segunda-feira, janeiro 16, 2006

Mais comentários e dúvidas

1. De um e-mail:

Há um apontamento seu, recente, que merece um pequeno comentário meu – de leigo. É em relação à comparação entre as últimas sondagens de 1996 e o resultado de Sampaio. Também já tinha analisado o assunto, mas encontrei uma explicação diferente. O diferencial terá resultado do facto de as sondagens retratarem apenas o comportamento dos eleitores no Continente. Por regra, a esquerda (neste caso, Sampaio) “perde” 1 ponto ou 1 ponto e ½ quando se consideram os eleitores das regiões autónomas e da emigração. Se for assim, o episódio não se repetirá com Cavaco... Enfim, no dia 22, saberemos.

Parece-me correcto. Não creio que isso chegue para explicar diferenças de tão grande magnitude, mas na medida em que o universo das sondagens seja - e é-o, invariavelmente - o dos eleitores do Continente, o comportamento diferencial dos eleitores das regiões autónomas e da emigração fará sempre alguma diferença. O que significa uma coisa: ceteris paribus, Cavaco estará, provavelmente, a ser ligeiramente subestimado nas sondagens em relação aos resultados totais finais.


2. De outro e-mail:

A chamada tracking poll, ao somar os resultados dos últimos 4 dias acaba por "mascarar" subidas ou descidas abruptas num dado dia porquanto se tem sempre em conta os três dias anteriores. Certo? E como se mede esse efeito?

Subidas ou descidas abruptas num dia são de facto "amortecidas" ao se juntarem os resultados dessa sub-amostra diária aos das sub-amostras anteriores. Isso, contudo, é uma coisa boa: nada nos garante que "subidas" ou "descidas" medidas através de uma amostra de 150 inquiridos sejam "subidas" ou "descidas" reais. Quando as sucessivas sub-amostras começam a mostrar sistematicamente as mesmas tendências, então sim, é provável que estejamos a ver mudanças reais. E isso será visível quer na comparação com os dias anteriores quer comparando as duas sondagens mais próximas com bases amostrais completamente diferentes, como faço nos quadros que aqui apresento.


3. De outro e-mail:

Porque é que as percentagens de Cavaco são inversamente proporcionais ao número de inquiridos, sendo estes directamente proporcionais com as de Soares?

Até certa altura, também me pareceu que, quanto maior a dimensão da amostra, melhores os resultados para Soares (e piores os de Cavaco). Contudo, assim que introduzimos a dicotomia quotas vs. aleatória como variável de controlo, o efeito da dimensão da amostra desaparece. Por outras palavras: o facto de amostras maiores estarem a dar melhores resultados para Soares parece resultar apenas do facto de sondagens com a amostragem aleatória terem sido, até certa altura, e tendencialmente, as sondagens com maiores amostras. Mas essa relação é espúria.


4. E o último:

Os resultados alternados de Jerónimo e Louçã - quer entre sondagens, quer nas mesmas sondagens - não demonstrarão, mais do que a dúvida entre Soares e Alegre, uma confusão generalizada entre o eleitorado de esquerda? É que se assim for, o que me parece, pode estar a existir um equívoco generalizado na distribuição de indecisos, uma vez que os mesmos podem conviver nesse "drama" da escolha, optando, por ora, por se mostrarem indecisos.

Como já aqui escrevi várias vezes, eu partilho do palpite (que é mais do que um palpite, quando analisamos a composição partidária da sub-amostra "indecisos"). Mas a minha conclusão continua a ser esta.
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