A liderança bicéfala do Bloco de Esquerda complica a vida a quem faz sondagens. Quem é o "líder" do Bloco, aquele cuja popularidade ou actuação, tal como percepcionada pelos eleitores, as sondagens querem medir? Eis como a Eurosondagem lidou com o problema no Barómetro Político de Dezembro:
P.14: Acha que a actuação da liderança do BE, Cristina Martins e João Semedo, tem sido:
Positiva: 28,6%
Nem boa nem má: 28,4%
Negativa: 22,0%
Ns/Nr: 21,0%
Daqui podem decorrer várias conclusões. Uma é que há mais inquiridos que fazem uma avaliação positiva que negativa da liderança do Bloco de Esquerda. Outra é que mesmo um público informado, como aquele que é responsável por conduzir sondagens, pode ainda não saber que Catarina Martins não se chama Cristina Martins (eu, por exemplo, não reparei nisto quando olhei para o documento. Foi um colega que me alertou para a coisa). E a terceira é que há pessoas que têm opinião sobre tudo, mesmo aquilo que não existe. Por exemplo, há uns tempos ficámos a saber que 25% dos americanos tinham uma opinião sobre o plano Panetta-Burns de redução do défice, não muito menos que os 39% que tinham opinião sobre o plano Simpson-Bowles. O único detalhe, claro, é que o plano Panetta-Burns nunca existiu...
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terça-feira, fevereiro 05, 2013
sexta-feira, julho 01, 2011
Eurosondagem, 26-28 Junho, N=1010, Tel.
PSD: 40,8%
PS: 25%
CDS-PP: 13,6%
CDU: 7,7%
BE: 4,8%
OBN: 8,1%
Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas são únicos líderes políticos com saldo de popularidade positivo. Aqui.
Mais resultados sugerem:
1. Avaliação mais positiva que negativa da composição do governo.
2. Satisfação com a inclusão de alguns ministros mais jovens e com a reduzida dimensão do governo.
PS: 25%
CDS-PP: 13,6%
CDU: 7,7%
BE: 4,8%
OBN: 8,1%
Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas são únicos líderes políticos com saldo de popularidade positivo. Aqui.
Mais resultados sugerem:
1. Avaliação mais positiva que negativa da composição do governo.
2. Satisfação com a inclusão de alguns ministros mais jovens e com a reduzida dimensão do governo.
quinta-feira, março 24, 2011
Incerteza 1: a popularidade dos líderes.
Incrivelmente, a apresentação do PEC 4, o debate que se seguiu e o desfecho de ontem ocorreram sem que tivesse sido, que eu saiba, conduzida uma única sondagem sobre o tema para divulgação pública. Pelos vistos, as empresas e os órgãos de comunicação social andaram entretidos, respectivamente, a fazer e encomendar sondagens sobre o Sporting. São opções. Isto significa, contudo, que a reacção da opinião pública ao que se passou é impossível de aferir neste momento. Talvez aqui a dias saibamos qualquer coisa.
Mas por outro lado, talvez não seja mau de todo. Sem informação de curtíssimo prazo, podemos concentrar as atenções em factores de menos curto ou até longo prazo que nos permitam, se não antever o que se vai passar, pelos menos ter uma ideia dos possíveis cenários. Dos factores conhecidos, o de mais "curto-prazo" é a popularidade dos líderes.
Aqui, as notícias são más para o PS. Na última sondagem da Marktest, 70% dos inquiridos tinham opinião negativa sobre José Sócrates, contra 18% de opiniões positivas. Na Aximage, Sócrates tem uma avaliação média de 6,8 em 20 pontos possíveis. Na Eurosondagem, onde os números lhe são menos desfavoráveis, o saldo entre opiniões positivas e negativas é de menos de 5 pontos. Na última sondagem da Católica - de Outubro, há tanto tempo! - a avaliação média do PM era de 6,5 pontos em 20 e apenas 35% dos inquiridos lhe davam uma nota de 10 ou mais.
Dito isto, a verdade é que nenhum dos líderes político-partidários é particularmente bem visto. Na Marktest, Pedro Passos Coelho aparece com tantas opiniões positivas como negativas e uns perturbantes 29% que "não sabem". Na Eurosondagem, o saldo para Passos Coelho é praticamente igual ao de Sócrates. É na Aximage e na Católica que o líder do PSD aparece mais bem avaliado comparativamente a Sócrates. Mas na Católica essa avaliação média é ainda negativa (9,2 de 0 a 20) enquanto que na Aximage, apesar de ser positiva (10,6 de 0 a 20) está bem abaixo dos valores de há um ano atrás.
Acresce a isto que estes valores são obtidos de "amostras totais", e não necessariamente dos presumiveis votantes. Muita desta negatividade pode estar concentrada em eleitores que não tencionam votar. A avaliação dos líderes conta muito, sabemos, nas escolhas eleitorais. Mas é também a mais volátil das variáveis explicativas do voto, num certo sentido demasiado próxima do próprio voto. É preciso olhar para outras coisas.
Mas por outro lado, talvez não seja mau de todo. Sem informação de curtíssimo prazo, podemos concentrar as atenções em factores de menos curto ou até longo prazo que nos permitam, se não antever o que se vai passar, pelos menos ter uma ideia dos possíveis cenários. Dos factores conhecidos, o de mais "curto-prazo" é a popularidade dos líderes.
Aqui, as notícias são más para o PS. Na última sondagem da Marktest, 70% dos inquiridos tinham opinião negativa sobre José Sócrates, contra 18% de opiniões positivas. Na Aximage, Sócrates tem uma avaliação média de 6,8 em 20 pontos possíveis. Na Eurosondagem, onde os números lhe são menos desfavoráveis, o saldo entre opiniões positivas e negativas é de menos de 5 pontos. Na última sondagem da Católica - de Outubro, há tanto tempo! - a avaliação média do PM era de 6,5 pontos em 20 e apenas 35% dos inquiridos lhe davam uma nota de 10 ou mais.
Dito isto, a verdade é que nenhum dos líderes político-partidários é particularmente bem visto. Na Marktest, Pedro Passos Coelho aparece com tantas opiniões positivas como negativas e uns perturbantes 29% que "não sabem". Na Eurosondagem, o saldo para Passos Coelho é praticamente igual ao de Sócrates. É na Aximage e na Católica que o líder do PSD aparece mais bem avaliado comparativamente a Sócrates. Mas na Católica essa avaliação média é ainda negativa (9,2 de 0 a 20) enquanto que na Aximage, apesar de ser positiva (10,6 de 0 a 20) está bem abaixo dos valores de há um ano atrás.
Acresce a isto que estes valores são obtidos de "amostras totais", e não necessariamente dos presumiveis votantes. Muita desta negatividade pode estar concentrada em eleitores que não tencionam votar. A avaliação dos líderes conta muito, sabemos, nas escolhas eleitorais. Mas é também a mais volátil das variáveis explicativas do voto, num certo sentido demasiado próxima do próprio voto. É preciso olhar para outras coisas.
segunda-feira, novembro 15, 2010
Sabe o que vai acontecer no dia 23 de Janeiro? Nós sim (II)
No post anterior, explicávamos como o conceito de “incumbente” exige, em eleições presidenciais, um tratamento diferente do que sucede com eleições legislativas, onde esse “incumbente” pode ser definido como o partido de governo (ou o principal partido de governo). No caso das presidenciais, essa definição não faz sentido. Como proceder, então?
A nossa opção vai ser a de tentar prever a votação dos candidatos do “bloco incumbente”, ou seja, a soma da votação de todos os candidatos oriundos de uma mesma “área política” - "esquerda" ou "direita" - que, no período imediatamente anterior a dada uma eleição, tenha controlado a Presidência. O que significa isto, na prática? Sete coisas: (1) Nas eleições de 1976, não há ainda Presidente eleito, pelo que esta observação não conta para a nossa análise. (2) Nas eleições de 1980, quem é o Presidente? Eanes, claro. Mas para a nossa análise, e para manter comparabilidade do longo da série, aquilo que nos interessa é o “bloco incumbente”, ou seja, a votação de todos os candidatos, incluindo Eanes, que se situam na área da esquerda. Temos assim Eanes e Otelo, totalizando 57,93% dos votos válidos. (3) Em 1986, o “bloco incumbente” é, claro - e novamente - a esquerda: Soares, Zenha e Pintasilgo: 53,69% dos votos, na 1ª volta. (4) Em 1991, Soares, Carvalhas e Carlos Marques: 85,84% dos votos. (5) Em 1996, apenas Sampaio: 53,91%. (6) Em 2001, Sampaio, António Abreu, Fernando Rosas e Garcia Pereira: 65,32% dos votos. (7) E em 2006, Alegre, Soares, Jerónimo de Sousa, Louçã e Garcia Pereira: 49,46% dos votos.
Em 2011, o que vamos prever é a soma dos votos de todos os candidatos do actual “bloco incumbente”, a direita. Em 2011 – como sucedeu em 1996 – esse bloco será representado por um único candidato, Cavaco Silva. Mas não tinha de ser assim. Esta nossa definição da variável dependente adapta-se a variadas circunstâncias e configurações de cada eleição, pelo menos até se deixar de pensar em política em termos de “esquerda” e “direita”, coisa que, apesar de tudo, não parece estar para muito breve.
A questão que se segue é quais poderão ser as variáveis independentes. Por outras palavras, que factores podem ajudar a prever a votação que o "bloco incumbente" teve no passado e a votação que esse bloco possa vir a ter no futuro? Há muitos factores que poderiam ser imaginados, mas com seis observações apenas, impõe-se máxima parcimónia. A nossa opção vai no sentido de valorizar dois aspectos fundamentais: o apoio partidário dos candidatos do bloco incumbente; e se esse bloco concorre com o Presidente em exercício.
As eleições presidenciais em regimes semi-presidenciais são muitas vezes vistas como um combate entre personalidades políticas, uma espécie de "concurso de popularidade" sem outros determinantes políticos relevantes. De facto, de acordo com alguns estudos sobre comportamento eleitoral, é isso que parece suceder nalguns países onde o chefe de estado é eleito mas não exerce poderes executivos. Em Portugal, análises com dados agregados sugerem uma "baixa fidelidade eleitoral [dos votantes] aos partidos com os quais simpatizam" em eleições presidenciais. Mas temos razões fortes para discordar deste diagnóstico. Um estudo sobre as presidenciais de 2006 mostra que a identificação partidária é um dos factores explicativos mais poderosos quando se trata de prever o comportamento dos eleitores a nível individual. Claro que a avaliação das qualidades dos candidatos também tem um papel muito importante, mas nisso, as eleições presidenciais não são especialmente diferentes das eleições legislativas. O que as distingue, de resto, é o facto de o comportamento de voto nas presidenciais não ser - ao contrário do que sucede nas legislativas - influenciado pela avaliação da actuação do governo. Mas a fidelidade partidária conta muito, o que, de resto, não surpreende: os partidos apoiam candidatos e envolvem-se fortemente nas campanhas. Seria estranho que os eleitores fossem indiferentes ao facto e que os resultados dos candidatos não fossem afectados pela dimensão da sua coligação partidária de apoio.
Logo, para nós, um dos factores preditivos do desempenho do "bloco incumbente" nas presidenciais deve ser procurado no apoio partidário desse bloco. Isso é importante por duas razões. Por um lado, o apoio eleitoral dos partidos da "esquerda" e da "direita" não foi imutável ao longo do tempo, e essas mudanças deverão ter consequências no desempenho eleitoral dos candidatos apoiados por esses partidos. Por outro lado, houve momentos na nossa história eleitoral em que candidatos de um determinado bloco obtiveram o apoio de partidos fora do bloco. O exemplo mais evidente é o de Soares em 1991, cuja candidatura foi apoiada pelo PSD. Não tomar isto em conta seria ignorar a evidência de que os mais de 70% de votos recolhidos por Soares e os mais de 80% dos votos recolhidos por todos os candidatos "da esquerda" (incluindo Soares) não aconteceram por acaso ou por mera "popularidade" dos candidatos.
Assim, julgamos que uma das variáveis independentes de um modelo que procure prever o desempenho eleitoral dos candidatos do "bloco incumbente" terá de remeter para alguma medida do apoio partidário por detrás desses candidatos. Idealmente, gostaríamos de uma medida que captasse esse apoio o mais próximo possível da eleição presidencial, utilizando, por exemplo, sondagens de intenções de voto nesses partidos. Mas essas sondagens não estão disponíveis para todo o período. Outra alternativa seria a de recorrer aos dados das eleições legislativas mais próximas de cada eleição presidencial. Contudo, nalguns casos, essas eleições mais próximas são posteriores à eleição presidencial, o que derrota o objectivo do exercício: prever resultados, na base de informação disponível antes das eleições presidenciais. Logo, a nossa opção foi a de usar como variável independente a soma dos votos dos partidos que apoiam os candidatos do "bloco incumbente" na eleição imediatamente anterior a cada presidencial. A saber:
- 1980: 49,54% de votos válidos (a soma dos partidos de esquerda nas legislativas de Outubro de 1980).
- 1986: 58,40% (legislativas de 1985).
- 1991: 94,47% (esquerda + PSD, legislativas de 1987).
- 1996: 55,30% (legislativas de 1995)
- 2001: 57,46% (legislativas de 1999)
- 2006: 61,67% (legislativas de 2005).
Há pelo menos outro factor tão central para as nossas preocupações que não pode ficar de lado: o facto de, nalgumas eleições, um dos candidatos do "bloco incumbente" ser o próprio Presidente.
Isso nem sempre acontece, claro. Em Portugal, há uma limitação de mandatos para um Presidente: dois. Logo, em 1986, 1996 e 2006, Eanes, Soares e Sampaio não foram candidatos, ao contrário do que sucedeu em 1980, 1991, e 2001, respectivamente. Há boas razões para que isto produza um efeito no desempenho eleitoral. As vantagens genéricas da "incumbência" são conhecidas: visibilidade, cobertura mediática "grátis", experiência e recursos materiais e organizativos. Isto, por sua vez, dissuade a entrada de bons adversários na contenda: Soares Carneiro, Basílio Horta ou Ferreira do Amaral, com todos os seus méritos ou deméritos, não são Freitas do Amaral, Cavaco Silva ou Mário Soares. E no caso português, é sabido que as expectativas em torno do desempenho da função presidencial têm levado a que (pelo menos desde Soares), nos seus primeiros mandatos, os presidentes tenham adoptado estilos de actuação mais consensuais e menos confrontacionais com os governos, aumentando o seu apelo a eleitores que não pertencem ao seu bloco e aumentando as possibilidades de reeleição. Logo, o nosso modelo tem uma segunda variável: o Presidente em exercício foi um dos candidatos do "bloco incumbente" na eleição? Respostas:
- 1980: Sim.
- 1986: Não.
- 1991: Sim.
- 1996: Não.
- 2001: Sim.
- 2006: Não.
Eis, em suma, o modelo: a votação nos candidatos do "bloco incumbente" numa eleição presidencial deverá ser uma função linear da votação nas legislativas anteriores dos partidos do "bloco incumbente" e do facto de o Presidente em exercício ser ou não um dos candidatos desse bloco. Quando estimamos este modelo através do Método dos Mínimos Quadrados (OLS, para os amigos), que resultados obtemos? Com a informação que já demos, facilmente alguns dos leitores poderão antecipar as nossas previsões. Aos outros pedimos que aguardem por 4ª feira.
Pedro Magalhães e Luís Aguiar-Conraria
A nossa opção vai ser a de tentar prever a votação dos candidatos do “bloco incumbente”, ou seja, a soma da votação de todos os candidatos oriundos de uma mesma “área política” - "esquerda" ou "direita" - que, no período imediatamente anterior a dada uma eleição, tenha controlado a Presidência. O que significa isto, na prática? Sete coisas: (1) Nas eleições de 1976, não há ainda Presidente eleito, pelo que esta observação não conta para a nossa análise. (2) Nas eleições de 1980, quem é o Presidente? Eanes, claro. Mas para a nossa análise, e para manter comparabilidade do longo da série, aquilo que nos interessa é o “bloco incumbente”, ou seja, a votação de todos os candidatos, incluindo Eanes, que se situam na área da esquerda. Temos assim Eanes e Otelo, totalizando 57,93% dos votos válidos. (3) Em 1986, o “bloco incumbente” é, claro - e novamente - a esquerda: Soares, Zenha e Pintasilgo: 53,69% dos votos, na 1ª volta. (4) Em 1991, Soares, Carvalhas e Carlos Marques: 85,84% dos votos. (5) Em 1996, apenas Sampaio: 53,91%. (6) Em 2001, Sampaio, António Abreu, Fernando Rosas e Garcia Pereira: 65,32% dos votos. (7) E em 2006, Alegre, Soares, Jerónimo de Sousa, Louçã e Garcia Pereira: 49,46% dos votos.
Em 2011, o que vamos prever é a soma dos votos de todos os candidatos do actual “bloco incumbente”, a direita. Em 2011 – como sucedeu em 1996 – esse bloco será representado por um único candidato, Cavaco Silva. Mas não tinha de ser assim. Esta nossa definição da variável dependente adapta-se a variadas circunstâncias e configurações de cada eleição, pelo menos até se deixar de pensar em política em termos de “esquerda” e “direita”, coisa que, apesar de tudo, não parece estar para muito breve.
A questão que se segue é quais poderão ser as variáveis independentes. Por outras palavras, que factores podem ajudar a prever a votação que o "bloco incumbente" teve no passado e a votação que esse bloco possa vir a ter no futuro? Há muitos factores que poderiam ser imaginados, mas com seis observações apenas, impõe-se máxima parcimónia. A nossa opção vai no sentido de valorizar dois aspectos fundamentais: o apoio partidário dos candidatos do bloco incumbente; e se esse bloco concorre com o Presidente em exercício.
As eleições presidenciais em regimes semi-presidenciais são muitas vezes vistas como um combate entre personalidades políticas, uma espécie de "concurso de popularidade" sem outros determinantes políticos relevantes. De facto, de acordo com alguns estudos sobre comportamento eleitoral, é isso que parece suceder nalguns países onde o chefe de estado é eleito mas não exerce poderes executivos. Em Portugal, análises com dados agregados sugerem uma "baixa fidelidade eleitoral [dos votantes] aos partidos com os quais simpatizam" em eleições presidenciais. Mas temos razões fortes para discordar deste diagnóstico. Um estudo sobre as presidenciais de 2006 mostra que a identificação partidária é um dos factores explicativos mais poderosos quando se trata de prever o comportamento dos eleitores a nível individual. Claro que a avaliação das qualidades dos candidatos também tem um papel muito importante, mas nisso, as eleições presidenciais não são especialmente diferentes das eleições legislativas. O que as distingue, de resto, é o facto de o comportamento de voto nas presidenciais não ser - ao contrário do que sucede nas legislativas - influenciado pela avaliação da actuação do governo. Mas a fidelidade partidária conta muito, o que, de resto, não surpreende: os partidos apoiam candidatos e envolvem-se fortemente nas campanhas. Seria estranho que os eleitores fossem indiferentes ao facto e que os resultados dos candidatos não fossem afectados pela dimensão da sua coligação partidária de apoio.
Logo, para nós, um dos factores preditivos do desempenho do "bloco incumbente" nas presidenciais deve ser procurado no apoio partidário desse bloco. Isso é importante por duas razões. Por um lado, o apoio eleitoral dos partidos da "esquerda" e da "direita" não foi imutável ao longo do tempo, e essas mudanças deverão ter consequências no desempenho eleitoral dos candidatos apoiados por esses partidos. Por outro lado, houve momentos na nossa história eleitoral em que candidatos de um determinado bloco obtiveram o apoio de partidos fora do bloco. O exemplo mais evidente é o de Soares em 1991, cuja candidatura foi apoiada pelo PSD. Não tomar isto em conta seria ignorar a evidência de que os mais de 70% de votos recolhidos por Soares e os mais de 80% dos votos recolhidos por todos os candidatos "da esquerda" (incluindo Soares) não aconteceram por acaso ou por mera "popularidade" dos candidatos.
Assim, julgamos que uma das variáveis independentes de um modelo que procure prever o desempenho eleitoral dos candidatos do "bloco incumbente" terá de remeter para alguma medida do apoio partidário por detrás desses candidatos. Idealmente, gostaríamos de uma medida que captasse esse apoio o mais próximo possível da eleição presidencial, utilizando, por exemplo, sondagens de intenções de voto nesses partidos. Mas essas sondagens não estão disponíveis para todo o período. Outra alternativa seria a de recorrer aos dados das eleições legislativas mais próximas de cada eleição presidencial. Contudo, nalguns casos, essas eleições mais próximas são posteriores à eleição presidencial, o que derrota o objectivo do exercício: prever resultados, na base de informação disponível antes das eleições presidenciais. Logo, a nossa opção foi a de usar como variável independente a soma dos votos dos partidos que apoiam os candidatos do "bloco incumbente" na eleição imediatamente anterior a cada presidencial. A saber:
- 1980: 49,54% de votos válidos (a soma dos partidos de esquerda nas legislativas de Outubro de 1980).
- 1986: 58,40% (legislativas de 1985).
- 1991: 94,47% (esquerda + PSD, legislativas de 1987).
- 1996: 55,30% (legislativas de 1995)
- 2001: 57,46% (legislativas de 1999)
- 2006: 61,67% (legislativas de 2005).
Há pelo menos outro factor tão central para as nossas preocupações que não pode ficar de lado: o facto de, nalgumas eleições, um dos candidatos do "bloco incumbente" ser o próprio Presidente.
Isso nem sempre acontece, claro. Em Portugal, há uma limitação de mandatos para um Presidente: dois. Logo, em 1986, 1996 e 2006, Eanes, Soares e Sampaio não foram candidatos, ao contrário do que sucedeu em 1980, 1991, e 2001, respectivamente. Há boas razões para que isto produza um efeito no desempenho eleitoral. As vantagens genéricas da "incumbência" são conhecidas: visibilidade, cobertura mediática "grátis", experiência e recursos materiais e organizativos. Isto, por sua vez, dissuade a entrada de bons adversários na contenda: Soares Carneiro, Basílio Horta ou Ferreira do Amaral, com todos os seus méritos ou deméritos, não são Freitas do Amaral, Cavaco Silva ou Mário Soares. E no caso português, é sabido que as expectativas em torno do desempenho da função presidencial têm levado a que (pelo menos desde Soares), nos seus primeiros mandatos, os presidentes tenham adoptado estilos de actuação mais consensuais e menos confrontacionais com os governos, aumentando o seu apelo a eleitores que não pertencem ao seu bloco e aumentando as possibilidades de reeleição. Logo, o nosso modelo tem uma segunda variável: o Presidente em exercício foi um dos candidatos do "bloco incumbente" na eleição? Respostas:
- 1980: Sim.
- 1986: Não.
- 1991: Sim.
- 1996: Não.
- 2001: Sim.
- 2006: Não.
Eis, em suma, o modelo: a votação nos candidatos do "bloco incumbente" numa eleição presidencial deverá ser uma função linear da votação nas legislativas anteriores dos partidos do "bloco incumbente" e do facto de o Presidente em exercício ser ou não um dos candidatos desse bloco. Quando estimamos este modelo através do Método dos Mínimos Quadrados (OLS, para os amigos), que resultados obtemos? Com a informação que já demos, facilmente alguns dos leitores poderão antecipar as nossas previsões. Aos outros pedimos que aguardem por 4ª feira.
Pedro Magalhães e Luís Aguiar-Conraria
sexta-feira, novembro 12, 2010
Sabe o que vai acontecer no dia 23 de Janeiro? Nós sim.
Em Julho de 2008, escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas usando os mesmos dados e publicado em Junho de 2009 na revista Electoral Studies, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%.
Como já explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos, porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões – e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época – não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30. A nossa questão tornou-se outra: por que razão a previsão baseada em "previsões" (e não na "realidade") esteve tão próxima dos resultados finais? Pode ter sido mero acaso. Mas pode ser que isto nos diga algo sobre como a realidade económica é percebida pelos eleitores (abrindo parêntesis, é curioso verificar, no recente inquérito dos Transatlantic Trends, como os portugueses foram, de todos os países inquiridos, aqueles onde a percepção de consequências concretas da crise era mais baixa em 2009 e onde mais subiu de 2009 para 2010). Vamos trabalhar nisto. Entretanto, obedecendo a um poderoso impulso suicidário, tivemos outra ideia: e que tal uma previsão dos resultados das presidenciais? Péssima ideia. Vamos a isso.
Péssima ideia porquê? Várias razões:
- Na democracia portuguesa, tivemos 7 (sete) eleições presidenciais. Se quisermos prever resultados eleitorais futuros na base do passado, podemos usar não mais de 7 (sete) observações. É muito, muito pouco.
- A maior parte dos modelos deste género procura prever a percentagem de votos do partido ou partidos no governo, ou seja, o desempenho do incumbente, no pressuposto de que a função de voto do governo é explicada por aspectos do seu desempenho (popularidade, crescimento económico, etc.). Mas o que fazer ao conceito de incumbente no caso do Presidente? É difícil saber:
- Primeiro, o Presidente não governa (há certamente quem gostasse, mas lamentamos informar que não).
- Segundo, quem é o incumbente em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbente estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha (e, quem sabe, Pintasilgo) no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora. Por outras palavras, como não há uma relação de identidade estável entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbente, no sentido estrito em que é usado habitualmente nos modelos de previsão - um partido, ou um candidato -, não faz sentido.
Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Em breve explicaremos o quê e como. O que daí resulta, podemos desde já, em parte, adiantar: Cavaco Silva deverá ganhar à primeira volta (um momento para que o caro leitor se possa tentar refazer do enorme choque que a frase anterior lhe causou). Mas com que percentagem de votos? Daqui a dias ficarão a saber.
Pedro Magalhães e Luís Aguiar-Conraria (publicado originalmente no Delito de Opinião)
segunda-feira, junho 14, 2010
Eurosondagem, 8 Jun., N=1025, Tel.
Intenções de voto após redistribuição de indecisos:
PSD: 34,9%
PS: 34,8%
CDS-PP: 10,1%
BE: 7,7%
CDU: 7,5%
Notícia aqui. Outros dados da sondagem:
1. Paulo Portas é o líder partidário em maior queda de popularidade;
2. Cavaco Silva cresce em popularidade e 67% acham que vai ser o próximo PR;
3. Avaliação da actuação concreta do PR da questão dos "casamentos gay" é maioritariamente positiva;
4. Mais de metade defendem fim da legislatura antes de 2013.
PSD: 34,9%
PS: 34,8%
CDS-PP: 10,1%
BE: 7,7%
CDU: 7,5%
Notícia aqui. Outros dados da sondagem:
1. Paulo Portas é o líder partidário em maior queda de popularidade;
2. Cavaco Silva cresce em popularidade e 67% acham que vai ser o próximo PR;
3. Avaliação da actuação concreta do PR da questão dos "casamentos gay" é maioritariamente positiva;
4. Mais de metade defendem fim da legislatura antes de 2013.
quarta-feira, maio 26, 2010
Austeridade e popularidade
Num artigo de ontem do FT, retomado hoje no Público, defende-se a ideia de que as medidas de austeridade aprovadas por alguns governos europeus não terão afectado a sua popularidade. Num certo sentido, a afirmação é insusceptível de ser confirmada ou infirmada. O "pacote de austeridade" italiano foi aprovado anteontem. O português, por exemplo, foi aprovado no dia 21. Hoje é dia 26. O Público cita os resultados de uma sondagem cujo trabalho de campo terminou no dia 18. Enough said.
Dito isto, olhemos para as sondagens dos últimos meses de agitação financeira e ameaças de bancarrota. Na Irlanda, o Fianna Fáil, partido de governo, tem hoje 23% de intenções de voto, o valor mais baixo desde Maio de 2009. De Janeiro até Abril, desceu 4 pontos percentuais, de 27 para 23%. Na Grécia, a popularidade do Primeiro Ministro desceu 15 pontos de Abril para Maio e as intenções de voto no PASOK desceram 4 pontos entre Março e Maio. Na Itália, a popularidade de Berlusconi atingiu o ponto mais baixo nos últimos dois anos. E em Portugal, como sabemos, das últimas três sondagens divulgadas, duas colocam, pela primeira vez em anos, o PSD à frente do PS nas intenções de voto.
Não sei bem do que falam o FT e o Público quando dizem que as medidas de austeridade não afectaram a popularidade dos governos, mas de sondagens não é certamente.
P.S.- De um comentário no Facebook: ""Em Espanha, o PSOE perdeu cerca de 8 pointos em seis meses (dos 42% para os 34%) mas o PP nao ganhou nada (continua nos 40%). Os beneficiados sao os pequenos partidos (IU e UPyD) e a abstencao. Veremos se o mesmo acontece em Portugal!"
Dito isto, olhemos para as sondagens dos últimos meses de agitação financeira e ameaças de bancarrota. Na Irlanda, o Fianna Fáil, partido de governo, tem hoje 23% de intenções de voto, o valor mais baixo desde Maio de 2009. De Janeiro até Abril, desceu 4 pontos percentuais, de 27 para 23%. Na Grécia, a popularidade do Primeiro Ministro desceu 15 pontos de Abril para Maio e as intenções de voto no PASOK desceram 4 pontos entre Março e Maio. Na Itália, a popularidade de Berlusconi atingiu o ponto mais baixo nos últimos dois anos. E em Portugal, como sabemos, das últimas três sondagens divulgadas, duas colocam, pela primeira vez em anos, o PSD à frente do PS nas intenções de voto.
Não sei bem do que falam o FT e o Público quando dizem que as medidas de austeridade não afectaram a popularidade dos governos, mas de sondagens não é certamente.
P.S.- De um comentário no Facebook: ""Em Espanha, o PSOE perdeu cerca de 8 pointos em seis meses (dos 42% para os 34%) mas o PP nao ganhou nada (continua nos 40%). Os beneficiados sao os pequenos partidos (IU e UPyD) e a abstencao. Veremos se o mesmo acontece em Portugal!"
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Eurosondagem, 4-9 Fevereiro, N=1025, tel.
Resultados aqui. A frase que retenho da notícia, e que diz muito sobre como os números nunca são apenas os números numa notícia sobre sondagens: "por caricato que possa parecer, a popularidade dos agentes políticos e judiciais mantém-se este mês intacta", escreve-se.
quinta-feira, setembro 10, 2009
Teaser
Quem quiser saber com antecedência quais vão ser os resultados as próximas legislativas tem três hipóteses:
1. Olhar para as sondagens. É a mais comum. Mas tem problemas. Por um lado, um dos fenómenos mais comuns quando se analisam as sondagens feitas antes de uma eleição é a existência de uma grande dispersão entre os resultados, mesmo tomando em conta os chamados "house effects", dispersão essa que só diminui à medida que nos aproximamos do próprio dia da eleição. Por outro lado, mesmo essa convergência entre as diferentes sondagens pode ocorrer em torno de valores que, por um enviesamento qualquer ou por fenómenos que ocorram entre o último dia de trabalho de campo e a eleição, acabam por ser diferentes do resultado eleitoral. Foi o que aconteceu, por exemplo, nas últimas europeias.
2. Uma segunda maneira de tentar prever um resultado de uma eleição é construir um modelo que contenha variáveis que se julga poderem contribuir para a explicação de um resultado. Podemos, por exemplo, presumir que a votação num determinado partido é uma função da situação da economia, do tempo em que se encontra no poder, da popularidade do primeiro-ministro, ou outra coisa qualquer que pareça teoricamente relevante e explicativo. Se testarmos esse modelo na base de informação passada e se ele parecer capaz de explicar bem a variância dos resultados e de "prever" bem cada uma das eleições passadas, basta aplicá-lo aos dados presentes e prever o futuro. Podemos também proceder a uma análise da série temporal e nela procurar, mesmo sem preocupações teóricas ou explicativas, padrões recorrentes que nos permitam inferir qual o valor dessa variável num momento posterior. No primeiro caso, estamos a usar um modelo econométrico, tal como os que são usados frequentemente nos Estados Unidos ou aquele que eu e o Luís Aguiar-Conraria fizemos para Portugal. No segundo caso, estamos a usar uma análise de séries temporais. E é cada vez mais comum combinar as duas abordagens, construindo modelos que, ao mesmo tempo, modelam factores explicativos dos resultados a par da sua ciclicidade. O problema, claro, é que, quando se trata de eleições, temos sempre poucas observações. Modelos construídos na base de poucas observações têm de ser parcimoniosos mas acabam, por isso mesmo, por estar frequentemente mal especificados. E ainda por cima, estão frequentemente limitados a prever o resultado de um dado partido (normalmente, o partido de governo).
3. A terceira abordagem consiste em usar os "mercados de previsões". Estes mercados trazem uma abordagem completamente diferente do problema. Agregam informação dispersa pelo eleitorado, dando maior peso a uma minoria de previsões particularmente informadas e introduzindo incentivos que mitigam "cheap talk" e "wishful thinking". Os Iowa Markets, por exemplo, são mercados electrónicos onde se compram e vendem contratos (com dinheiro real) que são desenhados de forma a representarem a probabilidade de vitória de um determinado candidato ou partido ou a percentagem de votos que virá a obter. Os contratos podem ser negociados em qualquer momento da sua vigência, fazendo com que as cotações representem, em cada momento, o consenso dos participantes sobre a melhor estimativa para o resultado eleitoral que o contrato representa. O desempenho dos IEM tem sido notável. Por exemplo, em 2004, em 33 das 34 semanas anteriores às eleições, o valor dos contratos para a percentagem de votos de George Bush esteve a menos de 1% de diferença daquele que veio a ser o resultado final. Desde Setembro de 2006, e quase ininterruptamente até ao dia da eleição presidencial americana em 2008, o IEM previa uma vitória do partido Democrata. Um estudo sobre todas as presidenciais desde 1988 mostra que, a longo-prazo, as cotações dos mercados electrónicos tendem a estar sempre mais perto dos resultados finais do que as sondagens realizadas nos mesmos períodos. E vários estudos mostram mesmo que não há diferenças significativas entre mercados "a dinheiro real" e mercados "fictícios" (play money), desde que, claro, a "reputação" jogue como incentivo nos segundos.
Pois é. Mas em Portugal não há mercados de previsões eleitorais. Ou haverá?
1. Olhar para as sondagens. É a mais comum. Mas tem problemas. Por um lado, um dos fenómenos mais comuns quando se analisam as sondagens feitas antes de uma eleição é a existência de uma grande dispersão entre os resultados, mesmo tomando em conta os chamados "house effects", dispersão essa que só diminui à medida que nos aproximamos do próprio dia da eleição. Por outro lado, mesmo essa convergência entre as diferentes sondagens pode ocorrer em torno de valores que, por um enviesamento qualquer ou por fenómenos que ocorram entre o último dia de trabalho de campo e a eleição, acabam por ser diferentes do resultado eleitoral. Foi o que aconteceu, por exemplo, nas últimas europeias.
2. Uma segunda maneira de tentar prever um resultado de uma eleição é construir um modelo que contenha variáveis que se julga poderem contribuir para a explicação de um resultado. Podemos, por exemplo, presumir que a votação num determinado partido é uma função da situação da economia, do tempo em que se encontra no poder, da popularidade do primeiro-ministro, ou outra coisa qualquer que pareça teoricamente relevante e explicativo. Se testarmos esse modelo na base de informação passada e se ele parecer capaz de explicar bem a variância dos resultados e de "prever" bem cada uma das eleições passadas, basta aplicá-lo aos dados presentes e prever o futuro. Podemos também proceder a uma análise da série temporal e nela procurar, mesmo sem preocupações teóricas ou explicativas, padrões recorrentes que nos permitam inferir qual o valor dessa variável num momento posterior. No primeiro caso, estamos a usar um modelo econométrico, tal como os que são usados frequentemente nos Estados Unidos ou aquele que eu e o Luís Aguiar-Conraria fizemos para Portugal. No segundo caso, estamos a usar uma análise de séries temporais. E é cada vez mais comum combinar as duas abordagens, construindo modelos que, ao mesmo tempo, modelam factores explicativos dos resultados a par da sua ciclicidade. O problema, claro, é que, quando se trata de eleições, temos sempre poucas observações. Modelos construídos na base de poucas observações têm de ser parcimoniosos mas acabam, por isso mesmo, por estar frequentemente mal especificados. E ainda por cima, estão frequentemente limitados a prever o resultado de um dado partido (normalmente, o partido de governo).
3. A terceira abordagem consiste em usar os "mercados de previsões". Estes mercados trazem uma abordagem completamente diferente do problema. Agregam informação dispersa pelo eleitorado, dando maior peso a uma minoria de previsões particularmente informadas e introduzindo incentivos que mitigam "cheap talk" e "wishful thinking". Os Iowa Markets, por exemplo, são mercados electrónicos onde se compram e vendem contratos (com dinheiro real) que são desenhados de forma a representarem a probabilidade de vitória de um determinado candidato ou partido ou a percentagem de votos que virá a obter. Os contratos podem ser negociados em qualquer momento da sua vigência, fazendo com que as cotações representem, em cada momento, o consenso dos participantes sobre a melhor estimativa para o resultado eleitoral que o contrato representa. O desempenho dos IEM tem sido notável. Por exemplo, em 2004, em 33 das 34 semanas anteriores às eleições, o valor dos contratos para a percentagem de votos de George Bush esteve a menos de 1% de diferença daquele que veio a ser o resultado final. Desde Setembro de 2006, e quase ininterruptamente até ao dia da eleição presidencial americana em 2008, o IEM previa uma vitória do partido Democrata. Um estudo sobre todas as presidenciais desde 1988 mostra que, a longo-prazo, as cotações dos mercados electrónicos tendem a estar sempre mais perto dos resultados finais do que as sondagens realizadas nos mesmos períodos. E vários estudos mostram mesmo que não há diferenças significativas entre mercados "a dinheiro real" e mercados "fictícios" (play money), desde que, claro, a "reputação" jogue como incentivo nos segundos.
Pois é. Mas em Portugal não há mercados de previsões eleitorais. Ou haverá?
quinta-feira, março 12, 2009
A popularidade de Sócrates
Eduardo Pitta comenta a peça do Público sobre a evolução da popularidade do PM, questionando-se sobre a fonte que os leva a dizer que Sócrates está em terreno negativo desde Maio de 2007.
Mesmo não tendo responsabilidades na peça, vamos ver se posso ajudar:
1. Os dados são da Marktest. Isso é mencionado no jornal. O gráfico do Público há-de ser muito parecido, por exemplo, com este que aqui publiquei, no que a Sócrates diz respeito, a não ser que me parece que o Público se limita a calcular o saldo "opiniões positivas" - "opiniões negativas", e eu corrijo esse saldo pelas não respostas.
2. É também verdade aquilo que Eduardo Pitta afirma: nos estudos da Eurosondagem divulgados no Expresso, na RR e na SIC, Sócrates está em terreno positivo.
3. De notar, contudo, que a comparação entre os resultados de um e outro instituto é complicada pelo facto de a Eurosondagem ter uma opção adicional de resposta: "nem boa nem má". Mas como venho mostrando aqui há muito tempo, isso não explica tudo. Os resultados da Eurosondagem para o PR exibem tendências muito semelhantes às da Marktest, mas não tanto no caso do PM. isto não é um juízo sobre quem "tem razão". Não faço ideia. É uma constatação de facto.
4. Eduardo Pitta já não tem razão quando diz que "a afirmação dos jornalistas contradiz todas — repito: todas — as sondagens encomendadas e divulgadas até hoje pelo próprio Público, pelo DN, pelo Correio da Manhã, pelo JN, pelo Expresso, pela RTP, pela SIC, pela TVI, pela Rádio Renascença, pela TSF, pela Visão, pela Sábado, etc."
4.1 Nas sondagens do CESOP/Católica, onde os líderes políticos são avaliados de outra forma - numa escala de 0 a 20 - Sócrates está, há algum tempo, em terreno negativo no que respeita à avaliação média dos eleitores (abaixo de 10 pontos). Em Janeiro de 2007, essa avaliação média era de 10,2 pontos. Em Maio de 2007, ainda 10,1. Mas em Outubro de 2007 já estava em 8,9, em Fevereiro de 2008 era de 9,3, em Julho de 2008 era 8,5, em Outubro de 2008 era 8,4, e em Dezembro passado 8,8. Logo, apesar dos indicadores serem diferentes, os resultados do CESOP (JN, RTP e Antena 1) são congruentes com os da Marktest, quer no momento da queda (após Maio de 2007) quer na ideia de uma recuperação ligeira após Outubro de 2008.
4.2 Os resultados do CESOP/Católica têm exibido bastantes semelhanças com os da Aximage, que usa o mesmo método: nota média de 0 a 20.Não tenho recolhido a série completa, mas para infirmar aquilo que Eduardo Pitta diz sobre as "outras sondagens" basta dizer que, em Dezembro passado, por exemplo, a média das avaliações de Sócrates na sondagem Aximage era 8,8 (tal como na sondagem da Católica).
5. Nada disto impede que a maioria dos eleitores tenha mais confiança em Sócrates como PM do que qualquer outro líder partidário, um dado que Eduardo Pitta também menciona e que é muito importante. Mas isso é outra questão.
Mesmo não tendo responsabilidades na peça, vamos ver se posso ajudar:
1. Os dados são da Marktest. Isso é mencionado no jornal. O gráfico do Público há-de ser muito parecido, por exemplo, com este que aqui publiquei, no que a Sócrates diz respeito, a não ser que me parece que o Público se limita a calcular o saldo "opiniões positivas" - "opiniões negativas", e eu corrijo esse saldo pelas não respostas.
2. É também verdade aquilo que Eduardo Pitta afirma: nos estudos da Eurosondagem divulgados no Expresso, na RR e na SIC, Sócrates está em terreno positivo.
3. De notar, contudo, que a comparação entre os resultados de um e outro instituto é complicada pelo facto de a Eurosondagem ter uma opção adicional de resposta: "nem boa nem má". Mas como venho mostrando aqui há muito tempo, isso não explica tudo. Os resultados da Eurosondagem para o PR exibem tendências muito semelhantes às da Marktest, mas não tanto no caso do PM. isto não é um juízo sobre quem "tem razão". Não faço ideia. É uma constatação de facto.
4. Eduardo Pitta já não tem razão quando diz que "a afirmação dos jornalistas contradiz todas — repito: todas — as sondagens encomendadas e divulgadas até hoje pelo próprio Público, pelo DN, pelo Correio da Manhã, pelo JN, pelo Expresso, pela RTP, pela SIC, pela TVI, pela Rádio Renascença, pela TSF, pela Visão, pela Sábado, etc."
4.1 Nas sondagens do CESOP/Católica, onde os líderes políticos são avaliados de outra forma - numa escala de 0 a 20 - Sócrates está, há algum tempo, em terreno negativo no que respeita à avaliação média dos eleitores (abaixo de 10 pontos). Em Janeiro de 2007, essa avaliação média era de 10,2 pontos. Em Maio de 2007, ainda 10,1. Mas em Outubro de 2007 já estava em 8,9, em Fevereiro de 2008 era de 9,3, em Julho de 2008 era 8,5, em Outubro de 2008 era 8,4, e em Dezembro passado 8,8. Logo, apesar dos indicadores serem diferentes, os resultados do CESOP (JN, RTP e Antena 1) são congruentes com os da Marktest, quer no momento da queda (após Maio de 2007) quer na ideia de uma recuperação ligeira após Outubro de 2008.
4.2 Os resultados do CESOP/Católica têm exibido bastantes semelhanças com os da Aximage, que usa o mesmo método: nota média de 0 a 20.Não tenho recolhido a série completa, mas para infirmar aquilo que Eduardo Pitta diz sobre as "outras sondagens" basta dizer que, em Dezembro passado, por exemplo, a média das avaliações de Sócrates na sondagem Aximage era 8,8 (tal como na sondagem da Católica).
5. Nada disto impede que a maioria dos eleitores tenha mais confiança em Sócrates como PM do que qualquer outro líder partidário, um dado que Eduardo Pitta também menciona e que é muito importante. Mas isso é outra questão.
segunda-feira, março 09, 2009
Bases de dados
No lado direito, passam a estar disponíveis duas folhas de Excel com os dados sobre as estimativas de intenção de voto e avaliações do Presidente, do Primeiro Ministro e do líder do PSD desde 2005. No que respeita às intenções de voto, procurei incluir todas as sondagens de que tive conhecimento, com os procedimentos, cautelas e omissões descritos aqui e aqui. No que respeita à popularidade, incluo apenas a Eurosondagem e a Marktest, por serem as séries mais longas.
Se detectarem erros, ficarei imensamente grato que mos apontem, para poder corrigir. Não garanto actualização tão regular para as bases como para os gráficos que vou apresentando, mas a verdade é que qualquer um de vós poderá, a partir de agora, usar estas bases para as actualizar. Se usarem estes dados para algum fim público, só peço que mencionem onde os encontraram.
Se detectarem erros, ficarei imensamente grato que mos apontem, para poder corrigir. Não garanto actualização tão regular para as bases como para os gráficos que vou apresentando, mas a verdade é que qualquer um de vós poderá, a partir de agora, usar estas bases para as actualizar. Se usarem estes dados para algum fim público, só peço que mencionem onde os encontraram.
quarta-feira, março 04, 2009
"Personalização"
Os dados completos da última sondagem da Marktest já podem ser encontrados aqui. Há um gráfico que não mostro há muito tempo, o da popularidade dos líderes. Mostro de seguida os dados da Marktest (porque os da Eurosondagem, tal como apresentados no Expresso, estão sistematicamente incompletos de há meses para cá e o site da SIC é uma confusão pegada onde nunca se encontra nada). Cada valor corresponde ao saldo entre opiniões positivas e negativas, corrigido pela percentagem de não respostas.

Isto para dizer duas coisas. Primeiro, que a vida não está fácil para ninguém, Presidente incluído. Segundo, que concordando genericamente com o que a Marina diz sobre a "falta de novidade" da "personalização da política", isto (o "Movimento Sócrates 2009") é capaz de ser um bocadinho exagerado à luz daquilo que o "líder" parece ter para oferecer em valor eleitoral acrescentado.

Isto para dizer duas coisas. Primeiro, que a vida não está fácil para ninguém, Presidente incluído. Segundo, que concordando genericamente com o que a Marina diz sobre a "falta de novidade" da "personalização da política", isto (o "Movimento Sócrates 2009") é capaz de ser um bocadinho exagerado à luz daquilo que o "líder" parece ter para oferecer em valor eleitoral acrescentado.
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Obama, popularidade e "bipartisanship"
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Ano eleitoral
De Março de 2005 até hoje, fui recolhendo as notícias sobre algumas sondagens que iam saindo. Até agora, tenho tratado apenas os dados respeitantes à popularidade dos líderes do PS e do PSD tal como recolhidos pela Marktest e pela Eurosondagem. Mas em ano de eleições, vale a pena voltar um pouco atrás e olhar para as intenções de voto.
Para que nos entendamos, as regras são as seguintes:
1. Os dados dizem respeito às estimativas de resultados eleitorais, ou seja, os resultados das sondagens de intenções de voto comparáveis com resultados de eleições. Em muitos casos, os órgãos de comunicação social apresentam esses resultados, quase sempre redistribuindo os indecisos proporcionalmente pelas restantes opções. No caso da Católica, há uma segunda pergunta colocada aos NS/NR sobre "inclinação de voto". Os que respondem são redistribuidos nessa base, os restantes proporcionalmente. Finalmente, quando nem os institutos nem os media procederam à redistribuição, eu próprio fi-lo, usando a opção de os redistribuir proporcionalmente pelas opções válidas (incluindo, para este efeito, uma categoria de "outros, brancos ou nulos"). Tudo relativamente banal.
2. Ao longo dos últimos três anos, julgo ter informação sobre todas as sondagens realizadas pela Marktest e pela Eurosondagem, para além das do CESOP/Católica, naturalmente. No total, são 44 da Eurosondagem, 39 da Marktest (que não coloca dados no site desde Novembro) e 9 do CESOP. Sabemos, contudo, que a Aximage e a Intercampus também têm conduzido sondagens. Uma pesquisa muito minuciosa na Net, nos sites da TVI e do Correio da Manhã, permitiu detectar 5 sondagens da Aximage e 3 da Intercampus. Há sem dúvida mais sondagens da Aximage, mas as notícias do Correio da Manhã na Net anteriores a Julho de 2008 apresentam apenas intenções de voto brutas no PS e no PSD. No caso da Intercampus, se houve sondagens antes de Junho de 2008, não as consegui encontrar. Se alguém tiver a informação em falta e quiser enviar-me, ficarei grato.
O que se pode fazer com esta informação? Bem, vamos ver aquilo que consigo espremer destes dados. Para começar, o mais simples e mais agnóstico: um plot dos resultados de todas as 100 sondagens de que disponho para cada partido. A cada conjunto de dados para cada partido ajusto uma linha, presumindo que as tendências não são lineares. Trata-se de uma linha de regressão local, dando maior peso às observações imediatamente adjacentes do que às outras. Podia fazer de conta que sei muito bem o que estou a fazer, mas não vale a pena: limito-me a recorrer a umas funções do SPSS que me fornecem estas curvas e a ter uma vaga ideia de como são estimadas: aqui. Mas com as devidas diferenças, estou a fazer o que estes senhores fazem regularmente. E tal como eles, esta abordagem é completamente agnóstica (o que não significa que seja superior a outras) : tomo em conta todas as sondagens de que disponho, ignoro o facto de que há dois institutos de sondagens muito sobrerepresentados e não tomo em conta que as estimativas têm precisões diferentes (baseando-se em dimensões amostrais que vão dos 600 aos 1354). Dito isto, aqui vai:

Este smoother é, digamos, medianamente sensível (Kernel: Epanechnikov, 35% points to fit). Posso torná-lo mais "insensível" (obrigando-o a tomar mais observações em consideração):
Para que nos entendamos, as regras são as seguintes:
1. Os dados dizem respeito às estimativas de resultados eleitorais, ou seja, os resultados das sondagens de intenções de voto comparáveis com resultados de eleições. Em muitos casos, os órgãos de comunicação social apresentam esses resultados, quase sempre redistribuindo os indecisos proporcionalmente pelas restantes opções. No caso da Católica, há uma segunda pergunta colocada aos NS/NR sobre "inclinação de voto". Os que respondem são redistribuidos nessa base, os restantes proporcionalmente. Finalmente, quando nem os institutos nem os media procederam à redistribuição, eu próprio fi-lo, usando a opção de os redistribuir proporcionalmente pelas opções válidas (incluindo, para este efeito, uma categoria de "outros, brancos ou nulos"). Tudo relativamente banal.
2. Ao longo dos últimos três anos, julgo ter informação sobre todas as sondagens realizadas pela Marktest e pela Eurosondagem, para além das do CESOP/Católica, naturalmente. No total, são 44 da Eurosondagem, 39 da Marktest (que não coloca dados no site desde Novembro) e 9 do CESOP. Sabemos, contudo, que a Aximage e a Intercampus também têm conduzido sondagens. Uma pesquisa muito minuciosa na Net, nos sites da TVI e do Correio da Manhã, permitiu detectar 5 sondagens da Aximage e 3 da Intercampus. Há sem dúvida mais sondagens da Aximage, mas as notícias do Correio da Manhã na Net anteriores a Julho de 2008 apresentam apenas intenções de voto brutas no PS e no PSD. No caso da Intercampus, se houve sondagens antes de Junho de 2008, não as consegui encontrar. Se alguém tiver a informação em falta e quiser enviar-me, ficarei grato.
O que se pode fazer com esta informação? Bem, vamos ver aquilo que consigo espremer destes dados. Para começar, o mais simples e mais agnóstico: um plot dos resultados de todas as 100 sondagens de que disponho para cada partido. A cada conjunto de dados para cada partido ajusto uma linha, presumindo que as tendências não são lineares. Trata-se de uma linha de regressão local, dando maior peso às observações imediatamente adjacentes do que às outras. Podia fazer de conta que sei muito bem o que estou a fazer, mas não vale a pena: limito-me a recorrer a umas funções do SPSS que me fornecem estas curvas e a ter uma vaga ideia de como são estimadas: aqui. Mas com as devidas diferenças, estou a fazer o que estes senhores fazem regularmente. E tal como eles, esta abordagem é completamente agnóstica (o que não significa que seja superior a outras) : tomo em conta todas as sondagens de que disponho, ignoro o facto de que há dois institutos de sondagens muito sobrerepresentados e não tomo em conta que as estimativas têm precisões diferentes (baseando-se em dimensões amostrais que vão dos 600 aos 1354). Dito isto, aqui vai:

Este smoother é, digamos, medianamente sensível (Kernel: Epanechnikov, 35% points to fit). Posso torná-lo mais "insensível" (obrigando-o a tomar mais observações em consideração):
Ou, pelo contrário, mais sensível às flutuações de cada momento:
Fiquemos com este último, para já. Adiciono de seguida umas linhas de referência verticais com algumas datas: as autárquicas de 2005; o caso "Universidade Independente"; a eleição de Menezes; e a eleição de Ferreira Leite:
Cliquem para ampliar, e digam lá se isto não tem a sua graça.
segunda-feira, novembro 24, 2008
Outlier: Dissonância cognitiva
Um dos conceitos mais importantes da Psicologia Social é o "princípio de redução de dissonância cognitiva". Quando confrontados com percepções e atitudes que não se ajustam entre si, os indivíduos procuram resolver esta contradição. Se têm uma atitude sobre algo, evitam expor-se a informação que a contrarie. E se expostos a essa informação, tendem a desvalorizá-la e a esquecê-la, de forma a não colocar em risco uma atitude pré-existente. As aplicações do conceito são múltiplas, até nos estudos eleitorais, especialmente no que diz respeito à convicção de muitos investigadores de que as predisposições que os eleitores já trazem consigo para as campanhas só muito dificilmente são mudadas por elas, pelos debates ou pela comunicação social.
Vem isto a propósito de um artigo de Rui Tavares hoje no Público (e dentro de dias, aqui). Nele, criticando a "falta de coragem democrática" com um dos principais problemas políticos de Portugal, recorre a um artigo que tinha escrito há meses sobre uma tomada de posição da SEDES, que Rui Tavares interpretou (e interpreta) como fazendo parte de uma "funesta tradição de gente que desconfia das eleições [ou da democracia])."
É muito curiosa esta leitura. A tomada de posição da SEDES, para aqueles que se recordam, analisava três áreas da governação: legislação laboral, saúde e educação. Depois de documentar várias medidas em cada uma dessas áreas que os signatários achavam dignas de aplauso, o documento mencionava sinais recentes e concretos de que o governo se preparava para mudar de políticas nalgumas dessas áreas para direcções mais incertas, e relacionava essa inflexão com a aproximação das eleições. E criticava essa inflexão, sugerindo inclusivamente que, ao contrário da interpretação habitual, a popularidade do governo poderia sofrer mais com essa inflexão do que com o caminho já percorrido: "exactamente no momento em que o Governo inicia uma aparente suspensão do processo das reformas, a opinião pública parece voltar-se contra ele. Coincidência ou causalidade, nunca saberemos, mas os sacrifícios feitos por todos não podem, nem devem, ser desperdiçados."
A leitura feita por Rui Tavares e muitos outros nessa altura - e, pelos vistos, ainda hoje - foi a de que tudo isto exprimia desconfiança em relação aos eleitores e à democracia. Mas foram raros os que fizeram a leitura que, à luz do que o documento realmente diz, seria a mais correcta: precisamente a leitura oposta. A de que os governos não necessitam de ter medo dos eleitores; de que a distribuição de benesses de última hora não enganaria muita gente; e de que muitos eleitores que estiveram dispostos a fazer sacrifícios não estariam muito dispostos a ver esses sacrifícios desperdiçados. Mas o "princípio de redução da dissonância cognitiva" impediu, pelos vistos, essa leitura.
Há provavelmente alguns atavismos anti-democráticos na cultura política portuguesa: uma visão muito negativa do conflito político e partidário; a ideia de que a democracia produz indecisão e ingovernabilidade; e até, talvez, a percepção de os eleitores não são gente de confiança (o meu artigo no Público de hoje, amanhã aqui, é em parte sobre isto). Mas há outro atavismo não menos curioso: a ideia de que todos os debates políticos se podem resumir a conflitos entre maioria e oposição e de que todas as vozes críticas são de “inimigos do governo”. A facilidade com que pessoas inteligentes se encaixam neste esquema é por vezes, mesmo com toda a Psicologia Social, surpreendente.
(Postado também aqui).
P.S. - O Rui já comentou este post aqui. Acrescento apenas que tenho de admitir que não é fácil recuperar a "leitura mais correcta" de um texto que em si mesmo permitia diversas leituras, porventura até para aqueles que o redigiram e subscreveram e, certamente, ainda mais para aqueles que o leram. Mas a leitura que predominou não era a única possível e nem era sequer, parece-me, a que mais se impunha no texto. O que se leu nele pareceu ser mais influenciado por aquilo que já se esperava e já se pensava sobre alguns dos seus subscritores do que por aquilo que era realmente lá dito. Esse é o único ponto deste post (o que não impede que o texto pudesse ter feito mais para o antecipar, claro, mas para isso é que, realmente, já vamos tarde).
Vem isto a propósito de um artigo de Rui Tavares hoje no Público (e dentro de dias, aqui). Nele, criticando a "falta de coragem democrática" com um dos principais problemas políticos de Portugal, recorre a um artigo que tinha escrito há meses sobre uma tomada de posição da SEDES, que Rui Tavares interpretou (e interpreta) como fazendo parte de uma "funesta tradição de gente que desconfia das eleições [ou da democracia])."
É muito curiosa esta leitura. A tomada de posição da SEDES, para aqueles que se recordam, analisava três áreas da governação: legislação laboral, saúde e educação. Depois de documentar várias medidas em cada uma dessas áreas que os signatários achavam dignas de aplauso, o documento mencionava sinais recentes e concretos de que o governo se preparava para mudar de políticas nalgumas dessas áreas para direcções mais incertas, e relacionava essa inflexão com a aproximação das eleições. E criticava essa inflexão, sugerindo inclusivamente que, ao contrário da interpretação habitual, a popularidade do governo poderia sofrer mais com essa inflexão do que com o caminho já percorrido: "exactamente no momento em que o Governo inicia uma aparente suspensão do processo das reformas, a opinião pública parece voltar-se contra ele. Coincidência ou causalidade, nunca saberemos, mas os sacrifícios feitos por todos não podem, nem devem, ser desperdiçados."
A leitura feita por Rui Tavares e muitos outros nessa altura - e, pelos vistos, ainda hoje - foi a de que tudo isto exprimia desconfiança em relação aos eleitores e à democracia. Mas foram raros os que fizeram a leitura que, à luz do que o documento realmente diz, seria a mais correcta: precisamente a leitura oposta. A de que os governos não necessitam de ter medo dos eleitores; de que a distribuição de benesses de última hora não enganaria muita gente; e de que muitos eleitores que estiveram dispostos a fazer sacrifícios não estariam muito dispostos a ver esses sacrifícios desperdiçados. Mas o "princípio de redução da dissonância cognitiva" impediu, pelos vistos, essa leitura.
Há provavelmente alguns atavismos anti-democráticos na cultura política portuguesa: uma visão muito negativa do conflito político e partidário; a ideia de que a democracia produz indecisão e ingovernabilidade; e até, talvez, a percepção de os eleitores não são gente de confiança (o meu artigo no Público de hoje, amanhã aqui, é em parte sobre isto). Mas há outro atavismo não menos curioso: a ideia de que todos os debates políticos se podem resumir a conflitos entre maioria e oposição e de que todas as vozes críticas são de “inimigos do governo”. A facilidade com que pessoas inteligentes se encaixam neste esquema é por vezes, mesmo com toda a Psicologia Social, surpreendente.
(Postado também aqui).
P.S. - O Rui já comentou este post aqui. Acrescento apenas que tenho de admitir que não é fácil recuperar a "leitura mais correcta" de um texto que em si mesmo permitia diversas leituras, porventura até para aqueles que o redigiram e subscreveram e, certamente, ainda mais para aqueles que o leram. Mas a leitura que predominou não era a única possível e nem era sequer, parece-me, a que mais se impunha no texto. O que se leu nele pareceu ser mais influenciado por aquilo que já se esperava e já se pensava sobre alguns dos seus subscritores do que por aquilo que era realmente lá dito. Esse é o único ponto deste post (o que não impede que o texto pudesse ter feito mais para o antecipar, claro, mas para isso é que, realmente, já vamos tarde).
quarta-feira, outubro 29, 2008
Ainda sobre "forecasting", a questão racial e as sondagens
Recebi hoje a PS, e voltei a olhar para os modelos de forecasting de que tenho falado várias vezes. E há uma coisa muito interessante de que não me tinha dado conta. O modelo de Lewis-Beck e Tien prevê, como eu dizia aqui, 43% dos votos para McCain na base de quatro variáveis: popularidade de Bush em Julho; crescimento real do PNB do último trimestre de 2007 até ao 2º trimestre de 2008; se o incumbent concorre ou não; e o crescimentos dos empregos.
Simplesmente, Lewis-Beck e Tien defendem que "Obama will lose a chunk of votes because he is black". Logo, estimam factores de correcção para a votação inicialmente prevista para Obama - 57%. Esses factores de correcção resultam de duas fontes:
1. Um estudo de 2007 sobre a prediposição para votar num presidente negro;
2. A comparação entre as votações, estado a estado, de Kerry e Obama nas primárias.
E concluem que Obama terá 50,1%. Ora aqui vamos ter uma boa oportunidade para perceber se Lewis-Beck e Tien deviam ter mexido no modelo original ou não por causa da questão "racial".
Simplesmente, Lewis-Beck e Tien defendem que "Obama will lose a chunk of votes because he is black". Logo, estimam factores de correcção para a votação inicialmente prevista para Obama - 57%. Esses factores de correcção resultam de duas fontes:
1. Um estudo de 2007 sobre a prediposição para votar num presidente negro;
2. A comparação entre as votações, estado a estado, de Kerry e Obama nas primárias.
E concluem que Obama terá 50,1%. Ora aqui vamos ter uma boa oportunidade para perceber se Lewis-Beck e Tien deviam ter mexido no modelo original ou não por causa da questão "racial".
terça-feira, setembro 02, 2008
Previsões de modelos econométricos
Já aqui mencionei o último número do International Journal of Forecasting, sobre previsões das eleições americanas. No máximo, os artigos apresentavam modelos e previsões condicionais. Mas com as eleições a aproximarem-se e com dados da economia e de popularidade com um lag relativamente pequeno a ficarem disponíveis, aparecem as primeiras previsões concretas. Alguns dos papers foram apresentados na semana passada na reunião da American Political Science Association:
1. Lewis-Back e Tien. Paper e previsão para McCain: 43.2% do voto popular bipartidário.
2. Sidman e Mak. Paper e previsão para McCain: 243 votos no colégio eleitoral (derrota).
3. Cuzan e Bundrik. Paper e previsão para McCain: 48% do voto popular bipartidário.
4. Abramovitz. Paper e previsão para McCain: 44.9% do voto popular bipartidário.
5. Erikson e Wlezien. Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
6. Klarner. Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
7. Hibbs. Paper e previsão para McCain: 48.2% do voto popular bipartidário.
8. Fair. Previsão para McCain: 48.5% do voto popular bipartidário.
Obama, supostamente, ganha em todos os modelos.
1. Lewis-Back e Tien. Paper e previsão para McCain: 43.2% do voto popular bipartidário.
2. Sidman e Mak. Paper e previsão para McCain: 243 votos no colégio eleitoral (derrota).
3. Cuzan e Bundrik. Paper e previsão para McCain: 48% do voto popular bipartidário.
4. Abramovitz. Paper e previsão para McCain: 44.9% do voto popular bipartidário.
5. Erikson e Wlezien. Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
6. Klarner. Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
7. Hibbs. Paper e previsão para McCain: 48.2% do voto popular bipartidário.
8. Fair. Previsão para McCain: 48.5% do voto popular bipartidário.
Obama, supostamente, ganha em todos os modelos.
sexta-feira, julho 04, 2008
segunda-feira, junho 30, 2008
Previsões para as presidenciais americanas
O último número do International Journal of Forecasting é uma delícia para viciados nas eleições americanas. Vários artigos discutem o desempenho passado de modelos de previsão dos resultados das eleições, das sondagens e dos mercados electrónicos.
(1) weighted-average growth of per capita real personal disposable income over the term, and (2) cumulative US military fatalities owing to unprovoked, hostile deployments of American armed forces in foreign conflicts.

Em 2004, o primeiro modelo a ser divulgado, logo em Janeiro, foi o de Helmut Norpoth. Foi o primeiro modelo porque se baseia em variáveis que podem ser medidas relativamente cedo: os resultados das primárias em New Hampshire, os resultados das duas últimas eleições presidenciais e uma variável medindo identificação partidária (baseada nos resultados das eleições para o Congresso). Aplicado a todas as eleições desde 1912, o modelo prevê correctamente o vencedor em todas as eleições menos uma (1960). Para 2004, previa que Bush iria derrotar Kerry por 54,7% contra 45,3%. Na verdade, o resultado foi 50,7% contra 48,3%. Mas o modelo bateu, de longe, como instrumento de previsão, quer as sondagens quer as cotações dos mercados electrónicos da mesma altura, ou seja, Janeiro de 2004. E o que diz o modelo desta vez para Obama-McCain em 2008? 50,1% contra 49,9%. Um dos problemas disto, claro, está aqui:
O modelo de Douglas Hibbs tem duas variáveis principais:
(1) weighted-average growth of per capita real personal disposable income over the term, and (2) cumulative US military fatalities owing to unprovoked, hostile deployments of American armed forces in foreign conflicts.
Em 2004, previu correctamente a vitória de Bush, errando por apenas 1,8%. A previsão para 2008:
Those political-economic fundamentals imply an expected Republican two-party vote share centered on 48.2%. Barring unforeseen political shocks favoring the Republican candidate (presumptively John McCain), the Democratic standard bearer (presumptively Barack Obama) ought to win the 2008 presidential election by a margin in the neighborhood of 3.6 percentage points.
Ray Fair, com um modelo que inclui crescimento, inflação e nº de períodos trimestrais com crescimento económico elevado prevê 47,8% para os Republicanos. A página deixa-nos brincar com os valores das variáveis independentes e obter novas previsões.
Estes modelos costumam ter versões finais em Julho/Agosto, dado que utilizam dados da economia ou da popularidade do incumbent que só nesta altura estão disponíveis. Mas neste último número do IJF - com artigos escritos entre Julho e Novembro de 2007 - há já outras "previsões condicionais", baseadas em valores hipotéticos dos dados da popularidade e do crescimento. Alan Abramovitz prevê que uma vitória do Partido Republicano é impossível com os actuais valores da popularidade de Bush. Ela só começaria a tornar-se possível com um saldo de popularidade acima dos 10% em Junho de 2008. Neste momento, existe um saldo negativo com valores entre os -30 e os -50%. Michael Lewis-Beck e Charles Tien prevêm, condicionalmente, uma votação para o Partido Republicano entre 41.4 e 48.5%, dependendo de utilização de crescimento económico ou criação de empregos como variáveis independentes.
E depois há, claro, algo completamente diferente: The Keys to the White House, por Alan Lichtman, um historiador da American University. O método de Lichtman é um índice, de natureza qualitativa, que usa simplesmente respostas "sim"/"não" a 13 perguntas básicas. Quanto mais respostas "sim", maior a probabilidade de que o partido no poder renove a vitória. O método prevê correctamente o resultado de todas as eleições desde 1860 (mas ver aqui como a frase anterior não faz muito sentido). Eis as "chaves":
Destas perguntas, Lichtman respondia negativamente, em Novembro de 2007, a oito delas (e com Obama talvez tenha de responder a nove, ou seja, à última). Resposta: Democratas ganham. E como isto é convertível num modelo de previsão de percentagem de voto - nº de keys como variável independente do voto no incumbent - Lichtman prevê 46% para os Republicanos.
A última coisa a tomar em consideração, neste momento, é que, em 2004, a partir de Maio, os valores do Iowa Prediction Market estabilizou numa percentagem para Bush que, comparada com o que se veio a verificar em Novembro, exibia um desvio sempre igual ou inferior a um ponto percentual. E qual tem sido o valor para vote shares?

Em suma: ninguém, com excepção de Norpoth em Janeiro passado, prevê outra coisa que não uma vitória dos Democratas nesta eleição. Vou actualizando isto com as novas previsões à medida que forem saindo.
sexta-feira, junho 27, 2008
Novo ciclo
Com a última sondagem da Marktest, ficamos com uma primeira aproximação à avaliação que os portugueses fazem da actuação de Manuela Ferreira Leite. 43% não acham coisa alguma, o que não lhes fica mal, tendo em conta que, sensu stricto, não há nada para avaliar. Mas outros recorrem às suas predisposições ideológicas e partidárias, à imagem que dela formaram no passado recente ou distante ou até, quem sabe, à comparação com Sócrates, para chegar a uma conclusão. A conclusão a que a maioria desses chega é negativa, mas menos negativa que em relação a Menezes no período anterior ou Sócrates no momento actual. Mas tudo pode mudar à medida que mais opiniões se forem cristalizando. Para a Menezes, a mudança posterior foi para pior. Em relação a MFL, quem sabe?*

O gráfico que se segue (cliquem nele que verão melhor) é apenas para os dados da Marktest. Usa-se um saldo de % de avaliações positivas - % avaliações negativas, ponderado pelas não respostas. As linhas verticais marcam as últimas sondagens realizadas antes de momentos relevantes: eleição de Cavaco Silva; caso Independente; eleição de Menezes; eleição de Ferreira Leite.

*Ou para usar a terminologia de uma abordagem que aprendi há pouco tempo (olá LA-C): trará a eleição de MFL uma mudança de estrutura à serie de popularidade do líder do PSD, tal como aquela que, aparentemente, ocorre no caso de Sócrates após o caso Independente?
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