sexta-feira, setembro 25, 2009
Na Alemanha também há eleições
Vale a pena visitar este site que foi sugerido por um leitor num comentário anterior.
Onde está a Eurosondagem?
Para estas eleições, a Rádio Renascença, a SIC e o Expresso decidiram não solicitar à Eurosondagem a realização de uma última sondagem antes das eleições, o que julgo ser inédito. Não conheço as razões, mas vou aqui presumir - e retiro o que escreverei de seguida se me disserem que a pressuposição está errada - que isto sucede em consequência do que se passou nas Europeias. É quase inútil dizer que estão no seu pleno direito. Mas atrevo-me a dizer que foi uma péssima decisão, por duas razões:
1. O público fica mais bem servido com mais sondagens e não com menos. Mais sondagens significa que ficamos a dispor de mais resultados com maior variabilidade de métodos. Por outras palavras, descontando erro amostral, ficamos a poder apreciar melhor se diferentes resultados se devem a diferentes opções técnicas ou metodológicas ou se os resultados são independentes delas. Mais sondagens significa mais observações e, logo, menos incerteza. E mais sondagens significa ainda que um outlier -sempre possível - é mais facilmente "desdramatizado" e colocado em contexto.
2. Não fazer sondagens porque os resultados das últimas sondagens de intenções de voto nas Europeias tiveram importantes discrepâncias em relação aos resultados eleitorais é mandar uma mensagem completamente errada à opinião pública sobre o que é uma sondagem. É dizer que ela é uma previsão e que, se essa "previsão" falhar, se cometeu um erro. Pode ser que sim. Mas pode ser que não. É preciso estudar, como não me canso de dizer. E há mais. Depois das Europeias, os relatos e as explicações do "fracasso" ficaram quase exclusivamente nas mãos de políticos ou de comentadores directa ou indirectamente ao serviço de partidos políticos. Não detectei, na esmagadora maioria destes comentários, um único argumento minimamente apresentável de natureza técnica, mas apenas julgamentos sumários, insultos e injuriosas alegações de desonestidade e manipulação. Deixar parecer que este discurso absolutamente inane influenciou uma decisão sobre a condução ou não de sondagens pré-eleitorais é, pura e simplesmente, entregar o ouro aos bandidos.
Desculpem meter-me na vida dos outros e, como mencionei, retiro o que escrevi se me explicarem que as razões foram outras. Mas decisões como estas influenciam a qualidade do debate público sobre as sondagens e a qualidade da informação que é transmitida ao público.
1. O público fica mais bem servido com mais sondagens e não com menos. Mais sondagens significa que ficamos a dispor de mais resultados com maior variabilidade de métodos. Por outras palavras, descontando erro amostral, ficamos a poder apreciar melhor se diferentes resultados se devem a diferentes opções técnicas ou metodológicas ou se os resultados são independentes delas. Mais sondagens significa mais observações e, logo, menos incerteza. E mais sondagens significa ainda que um outlier -sempre possível - é mais facilmente "desdramatizado" e colocado em contexto.
2. Não fazer sondagens porque os resultados das últimas sondagens de intenções de voto nas Europeias tiveram importantes discrepâncias em relação aos resultados eleitorais é mandar uma mensagem completamente errada à opinião pública sobre o que é uma sondagem. É dizer que ela é uma previsão e que, se essa "previsão" falhar, se cometeu um erro. Pode ser que sim. Mas pode ser que não. É preciso estudar, como não me canso de dizer. E há mais. Depois das Europeias, os relatos e as explicações do "fracasso" ficaram quase exclusivamente nas mãos de políticos ou de comentadores directa ou indirectamente ao serviço de partidos políticos. Não detectei, na esmagadora maioria destes comentários, um único argumento minimamente apresentável de natureza técnica, mas apenas julgamentos sumários, insultos e injuriosas alegações de desonestidade e manipulação. Deixar parecer que este discurso absolutamente inane influenciou uma decisão sobre a condução ou não de sondagens pré-eleitorais é, pura e simplesmente, entregar o ouro aos bandidos.
Desculpem meter-me na vida dos outros e, como mencionei, retiro o que escrevi se me explicarem que as razões foram outras. Mas decisões como estas influenciam a qualidade do debate público sobre as sondagens e a qualidade da informação que é transmitida ao público.
Quadro final
Todas as sondagens de Setembro. Para as últimas quatro, variação em relação à última sondagem do mesmo instituto e uma média ponderada:

Como se pode ver, duas tendências comuns a todas: descida do BE e subida do CDS-PP. Outro aspecto relevante é, claro, a impressionante convergência das quatro sondagens, maior ainda do que a ocorreu nas últimas sondagens de 2005. Já várias vezes discuti aqui este fenómeno recorrente, para o qual vejo três explicações plausíveis:
1. Cristalização do voto (e já citei aqui tantas vezes um famoso artigo de Andrew Gelman e Gary King que nem faço link outra vez);
2. Maior investimento por parte dos institutos nas derradeiras sondagens;
3. Institutos looking over their shoulders.
A 3ª explicação, que foi mencionada aqui há uns dias num comentário, é potencialmente a mais perturbante. Mas aqui, duas notas:
1. Não acredito, muito sinceramente, que alguém obtenha um resultado e o mude deliberadamente para se ajustar a uma qualquer expectativa do que vão ser os resultados as eleições ou aos resultados de outros institutos. As coisas passam-se, potencialmente, de forma muito mais subtil. Como explicam Gary King e os seus colegas neste outro artigo - um óptimo exemplo do tipo de "auditoria" que se pode fazer a um conjunto de sondagens pré-eleitorais e que a Comissão nomeada pela ERC faria bem em imitar - a produção de "estimativas de resultados" exige um conjunto de ajustamentos dos dados que se baseiam numa série de pressuposições sobre quem é um votante provável, como se distribuem os indecisos, como se corrigem distorções da amostra, etc, etc, etc. É por essas pressuposições e nesses ajustamentos, creio, que as expectativas se podem subtilmente "inflitrar".
2. Mas também noto que, em todas as sondagens, não há mudanças em relação ao que têm sido práticas constantes dos vários institutos quando fazem sondagens pré-eleitorais (a Marktest abandonou a ponderação pós-amostral por recordação de voto em 2005, mas já o tinha feito há algum tempo; a Aximage usa um modelo de redistribuição de indecisos que me parece igual ao usado no passado; Intercampus e CESOP fazem o mesmo que fazem sempre nas últimas pré-eleitorais). Pelo que, para responder ao comentador, acredito mais, neste caso, nas explicações 1 e 2.

Como se pode ver, duas tendências comuns a todas: descida do BE e subida do CDS-PP. Outro aspecto relevante é, claro, a impressionante convergência das quatro sondagens, maior ainda do que a ocorreu nas últimas sondagens de 2005. Já várias vezes discuti aqui este fenómeno recorrente, para o qual vejo três explicações plausíveis:
1. Cristalização do voto (e já citei aqui tantas vezes um famoso artigo de Andrew Gelman e Gary King que nem faço link outra vez);
2. Maior investimento por parte dos institutos nas derradeiras sondagens;
3. Institutos looking over their shoulders.
A 3ª explicação, que foi mencionada aqui há uns dias num comentário, é potencialmente a mais perturbante. Mas aqui, duas notas:
1. Não acredito, muito sinceramente, que alguém obtenha um resultado e o mude deliberadamente para se ajustar a uma qualquer expectativa do que vão ser os resultados as eleições ou aos resultados de outros institutos. As coisas passam-se, potencialmente, de forma muito mais subtil. Como explicam Gary King e os seus colegas neste outro artigo - um óptimo exemplo do tipo de "auditoria" que se pode fazer a um conjunto de sondagens pré-eleitorais e que a Comissão nomeada pela ERC faria bem em imitar - a produção de "estimativas de resultados" exige um conjunto de ajustamentos dos dados que se baseiam numa série de pressuposições sobre quem é um votante provável, como se distribuem os indecisos, como se corrigem distorções da amostra, etc, etc, etc. É por essas pressuposições e nesses ajustamentos, creio, que as expectativas se podem subtilmente "inflitrar".
2. Mas também noto que, em todas as sondagens, não há mudanças em relação ao que têm sido práticas constantes dos vários institutos quando fazem sondagens pré-eleitorais (a Marktest abandonou a ponderação pós-amostral por recordação de voto em 2005, mas já o tinha feito há algum tempo; a Aximage usa um modelo de redistribuição de indecisos que me parece igual ao usado no passado; Intercampus e CESOP fazem o mesmo que fazem sempre nas últimas pré-eleitorais). Pelo que, para responder ao comentador, acredito mais, neste caso, nas explicações 1 e 2.
quinta-feira, setembro 24, 2009
Legislativas. Aximage, 21-24 Setembro, N=850, Tel.
Vem aqui.
PS: 38,8%
PSD: 29,1%
BE: 10%
CDS-PP:8,6%
CDU: 8,4%
OBN: 5,1%
Em relação aos 850, havia 5,8% de indecisos.
PS: 38,8%
PSD: 29,1%
BE: 10%
CDS-PP:8,6%
CDU: 8,4%
OBN: 5,1%
Em relação aos 850, havia 5,8% de indecisos.
Legislativas. CESOP-UCP, 17-22 Setembro, N=4367 (2764 intenções de voto válidas), Presencial.
O relatório-síntese pode ser consultado aqui.
Legislativas. Intercampus, 21-23 Setembro, N=1006, Presencial
PS: 38%
PSD: 29,9%
BE: 9,4%
CDU: 8,4%
CDS-PP: 7,7%
OBN: 6,6%
13,2% dos 1006 disseram-se indecisos ou não responderam à pergunta sobre intenção de voto.
PSD: 29,9%
BE: 9,4%
CDU: 8,4%
CDS-PP: 7,7%
OBN: 6,6%
13,2% dos 1006 disseram-se indecisos ou não responderam à pergunta sobre intenção de voto.
Os efeitos das sondagens
Ainda antes de conhecermos os resultados de hoje (que se reportam a sondagens feitas nos últimos dias), vale a pena pensar nas consequências que as próprias sondagens sobre intenção de voto poderão ter no comportamento dos eleitores no dia 27.


Ora bolas.
Há um paper muito interessante de 2001, de Sybille Hardmeier, da Universidade de Zurique - "Towards a Systematic Assessment of the Impact of Polls on Voters" - que aborda os resultados de 34 estudos diferentes em diferentes países sobre o assunto. Vamos então lá saber, de uma vez por todas, quem é beneficiado e prejudicado com os resultados das sondagens? Vamos a isso? Bora lá:


Ora bolas.
"Desta vez não haverá empate técnico"
Diz António Salvador, da Intercampus, sobre a sondagem que será divulgada pela TVI às 20.00h.
Trocas 1.1.2
A justo pedido de muitas famílias, as FAQ do Trocas de Opinião foram ampliadas para explicar a formação dos preços e outros aspectos que estavam a suscitar dúvidas. Os rankings por contrato já têm ligação ao Twitter ou ao blogue daqueles que introduziram essa informação. Hoje haverá ainda uma novidade adicional. Keep it coming.
Legislativas. Marktest, 18-21 Set., N=811, Tel.
PS: 40%
PSD: 31,6%
BE: 9%
CDS-PP: 8,2%
CDU: 7,2%
OBN: 4%
Entre 811, terá havido 37% de "indecisos", o que na Marktest, julgo saber, são pessoas que não quiserem responder ou disseram não saber em quem votariam. Aqui (dado que fontes diferentes dão resultados ligeiramente diferente, é natural que haja ligeiras mudanças neste post amanhã).
PSD: 31,6%
BE: 9%
CDS-PP: 8,2%
CDU: 7,2%
OBN: 4%
Entre 811, terá havido 37% de "indecisos", o que na Marktest, julgo saber, são pessoas que não quiserem responder ou disseram não saber em quem votariam. Aqui (dado que fontes diferentes dão resultados ligeiramente diferente, é natural que haja ligeiras mudanças neste post amanhã).
quarta-feira, setembro 23, 2009
Consequências
A amável ligação do João Miranda, do Blasfémias (o maior potentado da blogosfera), ao Trocas de Opinião, está a ter algumas consequências interessantes no mercado. Boas ou más, do ponto de vista das previsões? O tempo dirá.
terça-feira, setembro 22, 2009
segunda-feira, setembro 21, 2009
Gemeo-IPAM, 3-6 Set, N=800, Tel.
É sobre o pior e o melhor PM que Portugal teve. Não tenho o texto das perguntas e a notícia online menciona apenas o pior (José Sócrates, para 27% dos inquiridos) e o melhor (Cavaco Silva, para 30%). Na Exame há-de vir o resto.
Há uns tempos, o CESOP-UCP colocou a mesma pergunta num barómetro. Foi em Fevereiro de 2008. Os resultados estão aqui, na página 5.
Há uns tempos, o CESOP-UCP colocou a mesma pergunta num barómetro. Foi em Fevereiro de 2008. Os resultados estão aqui, na página 5.
Indecisos
Numa entrevista ao Correio da Manhã, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, faz as seguintes declarações:
"Se eu fosse directora de uma agência de sondagens nunca publicaria uma sondagem a oito dias de eleições dizendo que tinha 30 por cento de indecisos. Diria que não tinha reunido as condições para a publicar. Porque evidentemente uma sondagem com 30 por cento de indecisos significa que qualquer partido, mesmo aquele que na sondagem aparece de todos os outros, pode ganhar as eleições. Não tem nenhum significado uma sondagem dessas. Independentemente disso, na mesma posição relativa que estamos hoje e nas eleições europeias os resultados dariam exactamente o contrário. Eu espero que aconteça o mesmo nas legislativas."
Curiosamente, estas declarações ecoam um artigo de opinião escrito há dias por António Ribeiro Ferreira, precisamente um dos entrevistadores de MFL:
"E lembrar também que há quem não tenha qualquer pejo em publicar sondagens com uma margem de indecisos de 30 %."
A primeira curiosidade que isto me despertou foi a de saber qual a sondagem que tinha sido publicada recentemente e em cuja amostra 30% dos inquiridos tinham declarado não saber em quem iriam votar. Não é esta (15%), nem esta (8,9%), nem esta (4,3%), nem esta (17%). Será então porventura esta, onde cerca de 32% dos inquiridos respondeu "não sabe" ou recusou responder à pergunta sobre em que partido tenciona votar nas próximas eleições. A sondagem foi realizada a 20 dias das eleições, não a oito. E os 32% representam aqueles que se declararam indecisos e aqueles que recusaram responder à pergunta.
Mas deixemos de lado a questão de saber se recusar responder à pergunta deve ser lido como representando "indecisão" (muito duvidoso). Vamos supor que, de facto, perto de uma eleição, há 30% do eleitorado que diz estar indeciso numa sondagem. Significa isto que não estão reunidas as condições para a publicar?
Há três coisas que queria lembrar:
1. A percentagem de "indecisos" varia muito de sondagem para sondagem, e por boas razões. Ela depende muito do universo sobre o qual estamos fazer inferências e do próprio questionário. Por exemplo, se a minha amostra é composta apenas por pessoas que dizem à partida que irão votar (e, logo, o universo sobre o qual se está a fazer uma inferência não é o da totalidade dos eleitores mas apenas dos "votantes prováveis"), é muito natural que a percentagem de indecisos seja mais baixa. Aqui, trata-se apenas de indecisão em torno da opção de voto, não da opção de votar. Pelo contrário, quando a amostra é uma amostra do eleitorado em geral, a percentagem dos que que "não sabem" pode reunir facilmente o que não sabem se irão votar e os que não sabem em quem. O "não sabe", aqui, será sempre mais elevado.
2. Mesmo entre sondagens cujas amostras são extraídas para fazer inferências sobre a generalidade do eleitorado, o questionário fará, muito provavelmente, grande diferença a este nível. Se eu tiver uma "pergunta filtro" onde pergunto às pessoas se vão votar, e se só colocar a pergunta de intenção de voto a quem diz tencionar votar (ou pelo menos a quem não exclui imediatamente esse possibilidade), é muito provável que alguns daqueles que não sabem se irão votar sejam filtrados à partida por essa primeira pergunta. Em princípio, os "indecisos" hão-de ser menos. Pelo contrário, se fizer uma única pergunta sobre intenção de voto, essa pergunta junta nos "não sabe" quer aqueles que estão indecisos sobre a opção de voto quer aqueles que estão indecisos sobre se irão votar.
3. E dito isto, 30% de indecisos seria assim tão "anormal"? Num inquérito pós-eleitoral realizado após as eleições de 2005, coordenado por António Barreto no ICS, cerca de 34% daqueles que afirmaram ter votado nessas eleições disseram que tomaram a sua decisão no último mês antes da eleição. Nos Estados Unidos, a percentagem daqueles que afirmam ter decidido em quem votar na última semana oscilou, nas eleições presidenciais mais recentes, entre 11% (em 2004) e 30,7% (em 1996). Nas eleições americanas mais recentes, as de 2008, as sondagens à boca das urnas mostram que 25% dos votantes decidiram no último mês, e que 10% decidiram na última semana. Uma sondagem em Portugal que indicasse 30% de indecisos a 20 dias das eleições seria uma coisa assim tão exótica e ilegítima? Não creio.
Subjacente a tudo isto está, claro, uma concepção do que é uma "sondagem" que nada tem a ver com aquilo que uma sondagem realmente é, e que ignora que uma sondagem é uma medição, junto de uma amostra de uma população, de atitudes e intenções (e não uma previsão de um resultado eleitoral ou um oráculo que tem de dizer "quem vai ganhar"). E se gastei aqui algum tempo a escrever este post não foi, acreditem, para benefício de António Ribeiro Ferreira. Mas Manuela Ferreira Leite merece que isto lhe seja explicado. E tenho a certeza absoluta que, se isto lhe for explicado, compreenderá.
"Se eu fosse directora de uma agência de sondagens nunca publicaria uma sondagem a oito dias de eleições dizendo que tinha 30 por cento de indecisos. Diria que não tinha reunido as condições para a publicar. Porque evidentemente uma sondagem com 30 por cento de indecisos significa que qualquer partido, mesmo aquele que na sondagem aparece de todos os outros, pode ganhar as eleições. Não tem nenhum significado uma sondagem dessas. Independentemente disso, na mesma posição relativa que estamos hoje e nas eleições europeias os resultados dariam exactamente o contrário. Eu espero que aconteça o mesmo nas legislativas."
Curiosamente, estas declarações ecoam um artigo de opinião escrito há dias por António Ribeiro Ferreira, precisamente um dos entrevistadores de MFL:
"E lembrar também que há quem não tenha qualquer pejo em publicar sondagens com uma margem de indecisos de 30 %."
A primeira curiosidade que isto me despertou foi a de saber qual a sondagem que tinha sido publicada recentemente e em cuja amostra 30% dos inquiridos tinham declarado não saber em quem iriam votar. Não é esta (15%), nem esta (8,9%), nem esta (4,3%), nem esta (17%). Será então porventura esta, onde cerca de 32% dos inquiridos respondeu "não sabe" ou recusou responder à pergunta sobre em que partido tenciona votar nas próximas eleições. A sondagem foi realizada a 20 dias das eleições, não a oito. E os 32% representam aqueles que se declararam indecisos e aqueles que recusaram responder à pergunta.
Mas deixemos de lado a questão de saber se recusar responder à pergunta deve ser lido como representando "indecisão" (muito duvidoso). Vamos supor que, de facto, perto de uma eleição, há 30% do eleitorado que diz estar indeciso numa sondagem. Significa isto que não estão reunidas as condições para a publicar?
Há três coisas que queria lembrar:
1. A percentagem de "indecisos" varia muito de sondagem para sondagem, e por boas razões. Ela depende muito do universo sobre o qual estamos fazer inferências e do próprio questionário. Por exemplo, se a minha amostra é composta apenas por pessoas que dizem à partida que irão votar (e, logo, o universo sobre o qual se está a fazer uma inferência não é o da totalidade dos eleitores mas apenas dos "votantes prováveis"), é muito natural que a percentagem de indecisos seja mais baixa. Aqui, trata-se apenas de indecisão em torno da opção de voto, não da opção de votar. Pelo contrário, quando a amostra é uma amostra do eleitorado em geral, a percentagem dos que que "não sabem" pode reunir facilmente o que não sabem se irão votar e os que não sabem em quem. O "não sabe", aqui, será sempre mais elevado.
2. Mesmo entre sondagens cujas amostras são extraídas para fazer inferências sobre a generalidade do eleitorado, o questionário fará, muito provavelmente, grande diferença a este nível. Se eu tiver uma "pergunta filtro" onde pergunto às pessoas se vão votar, e se só colocar a pergunta de intenção de voto a quem diz tencionar votar (ou pelo menos a quem não exclui imediatamente esse possibilidade), é muito provável que alguns daqueles que não sabem se irão votar sejam filtrados à partida por essa primeira pergunta. Em princípio, os "indecisos" hão-de ser menos. Pelo contrário, se fizer uma única pergunta sobre intenção de voto, essa pergunta junta nos "não sabe" quer aqueles que estão indecisos sobre a opção de voto quer aqueles que estão indecisos sobre se irão votar.
3. E dito isto, 30% de indecisos seria assim tão "anormal"? Num inquérito pós-eleitoral realizado após as eleições de 2005, coordenado por António Barreto no ICS, cerca de 34% daqueles que afirmaram ter votado nessas eleições disseram que tomaram a sua decisão no último mês antes da eleição. Nos Estados Unidos, a percentagem daqueles que afirmam ter decidido em quem votar na última semana oscilou, nas eleições presidenciais mais recentes, entre 11% (em 2004) e 30,7% (em 1996). Nas eleições americanas mais recentes, as de 2008, as sondagens à boca das urnas mostram que 25% dos votantes decidiram no último mês, e que 10% decidiram na última semana. Uma sondagem em Portugal que indicasse 30% de indecisos a 20 dias das eleições seria uma coisa assim tão exótica e ilegítima? Não creio.
Subjacente a tudo isto está, claro, uma concepção do que é uma "sondagem" que nada tem a ver com aquilo que uma sondagem realmente é, e que ignora que uma sondagem é uma medição, junto de uma amostra de uma população, de atitudes e intenções (e não uma previsão de um resultado eleitoral ou um oráculo que tem de dizer "quem vai ganhar"). E se gastei aqui algum tempo a escrever este post não foi, acreditem, para benefício de António Ribeiro Ferreira. Mas Manuela Ferreira Leite merece que isto lhe seja explicado. E tenho a certeza absoluta que, se isto lhe for explicado, compreenderá.
Trocas 1.1
Bem, parece que o Trocas de Opinião esteve com problemas de servidor ontem. Hoje, pelos vistos, está tudo resolvido. E aproveitou-se para fazer duas alterações de fundo (para além arranjos gráficos, que vão continuar ao longo do tempo), fruto de vários comentários recebidos aqui, por e-mail e pessoalmente.
1. A partir de hoje, já é possível a um investidor lançar várias ordens de compra sobre um mesmo contrato, ou várias ordens de venda sobre um mesmo contrato (mas não de compra e de venda simultaneamente). A lógica é simples: eu posso querer comprar 200 títulos do contrato A a 25 pontos, mas não me arrisco a comprar mais de 100 a 30. Caso apareça alguém a vender a 29, compro 100, mas não arrisco comprar 200. Mas se me aparecer um belo negócio (a 24) quero certamente tudo o que me aparecer à frente. Isto permite também, esperamos, que lapsos ou tentativas de manipulação (por exemplo, vendas a descoberto de quantidades brutais de títulos a preços de saldo) tenham uma resposta rápida do mercado, mercê da execução imediata de ordens que foram introduzidas para, precisamente, aproveitar essas pechinchas.
2. Há relatos de investidores que lançaram ordens de compra a um determinado valor e que, sem conseguirem comprar, viram o título a ser transaccionado por valores muito mais baixos. Foi introduzida uma correcção no algoritmo para resolver este problema. A partir de hoje, tem prioridade quem oferece mais. Para ordens iguais, critério cronológico.
Para além disto, haverá outras alterações ao longo do tempo, que se esperam ser apenas de visualização e apresentação. Obrigado a todos pelos contributos para esta experiência.
1. A partir de hoje, já é possível a um investidor lançar várias ordens de compra sobre um mesmo contrato, ou várias ordens de venda sobre um mesmo contrato (mas não de compra e de venda simultaneamente). A lógica é simples: eu posso querer comprar 200 títulos do contrato A a 25 pontos, mas não me arrisco a comprar mais de 100 a 30. Caso apareça alguém a vender a 29, compro 100, mas não arrisco comprar 200. Mas se me aparecer um belo negócio (a 24) quero certamente tudo o que me aparecer à frente. Isto permite também, esperamos, que lapsos ou tentativas de manipulação (por exemplo, vendas a descoberto de quantidades brutais de títulos a preços de saldo) tenham uma resposta rápida do mercado, mercê da execução imediata de ordens que foram introduzidas para, precisamente, aproveitar essas pechinchas.
2. Há relatos de investidores que lançaram ordens de compra a um determinado valor e que, sem conseguirem comprar, viram o título a ser transaccionado por valores muito mais baixos. Foi introduzida uma correcção no algoritmo para resolver este problema. A partir de hoje, tem prioridade quem oferece mais. Para ordens iguais, critério cronológico.
Para além disto, haverá outras alterações ao longo do tempo, que se esperam ser apenas de visualização e apresentação. Obrigado a todos pelos contributos para esta experiência.
domingo, setembro 20, 2009
As sondagens de Setembro
sexta-feira, setembro 18, 2009
Legislativas. Eurosondagem, 13-16 Setembro, N=2048, Presencial.
PS: 34,9%
PSD: 31,6%
BE: 9,6%
CDU: 8,4%
CDS-PP: 8,4%
OBN:7,1%
A notícia fala em 15% de indecisos mas não de abstencionistas. Imaginemos assim que as estimativas anteriores têm como base 1741 inquiridos. Se calcularmos a margem de erro associada à diferença entre duas proporções multinomiais, ela ascende, para PS e PSD, a 3,8 pontos, com 95% de confiança. A vantagem de 3,3 pontos apurada na sondagem está dentro dessa margem de erro. Logo, ao contrário do que é dito na notícia, esta sondagem é um "empate técnico" entre PS e PSD. Desculpem ser tão chatinho.
PSD: 31,6%
BE: 9,6%
CDU: 8,4%
CDS-PP: 8,4%
OBN:7,1%
A notícia fala em 15% de indecisos mas não de abstencionistas. Imaginemos assim que as estimativas anteriores têm como base 1741 inquiridos. Se calcularmos a margem de erro associada à diferença entre duas proporções multinomiais, ela ascende, para PS e PSD, a 3,8 pontos, com 95% de confiança. A vantagem de 3,3 pontos apurada na sondagem está dentro dessa margem de erro. Logo, ao contrário do que é dito na notícia, esta sondagem é um "empate técnico" entre PS e PSD. Desculpem ser tão chatinho.
Legislativas. Intercampus, 12-15 Setembro, N=1024, Presencial
PS: 32,9%
PSD: 29,7%
BE: 12%
CDU: 9,2%
CDS-PP: 7%
OBN: 9,2%
Aqui. Estas estimativas são calculadas em relação a uma base de 834 inquiridos. Neste caso, a diferença entre PS e PSD não é estatisticamente significativa a 95%. Recordo que isto não se apura olhando para a "margem de erro" da sondagem, nem sequer com as margens de erro associadas às estimativas, mas assim.
PSD: 29,7%
BE: 12%
CDU: 9,2%
CDS-PP: 7%
OBN: 9,2%
Aqui. Estas estimativas são calculadas em relação a uma base de 834 inquiridos. Neste caso, a diferença entre PS e PSD não é estatisticamente significativa a 95%. Recordo que isto não se apura olhando para a "margem de erro" da sondagem, nem sequer com as margens de erro associadas às estimativas, mas assim.
O Trocas
É cedo, muito muito cedo. Há ainda poucos investidores. Mas notem a evolução da cotação do PS nas últimas 24 horas no Trocas de Opinião:
Ignoremos, para já a previsão em concreto ou a procura de tendências subjacentes. O que me agrada ver aqui é a forma como o mercado reage a tentativas de manipulação. Subidas ou descidas abruptas das cotações - resultantes, por exemplo, de ordens de compra a 100 ou de venda a 1 - são quase imediatamente seguidas de um reequilíbrio.
Quanto ao resto, é cedo, muito cedo, repito. E isto não passa de uma experiência. Mas aqui ficam as cotações às 12:21:
PS: 38.15
PSD: 33.25
BE: 12
CDU: 8.5
CDS: 8
Isto leva-nos para uma outra discussão sobre as capacidades preditivas dos mercados em comparação com as das sondagens (na medida em que uma sondagem seja uma "previsão", que na verdade não é). É que, com estas cotações, é difícil ignorar o facto de que, naturalmente, os resultados das sondagens são uma das informações agregadas pelo próprio mercado...
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