sexta-feira, abril 01, 2005

Mais autárquicas (actualizado)

Recebi hoje o seguinte e-mail, enviado por Susana Isabel Silva, directora técnica do IPOM (Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado):

Longe está o período de campanha das eleições autárquicas, mas a polémica já começa a ser lançada em torno das sondagens políticas realizadas a nível autárquico. Será isto ainda um sintoma do que se verificou durante a campanha eleitoral para a Assembleia da República? Ou serão simplesmente dúvidas de quem não tem a correcta informação sobre os dados publicados pela imprensa regional?

Parece-me, em meu entender, ou melhor, quero acreditar, que se trata da segunda hipótese. Digo isto, porque analisando o exemplo enunciado no blog no passado dia 28 de Março, o e-mail comentado apresenta algumas incorrecções face à ficha técnica publicada pelo jornal O Comércio do Porto:

- A sondagem a que o autor do e-mail se refere é constituída por 598 indivíduos inquiridos e não por “cerca de 700”;
- Não existe qualquer referência, nem na ficha técnica nem na peça escrita pela jornalista, ao número de respostas validadas, onde desconheço a proveniência do valor 500.

Quanto à representatividade das sub-amostras obtidas pela desagregação a nível de freguesia, concordo que uma freguesia onde foram inquiridas 8 pessoas não mereça destaque de análise face às restantes, dada a sua reduzida dimensão. Mas isso é um problema comum da análise efectuada pela maior parte dos meios de comunicação social. Parece-me abusivo questionar a credibilidade técnico-científica das sondagens realizadas em função das interpretações que delas se fazem.


Susana Isabel Silva
Directora Técnica
IPOM – Instituto de Pesquisa de Opinião e Mercado


Ora bem. Pela minha parte, queria dizer que nunca cheguei a ver a notícia onde eram publicados os dados da sondagem mencionada no e-mail que citei aqui. Limitei-me a responder a uma pergunta que me foi colocada que, recordo, era a seguinte:

"Parece-lhe lícito desagregar à freguesia uma sondagem concelhia com cerca de 700 inquiridos por telefone e cerca de 500 respostas validadas?"

Em face do exemplo fornecido (uma freguesia com 8 inquiridos), respondi que não, pelas razões aqui expostas, e recordo também que concentrei a minha análise não na "credibilidade técnico-científica das sondagens realizadas" mas sim, exclusivamente, nas "interpretações que delas se fazem" (terminei o meu post dizendo: "Um erro muito comum nas análises das sondagens feitas na imprensa").

Ou seja, não questionei a credibilidade do trabalho feito: não podia, porque não o conhecia, ainda não o conheço (só agora fiquei a saber quem o conduziu). E também não creio que o mail que recebi tivesse como intenção fazê-lo (dado que a dúvida expressa por quem o enviou se reportava à desagregação dos dados e não a qualquer aspecto técnico ou metodológico da realização do estudo).

Entretanto, estou certo que os responsáveis do IPOM já terão feito notar ao jornalista do Comércio do Porto que o facto de ter andado entretido a calcular e apresentar percentagens por freguesia quando tem sub-amostras de 8 inquiridos é algo que não só "não merece destaque de análise" mas também não faz qualquer espécie de sentido do ponto de vista estatístico...

Actualização: do IPOM, chega-me a informação de que, de facto, contactaram o responsável pela notícia. E mais me dizem que:

Penso que uma forma de evitar este tipo de situações passará pela formação pedagógica dos jornalistas, por parte das empresas de estudos de mercado e sondagens, no sentido de os elucidar em relação às análises e interpretações que poderão ser feitas a partir dos dados fornecidos pelos mesmos. Tentamos ao máximo, no nosso caso, ter sempre este tipo de procedimento junto dos nossos clientes.

100% de acordo.
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