sexta-feira, outubro 07, 2005

Síntese

Antes de mais, convém dizer que os quadros nos posts anteriores estão longe de esgotar o que foi feito nas últimas semanas em sondagens autárquicas. Mas a verdade é que Lisboa, Porto, Oeiras, Sintra e Faro são os casos que concentraram as atenções dos principais órgãos de comunicação social e nos quais, por isso mesmo, tendemos a encontrar mais sondagens (que, no entanto, são muito poucas em comparação com o que sucede noutros países). Já agora, importa também dizer que o facto de muitas destas sondagens indicarem "empates" resulta do facto de se ter decidido fazer mais sondagens, precisamente. nos concelhos onde se supunha maior indefinição. Ninguém fez sondagens em Gaia, apesar de ser um dos maiores concelhos do país...

O que temos, então?

1. Faro: apesar de haver uma sondagem que coloca PSD e PS par a par, essa sondagem foi conduzida há mais tempo que duas outras que convergem completamente numa vitória folgada do PS (Católica, primeiro, e Intercampus, uma semana depois). A não ser que a metodologia de inquirição usada por ambas esteja a produzir enviesamento (sendo que, para mim, o inverso é muito mais provável), Vitorino está de saída.

2. Sintra: aqui também se verifica um fenómeno semelhante a Faro. Fica a ideia de que, independentemente da data do trabalho de campo, os "incumbents" se saem pior em sondagens que utilizam simulação de voto em urna. Quanto ao que poderá vir a ser o resultado final, quem sabe? Por um lado, apesar de Seara e Soares estarem praticamente empatados em cada sondagem tomada individualmente, é improvável que a liderança de Seara nas três sondagens se possa dever a mera coincidência. Por outro lado, todas as sondagens terminaram o seu trabalho de campo pelo menos quatro (quando não quase 20) dias antes das eleições.

3. Oeiras: aqui as coisas complicam-se. A distinção telefónica/presencial não serve para nada, dado que a maior e menor vantagens de Isaltino são obtidas com sondagens muito semelhantes do ponto de vista da sua metodologia. O tempo? Talvez: mas o que terá feito com que, em pouco mais de uma semana, a vantagem de Isaltino se dilatasse em relação à sondagem feita pela Católica nos dias 24 e 25? Certo, certo é que, em rigor, a diferença entre 34 e 37% ou a diferença entre 33 e 26,5% se podem sempre dever a erro amostral. Aqui não tenho teorias nenhumas. Paciência.

4. Porto: em 2001, o Porto foi a némesis dos institutos de sondagens. Ninguém colocou Rui Rio à frente das intenções de voto. Desta vez, isso não vai acontecer, porque alguém se aproximará dos resultados. Mas quem? Há de tudo para quase todos os gostos: vitórias arrasadoras para Rui Rio (Marktest), vitórias modestas (Católica), empates com tendência Rio (Eurosondagem) e empates com tendência Assis (Intercampus). Precisamos só de uma sondagem que dê Assis a ganhar com 20 pontos de avanço para o menu ficar completo. À partida, diria que as diferenças parecem ser explicadas por dois factores (sem contar com o puro acaso):

- Mantendo constante o tempo, simulações de voto dão, tal como em Faro ou Sintra, piores resultados a quem está no poder. Por outras palavras, a coligação tem piores resultados na Católica do que na Marktest (dias 1 e 2), e piores resultados na Intercampus do que na Eurosondagem (dia 5).

- Mantendo constante o método de inquirição, quanto mais perto das eleições foi conduzido o trabalho de campo menor a vantagem de Rui Rio. O score da coligação é pior na Eurosondagem (dia 5) do que na Marktest (dia 1), e é também pior na Intercampus (dia 5) do que na Católica (dia 2).

5. Lisboa: lá aparece, novamente, o possível efeito do método de inquirição. Nas sondagens Católica e Marktest, quase contemporâneas, há piores resultados para o "incumbent" no caso em que se usaram simulações de voto. Nas sondagens Aximage, Intercampus e Eurosondagem, realizadas até mais tarde, a mesma coisa: telefónicas (Aximage e Eurosondagem) dão vantagem maior a Carmona.

Não quero fazer disto qualquer teoria geral, até porque a detecção de quaisquer efeitos da inquirição exigem que se utilizem outros controlos para além do tempo (dimensão da amostra, método de amostragem, etc.). Mas que parece haver aqui qualquer coisa, sistematicamente repetida em todos os concelhos (menos Oeiras), lá isso parece. Quanto ao tempo, a coisa é mais complicada, porque as sondagens de Lisboa estão a contar histórias diferentes: as que usam simulação de voto contam uma história em que Carrilho se aproxima de Carmona nos últimos dias; as que usam inquirição telefónica contam uma história em que nada muda ao longo dos últimos dias. Qual a história verdadeira? Domingo veremos.

Agora, votem bem.
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