segunda-feira, novembro 21, 2005

Revisitar as sondagens presidenciais

Sugere-me um leitor que revisite as sondagens para as presidenciais de 1986 e 1996.

Tenho hesitado em fazê-lo (ao contrário do que fiz aqui, aqui, aqui ou aqui para as legislativas). O que se passa é que me falta informação metodológica importante, especialmente em relação aos resultados das últimas sondagens publicadas por cada órgão de comunicação social. Para além disso, baseio-me nalguns casos em fontes indirectas, ou seja, artigos de jornal sobre as sondagens publicados após as eleições, especialmente em 1996 (quando nem sequer estava no país). Tudo isto retira alguma utilidade ao exercício.

Contudo, se o exercício é inútil quanto às diferenças metodológicas entre as sondagens e suas consequências, é particularmente útil no que respeita às diferenças entre eleições e entre a regulação da actividade das sondagens que prevalecia à data dessas eleições. Já veremos como.

Junto portanto os resultados de 1996 e 2001. Eleições antes dessas é inútil, dado que só durante 1991 se tornou possível divulgar resultados uma semana antes das eleições. Claro que toda a gente se lembra das sondagens de 1986. Mas o que eventualmente muitos não recordam é que as sondagens que foram conhecidas foram publicadas um mês antes das eleições, ou seja, antes da campanha começar! Qualquer comparação delas com os resultados eleitorais é inútil do ponto de vista da apreciação da qualidade da informação prestada à opinião pública (se bem que não do ponto de vista das dinâmicas de campanha).

Em 1996, foram estes os últimos resultados divulgados antes das eleições:



Seguem-se as projecções divulgadas na noite eleitoral em 1996 (não lhes chamo sondagens à boca das urnas porque, em rigor, não o eram, dada a proibição de fazer inquéritos à saída dos locais de voto; os institutos usavam soluções mais ou menos criativas para contornar o problema):



Em 2001, as pré-eleitorais:



E as (agora sim) sondagens à boca das urnas:



As lacunas na informação metodológica impedem grandes reflexões sobre estas sondagens, e recordo mais uma vez que, especialmente em relação a 1996, alguma da informação que recolhi foi indirecta, o que levanta a possibilidade de imprecisões. Mas é possível dizer-se rapidamente o seguinte:

1. Mais abstenção, maior distância entre sondagens pré-eleitorais e resultados eleitorais: restam-me poucas dúvidas que o severo encurtamento da vantagem de Jorge Sampaio em 2001, na comparação entre sondagens e resultados, se deveu em parte a elevadíssima abstenção e, especialmente, a desmobilização dos eleitores do actual Presidente;

2. A diferença que fazem as sondagens à boca das urnas: a precisão das "projecções" na noite eleitoral em 2001 foi muito grande e, na altura, muito maior do que a atingida em qualquer eleição anterior, presidential ou outra. É impossível não relacionar isto com a mudança da legislação em 2000, que permitiu a realização de verdadeiras sondagens à boca das urnas.
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