sexta-feira, janeiro 20, 2006

O futuro

Uma coisa é dizer que a nossa incerteza sobre a forma como as preferências dos eleitores evoluiram até agora diminuiu. Outra ainda é dizer que estamos igualmente menos incertos sobre quais seriam elas à volta dos dias 15-18 de Janeiro. Contudo, outra muito diferente é a nossa incerteza sobre o futuro. Estas sondagens são o passado. O futuro é Domingo.

O que pode trazer o futuro? Antes de mais, convém dizer que, como é óbvio, não faço ideia. Ou melhor, faço pelo menos duas. O problema é que são contraditórias em termos do desfecho que podem gerar:

1. O primeiro cenário é aquele onde Cavaco Silva vem em perda de intenções válidas de voto não só porque os indecisos da área socialista se começam a decidir (e presumivelmente não por ele) mas também porque começa a perder votos de eleitores que antes tencionavam nele votar. Na primeira sondagem da tracking poll Marktest, divulgada dia 9, Cavaco recolhia o voto de 17% de eleitores socialistas. Na sondagem Marktest dos dias 11-14 de Janeiro, 15% dos socialistas tencionavam votar Cavaco. Na sondagem dos dias 15-18, essa percentagem é 9%. Um erosão comparável, se bem que muito menos significativa em termos absolutos, ocorre com os exóticos comunistas que, nas sondagens anteriores, tencionavam votar Cavaco. Agora, pelos vistos, não há nenhum. Cavaco necessitava destes votos - assim como daqueles que não são próximos de qualquer partido político - para a maioria absoluta. Agora, não é seguro que os tenha, seja porque se estão a desmobilizar à última hora seja porque decidiram "voltar ao redil" de um voto orientado pela identificação partidária e ideológica.

É certo que estas sondagens e o ambiente geral do comentário político vêm minimizando os riscos ligados a uma outra possibilidade que já discuti aqui, o de "abstenção por certeza de vitória", que afectaria de forma diferencial o eleitorado potencial de Cavaco Silva. Não me parece que isso continue a ser um factor de peso: certezas sobre o resultado já ninguém com dois dedos de testa consegue ter. Mas se Cavaco vem perdendo o eleitorado socialista e apartidário de que dispunha até agora - seja porque ele se assustou com a prometida vigilância às actividades do Governo, seja porque a identificação partidária e ideológica fala mais forte, seja ainda por desinteresse em torno de uma opção que, para eles, nunca terá sido particularmente entusiasmante e inequívoca - então a segunda volta está aí ao virar da esquina.

2. Há, contudo, pelo menos uma outra possibilidade. A de que, curiosamente, a abstenção diferencial afecte mais os candidatos de esquerda do que Cavaco, especialmente, diria, Alegre e Louçã. Sabemos que a abstenção declarada em sondagens é sempre inferior à abstenção real. E a verdade é que, em todas as sondagens cujos dados publicados permitem esta análise, o eleitorado de Cavaco foi-se sempre mostrando mais convicto da sua decisão de votar e da sua decisão de em quem votar. Na medida em que não haja uma desmobilização "táctica" por certeza de vitória - possibilidade que, como disse, me parece diminuída pelos eventos desta última semana - eles estão lá, seguros da sua decisão, prontos para ir votar.

E os outros, estão? É certo que há o famoso "povo de esquerda" que se foi escondendo das sondagens até agora, como Medeiros Ferreira sugeria desde o início. Tal como os últimos resultados mostram, tinha, num certo sentido, razão, como aliás lhe dei na altura:

Diria que é altamente presumível que, neste momento e para estas eleições concretas, muitos eleitores de "esquerda" não tenham ainda, pura e simplesmente, decidido o que vão fazer, em face da multiplicação de candidatos, dos sinais confusos e contraditórios emanados inicialmente pelo Partido Socialista, da insatisfação de algum eleitorado PS com a actuação do governo, etc. É possível, e provável, que muitos desses indecisos se venham a abster, mas certamente muitos deles irão também acabar por votar num dos candidatos de esquerda (não excluindo, claro, que alguns venham a votar em Cavaco Silva).

Esse "povo" apareceu finalmente, abandonando progressivamente a sua indecisão e declarando nas sondagens as suas intenções (se bem que talvez não no sentido que Medeiros Ferreira desejaria). Mas a pergunta que fica é esta: vão mesmo votar? Vão votar tanto como os agora declarados eleitores de Cavaco Silva? A abstenção, quem dela vem e quem para ela passa, é, como sempre, a chave dos resultados eleitorais, muito mais do que as transferências de voto deste para aquele partido ou candidato. Não é um acaso, portanto, que todos os candidatos apelem de forma dramática e quase desesperada à participação eleitoral. Da resposta diferencial a esses apelos depende o resultado de Domingo. A ver vamos.

A não ser que a sondagem Intercampus diga qualquer coisa de extraordinariamente surpreendente, só cá volto 2ª feira.

P.S.- Ontem na SIC, Rui Oliveira e Costa falava da especial dificuldade que estas eleições trazem para as sondagens à boca das urnas, devido ao facto de existir um candidato independente cujo peso presumível na amostra selecccionada não poder se apreciado à luz de resultados eleitorais passados. É por isso que as sondagens à boca das urnas são importantes e interessantes. Livres do problema das pré-eleitorais - a medição de intenções em vez de comportamentos - elas são o teste último aos procedimentos de amostragem adoptados por cada instituto, e são de facto a única altura em que a bondade desses procedimentos pode ser testada e melhorada em face de circunstâncias novas, como a candidatura de Alegre.
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