domingo, junho 07, 2009

Rescaldo

Os resultados ainda são provisórios, mas é muito improvável que qualquer mudança tenha qualquer espécie de importância deste ponto de vista. Avancemos, então, para o rescaldo das sondagens nestas eleições:

1. Serviram as sondagens como um bom elemento de previsão para os resultados? Bem, é evidente que não, mas vejamos a coisa em mais detalhe. O que sempre se faz aqui neste blogue é calcular o chamado "erro 3 de Mosteller", ou seja, simplesmente a média dos desvios absolutos entre os resultados eleitorais e das últimas sondagens para os principais partidos:



Em média, as sondagens diferenciaram-se dos resultados eleitorais de cada um dos cinco maiores partidos em 2,5 pontos no caso da Marktest, 2,8 nos casos do CESOP e da Eurosondagem e 3 pontos no caso da Aximage. A "média das médias" é 2,8 pontos. As diferenças entre o desempenho das diferentes sondagens não é muito relevante: são uniformemente distantes dos resultados finais, em especial em comparação com o desempenho geralmente muito superior nas eleições nacionais imediatamente anteriores, como as Presidenciais ou as Legislativas. Mas a Marktest, para além de ter o menor erro médio, tem uma clara vantagem em relação às outras num aspecto crucial: foi a única a, correctamente, colocar o PSD à frente do PS. Parabéns à Marktest.

2. Nas sondagens à boca das urnas - que medem comportamentos em vez de intenções - o desempenho, claro, foi superior, quando comparamos os resultados com os pontos centrais dos intervalos fornecidos:



O erro médio da Intercampus foi 0,5, do CESOP 0,9, e da Eurosondagem 1,1 pontos. A Intercampus foi quem esteve globalmente mais perto.

3. Vai correr alguma tinta sobre a falta de "credibilidade" das sondagens pré-eleitorais, e é inteiramente justo que se aborde a coisa assim à luz destes resultados. Mas note-se que isto não é novidade em relação às Europeias. Em 2004, "a média dos erros absolutos médios" cometidos pelas quatro últimas sondagens pré-eleitorais foi de 2,5 pontos, pouco menor que em 2009. E em geral, como tinha recordado aqui no dia 5, este é o padrão geral na comparação entre as sondagens feitas para as Europeias com o que se passa nas Legislativas desde 1991. Grande candidato para explicar o problema? A abstenção, evidentemente. Mas isto não isenta quem faz sondagens de responsabilidades: infelizmente, há uma frase de um artigo que escrevi em 2005 que continua a ser verdade:

"However, large errors remain the norm in polls pertaining to European Parliament elections, suggesting a shared inability of Portuguese polling organizations in dealing appropriately with the problems caused by low turnout."

Fica-me a fraca consolação de não ter de lhe mudar uma vírgula.

4. E tendo em conta tudo o que se passou na campanha no que respeita a sondagens, especialmente, desta vez, em relação ao CDS-PP e (não só, mas especialmente) ao CESOP, já sei o que me espera nos próximos dias. "Eu bem te disse" será o mínimo dos mínimos. Pois. Mas notem:

- continua a ser verdade que o CDS-PP não é invariavelmente subestimado, nas sondagens pré-eleitorais, em todo o tipo de eleições e, nalguns casos, essa subestimação (ou sobrestimação) é estatisticamente irrelevante.
- a hipótese de que o eleitor do CDS-PP é mais atreito a ocultar o seu sentido de voto, várias vezes aventada para explicar os casos em que as sondagens pré-eleitorais têm resultados inferiores aos das eleições, colide com a capacidade das sondagens à boca das urnas para captarem o voto no CDS-PP, como se pode ver acima. Se ocultaram numa, porque não ocultaram nas outras?

Dito isto, obviamente, o que se passou desta vez tem peso, e não só por ser mais notório à luz da controvérsia ocorrida: é que a subestimação do CDS-PP, desta vez, foi muito maior do que tinha ocorrido antes quando o CDS-PP foi subestimado no passado (mais do que nas legislativas de 2002, certamente, e até mais do que nas Europeias de 1999, se a memória não me falha aqui). As sondagens pré-eleitorais subestimaram o CDS-PP entre 5,1 (Marktest) e 2,3 (Eurosondagem) pontos. Basta ver a olho para perceber que é muito ponto para um partido com menos de 10% dos votos. Por mero acaso é que isto não aconteceu. Mas porquê? Dificuldade em captar a tendência (ascendente) do CDS-PP em campanha? A tal "ocultação" (mas como compaginá-la com os resultados da boca das urnas)? Problemas de amostragem (mas como é que sondagens telefónicas, presenciais, aleatórias e por quotas partilham o mesmo problema)? Mais hipóteses (não conspirativas)? Se as têm, seria interessante discuti-las.

Obrigado pela atenção, e até breve.
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