segunda-feira, fevereiro 14, 2005

1991, o ano louco das sondagens

Tinha prometido uma revisitação às sondagens sobre eleições legislativas realizadas na última década e meia, para ver se aprendemos alguma coisa com o passado. Começo com 1991. A razão é simples: só a partir desta altura se pode começar a pedir às sondagens que apresentem resultados que se aproximem minimamente daqueles que vêm a ser os resultados eleitorais. E isto porque só em Julho de 1991, com a aprovação da lei 31/91, se tornou possível publicar resultados até uma semana antes das eleições, dado que, até lá, o embargo era de 30 dias.

O que sucedeu quanto às últimas sondagens publicadas antes das eleições? Vejam por vocês próprios (nas sondagens onde os indecisos não eram redistribuídos, essa redistribuição fê-se proporcionalmente pelas opções válidas):



A dimensão da catástrofe é difícil de descrever. É certo que todos "acertaram" no vencedor. Mas acertar no vencedor é coisa que um extraterrestre chegado a Portugal no dia 5 de Outubro podia fazer com uma moeda com 50% de probabilidade de acertar, ou, se quisesse 100%, lendo os jornais de Setembro de 1991. De resto, em média, as sondagens subestimaram a margem de vitória do PSD sobre o PS em 12%, enquanto que o desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens para os quatro principais partidos e o resultado que vieram a ter foi de quase 4% (acima de qualquer concebível margem de erro amostral). A distância entre a data de trabalho de campo e a data das eleições foi, nalguns casos, considerável. Mas o mesmo sucedeu em 1995 e 1999, com resultados, como veremos, bastante distintos.

O que se passou? Um ano depois, uma catástrofe semelhante nas eleições no Reino Unido gerou uma enorme bibliografia. Aqui, nada. A hipótese benévola é um "late surge" do PSD, que as sondagens não puderam captar. Mas é muito duvidoso que isso explique tudo. Amostras maiores geraram, de facto, resultados menos imprecisos. O uso das quotas não parece ter ajudado. E não foi por terem feito sondagens face-a-face que os institutos conseguiram medir melhor as intenções de voto. A abstenção à última da hora terá afectado mais as intenções de voto no PS e no CDS do que no PSD ou no PCP? Talvez. Mas em bom rigor, who knows? Agora, é demasiado tarde para saber.

P.S. Suspeito que algum ressentimento do PSD em relação às sondagens tem as suas origens aqui, com alguma razão, diga-se. Mas como veremos, as coisas mudaram.
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