terça-feira, maio 24, 2011

O efeito dos debates

Com a sondagem de ontem, e dependendo do que se siga hoje e nos próximos dias, a ideia de que o debate Sócrates/Passos Coelho pode ter afectado as intenções de voto vai fazer o seu caminho. Mas algumas notas sobre o assunto:

1. O CESOP fez-me chegar o relatório síntese da sondagem feita após o debate. É exactamente a mesma informação, e nada mais, do que está depositado na ERC e será disponibilizado no seu site, pelo que não tenho acesso a informação privilegiada. E os resultados são muito interessantes: a "vitória" de Passos dá-se por duas razões. Primeiro, enquanto que 74% dos simpatizantes do PS acharam que Sócrates ganhou, 88% dos simpatizantes do PSD acharam que Passos ganhou. Entre os restantes, houve empate para 21%, 34% achou que Sócrates ganhou e 34% achou que Passos ganhou. Segundo, ao contrário do que sucede na população em geral, a amostra daqueles que assistiram ao debate tem mais simpatizantes do PSD que do PS. Por outras palavras:

- houve exposição selectiva: o debate atraiu desproporcionalmente os eleitores que se identificam com o PSD;
- entre os que assistiram, as prediposições dos eleitores fiéis ao PSD foram mais reforçadas pelo debate do que as dos eleitores fiéis ao PS;
- logo, o resultado final é que, das pessoas que assistiram, há mais gente que acha que PPC ganhou do que JS ganhou.

Entre os que simpatizam com outros partidos e os que não simpatizam com partido algum, 71% disseram que o debate não contribuiu para definir a sua intenção de voto.

2. A investigação sobre a matéria nos Estados Unidos é, como de costume, imensa. Um resumo possível das conclusões é que o efeito dos debates nas intenções de voto é real, mas a sua dimensão é muito heterogénea de estudo para estudo e de eleição para eleição. Mais interessante é a possibilidade de que os debates afectem indirectamente o voto, ao mudarem os temas de relevância para as pessoas e a sua percepção da personalidade dos candidatos (mas não a percepção da sua competência). Em geral, contudo, o cânone sobre isto - e a ideia que muitos tentam refutar, mas raramente com sucesso - é que os debates reforçam preferências pré-existentes e têm um efeito líquido de conversão de eleitores bastante pequeno.

3. Tom Holbrook, o autor do excelente Do Campaigns Matter?, mostrava há uns anos que "the norm is for very little swing in candidate support following debates. Across all thirteen presidential debates the average absolute change in candidate support was 1 percentage point."

4. Em Portugal, o que se sabe? Cito Eduardo Cintra Torres num estudo empírico neste livro:"os debates servem funções de reforço e de certeza de voto, não sendo possível confirmar estatisticamente com as fontes disponíveis uma ligação a um efeito de conversão do eleitorado" (p. 102). Mas ECT avisa também que "não só cada eleição é um caso, como cada candidato deve se tratado como um caso". Daqui a dias talvez tenhamos uma visão mais clara do que se pode estar a passar em 2011.

P.S.- A culpa é toda minha, porque usei neste post o termo "ganhar o debate". Peço desculpa. Na verdade, o que a sondagem pergunta é "quem é que lhe parece que esteve melhor no debate de hoje?", tal como tinha mostrado aqui. Importa também dizer que a sondagem colocou perguntas sobre quem tem melhores propostas para diferentes áreas. Não sei se isto muda muito estas reflexões, mas era só para clarificar.
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