sábado, fevereiro 10, 2007
Correcção
"No quadro do seu post "As sondagens de 1998" há um detalhe que talvez não seja muito rigoroso - é que não se pode comparar os valores das sondagens com os resultados nacionais globais: por norma, as sondagens são só feitas em Portugal continental. Ora, no "continente" o resultado não foi "49,1% - Sim; 50,9% - Não", foi mais algo como "50,3% - Sim; 49,7% - Não", o que quer dizer que as sondagens não falharam tanto como isso (pelo menos acertaram no vencedor, no contexto da população estudada)."
O leitor tem razão.
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
Factores de incerteza
1. Começa por aqui: sondagens realizadas num curto intervalo de tempo chegam a conclusões bastante diferentes sobre a relação de forças entre intenções de voto "Sim" e "Não". É quase certo que, no momento em que foram feitas, se possa dizer que entre os eleitores as intenções em votar "Sim" eram mais numerosas que as intenções em votar "Não". Mas quanto mais numerosas? E acresce a isto a percentagem considerável daqueles que dizem tencionar votar mas que se encontram indecisos (entre 6 e 17%). Nas legislativas de 2005, por exemplo, não passavam, na pior das hipóteses, de 10%.
2. Continua por aqui: reparem, por exemplo, na notável estabilidade das intenções de voto nas legislativas. Vejam como só nas sondagens da última semana essa estabilidade foi quebrada nas presidenciais. E como tudo tem sido diferente e mais volátil neste referendo. Nada disto é inesperado:
"The dynamics of a referendum campaign can often be harder to anticipate than those of an election, and the breadth of participation of the electorate cannot always be assumed. It follows, therefore, that the outcome of many referendums is not easily predictable, even in some cases where the distribution of public opinion on the issue of the referendum is well known. The short term perceptions of the referendum question on the part of voters, the images that they may hold of the groups and individuals involved, or their reactions to the discourse of the campaign, can be as important to the voting decision as their opinions or beliefs on the fundamental issue itself. While longer term factors such as partisanship or ideology may also be important, the short-term impact of campaign strategies and tactics can often make a substantial difference in determining referendum outcomes. A referendum presents a somewhat different set of choices to the voter than does an election. No political parties or candidate names appear on the ballot. In a referendum, unlike an election, voters must decide among alternatives that are sometimes unfamiliar and perhaps lacking in reliable cues. One might therefore expect a greater degree of volatility and uncertainty in referendum voting behaviour than is typically found in elections."
3. Aumenta quando olhamos para isto. Nenhuma sondagem em 1998 foi feita a tempo de tirar uma fotografia que fosse igual àquilo que, vários dias depois, acabou por suceder. Quem nos diz que a dinâmica de 2007 não é semelhante?
Dito isto, não quero que se saia daqui só com dúvidas absolutas. Há, pelo menos, uma afirmação probabilística que se pode fazer na base dos dados disponíveis: as chances de vitória do "Sim" são maiores hoje do que em 1998. A vantagem do "Sim" parece ser maior a menos tempo da eleição do que era em 1998 a mais tempo (não esquecer que as últimas sondagens de 1998 foram realizadas com maior distância do dia do referendo). É altamente provável que a participação eleitoral seja mais elevada o que, em princípio - "em princípio", noto - deverá favorecer o "Sim". Mas certezas? Impossível.
E agora, chega de sondagens. O que conta é o voto.
P.S.- Desculpem todas as "auto-ligações", mas foi para poupar tempo.
As sondagens interpretadas na imprensa
1. Destaque de primeira página no Expresso para os votos válidos no "Sim": 53,1%.
2. Jornal de Notícias: 58% na primeira página, mas em letra pequena. Ênfase na peça à possível desmobilização dos jovens.
3. Público: é quase preciso virar o jornal do avesso para descobrir os 62% e toda a ênfase da peça é na "descida" do Sim e nos factores de incerteza.
Em resumo: independentemente dos resultados das sondagens, a incerteza é grande e ninguém acredita em vantagens confortáveis do "Sim".
Interlúdio
Dispersão
Em 2005 e 2006, as sondagens davam estimativas muito aproximadas para a votação no PS ou em Cavaco. Hoje, 9 pontos separam as estimativas máxima e mínima para o "Sim".
Tendências 2
A interpretação é simples: quando controlamos os efeitos do facto de diferentes sondagens terem sido realizadas por diferentes institutos, a estimativa de votos válidos no "Sim" tem vindo sempre a descer: 65% antes de Janeiro, 61% em Janeiro e 57% em Fevereiro. Esta análise está muito condicionada pelo facto de termos poucos casos (21 sondagens) e do "mix" concreto de institutos que realizaram sondagens em determinados períodos de tempo. Mas é o que se pode (ou o que sei) fazer. Os valores estimados para cada período visam apenas avaliar a existência de tendências estatisticamente significativas. E confirma-se também a Eurosondagem como "outlier", com estimativas significativamente abaixo das dos restantes institutos ao longo do período (o que não significa uma avaliação da precisão de uns ou outros).
Tendências 1
Olhando para os dados em conjunto, continua a ser manifesta uma tendência de "médio prazo" de descida dos votos válidos no "Sim" a partir do início de Janeiro. Mas o declive tornou-se menos acentuado com as últimas sondagens.
As últimas sondagens
Cá vamos nós. Relembrando as regras básicas:
1. Coloco apenas a informação publicada nos jornais ou que se pode inferir directamente dessa informação;
2. Nas "intenções directas de voto", excluo a abstenção declarada ou estimada da base de cálculo, deixando apenas intenções "Sim", "Não", e "Indecisos/Não respostas". Isto sucede porque, nalguns casos, os institutos apresentam valores para a abstenção declarada, enquanto noutros parece evidente que os valores apresentados resultam de uma estimativa que não sei como é feita em cada caso.
3. No caso da sondagem Intercampus, não posso fazer o que descrevo no ponto anterior, porque a peça no Público não apresenta a percentagem daqueles que, entre todos os inquiridos, disseram tencionar votar mas não saber ainda como. É possível que a questão nem tenha sido colocada assim, tendo em conta que no Público se divulgam os resultados das respostas a uma escala sobre "clareza do voto". É possível que esta escala tenha sido usada para ponderar os votos. Mas não sei.
4. A minha informação sobre a sondagem TNS Euroteste foi retirada de um despacho da Lusa e com a ajuda de uma amável jornalista que lá trabalha. Mas vou ainda hoje comprar o Sol - uma estreia - para confirmar.
5. Há quatro casos - Católica, Intercampus, Eurosondagem e TNSEuroteste - em que, para além das intenções directas de voto, são dadas na imprensa estimativas de votos válidos, invariavelmente partindo da pressuposição da abstenção dos indecisos. Apresento essas estimativas. No caso da Aximage, sou eu quem aplica essa pressuposição, com o mero fim analítico de tornar todas as sondagens comparáveis entre si e com os resultados eleitorais.
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
Últimas sondagens: Aximage
Sim: 52,6%
Não: 41,5%
Indecisos: 5,9%
Se, apenas para o fim de tornar esta sondagem comparável com outras e com resultados eleitorais, redistribuirmos os indecisos proporcionalmente pelas opções válidas, ficamos com 56% para o Sim e 44% para o Não. Em relação à anterior sondagem da Aximage, isto representa uma estabilização das intenções de voto.
Hoje haverá mais duas, pelo menos.
quarta-feira, fevereiro 07, 2007
Heresthetics
" 'Democratic political outcomes (...) are an amalgamation that often operates quite personally and unfairly, giving special advantages to smarter or bolder or more powerful or more creative ot simply luckier participants' (Riker 1982, p. 200). The outgrowth of the indeterminacy Riker sees in democratic regimes is a type of political entrepeneurship he labels heresthetic. This is the art of creating successful coalitions by reframing alternatives, so that people are induced or compelled to join without necessarily being persuaded to the leader's point of view."
Linda L. Fowler, recensão de The Art of Political Manipulation
"The classic heresthetic is reducing or increasing dimensionality. Thus, when 'a person expects to lose on some decision, the fundamental heresthetical device is to divide the majority with a new alternative, one that he prefers to the alternative previously expected to win. (...) A pure heresthetic does not shape preferences but structures a situation so that other participants must act in a way that suits the heresthetician's interests even though the former's preferences remain unchanged."
Andrew Taylor, Stanley Baldwin, heresthetics and the realignment of British politics
"Advocates attempt to manipulate preferences in several ways. (...) However, the most frequently attempted manipulation - and the one to which advocates devote most of their creative energy and time - is the formulation and presentation of 'interpretations' of various policy proposals. (...) An 'interpretation' consists on a set of arguments about the consequences of the policy proposal. (...) The aim of each interpretation is to emphasize a dimension of judgement what will lead people to prefer on policy proposal over competing, alternative proposals."
Richard Lau et al, Political Beliefs, Policy Interpretations, and Political Persuasion.
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Sobre a importância do "centro" num referendo...
Richard Sinnott, in Cleavages, parties and referendums: Relationships between representative and direct democracy in the Republic of Ireland.
"Another explanation for the no-side's success is that they were able to set the agenda and claim the middle ground. In this light, the Danish referendum seems to fit the patterm know as "the opinion reversal referendum". Canadian psephologist Larry LeDuc has found that the yes-side in a referendum often loses if the no-side captures the centre ground. (...) Therefore, while the government is often ahead when the referendum is called, the no-side often closes the gap - if it succeeds in appealing to the median voter."
Mads H. Qvortrup, in How to Lose a Referendum: the Danish Plebiscite on the Euro.
Trend a 5 de Fevereiro
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Reflexões irlandesas para o fim de semana
Para quem não tiver acesso ao artigo, é sobre o referendo de 1986 na Irlanda, onde se votou sobre o levantamento de uma proibição constitucional do divórcio. Os factos descrevem-se rapidamente: em Fevereiro e Abril de 1986, havia maiorias claras nas sondagens a favor do "Sim"; em Junho, o "Não" ganhou. Onde é que eu já ouvi isto?
Darcy e Laver discutem várias hipóteses explicativas desta mudança maciça de opinião, à luz de outros exemplos de "opinion reversal" em referendos nos Estados Unidos: referendos sobre a fluorização da água e de ratificação da Equal Rights Amendment. E concluem duas coisas sobre aquilo que faz com que uma aparente maioria na opinião pública antes de uma campanha possa ser convertida numa derrota eleitoral:
1. A primeira, negando a ideia de que os eleitores estavam "confusos", e sugerindo, pelo contrário, que tomaram uma decisão "racional" (sem que isto seja um juízo de valor) na base da maneira como o assunto acabou por lhe ser apresentado:
"Voters favoring a limited form of divorce but voting no may not have been confused at all. Rather, they could well have adopted these superficially contradictory positions because they were not certain that only a limited form of divorce could be maintained once the constitution was amended. And we should note that the allegedly inexorable drift that would take place toward 'divorce on demand' was another key plank in the campaign of the antis. (...) This suggests the shift away from support for the divorce amendment was a shift away from the details of one specific proposal, not a shift away from support for divorce itself"
2. A segunda, sugerindo que um dos factores explicativos para a derrota do "Sim" foi o crescente afastamento das elites políticas da campanha e a transformação da campanha num "conflito comunitário":
"Wary both of internal splits and of finding themselves on the wrong side of an increasingly divisive issue, established elite organizations begin to develop strategies for avoiding participation. As a resulf of this, ad hoc groups outside the political elite carry on the struggle for both sides and 'finally, with the widening of the conflict, the tone of the debate shifts to one fo antagonism, personal slander, and overt hostility' (Boles, 1979, 18). Elite withdrawal from an increasingly ugly campaign, fought using techniques that often break the established rules of the game, appears to the public as elite doubt over the issue at stake. The proposed change thereby loses legitimacy and the result is defeat for the proposal. "
Dito isto, uma nota menos pessimista para o "Sim": em 1995, um novo referendo sobre o tema foi aprovado. Dessa vez, como se explica neste paper do Michael Gallagher, havia mais partidos a favor do "Sim" e os anteriores oposicionistas tiveram posições mais ambíguas (onde é que eu já ouvi isto?) Mas a verdade é que a nova proposta tomava em conta várias das preocupações sobre liberalização ilimitada (legítimas ou não, é indiferente) que tinham surgido em 1986. E que mesmo assim, ganhou por apenas 50,3% contra 49,7%...
Bom fim de semana.
Papel e caneta
Florida Moves to End Touch-Screen Voting
Gov. Charlie Crist today announced plans today to abandon the touch-screen voting machines that many of Florida's largest counties installed after the disputed 2000 presidential election, instead adopting a statewide system of casting paper ballots counted by scanning machines. (ler mais)
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
Sondagem IPOM
Campanhas, 2
O que me parecia que o "Não" tinha de fazer nesta campanha, e tem feito muito bem, é com que os eleitores não se limitem a ver neste referendo apenas uma decisão sobre a "despenalização do aborto", reenquadrando o tema de forma a que ele apareça como um referendo sobre o respeito pela vida, sobre a ordem social e moral onde queremos viver e sobre onde vai parar o dinheiro dos nossos impostos, por exemplo. E o "Não" teria também de sugerir, como tem feito, a existência de uma incerteza fundamental sobre o "day after" de uma vitória do "Sim": aumento do número de abortos, desregulação, abortos a passarem à frente de intervenções cirurgicas, despenalização "na prática" de abortos depois das 10 semanas, etc, etc, etc.
Isto parece-me uma boa estratégia a dois níveis. Por um lado, joga bem com o facto dos eleitores serem avessos ao risco: o que existe pode ser mau, mas se o que vem tanto pode ser melhor como pode ser pior, é melhor ficar como estamos. Por outro lado, como o "day after" de uma vitória do "Sim" pode ter várias configurações diferentes, importa que o eleitor o conceba como trazendo aquela que é a configuração mais radical de todas: o modelo de "período" - escolha livre ilimitada da mulher dentro de um determinado período de tempo - em vez de um modelo de "distress", em que, apesar da decisão última ser da mulher dentro de um determinado período e dessa decisão não ser penalizada, o aborto continua a ser visto como excepção e alguma espécie de aconselhamento ou mesmo dissuasão são obrigatórios, solução, de resto, comum na Europa. Visto à luz da primeira alternativa, o "Sim" pode aparecer aos eleitores como sendo demasiado extremista e radical, desmobilizando os moderados e reduzindo os votantes - como sucedeu em 1998 - aos "núcleos duros" de cada opção.
Nestas circunstâncias, sabendo como praticamente metade dos portugueses acha que a "vida" começa na concepção - mesmo que não vejam necessariamente essa vida como detentora dos mesmos direitos de uma pessoa humana - ou que a maioria dos portugueses acha que a escolha da mulher não pode ser ilimitada, o "Sim" teria de fazer duas coisas. Uma seria abandonar o discurso da "barriga é minha". Isso foi feito, apesar de tudo, com consideráveis rigor e disciplina. A outra seria tentar persuadir os eleitores - partindo do princípio que tal coisa é possível - que o "day after" de uma vitória do "Sim" não traria necessariamente incerteza, desregulação e radicalismo, mas sim uma solução que, apesar de tudo, poderia aparecer como moderada, de compromisso, e logo de equilíbrio e estável para o futuro. Que, uma vez mais, o poder político não iria usar o referendo apenas para se desresponsabilizar, obtendo uma decisão dos eleitores mas deixando depois o "day after" ao acaso. No passado, o "Não" sempre tomou muita atenção a este aspecto, explicando que, apesar de defender a manutenção da penalização, haveria no "day after" de uma vitória do "Não" um esforço em matéria de planeamento familiar e de apoio social.
António Costa, contudo, quer silêncio absoluto sobre o "day after". Do ponto de vista estrito do resultado do referendo, a decisão parece, à primeira vista, péssima. Mas é possível que António Costa ache que vitória do "Sim" está "no papo", ou que, apesar das dúvidas, é sempre preferível não se comprometer com nada que não saiba se vai querer cumprir. Ele lá saberá.