quinta-feira, junho 09, 2011

Sobre as sondagens

Paulo Morais escreve sobre as sondagens no Blasfémias. Quatro comentários:

1. As empresas, pela voz dos seus responsáveis, já frequentemente assinalam que intenções de voto não são previsões. Lamentavelmente, essa argumentação é um bocado descredibilizada quando vêm depois a público reclamar sem mais que as suas sondagens foram as que mais se aproximaram dos resultados eleitorais como se isso tivesse um significado mais especial do que aquilo que tem.

2. Quando Paulo Morais diz que as intenções de voto no PSD foram subavaliadas e as do PS e do CDS inflacionadas, incorre, involuntariamente, no mesmo lapso. Como sabe Paulo Morais que elas terão sido inflacionadas e subavaliadas? Por comparação com os resultados eleitorais? Mas afinal...

3. De resto, mesmo que queiramos incorrer nesse primeiro lapso, há um segundo lapso no texto de Paulo Morais: as intenções de voto captadas no CDS estiveram completamente alinhadas com os que vieram a ser os seus resultados.

4. Não é para mim evidente a relação entre a pequena dimensão de alguns círculos e a estimação de intenções de voto a nível nacional, mas se calhar percebi mal.

Com tudo isto não quero dizer:

- que não faça sentido comparar intenções de voto com resultados. Faz sentido, desde que tenhamos em conta  e tentemos estimar tudo aquilo que pode fazer com que umas sejam diferentes das outras e que, como sucede em todos os estudos observacionais (ao contrário dos experimentais), compreendamos que nunca temos a certeza de conseguir "tomar em conta" todos esses factores.

- que tudo esteja bem no tratamento dos indecisos. Podia-se talvez fazer melhor.

- que tudo esteja bem - e este para mim é um dos pontos mais importantes  - na estimação do que é um "votante provável". Mas vai haver sempre limites. Nos Estados Unidos, ou em países como a Suécia, quem faz sondagens sabe se uma pessoa que declara uma intenção de voto e a intenção de votar votou realmente nas últimas eleições, pela consulta dos registos eleitorais. Em Portugal isso não é possível. E enquanto não for, vai ser difícil ter bons modelos.

- que grandes semelhanças entre as sondagens entre si, em cada momento e nos seus movimentos, não possam explicações menos benévolas. Já falei disso aqui muitas vezes.

E como isto é um país pequeno, e como muita gente olha para a realidade a preto e branco, e como discordâncias são frequentemente interpretadas em termos pessoais, acrescento que conheço bem Paulo Morais e tenho muita, mas mesmo muita, simpatia por ele.
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