sábado, julho 09, 2005

Suportar o terrorismo

Após o atentado de Londres, a punditry nacional e internacional regressa ao tema da "democratização" do Médio Oriente. Contudo, Vasco Pulido Valente coloca também a questão contrária: sobreviverá a democracia ocidental ao terrorismo?

"Os sinais não prometem. Na América, há hoje, como em tempo de guerra, leis de excepção e Guantánamo não deixou de existir. Em Inglaterra, a Câmara dos Lordes recusou recentemente a Blair algumas medidas drásticas de segurança, como o direito de fixar residência e passar buscas por ordem policial. (...) Resta saber se não chegou ainda o ponto de ruptura: se alguma vez chegar, e esperamos que não. Em teoria, no entanto, nada impede que chegue e ninguém sabe qual seria a reacção da Espanha, da França, da Inglaterra ou da América a um desastre igual ao 11 de Setembro. Pensar que somos 'civilizados' demais para voltar aos crimes do passado é uma ilusão que partilhamos com os criminosos do passado" (Público, 9 Julho 2005, sem link).

Na blogosfera, o assunto tem merecido a atenção de um dos blogues que leio regularmente, o Insurgente. Contudo, FCG - que certamente pensará que o Prevention of Terrorism Act foi inventado em 2005 - discute os riscos das restrições arbitrárias aos direitos cívicos como eles fossem, pasme-se, um resultado da "fúria reguladora do New Labour". Por vezes, o contorcionismo intelectual necessário para mantêr a aparência de alguma coerência ideológica é suficiente para partirmos o pescoço. Já LA aponta outras e mais diversificadas "fúrias reguladoras". Mas ambos parecem partir do princípio não explicitado que essas fúrias se fazem contra a vontade dos cidadãos, os "corajosos" e "fleumáticos" britânicos. Pois atenção ao seguinte:

ICM Research, 23-24 Abril 2004, N=510, Telefónica.
Here are some things people have suggested should be done to counter the risks of terrorism. Others oppose them as they say they would endanger the rights of everyone. Bearing these two things in mind, for each one please say whether you would suppose or oppose the measure to counter terrorism?
Indefinite detention of foreign terrorist suspects. Support: 62%.
Police powers to stop and search anyone at any time. Support:69%.
Detain all immigrants and asylum seekers until they can be assessed as potential terror threats. Support: 66%

Yougov, 24-25 Fevereiro 2005, N=1970.
Do you agree or disagree with the following statements?
It may be necessary sometimes to take action against people who have not yet committed any offence, but about whom the intelligence services have evidence that they are planning an act of terrorism. Agree: 75%

It is sometimes necessary to restrict the civil liberties of suspected terrorists even though there is not enough usable evidence to charge and convict them. Agree: 58%

E ainda na sondagem Yougov:
If a situation arose in which the Government HAD to choose between taking steps to prevent a terrorist act and defending civil liberties, which should the Government do?
Protect national security 61%
Defend civil liberties: 28%

E como não, se a questão for colocada nesses termos? Quem é capaz de colocar manutenção dos "direitos cívicos" antes da sua vida e a dos seus? Na verdade, apesar de muitos lamentarem a "fraqueza" das democracias ocidentais, acomodadas à prosperidade e à segurança e impreparadas para lidar com o terrorismo, essa "fraqueza" tem sido a sua força: é precisamente devido ao facto de uma grande parte dos seus eleitorados ter sido socializada no contexto de relativa paz e prosperidade que a segurança física e material foi relegada para segundo plano em favor de outras preocupações mais "imateriais", tais como os "direitos" e a "democracia". E, mais importante, é também isso que tem permitido a emergência de eleitorados cada vez mais instruídos e sofisticados, que aprenderam a desconfiar de governos que lhes dizem que têm de escolher entre a prevenção do terrorismo e a defesa dos direitos cívicos.

Mas por quanto tempo durará esta resistência, numa "guerra sem fim"? Dois terços dos americanos, por exemplo, parecem já ter capitulado:

Gallup, Jun. 24-26, N=1006, Telefónica.
Based on what you have read or heard, do you think the Patriot Act goes too far, is about right, or does not go far enough in restricting people’s civil liberties in order to fight terrorism?
Too far: 30%
About right: 41%
Not far enough: 21%
No opinion: 8%
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