quarta-feira, maio 25, 2011

Indecisos

1. Quantos são? 28%? 25,1%? 25,4%? Ou 8,3%? Ou 33,3%? Qualquer discussão sobre este assunto tem de começar por reconhecer que o conceito de "indecisos" captado por estas sondagens terá quase certamente de ser diferente. Indecisos sobre se vão votar mas decididos sobre o partido? Decididos que vão votar mas indecisos sobre como? As duas coisas? Isto mais não os que não querem responder à questão sobre se vão votar? Ou os que não querem responder à questão sobre em que partido votariam? Ambas? O quê?

2. Presumindo que as empresas medem isto de forma internamente consistente, há mais qualquer coisa que podemos dizer. A 10 de Setembro de 2009, a duas semanas das eleições, a Católica captava que 19% do eleitores manifestavam tencionar votar mas diziam não saber em quem. A uma semana das eleições, esse valor tinha baixado para 17%. Agora, a duas semanas das eleições, estamos com 28%. Mas notem como as coisas se complicam quando olhamos para a Marktest: em 2009, na última sondagem antes de eleições, a Marktest captava 37% de indecisos. Na mais recente, 33,3%. Mas na última sondagem de Setembro de 2009 apenas 2,6% de pessoas diziam que não iriam votar!  Vou ser franco: acho que na Marktest há muita abstenção misturada com indecisão e vou-me arriscar a dizer que nestas eleições parece haver uma percentagem superior de pessoas que se sente indecisa em comparação com 2009.

3. Porque estas coisas mudam mesmo de eleição para eleição. Segundo os dados dos inquéritos pós-eleitorais do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugueses, eis as percentagens de eleitores em relação ao total (incluindo abstencionistas) que afirmam ter decidido em quem votar na última semana antes da eleição:

2002: 9%
2005: 17%
2009: 10%

4. Como tratar os indecisos numa sondagem de intenção de voto?
- Primeiro seria importante garantir que estamos a falar da mesma coisa. Tal como os dados iniciais sugerem, não estamos.
- Segundo, seria importante garantir que os dados brutos estão sempre disponíveis: distribuir os indecisos desta ou daquele forma é importante para que os resultados das sondagens sejam comparáveis entre si e comparáveis com os resultados de eleições, mas os leitores devem ter acesso aos dados antes de qualquer distribuição. Hoje em dia, pelo menos através dos depósitos na ERC, essa informação existe.
- Terceiro: não há consenso sobre a melhor maneira de lidar com a questão. Nos Estados Unidos, a grande discussão é a de saber se os indecisos devem ser distribuidos igualmente ou proporcionalmente pelos dois principais partidos, ou ainda se se deve usar uma pergunta de "inclinação de voto". Há estratégias mais complicadas, mas tendem a ser usadas mais por analistas dos resultados do que pelas empresas, precisamente por serem complicadas e difíceis de transmitir. E quando são usadas pelas empresas - "o challenger rule" da Gallup, por exemplo, que supõe que os indecisos se inclinam mais para o partido menos votado - isso baseia-se em conhecimento de um contexto completamente diferente do nosso. Em Portugal, naturalmente, ninguém redistribui indecisos igualmente pelos partidos: isso não faz sentido num sistema multipartidário. O que se faz é ou tratá-los como abstencionistas (o que significa distribui-los proporcionalmente pelas opções válidas) ou usar uma pergunta de inclinação de voto (Católica).

5. O que não se faz: nenhuma empresa redistribui na base de resultados eleitorais passados; nenhuma empresa pondera os seus resultados na base de recordações de voto em eleições anteriores. Digo isto porque vi a confusão surgir quer em comentários a este blogue quer num debate ontem na SIC Notícias.
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