Há dias, mencionei aqui que o DN não tinha publicado os resultados completos do Barómetro, nomeadamente em relação à avaliação dos líderes políticos. Mas a Marktest, como é hábito, põe tudo cá fora. Está aqui. E ainda tiveram a amabilidade de me cederem dados mais desagregados:
Cavaco Silva
Actuação positiva: 70%
Negativa: 12%
Ns/Nr: 18%
José Sócrates
Actuação positiva: 38%
Negativa: 45%
Ns/Nr: 17%
Luis Filipe Menezes
Actuação positiva: 27%
Negativa: 26%
Ns/Nr: 47%
Jerónimo de Sousa
Actuação positiva: 38%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 31%
Paulo Portas
Actuação positiva: 28%
Negativa: 49%
Ns/Nr: 23%
Francisco Louçã
Actuação positiva: 42%
Negativa: 31%
Ns/Nr: 27%
Obrigado.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Al Gathafi speaks...
Miguel Vale de Almeida chama a atenção para um anúncio de página inteira no Público que convida os eleitores a visitarem o site de Muammar Al Gathafi e onde se fazem umas considerações críticas à Convenção de Otava sobre Minas Terrestres ("Os países poderosos não precisam de minas para se protegerem. As minas são o meio de auto-defesa dos países fracos") e sobre a "ilegalidade do Tribunal Criminal Internacional".
Não quero estragar completamente o dia a Miguel Vale de Almeida, mas se ele soubesse que o Centro de História da Universidade de Lisboa, "em colaboração com a Reitoria e com o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação", vai organizar depois de amanhã um "Seminário" com a presença de Muammar Al Gathafi (ou Al Khadafi) onde ele vai falar sobre "Problemas da Sociedade Contemporânea"... Ai não acreditam? Então confirmem.
Não quero estragar completamente o dia a Miguel Vale de Almeida, mas se ele soubesse que o Centro de História da Universidade de Lisboa, "em colaboração com a Reitoria e com o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação", vai organizar depois de amanhã um "Seminário" com a presença de Muammar Al Gathafi (ou Al Khadafi) onde ele vai falar sobre "Problemas da Sociedade Contemporânea"... Ai não acreditam? Então confirmem.
Iowa
Em rigor, já não se pode dizer que Hillary Clinton lidera as sondagens no Iowa. A média das 13 sondagens conduzidas em Novembro é de 28% para Clinton e 25% para Obama. Mas quando olhamos apenas para as conduzidas na 2ª metade do mês, Clinton e Obama estão empatados com 27%.
Em New Hampshire, a mesma tendência. Clinton com 35% em média em Novembro, Obama com 23%. Mas na segunda metade do mês, 33% para Clinton e 24% para Obama. Aqui a margem ainda é confortável. Mas quem sabe o que se passará no Iowa, e as consequências disso?
Karl Rove, no Finantial Times (via Atlântico, onde ainda cheira um bocado a queimado), partilha pelos vistos da opinião (ah, ah!) que dei aqui em Outubro: Iowa é a única e derradeira chance que Obama tem para evitar o inevitável. Mas por que razão gostaria Rove de evitar este inevitável? Aposto tudo o que vocês quiserem que a campanha Clinton vai usar este artigo para mostrar que Rove e os Republicanos gostariam que Obama ganhasse. No meio da crise, um ponto para Hillary, portanto.
Em New Hampshire, a mesma tendência. Clinton com 35% em média em Novembro, Obama com 23%. Mas na segunda metade do mês, 33% para Clinton e 24% para Obama. Aqui a margem ainda é confortável. Mas quem sabe o que se passará no Iowa, e as consequências disso?
Karl Rove, no Finantial Times (via Atlântico, onde ainda cheira um bocado a queimado), partilha pelos vistos da opinião (ah, ah!) que dei aqui em Outubro: Iowa é a única e derradeira chance que Obama tem para evitar o inevitável. Mas por que razão gostaria Rove de evitar este inevitável? Aposto tudo o que vocês quiserem que a campanha Clinton vai usar este artigo para mostrar que Rove e os Republicanos gostariam que Obama ganhasse. No meio da crise, um ponto para Hillary, portanto.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Ainda a Venezuela e a "democracia", pós-referendo
A principal razão por que me interessa discutir se a Venezuela é ou não uma democracia é talvez um pouco diferente daquela que move alguns dos que têm debatido esta questão na blogosfera e fora dela. É evidente que não simpatizo com os atropelos de Chávez e que , independentemente dos benefícios ou não que tenham decorrido da sua governação para os venezuelanos (um aspecto sobre o qual se presume muito e demonstra pouco), acho que viver em democracia é um bem em si mesmo, algo intrinsecamente positivo.
Mas para além desta motivação assumidamente política, tenho outra, que talvez até seja mais importante para mim. Quando quero perceber, na minha actividade profissional, o que causa a emergência ou a sobrevivência das democracias, quais as consequências de se ter ou viver num regime democrático, ou a explicação dos comportamentos políticos nas democracias, convém-me ter no bolso pelo menos uma definição qualquer de "democracia", para saber que casos devo incluir, que casos excluir ou como os classifico. Num sentido mais lato, esta discussão continua a ser "política". Mas num sentido mais estrito, é uma questão de medição. O que é e o que não é uma democracia? Questão complicada, mas que tenho de quotidianamente tentar resolver.
Vem tudo isto a propósito dos resultados do referendo e de algumas reacções que inspiraram. Particularmente simbólica é esta:
"Estranha ditadura que promove eleições e que aceita os resultados quando é derrotada nas urnas. (...) Estranha ditadura em que a pobreza diminui e em que os estudos internacionais mostram que a maioria esmagadora dos eleitores está contente com a qualidade da democracia",
escreve Nuno Ramos de Almeida no cinco dias.
Pois lamento, mas ainda não estou persuadido. Tenho visto aqui e ali referências ao Chile, e acho que podemos começar por aí. Por um conjunto de razões que ainda se discutem, o referendo acabou mesmo por ser convocado em 1988, permitiu uma votação sem fraudes e os seus resultados - inesperadamente desfavoráveis para Pinochet - foram aceites pelos militares. Foi o início da transição para a democracia no Chile. Mas daí até dizer-se que o Chile era uma democracia em 1988 ou até em 1987, 1986 ou antes vai alguma distância, que pelos vistos Nuno Ramos de Almeida tem alguma dificuldade em discernir. Esta ideia de "validação" à posteriori do carácter democrático de um regime, através da qual se classifica como democrático todo o regime no qual o detentor do poder acaba por perder eleições, não deixa de ter um bom pedigree. Este belo livrinho usa-a, precisamente, para distinguir democracias de regimes não-democráticos. Mas se queremos ir por aqui e seguir os critérios de Przeworski e seus colegas, então temos de esperar que Chávez perca eleições presidenciais. Não me consta que tenha sido isso que sucedeu no passado Domingo.
De resto, é curioso que se mencione o caso do Chile e ninguém se tenha lembrado do caso...português. Em 1975, com alguma surpresa, quem ganhou as eleições não foi quem controlava as rédeas do poder. As eleições de 1975 tiveram, aliás, o condão especial de revelarem que o PCP e os sectores mais à esquerda do aparelho militar que tutelavam na altura o regime tinham muito menos apoio popular do que se julgava. Mas a não ser que Nuno Ramos de Almeida esteja preparado para nos explicar como, em 1975, Portugal era um regime democrático- coisa que, manifestamente, (ainda) não era - a derrota eleitoral dos detentores do poder não chega para definir um regime.
Chamo a atenção para um conjunto de estudos de Steven Levitsky e Lucan Way (obrigado Andrés pela lembrança). Levitsky e Way vêm escrevendo sobre aquilo que chamam "autoritarismos competitivos". Vale a pena ler com atenção:
"In competitive authoritarian regimes, formal democratic institutions are widely viewed as the principal means of obtaining and exercising political authority. Incumbents violate those rules so often and to such an extent, however, that the regime fails to meet conventional minimum standards for democracy. (...) Competitive authoritarianism must be distinguished from democracy on the one hand and full-scale authoritarianism on the other. Modern democratic regimes all meet four minimum criteria: 1) Executives and legislatures are chosen through elections that are open, free, and fair; 2) virtually all adults possess the right to vote; 3) political rights and civil liberties, including freedom of the press, freedom of association, and freedom to criticize the government without reprisal, are broadly protected; and 4) elected authorities possess real authority to govern, in that they are not subject to the tutelary control of military or clerical leaders. Although even fully democratic regimes may at times violate one or more of these criteria, such violations are not broad or systematic enough to seriously impede democratic challenges to incumbent governments. In other words, they do not fundamentally alter the playing field between government and opposition. (...) In competitive authoritarian regimes, by contrast, violations of these criteria are both frequent enough and serious enough to create an uneven playing field between government and opposition. Although elections are regularly held and are generally free of massive fraud, incumbents routinely abuse state resources, deny the opposition adequate media coverage, harass opposition candidates and their supporters, and in some cases manipulate electoral results. Journalists, opposition politicians, and other government critics may be spied on, threatened, harassed, or arrested. Members of the opposition may be jailed, exiled, or—less frequently—even assaulted or murdered. Regimes characterized by such abuses cannot be called democratic."
E há um artigo interessante na Foreign Policy de Janeiro do ano passado que explora a aplicação do conceito ao caso da Venezuela.
Há muita gente que discorda de Levitsky e Way. Não quero com tudo isto desvalorizar os resultados do referendo de Domingo passado, nem aquilo que eles nos podem dizer sobre a natureza do regime ou as suas perspectivas de mudança e evolução. Nem sequer estou certo se consigo, para já, chegar a um veredicto sobre se a Venezuela é ou não é uma democracia. Mas não me parece que perder um referendo chegue, por si só, para esse veredicto.
Mas para além desta motivação assumidamente política, tenho outra, que talvez até seja mais importante para mim. Quando quero perceber, na minha actividade profissional, o que causa a emergência ou a sobrevivência das democracias, quais as consequências de se ter ou viver num regime democrático, ou a explicação dos comportamentos políticos nas democracias, convém-me ter no bolso pelo menos uma definição qualquer de "democracia", para saber que casos devo incluir, que casos excluir ou como os classifico. Num sentido mais lato, esta discussão continua a ser "política". Mas num sentido mais estrito, é uma questão de medição. O que é e o que não é uma democracia? Questão complicada, mas que tenho de quotidianamente tentar resolver.
Vem tudo isto a propósito dos resultados do referendo e de algumas reacções que inspiraram. Particularmente simbólica é esta:
"Estranha ditadura que promove eleições e que aceita os resultados quando é derrotada nas urnas. (...) Estranha ditadura em que a pobreza diminui e em que os estudos internacionais mostram que a maioria esmagadora dos eleitores está contente com a qualidade da democracia",
escreve Nuno Ramos de Almeida no cinco dias.
Pois lamento, mas ainda não estou persuadido. Tenho visto aqui e ali referências ao Chile, e acho que podemos começar por aí. Por um conjunto de razões que ainda se discutem, o referendo acabou mesmo por ser convocado em 1988, permitiu uma votação sem fraudes e os seus resultados - inesperadamente desfavoráveis para Pinochet - foram aceites pelos militares. Foi o início da transição para a democracia no Chile. Mas daí até dizer-se que o Chile era uma democracia em 1988 ou até em 1987, 1986 ou antes vai alguma distância, que pelos vistos Nuno Ramos de Almeida tem alguma dificuldade em discernir. Esta ideia de "validação" à posteriori do carácter democrático de um regime, através da qual se classifica como democrático todo o regime no qual o detentor do poder acaba por perder eleições, não deixa de ter um bom pedigree. Este belo livrinho usa-a, precisamente, para distinguir democracias de regimes não-democráticos. Mas se queremos ir por aqui e seguir os critérios de Przeworski e seus colegas, então temos de esperar que Chávez perca eleições presidenciais. Não me consta que tenha sido isso que sucedeu no passado Domingo.
De resto, é curioso que se mencione o caso do Chile e ninguém se tenha lembrado do caso...português. Em 1975, com alguma surpresa, quem ganhou as eleições não foi quem controlava as rédeas do poder. As eleições de 1975 tiveram, aliás, o condão especial de revelarem que o PCP e os sectores mais à esquerda do aparelho militar que tutelavam na altura o regime tinham muito menos apoio popular do que se julgava. Mas a não ser que Nuno Ramos de Almeida esteja preparado para nos explicar como, em 1975, Portugal era um regime democrático- coisa que, manifestamente, (ainda) não era - a derrota eleitoral dos detentores do poder não chega para definir um regime.
Chamo a atenção para um conjunto de estudos de Steven Levitsky e Lucan Way (obrigado Andrés pela lembrança). Levitsky e Way vêm escrevendo sobre aquilo que chamam "autoritarismos competitivos". Vale a pena ler com atenção:
"In competitive authoritarian regimes, formal democratic institutions are widely viewed as the principal means of obtaining and exercising political authority. Incumbents violate those rules so often and to such an extent, however, that the regime fails to meet conventional minimum standards for democracy. (...) Competitive authoritarianism must be distinguished from democracy on the one hand and full-scale authoritarianism on the other. Modern democratic regimes all meet four minimum criteria: 1) Executives and legislatures are chosen through elections that are open, free, and fair; 2) virtually all adults possess the right to vote; 3) political rights and civil liberties, including freedom of the press, freedom of association, and freedom to criticize the government without reprisal, are broadly protected; and 4) elected authorities possess real authority to govern, in that they are not subject to the tutelary control of military or clerical leaders. Although even fully democratic regimes may at times violate one or more of these criteria, such violations are not broad or systematic enough to seriously impede democratic challenges to incumbent governments. In other words, they do not fundamentally alter the playing field between government and opposition. (...) In competitive authoritarian regimes, by contrast, violations of these criteria are both frequent enough and serious enough to create an uneven playing field between government and opposition. Although elections are regularly held and are generally free of massive fraud, incumbents routinely abuse state resources, deny the opposition adequate media coverage, harass opposition candidates and their supporters, and in some cases manipulate electoral results. Journalists, opposition politicians, and other government critics may be spied on, threatened, harassed, or arrested. Members of the opposition may be jailed, exiled, or—less frequently—even assaulted or murdered. Regimes characterized by such abuses cannot be called democratic."
E há um artigo interessante na Foreign Policy de Janeiro do ano passado que explora a aplicação do conceito ao caso da Venezuela.
Há muita gente que discorda de Levitsky e Way. Não quero com tudo isto desvalorizar os resultados do referendo de Domingo passado, nem aquilo que eles nos podem dizer sobre a natureza do regime ou as suas perspectivas de mudança e evolução. Nem sequer estou certo se consigo, para já, chegar a um veredicto sobre se a Venezuela é ou não é uma democracia. Mas não me parece que perder um referendo chegue, por si só, para esse veredicto.
sexta-feira, novembro 30, 2007
Dados em falta
Como sabem, não dou grande cobertura neste blogue a sondagens sobre intenções de voto em períodos fora das eleições. Uma percentagem muito elevada de eleitores não manifesta qualquer intenção e isso produz grande volatilidade e discrepâncias entre sondagens. Acho muito mais interessante, neste período, analisar as perguntas a que quase toda a gente responde, e que têm a ver com avaliação do desempenho do governo, da actuação dos líderes políticos ou da situação da economia. Como nem a primeira nem a última perguntas são regularmente colocadas, ficamos com a segunda.
Vem tudo isto a propósito do Barómetro Marktest divulgado hoje. Ao contrário do que é habitual, o DN não publica as avaliações de Sócrates, Cavaco e Menezes, limitando-se à intenção de voto e avaliações de ministros. Há alusões no texto às avaliações de Cavaco e Portas, mas os dados não foram colocados cá fora. Espero que ainda sejam.
Vem tudo isto a propósito do Barómetro Marktest divulgado hoje. Ao contrário do que é habitual, o DN não publica as avaliações de Sócrates, Cavaco e Menezes, limitando-se à intenção de voto e avaliações de ministros. Há alusões no texto às avaliações de Cavaco e Portas, mas os dados não foram colocados cá fora. Espero que ainda sejam.
quinta-feira, novembro 29, 2007
Rescaldo
O rescaldo do debate CNN/You Tube entre os candidatos republicanos. Ou como "Mo" Udall disse uma vez do seu próprio partido: "When Democrats organize a firing squad, they form a circle."
quarta-feira, novembro 28, 2007
Iowa, New Hampshire, CNN e You Tube
Com as primárias no Iowa e em New Hampshire a pouco mais de um mês, o dramatismo aumenta. No Iowa, como se vê por aqui, Clinton e Obama destacam-se. Mais: nas duas últimas sondagens, Obama está a par ou até à frente de Clinton. Mas são apenas duas sondagens e, em New Hampshire, a vantagem de Clinton é mais confortável.
Com os Republicanos, o incrível prepara-se para acontecer. Mitt Romney lidera as sondagens no Iowa seguido de...Mike Huckabee. Nem Giuliani, nem Thompson, nem McCain. E em New Hampshire, é também Mitt Romney que lidera, com grande vantagem.
Hoje, a CNN repete o bem sucedido formato de debate com perguntas em video introduzidas no You Tube. O debate Democrata foi muito importante para confirmar a liderança de Clinton e Obama (e serviu para abrir as hostilidades entre ambos). O debate de hoje pode ser igualmente importante.
P.S.- 4927 perguntas introduzidas no You Tube para os candidatos republicanos. Será que, nas próximas eleições em Portugal um dos canais irá tentar copiar este formato?
Com os Republicanos, o incrível prepara-se para acontecer. Mitt Romney lidera as sondagens no Iowa seguido de...Mike Huckabee. Nem Giuliani, nem Thompson, nem McCain. E em New Hampshire, é também Mitt Romney que lidera, com grande vantagem.
Hoje, a CNN repete o bem sucedido formato de debate com perguntas em video introduzidas no You Tube. O debate Democrata foi muito importante para confirmar a liderança de Clinton e Obama (e serviu para abrir as hostilidades entre ambos). O debate de hoje pode ser igualmente importante.
P.S.- 4927 perguntas introduzidas no You Tube para os candidatos republicanos. Será que, nas próximas eleições em Portugal um dos canais irá tentar copiar este formato?
domingo, novembro 25, 2007
Sabemos quando a vemos?
Tenho tido uma conversa com o Daniel Oliveira, do Arrastão, que entretanto ganhou ramificações noutros blogues: aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui. Sem contar com os e-mails que vou recebendo. Esta conversa alargada já se transformou num debate sobre o que é a democracia, a relação entre democracia e cultura política, a natureza dos direitos políticos, a qualidade das democracias e o liberalismo, ou seja, tudo temas leves. Em vez de responder aqui, respondo amanhã, no Público (e depois de amanhã aqui). O ponto, de resto, é muito simples: é cada vez mais difícil distinguir a democracia de outros regimes; é cada vez mais importante fazê-lo.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Ainda a Venezuela e a "democracia"
No Arrastão, Daniel Oliveira escreve sobre o conceito de democracia, as condições favoráveis ao seu "aprofundamento" ou "qualidade" e sobre a aplicação dos pontos anteriores ao caso da Venezuela. Não posso nem quero discutir todos os pontos, mas há um que me parece central. Segundo o Daniel, na ponderação da designação de um determinado regime como ditadura ou democracia temos de tomar em conta não apenas a nossa avaliação mas também a avaliação subjectiva daqueles quer vivem sob esse regime.
"O passo que se dá para passar a chamar ditadura a um regime (partindo do principio que quem lhe chama outra coisa o está a apoiar) é, para mim, um passo que deve ser ponderado. E nessa ponderação deve contar a nossa avaliação mas também a avaliação daqueles que vivem nesse regime."
O meu ponto fulcral de discordância está precisamente aqui. Quando abordamos estes assuntos, quanto mais não seja por questões de rigor analítico, não convém confundir num único conceito diferentes dimensões da realidade. Se eu tiver uma definição de "democracia" - como o Daniel pelos vistos tem ("eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes") - eu posso dizer se a Venezuela é ou não uma "democracia" independentemente daquilo que saiba sobre as opiniões subjectivas dos cidadãos venezuelanos. E a resposta é simples: não é. Um país onde há abundantes casos documentados de intimidação dos eleitores pelo governo, de silenciamento de meios de comunicação social oposicionistas, onde a lista de signatários do referendo anti-Chávez é usada activamente para discriminação no acesso à função pública, onde associações financiadas por países estrangeiros são perseguidas e onde não há controlo civil do aparelho militar não pode ser vista como uma democracia nos termos da definição do próprio Daniel.
Para quê misturar isto com a avaliação subjectiva dos eleitores ou com indicadores de desempenho económico ou social? Nada nos impede de, depois de constatarmos que a Venezuela deixou de ser um regime democrático, constatarmos também que Chávez tem muito apoio popular, que o nível de "satisfação com a democracia" é muito elevado ou até que as desigualdades sociais ou a pobreza possam ter diminuído (não sei se é assim, mas para o caso não interessa). Ou podemos até chegar à conclusão que muitos dos "democratas" que se opõem a Chávez também não são flor que se cheire. Não sei. Mas separar as coisas é condição indispensável para percebermos, por exemplo, se há relação entre umas e outras. Não posso é meter tudo isto dentro de um mesmo conceito. Em todos os inquéritos deste género, o país no mundo onde o nível de "satisfação com a democracia" é mais elevado é Singapura. Devemos então achar que Singapura é uma democracia só porque os cidadãos acham que aquilo é uma democracia e estão satisfeitos? E como lidamos com o enorme apoio popular a Putin na Rússia? Ou o apoio das classes médias chinesas ao regime e ao partido?
Depois, a questão do "consenso". Ter-me-ei explicado mal, mas tento corrigir. Na maior parte das "democracias ocidentais", também não há consenso sobre o que significa "democracia". Há quem ache que "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" são condições suficientes. E há quem ache que são condições necessárias mas não suficientes, fazendo-as acompanhar de "condições para que cada individuo possa determinar o rumo a dar à sua vida através das suas escolhas pessoais e da participação nas escolhas colectivas". Tudo bem. Contudo, o ponto sobre a Venezuela (e muitas novas democracias, "semi-democracias" ou "semi-autoritarismos") é outro: pelos vistos, há muita gente para quem "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" não são nem suficientes nem necessárias para que considerem o regime uma "democracia". E isso é importante saber, especialmente porque essas condições "culturais" estão fortemente relacionadas com a criação de oportunidades para lideranças autoritárias, golpes, e uma geralmente baixa qualidade da democracia.
"O passo que se dá para passar a chamar ditadura a um regime (partindo do principio que quem lhe chama outra coisa o está a apoiar) é, para mim, um passo que deve ser ponderado. E nessa ponderação deve contar a nossa avaliação mas também a avaliação daqueles que vivem nesse regime."
O meu ponto fulcral de discordância está precisamente aqui. Quando abordamos estes assuntos, quanto mais não seja por questões de rigor analítico, não convém confundir num único conceito diferentes dimensões da realidade. Se eu tiver uma definição de "democracia" - como o Daniel pelos vistos tem ("eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes") - eu posso dizer se a Venezuela é ou não uma "democracia" independentemente daquilo que saiba sobre as opiniões subjectivas dos cidadãos venezuelanos. E a resposta é simples: não é. Um país onde há abundantes casos documentados de intimidação dos eleitores pelo governo, de silenciamento de meios de comunicação social oposicionistas, onde a lista de signatários do referendo anti-Chávez é usada activamente para discriminação no acesso à função pública, onde associações financiadas por países estrangeiros são perseguidas e onde não há controlo civil do aparelho militar não pode ser vista como uma democracia nos termos da definição do próprio Daniel.
Para quê misturar isto com a avaliação subjectiva dos eleitores ou com indicadores de desempenho económico ou social? Nada nos impede de, depois de constatarmos que a Venezuela deixou de ser um regime democrático, constatarmos também que Chávez tem muito apoio popular, que o nível de "satisfação com a democracia" é muito elevado ou até que as desigualdades sociais ou a pobreza possam ter diminuído (não sei se é assim, mas para o caso não interessa). Ou podemos até chegar à conclusão que muitos dos "democratas" que se opõem a Chávez também não são flor que se cheire. Não sei. Mas separar as coisas é condição indispensável para percebermos, por exemplo, se há relação entre umas e outras. Não posso é meter tudo isto dentro de um mesmo conceito. Em todos os inquéritos deste género, o país no mundo onde o nível de "satisfação com a democracia" é mais elevado é Singapura. Devemos então achar que Singapura é uma democracia só porque os cidadãos acham que aquilo é uma democracia e estão satisfeitos? E como lidamos com o enorme apoio popular a Putin na Rússia? Ou o apoio das classes médias chinesas ao regime e ao partido?
Depois, a questão do "consenso". Ter-me-ei explicado mal, mas tento corrigir. Na maior parte das "democracias ocidentais", também não há consenso sobre o que significa "democracia". Há quem ache que "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" são condições suficientes. E há quem ache que são condições necessárias mas não suficientes, fazendo-as acompanhar de "condições para que cada individuo possa determinar o rumo a dar à sua vida através das suas escolhas pessoais e da participação nas escolhas colectivas". Tudo bem. Contudo, o ponto sobre a Venezuela (e muitas novas democracias, "semi-democracias" ou "semi-autoritarismos") é outro: pelos vistos, há muita gente para quem "eleições livres, liberdade de organização, liberdade de expressão, liberdade de imprensa e separação de poderes" não são nem suficientes nem necessárias para que considerem o regime uma "democracia". E isso é importante saber, especialmente porque essas condições "culturais" estão fortemente relacionadas com a criação de oportunidades para lideranças autoritárias, golpes, e uma geralmente baixa qualidade da democracia.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Sobre a "satisfação com a democracia" na Venezuela
No Arrastão, há um gráfico retirado do Economist (a fonte original é o Latinobarómetro) onde se mostra um nível elevado de "satisfação com o funcionamento da democracia" na Venezuela hoje em dia e um aumento muito pronunciado dessa satisfação desde 1996. O Daniel Oliveira é cuidadoso na interpretação desses resultados, não retirando deles uma justificação para os atropelos de Chávez e assinalando apenas que se trata da avaliação subjectiva da população. Mas há mais cuidados a ter. O relatório do Latinobarómetro (.pdf) tem uma considerações muito interessantes sobre o fenómeno. Cito algumas:
"(...) El mundo que la [Venezuela] observa la evalúa mal en un doble sentido: se le reprocha los límites al ejercicio de la libertad y las limitaciones impuestas a las instituciones políticas. Sin embargo, la percepción de los venezolanos es positiva, y causa mucha perplejidad, pues ellos declaran que les gusta la democracia como está en estos momentos, al menos mucho más que lo que dicen otros ciudadanos de otros países respecto de su propia democracia, en los cuales el mundo externo no critica la falta de libertad, ni el acoso a ciertas instituciones. Venezuela un país dividido por dos conceptos de democracia. Pero todos quieren ser llamados demócratas, incluso los que apoyan medidas no democráticas. Pocos pueden comprender desde afuera por qué tienen una visión positiva de la democracia. Lo que se observa desde afuera de un país, no necesariamente concuerda con la opinión que tienen los ciudadanos de ese país con respecto a lo que ellos están viviendo."
Sobre um outro dado - os venezuelanos são os latino-americanos mais de acordo com a ideia de que as privatizações foram positivas para o país:
" Nuevamente, el optimismo venezolano en este caso con las privatizaciones no solo es incongruente con el discurso político de izquierda de su gobernante, es contradictorio con los indicadores objetivos de las mejoras económicas de la población de ese país. Venezuela parece vivir un tiempo de sobre optimismo que eleva sus evaluaciones, expectativas y opiniones"
E sobre o facto de, apesar disso, os venezuelanos serem dos latino-americanos que se tornaram mais críticos em relação à "economia de mercado" nos últimos anos:
"Especialmente interesante es ver el caso de Venezuela, donde hay una gran mayoría que apoya la privatizaciones, 61% pero a la vez se fustiga el mercado con solo un 47% y hay insatisfacción con la economía (26%). Como ya decíamos mas arriba, Venezuela es un país donde las opiniones no concuerdan con la realidad objetiva, donde el clima de opinión produce contradicciones con ella. El liderazgo discursivo de Chávez hace que se creen climas de opinión sobre ciertas materias, pero estas de alguna manera no cambian las actitudes hacia todos los temas, sino solo hacia aquellos que mencionan, produciéndose contradicciones entre las respuestas. Chávez no ha fustigado las privatizaciones en específico, por lo que ellas no están afectadas por ese liderazgo discursivo, mientras que si ha atacado el mercado que si se ve afectado. Es una opinión pública dominada por esos climas de opinión que terminan siendo más coyunturales y más volátiles."
Há aqui dois pontos muito interessantes. O primeiro é sobre a forma como as elites políticas e o seu discurso condicionam a opinião pública - ou a expressão de opiniões através de inquéritos. O outro é sobre o que significa "democracia". Já em 1999, através do World Values Survey, se via uma coisa muito interessante na Venezuela: 91% (mais do que em Portugal, por exemplo) achavam que "a democracia é a melhor forma de governo"; mas apenas 49% achavam que "um líder forte que dispensasse eleições e o parlamento" era uma coisa "má" ou "muito má" para o país. Este tipo de padrão é muito comum, por exemplo, nos países africanos estudados pelo Afrobarómetro: alto apoio à democracia, mas baixa rejeição de soluções autoritárias. Para quem quer medir a real "legitimidade" dos regimes democráticos (como nós os entendemos) e o real grau de consolidação de um regime democrático, a rejeição do autoritarismo começa a ser, cada vez mais, um indicador superior à mera declaração de "apoio à democracia".
Assim, quando o Daniel diz "a democracia é isto", eu diria outra coisa: é isto um regime onde não há consenso sobre o que significa "democracia".
"(...) El mundo que la [Venezuela] observa la evalúa mal en un doble sentido: se le reprocha los límites al ejercicio de la libertad y las limitaciones impuestas a las instituciones políticas. Sin embargo, la percepción de los venezolanos es positiva, y causa mucha perplejidad, pues ellos declaran que les gusta la democracia como está en estos momentos, al menos mucho más que lo que dicen otros ciudadanos de otros países respecto de su propia democracia, en los cuales el mundo externo no critica la falta de libertad, ni el acoso a ciertas instituciones. Venezuela un país dividido por dos conceptos de democracia. Pero todos quieren ser llamados demócratas, incluso los que apoyan medidas no democráticas. Pocos pueden comprender desde afuera por qué tienen una visión positiva de la democracia. Lo que se observa desde afuera de un país, no necesariamente concuerda con la opinión que tienen los ciudadanos de ese país con respecto a lo que ellos están viviendo."
Sobre um outro dado - os venezuelanos são os latino-americanos mais de acordo com a ideia de que as privatizações foram positivas para o país:
" Nuevamente, el optimismo venezolano en este caso con las privatizaciones no solo es incongruente con el discurso político de izquierda de su gobernante, es contradictorio con los indicadores objetivos de las mejoras económicas de la población de ese país. Venezuela parece vivir un tiempo de sobre optimismo que eleva sus evaluaciones, expectativas y opiniones"
E sobre o facto de, apesar disso, os venezuelanos serem dos latino-americanos que se tornaram mais críticos em relação à "economia de mercado" nos últimos anos:
"Especialmente interesante es ver el caso de Venezuela, donde hay una gran mayoría que apoya la privatizaciones, 61% pero a la vez se fustiga el mercado con solo un 47% y hay insatisfacción con la economía (26%). Como ya decíamos mas arriba, Venezuela es un país donde las opiniones no concuerdan con la realidad objetiva, donde el clima de opinión produce contradicciones con ella. El liderazgo discursivo de Chávez hace que se creen climas de opinión sobre ciertas materias, pero estas de alguna manera no cambian las actitudes hacia todos los temas, sino solo hacia aquellos que mencionan, produciéndose contradicciones entre las respuestas. Chávez no ha fustigado las privatizaciones en específico, por lo que ellas no están afectadas por ese liderazgo discursivo, mientras que si ha atacado el mercado que si se ve afectado. Es una opinión pública dominada por esos climas de opinión que terminan siendo más coyunturales y más volátiles."
Há aqui dois pontos muito interessantes. O primeiro é sobre a forma como as elites políticas e o seu discurso condicionam a opinião pública - ou a expressão de opiniões através de inquéritos. O outro é sobre o que significa "democracia". Já em 1999, através do World Values Survey, se via uma coisa muito interessante na Venezuela: 91% (mais do que em Portugal, por exemplo) achavam que "a democracia é a melhor forma de governo"; mas apenas 49% achavam que "um líder forte que dispensasse eleições e o parlamento" era uma coisa "má" ou "muito má" para o país. Este tipo de padrão é muito comum, por exemplo, nos países africanos estudados pelo Afrobarómetro: alto apoio à democracia, mas baixa rejeição de soluções autoritárias. Para quem quer medir a real "legitimidade" dos regimes democráticos (como nós os entendemos) e o real grau de consolidação de um regime democrático, a rejeição do autoritarismo começa a ser, cada vez mais, um indicador superior à mera declaração de "apoio à democracia".
Assim, quando o Daniel diz "a democracia é isto", eu diria outra coisa: é isto um regime onde não há consenso sobre o que significa "democracia".
sexta-feira, novembro 16, 2007
Meet Mitt
Giuliani ainda lidera a nível nacional nas sondagens para as primárias republicanas. Mas nas cruciais primárias do Iowa e de New Hampshire quem está a ficar cada vez mais bem colocado (e com tendência de subida em todas as "primeiras primárias") é este senhor:

Meet Mitt.

Meet Mitt.
Dois pontos adicionais sobre as sondagens
Este correctíssimo post do A Pente Fino talvez não fosse necessário se:
1. Houvesse um local onde se pudesse consultar uma sondagem com algum detalhe, não apenas as suas características técnicas mas também, por que não, as estatísticas descritivas básicas (não era preciso mais que as frequências de resposta a cada pergunta);
2. Se os meios de comunicação social decidissem investir em formar jornalistas com competências mínimas para escreverem sobre sondagens.
Disto isto, a verdade é que muitos institutos de sondagens já poderiam ter, por sua iniciativa, começado a dar essa informação. É possível que, nalguns casos, se aguarde uma iniciativa da ERC. Ou que noutros se esteja a adiar isto por não ser uma prioridade de investimento. Mas posso dizer que o CESOP vai começar a fazê-lo em breve num site novo, em que, pelo menos para as sondagens político-eleitorais, vai disponibilizar:
1. O texto completo e ordem das perguntas;
2. Uma ficha metodológica completa;
3. As frequências relativas de resposta a cada questão.
A ver se no início de 2008 a coisa é colocada no ar.
1. Houvesse um local onde se pudesse consultar uma sondagem com algum detalhe, não apenas as suas características técnicas mas também, por que não, as estatísticas descritivas básicas (não era preciso mais que as frequências de resposta a cada pergunta);
2. Se os meios de comunicação social decidissem investir em formar jornalistas com competências mínimas para escreverem sobre sondagens.
Disto isto, a verdade é que muitos institutos de sondagens já poderiam ter, por sua iniciativa, começado a dar essa informação. É possível que, nalguns casos, se aguarde uma iniciativa da ERC. Ou que noutros se esteja a adiar isto por não ser uma prioridade de investimento. Mas posso dizer que o CESOP vai começar a fazê-lo em breve num site novo, em que, pelo menos para as sondagens político-eleitorais, vai disponibilizar:
1. O texto completo e ordem das perguntas;
2. Uma ficha metodológica completa;
3. As frequências relativas de resposta a cada questão.
A ver se no início de 2008 a coisa é colocada no ar.
A regulação das sondagens
Só pude assistir a dois painéis da conferência que a ERC organizou sobre a regulação das sondagens. Ao que parece, terei perdido o mais divertido, o do dia 14 de manhã, em que participaram alguns deputados. Um deles terá proposto que, para evitar a multiplicação de "erros", "fraudes" e "manipulações" em que o sector é, pelos vistos, pródigo, se deveria criar um "instituto público" dedicado a realizar sondagens, sob a dependência (sic) da Assembleia da República. Outro terá defendido o agravamento de multas a aplicar aos institutos de sondagens, sugerindo que a ERC passe também a utilizar como parâmetro da aplicação desses multas o grau de precisão com que as sondagens "acertam" nos resultados eleitorais.
Não vale a pena perder muito tempo a comentar estas duas pérolas. O exemplo do Centro de Investigaciones Sociológicas em Espanha, se os nossos deputados o conhecessem, talvez tivesse chegado. O CIS, dependente do governo espanhol, cumpre - como também foi explicado ontem por um membro da audiência - uma função importante, a de realizar inquéritos por questionário sobre temas de interesse público e académico. Mas quando se mete em sondagens político-eleitorais a coisa, geralmente, corre mal. Não é nem mais "preciso" nem "impreciso" que os privados e tudo o que faz é encarado - justa ou injustamente - sob um princípio de suspeição de favorecimento do governo do dia. Como assinalava Rui Ramos ontem à tarde, se se pusesse um "instituto público" a fazer as sondagens eleitorais, então é que nunca mais ninguém acreditava nelas. Sobre as multas para quem "não acerta", enfim, que dizer? Eu proponho que da próxima vez que um jornal pedir a um painel de economistas que faça previsões económicas para o ano seguinte haja um organismo público que, um ano depois, confronte as previsões com a realidade. Se falharem, multe-se.
Mais interessante é perceber que, excluindo os nossos deputados, os restantes actores relevantes - institutos, imprensa e regulador - começam a convergir num conjunto de ideias bastante sensatas. A primeira é a necessidade de mudar a legislação de forma a corrigir a sua falta de clareza e, nalguns casos, os seus erros técnicos, de que Vidal de Olveira deu alguns exemplos no dia 14 à tarde. A segunda é a ideia de que se deve clarificar quais os elementos técnicos da sondagem que devem ser obrigatoriamente divulgados pelos órgãos de comunicação social nas noticias sobre sondagens e quais devem ser publicitados de outra forma, seja através de um site da ERC, dos sites do órgãos de comunicação social ou dos próprios institutos.
Mais: que esses elementos mais completos da ficha técnica devem ser muito mais exaustivos do que são hoje e homogeneizados (para permitir comparabilidade). Aquilo que é depositado na ERC (e que é muito mais completo do que o que vem normalmente na comunicação social) deve ser mais completo e sistemático ainda e totalmente colocado ao dispor do público, para que os leitores interessados possam conhecer tudo aquilo que pode ajudar a explicar os resultados (e, logo, para que quem faz sondagens saiba que aquilo que está a fazer pode ser publicamente escrutinado e analisado pelos pares, especialistas e quaisquer pessoas interessadas). O resto é algo que o debate, a análise e a concorrência acabam por resolver. Aqui, é possível que alguns institutos venham a colocar resistências a esta ideia, alegando usar técnicas ou algoritmos "especiais", da sua própria "invenção", que constituem "tecnologia proprietária" e que não querem "ceder" à concorrência. Estas resistências têm que ser descritas como aquilo que realmente são: disparates algo suspeitos. Não há nada que qualquer instituto de sondagens use em Portugal que não tenha sido já "inventado", aplicado, testado, comentado e analisado noutro sítio qualquer. E se alguém tivesse realmente "inventado" alguma coisa genial, certamente já teria feito saber disso na literatura especializada.
Finalmente, começa a haver consenso em torno da necessidade de formas de co-regulação ou auto-regulação. E é curioso que seja o próprio regulador a desejar e estimular essa ideia. No relatório da ERC de 2006, os dois exemplos internacionais dados são de órgãos de auto-regulação (o NCPP e o BPC) e, no encerramento da conferência, foi o próprio membro da ERC com a tutela das sondagens que defendeu a ideia. Tudo bons sinais.
Não vale a pena perder muito tempo a comentar estas duas pérolas. O exemplo do Centro de Investigaciones Sociológicas em Espanha, se os nossos deputados o conhecessem, talvez tivesse chegado. O CIS, dependente do governo espanhol, cumpre - como também foi explicado ontem por um membro da audiência - uma função importante, a de realizar inquéritos por questionário sobre temas de interesse público e académico. Mas quando se mete em sondagens político-eleitorais a coisa, geralmente, corre mal. Não é nem mais "preciso" nem "impreciso" que os privados e tudo o que faz é encarado - justa ou injustamente - sob um princípio de suspeição de favorecimento do governo do dia. Como assinalava Rui Ramos ontem à tarde, se se pusesse um "instituto público" a fazer as sondagens eleitorais, então é que nunca mais ninguém acreditava nelas. Sobre as multas para quem "não acerta", enfim, que dizer? Eu proponho que da próxima vez que um jornal pedir a um painel de economistas que faça previsões económicas para o ano seguinte haja um organismo público que, um ano depois, confronte as previsões com a realidade. Se falharem, multe-se.
Mais interessante é perceber que, excluindo os nossos deputados, os restantes actores relevantes - institutos, imprensa e regulador - começam a convergir num conjunto de ideias bastante sensatas. A primeira é a necessidade de mudar a legislação de forma a corrigir a sua falta de clareza e, nalguns casos, os seus erros técnicos, de que Vidal de Olveira deu alguns exemplos no dia 14 à tarde. A segunda é a ideia de que se deve clarificar quais os elementos técnicos da sondagem que devem ser obrigatoriamente divulgados pelos órgãos de comunicação social nas noticias sobre sondagens e quais devem ser publicitados de outra forma, seja através de um site da ERC, dos sites do órgãos de comunicação social ou dos próprios institutos.
Mais: que esses elementos mais completos da ficha técnica devem ser muito mais exaustivos do que são hoje e homogeneizados (para permitir comparabilidade). Aquilo que é depositado na ERC (e que é muito mais completo do que o que vem normalmente na comunicação social) deve ser mais completo e sistemático ainda e totalmente colocado ao dispor do público, para que os leitores interessados possam conhecer tudo aquilo que pode ajudar a explicar os resultados (e, logo, para que quem faz sondagens saiba que aquilo que está a fazer pode ser publicamente escrutinado e analisado pelos pares, especialistas e quaisquer pessoas interessadas). O resto é algo que o debate, a análise e a concorrência acabam por resolver. Aqui, é possível que alguns institutos venham a colocar resistências a esta ideia, alegando usar técnicas ou algoritmos "especiais", da sua própria "invenção", que constituem "tecnologia proprietária" e que não querem "ceder" à concorrência. Estas resistências têm que ser descritas como aquilo que realmente são: disparates algo suspeitos. Não há nada que qualquer instituto de sondagens use em Portugal que não tenha sido já "inventado", aplicado, testado, comentado e analisado noutro sítio qualquer. E se alguém tivesse realmente "inventado" alguma coisa genial, certamente já teria feito saber disso na literatura especializada.
Finalmente, começa a haver consenso em torno da necessidade de formas de co-regulação ou auto-regulação. E é curioso que seja o próprio regulador a desejar e estimular essa ideia. No relatório da ERC de 2006, os dois exemplos internacionais dados são de órgãos de auto-regulação (o NCPP e o BPC) e, no encerramento da conferência, foi o próprio membro da ERC com a tutela das sondagens que defendeu a ideia. Tudo bons sinais.
quarta-feira, novembro 14, 2007
Popularidade
terça-feira, novembro 13, 2007
Outlier: Panda Bear
Vocês desculpem todos que eu devo andar completamente distraído. E também devo andar bastante farto de sondagens, caso contrário não traria este assunto para aqui. Mas andava muito entretido a ouvir isto quando me fizeram saber que ele vive em Lisboa. Em Lisboa? Isto é como viver em 1966, andar a ouvir o Pet Sounds e encontrar o Brian Wilson a comer torradas num café em Campo de Ourique. Ainda estou a tentar encaixar a coisa.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Gattopardo, Outubro-Novembro 2008, N à volta dos 1000, Online
O Instituto de Sondagens Político-Eleitorais do Principado de Lampedusa resolveu conduzir uma sondagem online sobre o Tratado de Lisboa. Tal como sucede com todas as sondagens online de participação voluntária, esta também diz mais sobre os autores do que sobre outra coisa qualquer. O facto das opções de resposta serem oferecidas em rima - ideia que tenho vindo a ponderar para as sondagens da Católica - é um primeiro sinal. Depois vêm os próprios resultados, consequência do perfil dos leitores do blogue e logo, de alguma forma, espelho dos autores: a tendencial recusa das opções extremas ("Admirável" ou "Inaceitável") e a distribuição mais ou menos equitativa pelas opções restantes. Mas o melhor de tudo é mesmo o facto das opções de resposta oferecidas aos votantes não serem sequer mutuamente exclusivas. É um erro elementar na construção dum questionário, claro. Mas é acerto elementar em, digamos, tudo o resto. Aliás, foi disso que sempre gostei nos responsáveis deste instituto: para eles, as opções de resposta nunca são mutuamente exclusivas. Acho até que Pascal tinha uma frase boa sobre este assunto (e sobre todos os outros, de resto).
segunda-feira, novembro 05, 2007
Sobre os rankings e o "cheque-escolar"
No Público de ontem, sobre os rankings, para além de ser provavelmente o primeiro colunista na história da imprensa escrita a usar a expressão Hierarchical Linear Modelling num jornal de grande circulação, André Freire diz o óbvio, mas um óbvio que vale a pena repetir:
Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas.
Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.
Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.
Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando o relatório que André Freire menciona no seu artigo:
"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."
Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.
Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais. Dou um exemplo: é quase garantido que uma das coisas que mais deverá potenciar o bom desempenho dos alunos de escolas altamente selectivas no seu recrutamento é não apenas o facto de cada um dos alunos estar mais bem equipado para o sucesso escolar mas também o facto das turmas onde esses alunos estão serem compostas por um conjunto de alunos homogeneamente bem equipados para o sucesso. O primeiro efeito é individual; o segundo é contextual.
Disto isto, um ponto adicional sobre o cheque-escolar. Independentemente da minha opinião sobre o assunto - que confesso ainda não sei bem qual é - suspeito que a ideia tem muito menos receptividade entre os proprietários e dirigentes das melhores escolas privadas portuguesas do que aquilo que os defensores da ideia imaginam.
Primeiro, porque a introdução do cheque-escolar poderia levar ao que acabou por suceder na Suécia, ou seja, a proibição de cobrança, pelas escolas privadas, de mensalidades adicionais acima do valor do voucher (em moldes semelhantes, por exemplo, aquilo que defende o Partido Conservador no Reino Unido). Para as melhores escolas privadas portuguesas, que têm procura muito superior à oferta e cobram mensalidades muito superiores àquilo que o valor do "cheque-educação" alguma vez poderá ser no contexto português, uma medida destas seria um desastre.
Segundo, a introdução do voucher quase certamente obrigaria a regulação e monitorização dos critérios de admissão. Tal como sucedeu na Suécia, as escolas inscritas no esquema deixariam de poder recusar a admissão de alunos menos qualificados. Isto seria igualmente desastroso para as melhores escolas privadas portuguesas. Por um lado porque, como já vimos, é altamente provável que a homogeneidade das turmas "por cima" seja um factor favorável não só - como é óbvio - para o desempenho "agregado" das escolas (que essas escolas querem manter a altos níveis de forma a preservarem altos níveis de procura) como também para o desempenho individual de cada um dos alunos. Por outro lado, uma das maneiras como as melhores escolas privadas colocam um "premium" adicional ao produto que estão a vender consiste em restringir os critérios de admissão através de "cunhas". Como qualquer pessoa de classe média-alta que tenha filhos em idade escolar (ou que tenha amigos nessas condições) sabe perfeitamente, são raríssimos os casos de alunos que entram nos melhores colégios privados em Portugal sem "cunha" (talvez o St. Julian's seja a excepção, mas nem disso estou certo). Isto cumpre uma função essencial: preservando a homogeneidade social dos colégios através de um recurso às redes sociais dos pais, estes ficam a saber que, ao colocarem o filho no colégio, estão também a dar-lhe acesso a uma rede de relacionamentos que traz consigo uma coisa simples mas fundamental: capital social. Os vouchers colocariam isto em risco, e isto é algo que nenhum bom colégio privado (nem os pais que os procuram) querem realmente perder. É triste? Talvez. Mas é assim.
Penso que é preciso ultrapassar este nível de discussão (até agora baseado numa troca de argumentos sustentada, na melhor das hipóteses, numa análise metodologicamente insuficiente dos dados) para passarmos a um debate alicerçado em evidência empírica avaliada com as metodologias adequadas.
Mas importa perceber o que significa "ultrapassar este nível de discussão". Em primeiro lugar, como assinala o próprio André Freire, significa que é imperioso recolher dados a nível individual de forma a que as "causas" (na medida em que qualquer estudo observacional possa apurar causas) do desempenho escolar individual, em particular as ligadas ao ambiente escolar, possam ser estimadas controlando os efeitos de variáveis ligadas ao capital escolar e económico dos pais.
Em segundo lugar, significa também perceber que os efeitos desse capital escolar e económico são, em certo sentido, triviais. É obvio que eles existem e estão mais do que demonstrados. Mas no que diz respeito às políticas públicas, esses efeitos são tão desinteressantes como os efeitos, por exemplo, do desenvolvimento económico na estabilidade dos regimes democráticos. Ou para irmos mais directamente ao tema, são quase tão desinteressantes como os efeitos das capacidades cognitivas inatas (que também existem) dos alunos no seu desempenho escolar. Aquilo que queremos saber é que outros factores, cuja modificação a curto e médio-prazo esteja ao alcance da vontade dos educadores, dos pais, das escolas e dos decisores políticos, exercem efeitos para além e independentemente (ou em interacção com) esse capital escolar e económico ou essas capacidades inatas. É verdade que - voltando ao ponto anterior - só podemos saber que factores são esses se controlarmos os efeitos do capital escolar e económico das famílias (e seria bom termos medidas de capacidades inatas, mas como provavelmente nao podemos em contextos não experimentais, o que teremos no final é muita variância não explicada). Mas o ponto é este: se é verdade que essas variáveis de controlo não podem ser esquecidas, também não se pode pressupor que tudo é subsumido por elas. É preciso estudar o assunto como deve ser, e pronto.
Em terceiro lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também assumir que a simples dicotomia público/privado é uma péssima e provavelmente inválida maneira de medir seja o que for de relevante sobre o ambiente escolar e os efeitos que esse ambiente pode induzir sobre o desempenho. Citando o relatório que André Freire menciona no seu artigo:
"It should be borne in mind that private schools constitute a heterogeneous category and may differ from one another as much as they differ from public schools. Public schools also constitute a heterogeneous category. Consequently, an overall comparison of the two types of schools is of modest utility."
Como deveria ser óbvio - pensava eu - o que interessa é estimar os efeitos de atributos do ambiente escolar - condições físicas e materiais, práticas educativas, currículos, etc, etc, etc - que podem ou não estar correlacionados entre si ou com a dicotomia público/privado. Se não estimarmos os efeitos destes aspectos, não ficamos a saber nada de relevante no final. "Privado melhor do que público"? "Público não é pior que privado"? Frases úteis para discussões puramente ideológicas, inúteis para tudo o resto.
Em quarto lugar, ultrapassar o actual nível de discussão significa também pressupor que os bons modelos explicativos do desempenho escolar serão certamente muito complexos, incluindo efeitos de interacção entre características individuais, efeitos de características contextuais sobre desempenhos individuais e efeitos de interacção entre contextos e atributos individuais. Dou um exemplo: é quase garantido que uma das coisas que mais deverá potenciar o bom desempenho dos alunos de escolas altamente selectivas no seu recrutamento é não apenas o facto de cada um dos alunos estar mais bem equipado para o sucesso escolar mas também o facto das turmas onde esses alunos estão serem compostas por um conjunto de alunos homogeneamente bem equipados para o sucesso. O primeiro efeito é individual; o segundo é contextual.
Disto isto, um ponto adicional sobre o cheque-escolar. Independentemente da minha opinião sobre o assunto - que confesso ainda não sei bem qual é - suspeito que a ideia tem muito menos receptividade entre os proprietários e dirigentes das melhores escolas privadas portuguesas do que aquilo que os defensores da ideia imaginam.
Primeiro, porque a introdução do cheque-escolar poderia levar ao que acabou por suceder na Suécia, ou seja, a proibição de cobrança, pelas escolas privadas, de mensalidades adicionais acima do valor do voucher (em moldes semelhantes, por exemplo, aquilo que defende o Partido Conservador no Reino Unido). Para as melhores escolas privadas portuguesas, que têm procura muito superior à oferta e cobram mensalidades muito superiores àquilo que o valor do "cheque-educação" alguma vez poderá ser no contexto português, uma medida destas seria um desastre.
Segundo, a introdução do voucher quase certamente obrigaria a regulação e monitorização dos critérios de admissão. Tal como sucedeu na Suécia, as escolas inscritas no esquema deixariam de poder recusar a admissão de alunos menos qualificados. Isto seria igualmente desastroso para as melhores escolas privadas portuguesas. Por um lado porque, como já vimos, é altamente provável que a homogeneidade das turmas "por cima" seja um factor favorável não só - como é óbvio - para o desempenho "agregado" das escolas (que essas escolas querem manter a altos níveis de forma a preservarem altos níveis de procura) como também para o desempenho individual de cada um dos alunos. Por outro lado, uma das maneiras como as melhores escolas privadas colocam um "premium" adicional ao produto que estão a vender consiste em restringir os critérios de admissão através de "cunhas". Como qualquer pessoa de classe média-alta que tenha filhos em idade escolar (ou que tenha amigos nessas condições) sabe perfeitamente, são raríssimos os casos de alunos que entram nos melhores colégios privados em Portugal sem "cunha" (talvez o St. Julian's seja a excepção, mas nem disso estou certo). Isto cumpre uma função essencial: preservando a homogeneidade social dos colégios através de um recurso às redes sociais dos pais, estes ficam a saber que, ao colocarem o filho no colégio, estão também a dar-lhe acesso a uma rede de relacionamentos que traz consigo uma coisa simples mas fundamental: capital social. Os vouchers colocariam isto em risco, e isto é algo que nenhum bom colégio privado (nem os pais que os procuram) querem realmente perder. É triste? Talvez. Mas é assim.
quarta-feira, outubro 31, 2007
"Centro de Estudos da Universidade Católica"
Têm circulado muitas notícias sobre um trabalho realizado por um" Centro de Estudos da Universidade Católica" para o Instituto Nacional de Administração, que analisa percepções e opiniões de cidadãos com idades entre os 30 e os 39 anos residentes em Lisboa e no Porto e de dirigentes da administração pública sobre o serviço público. Para que não haja confusões, que fique claro que o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica (CESOP), que dirijo, e de que normalmente se fala quando se trata de sondagens de opinião, não esteve envolvido neste trabalho. O "Centro de Estudos" mencionado pela comunicação social neste caso é outro, e o trabalho de recolha e análise de dados foi conduzido por um empresa chamada APEME (que por acaso conheço bastante bem).
terça-feira, outubro 30, 2007
"Why beautiful people have more daughters"
A propósito deste livro - mencionado no Blasfémias - onde se defende, entre outras coisas, "que a biologia humana teria evoluído no sentido de as pessoas mais atraentes gerarem mais filhas do que filhos" (ou que os homens com maiores níveis de rendimento têm mais sexo, ou que os engenheiros têm mais filhos que filhas), vale a pena vale a pena ler este post (e este artigo ou este). Há ideias tão irresistivelmente intrigantes que mesmo a sua falta de sustentação empírica não constitui obstáculo à sua propagação.
segunda-feira, outubro 29, 2007
O referendo europeu
O que eu acho sobre este assunto está hoje no Público e estará amanhã aqui. Mas não queria deixar de assinalar duas coisas:
1. A citação que mais circula do PM sobre este assunto é a seguinte: "a ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo". Mas queria chamar a atenção para o resto:
"Também compreendo todos os que acham que foi feita uma promessa por dois partidos de que haveria referendo, embora as condições sejam muito diferentes"
Ou seja:
a. Para o PM, ter havido ou não promessa é uma questão subjectiva ("os que acham que foi feita uma promessa");
b. O PM tem compreensão por essas pobres almas iludidas;
c. "As condições são muito diferentes".
2. Um quadro de um artigo de Russell Dalton e outros publicado no Journal of Democracy:

É muito curioso - e em rigor pouco surpreendente - que o apoio tenda a ser maior nos países que têm menos referendos do que nos países que os mais têm...
1. A citação que mais circula do PM sobre este assunto é a seguinte: "a ratificação pelo Parlamento é tão válida quanto a ratificação por referendo". Mas queria chamar a atenção para o resto:
"Também compreendo todos os que acham que foi feita uma promessa por dois partidos de que haveria referendo, embora as condições sejam muito diferentes"
Ou seja:
a. Para o PM, ter havido ou não promessa é uma questão subjectiva ("os que acham que foi feita uma promessa");
b. O PM tem compreensão por essas pobres almas iludidas;
c. "As condições são muito diferentes".
2. Um quadro de um artigo de Russell Dalton e outros publicado no Journal of Democracy:
É muito curioso - e em rigor pouco surpreendente - que o apoio tenda a ser maior nos países que têm menos referendos do que nos países que os mais têm...
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