domingo, abril 26, 2009

EU Profiler

Aí está o EU Profiler. Há semelhanças com instrumentos anteriores, como o Political Compass, o Moral Politics ou o Political Matrix. Mas a diferença aqui, tal como no original KiesKompas ou no Smartvote, é que a aplicação está explicitamente concebida não para posicionar ideologicamente o inquirido em abstracto, mas sim para conciliar isso com o que se passa num contexto eleitoral concreto. Há partidos ou candidatos, esses partidos e candidatos têm posições, e o que a aplicação faz é comparar as posições dos inquiridos com as dos partidos. O sucesso disto na Holanda e na Bélgica tem sido brutal: mais de 10% dos eleitores reportam, em inquéritos pós-eleitorais, ter recorrido a uma voter advice application.

Normalmente, estas aplicações presumem a existência de duas dimensões: uma de "esquerda/direita" socioeconómica e outra de "conservador/progressista" no domínio dos valores sociais. O EU Profiler assume que estes temas escalam numa mesma dimensão e transformam a segunda numa dimensão pró-anti Europeia. Percebo a ideia, tendo em conta que as eleições são europeias e que é preciso dar peso a esse aspecto. Mas na verdade, a dimensão pró-anti Europeia tende a escalar com o conservadorismo-progressismo: "support for European integration tends to be high among parties that can be characterised as Green/Alternative/Libertarian (GAL) and low among parties that rather qualify as Traditional/Authoritarian/Nationalist (TAN)". Logo, pode haver aqui um problema.

Outra dificuldade é que, apesar do esforço louvável para tornar o inquérito mais próximo de cada contexto eleitoral e de permitir que sirva como "voting advice", a verdade é que todas as respostas continuam a ser medidas numa escala "abstracta" esquerda/direita ou pró/anti integração. Assim, eu percebo que se pergunte, por exemplo, pelo referendo europeu. Mas tenho dúvidas sobre como se codificam as respostas: ser-se pelo uso do referendo é ser-se pró ou anti-integração? Da mesma forma, questões sobre o TGV ou a regionalização ajudam a que nos aproximemos de conflitos políticos concretos, mas como se codificam as respostas numa escala esquerda/direita?

Numa ou noutra perguntas, a tradução poderia estar melhor (o que significa "tornar a imigração mais restritiva"?) mas enfim. Dito tudo isto, parece-me bom nesta aplicação, apesar de tudo, o esforço de contextualização, a preocupação com medir a saliência de cada tema para as pessoas, o esforço em documentar o posicionamento dos partidos com textos de programas, moções e declarações públicas, e a flexibilidade da ferramenta (permitindo comparações focalizadas). E uma declaração de interesses: estou neste momento a trabalhar com outras pessoas na possibilidade de adaptar esta aplicação para as eleições legislativas. Todos os comentários e opiniões que nos façam chegar sobre o EU Profiler são bem vindos.

13 comentários:

Helena disse...

Caro Pedro Magalhães,

Confesso gostar bastante deste eu-profile. Comparando-o com os testes anteriores que referiu, este pareceu-me dar resultados menos ambíguos e mais concordantes com o meu perfil. As funcionalidades de análise e comparação do resultado com os diferentes partidos e países membros em função dos temas em discussão são muito interessantes.
Achei genial que se pudesse dar ao inquirido a possibilidade de "pesar" a importância de cada tema. Julgo que é este pormenor que leva a que os political compass e outros dêem resultados ambíguos.
No entanto, considero (é a ingénua minha opinião) que esta etapa em que os temas são "pesados" deveria preceder o inquérito. A título de exemplo. Se eu considerar o tema da segurança na UE menos importante que o das energias renováveis, será mais informativo que do 2ndo tema me sejam feitas mais perguntas ou perguntas menos vagas do que do primeiro.
Continuando com a questão do número das perguntas. Considero o n.º de perguntas específicas de Portugal (2) manifestamente insuficiente. Por muito que se intencione uniformizar os critérios para que se possa comparar os resultados ao nível europeu, na minha ingenuidade, considero que as questões intrínsecas ao país-membro terão um peso superior a 6.67% (2/30) nas intenções de voto dos eleitores. Por outro lado, achei que as perguntas específicas para portugal, estavam direccionadas a temas que servem de distinção entre os 2 partidos maioritários (PS/PSD), o que faria sentido se de eleições legislativas se tratasse, pois a necessidade de uma maioria governativa é um factor de peso nas intenções de voto do eleitor. Num escrutínio europeu, penso que esta necessidade se dilui.

Por outro lado, notei que alguns assuntos não foram abordados, como os da livre circulação de cidadãos europeus (fala-se somente do alargamento), da educação, da burocracia. Por outro acharia coerente que se direccionasse algumas perguntas, tal como é feito para cada país, para os países do euro.

Por último, não percebo muito bem como é que o inquérito sobre a probabilidade de voto funciona. Será uma forma de validar as respostas? Não será ambíguo questionar-se a probalidade de voto num partido sem referir o escrutínio em que esta probabilidade está enquadrada?


gosto em lê-lo

Helena

Helena disse...

Caro Pedro Magalhães,

Brincando com as funcionalidade do inquérito, verifiquei que a maioria das perguntas (20 em 30) correspondem a uma análise unicamente no parâmetro esquerda/direita.
Especificando os temas constatei que:

A)Análise estrita na Dimensão Esquerda e Direita Socioeconómica
-Estado-providência, familia e saude (3 perguntas)
-Migração e imigração (2/3 perguntas?)
-Sociedade, religião e cultura (4/3 perguntas?)
-Economia e Trabalho (3 perguntas)
-Meio ambiente, transportes e energia (3 perguntas)
-Lei e ordem (2 perguntas)
-Perguntas específicas de Portugal (2 perguntas)

B- Análise estrita na Dimensão Pró e Contra integração na UE
-Política Externa (2 perguntas)
-Integração europeia (6 perguntas)

C- Análise Bidimensional
-Finanças e Impostos (2 perguntas)
Esta avaliação parece consistir um factorial bidimensional com passos unitários fixos de -2 a 2 em ambas as escalas- se seleccionar este tema e não especificar o País, na opção Partidos na Europa, verificará visualmente o que refiro.
Como curiosidade- é surpreendente, se nos focarmos unicamente neste tema, constatar que os verdes Alemães estão no topo da escala pró-integração, quando a maioria dos partidos alemães estão no fundo da escala. Se a lógica da PEC não está invertida, estaria à espera do contrário.

Anónimo disse...

1. Temos uma série de perguntas sem sentido e cuja resposta é equívoca. Vejamos.

«Devia haver um esforço maior para privatizar os serviços de saúde em Portugal?»
A resposta é clara para um eleitor de esquerda, mas um eleitor liberal só dará um «concordo» se a privatização implicar concorrência, pois estamos num mercado de procura muito inelástica.

«As políticas de imigração orientadas para trabalhadores qualificados deviam ser encorajadas como meio de promover o crescimento económico»

Um liberal de Direita diz que concorda, se falarmos de trabalhadores em q Portugal seja deficitários, e.g., médicos. Caso seja excedantário dira que discorda. + uma questão equívoca.

2. Há uma série de questões às quais o eleitor não liga nenhuma. Apesar de declararmos dar menos importância, a resposta dada continua a ser considerada, ainda que com menor peso. Ie, deveria ser considerado a possibilidade de se dar importância ZERO, o que fiz dizendo não ter opinião. Tal é mentira, por exp, nas questões de integração europeia ou de Meio ambiente, transportes e energia eu tenho opinião, mas o facto de discordar de um partido sobre essas questões não diminui a possibilidade de dar o meu voto.

Pedro Magalhães disse...

Mas no final, não há a possibilidade de pura e simplesmente excluir os temas que quisermos do mapeamento das posições? Isso permite tornar os temas que quisermos irrelevantes.

Zé Maria Brito,sj disse...

Boa Tarde
Pessoalmente considerei útil fazer este teste. é interessant no fina comparar as nossas respostas com as dos partidos.

Curiosamente já dei conta que o Dirigente de um partido tinha uma %inferior nesse partido do que a minha dizendo ele que não está seguro que todas as respostas que se dão como sendo do partido que representa possam ser considerdas como tal.

Outro aspecto que pode ser útil no que diz respeito às legislativas:
tenho a sensação que os resultados do Partido Humanista saem inflacionados naqueles que respondem ao teste. A impressão que me dá é que isso se deve ao facto dem em muitas das respostas desse partido aparecer a opção "sem opinião". Deduzo que as respostas em que haja coincidência ou aproximação acabam por ser super-valorizadas no resultado final. Se é assim (não percebo nada de programação) então esse seria um aspecto a ter em conta!

Anónimo disse...

Zé Maria Brito,sj
Tem toda a razão. Quando um partido está «sem opinião» só são consideradas as outras questões. Este problema pode aproximar um eleitor de um partido inadvertidamente. Para tal, bastará por exemplo que um partido só tenha opinião sobre as questões europeias e que as nossas opiniões sejam coincidentes. O que lhe aconteceu para o PH, acontece para o MRPP.

Pedro Magalhães disse...

Obrigado a todos. Isto é muito útil. O último assunto mencionado já tinha sido abordano no Twitter - http://twitter.com/Shyznogud/status/1627836618 - e não há dúvida que é um problema.

Anónimo disse...

«Mas no final, não há a possibilidade de pura e simplesmente excluir os temas que quisermos do mapeamento das posições? Isso permite tornar os temas que quisermos irrelevantes»

Caro Pedro,

No resultado, temos 3 análises:
1.ao posicionamento
2.o partido que está mais próximo
3.a proximidade com os partidos

Na análise 1.(ao posicionamento) podemos exluir os temos que quisermos. Óptimo.

Na análise 2.(o partido que está mais próximo), em que temos uma teia de aranha, não podemos excluir qq tema. Claro que podemos fazer um esforço e excluir mentalmente da teia o tema que quisermos. No entanto, aparece na parte inferior da teia o partido + próximo que, no meu caso, não é o mesmo da análise 3.

Na análise 3.(a proximidade com os partidos) não há qq possibilidade de excluir qq tema. A única possibilidade de exclusão é dar como resposta «sem opinião» aos temas que nunca derteminariam o nosso voto.


Já agora, não percebi a influência no resultado final da questão:
«Qual é a probabilidade de alguma vez vir a votar nos seguintes partidos?» em q pontuamos de 1 a 10. Alguém me ajuda?

Pedro Magalhães disse...

Mais uma vez, obrigado. Acho que posso ajudar sobre o último ponto: a pergunta sobre "propensão para votar" não tem efeitos sobre os resultados apresentados. É uma pergunta para usar posteriormente na análise dos dados gerados pelo projecto, nomeadamente para relacionar prediposições prévias com as posições sobre os temas. Por outra palavra, é uma pergunta que gera dados para serem analisados por pessoas como eu.

Helena disse...

Caro Pedro Magalhães,
Outra curiosidade.
No quadro final, é possivel comparar os nossos resultados com o de partidos de outros países na europa. Estranhei que na lista destes países constassem a Croácia, a Turquia e a Suiça, que não pertencem à união europeia.
Será para estabelecer pontos de comparação de extremos ao nível da integração (do tipo controlo negativo e controlo positivo)?

Anónimo disse...

caro Pedro,

Uma das coisas que estranhei foi o Bloco de Esquerda aparecer menos europeísta que o CDS.

Ora, sendo eu europeísta convicto e analisando os programas e declarações em épocas eleitorais, constatei que o Bloco é pró-europeísta, o que luta é contra este europeísmo.

cumprimentos e boa adaptação
PM

Anónimo disse...

Percebi.
Luís

abrunho disse...

Eu penso que achei um erro numa pergunta que aplicando-se aos outros países europeus, nao tem interesse para o contexto portugues: a pergunta sobre se acha bem vinda a descriminalizacao do consumo de drogas. Isto em Portugal já veio. Poderia perguntar-se sobre legalizacao ou se discorda.