sexta-feira, novembro 12, 2010

Sabe o que vai acontecer no dia 23 de Janeiro? Nós sim.

Em Julho de 2008, escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas usando os mesmos dados e publicado em Junho de 2009 na revista Electoral Studies, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%.

Como já explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos, porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões – e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época – não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30. A nossa questão tornou-se outra: por que razão a previsão baseada em "previsões" (e não na "realidade") esteve tão próxima dos resultados finais? Pode ter sido mero acaso. Mas pode ser que isto nos diga algo sobre como a realidade económica é percebida pelos eleitores (abrindo parêntesis, é curioso verificar, no recente inquérito dos Transatlantic Trends, como os portugueses foram, de todos os países inquiridos, aqueles onde a percepção de consequências concretas da crise era mais baixa em 2009 e onde mais subiu de 2009 para 2010). Vamos trabalhar nisto. Entretanto, obedecendo a um poderoso impulso suicidário, tivemos outra ideia: e que tal uma previsão dos resultados das presidenciais? Péssima ideia. Vamos a isso.
Péssima ideia porquê? Várias razões:
  • Na democracia portuguesa, tivemos 7 (sete) eleições presidenciais. Se quisermos prever resultados eleitorais futuros na base do passado, podemos usar não mais de 7 (sete) observações. É muito, muito pouco.
  • A maior parte dos modelos deste género procura prever a percentagem de votos do partido ou partidos no governo, ou seja, o desempenho do incumbente, no pressuposto de que a função de voto do governo é explicada por aspectos do seu desempenho (popularidade, crescimento económico, etc.). Mas o que fazer ao conceito de incumbente no caso do Presidente? É difícil saber:
    • Primeiro, o Presidente não governa (há certamente quem gostasse, mas lamentamos informar que não).
    • Segundo, quem é o incumbente em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbente estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha (e, quem sabe, Pintasilgo) no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora. Por outras palavras, como não há uma relação de identidade estável entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbente, no sentido estrito em que é usado habitualmente nos modelos de previsão - um partido, ou um candidato -, não faz sentido.
Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Em breve explicaremos o quê e como. O que daí resulta, podemos desde já, em parte, adiantar: Cavaco Silva deverá ganhar à primeira volta (um momento para que o caro leitor se possa tentar refazer do enorme choque que a frase anterior lhe causou). Mas com que percentagem de votos? Daqui a dias ficarão a saber.

Pedro Magalhães e Luís Aguiar-Conraria (publicado originalmente no Delito de Opinião)
Enviar um comentário