Já está no correio para distribuição e estará em breve disponível no site da Sociedade Portuguesa de Estatística o Boletim da SPE da Primavera de 2011, dedicado ao tema Sondagens e Censos. Tem quatro artigos sobre o tema "sondagens": dois são de Manuela Magalhães Hill e de Paula Vicente (a primeira é co-autora de um dos livros em português de que mais gosto sobre inquéritos por questionário), um dando uma perspectiva histórica sobre as sondagens e outro discutindo problemas e implicações da utilização de telemóveis e da internet, assim como da adopção de sondagens mixed-mode. Outro é de um colectivo de autores, liderado por Sandra Aleixo, e aborda o tema dos "erros não amostrais". Finalmente, há um quarto artigo, escrito por mim, pelo Luís Aguiar-Conraria e pelo Miguel Maria Pereira, estudante de mestrado do ICS. É sobre este último artigo que gostaria de falar um pouco.
Em 2009, a ERC encomendou um relatório sobre as sondagens em Portugal, que fazia algumas constatações sobre divulgação/depósito dos resultados das sondagens, sobre as próprias sondagens e seus resultados e algumas recomendações. Na altura, discuti aqui, aqui e aqui este documento, e fui especialmente crítico da análise feita acerca das sondagens, suas características e sua relação com as discrepâncias entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições. Este artigo para o Boletim da SPE, intitulado "As sondagens e os resultados eleitorais em Portugal", é a nossa proposta sobre como esse tipo de análise pode e deve ser feita.
O que fazemos? Basicamente, pegamos nos resultados de todas as sondagens de intenção de voto divulgadas na imprensa nos últimos 100 dias antes das eleições legislativas de 1991, 1995, 1999, 2002, 2005 e 2009, europeias de 1994, 1999, 2004 e 2009, e autárquicas de 2005 e 2009. No total, 287 sondagens. Com base nestes resultados, estimamos duas grandezas:
1. O desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições a que dizem respeito.
2. O desvio, por partido ou lista conjunta, entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições a que dizem respeito.
E procuramos responder a duas questões:
1. Que factores contribuem para que o resultado de uma sondagem esteja, em média, mais ou menos próximo do resultado da eleição a que diz respeito?
2. Que factores contribuem para que o resultado de uma sondagem acabe por constituir uma sobrestimação (ou subestimação) do resultado de um determinado partido?
Sei que muitas das pessoas que visitam este blogue o fazem por razões que vão para além de saber "quem vai à frente nas sondagens" e que se interessam por estes temas. Gostávamos muito de ter os vossos comentários, sugestões e críticas.
quarta-feira, março 16, 2011
sexta-feira, março 11, 2011
Ponto de situação
sexta-feira, março 04, 2011
domingo, fevereiro 27, 2011
Uma tese de doutoramento
"The Role of Civil Society in the Democratisation of Global Governance Institutions: From ‘Soft Power’ to Collective Decision-Making?", uma tese de doutoramento defendida na London School of Economics por Saif Al-Islam Alqadhafi, filho de vocês sabem quem (via Cheap Talk).
sábado, fevereiro 26, 2011
Mega-fraude
Leio no Expresso que Pedro Santana Lopes terá dito que, com Rui Rio na liderança em vez de Pedro Passos Coelho, o PSD "estaria muito mais destacado nas sondagens".
Deixem-me reescrever a frase. Leio no Expresso que Pedro Santana Lopes, que ganhou (oficialmente) uma eleição popular na vida, que foi Primeiro-Ministro durante alguns meses em substituição de Durão Barroso, que foi sumariamente despedido da função com o aplauso de uma parte substancial do eleitorado do seu próprio partido e que classificou as sondagens que correctamente descreveram a sua subsequente derrota nas legislativas - uma das piores da história do PSD - como uma "mega-fraude", terá dito que, com Rui Rio na liderança, o PSD teria resultados nas sondagens superiores àqueles que hoje lhe dão, em média, 12 pontos de vantagem sobre o PS.
Deixem-me reescrever a frase. Leio no Expresso que Pedro Santana Lopes, que ganhou (oficialmente) uma eleição popular na vida, que foi Primeiro-Ministro durante alguns meses em substituição de Durão Barroso, que foi sumariamente despedido da função com o aplauso de uma parte substancial do eleitorado do seu próprio partido e que classificou as sondagens que correctamente descreveram a sua subsequente derrota nas legislativas - uma das piores da história do PSD - como uma "mega-fraude", terá dito que, com Rui Rio na liderança, o PSD teria resultados nas sondagens superiores àqueles que hoje lhe dão, em média, 12 pontos de vantagem sobre o PS.
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
terça-feira, fevereiro 08, 2011
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
A dimensão dos parlamentos, 2
O gráfico no post anterior suscitou vários comentários no que respeita à validade da medida, quer aqui quer noutros blogues. Se alguns destes países têm câmaras altas, não seria de incluir os seus membros na análise? Vejamos primeiro o que resulta daí:
Em comparação com o gráfico anterior vemos, por exemplo, que Portugal sobe - se se pode dizer assim - no ranking dos países com menos deputados em relação à sua população, por ter um parlamento unicamaral. Já o Reino Unido, por exemplo, desce bastante, por ter uma Câmara dos Lordes com nada menos que 733 membros, e o mesmo sucede com a França, ainda que em menor grau.
Não digo que não seja vantajoso ver as coisas desta forma também. Mas há um problema em incluir 2ªs câmaras. Há parlamentos com bicamaralismo simétrico - duas câmaras com poderes equivalentes, tal como em Itália - e outros com bicamaralismo assimétrico - onde a câmara baixa é predominante, tal como em Espanha. Enquanto que se pode genericamente dizer que todas as câmaras baixas têm poderes equivalentes - há diferenças, mas são, deste ponto de vista, finas - o mesmo não se pode dizer sobre as câmaras altas. Ainda por cima, enquanto os membros das câmaras baixas são invariavelmente eleitos - em eleições mais ou menos livres e justas, agora não vem ao caso - o mesmo não sucede com os membros das câmaras altas. Em Espanha, para não ir muito mais longe, uma parte do Senado não é eleita directamente. E no Reino Unido, não há um único membro eleito.
Isto é um problema? Depende da perspectiva e daquilo que se quer fazer com os dados. Mas como eu não quis fazer nada com eles para além de os dar a conhecer, agradeço os comentários e a oportunidade de os mostrar deste segundo ponto de vista.
Houve ainda quem tenha assinalado a existência de parlamentos sub-nacionais e de como a sua não inclusão nestas contas invalida a comparação. Aí terei de discordar. Acharia muito interessante que se recolhessem dados que comparem a dimensão total do pessoal político eleito em diferentes países (talvez existam). E é provável que haja uma correlação negativa entre a dimensão relativa dos parlamentos nacionais e a existência e número de deputados sub-nacionais. É óbvio que, para países muito grandes, este rácio população/deputados deverá sempre ser maior que para países pequenos, quanto mais não seja por limitações físicas quanto ao número de pessoas que se consegue pôr num parlamento. E países de grandes dimensões tendem também, naturalmente, a ter divisões territoriais políticas sub-nacionais e, logo, órgãos representativos a esse nível. Etc. Mas dizer que não se pode comparar a dimensão relativa dos parlamentos nacionais sem tomar em conta deputados sub-nacionais é a mesma coisa que dizer que não se pode contar o número de laranjas numa caixa sem contar também as maçãs. São ambos frutos, mas frutos diferentes.
Em comparação com o gráfico anterior vemos, por exemplo, que Portugal sobe - se se pode dizer assim - no ranking dos países com menos deputados em relação à sua população, por ter um parlamento unicamaral. Já o Reino Unido, por exemplo, desce bastante, por ter uma Câmara dos Lordes com nada menos que 733 membros, e o mesmo sucede com a França, ainda que em menor grau.
Não digo que não seja vantajoso ver as coisas desta forma também. Mas há um problema em incluir 2ªs câmaras. Há parlamentos com bicamaralismo simétrico - duas câmaras com poderes equivalentes, tal como em Itália - e outros com bicamaralismo assimétrico - onde a câmara baixa é predominante, tal como em Espanha. Enquanto que se pode genericamente dizer que todas as câmaras baixas têm poderes equivalentes - há diferenças, mas são, deste ponto de vista, finas - o mesmo não se pode dizer sobre as câmaras altas. Ainda por cima, enquanto os membros das câmaras baixas são invariavelmente eleitos - em eleições mais ou menos livres e justas, agora não vem ao caso - o mesmo não sucede com os membros das câmaras altas. Em Espanha, para não ir muito mais longe, uma parte do Senado não é eleita directamente. E no Reino Unido, não há um único membro eleito.
Isto é um problema? Depende da perspectiva e daquilo que se quer fazer com os dados. Mas como eu não quis fazer nada com eles para além de os dar a conhecer, agradeço os comentários e a oportunidade de os mostrar deste segundo ponto de vista.
Houve ainda quem tenha assinalado a existência de parlamentos sub-nacionais e de como a sua não inclusão nestas contas invalida a comparação. Aí terei de discordar. Acharia muito interessante que se recolhessem dados que comparem a dimensão total do pessoal político eleito em diferentes países (talvez existam). E é provável que haja uma correlação negativa entre a dimensão relativa dos parlamentos nacionais e a existência e número de deputados sub-nacionais. É óbvio que, para países muito grandes, este rácio população/deputados deverá sempre ser maior que para países pequenos, quanto mais não seja por limitações físicas quanto ao número de pessoas que se consegue pôr num parlamento. E países de grandes dimensões tendem também, naturalmente, a ter divisões territoriais políticas sub-nacionais e, logo, órgãos representativos a esse nível. Etc. Mas dizer que não se pode comparar a dimensão relativa dos parlamentos nacionais sem tomar em conta deputados sub-nacionais é a mesma coisa que dizer que não se pode contar o número de laranjas numa caixa sem contar também as maçãs. São ambos frutos, mas frutos diferentes.
terça-feira, fevereiro 01, 2011
A dimensão dos parlamentos
A propósito destas afirmações de Jorge Lacão, defendendo uma redução do número de deputados de 230 para 180, um gráfico rapidamente cozinhado a partir da base de dados da União Interparlamentar e da Wikipedia (população): para cada país europeu, a população a dividir pelo número de deputados na câmara baixa (ou única, em países unicamarais), em milhares. Portugal aparece duas vezes, com 230 e 180:
terça-feira, janeiro 25, 2011
Os mistérios insondáveis da abstenção em Portugal
"É difícil traçar um perfil do abstencionista. Falta em Portugal um instituto de estatística de opinião, uma entidade estatal que faça inquérito sistemáticos aprofundados - as empresas de sondagens são privadas e funcionam à velocidade que os media e os partidos precisam delas."
Eu concordo que falta sempre muita coisa para qualquer coisa. Mas também não é preciso exagerar (se me perdoarem os shameless plugs pelo meio):
1. As eleições de 25 de Abril: geografia e imagem dos partidos.
2. Geografia Eleitoral.
3. L'abstention electorale au Portugal : 1975-1980.
4. Atitudes, opiniões e comportamentos políticos dos portugueses : 1973-1993 : cultura política e instituições políticas, evolução e tipologia do sistema partidário, afinidade partidária e perfil dos eleitores.
5. Desigualdade, desinteresse e desconfiança: a abstenção nas eleições legislativas de 1999.
6. Participação e abstenção nas eleições legislativas portuguesas, 1975-1995.
7. A abstenção eleitoral em Portugal.
8. Redes sociais e participação eleitoral em Portugal.
9. A abstenção nas eleições legislativas de 2002.
10. O exercício da cidadania política em Portugal.
12. Declining Portuguese voter turnout: political apathy or methodological artifact?
12. Second Order Elections and Electoral Cycles in Democratic Portugal, 1975-2002.
13. Portugal at the Polls.
14. Quem se abstém?
Para não falar das coisas ainda mais interessantes, as que comparam a abstenção em Portugal com as de outros países em diferentes eleições, e que são tantas, tantas, mas tantas que me limito a pôr isto. E também não vejo de onde vem a coisa da "entidade estatal". Que "instituto estatal" foi preciso nos Estados Unidos para produzir estas 90.000 referências?
Eu concordo que falta sempre muita coisa para qualquer coisa. Mas também não é preciso exagerar (se me perdoarem os shameless plugs pelo meio):
1. As eleições de 25 de Abril: geografia e imagem dos partidos.
2. Geografia Eleitoral.
3. L'abstention electorale au Portugal : 1975-1980.
4. Atitudes, opiniões e comportamentos políticos dos portugueses : 1973-1993 : cultura política e instituições políticas, evolução e tipologia do sistema partidário, afinidade partidária e perfil dos eleitores.
5. Desigualdade, desinteresse e desconfiança: a abstenção nas eleições legislativas de 1999.
6. Participação e abstenção nas eleições legislativas portuguesas, 1975-1995.
7. A abstenção eleitoral em Portugal.
8. Redes sociais e participação eleitoral em Portugal.
9. A abstenção nas eleições legislativas de 2002.
10. O exercício da cidadania política em Portugal.
12. Declining Portuguese voter turnout: political apathy or methodological artifact?
12. Second Order Elections and Electoral Cycles in Democratic Portugal, 1975-2002.
13. Portugal at the Polls.
14. Quem se abstém?
Para não falar das coisas ainda mais interessantes, as que comparam a abstenção em Portugal com as de outros países em diferentes eleições, e que são tantas, tantas, mas tantas que me limito a pôr isto. E também não vejo de onde vem a coisa da "entidade estatal". Que "instituto estatal" foi preciso nos Estados Unidos para produzir estas 90.000 referências?
segunda-feira, janeiro 24, 2011
Rescaldo
Sondagens pré-eleitorais. Se compararmos os resultados das sondagens com os resultados nacionais, ficamos assim:
Mas tendo em conta que as sondagens foram conduzidas no continente, e que houve diferenças consideráveis entre os resultados eleitorais no continente e os resultados nas regiões autónomas, uma comparação mais adequada será esta:
Sem surpresas, o desvio entre intenções de voto e resultados eleitorais diminui quando os resultados de referência são os do continente, ou seja, os do verdadeiro universo das sondagens em causa.
O mesmo género de fenómeno ocorre nas sondagens à boca das urnas:
Comparar com 2001 (aqui e aqui) e com 2006 (aqui e aqui).
O Luís aborda a nossa previsão aqui e aqui.
E dois prémios:
1. Prémio A nossa sondagem é a melhor exceptuando aquela outra.
2. Prémio Melhor peça jornalística sobre sondagens escrita com gerador de palavras aleatórias.
Mas tendo em conta que as sondagens foram conduzidas no continente, e que houve diferenças consideráveis entre os resultados eleitorais no continente e os resultados nas regiões autónomas, uma comparação mais adequada será esta:
Sem surpresas, o desvio entre intenções de voto e resultados eleitorais diminui quando os resultados de referência são os do continente, ou seja, os do verdadeiro universo das sondagens em causa.
O mesmo género de fenómeno ocorre nas sondagens à boca das urnas:
Comparar com 2001 (aqui e aqui) e com 2006 (aqui e aqui).
O Luís aborda a nossa previsão aqui e aqui.
E dois prémios:
1. Prémio A nossa sondagem é a melhor exceptuando aquela outra.
2. Prémio Melhor peça jornalística sobre sondagens escrita com gerador de palavras aleatórias.
Calamidades que por acaso não aconteceram
Ontem, o MAI desvalorizou o impacto na abstenção das dificuldades sentidas pelos portadores do cartão do cidadão: "Este problema só se verificou a partir das 13h00 e ao meio-dia já tínhamos uma afluência menor do que a de 2006 e não havia nenhum problema".
Mas o verdadeiro problema, claro, não tem nada a ver com a abstenção. Tem a ver com a possibilidade de que tivessem ocorrido os seguintes resultados eleitorais:
Cavaco: 50,1%
Cavaco: 49,9%
Cavaco: menos de 50.
Alegre: 19,8%
Nobre: 19,7%
Imaginem o problema que teríamos em mãos neste momento se uma destas coisas tivesse acontecido...
Mas o verdadeiro problema, claro, não tem nada a ver com a abstenção. Tem a ver com a possibilidade de que tivessem ocorrido os seguintes resultados eleitorais:
Cavaco: 50,1%
Cavaco: 49,9%
Cavaco: menos de 50.
Alegre: 19,8%
Nobre: 19,7%
Imaginem o problema que teríamos em mãos neste momento se uma destas coisas tivesse acontecido...
domingo, janeiro 23, 2011
sexta-feira, janeiro 21, 2011
Resumindo e concluindo
Como costuma suceder, há uma convergência (relativa) das sondagens nesta fase final. Quatro colocam Cavaco Silva abaixo dos 60%, depois de meses onde foi frequente encontrar resultados completamente discrepantes. Quatro colocam Alegre algures entre 20 e 25%. Todas colocam Nobre acima dos 10%. Quatro colocam Francisco Lopes acima dos 5%. Há casos onde as diferenças entre as últimas cinco sondagens são, tomando em conta a dimensão das amostras, estatisticamente significativas. Mas são raros. A Marktest, claro, está aqui um pouco como outlier. Mas também já estava nas Europeias e depois foi o que se viu. Cuidado com as precipitações.
Nos comentários perguntam-me muito se acho que estes resultados sugerem que Cavaco Silva se salvará de uma 2ª volta. É uma pergunta interessante, porque denuncia o que me parece ser uma boa tendência: uma abordagem mais informada e realista das sondagens. Ninguém colocou este tipo de pergunta nas últimas Europeias. Mas as pessoas vão percebendo que há eleições onde só se pode ficar muito surpreendido se os comportamentos das pessoas no dia das eleições acabarem por ser muito diferentes das intenções captadas através de as amostras antes das eleições. É esse o caso das legislativas, ou das presidenciais onde o presidente em exercício não concorre, mais competitivas e com menor abstenção. E vão também percebendo que há outras eleições onde os comportamentos dos eleitores - votar ou não votar, votar em quem - podem acabar por ser relativamente diferentes das intenções captadas em sondagens. Desde que tenho este blogue - há seis anos - venho avisando que isso tende a acontecer mais em eleições com favoritos claros e elevada abstenção. É o caso destas presidenciais, assim como - pelo lado da abstenção sempre, e pelo lado dos favoritos claros algumas vezes - as europeias. É por isto que nos devemos tentar recordar das presidenciais de 2001. Em média, as estimativas de intenção de voto para Sampaio andavam pelos 65%, mas o resultado das eleições esteve 10 pontos abaixo. Muitas pessoas se lembraram disso nesta campanha, e é bom que nos preparemos para a possibilidade de um fenómeno semelhante.
Mas prepararmo-nos para um fenómeno semelhante não significa que ele vá acontecer. As empresas de sondagens sabem perfeitamente disto e têm teorias, mais ou menos desenvolvidas, sobre as razões por que estas coisas sucedem. Logo, é natural que introduzam alterações na maneira como fazem as coisas para evitarem discrepâncias entre intenções de voto e comportamentos. A alteração com maiores efeitos potenciais, creio, é tentar ter um bom "modelo" (mais ou menos complexo) do que é um votante provável. Sabemos que muitas pessoas que nos dizem que irão votar não o vão fazer, e isso é tanto mais verdade quanto menos competitiva e mobilizadora for a eleição. Se essas pessoas foram diferentes daqueles onde há consistência entre intenções e comportamentos, o resultado inevitável são desvios para além do que seria justificável à luz do erro amostral. Mas o que lhes fazer, como apurar o que é uma intenção que se realizará com elevada probabilidade, o que fazer aos que se declaram indecisos, são opções que não estão escritas na pedra: estudam-se, debatem-se, aprendem-se, adaptam-se e permanecem controversas. Para além disso, as empresas lutam contra uma tendência crescente: erros de não-contacto e erros de não-resposta, ou seja, a dificuldade cada vez maior em contactar aqueles que deveriam ser inquiridos e obter deles colaboração para a realização das sondagens. As últimas europeias sugerem que, sejam quais foram as soluções que tenham sido adoptadas, estão longe de serem infalíveis. E sugerem também que, em última análise, pode não haver nada a fazer, em determinadas circunstâncias, para vencer o incontornável: uma sondagem mede intenções e os resultados eleitorais resultam de comportamentos posteriores. Intenções comportamentais e comportamentos são coisas muito fortemente relacionadas, mas diferentes e não perfeitamente relacionadas, como de resto a investigação sobre o comportamento dos consumidores já aprendeu há muito tempo.
Tudo isto para dizer que devemos estar preparados para tudo. A minha impressão - mera impressão - é que o fenómeno de "sobrestimação" (vamos chamar-lhe assim) do vencedor não deverá ter o mesmo tipo de magnitude que teve em 2001, em parte porque acredito que as empresas estão a tomar medidas no sentido de melhorar a forma como lidam com a inconsistência dos eleitores e em parte também devido àquilo que expliquei logo de início: se os apoiantes do favorito tiverem desta vez a noção de que a vitória à 1ª volta não está garantida pelas sondagens, é natural que não se desmobilizem da mesma forma. Mas veremos se a minha impressão se confirma. E outra coisa que me deixa muito curioso é saber como se vai portar isto. Looking good.
E o resto é votar no Domingo e pronto.
Nos comentários perguntam-me muito se acho que estes resultados sugerem que Cavaco Silva se salvará de uma 2ª volta. É uma pergunta interessante, porque denuncia o que me parece ser uma boa tendência: uma abordagem mais informada e realista das sondagens. Ninguém colocou este tipo de pergunta nas últimas Europeias. Mas as pessoas vão percebendo que há eleições onde só se pode ficar muito surpreendido se os comportamentos das pessoas no dia das eleições acabarem por ser muito diferentes das intenções captadas através de as amostras antes das eleições. É esse o caso das legislativas, ou das presidenciais onde o presidente em exercício não concorre, mais competitivas e com menor abstenção. E vão também percebendo que há outras eleições onde os comportamentos dos eleitores - votar ou não votar, votar em quem - podem acabar por ser relativamente diferentes das intenções captadas em sondagens. Desde que tenho este blogue - há seis anos - venho avisando que isso tende a acontecer mais em eleições com favoritos claros e elevada abstenção. É o caso destas presidenciais, assim como - pelo lado da abstenção sempre, e pelo lado dos favoritos claros algumas vezes - as europeias. É por isto que nos devemos tentar recordar das presidenciais de 2001. Em média, as estimativas de intenção de voto para Sampaio andavam pelos 65%, mas o resultado das eleições esteve 10 pontos abaixo. Muitas pessoas se lembraram disso nesta campanha, e é bom que nos preparemos para a possibilidade de um fenómeno semelhante.
Mas prepararmo-nos para um fenómeno semelhante não significa que ele vá acontecer. As empresas de sondagens sabem perfeitamente disto e têm teorias, mais ou menos desenvolvidas, sobre as razões por que estas coisas sucedem. Logo, é natural que introduzam alterações na maneira como fazem as coisas para evitarem discrepâncias entre intenções de voto e comportamentos. A alteração com maiores efeitos potenciais, creio, é tentar ter um bom "modelo" (mais ou menos complexo) do que é um votante provável. Sabemos que muitas pessoas que nos dizem que irão votar não o vão fazer, e isso é tanto mais verdade quanto menos competitiva e mobilizadora for a eleição. Se essas pessoas foram diferentes daqueles onde há consistência entre intenções e comportamentos, o resultado inevitável são desvios para além do que seria justificável à luz do erro amostral. Mas o que lhes fazer, como apurar o que é uma intenção que se realizará com elevada probabilidade, o que fazer aos que se declaram indecisos, são opções que não estão escritas na pedra: estudam-se, debatem-se, aprendem-se, adaptam-se e permanecem controversas. Para além disso, as empresas lutam contra uma tendência crescente: erros de não-contacto e erros de não-resposta, ou seja, a dificuldade cada vez maior em contactar aqueles que deveriam ser inquiridos e obter deles colaboração para a realização das sondagens. As últimas europeias sugerem que, sejam quais foram as soluções que tenham sido adoptadas, estão longe de serem infalíveis. E sugerem também que, em última análise, pode não haver nada a fazer, em determinadas circunstâncias, para vencer o incontornável: uma sondagem mede intenções e os resultados eleitorais resultam de comportamentos posteriores. Intenções comportamentais e comportamentos são coisas muito fortemente relacionadas, mas diferentes e não perfeitamente relacionadas, como de resto a investigação sobre o comportamento dos consumidores já aprendeu há muito tempo.
Tudo isto para dizer que devemos estar preparados para tudo. A minha impressão - mera impressão - é que o fenómeno de "sobrestimação" (vamos chamar-lhe assim) do vencedor não deverá ter o mesmo tipo de magnitude que teve em 2001, em parte porque acredito que as empresas estão a tomar medidas no sentido de melhorar a forma como lidam com a inconsistência dos eleitores e em parte também devido àquilo que expliquei logo de início: se os apoiantes do favorito tiverem desta vez a noção de que a vitória à 1ª volta não está garantida pelas sondagens, é natural que não se desmobilizem da mesma forma. Mas veremos se a minha impressão se confirma. E outra coisa que me deixa muito curioso é saber como se vai portar isto. Looking good.
E o resto é votar no Domingo e pronto.
Tendências

A ausência de José Manuel Coelho não é má vontade, mas apenas consequência de haver muito poucas observações e muito concentradas no tempo. Não faria sentido incluí-lo.
P.S. - A nova versão, com legenda, é dedicada ao @brunolucas.
P.P.S. - E a linha dos 50% ao @ssn. Mais pedidos?
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