quinta-feira, novembro 24, 2005

Ponto de situação

1. Se bem que haja sondagens onde a existência de uma maioria absoluta de intenções válidas de voto para Cavaco Silva é incerta (Eurosondagem), todas as estimativas de todas as sondagens apontam para essa maioria absoluta. Ou seja, a probabilidade de que essa maioria absoluta seja fruto de erro amostral é cada vez mais diminuta. Pode mais, sim, ser fruto de um qualquer enviesamento comum a todos os estudos, mas não há sinais sobre que enviesamento poderá ser esse. Convém esperar pelas primeiras sondagens presenciais para discutir melhor esta questão.

2. Cinco das seis sondagens apontam para mais intenções de voto em Alegre do que em Soares, pelo que o raciocínio no ponto anterior se pode aplicar: é cada vez mais provável que, no universo, haja mais eleitores de Alegre do que de Soares. Contudo, ao contrário com o que sucede com a votação de Cavaco Silva, tem havido uma grande instabilidade nas estimativas atribuídas a Mário Soares, que oscilaram entre 11% e 18%, ou seja, uma amplitude de nada menos que 7 pontos (mais de metade que a sua estimativa mais baixa). É certo que as estimativas de Cavaco oscilam entre 52,6 e 62 (9,4 pontos), mas do ponto de vista relativo (em relação ao total de intenções de voto) essa dispersão é muito menos significativa do que se passa com Soares. Logo, creio que temos menos razões para estarmos seguros da existência actual de uma vantagem clara de Alegre sobre Soares do que sobre a existência actual de uma vantagem clara das intenções de voto em Cavaco em relação à barreira dos 50%.

3. Quanto a Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, quem disser que sabe qual deles têm actualmente mais apoio eleitoral não saberá o que está a dizer.

4. Na sondagem da Católica, alguns resultados interessantes:

- Eleitorado do PS é o mais dividido, não só entre Soares e Alegre, mas também (mais grave para as perspectivas da esquerda) entre Cavaco e a abstenção;

- Cavaco mobiliza o eleitorado sem simpatias partidárias com maior eficácia do que qualquer outro candidato;

- Entre que tencionam votar mas se dizem "indecisos" sobre em quem votar, o eleitorado do PS encontra-se ligeiramente sobrerepresentado, o que sugere algum (modesto) potencial de crescimento para os candidatos à esquerda de Cavaco. Contudo, o eleitorado do PS encontra-se fortemente sobrerepresentado entre os dizem ter a certeza que não irão votar. Aqui, o potential de crescimento será praticamente nulo, sabendo nós que as sondagens subestimam (em vez de sobreestimarem) os abstencionistas;

- Perante cenários hipotéticos de uma 2ª volta, Cavaco tem acima de 60% (tal como em todas as sondagens até agora) de intenções válidas de voto. Mas Alegre sai-se, neste momento e perante o cenário de uma 2ª volta, melhor do que Soares. Porque Soares tem muito maiores dificuldades em atrair numa 2ª volta os votantes dos restantes candidatos da esquerda, perdendo muitos para a abstenção;

- Mais de metade dos que se declaram eleitores de Manuel Alegre na 1ª volta acham que Soares é o candidato que pode obter melhores resultados perante Cavaco Silva. Leram bem? Repito: mais de metade dos que se declaram eleitores de Manuel Alegre na 1ª volta acham que Soares é o candidato que pode obter melhores resultados perante Cavaco Silva. Logo, o seu voto não decorre (se é que alguma vez decorreu) de uma decisão estratégica sobre "quem pode derrotar Cavaco Silva", mas sim da expressão de uma posição política independente do desfecho concreto da eleição.

Em resumo, na base destes dados, apesar de a maioria dos portugueses achar que é Mário Soares quem tem melhor hipóteses de contrariar a vitória de Cavaco Silva, a situação é-lhe muito pouco propícia. À parte a possibilidade de roubar eleitores ao próprio Cavaco Silva, que não pode ser excluída (Cavaco parte de um ponto tão alto que dificilmente poderá subir, apenas descer), o potencial de crescimento do eleitorado de Soares à esquerda parece depender em grande medida da captação de pessoas que, a esta hora, já serão dificilmente convertíveis:

- os que já dizem à partida que não tencionam votar, especialmente o eleitorado desmobilizado do PS;

- e os eleitores de Manuel Alegre, maioritariamente compostos por pessoas que declaram tencionar votar em Alegre apesar de acharem que Soares é quem tem hipóteses de obter um melhor resultado contra Cavaco Silva, o que mostra que a argumentação "estratégica" - o voto em Soares como única maneira de derrotar Cavaco - não deverá ser suficiente para os converter.
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