segunda-feira, outubro 16, 2006

655.000 (2)

O Insurgente vem publicando vários posts onde se discute a credibilidade do estudo publicado na Lancet onde estima a mortalidade causada pela invasão do Iraque. Alguns deles são laterais , incluindo, por exemplo, cartoons, ou uma gravação vídeo onde o editor da revista de pronuncia contra a invasão. Tudo bem, que não se pode estar sempre a falar a sério.

Mas há um post muito interessante, onde se transcreve um e-mail de um "médico com algumas noções de epidemiologia", Fernando Gomes da Costa, que coloca várias dúvidas sobre o estudo. Longe de mim colocar-me na posição dos autores, que se defenderão como puderem. Mas quando a defesa já está no próprio texto do estudo, o melhor mesmo é lê-lo com atenção, como aliás eu já sugeria da primeira vez que falei no assunto. As perguntas de Fernando Gomes da Costa:

1- Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?

Segundo os autores, os clusters foram escolhidos aleatoriamente, sendo excluídos apenas três:
" On two occasions, miscommunication resulted in clusters not being visited in Muthanna and Dahuk, and instead being included in other Governorates. In Wassit, insecurity caused the team to choose the next nearest population area, in accordance with the study protocol. Later it was discovered that this second site was actually across the boundary in Baghdad Governorate."

Foi assim apenas excluído um cluster por razões potencialmente correlacionadas com as mencionadas na pergunta do e-mail, e dois outros por falta de comunicação. Consequências?

"The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths."


2- Os inquiridos contabilizaram (em meados de 2006) o número de familiares mortos desde os 14 meses anteriores à invasão até aos 14 seguintes. Foram mortes confirmadas por atestados em 90% dos casos dos 87% solicitados, o que dá 79% de confirmações. Temos assim que em 600.000 há portanto 126.000 casos não confirmados.

Este problema é mencionado no estudo:

"Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable."


3- As mortes não relatadas não puderam ser, obviamente, controladas por atestados. Isto quer dizer que nada nos garante não haver uma minimização do número de mortes antes da invasão, o que poderá distorcer grandemente o método de comparação "antes e depois".

Cito do estudo:

"Our estimate of the pre-invasion crude or all-cause mortality rate is in close agreement with other sources"

Essas fontes são:

CIA 2003 Factbook entry for Iraqhttp://permanent.access.gpo.gov/lps35389/2003/iz.html(accessed Oct 2, 2006).
US Agency for International Health and US Census Bureau. Global population profile: 2002. Washington, DC: US Census Bureau, 2004:.

Podem estar também erradas, claro. Mas o fundamental é que a estimativa da mortalidade pré-invasão que resulta do inquérito coincide com resultados obtidos independentemente do inquérito.


4- Uma das mais óbvias desonestidades do “estudo” tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em “paz”) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números.

Lamento, mas não há comparação com "os 14 meses a seguir". O que há é comparação da taxa de mortalidade de um período de tempo antes da invasão (14 meses) com um período de tempo posterior, a saber:

"We measured deaths from January, 2002, to July, 2006, which included the period of the 2004 survey." ~

Para além disso, a noção de que "na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno" terá sido a fase com maior mortalidade não parece resistir aos dados:

"By mid-year 2006, 91 violent deaths had occurred in 6 months, compared with 27 post-invasion in 2003 and 77 in 2004, and 105 for 2005, suggesting that violence has escalated substantially."

A mortalidade aumentou (em vez de diminuir) após os tais "14 meses"


5- Finalmente, todos sabemos que sempre que alguém morre vítima da violência bélica no Iraque isso nos é diligentemente comunicado pela generalidade da imprensa. Seria muito fácil essa mesma imprensa (ou algum curioso) dedicar-se a pegar nos jornais desde a altura da invasão e somar as mortes (só violentas e dos iraquianos, atenção). Mas vamos supor, já atirando muito (mas muito) por alto, que desde Março de 2003 morreram em média diariamente 100 pessoas vítimas de atentados, bombas, (ou torturas dos americanos, pois claro!). Há muitos dias, como hoje, em que nada vem relatado, mas fica por conta dos outros...Teríamos assim, desde Março de 2003: 100(mortes/dia)x365(dias/ano)x3,5(3 anos e meio) = 127.750 mortes! Um bocadinho longe das 600.000...Como diz a outra: há coisas fantásticas, não há? Já agora, fazendo as contas com os números do “estudo” da Lancet: 600.000 (mortes)/(3,5x365 dias) = 469 mortes por dia, ininterruptamente desde 2003! A ser assim, e lendo a nossa imparcialíssima imprensa, até o Avante está vendido ao imperialismo americano!

Aqui não há muito a dizer: o autor do e-mail acredita na imprensa mas "não acredita" nos números. Eu também gostava de não acreditar. Mas não me parece que isso chegue.

Já agora, fica aqui um excerto do estudo onde os autores - com honestidade - listam muitos dos seus possíveis enviesamentos, alguns no sentido da sobrestimação e outros no sentido da subestimação da mortalidade:

All surveys have potential for error and bias. The extreme insecurity during this survey could have introduced bias by restricting the size of teams, the number of supervisors, and the length of time that could be prudently spent in all locations, which in turn affected the size and nature of questionnaires. Further, calling back to households not available on the initial visit was felt to be too dangerous. Families, especially in households with combatants killed, could have hidden deaths. Under-reporting of infant deaths is a wide-spread concern in surveys of this type. Entire households could have been killed, leading to a survivor bias. The population data used for cluster selection were at least 2 years old, and if populations subsequently migrated from areas of high mortality to those with low mortality, the sample might have over-represented the high-mortality areas. The miscommunication that resulted in no clusters being interviewed in Duhuk and Muthanna resulted in our assuming that no excess deaths occurred in those provinces (with 5% of the population), which probably resulted in an underestimate of total deaths. Families could have reported deaths that did not occur, although this seems unlikely, since most reported deaths could be corroborated with a certificate. However, certificates might not be issued for young children, and in some places death certificates had stopped being issued; our 92% confirmation rate was therefore deemed to be reasonable.
Large-scale migration out of Iraq could affect our death estimates by decreasing population size. Out-migration could introduce inaccuracies if such a process took place predominantly in households with either high or low violent death history. Internal population movement would be less likely to affect results appreciably. However, the number of individual households with in-migration was much the same as those with out-migration in our survey.
Although interviewers used a robust process for identifying clusters, the potential exists for interviewers to be drawn to especially affected houses through conscious or unconscious processes. Although evidence of this bias does not exist, its potential cannot be dismissed.
Furthermore, families might have misclassified information about the circumstances of death. Deaths could have been over or under-attributed to coalition forces on a consistent basis. The numbers of non-violent deaths were low, thus, estimation of trends with confidence was difficult. Not sampling two of the Governorates could have underestimated the total number of deaths, although these areas were generally known as low-violence Governorates. Finally, the sex of individuals who had died might not have been accurately reported by households. Female deaths could have been under-reported, or there might have been discomfort felt in reporting certain male deaths.
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