PS: 32.6% (+1)
PSD: 25.3% (+0.2)
CDU: 12% (-0.2)
CDS: 9.4 (-2.7)
BE: 7.8 (+0.7)
Aqui. Outros dados: Paulo Portas ministro menos impopular, Vítor Gaspar ministro mais impopular; 57% opõem-se à realização de eleições antecipadas (contra 39% que as defendem).
quarta-feira, abril 10, 2013
domingo, abril 07, 2013
O que eu li no acórdão 187/2013
Ao longo deste fim de semana, nas redes sociais, nos editoriais dos jornais e nas colunas de opinião, li muitas vezes que o acórdão 187/2013 basicamente implica que, em Portugal, e com este Tribunal Constitucional, é impossível fazer consolidação orçamental pelo lado da despesa, nomeadamente cortando salários à função pública. O próprio Primeiro Ministro, no seu discurso de hoje ao final da tarde, afirmou que “não aceita aumentar mais os impostos, que parece ser a solução que o Tribunal Constitucional favorece nas suas interpretações.”
Não sou jurista, e receio que me passem ao lado muitas subtilezas ou que esteja a ser ingénuo. Por favor corrijam-me se for esse o caso. Mas o que eu leio no acórdão é o seguinte (paráfrases e sublinhados meus):
1. Páginas 116 a 121, pontos 33 a 35: os juízes do TC (todos, maioria e vencidos) acham que é perfeitamente legítimo ao legislador tratar os funcionários públicos de forma diferente dos trabalhadores do sector privado. Isso inclui reduzir os seus salários. O legislador democrático tem eventualmente outras opções, mas reduzir as remunerações de quem é pago por verbas públicas não é, em si mesmo, uma arbitrariedade.
2. Páginas 122 a 123, pontos 37 e 38: o TC acha que, apesar de ser aceitável diferenciar trabalhadores do sector privado de trabalhadores do sector público, e apesar de o princípio da igualdade exigir mesmo que o que é desigual seja desigualmente tratado, é também preciso que o tratamento diferenciado seja proporcionado, i.e. que não seja excessivamente desigual.
3. Páginas 127 a 129, ponto 41: a maioria dos juízes do TC nota que o legislador já argumentou várias vezes, seja para o OE 2011 seja para o OE 2012, que o corte de salários era a única maneira de, a curto prazo, cumprir compromissos com instâncias internacionais. Mas à medida que o tempo passa, essa invocação de excepcionalidade, feita agora novamente para o OE2013, vai-se tornando cada vez menos válida. É cada vez mais exigível ao legislador que encontre soluções alternativas ao tratamento excessivamente diferenciado de diferentes categorias de trabalhadores, nomeadamente tomando outras medidas de redução da despesa pública. Por outras palavras, quando mais tempo passa, menos toleráveis se tornam possíveis excessos de diferenciação entre diferentes categorias de trabalhadores.
4. Páginas 129 a 139: a maioria dos juízes do TC acha que a suspensão de pagamento de subsídio de férias ou equivalente e a redução de compensação de trabalho extraordinário, subsídio doença e ajudas de custo, medidas que se acrescentam às reduções de 3.5% a 10% para salários na função pública acima de 1500 euros, à proibição de valorizações remuneratórias decorrentes de promoções ou progressões, e à proibição de prémios de gestão a gestores de empresas públicas (OE 2011 e 2012), assim como ao aumento generalizado da carga fiscal a todos os trabalhadores (OE 2013), configuram, no seu conjunto, um tratamento excessivamente desigual dos trabalhadores pagos com verbas públicas.
É isto, acho eu. A declaração dos cinco juízes que votaram vencidos também é interessante. Nela se defende que a situação orçamental do país mudou consideravelmente em relação ao acórdão anterior, que esta matéria sobre a qual o TC se está a pronunciar exige um escrutínio menos intenso (dando mais latitude ao legislador) sobre desigualdades de tratamento do que em matérias sobre as quais a Constituição explicitamente proibe desigualdades de tratamento, e que, no seu juízo de inconstitucionalidade, o TC se fundou em dados indemonstráveis (no ponto 3 acima) e se atribuiu uma competência que devia ser do legislador (ao fazer o juízo do ponto 4 acima).
Mas vão ler, que eu posso estar a fazer uma leitura errada. Eu sei que agora interessa a várias partes descrever a decisão do tribunal como tendo sido "radical". A uns para manterem credibilidade externa e passarem culpas internas. A outros para descreverem o governo como ilegítimo e apresentarem o TC como última trincheira. Mas o acórdão deve ser o que lá está escrito, não o que uns e outros queiram fazer dele para esconderem as suas próprias incapacidades e interesses. E quer o acórdão quer as declarações de voto são, em grande medida, aquilo que nos tem faltado: uma conversa séria sobre o nosso passado recente e sobre o nosso futuro próximo, e uma conversa em que, para variar, quer os juízes cuja opinião venceu quer aqueles que sairam derrotados nos tratam a nós e à nossa Constituição como soberanos.
Não sou jurista, e receio que me passem ao lado muitas subtilezas ou que esteja a ser ingénuo. Por favor corrijam-me se for esse o caso. Mas o que eu leio no acórdão é o seguinte (paráfrases e sublinhados meus):
1. Páginas 116 a 121, pontos 33 a 35: os juízes do TC (todos, maioria e vencidos) acham que é perfeitamente legítimo ao legislador tratar os funcionários públicos de forma diferente dos trabalhadores do sector privado. Isso inclui reduzir os seus salários. O legislador democrático tem eventualmente outras opções, mas reduzir as remunerações de quem é pago por verbas públicas não é, em si mesmo, uma arbitrariedade.
2. Páginas 122 a 123, pontos 37 e 38: o TC acha que, apesar de ser aceitável diferenciar trabalhadores do sector privado de trabalhadores do sector público, e apesar de o princípio da igualdade exigir mesmo que o que é desigual seja desigualmente tratado, é também preciso que o tratamento diferenciado seja proporcionado, i.e. que não seja excessivamente desigual.
3. Páginas 127 a 129, ponto 41: a maioria dos juízes do TC nota que o legislador já argumentou várias vezes, seja para o OE 2011 seja para o OE 2012, que o corte de salários era a única maneira de, a curto prazo, cumprir compromissos com instâncias internacionais. Mas à medida que o tempo passa, essa invocação de excepcionalidade, feita agora novamente para o OE2013, vai-se tornando cada vez menos válida. É cada vez mais exigível ao legislador que encontre soluções alternativas ao tratamento excessivamente diferenciado de diferentes categorias de trabalhadores, nomeadamente tomando outras medidas de redução da despesa pública. Por outras palavras, quando mais tempo passa, menos toleráveis se tornam possíveis excessos de diferenciação entre diferentes categorias de trabalhadores.
4. Páginas 129 a 139: a maioria dos juízes do TC acha que a suspensão de pagamento de subsídio de férias ou equivalente e a redução de compensação de trabalho extraordinário, subsídio doença e ajudas de custo, medidas que se acrescentam às reduções de 3.5% a 10% para salários na função pública acima de 1500 euros, à proibição de valorizações remuneratórias decorrentes de promoções ou progressões, e à proibição de prémios de gestão a gestores de empresas públicas (OE 2011 e 2012), assim como ao aumento generalizado da carga fiscal a todos os trabalhadores (OE 2013), configuram, no seu conjunto, um tratamento excessivamente desigual dos trabalhadores pagos com verbas públicas.
É isto, acho eu. A declaração dos cinco juízes que votaram vencidos também é interessante. Nela se defende que a situação orçamental do país mudou consideravelmente em relação ao acórdão anterior, que esta matéria sobre a qual o TC se está a pronunciar exige um escrutínio menos intenso (dando mais latitude ao legislador) sobre desigualdades de tratamento do que em matérias sobre as quais a Constituição explicitamente proibe desigualdades de tratamento, e que, no seu juízo de inconstitucionalidade, o TC se fundou em dados indemonstráveis (no ponto 3 acima) e se atribuiu uma competência que devia ser do legislador (ao fazer o juízo do ponto 4 acima).
Mas vão ler, que eu posso estar a fazer uma leitura errada. Eu sei que agora interessa a várias partes descrever a decisão do tribunal como tendo sido "radical". A uns para manterem credibilidade externa e passarem culpas internas. A outros para descreverem o governo como ilegítimo e apresentarem o TC como última trincheira. Mas o acórdão deve ser o que lá está escrito, não o que uns e outros queiram fazer dele para esconderem as suas próprias incapacidades e interesses. E quer o acórdão quer as declarações de voto são, em grande medida, aquilo que nos tem faltado: uma conversa séria sobre o nosso passado recente e sobre o nosso futuro próximo, e uma conversa em que, para variar, quer os juízes cuja opinião venceu quer aqueles que sairam derrotados nos tratam a nós e à nossa Constituição como soberanos.
sexta-feira, abril 05, 2013
quarta-feira, abril 03, 2013
Portugal nos indicadores de governação do Banco Mundial
Um gráfico de um texto sobre a qualidade da democracia em Portugal em que estou a trabalhar. Apeteceu-me mostrar já:
quinta-feira, março 28, 2013
Pitagórica, 19-24 mar., N=503, Tel.
PS: 36.7% (+1.6)
PSD: 25.7% (-0.7)
CDU: 11.2% (+0.5)
CDS: 10.6% (-0.1)
BE: 7,9% (-0.7)
Entre parêntesis, mudança em relação a sondagem de Fevereiro passado da mesma empresa. Aqui.
PSD: 25.7% (-0.7)
CDU: 11.2% (+0.5)
CDS: 10.6% (-0.1)
BE: 7,9% (-0.7)
Entre parêntesis, mudança em relação a sondagem de Fevereiro passado da mesma empresa. Aqui.
sexta-feira, março 15, 2013
Cesop-Católica, 9-11 mar, N=949, Face to face
PS: 31% (=)
PSD: 28% (+4)
CDU: 12% (-1)
BE: 8% (-3)
CDS-PP: 5% (-2)
OBN: 14% (+2)
Entre parêntesis, comparação com setembro de 2012. Aqui. Avaliação muito negativa do governo (77% acham-no "mau" ou "muito mau"), mas 61% acham que nenhum partido da oposição faria melhor.
PSD: 28% (+4)
CDU: 12% (-1)
BE: 8% (-3)
CDS-PP: 5% (-2)
OBN: 14% (+2)
Entre parêntesis, comparação com setembro de 2012. Aqui. Avaliação muito negativa do governo (77% acham-no "mau" ou "muito mau"), mas 61% acham que nenhum partido da oposição faria melhor.
terça-feira, março 05, 2013
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
quarta-feira, fevereiro 20, 2013
www.pop.pt
É muito habitual ouvirmos dizer que os portugueses "pensam", "acham" ou "querem" isto ou aquilo. O que é menos habitual é que essas afirmações venham acompanhadas de qualquer espécie de fundamentação empírica. Mas em muitos casos ela existe, servindo seja para confirmar seja para refutar essas afirmações. Nas últimas décadas, na Europa, projectos muito conhecidos como o Eurobarómetro, ou menos conhecidos como o Estudo Europeu dos Valores ou o Inquérito Social Europeu, têm feito inquéritos por questionário a amostras representativas das populações europeias, medindo atitudes e valores sociais e políticos.
A verdade também é que sociológos, politólogos e psicólogos sociais não se podem queixar muito do desconhecimento destes dados. Eles são públicos, é certo, mas estão em geral dispersos, em plataformas difíceis de utilizar por não-especialistas e onde a visualização é difícil e deselegante. O Portal de Opinião Pública - POP - procura suprir estas lacunas. Tem mais de 100 indicadores sobre sete temas diferentes - política, economia, família, trabalho, religião, o indivíduo e os grupos sociais - em 27 países e nos últimos 20 anos (nalguns casos mais). É, espero que concordem, de utilização fácil e intuitiva. Gera gráficos e dados fáceis de partilhar. Tem uma versão em inglês. E pode contribuir, esperamos, para melhorar a qualidade do debate público sempre que se entra por aquilo que os portugueses (e os outros europeus) são supostos "pensar", "achar" ou "querer". Convido-vos a visitarem o POP, a brincarem com ele, a partilharem os seus dados e a dizerem o acham que nele falta ou podia ser melhorado.
A verdade também é que sociológos, politólogos e psicólogos sociais não se podem queixar muito do desconhecimento destes dados. Eles são públicos, é certo, mas estão em geral dispersos, em plataformas difíceis de utilizar por não-especialistas e onde a visualização é difícil e deselegante. O Portal de Opinião Pública - POP - procura suprir estas lacunas. Tem mais de 100 indicadores sobre sete temas diferentes - política, economia, família, trabalho, religião, o indivíduo e os grupos sociais - em 27 países e nos últimos 20 anos (nalguns casos mais). É, espero que concordem, de utilização fácil e intuitiva. Gera gráficos e dados fáceis de partilhar. Tem uma versão em inglês. E pode contribuir, esperamos, para melhorar a qualidade do debate público sempre que se entra por aquilo que os portugueses (e os outros europeus) são supostos "pensar", "achar" ou "querer". Convido-vos a visitarem o POP, a brincarem com ele, a partilharem os seus dados e a dizerem o acham que nele falta ou podia ser melhorado.
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Eurosondagem, 30 jan- 5 fev, N=1011, Tel.
PS: 34.1% (-0.2)
PSD: 27.6% (+0.7)
CDU: 11.6% (+1.3)
CDS-PP: 9.5% (-0.1)
BE: 8.4% (-0.4)
Aqui. Já agora, a ERC finalmente começou a publicar os depósitos de 2013.
PSD: 27.6% (+0.7)
CDU: 11.6% (+1.3)
CDS-PP: 9.5% (-0.1)
BE: 8.4% (-0.4)
Aqui. Já agora, a ERC finalmente começou a publicar os depósitos de 2013.
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
Nós
Há muita gente chocada com as declarações de Fernando Ulrich. Aparentemente, é um problema de "falta de sensibilidade social" ou até de "mau gosto". Mas não me parece que essa seja a questão mais interessante. Afinal, se formos ler o que realmente disse, veremos como assinalou o sofrimento dos sem-abrigo, e nada me faz supor que semelhante sentimento - "sensibilidade", "compaixão", o que lhe quisermos chamar - não seja genuíno. O que me chama a atenção é outra coisa.
É aquele "nós":
"Se andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim, porquê? Isso também nos pode acontecer", disse na conferência de Imprensa. "Se as pessoas que vemos ali na rua, naquela situação a sofrer tanto aguentam, porque é que nós não aguentamos?"
Há pouco tempo, reli um artigo de Frederick Solt sobre desigualdade e nacionalismo. Solt começa por citar Hobsbawm, Tilly, Dahl e até Rosa Luxemburgo em favor de uma ideia simples: a de que "o conceito de 'nação' como uma entidade social e política homogénea" é em parte um "véu" que oculta a desigualdade de condições e os interesses antagónicos dos membros dessa entidade. Segue-se uma hipótese: a de que, quanto maiores forem os níveis de desigualdade de rendimentos numa sociedade, maior a propensão dos seus membros para se mostrarem "orgulhosos da sua nação" e "emocionalmente ligados" ao seu país. Solt confirma a hipótese recorrendo a dados do World Values Survey, e conclui que isto apoia uma "teoria diversionária" do nacionalismo:
"When economic inequality in a country is greater, the state will generate more nationalism in its citizens so as to divert their attention from their diverging conditions and forestall demands for redistributive policies."
Não sei se concordo com a ideia de que as elites políticas tenham sempre o poder suficiente e até partilhem os incentivos para promoverem essa unidade ilusória em contextos de elevada desigualdade, nem com a ideia de que essa unidade é meramente ilusória (afinal, os "países" e as comunidades políticas também têm interesses antagónicos em relação a outros países e outras comunidades). Mas é difícil não recordar que o elenco de argumentos políticos a favor das políticas de austeridade, aqui e noutros países, passa frequentemente pelo apelo ao "interesse nacional", à partilha de responsabilidades e "culpas", dos mesmos deveres de "aguentar" e dos benefícios que supostamente daí advêm para "todos". De resto, um dos argumentos - plausível - que venho ouvindo em conversas sobre a forma "ordeira" como os portugueses têm lidado com os sacrifícios da estabilização orçamental é precisamente a nossa forte unidade nacional e o sentimento de pertença a uma mesma comunidade.
Não sei bem por que razão os políticos conseguem recorrer a este tipo de discurso com relativa impunidade. Talvez por a sua legitimidade advir do "povo", porventura outra ficção, mas de alguma forma consubstanciada, em democracias, em eleições livres e regulares. Mas essa é uma impunidade de que Ulrich não pôde beneficiar quando apelou a estas semelhanças entre "nós" em torno dos "sacrifícios". Talvez porque tenha inadvertidamente introduzido um "eles" (os sem-abrigo), ou mais provavelmente por ser um membro visível da nossa rarefeita elite social e económica, Ulrich acabou por chamar a atenção para o facto de que, pelo menos de um certo ponto de vista, não há qualquer espécie de "nós" ao qual ele, o seu motorista, um sem-abrigo, eu, e vocês que me estão a ler possamos todos simultaneamente pertencer. Como me recordava há dias um amigo, a esperança de vida dos sem-abrigo britânicos é de 47 anos, e nada faz supor que a dos portugueses seja superior. 72% dos portugueses afirmam ter dificuldades em pagar as contas ao fim do mês. Por detrás do "véu" da unidade nacional, aquilo que cada um tem de aguentar e como aguenta é, afinal, muito diferente. Ulrich ajudou assim a desfazer esta amável ilusão de unidade, relembrando-nos que a profunda desigualdade da nossa sociedade é também uma desigualdade perante os "necessários sacrifícios". Talvez lhe devêssemos agradecer o serviço prestado.
Depois disto, espera-se também que os espíritos mais atentos detectem outras situações comparáveis. Como quando alguns sindicatos e até partidos invocam os interesses dos "trabalhadores", quando é patente que os interesses que defendem são os de uma parte, cada vez mais pequena, daqueles que trabalham, normalmente contra os interesses da outra parte. Ou quando muitos patrões que falam dos interesses das empresas, da "criação de emprego" ou - acaba quase sempre aí - dos "apoios do estado" estão, de facto, a representar os interesses de uma parte das empresas, normalmente as que vivem do mercado interno. Etc, etc, etc. Na verdade, o que há mais é disto.
É aquele "nós":
"Se andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim, porquê? Isso também nos pode acontecer", disse na conferência de Imprensa. "Se as pessoas que vemos ali na rua, naquela situação a sofrer tanto aguentam, porque é que nós não aguentamos?"
Há pouco tempo, reli um artigo de Frederick Solt sobre desigualdade e nacionalismo. Solt começa por citar Hobsbawm, Tilly, Dahl e até Rosa Luxemburgo em favor de uma ideia simples: a de que "o conceito de 'nação' como uma entidade social e política homogénea" é em parte um "véu" que oculta a desigualdade de condições e os interesses antagónicos dos membros dessa entidade. Segue-se uma hipótese: a de que, quanto maiores forem os níveis de desigualdade de rendimentos numa sociedade, maior a propensão dos seus membros para se mostrarem "orgulhosos da sua nação" e "emocionalmente ligados" ao seu país. Solt confirma a hipótese recorrendo a dados do World Values Survey, e conclui que isto apoia uma "teoria diversionária" do nacionalismo:
"When economic inequality in a country is greater, the state will generate more nationalism in its citizens so as to divert their attention from their diverging conditions and forestall demands for redistributive policies."
Não sei se concordo com a ideia de que as elites políticas tenham sempre o poder suficiente e até partilhem os incentivos para promoverem essa unidade ilusória em contextos de elevada desigualdade, nem com a ideia de que essa unidade é meramente ilusória (afinal, os "países" e as comunidades políticas também têm interesses antagónicos em relação a outros países e outras comunidades). Mas é difícil não recordar que o elenco de argumentos políticos a favor das políticas de austeridade, aqui e noutros países, passa frequentemente pelo apelo ao "interesse nacional", à partilha de responsabilidades e "culpas", dos mesmos deveres de "aguentar" e dos benefícios que supostamente daí advêm para "todos". De resto, um dos argumentos - plausível - que venho ouvindo em conversas sobre a forma "ordeira" como os portugueses têm lidado com os sacrifícios da estabilização orçamental é precisamente a nossa forte unidade nacional e o sentimento de pertença a uma mesma comunidade.
Não sei bem por que razão os políticos conseguem recorrer a este tipo de discurso com relativa impunidade. Talvez por a sua legitimidade advir do "povo", porventura outra ficção, mas de alguma forma consubstanciada, em democracias, em eleições livres e regulares. Mas essa é uma impunidade de que Ulrich não pôde beneficiar quando apelou a estas semelhanças entre "nós" em torno dos "sacrifícios". Talvez porque tenha inadvertidamente introduzido um "eles" (os sem-abrigo), ou mais provavelmente por ser um membro visível da nossa rarefeita elite social e económica, Ulrich acabou por chamar a atenção para o facto de que, pelo menos de um certo ponto de vista, não há qualquer espécie de "nós" ao qual ele, o seu motorista, um sem-abrigo, eu, e vocês que me estão a ler possamos todos simultaneamente pertencer. Como me recordava há dias um amigo, a esperança de vida dos sem-abrigo britânicos é de 47 anos, e nada faz supor que a dos portugueses seja superior. 72% dos portugueses afirmam ter dificuldades em pagar as contas ao fim do mês. Por detrás do "véu" da unidade nacional, aquilo que cada um tem de aguentar e como aguenta é, afinal, muito diferente. Ulrich ajudou assim a desfazer esta amável ilusão de unidade, relembrando-nos que a profunda desigualdade da nossa sociedade é também uma desigualdade perante os "necessários sacrifícios". Talvez lhe devêssemos agradecer o serviço prestado.
Depois disto, espera-se também que os espíritos mais atentos detectem outras situações comparáveis. Como quando alguns sindicatos e até partidos invocam os interesses dos "trabalhadores", quando é patente que os interesses que defendem são os de uma parte, cada vez mais pequena, daqueles que trabalham, normalmente contra os interesses da outra parte. Ou quando muitos patrões que falam dos interesses das empresas, da "criação de emprego" ou - acaba quase sempre aí - dos "apoios do estado" estão, de facto, a representar os interesses de uma parte das empresas, normalmente as que vivem do mercado interno. Etc, etc, etc. Na verdade, o que há mais é disto.
terça-feira, fevereiro 05, 2013
Panetta-Burns
A liderança bicéfala do Bloco de Esquerda complica a vida a quem faz sondagens. Quem é o "líder" do Bloco, aquele cuja popularidade ou actuação, tal como percepcionada pelos eleitores, as sondagens querem medir? Eis como a Eurosondagem lidou com o problema no Barómetro Político de Dezembro:
P.14: Acha que a actuação da liderança do BE, Cristina Martins e João Semedo, tem sido:
Positiva: 28,6%
Nem boa nem má: 28,4%
Negativa: 22,0%
Ns/Nr: 21,0%
Daqui podem decorrer várias conclusões. Uma é que há mais inquiridos que fazem uma avaliação positiva que negativa da liderança do Bloco de Esquerda. Outra é que mesmo um público informado, como aquele que é responsável por conduzir sondagens, pode ainda não saber que Catarina Martins não se chama Cristina Martins (eu, por exemplo, não reparei nisto quando olhei para o documento. Foi um colega que me alertou para a coisa). E a terceira é que há pessoas que têm opinião sobre tudo, mesmo aquilo que não existe. Por exemplo, há uns tempos ficámos a saber que 25% dos americanos tinham uma opinião sobre o plano Panetta-Burns de redução do défice, não muito menos que os 39% que tinham opinião sobre o plano Simpson-Bowles. O único detalhe, claro, é que o plano Panetta-Burns nunca existiu...
P.14: Acha que a actuação da liderança do BE, Cristina Martins e João Semedo, tem sido:
Positiva: 28,6%
Nem boa nem má: 28,4%
Negativa: 22,0%
Ns/Nr: 21,0%
Daqui podem decorrer várias conclusões. Uma é que há mais inquiridos que fazem uma avaliação positiva que negativa da liderança do Bloco de Esquerda. Outra é que mesmo um público informado, como aquele que é responsável por conduzir sondagens, pode ainda não saber que Catarina Martins não se chama Cristina Martins (eu, por exemplo, não reparei nisto quando olhei para o documento. Foi um colega que me alertou para a coisa). E a terceira é que há pessoas que têm opinião sobre tudo, mesmo aquilo que não existe. Por exemplo, há uns tempos ficámos a saber que 25% dos americanos tinham uma opinião sobre o plano Panetta-Burns de redução do défice, não muito menos que os 39% que tinham opinião sobre o plano Simpson-Bowles. O único detalhe, claro, é que o plano Panetta-Burns nunca existiu...
quarta-feira, janeiro 23, 2013
sexta-feira, janeiro 18, 2013
sábado, janeiro 12, 2013
O relatório do FMI, 2
Não tencionava escrever o que se segue porque me pareceu tão banal que achei que alguém me pouparia o esforço. Mas não dei por quem o tenha dito, por isso aqui vai. Para o governo, a discussão que este relatório está a gerar deverá ser, em saldo final, muito positiva. Porque:
1. Se o governo for comandado por agentes racionais e não puramente ideológicos, aquilo que haja de discussão séria sobre o relatório ajudará a expurgar os erros e as soluções tecnicamente inadequadas que uma coisa destas inevitalmente terá (e parece que tem alguns), permitindo que se tomem melhores decisões. Com isto não quero dizer que o governo seja comandado por pessoas racionais ou que a discussão possa ser séria, mas acho que não se deve excluir completamente a hipótese.
2. Independentemente do ponto 1, o FMI cumpre aqui a função de batedor. Faz barulho, levanta a caça, não paga preços eleitorais e ajuda a gerar informação preciosa para o governo sobre que medidas deverão ser, à partida, completamente inaceitáveis e inaplicáveis do ponto de vista político. Como o governo não está em rigor obrigado a tomar essas medidas e como quem fica com a responsabilidade das ideias mais politicamente mirabolantes é o FMI, esta é a maneira certa de levantar a caça. Murmurar frases mutuamente contraditórias sobre o financiamento do ensino obrigatório em entrevistas televisivas e nos dias seguintes é a maneira errada.
3. Finalmente, este relatório e a discussão que está a ocorrer deixa o país a marinar num conjunto de hipóteses aterrorizadoras de corte de despesa que o governo se encarregará de rejeitar ou mitigar quando chegar a altura certa. "Afinal", dir-se-á, não foi tão mau como se pensava. As piores expectativas não serão cumpridas. Vai-se cortar, vai doer, mas claro que não se vai cortar 4.000 milhões. Mas como os credores já explicaram, o que conta não é tanto a meta mas sim a direcção da corrida, e os esforços do país serão elogiados, e Portugal não é a Grécia, e enfim, mais 1% menos 1%, estabilizadores e multiplicadores e tal.
Não faço ideia se isto é bom ou não para o país e para nós, mas é o que é, ou o que vai ser.
1. Se o governo for comandado por agentes racionais e não puramente ideológicos, aquilo que haja de discussão séria sobre o relatório ajudará a expurgar os erros e as soluções tecnicamente inadequadas que uma coisa destas inevitalmente terá (e parece que tem alguns), permitindo que se tomem melhores decisões. Com isto não quero dizer que o governo seja comandado por pessoas racionais ou que a discussão possa ser séria, mas acho que não se deve excluir completamente a hipótese.
2. Independentemente do ponto 1, o FMI cumpre aqui a função de batedor. Faz barulho, levanta a caça, não paga preços eleitorais e ajuda a gerar informação preciosa para o governo sobre que medidas deverão ser, à partida, completamente inaceitáveis e inaplicáveis do ponto de vista político. Como o governo não está em rigor obrigado a tomar essas medidas e como quem fica com a responsabilidade das ideias mais politicamente mirabolantes é o FMI, esta é a maneira certa de levantar a caça. Murmurar frases mutuamente contraditórias sobre o financiamento do ensino obrigatório em entrevistas televisivas e nos dias seguintes é a maneira errada.
3. Finalmente, este relatório e a discussão que está a ocorrer deixa o país a marinar num conjunto de hipóteses aterrorizadoras de corte de despesa que o governo se encarregará de rejeitar ou mitigar quando chegar a altura certa. "Afinal", dir-se-á, não foi tão mau como se pensava. As piores expectativas não serão cumpridas. Vai-se cortar, vai doer, mas claro que não se vai cortar 4.000 milhões. Mas como os credores já explicaram, o que conta não é tanto a meta mas sim a direcção da corrida, e os esforços do país serão elogiados, e Portugal não é a Grécia, e enfim, mais 1% menos 1%, estabilizadores e multiplicadores e tal.
Não faço ideia se isto é bom ou não para o país e para nós, mas é o que é, ou o que vai ser.
sexta-feira, janeiro 11, 2013
O relatório do FMI
Não é boa maneira de começar um post com este título, mas a verdade é que não me sinto capaz de dar uma opinião fundamentada sequer sobre o sumário executivo. Nada do que se discute ali é a minha área. Mas a discussão que está a ocorrer leva-me a falar de um paper de Boeri e Tabellini com o título "Does information increase political support for pension reform?" Basicamente, eles partem de inquéritos feitos em Itália onde se medem junto dos inquiridos:
- se são a favor de aumentar a idade de reforma e/ou reduzir benefícios;
- o seu conhecimento sobre a situação financeira da segurança social, como são usadas as contribuições e a % do salário usada para pagar contribuições;
- o grau de atenção aos media sobre estes temas.
Isto é complementado com uma experiência onde, a uma parte aleatoriamente seleccionada de uma amostra num inquérito online, é pedido que leiam um texto descritivo sobre o funcionamento do sistema italiano.
Resultados:
*65% dos italianos sabiam que o sistema estava em situação deficitária, só 50% percebiam que o sistema é "pay-as-you go", e só 10% (dos empregados, menos do total) acertavam na taxa dentro de um intervalo +/- 2.5% (e apenas um em cada quatro acertava num intervalo maior, 25%-40%).
* Quanto menos informação objectiva sobre o funcionamento do sistema, menor a propensão para aceitar reformas ao sistema no sentido de aumentar idade da reforma e/ou diminuir benefícios. Isto é estimado de uma data de maneiras diferentes, presumindo exogeneidade e endogeneidade das variáveis que medem informação, etc.
* Exposição ao debate nos media sobre a reforma do sistema tem efeito nulo sobre a real informação sobre o sistema. Vale a pena citar:
"Individuals who declare to be more exposed to media coverage do not appear to be more informed about basic features of the pension system. One interpretation of this result is that individuals read newspaper articles or watch TV programs on the issue just to confirm their priors, more than to collect new information."
* A experiência confirma o resultado anterior: quem lê o texto fica mais propenso a aceitar reformas. Sei no que vocês estão a pensar, e eles também:
"There is, however, an unavoidable issue of interpretation. Although the description is factual and unloaded with normative suggestions, we cannot rule out the possibility that exposure to treatment here conveys more than just factual information, but also forces the respondent to think more carefully about his answers, or provides additional information besides that captured by the variable info."
Sobre saúde não conheço estudos assim, mas fiz, com Henrique Lopes, um estudo de apoio a um relatório de Jorge Simões, Pedro Pita Barros e João Pereira sobre a sustentabilidade do SNS, que consistiu num inquérito por questionário a uma amostra nacional sobre o tema (disponível aqui). O inquérito tratava muita coisa mas o aspecto relevante aqui é este:
* 81% dos inquiridos consideravam-se mal informados sobre a forma como o SNS é financiado.
* Só 11% tentaram responder à pergunta do valor da despesa do SNS por habitante por ano. Desses 11%, quase ninguém respondeu no intervalo 721-880€ (o valor real de 2005 com uma flutuação de +/- 10%) e a maior parte achava que era menos.
* Só 7% tentaram responder à pergunta do valor da despesa agregada (8.000 milhões) e, desses, apenas 1 em 10 acertaram num intervalo generoso de 5.000/10.000 milhões. No total, em 1.173 pessoas inquiridas, só uma deu as duas respostas "certas".
Nos estudos eleitorais, tende a prevalecer uma visão benévola sobre a ignorância que as pessoas possam ter sobre os temas substantivos discutidos na vida política, alegando-se que com "atalhos informacionais" as pessoas acabam por chegar às "respostas certas", ou seja, àquelas que chegariam mesmo se tivessem mais informação. Mas estudos como este sugerem que a falta de conhecimento tem implicações maiores, pelo menos quando se trata de debates com este grau de tecnicidade. Outro ponto é que, pelos vistos, a exposição a estes debates junto dos meios de comunicação social muda pouco ou nada.
P.S.- De resto, uma das sugestões de Boeri e Tabellini é que se siga o exemplo da Suécia, onde "“orange envelopes” are mailed every year to all contributors, providing basic information on the functioning of the pension system, a glos- sary, a statement of past contributions and projections of the annual entitlements under three retirement ages and for two assumptions on economic growth." Isso, contudo, exige governos que confiam na inteligência dos seus cidadãos e cidadãos que confiam na honestidade dos seus governos...
- se são a favor de aumentar a idade de reforma e/ou reduzir benefícios;
- o seu conhecimento sobre a situação financeira da segurança social, como são usadas as contribuições e a % do salário usada para pagar contribuições;
- o grau de atenção aos media sobre estes temas.
Isto é complementado com uma experiência onde, a uma parte aleatoriamente seleccionada de uma amostra num inquérito online, é pedido que leiam um texto descritivo sobre o funcionamento do sistema italiano.
Resultados:
*65% dos italianos sabiam que o sistema estava em situação deficitária, só 50% percebiam que o sistema é "pay-as-you go", e só 10% (dos empregados, menos do total) acertavam na taxa dentro de um intervalo +/- 2.5% (e apenas um em cada quatro acertava num intervalo maior, 25%-40%).
* Quanto menos informação objectiva sobre o funcionamento do sistema, menor a propensão para aceitar reformas ao sistema no sentido de aumentar idade da reforma e/ou diminuir benefícios. Isto é estimado de uma data de maneiras diferentes, presumindo exogeneidade e endogeneidade das variáveis que medem informação, etc.
* Exposição ao debate nos media sobre a reforma do sistema tem efeito nulo sobre a real informação sobre o sistema. Vale a pena citar:
"Individuals who declare to be more exposed to media coverage do not appear to be more informed about basic features of the pension system. One interpretation of this result is that individuals read newspaper articles or watch TV programs on the issue just to confirm their priors, more than to collect new information."
* A experiência confirma o resultado anterior: quem lê o texto fica mais propenso a aceitar reformas. Sei no que vocês estão a pensar, e eles também:
"There is, however, an unavoidable issue of interpretation. Although the description is factual and unloaded with normative suggestions, we cannot rule out the possibility that exposure to treatment here conveys more than just factual information, but also forces the respondent to think more carefully about his answers, or provides additional information besides that captured by the variable info."
Sobre saúde não conheço estudos assim, mas fiz, com Henrique Lopes, um estudo de apoio a um relatório de Jorge Simões, Pedro Pita Barros e João Pereira sobre a sustentabilidade do SNS, que consistiu num inquérito por questionário a uma amostra nacional sobre o tema (disponível aqui). O inquérito tratava muita coisa mas o aspecto relevante aqui é este:
* 81% dos inquiridos consideravam-se mal informados sobre a forma como o SNS é financiado.
* Só 11% tentaram responder à pergunta do valor da despesa do SNS por habitante por ano. Desses 11%, quase ninguém respondeu no intervalo 721-880€ (o valor real de 2005 com uma flutuação de +/- 10%) e a maior parte achava que era menos.
* Só 7% tentaram responder à pergunta do valor da despesa agregada (8.000 milhões) e, desses, apenas 1 em 10 acertaram num intervalo generoso de 5.000/10.000 milhões. No total, em 1.173 pessoas inquiridas, só uma deu as duas respostas "certas".
Nos estudos eleitorais, tende a prevalecer uma visão benévola sobre a ignorância que as pessoas possam ter sobre os temas substantivos discutidos na vida política, alegando-se que com "atalhos informacionais" as pessoas acabam por chegar às "respostas certas", ou seja, àquelas que chegariam mesmo se tivessem mais informação. Mas estudos como este sugerem que a falta de conhecimento tem implicações maiores, pelo menos quando se trata de debates com este grau de tecnicidade. Outro ponto é que, pelos vistos, a exposição a estes debates junto dos meios de comunicação social muda pouco ou nada.
P.S.- De resto, uma das sugestões de Boeri e Tabellini é que se siga o exemplo da Suécia, onde "“orange envelopes” are mailed every year to all contributors, providing basic information on the functioning of the pension system, a glos- sary, a statement of past contributions and projections of the annual entitlements under three retirement ages and for two assumptions on economic growth." Isso, contudo, exige governos que confiam na inteligência dos seus cidadãos e cidadãos que confiam na honestidade dos seus governos...
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