavoráveis, mas amostras voluntárias em sites de internet não dão garantias se sequer se aproximarem de uma boa imagem das opiniões do universo dos açorianos.
Logo, o ideal seria, claro, um referendo regional. Num artigo já com uns anos, o economista político Bruno Frey explica uma das vantagens dos referendos. Os políticos podem formar coligações contra os eleitores, impedindo a entrada de certos temas na agenda política e impondo outros. Especialmente se houver possibilidade dos cidadãos proporem iniciativas de referendo, os referendos retiram o monopólio no controlo da agenda política aos políticos e revelam as preferências dos eleitores em temas nos quais os políticos prefeririam que elas não fossem conhecidas (presumindo, claro, que não se utilizariam o tipo de regras de quórum de aprovação ou participação que distorcem os resultados). Infelizmente, nos Açores, se não estou em erro, só a Assembleia Legislativa pode apresentar propostas de referendo regional. Logo, o instrumento que poderia quebrar uma coligação da classe política contra os eleitores está nas mãos da...classe política.
O que sobra? Sondagens. É pena que só sobre isto. Mas elas poderiam ajudar a confirmar se, de facto, a maioria dos açorianos apoia ou é indiferente a esta proposta ou se, pelo contrário, é contra. O facto de não se planear um referendo nem haver vislumbre de sondagens sobre o assunto consente supor, infelizmente, que deverá ser a segunda hipótese a verdadeira.
Por estes dias, passa-se algo que me faz lembrar estas palavras de Greenberg. Ao abrigo do novo Estatuto dos Açores, a Assembleia Legislativa Regional prepara-se para legalizar a "Sorte de Varas" em toda a região, ou seja, se bem percebo - não sou nada entendido - as corridas de touros com picadores. O tema tem sido controverso nos Açores mas - digo isto à distância, talvez esteja errado - não parece ser suficientemente importante para poder ditar o resultado de futuras eleições. Em circunstâncias destas, os agentes políticos têm incentivos para acederem à vontade de interesses particularistas, que até podem ser partilhados por muito pouca gente mas estão bem organizados e dão grande importância a um determinado tema. Neste caso, os membros da Tertúlia Tauromáquica Terceirense.
Mas o que pensa a generalidade dos açorianos de tudo isto? A verdade é que não se sabe. É até possível que a maioria esteja a favor ou seja indiferente. É certo que, na Assembleia Legislativa dos Açores entraram, se não erro, 406 petições sobre o assunto, 17 a favor da Sorte de Varas e 389 contra. Mas não é absolutamente garantido que isto reflicta a distribuição das preferências dos açorianos. Houve uma sondagem online, com resultados muito desfavoráveis, mas amostras voluntárias em sites de internet não dão garantias se sequer se aproximarem de uma boa imagem das opiniões do universo dos açorianos.
Logo, o ideal seria, claro, um referendo regional. Num artigo já com uns anos, o economista político Bruno Frey explica uma das vantagens dos referendos. Os políticos podem formar coligações contra os eleitores, impedindo a entrada de certos temas na agenda política e impondo outros. Especialmente se houver possibilidade dos cidadãos proporem iniciativas de referendo, os referendos retiram o monopólio no controlo da agenda política aos políticos e revelam as preferências dos eleitores em temas nos quais os políticos prefeririam que elas não fossem conhecidas (presumindo, claro, que não se utilizariam o tipo de regras de quórum de aprovação ou participação que distorcem os resultados). Infelizmente, nos Açores, se não estou em erro, só a Assembleia Legislativa pode apresentar propostas de referendo regional. Logo, o instrumento que poderia quebrar uma coligação da classe política contra os eleitores está nas mãos da...classe política.
O que sobra? Sondagens. É pena que só sobre isto. Mas elas poderiam ajudar a confirmar se, de facto, a maioria dos açorianos apoia ou é indiferente a esta proposta ou se, pelo contrário, é contra. O facto de não se planear um referendo nem haver vislumbre de sondagens sobre o assunto consente supor, infelizmente, que deverá ser a segunda hipótese a verdadeira.
Corredor do Poder
No site da RTP, vale a pena ver a emissão de ontem do programa "Corredor do Poder", onde Marco António, presidente da distrital do Porto do PSD, e Nuno Melo, líder parlamentar do CDS-PP e cabeça de lista às eleições europeias, fazem diversas considerações metodológicas sobre as sondagens do CESOP/Universidade Católica.
Legislativas. Eurosondagem, 30 Abril-5 Maio, N=1021, Tel.
PS: 38,8% (39,6%)
PSD: 30,5% (29,6%)
BE: 9,8% (9,6%)
CDU: 9,2% (9,4%)
CDS-PP: 6,9% (7,0%)
OBN: 4,8% (4,8%)
Aqui.
PSD: 30,5% (29,6%)
BE: 9,8% (9,6%)
CDU: 9,2% (9,4%)
CDS-PP: 6,9% (7,0%)
OBN: 4,8% (4,8%)
Aqui.
quinta-feira, maio 07, 2009
Mais Espanha
Barómetro de Abril do Centro de Investigaciones Sociológicas mostra, tal como em Março passado, PSOE e PP praticamente empatados nas estimativas de resultados eleitorais: 40,8% PSOE vs. 40% PP. Zapatero avaliado negativamente mas, mesmo assim, o menos mal avaliado de todos os líderes partidários. Cada vez pior a avaliação da actuação do governo e da oposição. Em suma, as notícias são cada vez melhores para ela, que já é a segunda figura política mais popular em Espanha.Tudo isto e mais aqui.
quarta-feira, maio 06, 2009
Espanha
A sondagem mais recente sobre as europeias, encomendada pelo próprio PSOE, dá ao PP uma vantagem de 1 a 2 deputados. Curiosamente, o modelo de previsão de Hix e Marsh não anda longe, prevendo a derrota do PSOE. As sondagens para as legislativas estão a dar resultados semelhantes: 2,4 pontos de vantagem para o PP aqui, 1,2 pontos aqui.
Factos
É o meu último post sobre este assunto.
Num post abaixo, escrevi que o deputado António Carlos Monteiro tinha afirmado na RTP-N que, nas últimas regionais dos Açores, o CDS-PP tinha tido o dobro dos votos que aquilo que uma sondagem da Católica previa. Contestei essa afirmação, mostrando que o CESOP não tinha conduzido nenhuma sondagem pré-eleitoral nessa eleição e mostrando os resultados da única sondagem que a Católica tinha feito para essa eleição, uma sondagem à boca das urnas divulgada pela RTP no fecho das urnas.
Num comentário a esse post, entre outras considerações, António Sousa Monteiro desmente ter dito aquilo que eu afirmei que ele disse. Escreve, nomeadamente, o seguinte:
"Aconselho-o também a ser mais cuidadoso nas afirmações que faz e quando imputa aos outros mentiras ou invenções. Tive o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse no programa em causa: desvalorizei todas as sondagens porque subavaliavam em regra o CDS-PP, chamei à atenção para que os resultados nos Açores tinham penalizado o centrão e o CDS tinha tido o dobro do previsto, sem nunca ter mencionado o nome da Católica (aliás a Universidade onde tirei o curso e que lamento ver o nome associado a estas sondagens).Vá verificar tudo o que eu disse e veja se sou eu ou o Pedro Magalhães quem inventou ou mentiu? Terá sido por enfiar a carapuça?"
Segui o conselho do senhor deputado. Passo assim à transcrição das afirmações de António Sousa Monteiro no programa Pontos de Vista, emitido pela RTP-N no dia 2 de Maio:
"Eu só diria o seguinte. Se até já o PCP se queixa das sondagens, então o que é que o CDS pode fazer. Aliás, nos Açores - e as sondagens que foram feitas para o acto eleitoral dos Açores demonstraram que o CDS valia muito mais do que aquilo que aparecia nas sondagens. Aliás, nos Açores, teve o dobro daquilo que a vossa sondagem na RTP previa."
A não ser que o deputado Sousa Monteiro - mesmo após ter ido comentar uma sondagem da Católica para a RTP e depois de ter tido "o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse" - ainda não tenha descortinado que é a Universidade Católica que faz as sondagens para a RTP, teremos então de concluir que os factos contrariam não apenas a sua primeira afirmação - a da existência da tal sondagem - mas também a segunda - a de que não afirmou aquilo que eu disse que ele afirmou. O vídeo está disponível aqui, no site da RTP. A transcrição refere-se a um trecho que ocorre quando o relógio no canto superior direito marca 1:44.
Num post abaixo, escrevi que o deputado António Carlos Monteiro tinha afirmado na RTP-N que, nas últimas regionais dos Açores, o CDS-PP tinha tido o dobro dos votos que aquilo que uma sondagem da Católica previa. Contestei essa afirmação, mostrando que o CESOP não tinha conduzido nenhuma sondagem pré-eleitoral nessa eleição e mostrando os resultados da única sondagem que a Católica tinha feito para essa eleição, uma sondagem à boca das urnas divulgada pela RTP no fecho das urnas.
Num comentário a esse post, entre outras considerações, António Sousa Monteiro desmente ter dito aquilo que eu afirmei que ele disse. Escreve, nomeadamente, o seguinte:
"Aconselho-o também a ser mais cuidadoso nas afirmações que faz e quando imputa aos outros mentiras ou invenções. Tive o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse no programa em causa: desvalorizei todas as sondagens porque subavaliavam em regra o CDS-PP, chamei à atenção para que os resultados nos Açores tinham penalizado o centrão e o CDS tinha tido o dobro do previsto, sem nunca ter mencionado o nome da Católica (aliás a Universidade onde tirei o curso e que lamento ver o nome associado a estas sondagens).Vá verificar tudo o que eu disse e veja se sou eu ou o Pedro Magalhães quem inventou ou mentiu? Terá sido por enfiar a carapuça?"
Segui o conselho do senhor deputado. Passo assim à transcrição das afirmações de António Sousa Monteiro no programa Pontos de Vista, emitido pela RTP-N no dia 2 de Maio:
"Eu só diria o seguinte. Se até já o PCP se queixa das sondagens, então o que é que o CDS pode fazer. Aliás, nos Açores - e as sondagens que foram feitas para o acto eleitoral dos Açores demonstraram que o CDS valia muito mais do que aquilo que aparecia nas sondagens. Aliás, nos Açores, teve o dobro daquilo que a vossa sondagem na RTP previa."
A não ser que o deputado Sousa Monteiro - mesmo após ter ido comentar uma sondagem da Católica para a RTP e depois de ter tido "o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse" - ainda não tenha descortinado que é a Universidade Católica que faz as sondagens para a RTP, teremos então de concluir que os factos contrariam não apenas a sua primeira afirmação - a da existência da tal sondagem - mas também a segunda - a de que não afirmou aquilo que eu disse que ele afirmou. O vídeo está disponível aqui, no site da RTP. A transcrição refere-se a um trecho que ocorre quando o relógio no canto superior direito marca 1:44.
Late deciders
Independentemente da controvérsia sobre as sondagens, suas alegadas manipulações e coisas do género, há uma questão substantiva de interesse por detrás de tudo disto. Será que os eleitores que tomam as suas decisões mais tarde fazem opções diferentes daqueles que decidem mais cedo?

A segunda coluna deste segundo quadro não pode ser comparada com a segunda coluna do quadro anterior, dado que, nele, nos concentramos apenas nos que decidiram a menos de um mês. Mas notem-se as tendências: no PS e no PSD, que recolheram menos opções entre os eleitores que decidiram mais tarde, as sondagens, em média, indicam descida. No CDS-PP e no BE, pelo contrário, as sondagens captaram subida. A única anomalia é a CDU, que subiu, em média, nas sondagens, quando os eleitores que dizem ter decidido no último mês se afastam, proporcionalmente, mais da CDU do que os que decidiram antes. Mas em geral, isto mostra que a distância a que se faz uma sondagem de uma eleição pode contar, porque os eleitores que decidem mais cedo não se repartem necessariamente da mesma forma que os que decidem mais tarde, que representam, como vimos, uma parcela muito considerável dos votantes. Mesmo numa eleição que, em geral, mostrou excepcionalmente baixos efeitos de campanha. Até neste caso, 20,8% dos eleitores afirmaram ter decido na última semana. Imaginem noutros actos eleitorais onde esse efeitos foram muito maiores e não lineares, como este ou este.
Felizmente, não é completamente impossível responder a essa questão. No inquérito pós-eleitoral de 2005 realizado no âmbito do programa de investigação do ICS "Comportamento Eleitoral dos Portugueses", coordenado por António Barreto, três questões são relevantes para este efeito. Uma consistiu em perguntar aos eleitores recenseados do Continente se votaram. A outra, e aos que disseram que sim, como votaram. E a terceira, quando decidiram como iriam votar. A última pergunta apresentou os eleitores que afirmaram ter votado perante várias opções: decidiram no próprio dia; na véspera; na semana antes das eleições; no mês antes das eleições; ou antes disso.
Se agregarmos as respostas a esta terceira pergunta em dois grupos - mais de um mês antes das eleições e durante o mês que precedeu as eleições, os inquiridos que afirmam ter votado na eleição repartem-se da seguinte forma: 63,9% afirma ter decido como votar a mais de um mês antes; 33,6% que terá decidido no mês que precedeu a eleição; e 2,5% que afirmaram não saber ou optaram por não responder. Sabemos se foi realmente assim? Não sabemos. Sabemos apenas aquilo que nos dizem. É o que há.
Mas o que acontece quando comparamos a recordação de voto dos dois maiores grupos anteriores? Isto:
De acordo com as suas próprias declarações num inquérito eleitoral, aqueles que decidiram a mais de um mês não se distribuíram da mesma forma que aqueles que dizem ter decidido mais tarde. Neste segundo grupo, o CDS-PP e o BE recolheram mais opções que entre o primeiro grupo. Pelo contrário, PS, PSD e CDU perdem peso entre os late deciders.
O mais curioso é que as sondagens feitas a mais de um mês e a menos de um mês das eleições reflectem, no seu conjunto (o que tenderia a eliminar erros aleatórios causados pelo facto de se estarem a usar amostras) esta tendência (fonte: aqui e aqui). Começo no dia 2 de Dezembro, data da primeira sondagem de que disponho. São 8 entre o dia 2 e o dia 20, e 17 sondagens depois do dia 20.
segunda-feira, maio 04, 2009
Colecção
Agora este. Erra quando diz que as sondagens sistematicamente têm falhado o voto do CDS-PP. Também erra quando diz que não se explica claramente como se passa das intenções directas de voto para as estimativas.
O CDS-PP e as sondagens
Eu sei que os partidos e aqueles que com eles simpatizam têm de reagir de qualquer forma a sondagens que pareçam desfavoráveis. Têm de as desvalorizar, especialmente para fins de consumo interno, de forma a aquietar a oposição dentro do partido e não deixar os apoiantes esmorecerem. Tudo isso é perfeitamente compreensível e não costumo comentar. Cada macaco no seu galho.
O problema, contudo, é quando se fazem afirmações que colidem, de forma comprovável, com a realidade. Essas, lamento, não posso deixar passar. Já mencionei um deputado do CDS-PP que imaginou uma sondagem inexistente do CESOP. E agora, quer em comentários abaixo quer em num post de Paulo Pinto Mascarenhas, aparece a ideia de que "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS."
Sugiro que dêem uma vista de olhos no quadro abaixo. Contém, para as eleições mais recentes em que o PP concorreu sozinho e para as quais o CESOP fez sondagens, assim como para todas as legislativas e europeias com as mesmas características:
- as estimativas para o CDS-PP da última sondagem publicada pelo CESOP antes das eleições;
- a média dos resultados das restantes sondagens;
- o resultado do CDS-PP nas eleições;
- o confronto entre as estimativas do CESOP e a média das restantes sondagens com os resultados reais;
- o erro amostral associado às estimativas feitas pelo CESOP para o CDS-PP, tendo em conta a dimensão da amostra e pressupondo aleatoriedade;
- se a estimativa ficou, no confronto com o resultado, dentro do erro amostral.
O post aqui fica, como registo, e para aqui farei ligação quando voltar a ouvir o "lapso" (vamos designá-lo com benevolência) do costume. Da maior parte das pessoas que agitam esta ideia, que espero ter mostrado ser comprovadamente falsa, não espero que venham agora a público corrigir as suas afirmações. A não ser de um: Paulo Pinto de Mascarenhas. É o único caso em que vou ficar desapontado se aguardar em vão.
O problema, contudo, é quando se fazem afirmações que colidem, de forma comprovável, com a realidade. Essas, lamento, não posso deixar passar. Já mencionei um deputado do CDS-PP que imaginou uma sondagem inexistente do CESOP. E agora, quer em comentários abaixo quer em num post de Paulo Pinto Mascarenhas, aparece a ideia de que "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS."
Sugiro que dêem uma vista de olhos no quadro abaixo. Contém, para as eleições mais recentes em que o PP concorreu sozinho e para as quais o CESOP fez sondagens, assim como para todas as legislativas e europeias com as mesmas características:
- as estimativas para o CDS-PP da última sondagem publicada pelo CESOP antes das eleições;
- a média dos resultados das restantes sondagens;
- o resultado do CDS-PP nas eleições;
- o confronto entre as estimativas do CESOP e a média das restantes sondagens com os resultados reais;
- o erro amostral associado às estimativas feitas pelo CESOP para o CDS-PP, tendo em conta a dimensão da amostra e pressupondo aleatoriedade;
- se a estimativa ficou, no confronto com o resultado, dentro do erro amostral.
Quem queira olhar para isto, verificará o seguinte:
1. Em nove eleições consideradas, a estimativa do CESOP esteve cinco vezes abaixo do resultado que o CDS-PP acabou por ter, e quatro vezes acima desse resultado.
2. Em quatro desses cinco vezes que subestimou o resultado do CDS-PP, o CESOP subestimou-o menos que a média das restantes sondagens realizadas para as mesmas eleições.
3. Em duas dessas cinco vezes, a estimativa do CESOP ficou dentro dos limites do erro amostral.
Quer isto dizer que está tudo óptimo para mim? Não. Há quatro dos nove casos que me aborrecem: as legislativas de 2002 e as Europeias de 1999, em que apesar de termos subestimado o CDS-PP menos do que a média das restantes sondagens, as estimativas ficaram fora do erro amostral; Lisboa 2005, em que sobrestimámos a votação no CDS-PP (pouco) mais do que admissível pelo erro amostral ; e as legislativas de 2005, em que subestimámos o CDS-PP mais do que a média das restantes sondagens e fora do erro amostral.
Dito isto, espero que tenha ficado claro que a afirmação "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS" é falsa. Não tem outra classificação possível. Primeiro, porque a Católica não costuma "falhar redondamente" nas "previsões" sobre o CDS. Segundo, porque quando a Católica subestimou o CDS-PP, subestimou-o quase sempre menos que a média das restantes sondagens. Isto não impede que reflictamos sobre a possibilidade de que haja um problema geral na estimação dos votos no CDS-PP, como tive a oportunidade a de discutir aqui há uns anos neste mesmo blogue. Mas isso não autoriza a afirmação citada.
1. Em nove eleições consideradas, a estimativa do CESOP esteve cinco vezes abaixo do resultado que o CDS-PP acabou por ter, e quatro vezes acima desse resultado.
2. Em quatro desses cinco vezes que subestimou o resultado do CDS-PP, o CESOP subestimou-o menos que a média das restantes sondagens realizadas para as mesmas eleições.
3. Em duas dessas cinco vezes, a estimativa do CESOP ficou dentro dos limites do erro amostral.
Quer isto dizer que está tudo óptimo para mim? Não. Há quatro dos nove casos que me aborrecem: as legislativas de 2002 e as Europeias de 1999, em que apesar de termos subestimado o CDS-PP menos do que a média das restantes sondagens, as estimativas ficaram fora do erro amostral; Lisboa 2005, em que sobrestimámos a votação no CDS-PP (pouco) mais do que admissível pelo erro amostral ; e as legislativas de 2005, em que subestimámos o CDS-PP mais do que a média das restantes sondagens e fora do erro amostral.
Dito isto, espero que tenha ficado claro que a afirmação "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS" é falsa. Não tem outra classificação possível. Primeiro, porque a Católica não costuma "falhar redondamente" nas "previsões" sobre o CDS. Segundo, porque quando a Católica subestimou o CDS-PP, subestimou-o quase sempre menos que a média das restantes sondagens. Isto não impede que reflictamos sobre a possibilidade de que haja um problema geral na estimação dos votos no CDS-PP, como tive a oportunidade a de discutir aqui há uns anos neste mesmo blogue. Mas isso não autoriza a afirmação citada.
O post aqui fica, como registo, e para aqui farei ligação quando voltar a ouvir o "lapso" (vamos designá-lo com benevolência) do costume. Da maior parte das pessoas que agitam esta ideia, que espero ter mostrado ser comprovadamente falsa, não espero que venham agora a público corrigir as suas afirmações. A não ser de um: Paulo Pinto de Mascarenhas. É o único caso em que vou ficar desapontado se aguardar em vão.
P.S. Diogo Belford Henriques faz várias perguntas sobre este assunto. Primeiro, quer saber os resultados das sondagens do CESOP vários meses antes das eleições de 2002 e 2005. Com todo o gosto. Em ambos os casos, os resultados confirmam a ideia de "late surge" (mas falamos apenas de duas eleições, e ver ponto 4 deste post). Em 2002, as duas sondagens imediatamente anteriores à última davam, respectivamente, 3% e 5%. Em Novembro de 2004, 3%.
Duas notas sobre isto. Primeiro, não tenho dados destes sobre as outras sondagens, pelo que não posso contextualizar isto. Também se passou o mesmo nas outras? Não sei. Segundo, não, este facto não sugere que se deva rever o "método da estimativa". A meses das eleições, quem faz sondagens quer medir intenções e, para além disso, apresentar os resultados de forma comparável aos de uma eleição para esclarecimento dos eleitores. Não quer e não deve "forçar" os resultados para que uma sondagem feita a meses das eleições dê supostamente os resultados que vão ocorrer meses depois, especialmente (ver mais abaixo) quando não faz a mínima ideia sobre como o poderia fazer. Claro que a dias das eleições também quer fazer o mesmo. Mas a diferença é crucial: a dias das eleições, há boas razões para supor que sondagens feitas exactamente ao mesmo tempo hão-de ser afectadas (ou não) pelas mesmas mudanças do eleitorado quando se trata de comparar as suas estimativas com resultados eleitorais. E boas razões para supor que, a dias das eleições, as mudanças que ocorram não serão tão dramáticas como as que podem ocorrer a meses ou mesmo semanas de distância. Daí que, nessas, faça sentido compará-las com resultados eleitorais, exigir-lhes precisão e indagar sobre razões que podem aumentar ou diminuir essa precisão. Nas outras, estas questões não se podem colocar da mesma forma, como o próprio Diogo reconhece.
Em segundo lugar, DBH quer conhecer as freguesias. Mando-lhas por e-mail.
Finalmente, permanece uma confusão que parece resistir a qualquer explicação, mas lá vai outra tentativa. Quando afirma que há um "padrão de subvalorização do resultado de um partido por um método de sondagem" e que "o normal seria questionar o método", DBH ignora o quadro que diz ter lido com júbilo: é que não se descortina um padrão de subvalorização do resultado do partido por razões metodológicas. Há sondagens onde o CDS é subestimado pela generalidade das sondagens, outras onde é sobrestimado. Casos onde sondagens presenciais (como a do CESOP) sobestimaram o CDS e outros onde o subestimaram. Casos onde sondagens telefónicas fizeram uma coisa ou outra. Etc, etc, etc. Eu gostava de saber o que está por detrás destes padrões, mas a não ser que me esteja a escapar algo, são erráticos.
As únicas coisas claras são:
1. Há mais casos onde as sondagens subestimaram o CDS-PP do que casos em que o tenham sobrestimado. É sobre isto que falava no post citado por DBH. Desconheço as razões. E como desconheço, não posso, nem ninguém em seu perfeito juízo pode, fazer correcções ad hoc para um fenómeno que é, de resto, muito menos frequente do que DBH sugere.
2. Quando há subestimação, o CESOP subestima quase sempre menos que a média das restantes,e várias vezes o faz dentro do erro amostral (ou seja, não se pode falar, nesse caso, de qualquer tipo de subestimação "real"). É isto, de resto, que mais me aborrece na leviandade dos comentários feitos por algumas pessoas do CDS-PP.
Repito: compreendo perfeitamente a frustração de alguém que trabalha num partido e se vê perante uma sondagem desfavorável. Mas o máximo que se pode pedir a quem faz sondagens é que use os melhores métodos que conhece para dizer ao público quais são as intenções de voto do eleitorado e outras opiniões prevalecentes num dado momento. Não se pode exigir que responda às frustrações dos partidos introduzindo correcções cegas e inadequadas em face de um track record passado e que não fornece suficiente informação, nem que queira, com sondagens, prever os resultados de uma eleição a um mês ou mais de distância.
E já agora, de outro ponto de vista: para quê tanto dramatismo? Se há sinais de que pode ter existido um late surge nas duas legislativas mais recentes é porque uma mera sondagem não teve os efeitos tão bombásticos que DBH lhe atribui. Ao dramatizarem agora este assunto e ao chamarem a atenção para ele, por vezes de forma tão evidentemente incorrecta e manipulativa (não é o caso do seu post, que agradeço), não estarão algumas pessoas do CDS-PP a criar precisamente aquilo que gostariam de evitar?
Desculpem a resposta tão longa. Sobre isto, estou convencido que não há mais a dizer da minha parte.
Europeias e legislativas.
Num comentário a um post abaixo, uma questão muito interessante. "Não é estranho que o resultado da sondagem CESOP para as legislativas seja tão parecido com o resultado das europeias?"
A minha primeira reacção, automática, quando olhei para os resultados pela primeira vez, foi pensar que sim. Fiquei a matutar nas razões. Por um lado, como vimos, são raros os eleitores que conhecem os cabeças de lista ou a data das eleições. É perfeitamente possível que, nesta fase, estejam a responder à pergunta das europeias da mesma forma que responderiam a uma pergunta sobre legislativas. Isto pode vir a dissipar-se com o tempo, à medida que a eleição se tornar mais "sobre as europeias" ou, pelo menos, sobre os cabeças de lista. Acresce a isto que as duas perguntas foram feitas no mesmo inquérito às mesmas pessoas. Houve uma separação clara entre elas, e a pergunta sobre as europeias foi prececida de uma série de estímulos específicos sobre essas eleições. Mas não se pode excluir a possibilidade de "contaminação".
Mas depois lembrei-me de que esta eleição europeia é atípica, no sentido em que se dá no final do ciclo eleitoral das legislativas. Já se sabe que isso costuma implicar uma punição menor para os grandes partidos em geral e para o governo em particular. Em Portugal é também assim, pelo menos a julgar pelo único caso em que as europeias precederam as legislativas por poucos meses, em 1999. E quais foram os resultados nessas duas eleições?
Europeias, Junho de 1999:
PS: 43,1%
PSD: 31,1%
PCP-PEV: 10,3%
CDS-PP: 8,2%
BE: 1,8%
Legislativas, Outubro de 1999:
PS: 44,1%
PSD: 32,3%
PCP-PEV: 9,0%
CDS-PP: 8,3%
BE: 2,4%
Olhando para isto, e mesmo (ou especialmente) tendo em conta que os níveis de participação eleitoral foram muito diferentes (61% nas legislativas, 40% nas europeias), a minha preocupação agora é que os resultados das sondagens possam não ter sido suficientemente semelhantes...
A minha primeira reacção, automática, quando olhei para os resultados pela primeira vez, foi pensar que sim. Fiquei a matutar nas razões. Por um lado, como vimos, são raros os eleitores que conhecem os cabeças de lista ou a data das eleições. É perfeitamente possível que, nesta fase, estejam a responder à pergunta das europeias da mesma forma que responderiam a uma pergunta sobre legislativas. Isto pode vir a dissipar-se com o tempo, à medida que a eleição se tornar mais "sobre as europeias" ou, pelo menos, sobre os cabeças de lista. Acresce a isto que as duas perguntas foram feitas no mesmo inquérito às mesmas pessoas. Houve uma separação clara entre elas, e a pergunta sobre as europeias foi prececida de uma série de estímulos específicos sobre essas eleições. Mas não se pode excluir a possibilidade de "contaminação".
Mas depois lembrei-me de que esta eleição europeia é atípica, no sentido em que se dá no final do ciclo eleitoral das legislativas. Já se sabe que isso costuma implicar uma punição menor para os grandes partidos em geral e para o governo em particular. Em Portugal é também assim, pelo menos a julgar pelo único caso em que as europeias precederam as legislativas por poucos meses, em 1999. E quais foram os resultados nessas duas eleições?
Europeias, Junho de 1999:
PS: 43,1%
PSD: 31,1%
PCP-PEV: 10,3%
CDS-PP: 8,2%
BE: 1,8%
Legislativas, Outubro de 1999:
PS: 44,1%
PSD: 32,3%
PCP-PEV: 9,0%
CDS-PP: 8,3%
BE: 2,4%
Olhando para isto, e mesmo (ou especialmente) tendo em conta que os níveis de participação eleitoral foram muito diferentes (61% nas legislativas, 40% nas europeias), a minha preocupação agora é que os resultados das sondagens possam não ter sido suficientemente semelhantes...
Legislativas. CESOP/Católica, 25-26 Abril, N=1244, Presencial.
PS: 41%
PSD: 34%
BE: 12%
CDU: 7%
CDS-PP: 2%
OBN: 4%
Mais detalhes aqui.
Em grande medida, esta sondagem CESOP/Católica mostra continuidades com o estudo anterior (de Dezembro passado) e com outras sondagens de outros institutos. O PS continua a ser o partido com mais intenções de voto, como em todas as sondagens de todos os institutos realizadas desde, pelo menos, Novembro de 2005. Da mesma forma, está aquém da maioria absoluta, como em quase todos os estudos divulgados desde o "caso da licenciatura". O Bloco de Esquerda, que nos dois estudos anteriores do CESOP estava praticamente empatado com a CDU, passa-lhe desta vez à frente, na linha das outras sondagens entretanto divulgadas. Francisco Louçã continua a ser o líder partidário avaliado mais favoravelmente pelos eleitores, ao passo que José Sócrates continua em terreno negativo. A avaliação que é feita do governo pela maioria dos eleitores - e não apenas pelos votantes prováveis - continua também negativa: 61% classificam-no como "mau" ou "muito mau", contra 60% no estudo de Dezembro. E da mesma forma, a maioria (54%, contra 56% em Dezembro passado) continua a achar que nenhum partido da oposição faria melhor que o actual governo se estivesse no poder. Até a votação no CDS-PP, que nas últimas sondagens do CESOP tem aparecido com valores particularmente baixos, não foge àquilo que a tem caracterizado nos últimos meses: uma enorme instabilidade. Em todas as sondagens feitas desde Outubro, mesmo retirando as do CESOP, o CDS tem obtido valores que oscilam entre os 4% e os 10%.
Dito isto, estes resultados suscitam uma questão interessante. Uma das tendências do conjunto de todas as sondagens conduzidas por todos os institutos desde 2005 é a de uma aparente diminuição da bipartidarização do sistema, expressa na soma de votos do PS e do PSD. Nas eleições de 2005, PS e PSD obtiveram, em conjunto, 74% dos votos. Mas se olharmos para todas as sondagens conduzidas nos últimos seis meses, são raros os casos em que essa soma correspondeu a mais de 70%. Este estudo, contudo, recoloca a soma dos dois partidos em 75%, dada a subida do PSD em quatro pontos percentuais desde Dezembro. Várias hipóteses se levantam aqui. A primeira, que não podemos excluir, é que esta sondagem não esteja a captar, por razões metodológicas difíceis de inventariar ou por mero erro amostral, essa real queda do Bloco Central. A segunda é que, pelo contrário, a queda do Bloco Central tenha sido algo sobrestimada por outras sondagens. A verdade é que as sondagens do CESOP nunca apontaram para perdas tão drásticas como as de outros institutos (o valor mais baixo desde 2005 foi, precisamente, o de Dezembro passado, 71%). E a terceira, mais interessante, é que a aproximação das eleições esteja agora a reconduzir eleitores aos principais partidos - especialmente ao PSD - , motivados, entre outras coisas, por considerações de natureza estratégica (ou seja, pelo "voto útil"). Teremos de esperar por mais estudos (ou pelas próprias eleições) para percebermos qual delas (se alguma) é a mais plausível.
(comentário publicado também em versão abreviada no DN; o título foi atribuído pelo jornal)
PSD: 34%
BE: 12%
CDU: 7%
CDS-PP: 2%
OBN: 4%
Mais detalhes aqui.
Em grande medida, esta sondagem CESOP/Católica mostra continuidades com o estudo anterior (de Dezembro passado) e com outras sondagens de outros institutos. O PS continua a ser o partido com mais intenções de voto, como em todas as sondagens de todos os institutos realizadas desde, pelo menos, Novembro de 2005. Da mesma forma, está aquém da maioria absoluta, como em quase todos os estudos divulgados desde o "caso da licenciatura". O Bloco de Esquerda, que nos dois estudos anteriores do CESOP estava praticamente empatado com a CDU, passa-lhe desta vez à frente, na linha das outras sondagens entretanto divulgadas. Francisco Louçã continua a ser o líder partidário avaliado mais favoravelmente pelos eleitores, ao passo que José Sócrates continua em terreno negativo. A avaliação que é feita do governo pela maioria dos eleitores - e não apenas pelos votantes prováveis - continua também negativa: 61% classificam-no como "mau" ou "muito mau", contra 60% no estudo de Dezembro. E da mesma forma, a maioria (54%, contra 56% em Dezembro passado) continua a achar que nenhum partido da oposição faria melhor que o actual governo se estivesse no poder. Até a votação no CDS-PP, que nas últimas sondagens do CESOP tem aparecido com valores particularmente baixos, não foge àquilo que a tem caracterizado nos últimos meses: uma enorme instabilidade. Em todas as sondagens feitas desde Outubro, mesmo retirando as do CESOP, o CDS tem obtido valores que oscilam entre os 4% e os 10%.
Dito isto, estes resultados suscitam uma questão interessante. Uma das tendências do conjunto de todas as sondagens conduzidas por todos os institutos desde 2005 é a de uma aparente diminuição da bipartidarização do sistema, expressa na soma de votos do PS e do PSD. Nas eleições de 2005, PS e PSD obtiveram, em conjunto, 74% dos votos. Mas se olharmos para todas as sondagens conduzidas nos últimos seis meses, são raros os casos em que essa soma correspondeu a mais de 70%. Este estudo, contudo, recoloca a soma dos dois partidos em 75%, dada a subida do PSD em quatro pontos percentuais desde Dezembro. Várias hipóteses se levantam aqui. A primeira, que não podemos excluir, é que esta sondagem não esteja a captar, por razões metodológicas difíceis de inventariar ou por mero erro amostral, essa real queda do Bloco Central. A segunda é que, pelo contrário, a queda do Bloco Central tenha sido algo sobrestimada por outras sondagens. A verdade é que as sondagens do CESOP nunca apontaram para perdas tão drásticas como as de outros institutos (o valor mais baixo desde 2005 foi, precisamente, o de Dezembro passado, 71%). E a terceira, mais interessante, é que a aproximação das eleições esteja agora a reconduzir eleitores aos principais partidos - especialmente ao PSD - , motivados, entre outras coisas, por considerações de natureza estratégica (ou seja, pelo "voto útil"). Teremos de esperar por mais estudos (ou pelas próprias eleições) para percebermos qual delas (se alguma) é a mais plausível.
(comentário publicado também em versão abreviada no DN; o título foi atribuído pelo jornal)
sábado, maio 02, 2009
Dois a mais
Um senhor chamado António Carlos Monteiro, que parece que é deputado e já foi Presidente do Conselho de Administração da EMEL, "vereador a meio tempo na CML" e "docente na Universidade Moderna" (ena) esteve há momentos na RTP-N a dizer que, nas últimas regionais dos Açores, o CDS-PP teve o dobro dos votos que aquilo que uma sondagem da Católica previa. Para quem estiver a ver, queria só informar que não faço ideia do que está este senhor a falar. Por um lado, o CESOP/Católica não conduziu qualquer sondagem antes do dia das eleições nos Açores. Por outro lado, na sondagem à boca das urnas, o CESOP estimou que o CDS-PP teria um valor entre 7 e 9 por cento. Teve 8,7%. No Twitter, há outra pessoa - ou será a mesma - que acha que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade.
Ainda bem que eu sei que o CDS-PP não é só isto. Caso contrário, ficaria a pensar que 2% de votos eram dois a mais.
Ainda bem que eu sei que o CDS-PP não é só isto. Caso contrário, ficaria a pensar que 2% de votos eram dois a mais.
Sondagens, esta e as outras
No post abaixo, há perguntas e respostas. Quero apenas esclarecer dúvidas, mas é inevitável que, perante certos comentários, passe à defensiva (ou, como neste caso mais infeliz, mais à ofensiva). Mas não deixem que o facto de estar a explicar (e num certo sentido, claro, "defender") a sondagem faça com que percam a bola de vista. E a bola, para esta sondagem como para todas as outras, é esta:
1. Uma sondagem é só uma sondagem. Precisamos de mais para perceber se o que aqui aparece estará a captar algo real ou será fruto de erro aleatório ou outro problema qualquer. Os resultados do PS e do PSD parecem-me muito congruentes com o que ando a dizer sobre isto há algum tempo. Mas claro que estou surpreendido com os resultados da CDU e do CDS-PP. Surpreendido, mas não disposto a trocar estes resultados por "intuições" ou outras "crenças".
2. Esta sondagem, apesar de, do ponto de vista temporal, estar a uma distância curta das eleições, está, pelos vistos, para os eleitores, a uma distância mental imensa. Quando mais de 80% das pessoas recenseadas não sabem que são os cabeças de lista do PS ou do PSD, e quando mesmo entre os simpatizantes de cada partido, os valores são superiores a 70%, isto significa que há muito muito caminho para percorrer.
1. Uma sondagem é só uma sondagem. Precisamos de mais para perceber se o que aqui aparece estará a captar algo real ou será fruto de erro aleatório ou outro problema qualquer. Os resultados do PS e do PSD parecem-me muito congruentes com o que ando a dizer sobre isto há algum tempo. Mas claro que estou surpreendido com os resultados da CDU e do CDS-PP. Surpreendido, mas não disposto a trocar estes resultados por "intuições" ou outras "crenças".
2. Esta sondagem, apesar de, do ponto de vista temporal, estar a uma distância curta das eleições, está, pelos vistos, para os eleitores, a uma distância mental imensa. Quando mais de 80% das pessoas recenseadas não sabem que são os cabeças de lista do PS ou do PSD, e quando mesmo entre os simpatizantes de cada partido, os valores são superiores a 70%, isto significa que há muito muito caminho para percorrer.
sexta-feira, maio 01, 2009
Subscrever:
Mensagens (Atom)
