sábado, janeiro 22, 2005

A "descida" do PS

Com a adição da sondagem da Aximage, a nossa lista de sondagens publicadas fica assim:



Desta vez, não há poll of polls IV. A razão é simples. Da última vez que uma sondagem da Aximage foi divulgada sem ser apresentada a percentagem de indecisos, presumi aqui, para efeitos de comparabilidade com outras sondagens e com os resultados eleitorais, que essa percentagem de indecisos era igual à da sondagem anterior. Contudo, desta vez, o texto diz explicitamente que a percentagem de indecisos diminuiu, mas não sabemos para quanto. Logo, é impossível apresentar os resultados com os indecisos redistribuidos.

Isto implica também que algumas frases no artigo que acompanha a sondagem têm de ser vistas como incorrectas ou, pelo menos, como potencialmente induzindo os leitores em erro. Isso sucede quando se diz, sobre os 7,1% obtidos pelo CDS nesta sondagem, que se trata de "um resultado que coloca o CDS-PP muito próximo dos oito por cento obtidos nas eleições legislativas de 2002"; ou quando, sobre o resultado da CDU (6,2%), se diz ser "um resultado muito semelhante ao obtido nas eleições legislativas de 2002". Quando se escreve assim, está-se a presumir que os resultados da sondagem são comparáveis como resultados eleitorais. Não são. Ao valor de 7,1% do CDS na sondagem corresponde um valor superior em termos de estimativa de intenção de voto. Só não sabemos quão superior, porque a Aximage e o Correio da Manhã não fornecem a informação necessária sobre a percentagem de indecisos.

Dito isto, um dos temas que começa a emergir é o da "descida" do PS. "PS mais longe da maioria", era o destaque de ontem no Correio da Manhã. Na SIC Notícias, Mário Bettencourt Resendes glosava o mesmo tema, falando de "uma descida nas últimas sondagens" para depois parafrasear Mark Twain dizendo que "as notícias da morte política de Santana Lopes são exageradas". E até aqui se sugere a mesma ideia.

Isto é curioso, por diversas razões. Até pode ser verdade que a intenção de voto no PS esteja a diminuir, seja por desmobilização de anteriores apoiantes, seja pela mobilização de anteriores indecisos ou abstencionistas a favor de outros partidos, ou até (menos provável) por transferências do PS para outros partidos. Contudo, a sondagem da Aximage, apesar das aparências, não autoriza essa interpretação. Como se vê no gráfico seguinte, onde as linhas intermitentes marcam as fronteiras superior e inferior das intenções de voto no PS na última sondagem quando se toma em conta a margem de erro amostral com um grau de confiança de 95% (pressupondo que a amostra foi puramente aleatória, o que, ainda por cima, não foi verdade), estes 42,8% podem mesmo significar, na realidade, um aumento em relação as sondagens anteriores (tal como podem significar estabilidade ou até uma descida mais abrupta do que aquela que é directamente visível). A verdade é que, com apenas uma sondagem a indicar uma descida (a não ser que me tenha passado alguma ao lado), a ideia que há uma "descida" do PS carece de qualquer sustentação empírica.



Isto leva-nos para aspectos e discussões mais interessantes do que as ligadas às características técnicas das sondagens ou à sua capacidade para fazer boas inferências descritivas. Esta prevalecente interpretação da sondagem da Aximage como indicando uma descida do PS (tal como a interpretação da anterior sondagem da Eurosondagem sobre a "subida" do BE) corresponde não àquilo que ela diz mas àquilo que os comentadores e analistas acham que está de facto a acontecer (e, nalguns casos, àquilo que desejam que aconteça). Não posso ter a certeza, mas palpita-me que, se a sondagem dissesse o contrário, seria provavelmente desvalorizada, porque não estaria a confirmar aquilo que os observadores da vida política captam com as suas "antenas". E o mais curioso é que, mesmo que acabe por se verificar uma descida do PS, nunca saberemos se ela foi real ou se os votos do PS estavam sobreestimados nas sondagens feitas até agora, ou mesmo se o facto de essa descida ser assim anunciada contribuiu para mudar as expectativas dos eleitores e, logo, as suas intenções de voto (uma self-fulfilling prophecy)

Logo, há muito para discutir sobre as sondagens para além dos seus aspectos técnicos. Mais do que um instrumento de medida da opinião pública, elas devem ser vistas como um fenómeno comunicacional, cujos "números" - seja porque contêm grandes margens de incerteza, seja porque podem ser interpretados de várias formas (algumas erróneas), seja ainda porque diferem de sondagem para sondagem - carecem frequentemente de um sentido objectivo. Elas têm apenas o sentido subjectivo que o discurso dos media lhes quiser dar. E é muito provável que isto tenha consequências reais nos comportamentos.

Mas não me interpretem mal: por acaso, eu também acho que o PS está a descer. Em parte, porque os valores que lhe têm sido atribuídos desde Dezembro têm estado, provavelmente, sobreestimados. E também porque, confesso, Sócrates me faz lembrar Durão Barroso em 2002: "sabe" que vai ganhar, mas desconhece "quanto" poder vai ter, não sabe bem o que vai fazer com ele e aquilo que sabe julga não poder contar a ninguém. E todos nos lembramos como foi a campanha de 2002: uma sondagem da Aximage em Dezembro de 2001 dava nada mais nada menos que 16% de vantagem do PSD sobre o PS...

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