terça-feira, agosto 29, 2006

A opinião pública libanesa

Seria bom se tivéssemos uma maneira de apreciar o efeito da guerra no Médio Oriente na opinião pública libanesa em relação ao Hezbollah. Mas não é nada fácil. O exemplo junto mostra como a simples escolha de opções de resposta a uma mesma pergunta em duas sondagens diferentes pode inviabilizar uma comparação segura.

Em Abril de 2004, como já referi aqui, 79% dos Xiitas estavam contra o desarmamento do Hezbollah em quaisquer circunstâncias, enquanto que, entre os restantes grupos religiosos, aqueles que defendiam esse desarmamento eram, mesmo assim, minoritários. A divisão para o total da população era:

Do you agree or disagree with the following statement?"Hezbollah should be disarmed".
Agree: 6%
Agree, if peace exists: 18%
Only if Hezbollah Agrees: 31%
Disagree:41%

O que temos agora (14-17 Agosto)?

"The poll by IPSOS for the French-language daily L'Orient-Le Jour found 51 percent of respondents supported the group's disarmament, with 49 percent against, a difference within the survey's margin of error."

O apoio ao desarmamento aumentou ou diminuiu? Depende. Pode ter aumentado de 24% para 51% ou diminuido de 55% para 51%, dependendo da forma como agregamos os resultados do primeiro inquérito e daquilo que nele significa "concordância" com o desarmamento.

Fica contudo a sensação de que, pelo menos, houve algo que aumentou: a polarização de opiniões entre grupos religiosos.

"Among the Shiite community -- Lebanon's largest and the support base for Hizbullah -- the poll found 84 percent of respondents wanted the group to keep its weapons.But among the Druze and Christian communities, 79 percent and 77 percent respectively wanted the group to surrender its arsenal.Among the Sunni community, the poll found a slender majority of 54 percent in favor of the group disarming."

Disto isto, com estas incertezas todas, o anterior resultado torna ainda mais curioso o recente artigo no Jerusalem Post do nosso já conhecido amigo Edward Luttwak. Aqui há uns tempos, num artigo reproduzido no Público que mencionei aqui, Luttwak defendia que o verdadeiro objectivo de Israel no conflito era, aumentando os custos da tolerância em relação do Hezbollah, deslegitimá-lo enquanto partido político aos olhos da população libanesa. Hoje, Luttwak acha que "the outcome of the war is likely to be more satisfactory than many now seem to believe". Porque o Hezbollah foi deslegitimado enquanto partido político? Não.

"Nasrallah has a political constituency, and it happens to be centered in southern Lebanon. Implicitly accepting responsibility for having started the war, Nasrallah has directed his Hizbullah to focus on rapid reconstruction in villages and towns, right up to the Israeli border. He cannot start another round of fighting that would quickly destroy everything again. Yet another unexpected result of the war is that Nasrallah's power-base in southern Lebanon is more than ever a hostage for Hizbullah's good behavior."

Afinal, a guerra produziu efeitos positivos porque o Hezbollah sobreviveu como partido político e por isso está condicionado pelos interesses das suas bases. Sucede que essas bases, como acabámos de ver, estão tão ou mais encarniçadamente contra o desarmamento do que estavam no passado.

Isto de um tipo ter de falar todos os dias sobre a mesma coisa (e de já saber a mensagem que quer transmitir antes de meter os factos na equação) é no que dá.
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