segunda-feira, maio 04, 2009

O CDS-PP e as sondagens

Eu sei que os partidos e aqueles que com eles simpatizam têm de reagir de qualquer forma a sondagens que pareçam desfavoráveis. Têm de as desvalorizar, especialmente para fins de consumo interno, de forma a aquietar a oposição dentro do partido e não deixar os apoiantes esmorecerem. Tudo isso é perfeitamente compreensível e não costumo comentar. Cada macaco no seu galho.

O problema, contudo, é quando se fazem afirmações que colidem, de forma comprovável, com a realidade. Essas, lamento, não posso deixar passar. Já mencionei um deputado do CDS-PP que imaginou uma sondagem inexistente do CESOP. E agora, quer em comentários abaixo quer em num post de Paulo Pinto Mascarenhas, aparece a ideia de que "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS."

Sugiro que dêem uma vista de olhos no quadro abaixo. Contém, para as eleições mais recentes em que o PP concorreu sozinho e para as quais o CESOP fez sondagens, assim como para todas as legislativas e europeias com as mesmas características:

- as estimativas para o CDS-PP da última sondagem publicada pelo CESOP antes das eleições;
- a média dos resultados das restantes sondagens;
- o resultado do CDS-PP nas eleições;
- o confronto entre as estimativas do CESOP e a média das restantes sondagens com os resultados reais;
- o erro amostral associado às estimativas feitas pelo CESOP para o CDS-PP, tendo em conta a dimensão da amostra e pressupondo aleatoriedade;
- se a estimativa ficou, no confronto com o resultado, dentro do erro amostral.


Quem queira olhar para isto, verificará o seguinte:

1. Em nove eleições consideradas, a estimativa do CESOP esteve cinco vezes abaixo do resultado que o CDS-PP acabou por ter, e quatro vezes acima desse resultado.
2. Em quatro desses cinco vezes que subestimou o resultado do CDS-PP, o CESOP subestimou-o menos que a média das restantes sondagens realizadas para as mesmas eleições.
3. Em duas dessas cinco vezes, a estimativa do CESOP ficou dentro dos limites do erro amostral.

Quer isto dizer que está tudo óptimo para mim? Não. Há quatro dos nove casos que me aborrecem: as legislativas de 2002 e as Europeias de 1999, em que apesar de termos subestimado o CDS-PP menos do que a média das restantes sondagens, as estimativas ficaram fora do erro amostral; Lisboa 2005, em que sobrestimámos a votação no CDS-PP (pouco) mais do que admissível pelo erro amostral ; e as legislativas de 2005, em que subestimámos o CDS-PP mais do que a média das restantes sondagens e fora do erro amostral.

Dito isto, espero que tenha ficado claro que a afirmação "a Católica costuma falhar redondamente nas previsões sobre o CDS" é falsa. Não tem outra classificação possível. Primeiro, porque a Católica não costuma "falhar redondamente" nas "previsões" sobre o CDS. Segundo, porque quando a Católica subestimou o CDS-PP, subestimou-o quase sempre menos que a média das restantes sondagens. Isto não impede que reflictamos sobre a possibilidade de que haja um problema geral na estimação dos votos no CDS-PP, como tive a oportunidade a de discutir aqui há uns anos neste mesmo blogue. Mas isso não autoriza a afirmação citada.

O post aqui fica, como registo, e para aqui farei ligação quando voltar a ouvir o "lapso" (vamos designá-lo com benevolência) do costume. Da maior parte das pessoas que agitam esta ideia, que espero ter mostrado ser comprovadamente falsa, não espero que venham agora a público corrigir as suas afirmações. A não ser de um: Paulo Pinto de Mascarenhas. É o único caso em que vou ficar desapontado se aguardar em vão.
P.S. Diogo Belford Henriques faz várias perguntas sobre este assunto. Primeiro, quer saber os resultados das sondagens do CESOP vários meses antes das eleições de 2002 e 2005. Com todo o gosto. Em ambos os casos, os resultados confirmam a ideia de "late surge" (mas falamos apenas de duas eleições, e ver ponto 4 deste post). Em 2002, as duas sondagens imediatamente anteriores à última davam, respectivamente, 3% e 5%. Em Novembro de 2004, 3%.
Duas notas sobre isto. Primeiro, não tenho dados destes sobre as outras sondagens, pelo que não posso contextualizar isto. Também se passou o mesmo nas outras? Não sei. Segundo, não, este facto não sugere que se deva rever o "método da estimativa". A meses das eleições, quem faz sondagens quer medir intenções e, para além disso, apresentar os resultados de forma comparável aos de uma eleição para esclarecimento dos eleitores. Não quer e não deve "forçar" os resultados para que uma sondagem feita a meses das eleições dê supostamente os resultados que vão ocorrer meses depois, especialmente (ver mais abaixo) quando não faz a mínima ideia sobre como o poderia fazer. Claro que a dias das eleições também quer fazer o mesmo. Mas a diferença é crucial: a dias das eleições, há boas razões para supor que sondagens feitas exactamente ao mesmo tempo hão-de ser afectadas (ou não) pelas mesmas mudanças do eleitorado quando se trata de comparar as suas estimativas com resultados eleitorais. E boas razões para supor que, a dias das eleições, as mudanças que ocorram não serão tão dramáticas como as que podem ocorrer a meses ou mesmo semanas de distância. Daí que, nessas, faça sentido compará-las com resultados eleitorais, exigir-lhes precisão e indagar sobre razões que podem aumentar ou diminuir essa precisão. Nas outras, estas questões não se podem colocar da mesma forma, como o próprio Diogo reconhece.
Em segundo lugar, DBH quer conhecer as freguesias. Mando-lhas por e-mail.
Finalmente, permanece uma confusão que parece resistir a qualquer explicação, mas lá vai outra tentativa. Quando afirma que há um "padrão de subvalorização do resultado de um partido por um método de sondagem" e que "o normal seria questionar o método", DBH ignora o quadro que diz ter lido com júbilo: é que não se descortina um padrão de subvalorização do resultado do partido por razões metodológicas. Há sondagens onde o CDS é subestimado pela generalidade das sondagens, outras onde é sobrestimado. Casos onde sondagens presenciais (como a do CESOP) sobestimaram o CDS e outros onde o subestimaram. Casos onde sondagens telefónicas fizeram uma coisa ou outra. Etc, etc, etc. Eu gostava de saber o que está por detrás destes padrões, mas a não ser que me esteja a escapar algo, são erráticos.
As únicas coisas claras são:
1. Há mais casos onde as sondagens subestimaram o CDS-PP do que casos em que o tenham sobrestimado. É sobre isto que falava no post citado por DBH. Desconheço as razões. E como desconheço, não posso, nem ninguém em seu perfeito juízo pode, fazer correcções ad hoc para um fenómeno que é, de resto, muito menos frequente do que DBH sugere.
2. Quando há subestimação, o CESOP subestima quase sempre menos que a média das restantes,e várias vezes o faz dentro do erro amostral (ou seja, não se pode falar, nesse caso, de qualquer tipo de subestimação "real"). É isto, de resto, que mais me aborrece na leviandade dos comentários feitos por algumas pessoas do CDS-PP.
Repito: compreendo perfeitamente a frustração de alguém que trabalha num partido e se vê perante uma sondagem desfavorável. Mas o máximo que se pode pedir a quem faz sondagens é que use os melhores métodos que conhece para dizer ao público quais são as intenções de voto do eleitorado e outras opiniões prevalecentes num dado momento. Não se pode exigir que responda às frustrações dos partidos introduzindo correcções cegas e inadequadas em face de um track record passado e que não fornece suficiente informação, nem que queira, com sondagens, prever os resultados de uma eleição a um mês ou mais de distância.
E já agora, de outro ponto de vista: para quê tanto dramatismo? Se há sinais de que pode ter existido um late surge nas duas legislativas mais recentes é porque uma mera sondagem não teve os efeitos tão bombásticos que DBH lhe atribui. Ao dramatizarem agora este assunto e ao chamarem a atenção para ele, por vezes de forma tão evidentemente incorrecta e manipulativa (não é o caso do seu post, que agradeço), não estarão algumas pessoas do CDS-PP a criar precisamente aquilo que gostariam de evitar?
Desculpem a resposta tão longa. Sobre isto, estou convencido que não há mais a dizer da minha parte.

Europeias e legislativas.

Num comentário a um post abaixo, uma questão muito interessante. "Não é estranho que o resultado da sondagem CESOP para as legislativas seja tão parecido com o resultado das europeias?"

A minha primeira reacção, automática, quando olhei para os resultados pela primeira vez, foi pensar que sim. Fiquei a matutar nas razões. Por um lado, como vimos, são raros os eleitores que conhecem os cabeças de lista ou a data das eleições. É perfeitamente possível que, nesta fase, estejam a responder à pergunta das europeias da mesma forma que responderiam a uma pergunta sobre legislativas. Isto pode vir a dissipar-se com o tempo, à medida que a eleição se tornar mais "sobre as europeias" ou, pelo menos, sobre os cabeças de lista. Acresce a isto que as duas perguntas foram feitas no mesmo inquérito às mesmas pessoas. Houve uma separação clara entre elas, e a pergunta sobre as europeias foi prececida de uma série de estímulos específicos sobre essas eleições. Mas não se pode excluir a possibilidade de "contaminação".

Mas depois lembrei-me de que esta eleição europeia é atípica, no sentido em que se dá no final do ciclo eleitoral das legislativas. Já se sabe que isso costuma implicar uma punição menor para os grandes partidos em geral e para o governo em particular. Em Portugal é também assim, pelo menos a julgar pelo único caso em que as europeias precederam as legislativas por poucos meses, em 1999. E quais foram os resultados nessas duas eleições?

Europeias, Junho de 1999:
PS: 43,1%
PSD: 31,1%
PCP-PEV: 10,3%
CDS-PP: 8,2%
BE: 1,8%

Legislativas, Outubro de 1999:
PS: 44,1%
PSD: 32,3%
PCP-PEV: 9,0%
CDS-PP: 8,3%
BE: 2,4%

Olhando para isto, e mesmo (ou especialmente) tendo em conta que os níveis de participação eleitoral foram muito diferentes (61% nas legislativas, 40% nas europeias), a minha preocupação agora é que os resultados das sondagens possam não ter sido suficientemente semelhantes...

Legislativas. CESOP/Católica, 25-26 Abril, N=1244, Presencial.

PS: 41%
PSD: 34%
BE: 12%
CDU: 7%
CDS-PP: 2%
OBN: 4%

Mais detalhes aqui.

Em grande medida, esta sondagem CESOP/Católica mostra continuidades com o estudo anterior (de Dezembro passado) e com outras sondagens de outros institutos. O PS continua a ser o partido com mais intenções de voto, como em todas as sondagens de todos os institutos realizadas desde, pelo menos, Novembro de 2005. Da mesma forma, está aquém da maioria absoluta, como em quase todos os estudos divulgados desde o "caso da licenciatura". O Bloco de Esquerda, que nos dois estudos anteriores do CESOP estava praticamente empatado com a CDU, passa-lhe desta vez à frente, na linha das outras sondagens entretanto divulgadas. Francisco Louçã continua a ser o líder partidário avaliado mais favoravelmente pelos eleitores, ao passo que José Sócrates continua em terreno negativo. A avaliação que é feita do governo pela maioria dos eleitores - e não apenas pelos votantes prováveis - continua também negativa: 61% classificam-no como "mau" ou "muito mau", contra 60% no estudo de Dezembro. E da mesma forma, a maioria (54%, contra 56% em Dezembro passado) continua a achar que nenhum partido da oposição faria melhor que o actual governo se estivesse no poder. Até a votação no CDS-PP, que nas últimas sondagens do CESOP tem aparecido com valores particularmente baixos, não foge àquilo que a tem caracterizado nos últimos meses: uma enorme instabilidade. Em todas as sondagens feitas desde Outubro, mesmo retirando as do CESOP, o CDS tem obtido valores que oscilam entre os 4% e os 10%.

Dito isto, estes resultados suscitam uma questão interessante. Uma das tendências do conjunto de todas as sondagens conduzidas por todos os institutos desde 2005 é a de uma aparente diminuição da bipartidarização do sistema, expressa na soma de votos do PS e do PSD. Nas eleições de 2005, PS e PSD obtiveram, em conjunto, 74% dos votos. Mas se olharmos para todas as sondagens conduzidas nos últimos seis meses, são raros os casos em que essa soma correspondeu a mais de 70%. Este estudo, contudo, recoloca a soma dos dois partidos em 75%, dada a subida do PSD em quatro pontos percentuais desde Dezembro. Várias hipóteses se levantam aqui. A primeira, que não podemos excluir, é que esta sondagem não esteja a captar, por razões metodológicas difíceis de inventariar ou por mero erro amostral, essa real queda do Bloco Central. A segunda é que, pelo contrário, a queda do Bloco Central tenha sido algo sobrestimada por outras sondagens. A verdade é que as sondagens do CESOP nunca apontaram para perdas tão drásticas como as de outros institutos (o valor mais baixo desde 2005 foi, precisamente, o de Dezembro passado, 71%). E a terceira, mais interessante, é que a aproximação das eleições esteja agora a reconduzir eleitores aos principais partidos - especialmente ao PSD - , motivados, entre outras coisas, por considerações de natureza estratégica (ou seja, pelo "voto útil"). Teremos de esperar por mais estudos (ou pelas próprias eleições) para percebermos qual delas (se alguma) é a mais plausível.

(comentário publicado também em versão abreviada no DN; o título foi atribuído pelo jornal)

sábado, maio 02, 2009

Dois a mais

Um senhor chamado António Carlos Monteiro, que parece que é deputado e já foi Presidente do Conselho de Administração da EMEL, "vereador a meio tempo na CML" e "docente na Universidade Moderna" (ena) esteve há momentos na RTP-N a dizer que, nas últimas regionais dos Açores, o CDS-PP teve o dobro dos votos que aquilo que uma sondagem da Católica previa. Para quem estiver a ver, queria só informar que não faço ideia do que está este senhor a falar. Por um lado, o CESOP/Católica não conduziu qualquer sondagem antes do dia das eleições nos Açores. Por outro lado, na sondagem à boca das urnas, o CESOP estimou que o CDS-PP teria um valor entre 7 e 9 por cento. Teve 8,7%. No Twitter, há outra pessoa - ou será a mesma - que acha que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade.

Ainda bem que eu sei que o CDS-PP não é só isto. Caso contrário, ficaria a pensar que 2% de votos eram dois a mais.

Sondagens, esta e as outras

No post abaixo, há perguntas e respostas. Quero apenas esclarecer dúvidas, mas é inevitável que, perante certos comentários, passe à defensiva (ou, como neste caso mais infeliz, mais à ofensiva). Mas não deixem que o facto de estar a explicar (e num certo sentido, claro, "defender") a sondagem faça com que percam a bola de vista. E a bola, para esta sondagem como para todas as outras, é esta:

1. Uma sondagem é só uma sondagem. Precisamos de mais para perceber se o que aqui aparece estará a captar algo real ou será fruto de erro aleatório ou outro problema qualquer. Os resultados do PS e do PSD parecem-me muito congruentes com o que ando a dizer sobre isto há algum tempo. Mas claro que estou surpreendido com os resultados da CDU e do CDS-PP. Surpreendido, mas não disposto a trocar estes resultados por "intuições" ou outras "crenças".

2. Esta sondagem, apesar de, do ponto de vista temporal, estar a uma distância curta das eleições, está, pelos vistos, para os eleitores, a uma distância mental imensa. Quando mais de 80% das pessoas recenseadas não sabem que são os cabeças de lista do PS ou do PSD, e quando mesmo entre os simpatizantes de cada partido, os valores são superiores a 70%, isto significa que há muito muito caminho para percorrer.

sexta-feira, maio 01, 2009

quarta-feira, abril 29, 2009

domingo, abril 26, 2009

EU Profiler

Aí está o EU Profiler. Há semelhanças com instrumentos anteriores, como o Political Compass, o Moral Politics ou o Political Matrix. Mas a diferença aqui, tal como no original KiesKompas ou no Smartvote, é que a aplicação está explicitamente concebida não para posicionar ideologicamente o inquirido em abstracto, mas sim para conciliar isso com o que se passa num contexto eleitoral concreto. Há partidos ou candidatos, esses partidos e candidatos têm posições, e o que a aplicação faz é comparar as posições dos inquiridos com as dos partidos. O sucesso disto na Holanda e na Bélgica tem sido brutal: mais de 10% dos eleitores reportam, em inquéritos pós-eleitorais, ter recorrido a uma voter advice application.

Normalmente, estas aplicações presumem a existência de duas dimensões: uma de "esquerda/direita" socioeconómica e outra de "conservador/progressista" no domínio dos valores sociais. O EU Profiler assume que estes temas escalam numa mesma dimensão e transformam a segunda numa dimensão pró-anti Europeia. Percebo a ideia, tendo em conta que as eleições são europeias e que é preciso dar peso a esse aspecto. Mas na verdade, a dimensão pró-anti Europeia tende a escalar com o conservadorismo-progressismo: "support for European integration tends to be high among parties that can be characterised as Green/Alternative/Libertarian (GAL) and low among parties that rather qualify as Traditional/Authoritarian/Nationalist (TAN)". Logo, pode haver aqui um problema.

Outra dificuldade é que, apesar do esforço louvável para tornar o inquérito mais próximo de cada contexto eleitoral e de permitir que sirva como "voting advice", a verdade é que todas as respostas continuam a ser medidas numa escala "abstracta" esquerda/direita ou pró/anti integração. Assim, eu percebo que se pergunte, por exemplo, pelo referendo europeu. Mas tenho dúvidas sobre como se codificam as respostas: ser-se pelo uso do referendo é ser-se pró ou anti-integração? Da mesma forma, questões sobre o TGV ou a regionalização ajudam a que nos aproximemos de conflitos políticos concretos, mas como se codificam as respostas numa escala esquerda/direita?

Numa ou noutra perguntas, a tradução poderia estar melhor (o que significa "tornar a imigração mais restritiva"?) mas enfim. Dito tudo isto, parece-me bom nesta aplicação, apesar de tudo, o esforço de contextualização, a preocupação com medir a saliência de cada tema para as pessoas, o esforço em documentar o posicionamento dos partidos com textos de programas, moções e declarações públicas, e a flexibilidade da ferramenta (permitindo comparações focalizadas). E uma declaração de interesses: estou neste momento a trabalhar com outras pessoas na possibilidade de adaptar esta aplicação para as eleições legislativas. Todos os comentários e opiniões que nos façam chegar sobre o EU Profiler são bem vindos.

sábado, abril 25, 2009

Autárquicas, Lisboa. Aximage, 21-23 Abril, N=600, Tel. (revisto)

PS:36,1%
PSD/CDS-PP/PPM/MPT:29,6%
CDU:8,4%
Cidadãos por Lisboa: 7,1%
BE:3,8%

Aqui. A notícia não diz quantos dos restantes 15% são votos brancos, nulos, noutros partidos ou indecisos.

P.S.- Um amigo fez-me chegar os resultados completos. Aqui vão:

Com indecisos:
PS:36,1%
PSD/CDS-PP/PPM/MPT:29,6%
CDU:8,4%
Cidadãos por Lisboa: 7,1%
BE:3,8%
OBN: 5,2%
Indecisos: 9,8%

Redistribuição proporcional:
PS:40%
PSD/CDS-PP/PPM/MPT:32,8%
CDU:9,3%
Cidadãos por Lisboa: 7,9%
BE:4,2%
OBN: 5,8%

Europeias. Intercampus, 17-22 Abril, N=1201, Tel.

PS: 34%
PSD: 33,5%
BE: 18%
CDU: 7,9%
CDS-PP: 6,9%

Aqui. A soma disto é 100,3%, pelo que, pelos vistos, na redistribuição, se terá presumido que não há votos noutros partidos, nem em branco, nem nulos.

Uma sondagem é só uma sondagem, mas como esta é a única até agora, o melhor, por isso mesmo, é -la em perspectiva. Se os resultados acabassem por ser estes, estariam em linha com as previsões aqui para o PSD, mas mais longe para os outros partidos. E seriam muito maus para todos os partidos menos o BE. O PS só teve resultados piores em eleições europeias em 1987 e 1989. Um partido de governo só teve resultados piores que estes em 1989 e 2004. O PSD só teve resultados piores em 1989 e 2004. A CDU nunca teve menos de 9%. E o CDS-PP, sozinho, nunca teve menos de 8%.

5ª feira há mais.

terça-feira, abril 21, 2009

Uma teoria da dissonância cognitiva

Como não pude ver o Prós e Contras de ontem, fui tentar saber o que se passou aqui. Mas descubro que, afinal, a sucessão de comentários é uma bela homenagem a este livro.

Meirinho

Manuel Meirinho, do ISCSP, tem um blogue que vou seguir a partir de hoje: Homo Civicus. Qualquer dia, não sobra gente da Ciência Política fora da blogosfera. Parece-me bem.

quinta-feira, abril 16, 2009

Participação nas europeias e os resultados do EB71

Foram divulgados oficialmente os resultados do Eurobarómetro da Primavera de 2009, onde se tratam vários temas ligados às próximas eleições europeias. No Eleições 2009, Vítor Dias apresenta alguns resultados.

O grande destaque noticioso tem sido dado à pergunta sobre a probabilidade de votar nas próximas europeias. A pergunta foi feita pedindo aos inquiridos que usassem uma escala entre 1 e 10, em que 1 significa que "de certeza não irá votar" e 10 significa que "de certeza irá votar". Quem analisou os dados apresenta as percentagens daqueles que respondem "9" e "10" como indicando que "provavelmente irá votar", e menciona-se que uma "pesquisa anterior indica que só as pessoas que avaliam a sua probabilidade de votar nos níveis 10 e 9, numa escala de 10, poderão de facto votar nas eleições."

Bem, não conheço a tal pesquisa, mas conheço os resultados do Eurobarómetro 61, da Primavera de 2004, onde se colocava exactamente a mesma pergunta. A percentagem daqueles que, na Primavera, responderam 9 e 10 na probabilidade de irem votar foi um bom preditor da participação eleitoral em Junho de 2004? "Só as pessoas que avaliam a probabilidade de votar nos níveis 10 e 9 poderão de facto votar nas eleições"? Disparate:


Em nove países, a participação real foi mais de 10 pontos superior à da percentagem de inquiridos que, na Primavera de 2004, eram aquilo que agora o EB descreve como "prováveis votantes". E em outros sete países, a participação real foi mais de 10 pontos inferior à dos "prováveis votantes" da Primavera de 2004. Para o conjunto dos países, a correlação entre a percentagem de "prováveis votantes" e a participação real é de 0,6, o que não sendo irrelevante também não é nada famoso para algo que se apresenta como um "preditor".

Porquê? Bem, era um projecto de investigação em si mesmo, mas há desde logo algumas pistas possíveis. Parece haver uma tendência para que, em países de voto obrigatório actual ou recente, a participação acabe por ser superior àquilo que os inquiridos indicam como sendo a sua participação provável. Importava também ver circunstâncias especiais de cada eleição: se houve outras eleições recentes, deprimindo a participação; se houve eleições legislativas pouco depois, potencialmente aumentado o interesse na eleição; se houve outras eleições simultâneas à europeia em 2004 (e houve nalguns casos), aumentando a participação; etc.
Não excluo nada a hipótese (pelo contrário) de que, na base destas e de outras informações, se pudesse chegar a um bom modelo preditivo da participação em Junho. Mas o que importa perceber é que as inferências directas sobre a participação provável para Junho na base da probabilidade declarada de voto dos eleitores no EB71 são algo precipitadas...
P.S.-Parto do princípio que os dados apresentados pela rapaziada do Eurobarómetro sobre a probabilidade de votar dizem respeito às sub-amostras dos inquiridos com 18 e mais anos, e não à totalidade da amostra usada no Eurobarómetro (15 e mais anos). Mas se for a segunda, então os resultados são ainda mais problemáticos como meio de inferência sobre o que se irá passar em Junho...

segunda-feira, abril 13, 2009

O precedente e a regra

Num artigo recente no Público, Vasco Campilho afirma que "o precedente faz regra: o próximo Presidente da Comissão Europeia será membro do partido que vencer a nível europeu".

Mas atenção: a regra é que o Conselho nomeia um candidato a Presidente da Comissão por maioria qualificada, nomeação essa que depois é aceite ou não pelo Parlamento Europeu. E o Parlamento volta a votar a totalidade da composição da Comissão, Presidente incluído. Logo, da regra resulta apenas que quem o Conselho nomear precisa de não ser bloqueado por uma maioria no Parlamento. Ora, para ser mais concreto, tendo em conta os resultados prováveis das eleições de Junho, isto exige que os Liberais se juntem ao EPP e aos Conservadores britânicos para dar uma maioria ao candidato do EPP, em vez de se juntarem a outros grupos parlamentares para o bloquearem. Garantido? Bem, "ni pour ni contre".

domingo, abril 12, 2009

Aximage, 1-3 Abr., N=600, Tel.

Resultados com redistribuição proporcional de indecisos:
PS:39,9% (40,2%)
PSD:26,3% (25,2%)
BE:13,2% (13,2%)
CDU:10,8% (9,5%)
CDS:6,0% (7,1%)
OBN:4,0% (4,7%)

Resultados brutos:
PS:38,1% (38,3%)
PSD:25,1% (24,0%)
BE:12,6% (12,6%)
CDU:10,3% (9,0%)
CDS:5,7% (6,8%)
OBN:3,8% (4,5%)
Indecisos:4,3% (4,8%)

Aqui.

sábado, abril 11, 2009

Previsões europeias

Tem circulado na blogosfera um estudo de Simon Hix, Michael Marsh e Nick Vivyan onde se prevê a composição do Parlamento Europeu que resultará das eleições de Junho. Há até um site: Predict09.eu.

O que Hix, Marsh e Vivyan fazem é pressupôr que a votação de cada partido é uma função dos resultados desse partido numa sondagem conduzida alguns meses antes da eleição e da votação desse partido nas Europeias anteriores. Para além disso, se esse partido for um partido de governo ou eurocéptico, usa-se também informação sobre os resultados anteriores nas legislativas. E caso seja um partido no governo, toma-se em conta o facto desse partido estar ou não no primeiro ano de mandato.

Quem tiver lido o paper de que falei aqui, percebe que há alguma teoria por detrás disto: 

- partidos de governo são especialmente castigados nas Europeias, a não ser que estejam em "lua de mel";
- partidos Eurocéticos tendem a dar-se melhor nas Europeias que nas legislativas.

Que tal se têm portado estas previsões? Em 2004, Hix e Marsh previam um PE assim (em percentagem de deputados; entre parêntesis, o desvio da previsão em relação aos resultados reais):

EPP-ED: 38,9% (+2,3%)
PES: 29,6% (+2,3%)
ELDR: 10,0% (-2,0%)
EUL/NGL:5,3% (-0,3%)
G/EFA:5,5% (-0,2%)
UEN:3,8% (+0,1%)

Nada mau. Desta vez, prevêm isto:

Mas atenção: uma boa previsão do PE não é necessariamente uma boa previsão para todas e cada uma das eleições europeias em cada país. Para 2004, por exemplo, Hix e Marsh previam, para Portugal, o seguinte:
Bem, a verdade é que PSD+CDS somaram 33,3% (e não 46,6%), elegendo 9 deputados (e não 12). A previsão subestimou o PS, a CDU e o BE. Por isso, algum cuidado com as previsões aqui, especialmente tendo em conta que quem lhes está a fazer as análises para Portugal detecta, com a previsão de 31% para o PSD, uma quebra de 2,3 pontos, o que só mostra alguma distracção. Como é óbvio, 31% só será uma quebra para o PSD se esquecermos que, em 2004, concorreu coligado com o CDS-PP. O que a previsão para 2009 está a dizer, pelo contrário, é que, se PSD+CDS valiam 33,3% em 2004, agora valeriam 40,8%.

Mas são detalhes. Em geral, o modelo, ao nível máximo de agregação (a distribuição de deputados do PE) parece funcionar muito bem.

sexta-feira, abril 03, 2009

E agora...

Um intervalo de uns dias enquanto vou aqui, almoçar aqui, jantar aqui e embebedar-me e ir à caça à raposa com este (três das anteriores são verdadeiras).

Portugal nos índices internacionais de "bom governo"

A propósito de um comentário mais abaixo, fui ver como estamos. Os índices são construídos de maneiras diferentes, com objectivos e pressupostos normativos diferentes e englobando conjuntos de países diferentes. Não tenho tempo para me alargar nos detalhes, mas deixo as ligações para quem queira investigar. As posições são dadas em relação ao conjunto dos países da OCDE (são 30) e em relação às "novas democracias" da OCDE (são 10) e para os períodos temporais mais aproximados entre si que foi possível:

Bertelsmann Foundation Management Index (2007-2008) Portugal 20º; entre as novas democracias, (depois da Coreia do Sul, da Eslováquia e da Hungria).

World Bank Governance Indicators (2007, calculei a média dos 6 indicadores): Portugal 20º; entre as novas democracias, .

World Economic Forum Global Competitiveness Index (2007-2008): Portugal 23º, entre as novas democracias, (depois de Coreia do Sul, Espanha e República Checa).

Heritage Foundation Index of Economic Freedom (2007-2008): Portugal 25º; entre as novas democracias, .

Há mais coisas, sob perspectivas diferentes, tais como o Product Market Regulation Index (mas faltam dados para alguns países) ou, pelo lado do grau de democracia, a Polity IV ou a Freedom House (mas nestes não há variância para as democracias mais avançadas, como a nossa, e o que está sob estudo é algo diferente). E haverá mais índices deste género? Digam coisas.

Isto é bom? É mau? Meio cheio? Meio vazio? Não sei. Eu não fico satisfeito com menos do que o 1º lugar e, para além disso, o conjunto da OCDE pode ajudar a que nos posicionemos melhor (faltam aqui muitas outras "novas democracias"). Mas concordo que, deste ponto de vista, parece que o mundo não nos vê assim tão profundamente atolados como nós próprios vemos. Enfim, o costume.

Actualizações

A base de dados sobre as estimativas de resultados eleitorais divulgadas nas sondagens foi actualizada. A das avaliações dos líderes ainda não.

Eurosondagem, 25-31 Março, N=1011, Tel.

PS: 39,6% (39,0%)
PSD: 29,6% (28,3%)
BE: 9,6% (10,4%)
CDU: 9,4% (9,6%)
CDS-PP: 7,0% (7,7%)
OBN: 4,8% (5,0%)

Aqui e aqui.

quarta-feira, abril 01, 2009

Deliberação da ERC

Sobre alegada manipulação de sondagens, denunciada pelo deputado Agostinho Branquinho. Noto que há um voto contra e duas declarações de voto. Confesso que tenho curiosidade em conhecê-las, mas creio que não estão disponíveis no site.

terça-feira, março 31, 2009

Sustainable Governance Indicators 2009

A Fundação Bertelsmann contactou 90 pessoas nos 30 países da OCDE e pediu-lhes que elaborassem um relatório estruturado sobre quatro aspectos da governação no seu país: desempenho económico e em várias áreas das políticas públicas; a qualidade da democracia; as capacidades do executivo para fazer reformas e a responsabilização política dos governos perante os eleitores. Os dois primeiros serviram para elaborar um "Status Index" (a necessidade de reformas) e os dois segundos um "Management Index" (a capacidade para fazer essas reformas). O período analisado vai desde 2004 a 2007, ou seja, no fundamental, à primeira parte do mandato do actual governo (full disclosure: fui uma das três pessoas em Portugal que redigiu um destes relatórios).

Os resultados estão neste site. Os resultados gerais para Portugal estão aqui, e existe um relatório mais pormenorizado para Portugal, que assinala os aspectos em que os "peritos" contactados divergiram mais seriamente na sua análise. Se bem que esteja lá muita coisa em que não me revejo, não me custa concordar com o tom geral, tal como aplicado ao período 2004-2007. Mas ao reler tudo fico com a ideia de que algumas coisas mudaram na 2ª parte do mandato ou, pelo menos, que a observação da 2ª parte do mandato me levaria a rever algumas das conclusões. Mas aí está. Principais resultados:

Status:
"At rank 20, Portugal's status performance is below average. Profound socioeconomic disparities and weak economic performance are mitigated somewhat by well-developed democratic institutions and a proactive integration policy". Os únicos aspectos em que estamos acima da média é na área da segurança (baixa criminalidade) e integração dos imigrantes. Os aspectos em que estamos pior são a situação socioeconómica do país e o nível de coesão social.

Management:
"At rank 19, Portugal's management performance is below average. Although the government generally has achieved its policy objectives, its strategic planning at times lacks substance." Os aspectos em que estamos acima da média tem a ver com a capacidade do executivo transformar propostas em legislação. Os aspectos em que estamos pior têm a ver com a implementação das políticas, o planeamento estratégico, a medição dos impactos das políticas e a capacidade de parlamento e cidadãos controlarem a acção do governo.

Eleições europeias

Num número do Journal of Politics de 2007, está um artigo intitulado "Punishment or Protest? Understanding European Parliament Elections", de Simon Hix e Michael Marsh. Algumas citações:

"First, starting with the old15 states, governing parties certainly lose. Nevertheless, the results from models 2 and 3 reveal that large governing parties lose more than small parties in government. Second, the results on the variables that capture the cubic effect of party size reveal that larger parties lose votes, while small parties gain votes and medium-sized parties remain stable, regardless of whether these parties are in government or opposition. Third, we find a relationship between the timing of a European election in a national electoral cycle and the extent of government losses. More precisely, there is a “honeymoon effect”, such that governing parties gain votes in European elections when these are held shortly after a national election, as was the case in Britain in 1979 and in Spain and Greece in 2004."

" The first result to note is that adding party family, European policy positions, and left-right positions to the mix does not change the main results of the second-order elections model as it applies in the old15 member states. Basically, large governing parties lose votes in European elections (if the election is not held immediately after a national election), regardless of their party family, whether they are pro-European or anti-European, or whether they are on the left, the right or at the extremes. This result is robust across all specifications. In other words, big parties tend to lose regardless of their policy stances, a finding that supports the second order explanation over the Europe-matters explanation, with voters following their hearts rather than heads."

" Nevertheless, differences in the performance of parties in European elections are not only explicable in terms of the second-order national elections framework. There is some evidence that a party’s position on the EU matters. In fact, extreme anti EU parties gain some almost 4 more percentage points more than those who are neutral (scoring -0.5 or +0.5 on the anti/pro scale), while those who are extremely positive gain almost a point more than those who are neutral."

"Small parties gain and large parties, particularly large government parties once an initial honeymoon is over, lose. This fairly mechanical formulation accounts for almost 40% of the apparent volatility we see in the performance of parties between national elections and European elections. We also found, nonetheless, that even when size and government status are held constant, anti-EU parties do much better than average. Green parties also perform relatively well, and socialist parties relatively poorly, although these differences are small. These outcomes do seem to be motivated by European concerns of voters. However, in substantive terms, these are minor effects. For example, anti-EU parties are relatively rare, and for the other party families, their European policy preferences hardly mark a difference. (...) Broadly speaking, then, our results point to “punishment against governments” rather than “protest against the EU” as a primary force making European elections different from national elections. The exceptions to this are perhaps just that, exceptions."

"Turning to the bigger picture, there has been a dramatic increase in the power of the European Parliament in the last two decades and there is growing evidence that politics inside this assembly is highly competitive and partisan (e.g. Hix et al. 2006). However, after six rounds of direct-elections to this institution the ‘electoral connection’ between citizens and MEPs remains extremely weak. Citizens do not primarily use European Parliament elections to express their preferences on the policy issues on the EU agenda or to reward or punish the MEPs or the parties in the European Parliament for their performance in the EU. Put another way, European Parliament elections have failed to produce a democratic mandate for governance at the European level, and there are few signs that further increases in the powers of the European Parliament would be sufficient to change this situation."

À atenção da rapaziada neste novo (e bem vindo) blogue.




Zoom

A maior parte das perguntas que recebo por e-mail têm a ver com a comparação entre os dois gráficos anteriores e a questão da "descida" do PS. Qual é o "melhor" gráfico?

Bem, vejamos a coisa assim:

1. O gráfico que contém todas as estimativas - vamos chamar-lhe "Mr. Smoother" - faz o seu trabalhinho da seguinte forma: pega em cada observação e transforma-a numa observação "amaciada", usando para esse efeito um sub-conjunto de observações na sua vizinhança (no caso, 25% do total das observações) e dando dando mais peso àquelas que estão mais próximas. Juntando os pontos "amaciados" ficamos com uma linha cuja variabilidade é inferior à real variabilidade dos dados e que, desejavalmente, nos permite visualizar melhor tendências sem estarmos a ser confundidos por ruído aleatório.

O problema de Mr. Smoother é que é um bocadinho ingénuo: se eu lhe atirar com 50 sondagens de um instituto e uma de outro para cima, ele ignora esse facto e continua com o seu trabalhinho como se nada fosse. Mas compensa essa ingenuidade com um sólido conservadorismo: como "tempera" cada observação com informação das observações vizinhas, Mr. Smoother não se deixa enganar facilmente por flutuações irrelevantes e, para dizer que algo está a mudar, exige ser convencido e persuadido repetidamente. Só se lhe mostrar várias observações consecutivas que apontam na mesma direcção é que ele se decide a dizer que algo está a mudar. Não lhe fica mal.

2. O Dr. House Effects (PhD) é toda uma outra personalidade: chega ao fim de um mês e grita "Subiu!", "Desceu!", "Não mudou!" em comparação com o mês anterior. E diz estas coisas mesmo se eu só lhe mostrar uma sondagem para esse mês. Como é que a criatura se arrisca a dizer uma coisa destas? Bem, a diferença entre o Dr. House Effects e o Mr. Smoother é que o primeiro, quando diz qualquer coisa, olha para todas as observações desde 2005. E sabe uma coisa sobre cada uma delas que o Mr. Smoother resolve ignorar: que instituto fez cada sondagem.

Tomando essa informação em conta, o Dr. House Effects apura que, ao longo de todo o período, há institutos que tendem a dar melhores ou piores resultados para um determinado partido. E quando lhe dizem que um determinado resultado veio de um determinado instituto, o Dr. House Effects toma essa informação em conta para estimar um resultado para cada mês. Ele não diz que esse resultado é o resultado "certo". Esse assunto não o interessa. O que lhe interessa é dar resultados mensais comparáveis uns com os outros, independentemente do "mix" particular de institutos que fizeram sondagens em cada mês. Gosta de arriscar e pode-se mais facilmente espatifar, ao contrário do Sr. Smoother. Mas é menos ingénuo que o seu colega.

Como vêem nos dois posts anteriores, o Dr. House Effects anda há uns tempos a gritar: "Hey, o PS subiu bastante de Setembro para Outubro, mas a partir de Dezembro começou a descer novamente!". Mr. Smoother já tinha percebido a subida há algum tempo, mas demorava a ser convencido da descida. Mas com as últimas sondagens, começa também a achar que sim. O Dr. House Effects grita: "por que é que não olhaste para as tendências por instituto? Eu tinha-te dito!":




Mr. Smoother não quer saber e vai continuar como dantes. Antes tarde e seguro que cedo e errado.

O "zoom" mostra também que não é fácil apurar causas destas coisas. Na Marktest é limpinho: PS sobe após à crise financeira e desce após o caso Freeport. Mas os resultados das outras sondagens são compatíveis com outras hipóteses, nomeadamente a de que a descida não passa de um retomar de uma tendência anterior.

quinta-feira, março 26, 2009

Finalmente

O programa de investigação sobre comportamento eleitoral que coordeno com a Marina Costa Lobo no ICS tem finalmente um site apresentável. Vão lá ver. Este ano haverá muita coisa para lá pôr.

Antecipação

Aconselho aos outros maluquinhos das sondagens que adiantem já a leitura da seguinte passagem das fichas técnicas das sondagens eleitorais da Marktest, explicando a forma como são ponderados os resultados brutos:

Projecção com base na ponderação da amostra considerando o voto em eleições anteriores
A projecção apresentada da intenção de voto para a totalidade dos eleitores não pode ser feita linearmente considerando a elevada percentagem de lares excluídos da amostra efectiva pelo não contacto, pelas ausências e recusas e cujo comportamento não será necessariamente representado pelos respondentes.
Para garantir que a amostra é representativa do eleitorado, em cada mês, é perguntado ao entrevistado em que partido votou nas últimas eleições legislativas , Fevereiro 2005. Com base nestes resultados a amostra é reequilibrada por forma a poder ajustar-se fielmente à estrutura dos resultados eleitorais de 2005. Nesta ponderação é utilizado o processo de "rim-weighting" que é um processo iterativo o qual para alem de reproduzir os resultados eleitorais de 2005, mantêm a composição da amostra no que respeita às variáveis de controlo: região, sexo, idade. Após este procedimento são retabulados as respostas sobre a intenção de voto actual, obtém-se a estimativa da intenção de voto. O valor dos Voto em Branco/Outros/Nulos, é ajustado ao valor médio obtido nos dois últimos actos eleitorais para a Assembleia da República. Estes resultados são apresentados ao cliente como sendo resultado de uma previsão da responsabilidade da Marktest, com base nos resultados da sondagem.


Sobre a prática de ponderar os resultados na base de recordação de voto, ler, por exemplo, Weighting, no UK Polling Report, especialmente a secção intitulada "Political weighting".

E pronto: já libertei o fim de semana.

P.S.- Boas hipóteses, mas a resposta é difícil. Se a Marktest divulgar a distribuição das respostas à pergunta sobre a recordação de voto a coisa fica mais fácil. Capazes disso são eles, espero.

segunda-feira, março 23, 2009

Ainda JM

Por mera curiosidade, já encontrei a passagem relevante para o post anterior. Não me recordava dos pormenores, mas o fundamental está correcto:

"O Sr. Jorge Miranda (ASDI): Por um lado, quanto às entidades com poder genérico de iniciativa, verifica-se que, da parte da FRS, se mantêm as actualmente constantes do n.° 1 do artigo 281.° e se acrescenta uma referência a grupo parlamentar. O PCP, em vez da referência a grupo parlamentar, indica um determinado número de deputados. Julgo ser mais correcta a posição do PCP do que a posição constante do projecto da FRS, porque um grupo parlamentar pode hoje ser formado por um número extremamente reduzido de deputados e convém que a iniciativa, no domínio da apreciação da inconstitucionalidade, não seja aberta sem quaisquer cautelas. Parece-me também que o número proposto pelo PCP - um décimo do número de deputados- é um número razoável e vai ao encontro das preocupações de harmonização que deve haver neste domínio. É um domínio particularmente sensível, em que não se trata de desencadear uma qualquer acção política -se fosse isso, valeria a pena dar-se a qualquer grupo parlamentar, mesmo que formado por 2 deputados, tal poder -, mas, pelo contrário, trata-se de algo em que apenas a partir de certo número de deputados deve haver possibilidade de uma intervenção do Tribunal Constitucional.
(...)
O Sr. Presidente [Borges de Carvalho (PPM)]: Registe-se a posição notavelmente altruísta do Sr. Deputado Jorge Miranda, de que eu não seria, evidentemente, capaz.

(...)
O Sr. Nunes de Almeida (PS): O deputado Jorge Miranda colocou-me, como deve calcular, numa situação difícil. Esta proposta da FRS tinha em conta os pequenos grupos parlamentares, já que era subscrita por deputados de um chamado partido grande e de dois partidos pequenos. O Dr. Jorge Miranda libertou-nos, de certa forma. Não podia, em nome de todos, retirar o que cá está, pois não está presente a UEDS. Restaria, portanto, essa questão.
(...)
O Sr. Jorge Miranda (ASDI) - Sr. Presidente, relativamente à minha intervenção onde, de forma algo extemporânea, me referi aos grupos parlamentares, valeria a pena dizer que, por um lado, se aqui aparecem os grupos parlamentares, foi por bondade ou por consideração específica que o PS teve em relação aos outros dois grupos subscritores do projecto da FRS. Foi também, para falar com toda a franqueza, tendo em vista a discussão a travar nesta Comissão. Desde o momento em que aparece uma fórmula, como a do PCP, que parece preferível, da nossa parte não há nenhum problema, até porque, repito, esta matéria da fiscalização da constitucionalidade se situa muito para além da defesa dos interesses políticos deste ou daquele grupo parlamentar. Temos de tomar em consideração a necessidade de evitar qualquer banalização da fiscalização. Um dos grandes perigos que pode haver no domínio da fiscalização da constitucionalidade é o da banalização, do abuso, da chicana constitucional. À partida, é de supor que um décimo dos deputados da Assembleia da República ponderarão, até devido à sua representatividade, mais uma qualquer solicitação ao Tribunal Constitucional do que um qualquer grupo parlamentar, formado, por hipótese, por 2, 3 ou 4 deputados. E nada impedirá que quaisquer deputados, individualmente considerados, integrantes de diversos grupos parlamentares, se juntem para o efeito. Além disso, esta solução tem a vantagem de valorizar o estatuto do deputado, a qual deve ser uma preocupação fundamental da revisão constitucional, com vista à consolidação do regime democrático em Portugal. Por tudo isto, congratulo-me com o princípio de consenso a que parece ter-se chegado."

In D.A.R. II Série, Suplemento ao nº 69, II Legislatura, 2ª sessão legislativa. Acta da reunião do dia 13 de Janeiro de 2002 da Comissão Eventual para a Revisão Constitucional, pp. 1-36.

domingo, março 22, 2009

Outlier: Jorge Miranda

Em tempos que já lá vão, quando fazia investigação para uma tese de doutoramento sobre o Tribunal Constitucional, encontrei uma passagem nos debates na AR em 1982 que me impressionou bastante. O que se debatia era uma coisa muito técnica, mas com implicações políticas importantes: a saber, a quantos deputados se deveria dar o direito de solicitar a fiscalização sucessiva das leis junto do TC. O projecto da FRS, à qual a ASDI de Jorge Miranda pertencia, previa que esse direito devia ser concedido a qualquer grupo parlamentar, ou seja, dando à ASDI (e à UEDS) o poder de solicitar essa fiscalização. O PCP, por seu lado, propunha 1/10 dos deputados, o que daria a si próprio essa possibilidade, mas não aos grupos parlamentares mais pequenos. A AD estava inicialmente contra a possibilidade de que os deputados pudessem sequer iniciar esta litigância, temendo que o PCP a usasse de forma desbragada.

Agora não tenho tempo para procurar as páginas do DAR onde o tema foi discutido, mas recordo a surpresa geral com que a intervenção de Jorge Miranda foi recebida. Miranda defendeu que, sabendo bem que o projecto da FRS convinha à ASDI, achava mal. Achava que os parlamentares deveriam poder iniciar a sucessiva, mas que importava colocar alguns limites, exigindo que uma proporção significativa de deputados subscrevessem o pedido, de forma a evitar uma trivialização da litigância constitucional. Lembro-me inclusivamente que ficou tudo tão pasmado com a sua intervenção que houve um deputado, não me recordo quem, que alertou Jorge Miranda para o facto de que a ideia que estava a defender ir prejudicar o seu próprio partido, mas que lhe agradecia a posição, dado que facilitaria o consenso. Ao que, se não erro, JM respondeu que tomava essa posição por questões de princípio, independentemente de isso ir prejudicar o seu grupo parlamentar. Acabou por haver acordo em torno da proposta do PCP e a ASDI ficou sem direito de iniciar a sucessiva.

Apesar de tudo o resto de muito mais importante que Jorge Miranda fez na sua vida, é disto que me lembro quando penso nele. Nunca tinha visto nada assim, e nunca mais voltei a ver.

Começa bem

"As sondagens são uma coisa e o que o povo pensa é outra."

Elisa Ferreira, em entrevista ao Correio da Manhã.

sexta-feira, março 20, 2009

Menções de políticos na imprensa

O Abrupto mostra um exercício interessante enviado por um leitor: uma pesquisa no DN pelas expressões "passos coelho" e "ferreira leite", revelando que, para a primeira, existem 2826 resultados, enquanto que, para a segunda, apenas 1308.

Fiquei a pensar por que razão nunca me teria lembrado disto, e comecei logo a congeminar um quadro comparativo para os vários jornais que permitissem essa pesquisa. Contudo, quando fui ao DN, aconteceu-me isto (pesquisas no motor de busca da página de abertura, expressões entre aspas, aspas essas que não sei se estão a funcionar, dado desaparecerem dos resultados da pesquisa):



Passos Coelho, 2826 resultados; Ferreira Leite, 9008. Ora bolas. Mas continua a ser interessante. Seria óptimo se houvesse maneira de obter estes dados de forma realmente fiável, em série temporal, e jornal a jornal. As empresas de recortes não terão isto? Os agregadores de notícias não permitirão este tipo de análise?

quarta-feira, março 18, 2009

Greenberg, on solicitousness about public opinion.

"When you look at all of these leaders, you begin to realize, as you look across them, that they worked to be in tune with the public (...), they are reporting back on progress, they're engaged with people and trying to mobilize them at various times. They are trying to bring pressure on others, they're trying to educate people, they are trying to persuade, you know, and move people. And so, what is characteristic of these leaders, you know, was a solicitousness about public opinion, a sense of responsibility to educate and engage, which made them much more effective, in my sense made them more democratic leaders that produced an healthier society and healthier outcomes. (...) And that contrasts...what brought it home to me, more than anything, was George Bush and Vice-President Cheney. Cheney in particular. When asked by a reporter about, when we was in Iraq, noting that two-thirds of the American people thought the Iraq War was a mistake, and what he thought of that. And he paused, and his response was 'So?'. He said 'We don't drive our mission from focus groups and polls.' Maybe if they thought that part of their responsibility as leaders was to try to persuade, and engage, and educate, maybe they would have pursued different kinds of policies as they went forward."

Greenberg, again.

"Voters want their pound of flesh. You ran, you said you were going to do certain things... every one of these people [Blair, Clinton, Barak, Losada, Mandela] had immense difficulties doing what they said they were going to do. Either because they overpromised, because the economy turned out to be much tougher, the budgets had to be more austere, there were other power centers that came into play, they were not as strong as they thought they were, they were not as united as they thought they were ... all of them had trouble succeeding. So all of them faced a kind of renegotiation with the voter. And voters are willing to listen, if there's reality."

Podcast de conferência na Royal Society for the encouragement of Arts, Manufactures and Commerce (RSA) , 3 de Março de 2009, a propósito de Dispatches from the War Room.

terça-feira, março 17, 2009

Stanley Greenberg

"I begin with a respect for voters, and viewed my work, from the beginning, first as an academic and then as a political pollster in campaigns, as trying to figure out how to get leaders to respect people, how to make leaders more responsive, how to make them, ultimately, more accountable. The problem is that I'm now a pollster, a close cousin to spin-doctor, which has the profession, in American terms, of making shit shine. Of making things the opposite of what they are, manipulating, making reality...making reality seem the opposite of what it is. And so, the danger - and which I take as real, I didn't write this book as a defense of my profession or what I do - my starting point is that I'm not sure that the tools that I developed to make leaders more accountable to voters aren't in fact making leaders less accountable. I was particularly focused, as I wrote this book, on the United States, where there is building, building evidence of leaders holding on to power despite being out of touch with voters on an extraordinary range of issues. Leaders growing more arrogant, seeming they can avoid accountability. And my techniques are not a small part of the process of avoiding accountability. So my starting point is, am I in fact making the problem worse than I set out to solve?"

Podcast de conferência na Royal Society for the encouragement of Arts, Manufactures and Commerce (RSA) , 3 de Março de 2009, a propósito de Dispatches from the War Room.

segunda-feira, março 16, 2009

Contem-me como foi.

Colaboro com o Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Católica desde 1999. A partir do momento em que fiquei responsável pelas sondagens políticas, comecei a arquivar os resultados. O que mostro de seguida são as estimativas de resultados eleitorais desde essa altura, nas sondagens do CESOP/Católica, para o PS e o PSD, até à mais recente sondagem (Dezembro de 2008). São 29 sondagens, em regra trimestrais, mas cuja regularidade foi por vezes perturbada por razões de calendário eleitoral (das legislativas - maior regularidade - e de outras eleições - impondo maior espaçamento) e outros condicionalismos. As linhas de referência verticais são as eleições, com os respectivos resultados.

Se coloco aqui isto é porque me suscita uma questão muito simples. Para alguns, a resposta vai ser fácil: as sondagens não prestam, ou têm dificuldade em captar determinado tipo de eleitores em períodos longe das eleições, etc e tal. Tudo bem. Sinceramente, não excluo, mas gostava de perceber que argumentos existem. Mas para outros, a questão permanece: como foi que uma coisa destas aconteceu ao PSD?

P.S.- Por aqui a discussão vai boa.

sexta-feira, março 13, 2009

Mais gráficos

Há dias, numa apresentação que fiz no Museu Biblioteca República e Resistência, num ciclo organizado pelo ICSTE, mostrei uns gráficos. Há dois que gostava de mostrar aqui.

O primeiro mostra a soma das percentagens de votos válidos obtidos pelo PS e pelo PSD em cada eleição. Em 1979 e 1980, a votação do PSD é estimada como uma proporção do voto na AD, calculada na base da média dos resultados PSD, CDS e PPM nas eleições imediatamente anteriores e posteriores. E para 2009, os 67% são a estimativa das sondagens para Março de 2009, controlados "house effects". O que o gráfico diz é simples: se as eleições fossem hoje (eu sei, eu sei), PS e PSD teriam, no seu conjunto, o pior resultado desde as eleições de 1985.

O segundo gráfico repete esta informação mais adiciona uma série, a da soma dos votos válidos nos candidatos presidenciais apoiados pelo PS e pelo PSD (1º volta, quando houve duas). Exclui, no entanto, todas as eleições presidenciais onde o Presidente se apresentou a reeleição, por terem características muito diferentes.

Há uma "teoria" sobre a bipartidarização em Portugal que a vê como efeito das presidenciais, ou seja, como efeito da constituição de dois "blocos" em torno de dois principais candidatos, que ajudaria a cristalizar os votos em torno dos dois principais partidos. A "teoria" inversa - bipartidarização concentra votos nos candidatos dos dois principais partidos - é igualmente plausível e, confesso, nem sei bem por onde começaria para testar uma ou outra como deve ser. Mas a observação das duas séries é, digamos, sugestiva. Até para pensarmos em como as presidenciais de 2006 podem ter ajudado a "soltar" eleitores do PS...

quinta-feira, março 12, 2009

A popularidade de Sócrates

Eduardo Pitta comenta a peça do Público sobre a evolução da popularidade do PM, questionando-se sobre a fonte que os leva a dizer que Sócrates está em terreno negativo desde Maio de 2007.

Mesmo não tendo responsabilidades na peça, vamos ver se posso ajudar:

1. Os dados são da Marktest. Isso é mencionado no jornal. O gráfico do Público há-de ser muito parecido, por exemplo, com este que aqui publiquei, no que a Sócrates diz respeito, a não ser que me parece que o Público se limita a calcular o saldo "opiniões positivas" - "opiniões negativas", e eu corrijo esse saldo pelas não respostas.

2. É também verdade aquilo que Eduardo Pitta afirma: nos estudos da Eurosondagem divulgados no Expresso, na RR e na SIC, Sócrates está em terreno positivo.

3. De notar, contudo, que a comparação entre os resultados de um e outro instituto é complicada pelo facto de a Eurosondagem ter uma opção adicional de resposta: "nem boa nem má". Mas como venho mostrando aqui há muito tempo, isso não explica tudo. Os resultados da Eurosondagem para o PR exibem tendências muito semelhantes às da Marktest, mas não tanto no caso do PM. isto não é um juízo sobre quem "tem razão". Não faço ideia. É uma constatação de facto.

4. Eduardo Pitta já não tem razão quando diz que "a afirmação dos jornalistas contradiz todas — repito: todas — as sondagens encomendadas e divulgadas até hoje pelo próprio Público, pelo DN, pelo Correio da Manhã, pelo JN, pelo Expresso, pela RTP, pela SIC, pela TVI, pela Rádio Renascença, pela TSF, pela Visão, pela Sábado, etc."

4.1 Nas sondagens do CESOP/Católica, onde os líderes políticos são avaliados de outra forma - numa escala de 0 a 20 - Sócrates está, há algum tempo, em terreno negativo no que respeita à avaliação média dos eleitores (abaixo de 10 pontos). Em Janeiro de 2007, essa avaliação média era de 10,2 pontos. Em Maio de 2007, ainda 10,1. Mas em Outubro de 2007 já estava em 8,9, em Fevereiro de 2008 era de 9,3, em Julho de 2008 era 8,5, em Outubro de 2008 era 8,4, e em Dezembro passado 8,8. Logo, apesar dos indicadores serem diferentes, os resultados do CESOP (JN, RTP e Antena 1) são congruentes com os da Marktest, quer no momento da queda (após Maio de 2007) quer na ideia de uma recuperação ligeira após Outubro de 2008.

4.2 Os resultados do CESOP/Católica têm exibido bastantes semelhanças com os da Aximage, que usa o mesmo método: nota média de 0 a 20.Não tenho recolhido a série completa, mas para infirmar aquilo que Eduardo Pitta diz sobre as "outras sondagens" basta dizer que, em Dezembro passado, por exemplo, a média das avaliações de Sócrates na sondagem Aximage era 8,8 (tal como na sondagem da Católica).

5. Nada disto impede que a maioria dos eleitores tenha mais confiança em Sócrates como PM do que qualquer outro líder partidário, um dado que Eduardo Pitta também menciona e que é muito importante. Mas isso é outra questão.

quarta-feira, março 11, 2009

Pensionistas

Há dias, no lançamento de um livro, Pacheco Pereira terá afirmado que o PCP é um partido "alimentado por pensionistas". Li isto no Mirante, não consigo encontrar a notícia online e não sei bem em que contexto a afirmação foi feita. Mas certamente que não se refere a uma característica distintiva do PCP no âmbito do comportamento eleitoral em Portugal. Este e este quadros já chegariam, mas podemos ir mais longe:

Se há partidos onde os pensionistas tenham maior propensão para votar, é no PS e no partido de Pacheco Pereira.

The pulse of what people are thinking

No Pollster, Mark Blumenthal cita um recente perfil de David Axelrod, assessor principal de Obama, publicado no NYT. O artigo fala das "reuniões de 4ª feira à noite":

"Jon Favreau, the president’s chief speechwriter, said there was a familiar refrain during these meetings, with Mr. Axelrod urging the team not to become consumed by the insularity of Washington. 'Can I speak on behalf of the American people here?' he said Mr. Axelrod often asks aloud. That is precisely why, Mr. Axelrod said, he convened the Wednesday Night Meetings: to keep the pulse of what people were thinking. Locked in the White House all day, he added, he can no longer hear those voices on his own.

[T]he Wednesday night meetings suggest that
the strong belief in polling and focus groups from the campaign are alive in the White House. Joel Benenson, a pollster for Mr. Obama, is among the participants in the sessions. He said that Mr. Axelrod often asked one question above all: 'How do we make sure that the arguments from the president’s agenda are made in the most persuasive way?'

Foi (também) sobre isto que eu tentei escrever aqui.

segunda-feira, março 09, 2009

Bases de dados

No lado direito, passam a estar disponíveis duas folhas de Excel com os dados sobre as estimativas de intenção de voto e avaliações do Presidente, do Primeiro Ministro e do líder do PSD desde 2005. No que respeita às intenções de voto, procurei incluir todas as sondagens de que tive conhecimento, com os procedimentos, cautelas e omissões descritos aqui e aqui. No que respeita à popularidade, incluo apenas a Eurosondagem e a Marktest, por serem as séries mais longas.

Se detectarem erros, ficarei imensamente grato que mos apontem, para poder corrigir. Não garanto actualização tão regular para as bases como para os gráficos que vou apresentando, mas a verdade é que qualquer um de vós poderá, a partir de agora, usar estas bases para as actualizar. Se usarem estes dados para algum fim público, só peço que mencionem onde os encontraram.

sábado, março 07, 2009

Aximage, 2-5 Mar, N=600, Tel.

Resultados com redistribuição proporcional de indecisos:
PS:40,2% (40,0%)
PSD:25,2% (24,9%)
BE:13,2% (12,6%)
CDU:9,5% (9,6%)
CDS:7,1% (8,1%)
OBN:4,7% (4,9%)

Resultados brutos:
PS:38,3% (38,2%)
PSD:24,0% (23,8%)
BE:12,6% (12,0%)
CDU:9,0% (9,2%)
CDS:6,8% (7,7%)
OBN:4,5% (4,7%)
Indecisos:4,8% (4,5%)

Este é o tipo de resultados que, suspeito, os jornalistas detestam: nada para dizer a não ser falar de "subida de 0,1 pontos percentuais". A notícia está aqui. Obrigado aos leitores que foram, entretanto, deixando estes resultados nos comentários.

sexta-feira, março 06, 2009

Outlier: Out, liar.


Maybe not.


O marketing político não devia ser visto como uma disciplina completamente inútil

O Bloco Central


Actualização: estimativas mensais, controlados "house effects"


Notem a diferença em relação ao gráfico abaixo. Nesse, o smoother que capta a tendência é afectado pela contribuição diferente que diferentes institutos são para a mancha de pontos. Mas quando estimamos um resultado mensal onde se assumem efeitos fixos dos institutos de sondagem, o retrato é um pouco diferente: há um boost para o PS em Outubro (crise), mas lento declínio desde aí. PSD estabiliza após queda de Outubro. Ou se quiserem ver a coisa doutra forma, PSD não recupera do embate da segunda metade de 2008 ao passo que PS, após boost de curto-prazo trazido pela crise, retoma tendência anterior.

Actualização: estimativas de resultados eleitorais


Eurosondagem, 26 Fev-3 Mar, N= 1018, Tel.

PS: 39,0% (40,3%)
PSD: 28,3% (29,1%)
BE: 10,4% (10,1%)
CDU: 9,6% (8,8%)
CDS-PP: 7,7% (6,9%)
OBN: 5,0% (4,8%)

Aqui.

quarta-feira, março 04, 2009

"Personalização"

Os dados completos da última sondagem da Marktest já podem ser encontrados aqui. Há um gráfico que não mostro há muito tempo, o da popularidade dos líderes. Mostro de seguida os dados da Marktest (porque os da Eurosondagem, tal como apresentados no Expresso, estão sistematicamente incompletos de há meses para cá e o site da SIC é uma confusão pegada onde nunca se encontra nada). Cada valor corresponde ao saldo entre opiniões positivas e negativas, corrigido pela percentagem de não respostas.

Isto para dizer duas coisas. Primeiro, que a vida não está fácil para ninguém, Presidente incluído. Segundo, que concordando genericamente com o que a Marina diz sobre a "falta de novidade" da "personalização da política", isto (o "Movimento Sócrates 2009") é capaz de ser um bocadinho exagerado à luz daquilo que o "líder" parece ter para oferecer em valor eleitoral acrescentado.

segunda-feira, março 02, 2009

Outlier: o pluralismo da comunicação social.

A Presidência acaba de anunciar o veto do decreto que aprova "a Lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social". Os argumentos ligam-se ao facto de a Comissão Europeia estar ainda a discutir os critérios desse pluralismo, a utilização de conceitos indeterminados como "instrumentos de aferição reconhecidos no meio", à possível necessidade de intervenção do Estado no sector e a necessidade de "consenso político alargado para a aprovação de regras objectivas, claras e transparentes".

Interessam-me especialmente o segundo e quarto argumentos. Discuti-os aqui, há umas semanas, no blogue da Sedes. Como ficará óbvio da leitura desse post, acho que o veto era uma necessidade absoluta. Ainda bem que ocorreu.

domingo, março 01, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Outlier: "Lá Fora", no Museu da Electricidade.

O que se passa, assim muito rapidamente, é que a exposição tem coisas (e não são poucas) realmente boas. Acaba a 15 de Março.

O eleitorado português em 2005, 13

Termino como comecei:

"Portuguese society at the beginning of the period under examination here was the most unequal in terms of income distribution, and in the nineteen century shared a tradition of conflict between traditionalist religious believers and anticlericals with both Italy and Spain, and yet, with the partial exception of the PCP, does not have parties whose electorates are anchored in these cleavages."

O eleitorado português em 2005, 12


Mais de um em cada quatro eleitores da CDU em 2005 encontravam-se filiados num sindicato. A "infraestrutura" reencontra-se, em parte, com a "superestrutura".

O eleitorado português em 2005, 11


Com todas as cautelas sobre a fiabilidade dos dados sobre o rendimento do agregado familiar tal como recolhidas em inquéritos, é curiosa a ausência de relação entre, digamos assim, a "infraestrutura" e a "superestrutura", não sei se me faço entender.

O eleitorado português em 2005, 10


As diferenças são pequenas. Mas é curioso que o eleitorado do PS tenha sido o único onde as mulheres estiveram em maioria, e que o eleitorado da CDU seja o mais "masculinizado"

O eleitorado português em 2005, 9

Quando analisamos como se distribui o eleitorado de cada partido em termos das suas qualificações académicas, é evidente a diferença do BE e, em menor grau, do CDS-PP: uma forte presença de diplomados do ensino superior. Forte, digamos, em termos do país e do que se passa nos outros partidos.

O eleitorado português em 2005, 8

Outra maneira de olhar para a questão consiste em analisar não a predisposição deste ou daquele grupo social para votar neste ou naquele partido, mas sim a composição do eleitorado de cada partido do ponto de vista socio-demográfico. Começando pela idade:

É comum dizer-se que o eleitorado do PCP está "muito envelhecido". Mas isso não é mais verdade para o PCP do que para os restantes partidos. Com a excepção do BE, claro, que se distinguiu muito dos restantes no que respeita à composição etária do seu eleitorado em 2005.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

O eleitorado português em 2005, 7


Assim - e no gráfico anterior - se vê a força do Pêçê. E irá o PS dar-se bem aqui em 2009? Hum...

O eleitorado português em 2005, 6


PS e CDU receberam uma parcela desproporcional das opções dos votantes sindicalizados. Voltará a ser assim para o PS em 2009? Hum...

O eleitorado português em 2005, 5



Previsivelmente, os partidos da esquerda dão-se muito melhor junto do eleitorado menos religioso. Curioso, e conhecido, o facto de não haver relação entre a religiosidade e o voto no PS. É por isso que as coisas são assim.

O eleitorado português em 2005, 4



Duas notas. Primeiro, os dados obtidos através de inquéritos sobre o rendimento são reconhecidamente pouco fiáveis. Segundo - e isto aplica-se a todos os gráficos anteriores e seguintes - "correlação não é causalidade". E no entanto, joga bem com os dados sobre a instrução, não joga?

O eleitorado português em 2005, 3



Entre os votantes com maiores qualificações académicas, o CDS-PP e o BE tiveram claramente melhor desempenho que entre a generalidade dos votantes.

O eleitorado português em 2005, 2



Mulheres e homens não votam de maneiras que se possa dizer serem significativamente diferentes.

O eleitorado português em 2005, 1

Há uns tempos, no Twitter, perguntaram-me o que se sabia sobre a relação entre a composição social do eleitorado e o voto. Creio que se pode responder rapidamente dizendo aquilo que uma quantidade já muito razoável de estudos vem confirmando de há uns anos para cá: "the Portuguese electorate is relatively low in social-structural anchoring of partisanship"(1). Por outras palavras, são poucos e fracos os correlatos sociais do comportamento de voto em Portugal. Quem quiser explicar por que razão os portugueses votam neste ou naquele partido terá de olhar para outros factores, nomeadamente o posicionamento ideológico, a identificação partidária, a avaliação do estado da economia e a avaliação dos líderes partidários.

Dito isto, o exercício não é completamente inútil. O que se segue é uma série de gráficos que comparam as percentagens de voto em cada partido nas eleições de 2005 e o comportamento de voto declarado de alguns grupos sociais. Os dados são do inquérito pós-eleitoral de 2005 coordenado aqui no ICS no âmbito do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugueses. (2) A cinzento, os resultados eleitorais; a negro, as opções de voto válidas de diferentes grupos sociais. (3)
Começamos pela questão da idade, nomeadamente pelo comportamento de voto dos mais jovens. Falta aqui, claro, a abstenção, a opção que verdadeiramente triunfou entre os mais jovens. Mas se olharmos apenas para as opções de voto válidas, é fácil verificar que os mais jovens não são muito diferentes da generalidade do eleitorado nas escolhas que fazem. Excepção: o voto no BE. Entre os mais jovens, em 2005, o BE já era o terceiro partido.


(2) 5 Março a 8 de Maio de 2005; N=2801, aleatória estratificada por região e habitat; presencial; Continente. Coordenação geral de António Barreto e coordenação executiva de André Freire, Marina Costa Lobo e Pedro Magalhães.
(3) Os resultados da totalidade da amostra foram ponderados de acordo com os resultados eleitorais reais, de forma a corrigir desvios causados por não colaboração e não respostas.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Agradecimentos

Nalguns casos muito atrasados, ao Quarta República, ao Bios Politikos, ao Pensamentos, a o tempo das cerejas, ao Delito de Opinião, ao Vasco Campilho, ao Dissonância Cognitiva, ao Insurgente e ao Da Literatura. E espero não me estar a esquecer de ninguém.

Dispatches from the War Room

Um livro de Stanley Greenberg, pollster e consultor político, sobre o seu trabalho com Blair, Clinton, Mandela, Barak e Sánchez de Lozada.

Foi comentado toda a semana no Pollster.com. Já está no shopping cart. Pelos comentários, este é bem capaz de ser o livro mais importante sobre a relação entre as sondagens e a política publicado nos últimos anos.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Intervalo até ao fim da próxima semana

Entretanto, o meu filho de seis anos gosta imenso disto. Eu na idade dele gostava do Patolas Patatchim, o Pato Equilibrista.

Recordação

Resultados de uma sondagem CESOP/Católica, 4-5 Out. 2008, N=1297, presencial.

Acha que casais formados por pessoas do mesmo sexo deviam ter acesso ao casamento civil em iguais circunstâncias aos outros casais? (total da amostra):
Sim: 42%
Não: 53%
Não sabe: 4%
Recusa responder: 1%

Entre simpatizantes PS:
Sim: 47%
Não: 51%
Não sabe: 1%
Recusa responder: 1%

Entre simpatizantes PSD:
Sim: 29%
Não: 67%
Não sabe: 4%
Recusa responder: 0%

Das seguintes frases, qual a que mais se aproxima da sua posição?
Os casais formados por pessoas do mesmo sexo deviam ter acesso ao casamento civil em iguais circunstâncias aos outros casais :42%
Os casais de pessoas do mesmo sexo deviam poder celebrar uma união civil com os mesmos direitos e deveres de um casamento: 1%
Os casais de pessoas do mesmo sexo deviam poder celebrar uma união civil mas sem todos os direitos e deveres de um casamento: 4%
A lei devia limitar-se a reconhecer a existência de uniões de facto, como sucede hoje em dia: 11%
A lei não deveria reconhecer de forma alguma os casais formados por pessoas do mesmo sexo: 33%
Não sabe : 7%
Recusa responder: 3%


Um partido que tenha sobre este assunto uma posição diferente da sua é um partido no qual…
Nunca votaria: 35%
Poderia mesmo assim votar nesse partido: 49%
Não sabe: 14%
Não responde: 2%

Acha que deveria haver em Portugal um referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Sim: 51%
Não: 44%
Não sabe: 5%
Não responde: 1%

Mais detalhes, incluindo ficha técnica, aqui.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Aximage, 2-5 Fev, N=600, Tel.

Entre parêntesis, resultados de Janeiro:

Resultados com redistribuição proporcional de indecisos:
PS: 40,0% (40,2%)
PSD: 24,9% (25,1%)
BE:12,6% (12,3%)
CDU:9,6% (8,7%)
CDS:8,1% (8,3%)
OBN: 4,9% (5,5%)

Resultados brutos:
PS: 38,2% (37,3%)
PSD: 23,8% (23,3%)
BE:12,0% (11,4%)
CDU:9,2% (8,1%)
CDS:7,7% (7,7%)
OBN: 4,7% (5,1%)
Indecisos:4,5% (7,1%)

Aqui.

(Actualizado e corrigido um erro em relação à sondagem de Janeiro; espero que seja o último)

"Porque não telefonam para os telemóveis também?"

Pergunta-se num comentário. Aqui vai:

1. Custos de comunicação, tornando certo tipo de trabalhos economicamente inviáveis (tudo o que for sondagens para os media, por exemplo);
2. Perda da informação territorial que (por enquanto) ainda está associada aos números fixos. Há maneira de tentar resolver (obter a informação de residência na própria chamada) mas aí o ponto anterior ainda fica mais complicado.
3. Grande número de números válidos (com cartões SIM activados) mas sem utilização real (telefones desligados), provocando mensagens de voice mail, obrigando a novas tentativas durante o trabalho de campo que vão ser inevitavelmente fracassadas.
4. Falta de confiança nos dados sobre o universo. As estimativas dos domicílios cell-only em Portugal oscilam entre os 15% e os 48% (!!!).
5. A unidade de amostragem numa sondagem telefónica convencional é o domicílio, dentro do qual se selecciona aleatoriamente um indivíduo pertencente ao universo; a unidade de amostragem numa sondagem através de móvel é o indivíduo. Isto seria resolúvel se o ponto 4 não fosse o que é.

Acho que é isto. Não é por acaso que, até nos Estados Unidos, a utilização de telemóveis para sondagens políticas a sério só começou este ano e ainda a um nível algo experimental.

Mesma sondagem, títulos diferentes.

Sondagem: Socialistas em queda.

PS desce nas intenções de voto... mas PSD ainda cai mais

"O PSD tem muito mais razões para estar preocupado"

Bipartidarismo perde para a esquerda