sexta-feira, janeiro 11, 2008

Dois e-mails

"Os seus posts sobre o falhanço das sondagens sobre as últimas primárias levantou-me uma dúvida. Não poderemos estar perante um caso em que as sondagens anunciadas possam ter tido uma influência sobre o comportamento dos eleitores, quer em termos de escolha como de abstenção?"

Num post antigo, escrevi sobre os efeitos das sondagens no comportamento, mencionando o estudo mais exaustivo sobre a matéria que conheço. Os resultados são inconclusivos. Creio que este caso ilustra novamente as dificuldades associadas a estimar o efeito das sondagens. Parece mais ou menos evidente que, para entre os eleitores que se decidiram mais tarde, Clinton teve vantagem. Mas como isolar os efeitos da imensidão de factores se escondem por detrás desse "mais tarde"? As sondagens que davam um bounce para Obama, produzindo uma reacção de mobilização dos eleitores de Clinton e/ou desmobilização dos eleitores de Obama? Talvez. Mas as lágrimas de Hillary? Talvez também. O último debate? Por que não? Os estudos que recorrem ao método experimental, que se dão num contexto de randomização de grupos (permitindo portanto isolar de forma clara o efeito das sondagens de outros efeitos) sugerem que elas produzem efeitos significativos. O problema, claro, é a validade externa desses estudos. Não creio que consigamos ter tão cedo uma resposta para estas questões.


"Gostaria de deixar duas notas, que podem ser relevantes sobre este tema: 1) O poder predictivo dos information markets, não é avaliado em função de resultados absolutos. A avaliação do interesse deste tipo de mecanismo, deve ser efectuada por comparação com outros métodos A questão relevante é determinar se, em cada momento do tempo, existe outra fonte de informação com maior poder predictivo.

A comparação entre os information markets e as sondagens tradicionais, foi objecto de estudos extensos e detalhados, em que as conclusões tendem a favorecer os Information Markets. Será ainda mais assim, se incorporarmos os custos de obtenção de informação e o seu atraso.

2) A audiência: em nenhum destes textos se refere que os Mercados apresentados são de âmbito nacional, enquanto estas "eleições" (podemos chamar isto?) são locais. Sendo assim, a ausência de informação adicional de uma larga maioria de participantes e o Teorema do Júri de Condorcet, são bons principios de explicação para as, supostas, más previsões."



Dois comentários:

1. Não creio que seja verdade que as conclusões dos estudos existentes tendam a favorecer invariavelmente uma maior capacidade preditiva dos prediction markets. Num post anterior encontra já um que chega à conclusão contrária. Ou melhor: à conclusão de que uma visão realista da forma como uma sondagem pode servir como elemento de previsão revela a ausência de superioridade dos prediction markets (eles próprios altamente influenciados, como se sabe e se viu, pelas sondagens). E mesmo os defensores dos prediction markets detectam vários enviesamentos e avançam dúvidas. Ver aqui, por exemplo.

2. Concordo com o problema que resulta da assimetria de informação entre a minoria dos participantes com informação "local" e a maioria dos participantes sem ela, sem dúvida.

Finalmente: não intepretem o meu post anterior sobre o tema como uma condenação geral dos prediction markets. Por forças ou fraquezas que tenham, alguma informação útil hão-de dar. E não é um caso isolado, como NH, que serve para chegar a veredictos. Agora que NH serviu para evidenciar fraquezas, lá isso serviu.
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