quinta-feira, setembro 13, 2012

Transatlantic Trends: alguns resultados

Os resultados do inquérito Transatlantic Trends, apoiado em Portugal pela FLAD, são divulgados em inglês e suficientemente conhecidos lá fora. Logo, passo para português neste post. Os inquéritos cobrem muitos temas, especialmente de política internacional, mas têm dado muita atenção ao tema da crise económica nos últimos anos. O trabalho de campo ocorreu em Junho passado. Destaco alguns resultados:























Em geral, com poucas excepções, há mais pessoas a avaliar positivamente a actuação da UE do que dos seus próprios governos nacionais. É natural: os governos são partidários, dividem as pessoas; a UE não é vista da mesma forma. Dito isto, é curioso que uma crise cuja responsabilidade tem sido atribuída à incapacidade de decisão na Europa permita, mesmo assim, que na maior parte dos casos a actuação da UE seja vista como positiva. Quem paga as favas são os governos: afinal, são eles que podemos castigar ou recompensar, ao contrário de uma distante e politicamente irresponsável UE. Notar também as excepções: Alemanha, Turquia e Suécia.























Uma mini-surpresa: na maior parte dos países, a actuação da chanceler Merkel é vista como positiva pela maior parte dos inquiridos. Aqui, claro, há uma clivagem:






















Na Turquia, em Portugal, em Itália, e em Espanha, essa avaliação é predominantemente negativa. E está fortemente relacionada com uma pior opinião da Alemanha enquanto país. Isto é algo que, sendo porventura compreensível na Turquia, me parece um bocado perturbante nos restantes países, devo dizer.























Na maior parte destes países, a avaliação que se faz dos efeitos do Euro (ou dos que seriam os efeitos do Euro para os países que não o têm) é mais negativa que positiva. E onde ele não existe, pelos vistos, poucos o querem. Por outro lado, noutra pergunta, há já 50% de espanhóis que acham que seria melhor sair, valor que chega aos 40% em Portugal...

Que fazer? Uma das perguntas coloca os inquiridos perante três opções: diminuir despesas para diminuir a dívida; manter o nível de despesas; ou aumentar para promover crescimento? O gráfico seguinte mostra as percentagens para a primeira opção:























Apesar da diminuição em relação a 2011, Portugal continuava em Junho o campeão da defesa do corte das despesas do Estado. Claro, a pergunta é colocada em abstracto, sem especificar onde se corta, o que facilita o apoio. Para além disso, cortar despesas é bastante diferente de aumentar impostos ou contribuições para a segurança social, o que nos deve tornar ainda mais cuidadosos sobre interpretações destes resultados como sendo de "apoio" às medidas de quaisquer governos. Mas dito isto, há (ou talvez mais exactamente, havia em Junho) um capital político não irrelevante de apoio a uma redução das despesas do estado nalguns países, especialmente em Portugal. Já o que se fez com esse capital é outro assunto.

O que me leva ao último gráfico. "Algumas pessoas dizem que o nosso sistema económico funciona de forma justa para todos, enquanto que outros dizem que a maior parte dos benefícios do nosso sistema só vão para alguns. Qual destas opiniões se aproxima mais da sua?"























Tal como sucede em todos os estudos que alguma vez me lembro de ter visto sobre este tema, Portugal destaca-se por uma sensibilidade particularmente elevada às questões da justiça distributiva do sistema económico. Num país tão desigual como o nosso e, porventura, com uma cultura política marcada ainda pelo 25 de Abril, não creio que isto seja particularmente surpreeendente. O que surpreende é que seja tão frequentemente esquecido.

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